domingo, 22 de julho de 2018

Vidas difíceis - 2


1:
28 anos. Solteira. Tem uma filha de cinco anos. Vive com os pais. Desempregada. 12 º ano, sem reprovações.
Tem consumos tóxicos desde a adolescência. Em 2015 esteve presa por não ter cumprido o trabalho comunitário que lhe tinha sido imposto. Depois, viveu na rua durante muito tempo. Desde Novembro que está a viver com os pais.
De acordo com a mãe, tem estado isolada no sótão, pouco fala com os familiares e o seu discurso é centrado em temas místicos - bruxas, anda a ler livros de São Cipriano. Não faz refeições com a família, tem comportamentos bizarros (ex: quando defeca, limpa-se a toalhas em vez de a papel higiénico), fala sozinha e não faz a sua higiene.
Não colaborante. Aspecto muito mal cuidado. Perplexa. Responde telegraficamente. Refere sono e apetite mantidos. Impossível apurar actividade delirante. Pesquisa de drogas de abuso na urina, negativa.

2:
28 anos. Solteiro. Vive com os pais. Trabalha numa carpintaria. Tem o 12º ano. Foi já seguido por psicólogo por ansiedade relacionada com problemas familiares.
Desde há um ano que nota agravamento - maior frequência de crises de pânico: sem motivo aparente, o coração acelera, descontrola a respiração, pensa que lhe vai dar qualquer coisa! Um ataque cardíaco!... As crises duram cinco a dez minutos e ultimamente têm sido diárias. Refere que: "escuta muito o seu corpo!"
Tem de fazer uma formação¸ e não consegue, por receio de ter nova crise. 

3:
É solteira e vive com os pais. Tem um irmão a estudar em Lisboa. Tirou um curso no Politécnico. Trabalha para uma empresa, por catálogo.
É seguida em Psiquiatria por síndrome depressivo. Tem história de intoxicações medicamentosas voluntárias e teve internamento recente em Psiquiatria para resolução de conflito familiar.
Voltou a casa e, durante o fim-de-semana, envolveu-se em querelas com os pais e com o irmão. Ontem à noite, num episódio em que terá provocado a mãe, o pai perdeu o controlo e “tentou estrangulá-la”. Ao fugir, caiu de um muro. Diz ainda que o pai lhe deu um pontapé.
Depois, ligou para o 112. A GNR tomou conta da ocorrência e o INEM trouxe-a ao SU. Diz não ter condições para voltar para casa.
Está orientada e colaborante. Humor eutímico, sem evidentes sinais de ansiedade. Discurso espontâneo, fluente, pautado por interpenetração de temas e redundâncias, centrado no seu ambiente familiar, mas coerente e lógico. Sem alteração do timbre ou ritmo. Nega pensamentos de morte ou ideação suicida. Crítica preservada.
A mãe encontra-se neste SU. A doente diz não querer vê-la, mas dá-me autorização para conversar com ela. Pede-se colaboração do Serviço Social

4:
58 anos. Solteiro. Sem filhos. Vive só. Trazido pela GNR.
Refere-se que deixou de ir almoçar ao Centro de Dia e que causa desacatos na via pública: “manda bocas” na Praça, destrói as coisas que lhe dão e que trata mal as pessoas. De noite, anda de um lado para outro e os comerciantes queixam-se de insegurança.
Tem diagnóstico de esquizofrenia e dependência de álcool de longa data. Teve o último internamento em 2002. Sem acompanhamento actual em consulta externa da especialidade. O Médico de Família tem-lhe passado receitas.
Tem aspecto e vestuário pouco cuidados. Comportamento desorganizado. Verborreico, com discurso pouco perceptível. Humor irritado. Provável actividade alucinatória auditiva. Ideias delirantes de teor persecutório e místico, pouco sistematizadas. Não verbaliza ideias autolíticas. Sem qualquer insight.
Em risco para a sua integridade e a de terceiros.

5:
45 anos. Tem o 8º ano (sem retenções). Vive com companheira e um filho de 15 anos. Reformado após um AVC que lhe causou hemiparesia direita e afasia. Necessita de apoio na higiene. Alimenta-se por mão própria.
Dada a limitação na linguagem, a história é contada pela esposa, que é a principal cuidadora. Refere frequentes episódios de heteroagressividade: “anda sempre aos murros pela casa, atira copos, exalta-se, grita!" Desconfia dela. "Acha que tem amantes!". Refere consumos etílicos regulares de 1 garrafa de vinho por dia + 1 copo de aguardente, que o doente minimiza, mostrando-se defensivo na pesquisa de história tóxica.
Está colaborante e orientado. Aspecto cuidado. Postura adequada. Calmo. Claudica do membro inferior direito. Afasia. Humor eutímico, nega ideação autolesiva.
Ideias de teor celotípico em relação à esposa (sobrevalorizadas? delirantes?).

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