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domingo, 30 de abril de 2017

O amado


As paixões não têm idade. Embora gostemos de o pensar, as nossas vidas não são assim tão diferentes e aquilo que acontece a uma pessoa, acontece a muitas mais. Já o dizia a Dee Dee do Bukowski, que sabia uma ou outra coisa da vida. O Bukowski também, mas talvez menos, já que estava tão convencido da sua excepcionalidade.

A minha velhinha está apaixonada. Tem 91 anos, enviuvou há mais de 30 de um POW da Segunda Grande Guerra, e está perdidamente apaixonada. Para complicar a situação, está apaixonada por um holandês de 66 anos. Sim! Outro cliché! Não só as paixões atacam a qualquer idade, como a partir de determinada altura, os anos de vida já não contam para nada. Somos todos adultos, é ou não é?

Todos os dias, por volta das 8 da manhã, vou até ao quarto da Mrs. R. e abro as cortinas às flores, pesadas e rotas pelo sol e pelo pó. Ela abre os olhos remelosos pela querato-conjuntivite seca e pergunta-me se já tem de se levantar. É que não lhe apetece nada. Está tão bem ali. Pergunto-lhe se não quer tomar o pequeno-almoço e ela, com um ar entre o preguiçoso e o covarde (como na música do Chico), diz que tem muito sono de manhã e pede mais 10 minutos, com o rádio ligado na estação da música clássica. Todos os dias ela faz tudo sempre igual e não se sacode da cama de forma nenhuma. Lá lhe dou os 10 minutos, que na verdade são vários 10 minutos (cerca de 4) e ela lá se dispõe ao pequeno-almoço. E sussurra 'Está-se tão bem aqui!... Será que eu podia, hoje, tomar o pequeno-almoço na cama?'. Há dois anos que Mrs. R. toma o pequeno-almoço na cama, todos os dias, depois de ter tropeçado escadas abaixo - exactamente quando ia preparar o pequeno-almoço - e, na queda, partir o pescoço. Como conseguiu chegar ao telefone, de pescoço partido e do alto dos seus já 89 anos, para chamar a ambulância, é mistério que eu não sei explicar. Caríssimos, eu só falo do que sei e só estou aqui há 1 semana. Isto contaram-me! E quem sou eu para duvidar!

Depois do pequeno-almoço, partilhado com a pequena Lulu Bell, a caniche preta (Oh! angel child!, suspira a Mrs. R.), e de mais uns valentes 10-40 minutos de ronha, são horas de sair da cama. O sonho de Mrs. R. é não ter de sair da cama. Nunca. No outro dia, depois de 3 espirros, perguntou-me se se desse o caso de estar com uma constipação, podia ficar na cama o dia inteiro. Não! Não é opção! As manhãs, ou o que sobra delas, são passadas na drawing room (sala onde nunca vi um lápis de cor, um caderno de desenho ou um pincel), mas onde nos sentamos à frente da lareira e da televisão o resto do dia, entre o "Downtown Abbey" e os numerosos assassinatos que acontecem todos os dias na Inglaterra e respectivos super-detectives - minha nossa, tanta gente morre, todos os dias, nestas terras!!! Felizmente há o Frost, o Morse, o Sherlock, a Vera, o Poirot, a Miss Marple e mais uns tantos inspectores, policias e até a jardineiras do Rosemary and Thyme para prender essa escumalha!. Entre isso, rainhas, Reis e príncipes encantados, há uma presença obrigatória, e é logo o primeiro a abrir a sessão - André Rieu, o amado!
 Mal a encaminho para o sofá, Mrs. R. pergunta - Será que podemos ver o André Rieu? E lá abrimos o youtube e ficamos com as valsas do Mr. Rieu até à hora de almoço, às vezes a tarde toda, às vezes até à hora de ir dormir. André Rieu em Viena, André Rieu em Maastrich, André Rieu no cruzeiro do amor, na Escócia, na Ópera de Sydney. "Isn´t he wonderful, Helêna? don´t you think he´s wonderful?"

André Rieu, para os meus leitores ignorantes, é a super-estrela da música clássica. É a Beyonce do violino, o Bieber da Valsa, o Jagger das Orquestras! É uma estrela! Há-de ser o primeiro a tocar uma valsa na Lua, promete a cada entrevista a partir do seu Chateau em Maastritch, que em tempos pertenceu ao Charles de Batz-Castelmore D´Artagnan, aquele em que o Dumas se inspirou para os famosos mosqueteiros. E oh! She loves him! São horas a sorrir para a televisão, a sonhar com uma valsa nos braços do senhor. "Isn´t he beautiful? Gorgeous!" diz ela.

A minha avó, em tempos, também se apaixonou por uma estrela. Estávamos em 1945 e ela andava de beicinho pelo Francisco José. Reza a história que tinha posters e t-shirts assinadas e que ía a todos os concertos, mas nisto eu acredito pouco - a minha família é muito mentirosa e tem como lema porquê estragar uma boa história com a verdade... foi assim que me contaram e eu juro que prometo que até nem acrescentei um ponto ou outro... Diz que o meu avô, na altura jovem marido ciumento, teve de intervir, e, com uma sacudidela valente, arrancou "o chora" (assim lhe chamava e chama o meu avô, quando esta história vem à baila) lá de casa!

Ora, Mrs. R. já não tem o seu marido para se enciumar e quem me conhece sabe que, sendo membro número um e co-fundadora do Sindicato das Cartas, mesmo estando demissionária há algum tempo (não tendo ninguém se apresentado para o posto), não poderia deixar esta história de amor passar em branco. Vai daí, disse "Oh Mrs. R.! Olhe lá! Isto de ficarmos aqui a babar para o moço, não tem jeito nenhum! Acho que bem, bem, era mandar-lhe uma carta de amor!" Oh a cara dela! "Can we?" Claro que podemos Mrs. R.! Não só podemos, como temos! É proibido, pelos estatutos do Sindicato das Cartas, não enviar as cartas de amor! "E nós sabemos a morada dele?" Saber, não sabemos, Mrs. R.! Mas perguntamos ao google! E vai daí, sai carta de amor para a Holanda.

Reza a história que a Mrs. R. nem sempre foi um amor de mulher. Senhora e dona de uma Manor magnífica e dos 54 hectares em volta, sempre foi de arregaçar as mangas e conduzir o tractor terreno afora e ser ela a primeira a pegar na moto-serra para cortar as árvores abanadas pelos temporais. A Manor, por si só, já lhe daria direitos feudais (isto para não falar dos casacos de peles e dos colares de pérolas e o fino gosto de preferir comer a sopa de lata com colher de prata e não com a de estanho que, por acidente (qual acidente, ignorância! lhe levei no tabuleiro do almoço) mas agora, ali meio abandonada, sem família ou criados por perto, sem ninguém para lhe ouvir as ordens ou clamar as jóias, já não se preocupa com coisas maiores do que a selecção diária de programas de televisão. "Às vezes, esqueço-me de quão próxima sou da família real!", diz-me, quando aparece o príncipe Carlos, de bochechas vermelho reluzente, na televisão. "Está com um ar acabado, o príncipe, não está? Eu sou prima de um barão! Ele era boa pessoa e eu gostava muito dele, mas às vezes ficava louco e a minha avó trancava-o no quarto ao lado do nosso quarto de crianças. Mas ele era realeza e era meu primo!." Agora, raramente se lembra disso e ainda bem, porque às páginas tantas, a minha vida era muito mais complicada e não podíamos mandar cartas de amor ao Rieu, mesmo ele vivendo num castelo na Holanda.

História de  H. G.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

A espera


Tem 99 anos e está à espera do fim. Não tem doença “de maior”, mas todas as limitações do mundo. É cega, mal se aguenta nas pernas, ouve mal e, recentemente, o Clínico Geral que a segue há vários anos, diagnosticou-lhe “demência”, coisa que eu duvido. Ou melhor, às vezes sim, outras, não! A verdade é que a fúria facilmente se confunde com loucura e a raiva que ela tem, por não ser capaz de dar dois passos, seguir uma conversa ou de apreciar uma belo prato de comida (o paladar também já se foi), tolda-lhe o pensamento. Está zangada com o mundo e, como tal, grita. Se pudesse, batia no mundo. No mundo todo! De preferência com um pau.

Foi uma grande mulher, daquelas de mangas arregaçadas e para a frente é que é o caminho. Casou cedo e, dois dias antes do nascimento da sua primeira filha, já era viúva. O telegrama de guerra, sobre a morte do seu marido, chegou quando ainda estava deitada na cama do hospital a amamentar pela primeira vez. Casou, anos mais tarde, com o pediatra da filha e nunca mais falou do homem que perdeu na guerra. O novo não gostava e ... para a frente é que era o caminho. Teve mais três filhos de quem foi mãe implacável. Fez de raiz as roupas das crianças, cozinhou para seis, todos os almoços e jantares e bolo para o lanche, trabalhou com assistente do novo marido, fez voluntariado, correu o mundo de auto-caravana e a Europa, à boleia, com a filha mais velha. Não deve ter parado um segundo. Fortíssima, esta mulher!

Quando a conheci, mais ou menos, há um ano, já estava bastante fraca. Acabava de regressar de três meses no Canadá, onde tem dois dos filhos emigrados. Teve um enfarte no dia anterior à viagem de volta e contou-me, a rir-se da confusão que criou, como teve de ser evacuada de helicóptero da ilha de Galliano. Comia com prazer e queria saber tudo sobre tudo. Passávamos os dias, já lentos, é claro, a ouvir a radio BBC-4 e a discutir os direitos das mulheres ou o sentido da vida, a guerra na Síria ou os atletas russos banidos por doping dos jogos olímpicos. Também vimos os jogos olímpicos - ela sentada na sua poltrona com o olho azul pregado no tecto e eu, ao lado, a fazer o relato das acrobacias dos ginastas da team GB. Ela ria e batia palmas.

Agora grita, quando a pontada lhe atinge as costas, 'Turn it off!!!! Turn it off!!! Please! Turn it off!!!' e eu fico sem saber se ela está a falar da dor ou da vida. Quando a pontada lhe atinge as costas (está amansada pelos analgésicos), suspira profunda e sonoramente, como se fosse um pirata 'Aarrrggg!!!!' e depois diz baixinho ' I can't take this anymore!', eu sei que ela está a falar com Deus. Ela que sempre foi ateia, … a falar com Deus!
Os dias, agora, são passados em silêncio, que é a forma mais correcta de se estar numa sala de espera. De vez em quando, há uma impaciência e um grito, um atirar a mesa para o fundo da cozinha. Qualquer interrupção do silêncio, por mais de dois minutos, leva com um 'Aarrrggg!' e … ficamos assim.
Os netos, antes, telefonavam amiúde e ela perguntava sem pudor 'Como vai a vida amorosa?' e, depois do telefonema, perguntava-me o mesmo a mim. E ria-se. Ou franzia a testa, quando era caso disso. Ou resmungava comigo, que assim não ia lá. Agora, os netos já raramente telefonam e ela também já não tem conversa para eles. O telefone incomoda e quase não se percebe o que dizem do outro lado pelo que ela opta por perguntar apenas 'como vão as coisas contigo' sem se importar com a resposta e despede-se 'All good for the next adventures!', que é uma coisa que vai bem com tudo.
De vez em quando pergunta-me 'And what's next?' e a seguir, que vamos fazer? e eu nem sei como responder. A resposta correcta seria esperamos um pouco mais. Depois, almoçamos. E depois, … esperamos. Às cinco, tomamos o chá que já não te sabe a nada. Darás uma golada e dirás 'Obrigada! Não sabe a nada! Não quero mais!' e será mais um pacote de Twinings pela banca abaixo. Depois, … esperamos. À noite recusarás o jantar depois da segunda garfada. 'Muito obrigada! Estava delicioso! Não quero mais!' ou, se estiveres de mau humor, como é frequente no final do dia, dirás 'it's discusting' e empurrarás o prato para longe. Depois, iremos para cima outra vez num ballet difícil, com berros e tropeções, mão esquerda, mão direita, elevador a apitar escadas acima enquanto gritas 'quero sair' e finalmente havemos de ir para a cama e amanhã repetimos tudo outra vez e … esperamos. Mas não posso responder assim, embora ambas saibamos que é verdade. Digo que a filha deve estar a telefonar, ou desconverso perguntando se não quer usar o quarto de banho ou dizendo que hoje falei com a minha mãe e que ela lhe mandou um abraço. Desconverso um pouco até ela se esquecer da pergunta e me mandar um 'Aarrrrggg!', que significa apenas 'Cala-te! Fico melhor no silêncio!' e voltamos a esperar.

A morte é chata. Nunca mais chega, e a minha amiga, incapaz de se deslocar até à linha de comboio que vemos passar da janela, já não aguenta mais a espera.
Tem uma família maravilhosa. Na mesma aldeia, vive um dos filhos que, religiosamente, a visita pelo menos duas horas por dia. A mais velha, no Canadá, liga todos os dias às sete e veio de propósito, a semana passada, à Inglaterra, para visitá-la durante uma semana. A outra filha liga-lhe três vezes por semana e os telefonemas nunca duram menos de vinte minutos. O mais novo, liga ao domingo no final da tarde. Os vizinhos, malta de quarenta anos, trazem bolo para o chá de domingo. Mas ela já não consegue ouvir ninguém. É muita confusão. O cérebro mete-se no meio e grita 'Aarrrggg!'.
'Turn it off! Turn it off! Please turn it off! You should know how to turn it off! If not call your boss, he certainly knows! Turn it off, please! I can't take this anymore!'.
A vida não é isto. A vida nunca foi isto! A vida é ainda, para ela, uma casa cheia de filhos a brincar no jardim e é injusto que lhe tenham roubado isso. Isso sim, era a vida! Todos a correr à volta dela. Ela a estender a roupa no fundo do jardim e o telefone a tocar - havia um telefone no fundo da casa, para ela poder atender as chamadas do consultório do marido, mesmo quando estava a estender a roupa no fundo do jardim e a correr atrás dos filhos - preciso disto, tenho fome, é uma urgência. Fazer o bolo, alimentar as galinhas, apanhar a fruta das árvores, esquecer o primeiro marido que ela adorava mas de quem nunca mais pôde falar, remendar os joelhos das calças dos miúdos, tratar do marido, que era médico acima de qualquer outra coisa, e ela entendia. Isso era vida. Não isto. Correr, fazer, coser, assar, ouvir, correr, atender o telefone, ajudar nos deveres, correr, estender a roupa, rir, ir ao Canadá, ajudar a construir a casa de férias da filha mais velha, com as próprias mãos, até ser levada para o hospital de helicóptero. Ser importante, ser essencial, ser o centro. Isso era vida! Não isto! Isto, é que não!

Hoje, enquanto a guiava para a cama, agarrou-me as mãos com força - ainda tem muita força, foram muitos anos a ter muita força - cravando as unhas nos meus dedos, como faz quando quer bater no mundo com um pau, mas sabe que não pode. Disse-lhe 'Jean, larga as minhas mãos' e ela apertou ainda com mais força, com o olho azul, muito cego, a olhar para mim cheio de raiva. E eu disse ' Jean! Tenho de coçar o nariz! Se não largas as minhas mãos, vou coçar o nariz na tua cabeça!' e cocei o nariz no ombro dela, com força e ela desmanchou-se a rir e largou as mãos, mais relaxada, feliz por um segundo. Depois, deitou-se e gemeu 'Porquê a mim? Explica-me! Porque é que me roubaram tudo? Os olhos, as pernas, o marido que eu amava quando tinha 22 anos, os filhos, o jardim? O que é que eu fiz para merecer isto? Porquê eu? EXPLICA-ME! Se é assim, prefiro morrer!'


Texto de H.G.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Corruptelas

Corruptela é a deformação de palavras, originada pela má compreensão/audição ou rápida visualização.

A compreensão depende da literacia do ouvinte. Quem nunca ouviu a palavra taquicardia, tende a ouvir ataque cardíaco e se a palavra obriga a voltas com a língua, em vez de apologista, talvez lhe seja mais fácil "apugilista".
Na terra da minha sogra, não havia rododendros. Lá só se davam "redondelos".
E eu, só bem entrado na vida, é que deixei de dizer "catrapácio!!

É no que dá a ciência de ouvido!

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Piloto



O Piloto apareceu na minha pensão em Aveiro. Entrou a cavalo e passeou-se pelos corredores com a cabeça baixa, para não ser reconhecido, como se um tipo com ar de caubói (até lenço no pescoço trazia) pudesse passar despercebido. Chegou ao fim do corredor (eu estava no piso de cima, consegui ver tudo com clareza), olhou cabisbaixo para os lados, deu meia volta, atravessou novamente o corredor vagarosamente e saiu pela porta por onde 3 minutos antes havia entrado. Não houve azáfama, toda a gente o viu e todos continuaram seu ritmo lento de se mover pelo espaço.
Enquanto me dirigo para o quarto (é capaz de ser boa ideia antes que isto dê para o torto) constato que estou a ser preconceituosa. É que eu devo ser a única portuguesa que não sabe a cara do piloto (estou fora do país e sou mais de ouvir as notícias) e em Portugal os 'most wanted' não aparecem nos pacotes de leite. Estou claramente a fazer a generalização piloto, caubói, Malboro man, é tudo a mesma coisa - nunca fiar!
Quando chego ao quarto, reparo que infelizmente este não tem paredes, mas antes umas grades baixas, estilo coreto, e que tem até a forma arredondada. Reparo também que, como é costume, é um quarto partilhado e assim, a grosso modo, estamos lá cerca de 15 e um cão. Surpreendentemente, não há camas. As única peças de mobiliário são uns bancos espalhados, aleatoriamente, pelo espaço vazio. Desvio com jeitinho o cão, e sento-me ao lado do velho que deve ser seu dono. Olho à volta. Está tudo como eu, à espera que aconteça alguma coisa, à excepção do cão que, depois do meu empurrão, já encontrou novo espaço e está novamente enrolado a dormir. É então que vemos o caubói subir as escadas. Desta vez sem cavalo, mas exactamente ao mesmo ritmo pesaroso. Esta coisa de não haver paredes dá para os dois lados - se por um é óptimo, porque o vemos mal ele chega ao primeiro piso, por outro ele também está de olho em nós mal põe o pé no último degrau das escadas. Obviamente, ou não fosse eu uma tipa cheia de sorte, ele dirige-se para o meu quarto. As pessoas começam encostar-se umas às outras. Uma mãe abraça uma criança pequena. Eu encosto-me um pouco mais ao cão que apenas levanta a orelha e a pálpebra direitas e me olha de soslaio como quem diz não sei o que se está a passar, mas já estás a abusar. Olho para o velho - olha para os sapatos rotos sem vontade nenhuma de daí tirar os olhos. Tento elaborar, sem levantar sobrolho, um discreto plano de fuga, mas este é sempre mais difícil em áreas pi ao quadrado, sem esquinas obscuras ou cantos refundidos, e, ainda antes ainda de me imaginar a fazer uma pirueta e um mortal à retaguarda por cima das grades do quarto, ouço uma voz metálica a chamar baixinho, com sotaque estranho 'Helêna'. Pára-se-me o coração. Já fui! É sempre a mesma coisa! Olho para o caubói e reparo que também ele está com um ar perdido, à procura da origem da voz. Não me mexo, pode ser que ninguém saiba que me chamo Helena ou que haja outra 'Helêna' na sala. Entretanto, o 'Helêna' ouve-se outra vez, mais forte, e, desta vez, toda a gente olha para mim.
Fecho os olhos com força e torno-me religiosa por uns segundos a pedir a dEUS que não me mate já. Abro os olhos e, felizmente, acordo.
A senhora R chama outra vez o meu nome pelo intercomunicador. Salto da cama e corro para a lhe dar o braço. São 6 da manhã na Inglaterra. Tudo certo. dEUS existe e safou-me desta.



Texto de Helena Ferreira Gomes (
my daughter)

domingo, 5 de junho de 2016

Nota de Alta


A escrita foi inventada para comunicar, pelo que, quando escrevemos, devemos ter sempre presente o provável leitor, preocupando-nos para que ele chegue ao fim do nosso texto.

Uma Nota de Alta, após um internamento em Medicina Interna, deve ser um marco na vida de um doente.
Ela deve conter os dados relevantes, devidamente organizados, de modo a que se possam planear as atitudes futuras sobre as doenças identificadas.
Para que ela seja eficaz é necessário que a escrita seja clara e interessante, reunindo as informações essenciais com um sentido. Para isso é fundamental rejeitar o irrelevante, com coragem e mais trabalho.
Oferecer uma massa de factos não digeridos é preguiça.

Pascal terminou uma carta de quatro páginas, a um amigo, dizendo: ‘Desculpe tê-lo cansado com uma carta tão longa, mas não tive tempo para a escrever mais curta!“

Só se aprende a escrever, escrevendo.
As frases curtas são preferíveis às longas e quanto às palavras, quanto menos sílabas, melhor!

O melhor é escolher as partes da verdade que melhor produzem o efeito do todo. A selecção pode ser difícil porque há sempre mais material do que aquele que se pode usar. O trabalho consiste em encontrar uma linha narrativa, sem se afastar dos factos essenciais e sem deixar de fora factos relevantes, não esquecendo que "muita informação é mais chatice do que precisão!”.

O produto final é resultado daquilo que se escolheu e daquilo que se preferiu deixar de lado.

Colocar tudo, simplesmente, é fácil e seguro, mas resulta num texto onde o autor deixa ao leitor todo o trabalho.

domingo, 22 de maio de 2016

Carta aberta à zangada!


Olá!
Desculpa ter-te posto braba! Até parecia que tinhas xupado limões! C'um caraças! Também não era para tanto, que o assunto nem de perto te tocaba! Até me pareceu que estibesteis a combinar ficar trombudas para me arreliar, que bós sabeis que, quando tropeço em coisas de bradar aos céus, não me contenho, mesmo que a coisa pareça tão simples como um "há" sem "h" ou um "à" com ele, pois sou daqueles que pensa que o Primeiro Ciclo serve para alguma coisa.
Desculpa lá, mulher!, que eu até gosto de ir à feira ouvir pregões assassinos e ler nos comentadores das notícias ou do Facebook coisas como "populção nuclear", "mendigão", passe-á-lo" ou "ezitem", mas sinto vergonha quando alguém do meu local de trabalho usa linguagem do mundo esotérico nacional.
Para isso vou a Montalegre nas sextas 13, ou directamente a Vilar de Perdizes, cumprimentar o padre Fontes. Ao menos fomento o turismo da região.
Mas adiante, que neste contexto, os meus comentários valem o que valem, que a minha dama não é a língua portuguesa. Só lamento ter de dançar com quem lhe pisa os calos e eu a achar de fracos pés. 
Mas entende que eu a tenho em consideração e que, quando vejo alguém a agredi-la, à má-fila, me sobe a azia aos bofes e nem com ventilões me passa a falta de ar. Nesse aspecto sou como tu, quando tens que deitar tudocáp'rafora. Tenho que ir a ele! E se é p'ra desgraça!? É p'rá desgraça!
T'ás a ver? Mesmo sendo eu Balança e tu Caranguejo, neste particular, semos Gémeos. Ou não semos?

Fica bem! Um abraço!

domingo, 15 de novembro de 2015

"Professor Doutor"



Profissionalmente, estava longe de ser brilhante. O doutoramento culminou uma amizade com uma doença, como se ela fosse um refúgio para as dificuldades do primeiro projecto em que se metera.
Nada contra, mas o título de "Professor" para um doutoramento, que mais não é que uma "competência", para quem não se dedica primeiramente ao ensino, é, na falta de melhor entendimento, uma incorrecção linguística.

Para que se  desfaçam dúvidas, informa-se:
Em Portugal, doutor significa que se doutorou. Os apenas licenciados, como os licenciados em Medicina, em Farmácia, Filosofia, etc., são também doutores. A diferença está no seguinte; para os doutorados, doutor é um grau académico; para os licenciados doutor é um título. 
Na linguagem escrita, há quem distinga o doutorado, escrevendo doutor (com todas as letras); e para o licenciado, dr. (em abreviatura).
Quando o doutorado é professor universitário, costuma-se, às vezes, distingui-lo com o tratamento de professor doutor.

domingo, 8 de março de 2015

Dia Internacional da Mulher


Se eu não tivesse um Y, até era capaz de escrever isto. Como tenho, mandei o meu X e metade dos meus outros genes fazê-lo.

Quem me conhece sabe que sou feminista acérrima e que, como tal, vivo em luta por um mundo de igualdade, sofrendo todos os dias os lugares comuns onde nos põem (a todas nós mulheres) neste país. 
Mas este ano, porque ainda 2014 estava a começar quando me apercebi que 2015 ia ser brutal, decidi dedicar este dia à grande maravilha que é ser mulher, em vez de me queixar dos números da violência domésticas (40 mulheres morreram o ano passado às mãos dos seus "companheiros"), ou das tarefas caseiras e domésticas (chão, fraldas, quartos de banho e máquinas de lavar roupa e os pobres dos moços, namorados e maridos que até ajudam). 
Hoje decidi não pensar nas desigualdades salariais nem nos minúsculos números de mulheres em cargos de chefia. Hoje e só hoje, amanhã arregaçarei as mangas e voltarei à luta, decidi não pensar na minha empregada que trabalha todos os dias e a quem marido, no final da semana, lhe dá 20€ (que ela ganhou) e lhe diz para trazer recibo. Hoje, e só porque estamos em 2015 e eu acho que 2015 é um ano maravilhoso, decidi que a minha perspectiva ia ser diferente.
Se me dessem a escolher, a mim ou a cerca de 99% das mulheres deste mundo (este dado estatístico foi agora mesmo inventado por mim) preferia continuar a ser mulher. Todos os dias. E perguntam vocês, como é possível uma feminista dizer tal coisa? É como um pobre esfomeado dizer que preferia ser pobre a ser rico. Pois uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa e este erro na leitura da palavra feminista, é uma coisa que põe os cabelos em pé. Passo a esclarecer - uma feminista não quer ser homem, quer ser mulher, e nem sequer quer ter os direitos dos homens, quer todos os direitos humanos.
Mas voltando ao elogio de ser mulher - somos, em geral, muito mais giras que os homens, o que é uma coisa que logo pela manhã nos dá uma energia do caraças quando saímos da cama e nos arrastamos para o quarto de banho para lavar as remelas.
- podemos vestir calças e saias e vestidos e calções e saias-casaco, botas de cano, sapatilhas ou sapatos de tacão agulha, meias de renda cor de rosa ou cardadas dentro de botas de montanha.
- podemos usar roxo, amarelo, verde preto ou cor de laranja sem que ninguém questione a nossa sexualidade
- temos melhores amigos e melhores amigas a quem podemos contar tudo, até coisas realmente ridículas, mas que sabe bem não guardar dentro de nós próprias
- podemos pintar o cabelo e os olhos ou não pintar coisa nenhuma, podemos dar cor às nossas unhas, usar laços fitas ganchos, colares anéis ou tiaras, podemos viver o Carnaval todos os dias, mascarar-nos de coisas tolas ou de divas de cinema
- não temos de esconder que somos fortes quando o somos mas acima de tudo, podemos mostrar que somos fracas, que choramos a ver filmes, que nos apaixonamos por personagens dos livros e que sofremos quando o amor não é para sempre
- podemos dar saltinhos e jogar ao braço de ferro e fazer ginástica artística ou judo, podemos dançar na rua ou fazer discursos políticos
Eu gostava que a palavra machista fosse tão bonita como a palavra feminista. Gostava que ela tivesse dentro dela o sonho de que os homens pudessem ser tudo, gostava que dentro dela coubessem homens com saias e fitas no cabelo, homens a dançar na rua, homens de fato e gravata que gostam de receber flores, homens fato de treino a chorar nos cinemas, homens de barba e bigode cor de rosa, homens com brilhantina e chinelos, homens de todas as cores, com personalidades únicas, gostos únicos, não encafuados dentro daquilo que são suposto ser. Gostava que os homens também acordassem para a maravilha que é ser homem (digo que também não há-de ser mau) e exigissem para si próprios todos os direitos humanos. Gostava de viver num mundo em que feministas e machistas marchassem juntos, fossem parceiros nas descobertas e que todos juntos sacudissem do capote imagens cinzentas de formas de estar pouco igualitárias, pouco justas, pouco ecológicas até. Gostava que género deixasse de ser assunto e que a palavra mulher deixasse de ser cor de rosa e homem castanho, e deixasse de fazer sentido andarmos a criar diferenças onde elas não existem.



Texto roubado

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Carta a um ex-amor



Carla, ou Crisálida, como queiras:
Sinto na tua carta, o fel que me fez fugir, uma mágoa pelo tanto que te quis, nesses três anos em que pensei que o amor tudo podia e que o tempo estava todo ao nosso lado.
Seduziste-me, fingindo-te perdida num requebro de menina, quando o acaso nos cruzou. Vi-te, adolescente, à espera de uma revelação e, vaidoso, julguei-me eleito para tão delicada tarefa. Dei-te o que tinha de melhor - atenções, amor, livros, espaços, eventos, para acalmar o torvelinho que julgava ser a tua graça e lhe dar o sentido do meu sentir, mas só tarde te vi narcísica e egocêntrica, incapaz de ouvir o bater de um coração.
Dizes que te encandeaste no meu cabelo e na barba por fazer, mas não falas do calor das minhas mãos, nos silêncios que te dei, nem nas frases para ti inventadas, que eram pontes, barcos e naves por onde podíamos ter voado eternamente. O mais que conseguiste foi sentires-te segura da desimportância do meu gostar, até me levares às margens da exaustão.
Aquelas luzes fátuas que viste no caminho, quando te apercebeste da minha decisão a aguardar gesto, não eram alucinações, eram fragmentos da tristeza que eu deixava no meu rasto. E tu não as apanhaste para lhes dar remédio. Deixaste-as apagar sem um sopro que as atiçasse.
À perplexidade do teu fim, segue-se agora a notícia de que me pediste perdão do muito que te ajudei a teres a graça do céu por entre nós. A morte pode ser um alívio e talvez aí consigas a paz que a tua passagem por aqui negou. Encheste os olhos de quem te viu, mas deixaste feridas impossíveis de sarar.
Por favor, não me guardes lugar na tua nuvem
Adeus!
Até Nunca!


Fernando

sábado, 26 de julho de 2014

Laborinho Lúcio


Caro Laborinho:
Como já deves saber, eu, de vez em quando escrevo cartas a quem me deixa perplexo e, tu ontem, fizeste-lo. Corri para chegar a horas à Biblioteca Municipal para te ouvir. Mais a pessoa que o escritor, pois custava-me a entender que alguém com o teu percurso de vida, viesse a esta terriola, falar para uma pequena plateia do seu 1º romance, e deixaste-me espantado com o teu discurso simples e despretensioso, pois eu não esperava essa postura de um ex-ministro da Justiça, dono de um currículo invejável.
A simplicidade com que te disseste “pretendente a escritor” e o modo como foste explicando o livro e os seus porquês, foi um vento bom neste bafio onde o “faz-de-conta” nos confunde.
Tinha o livro a meio, pensando-o como contos das tuas memórias, sem a ideia de “romance” que pretendes, mas contos ou romance o que lá está é um modo de olhar que abre o espírito e estimula novas leituras.
Não sei o que o tempo fará de ti como "escritor", mas foi relevante ouvir-te.
Obrigado!

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Escritório


Escritório de Pousar - Cochim, último quartel do século XVI. Ébano, teca, marfim e ferro.

Escritório: (do latim scriptorium)
1: Móvel fechado, com divisões no seu interior para guardar papéis e, às vezes, com um tabuleiro sobre o qual se escreve.
2: Móvel de madeira, frequentemente com embutidos de marfim, madrepérola ou outros adornos, e com gavetas pequenas para guardar jóias.
3: Sala ou salas em que exercem actividades profissionais homens de negócios, empregados de uma empresa ou de um departamento administrativo.

domingo, 15 de setembro de 2013

Vende-SE


terreno para construção para 4 vivendas germinadas com três fretes cada a 2 minutos da cidade
Metros quadrados: 2000 ; Preço: € 250.000,00 - Negociável
Tipo: Vende-se

Concelho: Viana do Castelo
Freguesia: Meadela

Gosto destes anúncios sem pontos nem vírgulas.
Primeiro porque o preço é “negociável” (que pode ser objecto de permutação ou de transacção comercial), depois porque dá direito a "fretes" a 2 minutos da cidade e à possibilidade de uma "germinação". Isto é: se criarmos condições ambientais favoráveis, podemos fazer "germinar" e em vez de 4 vivendas, obter um prédio de 10 andares - esquerdo/direito. Além disso o terreno é do tipo “Vende-se” e eu gosto de tudo o que seja do tipo “tipo”.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Siglas

Em serviços oficiais, o uso de siglas tem regras, e não se pode permitir que cada um use as que quer.

As siglas são indiscutivelmente úteis no léxico médico, mas sem uma lista aprovada, ninguém se entende.
Morrer de TP para uns pode ser na consequência de uma "Tuberculose Pulmonar" e para outros uma morte causada por um “Tiro de Pistola”, e BCG (Bacillus Calmette-Guérin) já foi interpretado por um aluno de Medicina, aqui do norte, como a “Bacina Contra a Gripe”.

Nos últimos anos, tenho assistido “à malta nova”, cheia de energias positivas, atirar-se aos textos com uma  "criatividade" sem nexo, perante a passividade e a falta de rigor dos mais velhos.
Surgiram então nos diários e outros registos, os “coc” – consciente, orientado e colaborante, os “2 id” ou “3 id” em vez de “b.i.d.” ou “t.i.d.”, vindos do latim "bis in die" e "ter in die", para significar duas e três vezes por dia, e a incapacidade/recusa em adoptar qd - "quaque die" – uma vez por dia, e o q_h - "quaque_hora” indicando o intervalo entre as administrações da medicação (por exemplo: 2 cápsulas q4h, para dizer 2 cápsulas de 4 em 4 horas) e outros sinais de desrespeito pelos nossos primórdios linguísticos, principalmente quando até os anglo-saxões as usam no seu léxico médico.
Mas são os tempos que correm. Aquilo a que os aventureiros chamam "A nova Era" e que tem resultado em fogachos "para inglês ver" e conseguir uma certificação de qualidade, esquecendo que tudo tem um princípio, um meio e um fim, e que se alguém se eleva, deve respeitar os ombros sobre quem se apoia.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Rapação

1 - Acção de usar o rapão, na limpeza das bimbaduras, nas salinas. 
2- RAPação é uma banda de RAP - "mais que por enquanto tamos apenas trabalhando em letras e composições !"
Rapão: Utensílio de salineiro, para cortar o lodo que se prende às armações das salinas
Bimbadura: Fragmento de lodo, aderente aos travessões das salinas.


quarta-feira, 10 de julho de 2013

Pretuguês

- Boa continuação! ... Obrigada!, disse prazenteiro, enquanto se despedia, e deixou-me a pensar no mau domínio do português.

 Há dias num Blog do burgo e no meio de um comentário (Anónimo - 1/7/2013 - 00:39h) que merecia a minha simpatia, deparo-me com estas pérolas:

Na Inglaterra já é assim. Qual é o escanda-lo???,QUE no dia de greve e de FORMA CONBARDE, trocam o dia por CH e QUE NÃO inventão horas ficticias para acrescer ás que tem acumuladas no horário".

Nem queria acreditar, pois o assumi o texto como escrito por quem tem bem mais que o 12º ano.
Depois lembrei-me dos meus "Cadernos de Significados" para as palavras difíceis, das reguadas por cada erro no ditado e do ar de desprezo do "Rapa-Côdeas", meu professor de português no 8º e 9º anos de escolaridade,  quando a ignorância da língua-mãe atingia estes foros.

Nos tempos que correm, escrever mal num computador com um corrector de texto, que nos evita erros de palmatória, embora outros do tipo  "acabava-mos" quando se quer escrever "acabávamos", os não detecte, é sinal de falta de qualidade.

É que não chegam as preocupações com a marca da roupa, do carro ou do discurso sobre o que se consome, se a toda a hora se manifestam incapacidades primárias.
Erros destes retiram valor ao texto, ao seu autor, e à sua classe profissional, pois indiciam que o grau atingido é fruto do facilitismo que se instalou nas escolas, preocupadas com a elevação dos resultados estatísticos.
No caso ... é uma pena.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Contactos

Palavras para quê? É uma foto do écran de um computador. Um registo da identificação, no meio do  nome, da morada, da data e local de nascimento, de todos os números com que nos mimoseiam do BI ao da Identificação Fiscal e que fazem de nós um cidadão de bolso inteiro.
Bem ali no meio surge este "contaqueto" para nos lembrar o pouco que investimos na língua portuguesa!

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Escrever


...
Enquanto esperava …, sentiu que podia escrever uma cena como a que se desenrolara junto à fonte, incluindo um observador escondido, como ela própria. … Conseguia ver as frases simples, os símbolos telepáticos a acumularem-se, a jorrarem pelo aparo. Conseguia escrever três vezes a cena, de três pontos de vista diferentes; a sua excitação vinha da perspectiva de liberdade, de ser poupada à penosa luta entre o bem e o mal, entre heróis e vilões. Nenhuma das três versões era má, nem particularmente boa. Não teria de julgar. Não teria de haver ensinamento moral. Apenas teria de mostrar mentes individuais, tão vivas como a sua própria mente, a debaterem-se com a ideia de que havia outras mentes igualmente vivas. Não eram apenas a maldade e as intrigas que faziam as pessoas infelizes: era a confusão e os mal-entendidos. Era, acima de tudo, a incapacidade de entender a simples verdade de que outras pessoas eram tão reais como nós próprios. E só numa história era possível penetrar em tantas mentes diferentes e mostrar como todas elas tinham o mesmo valor. Era esse o único ensinamento moral que tinha de haver numa história.
...
in "Expiação" de Ian McEwan

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Gerundismo



Não tenho qualquer pretensão linguística, mas não gosto do Gerundismo.
Não sei se ele teve origem nas traduções literais do inglês ou na influência das telenovelas brasileiras, mas a facilidade com que o adoptámos, diz muito da nossa pouca qualidade como defensores deste património, que é a língua portuguesa.


O gerúndio indica uma acção em andamento, um processo que ainda não foi finalizado. O seu emprego é tão problemático que alguns escritores fazem esforços para nunca o empregar, substituindo-o pela construção "a + infinito" – por exemplo, em vez de "estou cantando" dizemos "estou a cantar".
Nalgumas regiões do país (Alentejo) o seu uso é propositado para intensificar aquelas acções que pensamos prolongadas, e é frequente ouvir “Isso não é para comer, é para ir comendo!”, quando estão a falar de petiscos, ou em relação ao trabalho minucioso: "Isso não é para fazer, é para ir fazendo!”.

Seja como for, ler histórias clínicas de médicos portugueses, com um gerúndio em cada linha, imitando textos de brasileiros e espanhóis, não abona muito em seu favor, principalmente, quando até no Brasil já se dão orientações, para os evitar.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Jacinto Lucas Pires





Ontem fui-te ouvir.

Afirmaste-te escritor, mas não disseste o teu porquê, e ficou no ar se não foi só um ganha-pão a razão desta história sem esqueleto.
Eu entendo a escrita como um desafio para clarificar um pensamento que nos surpreendeu e que registamos, para nós e para procurar sintonias. Talvez também uma vaidade.
O motivo é uma inquietação ou uma surpresa que nos fez ver para além do óbvio e nos desafia a procurar coerências, subentendendo e afirmando com o cuidado de deixar margem para que eventuais leitores possam integrar as suas experiências.

Tens 37 anos. Falaste muito. Deste uma ideia do ambiente de uma Lisboa onde o hedonismo marca os dias, longe do cerne que se sente em quem tem a terra ou a sobrevivência por perto.
Foi isto que eu li neste teu novo livro – “O verdadeiro ator” – mas eu não sou crítico literário.

Expuseste-te, e daí o meu apreço. Foi bom ouvir-te! Não perdi o meu tempo.
Obrigado!