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domingo, 28 de julho de 2019

Atahualpa




O momento mais dramático entre europeus e nativos americanos, foi o primeiro encontro entre o imperador inca Atahualpa e o conquistador espanhol Francisco Pizarro, na cidade de Cajamarca, nas montanhas peruanas, a 16 de novembro de 1532.

Atauhalpa era o líder absoluto da maior e mais avançada sociedade do Novo Mundo, enquanto Pizarro representava o sacro-imperador romano Carlos V (Carlos I em Espanha), monarca do mais poderoso estado europeu.

À frente de um exército de cento e setenta e oito soldados espanhóis, Pizarro encontrava-se num território desconhecido e nada sabia sobre os habitantes locais. … Atahualpa estava no seu império de milhões de súbitos, com um exército de oitenta mil soldados. Mesmo assim Pizarro capturou Atahualpa poucos minutos depois de os dois líderes se terem entreolhado.
Pizarro manteve o seu prisioneiro cativo durante oito meses e exigiu o maior resgate de sempre em troca da garantia de libertação. Após o resgate – ouro suficiente para encher um compartimento de sete metros de comprimento por cinco de largura e dois e meio de altura – lhe ter sido entregue, Pizarro ignorou a promessa e executou Atahualpa.


Segundo os relatos escritos por companheiros de Pizarro, entre eles os irmãos Pedro e Hernandez, testemunhas em primeira mão:

Pizarro queria obter informações de alguns índios e por isso mandou-os torturar. Eles confessaram ter sabido que Atahualpa os esperava em Cajamarca.

No dia seguinte chegou-nos um mensageiro de Atahualpa e Pizarro indicou-lhe: “Diz ao teu senhor que venha quando e como lhe aprouver e que, venha como vier, o receberei como amigo e meu irmão. Rezo para que venha depressa, pois desejo vê-lo. Nenhum mal ou injúria lhe serão dirigidos”.
...
Pizarro escondeu as tropas à volta da praça de Cajamarca. Dividiu a cavalaria em duas partes e entregou o comando de uma ao seu irmão Hernando e da outra a Hernandez de Soto. Dividiu também a infantaria, ficando ele com uma parte e entregou a outra ao irmão Juan Pizarro. Ordenou ainda a Pedro de Candia e a dois ou três soldados de infantaria que fossem com clarins para uma pequena fortificação na praça, onde deveriam ficar com uma pequena peça de artilharia.

Ao meio-dia, Atahualpa aproximou-se com os seus soldados. A quantidade de objectos de ouro e prata que traziam era imensa. Atahualpa, vinha numa liteira magnífica, carregada aos ombros por oitenta homens, envergando riquíssimas indumentárias azuis.


Entretanto, nós esperávamos, prontos a agir, ocultos num pátio, cheios de receio.

Pizarro enviou então Frei Vicente de Valverde para falar com Atahualpa, para lhe pedir, em nome de Deus e do rei de Espanha, que se submetesse à lei de Nosso Senhor Jesus Cristo e ao serviço de Sua Majestade, o rei de Espanha. Avançando com um cruz na mão e a Bíblia na outra, passando entre os soldados índios até onde se encontrava Atahualpa, o frade dirigiu-se-lhe assim: “ Sou um sacerdote de Deus Nosso Senhor e ensino aos cristãos as coisas do Senhor, e isso mesmo te venho ensinar a ti. O que eu ensino é aquilo que Deus nos diz neste Livro. Portanto, da parte de Deus e dos cristãos, rogo-te que sejas Seu amigo, pois tal é a vontade de Deus e será para teu bem!”

Atahualpa pediu o livro, para o poder examinar, ao que o frade lho entregou fechado. Atahualpa não sabia abrir o Livro e o frade estendeu o braço para o fazer, quando Atahualpa, lhe deu uma pancada no braço, não querendo que o Livro fosse por ele aberto. Depois abriu-o ele mesmo e, sem qualquer espanto perante as letras e o papel, atirou-o a uma distância de cinco ou seis passos.

O frade voltou-se para Pizarro, gritando: “Venham! venham, cristãos! Venham contra estes cães que rejeitam as coisas de Deus. Este tirano atirou o meu livro da Lei Sagrada ao chão! Não viram o que fez? Para quê ser educado e servil com este cão sarnento? Avancem contra ele, pois eu vos absolvo!”

Então Pizarro fez sinal a Candia que começou a disparar as armas. Ao mesmo tempo fizeram-se ouvir os clarins e as tropas espanholas nas suas armaduras, tanto a cavalaria como a infantaria, saíram dos seus esconderijos a caminho da massa de índios desarmados que se apinhavam na praça, bradando o grito de guerra espanhol “Santiago!”. Tínhamos prendido guizos aos cavalos para atemorizar os índios. O troar das bocas de fogo, a estridência dos clarins e os chocalhos dos cavalos lançaram os índios numa confusão de pânico. Os espanhóis caíram sobre eles e começaram a esquartejá-los. Os índios estavam tão apavorados que se pisotearam uns aos outros, sufocando-se mutuamente. Como estavam desarmados, puderam ser atacados sem risco para qualquer cristão. A cavalaria derrubou-os com as montadas, matando-os, ferindo-os e caçando-os. A infantaria levou a um ataque tão violento sobre os que ficaram que rapidamente a maior parte foi passada a fio de espada.

Pizarro com a ajuda de sete ou oito espanhóis montados, chegou à liteira de Atahualpa e agarrou-o com toda a coragem, capturaram-no e mataram todos os índios que o escoltavam.

Depois Pizarro disse a Atahualpa: “Não vejas como um insulto o facto de teres sido derrotado e feito prisioneiro. Foi o rei de Espanha que nos mandou conquistar esta terra para que todos possam ter conhecimento de Deus e da Sua Sagrada Fé Católica; e por causa da nossa boa missão, Deus Nosso Senhor, Criador do céu e da terra e de todas as coisas que nela existem, permite que assim seja, para que tu O possas conhecer e deixes a vida selvagem e demoníaca que tens levado. Quando vires os erros com os quais tens vivido, compreenderás o bem que te fizemos ao virmos para a tua terra, por ordem de Sua Majestade, o rei de Espanha. O Nosso Senhor permitiu que o teu orgulho fosse esmagado e fez com que nenhum índio pudesse vir a ofender um cristão.”

in "Armas, Germes e Aço" de Jared Diamond

terça-feira, 18 de junho de 2019

Berta Isla


Aconselharam-mo, porque representava alguém que eu conhecia. Não é verdade!. Não conheço nenhum espião, nenhum "infiltrado" com peso às costas por muitas traições e mortes, nem nenhuma mulher que espere eternamente por um marido desaparecido.
Não o achei "verosímil", embora seja possuidor de conceitos que nos levem a pensar que o "poder" tem capacidade para alterar subrepticia e significativamente a nossa vida.

Ficaram-me duas frases:
...
Mas Mr. Southworth era naturalmente cortês, ilustre e sábio, tal como o professor Wheeler, ainda mais (seria nomeado Sir Peter Wheeler pouco mais tarde), e não estava disposto a ir contra a sua maneira de ser para contentar uma massa manipulada, educada na vitimização congénita e no complexo de inferioridade como passaporte, alibi ou motor de existência.
...
De facto, há dias em que custa tolerar-me, viver na minha companhia constante. Uma pessoa vai fazendo o que é necessário, está envolvida na tarefa e não pensa. Não tem perspectiva, não há tempo para ter, e mais vale assim enquanto se está activo. Passa-se de um dia para o outro, e todos eles estão cheios de problemas urgentes e de riscos, só há tempo para procurar soluções, e não fica espaço para mais nada. Recebem-se ordens e nem pensar em discuti-las, nem sequer analisá-las. Em certo sentido vive-se comodamente, quando estão sempre a dizer o que devemos fazer. Dá-se ouvidos aos que querem cadeias, não têm nada de ser questionados. Instruções precisas, isto, aquilo e aqueloutro. Ou imprecisas, obter resultados. Eu vivi assim muito tempo, convencido do que fazia, a limitar-me a cumprir o mais eficazmente possível. Quando se está obrigado a qualquer coisa, o melhor é converter-se à causa, tornar-se fanático dessa coisa.
...

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Kaspuscinski - “O Imperador”




Caro amigo, uma mania domina este mundo louco e imprevisível – a mania do desenvolvimento. Todos querem desenvolver-se, mas não normalmente, como Deus manda, que o homem nasça, se desenvolva e morra, mas desenvolver-se de maneira espectacular, dinâmica e grandiosa, desenvolver-se para outros verem, invejarem, comentarem abanando a cabeça. De onde vem isso? Não se sabe. As pessoas correm, que nem ovelhas atrás da ganância porque basta que alguém noutro canto do mundo se desenvolva, de seguida todos querem imitá-lo, atacam, pressionam, exigem, para se desenvolverem também, subir, convergir. E basta, amigo, que ignores essas vozes, e já tens em seguida frustrações, revoltas, negações e clamores.

In “O Imperador” de Ryszard Kaspuscinski - A história do golpe militar que depôs Haile Selassie, o Grande Senhor, Eleito por Deus, Imperador da dinastia salomónica que ocupara o trono da Etiópia ao longo de mais de quarenta anos, contada pelos "do regime".

Lê-se de um fôlego e ensina ... tanto.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Inclusão




Não desprezo os homens. Se o fizesse, não teria direito algum, nem razão alguma, para tentar governá-los. Sei que são vãos, ignorantes, ávidos, inquietos, capazes de quase tudo para triunfar, para se fazer valer, mesmo aos seus próprios olhos, ou simplesmente para evitar o sofrimento. Sei muito bem. Sou como eles, pelo menos momentaneamente, ou poderia tê-lo sido. Entre outrem e eu, as diferenças que distingo são demasiado insignificantes para que a minha atitude se afaste tanto da fria superioridade do filósofo como da arrogância de César. Os mais opacos dos homens também têm os seus clarões: este assassino toca correctamente flauta; este contramestre que dilacera o dorso dos escravos com chicotadas é talvez um bom filho; este idiota partilharia comigo o seu último bocado de pão. Há poucos a quem não possa ensinar-se convenientemente alguma coisa. O nosso grande erro é querer encontrar em cada um, as virtudes que ele não tem e desinteressarmo-nos de cultivar as que ele possui.

In “Memórias de Adriano” de Marguerite Yourcenar

domingo, 11 de novembro de 2018

A ciência do Mal



Ocorre Empatia quando suspendemos o nosso foco no “Eu” e adoptamos uma postura dupla, em que nos preocupamos simultaneamente com o pensamento do outro, para responder aos seus sentimentos com uma emoção apropriada. Se estudarmos o Grau de Empatia (Quociente de Empatia) de um grupo humano, ele distribui-se de acordo com uma curva de Gauss, onde os “não empáticos” estão no fim da assintota à esquerda e os muito empáticos, que se negligenciam para cuidar dos outros, no outro extremo. A ideia base é que todos ficamos em algum ponto desse espectro..

Quando a nossa empatia se desliga e passamos para o modo “Eu”, passamos ao modo Zero e passamos a relacionarmo-nos com as pessoas como se elas fossem meros objectos. A “Erosão Empática pode resultar de um ressentimento amargo, um desejo de vingança, um ódio cego ou de um intenso desejo de protecção. Quando alguém só está focado em perseguir os seus interesses, tem todo o potencial para se tornar “não empático”, mesmo que o seu projecto possa ter um foco positivo: por exemplo: ajudar pessoas. Em teoria a erosão empática é reversível.

Enquanto uns têm episódios em que desligam o “sistema empático”, há pessoas que estão permanentemente no ponto Zero de empatia. O Grau 0 de Empatia significa que se não tem percepção do outro, de como interagir com o outro ou de antecipar os seus sentimentos ou reacções.
Neste estado o indivíduo vive centrado em si próprio, acreditando 100% na justeza das sua ideias e crenças, e julgando quem não o segue como errado ou estúpido. O grau 0 de empatia leva a uma existência de solidão, a uma vida "incompreendida", condenada ao egoísmo. Significa não ter travões no comportamento, ficando livre para perseguir qualquer objectivo ou desejo, ou para exprimir o que lhe passa pela cabeça, sem considerar o impacto das suas acções ou palavras na outra pessoa. Em casos extremos esta falta de empatia pode levar ao homicídio ou à violação, e em casos menos extremos, a linguagem abusiva e a actos de crueldade menos graves.

Se estudarmos por Ressonância Magnética Funcional, os cérebros de indivíduos que sofrem destas situações, iremos encontrar alterações nas áreas dos seus circuitos cerebrais de empatia no córtex pré-frontal ventro-medial, no córtex médio do hipocampo e nas áreas temporais e amígdala.

Há três graus tipos de “Empatia 0” permanente: O Psicopata, o Narcisista e a Perturbação de Personalidade “Borderline” (Borderline porque, segundo Adolf Stern -1938, estaria entre a neurose e a psicose) que se atribuem ao não desenvolvimento dos circuitos neuronais de empatia provocados por intensos traumas na infância ou na adolescência.  Mas não é só o ambiente que pode levar a empatia 0. Há alterações genéticas, endócrinas e lesionais (p.ex: isquemia peri-parto) que podem afectar estes circuitos, condicionando o reconhecimento emocional do outro ou o controle executivo que nos impede de fazer o que pode levar a punições.

As características da personalidade “Borderline” são uma impulsividade auto-destrutiva, raiva e alteração súbita do humor, o pensamento a “preto e branco”, pelo que as pessoas são ou “muito boas” ou “muito más”, o que as faz atraídas pelos cultos. São também muito manipuladores – fingindo ser fracos e uns desgraçados, ou usando sedução sexual ou fingindo suicídio para chamar a atenção. Na base do não estabelecimento dos seus circuitos cerebrais da empatia, provavelmente de modo irreversível, encontra-se frequentemente a negligência dos pais, o abandono, o abuso sexual, o excesso de protecção e a indiferença

O Psicopata partilha com o “Borderline” a mesma total preocupação consigo próprio, mas este apresenta uma forte vontade de satisfazer os seus desejos a qualquer preço, que pode tomar a forma de uma reacção violenta a uma pequena contrariedade ou de uma crueldade calculada e fria - Antissocial personality disorder. A inconsistente disciplina parental, o alcoolismo dos pais, a falta de supervisão, o abuso emocional, físico ou sexual ou o abandono completo, bem como uma ligação insegura com o adulto de referência, leva-os à tendência para interpretar situações ambíguas como intenções hostis e a não “aprenderem” a ter medo das punições. Os psicopatas têm um problema estrutural nos lobos frontais, que impede o controle sobre as acções que podem levar a punições, como tão bem descreveu António Damásio no seu livro “O erro de Descartes”, lembrando o caso de Phineas Gage.

Os Narcisistas têm uma total ausência de humildade. Pensam que são muito melhores que os outros e queixam-se de tudo e de todos, mas não cometem actos cruéis. Como os outros que têm empatia 0, não reconhecem a importância das relações interpessoais e tendem a relacionar-se com os outros de acordo com a sua “utilidade” e, nesse sentido, a usá-los como objectos pessoais.


Os indivíduos com Síndrome de Asperger também têm empatia 0. Têm uma atenção extrema a alguns detalhes e uma forte sistematização que lhes permite identificar “padrões sequenciais” estáveis e predizer, por exemplo, a evolução dos preços nos mercados internacionais. Fixam-se na avaliação de um único padrão de cada vez e tudo o que lhes surge inesperadamente, como alguém entrar-lhes no quarto e abrir-lhes as cortinas, mudar-lhes uma rotina de terça para quarta-feira, é considerado tóxico. Exigem um ambiente totalmente controlado, com elementos e regras bem precisas, sem entender o mundo das emoções, mas enquanto os psicopatas têm consciência de que estão a magoar alguém, o autista clássico não tem capacidade de tal reconhecimento. Evitam os outros porque não entendem o mundo social que lhes parece não ter regras, mas não são levados a efectuar actos tidos como cruéis.

...

O facto da Ressonância Magnética Funcional dos cérebros de indivíduos que sofrem de Empatia 0, permitir identificar alterações dos seus circuitos cerebrais de "Empatia", lembra Cesare Lombroso (1835 – 1909), o médico e criminologista italiano que tentou identificar um criminoso pela definição de múltiplas anomalias físicas, como a inclinação da testa, o tamanho das orelhas, a assimetria da face, o prognatismo, a desproporção excessiva dos braços, a assimetria do crâneo, criando até a imagem do “criminoso nato”.



quarta-feira, 10 de outubro de 2018

O peru




Imagine um peru de criação. Cada vez que lhe é dada comida há um contributo para a crença, por parte do animal, de que é uma regra geral da vida ser-se alimentado todos os dias por membros amigáveis da raça humana que, como diria um político, "cuidam dos seus melhores interesses”. Mas na véspera do Natal, pela tarde, algo de inesperado lhe irá acontecer!
Como poderemos imaginar o futuro, recebendo o conhecimento do passado, ou, mais genericamente, como podemos calcular as propriedades do desconhecido baseados no que é conhecido? Que pode um peru aprender acerca do que lhe está reservado, a partir dos acontecimentos de ontem? Muito, talvez, mas certamente um pouco menos do que pensa e é justamente esse “um pouco menos” que irá fazer toda a diferença.
O peru aprendeu através da observação. A sua confiança aumentou com o crescente número de vezes em que foi alimentado por gente amigável e sentiu-se cada vez mais seguro, apesar da sua morte estar cada vez mais eminente. O sentimento de segurança atingiu o valor máximo quando o risco era mais elevado!

O problema está relacionado com a natureza do conhecimento empírico. Algo que funcionou bem no passado, inesperadamente, deixa de funcionar, e o que aprendemos revela-se, na melhor das hipóteses, irrelevante ou falso e, na pior das hipóteses, perversamente enganador.

Confundir uma observação ingénua do passado como algo definitivo ou representativo do futuro impede-nos de contar com o improvável.
Na perspectiva do peru, o facto de não ter sido alimentado por volta do dia 200 é um “choque”! Para o talhante, não!
Surpresas destas, podem ser eliminadas pela ciência (se se for capaz disso) ou mantendo a mente aberta!

In “O Cisne Negro” de Nassim Nicholas Taleb

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Motins


Provavelmente é impossível, para as pessoas que viveram e prosperaram num determinado sistema social, imaginarem-se na pele daqueles que, nunca tendo podido esperar nada desse mesmo sistema, encaram a destruição do sistema sem receio especial. 

Ando a ler - Submissão,  de Michel Houellebecq. Uma sátira política, que imagina uma situação em que um partido islâmico vence eleições em França em 2022.
O autor foi já acusado de islamofobia, mas não considera esta obra uma provocação. Na sua opinião é uma evolução muito provável.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Alguns humanos



A EMANAÇÃO

Contam os sábios tibetanos que o Inferno é dividido em 18 departamentos, dos quais oito insuportavelmente frios e dez insuportavelmente quentes. Esta história começa num dos departamentos menos quentes, onde dois condenados puxam uma carroça cheia de blocos de pedra. Um tinha sido um salteador que assaltava caravanas nas estepes de Changtang, e era forte como um touro. O outro, magro e esquálido, tinha sido monge no mosteiro de Takpu, em Naksho Driru, e foi parar ao Inferno porque se esmerava em exigir dos outros o comportamento que ele mesmo nunca conseguira ter.

Os dois infelizes esforçam-se para fazer avançar a carroça, mas a coisa vai mal. A todo instante o monge tropeça e cai, exausto, e o seu companheiro é obrigado a parar para ajudá-lo, interrompendo o trabalho. As pedras são usadas para construir novos alojamentos para os recém-chegados ao Inferno, que nos últimos tempos tem recebido cada vez mais gente. Não há moradias para todos e o Rei Sinje, o Senhor dos Mortos, ordenou que os condenados trabalhassem a dobrar para reduzir o défice habitacional. Os capatazes estalam os seus chicotes de fogo nas costas do monge, urram e gritam, mas ele mal se consegue mexer, coberto de sangue e poeira.
Atormentado com tanto ver o seu companheiro sofrer, o ladrão deixa de puxar a carroça e fica em silêncio, inerte. O capataz com cabeça de cachorro, aproxima-se e ameaça-o com um porrete cheio de pregos. O ladrão diz que só voltará a trabalhar se soltarem as correntes que prendem o seu companheiro à carroça, pois assim ele poderá puxá-la sozinho e tudo andará mais rápido. O capataz, enfurecido, grita que não recebe ordens de condenados, e esmaga o crânio do ladrão com o porrete.

Como se sabe, no Inferno tibetano a danação não é eterna. Lá, é possível morrer e renascer noutro lugar. E é exactamente o que acontece com o ladrão, cuja compaixão faz com que ele reencarne com o nome de Li Xun, numa pequena aldeia no sul da província chinesa de Quinghai.
Como ele ainda tem muitos crimes para purgar, o destino se encarrega de que ele se torne um burocrata e leve uma vida enfadonha e repetitiva.
… … …

É assim que começa o sexto conto, deste livro de contos, todos eles sublimes.

domingo, 15 de julho de 2018

A dominância dos teimosos


Há uns meses, um amigo aconselhou-me o livro “Skin in the Game”. O segundo capítulo – O mais intolerante vence: A dominância da minoria dos teimosos”, deu-me luz sobre como se propagaram (e propagam) muitas das teorias que regem o Mundo.

A principal ideia por detrás de um sistema complexo é que o conjunto se comporta de modo não previsível pelos seus componentes e que as interacções são mais importantes que a natureza das suas unidades.
Estudar individualmente o comportamento de uma formiga, nunca nos irá dar uma clara indicação do como o formigueiro funciona. É necessário olhar para uma colónia de formigas como uma colónia de formigas e não como um conjunto delas. A isto chama-se uma propriedade “emergente” do todo, na qual as partes e o todo diferem, porque o que interessa são as interacções entre as partes.

Uma das suas regras é a "Regra da Minoria": Se um certo tipo de minoria intransigente – com significativo “skin in the game” (ou, melhor, “soul in the game”) - atingir um pequena percentagem da população - 3 a 4%, pode fazer com que toda a restante se submeta às suas preferências.

Um exemplo desta complexidade atingiu o autor, quando ajudava um barbecue em Nova York.
Estavam os anfitriões a desempacotar as bebidas, quando um amigo que só consome alimentos “kosher”, se aproximou para o cumprimentar. O autor ofereceu-lhe uma limonada, na certeza de que ele a iria rejeitar. Mas, para seu espanto, ele bebeu o líquido, enquanto outra pessoa comentou: “Aqui, todas as bebidas são kosher!”. Olhou para o rótulo da garrafa e, no fundo, tinha um pequeno símbolo – um U envolto num círculo, indicando que era kosher. O símbolo só é detectado por aqueles que necessitam de o saber, e fê-lo ganhar consciência de que bebia regularmente líquidos kosher sem o saber.

A população kosher representa menos de 0.3% dos residentes nos Estados Unidos (cerca de 9% dos noviorquinos são judeus) e estava-lhe a parecer que todas as bebidas eram kosher. Porquê? Simplesmente porque se forem kosher, os produtores, os revendedores e os restaurantes, não têm de fazer distinções entre kosher e não kosher para os líquidos, com marcações especiais, áreas e inventários separados.

A regra simples que altera o total é a seguinte: Um kosher (ou halal) nunca irá comer alimentos não kosher (ou não halal), mas um não kosher não está proibido de comer alimentos kosher.

Alguém com alergia ao amendoim, não irá comer produtos que o possam conter, mas uma pessoa sem alergia poderá comê-los. O que explica o porquê de ser tão difícil de encontrar amendoins nos aviões dos Estados Unidos e porque as escolas são “peanuts-free”.

Chamemos a estas minorias um grupo intransigente e à vasta maioria um grupo flexível.

Dois pormenores. Primeiro, o modo como estão implantados no terreno, é importante. Se a minoria dos intransigentes vive em guetos, com uma economia pequena e separada, então esta regra não se aplica. Mas quando a população tem uma distribuição espacial uniforme, isto é, quando a percentagem da minoria na vizinhança é a mesma que na cidade inteira, que a da cidade a do país, então a maioria flexível ir-se-á submeter à regra da minoria. Segundo, o custo também interessa. No exemplo da nossa limonada kosher o aumento de preço não é significativo.

Os muçulmanos também têm leis do tipo “kosher”, que se aplicam à carne, regras de abate herdadas de práticas sacrificiais antigas dos cultos Grego Oriental e do Levante. Tudo o que é kosher é “halal”, para a maior parte dos Sunitas (ou era assim nos séculos passados), mas o reverso não é verdade.

No Reino Unido, onde a população muçulmana praticante é de 3 a 4%, uma grande proporção de carne que se encontra nos talhos é halal. Cerca de 70% do anho importado da Nova Zelândia é halal. Perto de 10% da restauração do metropolitano vende “Halal-only meat”.

Mas nos países de matriz cristã, halal não é suficientemente neutro. Há ainda muitos cristãos que entendem os valores sagrados dos outros como uma violação dos seus. Lembremos que, no século VII e anteriores, muitos mártires cristãos foram torturados por se recusarem a comer carne sacrificial e assumiram a postura heroica de morrer à fome por considerarem um sacrilégio aquela comida impura.

Se o objectivo é vencer e não vencer um argumento, pôr o foco unicamente nas palavras coloca-nos num declive perigoso. É necessário fazer preceder as palavras de actos significativos. Só a realidade consegue convencer alguém de que está errado.

domingo, 10 de junho de 2018

A Chegada das Trevas

Catherine Nixey licenciou-se em Estudos Clássicos pela Universidade de Cambridge

A Chegada das Trevas é a história largamente desconhecida – e profundamente chocante – de como uma religião militante pôs deliberadamente fim aos ensinamentos do mundo clássico, abrindo caminho a séculos de adesão inquestionável à “única e verdadeira fé”.
O Império Romano foi generoso na aceitação e assimilação de novas crenças. Mas com a chegada do Cristianismo tudo mudou. Esta nova fé, apesar de pregar a paz, era violenta e intolerante. Assim que se tornou a religião do império, os zelosos cristãos deram início ao extermínio dos deuses antigos – os altares foram destruídos, os templos demolidos, as estátuas despedaçadas e os sacerdotes assassinados. Os livros, incluindo grandes obras de Filosofia e de Ciência, foram queimados na pira. Foi a aniquilação.
Levando os leitores ao longo do Mediterrâneo – de Roma a Alexandria, da Bitínia, no norte da Turquia, a Alexandria, e pelos desertos da Síria até Atenas –, A Chegada das Trevas é um relato vívido e profundamente detalhado de séculos de destruição.

Ia de férias quando ele me chamou do escaparate de uma livraria. Calmamente, digeri-o ao longo dos dias, vendo nele muito do que está a acontecer nos nossos dias.
É um olhar diferente. Talvez incompleto, mas que tem em consideração factos que foram intencionalmente encobertos pela História escrita pelos vencedores - os bispos cristãos!

The clash between the classical order and Christianity is a tale of murder and vandalism wrought by religious zealotry, evoking modern-day parallels.
"The Guardian"

Duas pessoas podem estar a usar a mesma palavra para significar coisas diferentes e mesmo assim alimentarem uma conversação, o que não é mau para uma cavaqueira de café, mas é péssimo quando se têm de tomar decisões que afectam a vida dos outros.

Religião raramente significa o mesmo para povos diferentes. Para os primeiros Judeus, para os primeiros Cristãos e para os Muçulmanos, religião é Lei. Para os Judeus é lei tribal, para os outros - universal.
Para os Romanos, religião era eventos, rituais e festivais.

Dois mil anos depois, a Cristandade "vitoriosa", adoptou os hábitos romanos. Apoderou-se dos eventos, dos rituais e dos festivais, aceita uma Lei separada das suas crenças e o seu Deus único vive como Zeus, acompanhado de Santos, que mais não são que deuses de segunda ordem

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

As leis da Fronteira

Prémio Literário Casino da Póvoa / Correntes d’Escritas 2016

É um livro de fácil leitura. Tem por base a delinquência juvenil nos finais dos anos 70 em Girona (Espanha). Mas o seu valor está no pormenor com que narra o que está por detrás das decisões dos diferentes intervenientes -  o modo como entendem a realidade e como tentam adivinhar o que condiciona os outros!

sábado, 20 de janeiro de 2018

Preâmbulo de um acordo comercial entre os Estados Unidos e um dos Xás da Pérsia da dinastia Safávida (1501–1736):



O Presidente dos Estados Unidos da América do Norte e sua majestade tão celebrada quanto o planeta Saturno, soberano a quem o sol serve como modelo, cujo esplendor e magnificência são iguais aos dos céus, sublime soberano, monarca cujos exércitos são numerosos como as estrelas , cuja grandeza lembra a de Jenishid, cuja magnificência iguala a de Dario, herdeiro da coroa e do trono dos Kayanidas sublime imperador de toda a Pérsia, estando ambos igualmente e sinceramente desejosos de estabelecer relações de amizade entre os dois governos, que pretendem fortalecer mediante um tratado de amizade e comércio, reciprocamente vantajoso e útil aos cidadãos das duas altas partes contratantes, nomearam para o efeito seus plenipotenciários ...

in A Ordem Mundial de Henry Kissinger 

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Yuval Noah Harari









Yuval Noah Harari (Haifa, 1976) é professor de História e lecciona no departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Diz que não é um Profeta, mas eu elege-o como tal. "I don't think he is as widely recognized as he deserves to be, but, in my opinion, Yuval Harari will become one of the most influential thinkers of the XXI century".

O Youtube tem muitas aulas suas disponíveis e os dois livros que recentemente escreveu - "Sapiens: Uma breve História da humanidade" (2014) e "Homo Deus: Uma breve história do amanhã" (2016), são uma verdadeira Bíblia, que toda a gente que se preocupa com o evoluir da Humanidade tem obrigação de ler.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

A Empada Mágica


A pressão evolutiva habituou os humanos a ver o mundo como uma empada estática. Se alguém retira uma fatia maior, alguém inevitavelmente ficará com uma menor. Nessa perspectiva, as religiões tradicionais como o Cristianismo e o Islamismo procuraram modo de resolver os problemas da humanidade quer com a ajuda dos recursos existentes, ou prometendo um pedaço de empada no céu.

Nos tempos modernos, em contraste, há uma firme crença que o crescimento económico não só é possível, como absolutamente essencial. As orações, as boas vontades e a meditação podem ser reconfortantes e inspiradoras, mas problemas como a fome, as doenças e a guerra só poderão ser resolvidas através do crescimento económico. Este dogma fundamental pode ser sumariado numa ideia simples "Se tens um problema, vais provavelmente precisar de mais dinheiro e para teres mais dinheiro, tens de produzir mais!".
Os políticos e os economistas modernos insistem em que o crescimento é vital por três ordens de razão. Primeiro porque quando se produz mais, se consome mais e se melhora o estilo de vida e alegadamente se vive uma vida mais feliz. Segundo porque à medida que a humanidade aumenta é necessário crescimento económico só para se ficar onde se está. E terceiro se a economia não cresce e a empada permanece do mesmo tamanho só é possível dar mais aos pobres retirando aos ricos, o que obriga a opções difíceis, que muito provavelmente irão causar ressentimentos e até violência.

Se pretendemos evitar soluções duras, ressentimentos e violência, há que aumentar ao tamanho da empada.

in Homo Deus - A brief history of tomorrow, de Yuval Noah Harari

domingo, 23 de abril de 2017

O Fim da Lei da Selva


Desde a Idade da Pedra até à Época do Vapor, e do Árctico ao Sahara, todos sabiam que, de um momento para o outro, um vizinho poderia invadir o seu território, derrotar o seu exército, chacinar a sua população e ocupar a sua terra.
Durante a segunda metade do século XX, esta Lei da Selva, foi finalmente quebrada, ou melhor, revogada e, na maior parte do mundo, as guerras nunca foram tão raras.
Enquanto nas sociedades agrícolas antigas a violência era a causa de 15% de todas as mortes, durante o século XX, apesar das duas guerras mundiais, a violência causou 5% das mortes, e no início do século XXI é responsável por 1% da mortalidade global.
Em 2012, morreram cerca de 56 milhões de pessoas do mundo; 620.000 das quais de morte violenta – a guerra matou 120.000 e o crime 500.000.
Por sua vez 800.000 pessoas cometeram suicídio e 1,5 milhões morreram de Diabetes. O açúcar é, actualmente, mais perigoso que a pólvora.


In “Homo deus” de Yuval Noah Harari

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Sapiens




Yuval Noah Harari é historiador, investigador e professor de História na Universidade Hebraica de Jerusalém. É Doutorado em História pela Universidade de Oxford.

Este livro é um relato electrizante sobre a aventura da nossa espécie – de primatas insignificantes a senhores do mundo, que nos faz questionar a história do homem, as suas conquistas, religiões, filosofias e progresso tecnológico. Um livro imperdível para quem gosta de pensar, que impressiona pela quantidade de informação, oferecida em linguagem acessível e espirituosa.

Sapiens foi lançado, em 2011, em Israel. É um best-seller internacional. Está publicado em quase quarenta países...

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Ryszard Kapuscinski


... Convencidos de que uma pessoa comunica connosco só através da palavra, falada ou escrita, nem reflectimos que esses são só um dos possíveis meios de transmissão de muitos que, na realidade, existem. De facto, dizem-nos muito a expressão facial, o olhar, os gestos das mãos, os movimentos do corpo, as ondas que ele emite, a roupa que se usa e a maneira como se está vestido e, ainda dezenas de outros emissores, transmissores, reforços e filtros que constituem o ser humano e a sua "química", como dizem os ingleses.
A tecnologia, limitando o contacto interpessoal a um sinal electrónico, empobrece e apaga aquela panóplia extraverbal que utilizamos no contacto directo, na proximidade, muitas vezes sem nos darmos conta. Ainda para mais, a comunicação não verbal da expressão facial e dos gestos mais subtis, é muito mais sincera e verídica que a língua oral ou escrita, e torna mais difícil mentir ou esconder a falsidade ou o embuste. Por isso mesmo, a cultura chinesa, pretendendo salvaguardar o pensamento do indivíduo, elaborou a arte da cara imóvel, uma máscara impenetrável e de olhar vazio, porque só assim, só atrás desse biombo, alguém podia, realmente, esconder-se.
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Ryszard Kapuscinski in "Andanças com Heródoto"

domingo, 8 de maio de 2016

Verdades


Lembrar-te-ás de respeitar os mortos, porque ninguém respeita os vivos sem saber de onde eles vieram.

in "Para onde vão os guarda-chuvas" de Afonso Cruz

domingo, 5 de julho de 2015

O meu irmão

 
Sinopse: Com a morte dos pais, é preciso decidir com quem fica Miguel, o filho de 40 anos com síndrome de Down. É então que o irmão – um professor universitário divorciado e misantropo – surpreende e alivia a família, chamando a si a responsabilidade.

O autor usou a sua experiência pessoal - tem um irmão mongoloide - mas, ao contrário do que eu esperava, trata o tema com a autenticidade e ambivalência que estas situações despertam no comum dos mortais.

É um romance que prende pela qualidade da escrita e pelas imagens que nos dá do ambiente em que se movem as famílias e instituições com deficientes intelectuais a seu cargo, neste Portugal actual à espera que um D. Sebastião lhe dê um rumo consistente.

Um livro de verão para quem tem ligações à Saúde, ... e não só.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Haruki Murakami


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- Ouve Kafka. Aquilo por que estás a passar agora é o tema de muitas tragédias gregas. Não é o homem que escolhe o seu destino, mas sim o destino que escolhe o homem. É nessa visão do mundo que o teatro grego assenta. E o significado da tragédia - assim como o define Aristóteles - provém, por mais paradoxal que pareça, não dos pontos fracos do protagonista, mas dos seus méritos. ... As pessoas são empurradas para a tragédia, não pelos seus defeitos, mas pelas suas virtudes. Édipo Rei, de Sóflocles, é um exemplo significativo. Édipo é atraído para a tragédia, não por uma questão de preguiça ou de estupidez, mas devido à sua coragem e honestidade. Ora aí está! É a suprema ironia.
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Haruki Murakami, in "Kafka à beira-mar"