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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O meu amante de domingo



Cara Alexandra:

Gostei! Li-o duas vezes. A primeira de um fôlego, a segunda porque agora ando atento a “Escrita Criativa” e pareceu-me um bom livro para lhe analisar o esqueleto.
O tema é claramente do meu agrado. Há que acabar com essa gente que se encosta em amizades, para depois, impunemente, roubar ideias e trabalho de muitas horas, para o expôr, com desfaçatez, como se fosse seu.
Morte a esses “filhos da puta!” ... Pim! ... como diria o Almada.
Quem se veste de sensatez e de sucessos imerecidos, devia sucumbir sob os cinco dedos da pata de um elefante da Índia, a tal que difere dos de África, que só têm quatro. ... Pim!
Estou contigo também, no que respeita a mecânicos a dizer “póssamos” ou “vareia”, a que junto empregadinhas do shopping a escrever “debe daber” ou “eu vou ir ser o que eu era”.
Quanto aos Nosferatu’s que por aí andam à caça de quem se lhes põe a jeito, nada a acrescentar. Nem sempre a vítima é inocente.

Confesso que é o quarto livro teu que leio e me surpreende. Este mais que os outros. Pela ousadia da linguagem e das situações. Assim sem meias palavras. Que eu não sou do Canidelo, mas nasci no Alto da Fontinha!

sábado, 18 de outubro de 2014

O tempo morto é um bom lugar






Manuel Jorge Marmelo (Porto, 1971) é um jornalista que se estreou de escritor em 1996, e que só agora me entra porta adentro, com este retrato da nossa actualidade, onde os que a conhecem descrêem e a arraia-miúda se entretém com futilidades.

Há um jornalista "muito cansado do mundo e dos desaires da realidade" e uma Soraya Évora de uma "Casa dos Segredos", mito urbano de uma população que crê em Nossa Senhora de Fátima e na possibilidade de um estrelato súbito por um qualquer acaso, e há um vivido João Abelha a tentar dar lógica ao que se diz, para concluir que o mais é fumo e que há mais verdade nas putas.
Lê-se como quem bebe água.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Bartleby, o Escrivão


Tempo de férias e de leituras atrasadas, para tentar dar algum sentido ao inacreditável de todos os dias.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Caderno Afegão



É quase uma lei. Gosta-se de um livro e somos compelidos a outro.
No caso, o “Caderno Afegão”.

Eu admiro mulheres como Alexandra Lucas Coelho (Lisboa, 1967), com capacidade de achar soluções num país falhado, talvez o mais perigoso do mundo, como o é o Afeganistão, onde a sharia nega direitos básicos às mulheres. Mas é a sua invulgar capacidade de observação e a sua escrita directa, que me seduziram nestes seus relatos jornalísticos de 2008, onde cada parágrafo é um ensinamento.
Um livro de viagens, em tempos de guerra, ao "islão profundo", que nos custa a entender.

segunda-feira, 17 de março de 2014

A velocidade dos objectos metálicos


Tiago R. Santos, de acordo com a sua diferenciação em guionismo, recria um estar adolescente, na zona de Lisboa, onde pontuam a “iatrogenia” dos professores e o “dialecto jovem”, prolífico em palavrões a fazer  pontuação e a dar ênfase às afirmações.

É um livro de “maus da faca”, que nos leva a pensar  nas condições sociais que facilitam comportamentos aberrantes das famílias, no sistema educativo e na necessidade de um Dia Mundial do Adolescente, que mais não seja para lembrar que não é possível educar com pais ausentes.

Da página 83, retiro este pequeno trecho que me parece definir a base onde o livro assenta.

(a partir deste momento e até indicação em contrário, aviso os leitores de que esta é uma tentativa de transcrever de forma literal as palavras do Cinquenta e Sete. Sendo que não tinha, durante a conversa, qualquer possibilidade de gravar, frase a frase, o seu discurso, recorro à memória. Aceito que algumas das linhas que se seguem não correspondam por completo à realidade, mas encaixam na percepção que tenho daquilo que ouvi e acredito que o passado se constrói nestes alicerces, não como factos mas com a impressões, porque a forma como nos lembramos das coisas, a sua essência e capacidade de nos transformar, é mais importante que a verdade. …)

O autor estará na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, no dia 28 de Março, às 21.30 horas.

sábado, 8 de março de 2014

Dia Internacional da Mulher



Este livro de Alexandra Lucas Coelho parece autobiográfico.

Lê-se de um fôlego.
Tem um interessante olhar sobre o conflito israelo-árabe, mas o mais é a “mulher–vulcão” com que todos os homens de meia idade sonham.
Para maiores de 35 anos, com um pouco mais do 12º ano.

Sublinhei na página 198:
- O orgulho protege a nossa vontade de viver. De outra forma, as pessoas não teriam energia. Em vez de falarmos como vítimas, podemos falar como sobreviventes. A vítima é impotente, o sobrevivente ainda controla. E esse é o domínio da dignidade, que está acima do dinheiro e da comida.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Valter Hugo Mãe - A Desumanização


Tricotávamos a lã que sobrava e voltávamos aos livros, a ler tudo outra vez e só reparávamos nas palavras. Queríamos nada saber das histórias. Prestávamos atenção às palavras para sabermos como eram ditas as coisas. Porque alguns livros pareciam perfumar a linguagem, outros sujavam-na e outros ignoravam-na. Os livros podiam ser atentos ou desatentos ao modo como contavam. Nós, inspeccionando muito rigorosamente, achávamos melhores aqueles que falavam como se inventassem modos de falar. Para percebermos melhor o que, afinal, era reconhecido mas nunca fora dito antes. Os melhores livros inauguravam expressões. Diziam-nas pela primeira vez como se as nascessem. Ideias que nasciam para caberem nos lugares obscuros da nossa existência. Andávamos como pessoas com luzes acesas dentro. As palavras como lâmpadas na boca. Iluminando tudo no interior da cabeça.
… As palavras deixavam-nos mágicos.


Comecei a lê-lo sem fé. Acabei-o, com a sensação de ter lido um livro de referência, a reler, tantas são as pérolas, a dar razão a este pequeno trecho respigado da página 193.
A não perder!

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Pela mão de Bruno Vieira Amaral


Não resisto a respingar deste texto de Bruno Vieira Amaral, este fragmento, onde se aborda o humor em literatura e, no caso o de Jorge Luís Borges:

Não haverá melhor exemplo do que o conto que abre História Universal da Infâmia. O parágrafo inaugural é de uma tal perfeição formal e humorística que quase obriga o leitor a não avançar na leitura, deleitando-se com o julgamento de uma elegância impiedosa sobre o pobre e benevolente de las Casas. Reza assim:

“Em 1517 o Padre Bartolomé de las Casas teve muita pena dos índios que se extenuavam nos laboriosos infernos das minas de ouro das Antilhas e propôs ao Imperador Carlos V a importação de negros, que se extenuaram nos laboriosos infernos das Antilhas. A essa curiosa variação de um filantropo devemos factos infinitos:”

domingo, 5 de janeiro de 2014

A língua


… Eu compreendi que qualquer universo geográfico distinto, tem os seus mistérios e que nós só seremos capazes de os decifrar se entendermos a linguagem local. Sem ela, este universo permanecerá impenetrável e desconhecido, mesmo que passemos anos dentro dele. Também anotei a relação entre o nomear e o existir, porque verifiquei, depois do meu regresso ao hotel, que na cidade eu só tinha visto aquilo que eu conseguia nomear: por exemplo, eu lembrava uma acácia, mas não a árvore que lhe estava ao pé, cujo nome desconhecia. Então entendi que, sumariamente, quanto mais palavras eu soubesse, mais rico e variado seria o mundo que se abria perante mim e aquilo que eu era capaz de observar nele.

Ryszard Kapuscinski

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

"The Shadow of the Sun"


Em 1957, Ryszard Kapuscinski (1931-2006) chegou a Africa como correspondente de um jornal polaco, para testemunhar o fim da época colonial.
"The Shadow of the Sun", é um “livro de viagens” onde as pessoas, a paisagem, a beleza e o horror de Africa, são descritas e interpretadas com breves comentários históricos.
Oriundo de uma família humilde polaca, Ryszard Kapuscinski, revela-nos pormenores de um viver africano, que a África dos europeus ignora ou encobre.

Não há tradução portuguesa, mas é um bom exercício de inglês, pois prende da primeira à última página, mesmo que se tenha de ir frequentes vezes ao dicionário.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

As primeiras coisas


Deste romance, de Bruno Vieira Amaral, disse Rentes de Carvalho no seu blog "Tempo Contado":
 ... embargou-se-me a garganta, não só por aquele final de antologia, mas pela certeza de que tinha lido obra moderna no melhor dos sentidos. E obra de primeira. Respeitosa dos cuidados que a língua merece, original na criação, grande na sua humanidade, espectacular na sarabanda de episódios, personagens e enredos"

 ... não hesitei, li, gostei, invejei-lhe a escrita e passei a seu seguidor no Circo da Lama!

terça-feira, 25 de junho de 2013

Um pouco de História

Um pouco de História ajuda-nos sempre a entender o presente, principalmente porque cem anos não é nada na evolução de uma espécie.

Uso o livro “Civilization” de Niall Ferguson, publicado em 2011 e editado em Portugal pela Editora Civilização, em Fevereiro de 2012.

Niall Fergurson é professor de História na Universidade de Harvard

A guerra que começou em 1914 não foi uma guerra entre meia dúzia de Estados europeus quezilentos. Foi uma guerra entre impérios mundiais.
 ... 
Em 1917, a França estava à beira de perder a Primeira Guerra Mundial. Onde deveria pedir ajuda? A resposta foi: África.
Apesar dos súbditos africanos da França não terem direito à plena cidadania francesa, eram considerados elegíveis para pegar em armas em defesa da pátria.  Contudo, em todas as colónias - Senegal, Congo, Sudão, Daomé, Costa do Marfim - os africanos declinaram responder ao apelo. A maioria acreditava que o recrutamento para o exército equivalia a uma sentença de "morte certa". O único homem que parecia capaz de dar a volta à situação era Blaise Diagne, o primeiro africano eleito para a Assembleia Nacional Francesa. Estaria ele disposto a regressar ao Senegal como uma espécie de sargento recrutador glorificado?
Diagne viu a possibilidade de fechar um negócio com o primeiro-ministro francês, George Clémenceau, e insistiu que todo o africano que se apresentasse para combater, recebesse a cidadania francesa e que os tirailleurs veteranos ficassem isentos de impostos e tivessem direito a uma pensão decente. 
...
Em Abril de 1917, Demba Mboup e os seus camaradas do Corpo Colonial Francês, integrado no Sexto Exército do general Charles Mangin e no Décimo Exército do general Denis Duchêne, tinham pela frente as posições poderosamente fortificadas do Sétimo Exército alemão, comandado pelo general Hans von Boehn, no Caminho das Damas – assim chamado por ter sido utilizado pelas duas filhas de Luís XV, no século XVIII.
O comandante francês, o general Robert Nivelle, acreditava ser o homem que iria conseguir o tão ansiado rompimento na Frente Ocidental. Os Franceses construíram 450km de via férrea para apoiar a ofensiva com 872 comboios carregados de munições. Ao longo de uma frente de 40km, foi concentrado para o assalto mais de um milhão de homens. Dias e dias de barragens de artilharia deveriam amaciar os Alemães. No dia 16 de Abril, às 6h00, as tropas coloniais começaram a subir as colinas que a chuva e o granizo tinham transformado em lamaçais escorregadios. Mangin colocara os Senegaleses na primeira vaga, quase de certeza com o intuito de poupar vidas francesas. Segundo o tenente-coronel Bedieuvre, comandante do 58º Regimento de Infantaria Colonial, os africanos eram “inquestionavelmente e acima de tudo tropas de assalto soberbas que permitem poupar as vidas dos brancos, os quais, avançando atrás deles, exploram o seu sucesso e organizam as posições que eles conquistam”.
Nas trincheiras alemãs, o capitão Reinhold Eichacker observou horrorizado:

Os escuros pretos do Senegal, o gado para o matadouro da França. Centenas de olhos de combatentes, fixos, ameaçadores, mortíferos. Avançaram. Primeiro sozinhos, muito espaçados. Às apalpadelas, como os tentáculos de uma lula horrível. Ávidos, sôfregos, vacilando e por vezes desaparecendo na sua nuvem. Tipos fortes, selvagens, de dentes arreganhados como panteras. Os olhos, monstruosamente arregalados, acesos e injectados de sangue, eram horríveis.
Avançaram como uma parede móvel, negra e sólida, erguendo-se e caindo, oscilante e palpitante, impenetrável, infindável.
“reduzir a alça! Fogo à vontade! Apontem bem!” – as minhas ordens foram concisas e claras.
Os primeiros negros caíram a meio da corrida, em cima do nosso arame farpado, dando saltos mortais como palhaços num circo. Grupos inteiros evaporaram-se. Corpos desmembrados, terra pegajosa e pedras despedaçadas misturaram-se numa desordem selvagem. A nuvem negra parou, vacilou, cerrou fileiras e continuou a aproximar-se, irresistível, esmagadora, devastadora!
De súbito, uma parede de chumbo abateu-se sobre os atacantes e o arame farpado mesmo à frente das nossas trincheiras. Um martelar e chocalhar, um estalar e bater, um crepitar ensurdecedor atirou com tudo por terra com um clamor de furar os tímpanos e destroçar os nervos. As nossas metralhadoras estavam a apanhar os negros de flanco! Passaram como uma mão invisível sobre os homens, atirando-os por terra, estropiando-os e fazendo-os aos bocados! Os negros caíam sozinhos, em linha, em fila, ao monte. Ao lado uns dos outros, em cima uns dos outros.
Blaise Diagne protestou contra o desperdício negligente dos seus compatriotas mas regressou ao Senegal em busca de novos recrutamentos, desta vez armado com a garantia de que o combate, além da cidadania francesa, lhes valeria a Cruz de Guerra. No dia 18 de Fevereiro de 1918, Clemenceau defendeu o retomar do recrutamento militar perante um grupo de senadores, deixando perfeitamente claro o modo como os Franceses viam os Senegaleses:
“Tenho um respeito infinito por estes valentes negros, mas prefiro ver dez negros mortos a ver um francês, porque julgo que já morreram suficientes franceses e que há que sacrificá-los o menos possível”.

..............
 
Isto passou-se em França, país defensor dos direitos humanos - da liberdade, da igualdade e da fraternidade.
Ao lado, na Alemanha Imperial o alemão médio via os africanos como primatas superiores - o termo predileto para eles era "babuínos" - e tratava-os como animais. Os povos de "raça mista" - os bastardos - eram considerados racialmente superiores aos negros puros, mas inferiores aos brancos puros. Admitia-lhes uma eventual utilidade como polícias coloniais ou funcionários menores. No entanto, desaconselhava qualquer mistura racial adicional.

Será que estes conceitos perderam actualidade e que já não é fácil recrutar carne para canhão.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

2013


Leio o livro “Joseph Anton” de Salman Rushdie, que relata o modo como viveu a ameaça que durante nove anos pairou sobre ele, quando, em 1989, o aiatola Khomeini declarou uma Fatwa, condenando-o à morte por ter escrito o livro “Versículos Satânicos”.

Na página 251:
Todos os heróis da antiguidade grega, Ulisses, Jasão e Eneias, haviam sido, mais tarde ou mais cedo, obrigados a manobrar os seus navios entre os dois monstros marinhos Cila e Caríbdes cientes de que cair nas garras de um ou outro os conduziria à destruição total. Disse a si próprio firmemente que, escrevesse o que escrevesse, precisava de passar entre os seus Cila e Caríbdes pessoais, os monstros do medo e da vingança. Se escrevesse coisas tímidas, amedrontadas, ou coisas iradas, vingativas, a sua arte seria deturpada para além de qualquer esperança de redenção. Tornar-se-ia uma criatura de fatwa e mais nada. Para sobreviver precisava de rejeitar a raiva e o terror, por mais difícil que essa rejeição fosse, e tentar continuar a ser o escritor que sempre procurara ser, continuar na via que definira como a sua. Fazer isso seria o sucesso. Fazer outra coisa seria um horrível falhanço. Isso sabia ele.
Esqueceu-se de que havia uma terceira armadilha: a de namorar a concordância, de querer, na sua fraqueza, ser amado. Estava demasiado cego para ver que se precipitava de cabeça nesse fosso; e foi essa armadilha que o engodou e quase o destruiu para sempre.


Mitologia: Cila e Caríbdes são escolhos perigosos localizados no Estreito de Messina, que separa a Itália da Sicília, ou seja, dois grandes perigos para a navegação, muito próximos um do outro. Cila é um rochedo e Caríbdis é um redemoinho, um sorvedouro.
Na mitologia grega Cila era um monstro marinho. Tinha sido uma bela ninfa que a feiticeira Circe, por ciúmes, transformara num monstro, enraizado numa rocha, que odiava e destruía tudo o que se aproximasse. Do seu corpo cresciam cabeças de serpentes e de cães ferozes.
Caríbdis, filha da Terra e de Poseidon, fora também uma ninfa. Por ser muito cruel, Zeus fulminou-a com um raio, transformou-a num monstro e lançou-a para o fundo do mar, onde três vezes por dia suga e regurgita a água do estreito, devorando tudo o que consegue.

Ultrapassar Cila e Caríbdis simboliza coragem e capacidade para resolver qualquer grande problema.


Na Odisseia, de Homero, Ulisses consegue retornar a Ítaca depois de passar Cila e Caríbdis.


Rejeitar a raiva e o terror, e tentar continuar a via que se definiu como sua, sem namorar a concordância, de querer ser amado.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Teolinda Gersão

Teolinda Gersão
Gente crescida dentro da literatura portuguesa. Veio ter comigo pela mão do Clube de Leitura.
Neste romance assume o papel de um inquieto artista plástico da nossa Lisboa contemporânea, a quem a "sorte' protegeu (até na adversidade), para narrar os seus amores e desamores.
Senti que por largos momentos não "entrou na cabeça" de um homem. Mas é um bom exercício para tentar perceber o amor no feminino.
Bem escrito. Prende até à última página.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Escrever


...
Enquanto esperava …, sentiu que podia escrever uma cena como a que se desenrolara junto à fonte, incluindo um observador escondido, como ela própria. … Conseguia ver as frases simples, os símbolos telepáticos a acumularem-se, a jorrarem pelo aparo. Conseguia escrever três vezes a cena, de três pontos de vista diferentes; a sua excitação vinha da perspectiva de liberdade, de ser poupada à penosa luta entre o bem e o mal, entre heróis e vilões. Nenhuma das três versões era má, nem particularmente boa. Não teria de julgar. Não teria de haver ensinamento moral. Apenas teria de mostrar mentes individuais, tão vivas como a sua própria mente, a debaterem-se com a ideia de que havia outras mentes igualmente vivas. Não eram apenas a maldade e as intrigas que faziam as pessoas infelizes: era a confusão e os mal-entendidos. Era, acima de tudo, a incapacidade de entender a simples verdade de que outras pessoas eram tão reais como nós próprios. E só numa história era possível penetrar em tantas mentes diferentes e mostrar como todas elas tinham o mesmo valor. Era esse o único ensinamento moral que tinha de haver numa história.
...
in "Expiação" de Ian McEwan

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Civilização – O Ocidente e os Outros


"Civilização – O Ocidente e os Outros" de Niall Ferguson, 2011.

Aquilo que estamos a viver agora é o fim de 500 anos de predomínio ocidental.

As civilizações comportam-se como todos os sistemas adaptativos complexos. Funcionam em aparente equilíbrio durante um período que não é predeterminável e depois de forma completamente abrupta, entram em colapso.

Uma civilização real para os seus habitantes, não são os esplêndidos edifícios, nem sequer o funcionamento impecável das suas instituições. No seu âmago, uma civilização são os textos que se ensinam nas escolas, que são aprendidos pelos seus estudantes e recordados em alturas de tribulação.

As provas mais inequívocas de que a deslocação do Ocidente para o Oriente é real, residem na Educação. Em 2005, num estudo sobre o desempenho académico de alunos com idades entre os vinte e cinco e os trinta e quatro anos, a OCDE encontrou uma diferença espantosa entre os países do topo – a Coreia do Sul e o Japão, e os do fundo da tabela- a Grã-Bretanha e a Itália. Verifica-se um fosso semelhante nos testes normalizados de aptidão matemática entre os alunos com catorze anos de idade, com os de Singapura a baterem de longe os da Escócia, situando-se os primeiros 19% acima da média internacional e os segundos 3% abaixo.

São algumas das conclusões finais. 
Mas o melhor é ler o livro, sublinhar as partes mais relevantes para depois voltar lá repetidas vezes para perceber bem.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Judeus

O papel dos judeus na vida intelectual ocidental no século XX, em especial nos Estados Unidos, foi efectivamente desproporcionado, indiciando uma vantagem de ordem cultural e genética. Representando cerca de 0,2% da população mundial e 2% da população americana, os judeus ganharam 22% dos Prémios Nobel, 20% da Medalhas Fields de Matemática e 67% das Medalhas John Clarke Bates para economistas com menos de quarenta anos de idade. Os judeus venceram 38% dos Óscares para Melhor Realização, 20% dos Prémios Pulitzer de não ficção e 13% dos Grammy de Carreira.

No pé da página 277 do livro "Civilização - O Ocidente e os Outros" de Niall Ferguson

... do mesmo livro, no pé da página 210:

Na realidade, os judeus ultrapassaram os protestantes em desempenho nos últimos cem anos, com rendimentos e taxas de auto emprego significativamente mais elevados. Dos chief officers das 100 maiores empresas da revista Fortune em 2003, pelo menos 10% eram judeus, como judeus representavam também 23% dos CEOs da Forbes 400. Além de serem desproporcionadamente bem-sucedidos a lançar firmas financeiras, os judeus também fundaram ou co-fundaram algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo, por exemplo, a Dell, a Google, a Intel e a Oracle.

Nota: Os judeus são ~13,2 milhões, dos quais ~5,5 milhões vivem em Israel e na Palestina e ~5,1 milhões nos EUA .

sábado, 30 de junho de 2012

Violência

Das frases que me condicionam, duas vieram-me hoje à memória: “Quem tem mais probabilidade tem de te matar, já tem a chave de tua casa!” e “ A pessoa que maior probabilidade tem de te matar, é o teu médico!”. Não são absolutas, até porque se excluem, mas centram-se em duas facetas do nosso quotidiano, a que importa estar atento: a Violência Doméstica e a Iatrogenia.

Ora andava eu na Internet, por estes caminhos, quando tropecei num artigo sobre "A Verdade àcerca da Violência", de um tal Sam Harris (1967) escritor, filósofo e neurocientista americano.

Primeiro introduz-nos, informando que nos USA a probabilidade de ser roubado, assaltado, violado ou assassinado nos próximos 30 anos (a manter-se constante a actual taxa de criminalidade), é de 1 para 9, pelo que nos devemos preparar para responder à violência de modo racional, pois os nossos instintos, embora bons a reconhecer o perigo, aumentam a probabilidade de sair magoado ou morto quando a ameaça surge. Depois lembra que a Polícia responde ao crime consumado, para (com alguma sorte) apanhar quem o cometeu, que os primeiros momentos em que a vítima se encontra com o predador são cruciais, e que só depois de escapar é que é seguro ligar o 112.

Define três princípios fundamentais.

1) Evitar pessoas e locais perigosos.
Auto-defesa não é vencer combates com gente agressiva que não tem nada a perder. Não ameace o seu oponente. Baixe o nível de agressividade e vá embora.

2) Não defender a sua propriedade.
Defendê-la é um convite à violência e uma oportunidade para morrer ou para ir parar à prisão.
Se alguém lhe aponta uma arma à cabeça e lhe pede a carteira, entregue-a de imediato e fuja. Se vir um grupo a vandalizar-lhe o carro, mantenha-se em casa e avise a Polícia.

3) Se alguém o tentar conter fisicamente, responda imediatamente e fuja.
Faça tudo para evitar o confronto físico, mas se ele se tornar necessário, ataque explosivamente, com o que for necessário, com o intuito de escapar.
Se alguma vez se encontrar em tal situação, deve assumir que o seu oponente tem uma carreira criminosa e que já vitimou outros. Não perca um segundo a argumentar.

Até parece consensual, mas quando ele passa a exemplos sobre o princípio nº 3, é que a coisa se torna diferente.

Imagine: Você transporta as compras da mercearia para o carro e surge um homem ao seu lado com uma arma que lhe diz: “ Entre no carro, e não lhe acontecerá nada!” O seu instinto irá provavelmente funcionar mal. Entrar no carro é a última coisa que deve fazer. “Entre no carro ou estouro-lhe com os miolos!”.
Por muito mau que lhe pareça o momento, obedecer a uma pessoa que está a tentar controlar os seus movimentos, é uma ideia terrível. Uma coisa é tentar controlar a sua propriedade, outra é tentar controlá-lo a si, orientando-o para outro quarto, para um beco, para dentro do carro, prendendo-o, etc ... . Isso indicia que a próxima situação em que se vai encontrar será ainda pior.
Fuja qualquer que seja o risco, pois compensa.
Qualquer que seja a sua capacidade física o seu objectivo é fugir, mesmo que esteja em casa e que tenha armas. Esses segundos lugares serão imensamente mais favoráveis ao(s) atacante(s).
Um ladrão geralmente assegura-se que a casa está vazia antes de entrar. Se alguém entra em sua casa consigo lá dentro, não há assunto a discutir. Deve fazer tudo para escapar. Se alguém aponta uma faca ao pescoço da sua esposa e, com isso, o tenta controlar, você deve fugir imediatamente, pois cooperar com o atacante e esperar a sua benevolência é o maior erro que pode cometer. Se ele tem intenção de a matar, ele vai matá-los aos dois se tiver oportunidade. Se você fugir, pode voltar em condições muito mais favoráveis.

O artigo é escrito por um americano que vive nos USA. Podem dizer que lá o mundo ... é outro, mas, como dizia Bob Dylan “The times they are a-changing”.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Agualusa

Gostei!
É curioso que o tema seja semelhante ao de "Jesusalém" do Mia Couto: a agorafobia.

Sente-se sangue africano na descrição da instabilidade social no período pós independência, com as soluções ditadas pela necessidade do momento, numa Luanda com o poder disperso e em constante mutação.
Só me pareceu que "o acaso" aproximou os personagens mais do que seria de esperar.


Quando se atribui poder a um palerma que nos fica acima, o melhor é um afastamento tácito. Mas quando a sociedade anda em convulsão e se torna imprevisível, esconder-se, pode ser uma questão de sobrevivência.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Leituras de férias

Não sei se O teu rosto será o último” ficará na história como um grande romance, mas gostei de o ler, principalmente depois de saber que João Ricardo Pedro , 38 anos, engenheiro, vítima de despedimento colectivo, se transformou em escritor, e foi prémio Leya 2011, logo no seu primeiro romance.
Dalton Trevisan, brasileiro da colheira de 1925 e só agora divulgado entre nós ao ser galardoado com o Prémio Camões. Nas livrarias só encontrei  um dos seus primeiros livros - "Cemitério de Elefantes" (1964). 
Pequenos contos, com uma tipologia de escrita que me fez lembrar Torga, por deixar o leitor completar os cenários e o imaginário dos personagens com duas ou três palavras estrategicamente colocadas.
Um bom exercício de leitura, para quem, como eu, gosta de sentir textos expoados de supérfluo.


"Medicina e outras coisas"  de António José de Barros Veloso (Internista, ex-director do Serviço de Medicina Interna do Hospital de Sto António dos Capuchos em Lisboa).
Uma compilação de vários textos sobre medicina e não só, de alguém que viveu a prática médica o suficiente para poder ter opinião.