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domingo, 11 de março de 2018

Polimedicação


Estávamos no tempo da “Caixa de Previdência” – seis doentes por hora, duas horas por dia, cinco dias na semana. Na prática - duas horas e meia – quinze doentes por tarde, para compensar o dia em que se faltava, por se estar no Serviço de Urgência.
Nesse dia distante de 1981, eu, para além dos meus quinze, tinha os quinze de uma colega que adoecera, e me pedira para a substituir.
Nunca fui de “despachar” doentes, pacientes, clientes ou utentes (como se lhes quiserem chamar), pois é a queixa que define o sentido da consulta e não quem a traz, embora muitas vezes seja mais importante saber que doente tem a doença, que a doença que o doente tem.
Raramente acabava no tempo previsto, situação que se complicava quando o número de utentes aumentava. O cansaço dos trinta dessa tarde de Setembro, deve-me ter levado a algumas críticas ao que entendia como ... “disfuncionalidades”. 
Lembro-me de ter comentado o grande número de medicamentos que uma doente me disse estar a tomar, de ter desistido de lhe retirar os que me pareceram desnecessários, e escrever na ficha, para minha colega se dar a esse trabalho: “Ena! Tanto comprimido!!!”

A carta que me foi entregue, dias depois, é um puxão de orelhas, que guardei, para me lembrar que há muitas realidades.
 
(Clique na imagem para a aumentar)



segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Fora da caixa



- Ele veio de França, há-de haver um ano, sem qualquer informação sobre a doença, que estava diagnosticada desde 1984. É um compêndio de patologias com as respectivas complicações e, para piorar o cenário, ... vive só!  Logo que melhorou da anemia que o trouxe ao hospital, começou a falar na alta. Nem sei como o aguentámos dez dias internado!
- E porque é que não o deixaram ir?
- Ele tinha sangrado pelo tubo digestivo e não sabíamos exactamente onde. Ainda por cima estava hipocoagulado e tinha necessidade absoluta de continuar a estar!

Conversa de quem tem de lidar com quem vive "fora da norma" e obriga a atenções redobradas para que um "azar" o não atire para a primeira página de um jornal necessitado de empolar um facto para aumentar as vendas.

- Ontem, às dez e meia da noite, arrumou os poucos pertences e só não foi embora porque vim cá acima e me impus! Ele mora a mais de 100Km daqui, junto à fronteira! Mas foi difícil! Ele sabe os horários das camionetas e dos comboios e tinha um em vista. Ia como estava: pijama, roupão, chinelos e gorro na cabeça!
- E foi assim que, hoje, o encontraram no Shopping!?
- Foi! A empregada da "Seaside", depois de lhe ter vendido os sapatos, telefonou para o hospital! Os seguranças encontraram-no à entrada da "Mike Davis"!
- E ninguém o viu sair?
- Não! Quando lhe perguntei por onde tinha saído, disse que não dizia e eu fiquei com a ideia de ele ter utilizado uma das portas de serviço, aproveitando um tempo em que ninguém por lá andava.
- E hoje deste-lhe alta!?
- Escrevi a Nota de Alta a correr, porque ele estava a contar o tempo para a camioneta.
- E foi de roupão e gorro?
- E de sapatos novos! Talvez a pressa fosse para acabar as compras no Shopping, que dinheiro e despacho não lhe faltam!
- ... Pelo menos para a asneira!
-Sei lá! O certo é que se tem aguentado!

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Esquizofrenia 2



Sente-se “decaído!”, cansado e com a boca queimada - "Foi ao comer a sopa!". Diz ter sido burlado! Venderam-lhe um telemóvel desactualizado e não dormiu com medo de não acordar a horas da consulta.
Anda na vida de médico há muitos anos! Desde que está nos psiquiatras, está em sofrimento… A cabeça não anda sossegada!”... Quando era jovem, olhou para uma mulher e sentiu o cérebro a cair desde o céu. Nunca mais teve descanso! Esteve na Guerra Colonial. Foi ele que causou, com o pensamento, o golpe de estado em Moçambique. Diz ter duas cruzes uma à frente e outra nas costas, que já conseguiu falar pelas costas e que consegue transportar-se para uma quarta dimensão. Acha que as pessoas podem ouvir o que pensa e que os americanos e os russos lutam por controlá-lo. Foi por isso que a avó, um dia, lhe bateu!

Não quer ficar internado. Está irritado por ter recebido uma carta do tribunal para tratamento ambulatório compulsivo.

Hoje não abriu a porta à equipa de entrega domiciliária de refeições e os vizinhos, que há mais de um dia o não viam, alertaram a GNR. Foi encontrado caído no chão com fezes e urina em redor. No transporte para a Urgência teve uma crise convulsiva.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Um "raminho"!


Sr. Dr..! O meu pai sempre foi muito ansioso! Há uns anos, quando ainda estava bem, levava todas as noites para a cabeceira da cama um copo de água açucarada, com medo das hipoglicemias!  Ele ainda não tomava insulina, mas precavido como era, queria ter a solução à mão!
Um dia acordou a meio da noite com um formigueiro no braço. Com medo que aquilo fosse um sinal, deitou a mão ao copo, bebeu dois goles e voltou a deitar-se. Só que, em vez de melhorar, piorou. O formigueiro que inicialmente só sentia no braço, estendeu-se a toda a face e à língua.
Muito assustado, sentou-se na cama, acendeu a luz e chamou pela minha mãe, dizendo-lhe que estava a ter um “raminho”. Ela, assarapantada, deu a volta à cama para ver o que se passava. Foi quando viu o copo cheio de formigas e muitas espalhadas por aquele lado da cama!

sábado, 9 de dezembro de 2017

Serviço de Urgência


- A senhora é a esposa do Sr. José?
- Sim! Sou!
- Eu sou o médico que está a tratar o seu marido.
- Ele vai ficar internado?
- Não! Estou a pensar em dar-lhe Alta. Não tem doença que justifique o internamento! O que ele tem, está relacionado com o consumo crónico de bebidas alcoólicas. Ele, ainda ontem, bebeu!!!!.... O tratamento, como sabe, é deixar de beber. E isso pode fazer em casa!
- Sim! Mas hoje de manhã ele estava esquisito! Parecia que lhe faltava o ar! Foi por isso que eu chamei o INEM!
- Mas ele agora está bem! Não tem febre, o coração e os pulmões estão calmos e as análises são o que se espera num doente com a sua situação!
- Mas o Sr. Dr. podia interná-lo, para ele descansar o fígado! Da última vez que esteve internado, aguentou quase dois meses!

O Sr. José, veio transferido de um Centro de Saúde e, há horas, que ocupa uma maca do corredor do Serviço de Urgência. Já dormiu, já comeu, já fez análises e uma ecografia, já lhe mediram várias vezes os sinais vitais, e tirando as alterações hepáticas decorrentes de uma cirrose que, de há seis anos, o traz repetidas vezes ao Serviço de Urgência, não se identificou situação que justifique mais um internamento.

- A senhora há-de convir que, um hospital, é demasiado caro para "descansar" o fígado.
- É que, se ele vai para casa, volta a beber!
- Mas ele não pode ficar a viver no Hospital e, ao que parece, quando volta para casa, a família permite-lhe o consumo e ele estraga tudo o que aqui possa ter ganho!
- O que é que eu posso fazer? Se eu não lho dou, ele vai buscá-lo à adega e, se eu lha fecho, ele até é capaz de arrombar a porta. Olhe que ele nunca levantou a mão para mim, mas se eu não lhe der o vinho, não sei do que ele seria capaz!

Esta é a fase em que a conversa pode tomar vários rumos.
Estou num Serviço de Urgência, a horas em que não tenho apoio de Psiquiatria, nem do Serviço Social e em vésperas de um fim de semana prolongado.
O doente teve já sete internamentos em Medicina por complicações relacionadas com a "doença", foi já orientado para a Consulta Externa de Medicina Interna e de Psiquiatria e abandonou-as.

É fácil chamar ao alcoolismo, síndrome de dependência do álcool, catalogá-lo de doença, e atirá-lo para um Serviço de Urgência, ao mesmo tempo que nas comunidades se passa para o outro lado da rua quando se tropeça num bêbado e se alegam liberdades para que cada um faça da sua vida o que quiser. O Islão não é de intrigas. O álcool é uma abominação de Satanás. Proíbe-o e condena os seus prosélitos ao Tártaro (Alcorão 35:6). Não dá lugar para
um indivíduo fazer o que quer, se prejudica os outros. E os amigos, a família e os vizinhos são responsabilizados se não interferem quando uma pessoa se destrói ou prejudica a sua família.

Aqui tudo cai, desde o desgraçado que faz uma inscrição só para ter acesso a uma refeição, ao doente crónico que prefere este espaço "cosmopolita" ao de uma consulta regular no Centro de Saúde.
Quem tem de se dispersar entre situações críticas e casos sociais, desespera quando estes últimos o distraem das suas primeiras funções.

Este tem sete internamentos. Sete oportunidades deitadas ao lixo nos seis últimos anos. Vindas à Urgência, vinte e três.
Entretanto a idade não perdoa e outras maleitas já se lhe juntaram, deixando os médicos na indecisão de uma outra estar a dar sinal, pelo que lhe vão fazendo análises a tudo e mais alguma coisa, sempre que aqui entra.

Forço-me a justificar a Alta à pobre da mulher que não sabe lidar com a situação e se agarra ao que vê à mão. Sugiro-lhe que recorra ao Serviço Social da sua área de residência, falo-lhe dos "Alcoólicos Anónimos", dos filhos que estão emigrados, até do padre da freguesia. Entra-lhe por um ouvido e sai-lhe pelo outro. Ainda penso em contemporizar, mas é  dinheiro do Estado deitado fora. Ter este poder de dar o que não é nosso, dá mais responsabilidade. Caridade com o que é dos outros, qualquer um faz. Mas Caridade não é dar o osso ao cão. Caridade é partilhar o osso com o cão, e eu não estou aqui para substituir a Santa Casa.

- Minha senhora! O seu marido tem Alta. Leva medicação e uma carta para o médico de família!, afirmo, na tentativa de me ver livre deste problema que me retém, muito para além do desejável.

- O Sr. Dr. é que sabe! Mas se ele amanhã não estiver melhor, eu trago-o outra vez, que ele precisa de descansar o fígado!

...

E, nem de propósito, quando chego à maca onde o Sr. José aguarda a decisão, ele inicia uma crise convulsiva.

- Ai Jesus! Sr. Dr.! Ai que ele morre! Valha-me Nossa Senhora de Fátima! ....

Agora são dois em vez de um. Ela com uma crise histeriforme, ele a espumar no caminho para a Sala de Emergência.
...
- Dr.! A esposa do Sr. José está muito sentida consigo!, avisa-me a enfermeira.
- Deixe-a estar! Por favor, diga-lhe que o Sr. José, agora vai ficar cá na Sala de Observações, pelo menos até amanhã! E que pode ir embora! Veja se me poupa a mais um debate argumentativo, que eu já gastei o latim que trazia para hoje. Ela não vai entender que o tempo que demoraram todos os exames, mais o tempo que esteve na SUB que o referenciou, é suficiente para desencadear um síndrome de abstinência, no caso um "rum fit"

domingo, 5 de novembro de 2017

Workshop


A sala está composta. O público fora convidado com a devida antecedência e pressionado a comparecer. À hora marcada a plateia impacienta-se para ouvir os truques e malabarismos da modernidade de uma luminária que vem da capital.
Lisboa é longe e os caminhos da periferia são demasiado sinuosos para quem está habituado a grandes avenidas.  Passa uma hora quando chegam as eminências, seguidas pelo mágico e suas “partenaires”. Uma é loira, outra é morena, como os dois amores do Marco Paulo.

Feitas as apresentações e respetivas vénias, dá-se início ao espectáculo.
É a vez do artista. Rapaz novo, gaba-se do que fez e do que quer fazer. Dois passos para a esquerda e um à direita e ... Zás – à primeira pernada para trás, quem estava em cima passa para baixo e os da esquerda vêm-se agora no centro ou à direita. Pim! Já está!
Quem não se moveu espanta-se!.

Apronta-se de seguida para o segundo número, directamente dirigido ao coração da audiência. Fala sobre a ansiedade de querer e não saber por onde anda a família. Ligar para o telemóvel e não obter resposta! ... Três passos para a frente e uma para o lado e Zás! ... !! O público, baralhado, a tentar sintonizá-lo. Mais um passo em frente e ... Trás, Catrapaz!, e a estrela aponta o dedo a um paisano: - “- Você!”, depois a outro “- E você!?”, há que ouvir sentimentos e frustrações e prometer soluções! …. PUM! 

Tanta eloquência faz pasmar o mais pintado! É uma sumidade! Um mestre da comunicação! Pena o auditório só ter umas dezenas de lugares, e não um púlpito como o das Nações Unidas, porque ele … traz "UMA SOLUÇÃO À PROCURA DE UM PROBLEMA!"

Agora, depois de ter criado "O PROBLEMA", inicia novo passe de mágica e pede às partenaires que se levantem. A assistência hesita em bater palmas. São lindas e sorridentes, embora constrangidas, talvez por não se terem preparado para aquele número.

Finalmente o artista aproxima-se do "PROBLEMA" como quem salta para uma corda suspensa bem acima do estrado e bamboleia num equilíbrio, cada vez mais difícil. 
Fala de “PopUps”, de PEM, do triângulo doente – farmacêutico – médico. De uma lei que já está promulgada e que a todos espanta. Por fim vacila quando um pequeno burburinho se levanta e se apercebe que há gente a sair “à formiga”. É salvo pelo intervalo. 

Não houve apoteose, mas pouco lhe importa, que o cachet está garantido!.
Racionalizará: “-Esta gente da aldeia não entende os “Big Data”, nem as novas tecnologias!” e continuará convencido que caminha “para frente!”, porque em frente é sempre para onde estiver voltado, se não sentir oposição de quem gere o dinheiro dos impostos!

sábado, 28 de outubro de 2017

Acrocianose ?



Tem 34 anos. Está grávida de vinte e quatro semanas e há dois dias que nota as unhas e as pontas dos dedos azuis, com agravamento nocturno.

Veio ao Serviço de Urgência e, na Triagem de Manchester, é referenciada, com cor Amarela, para Obstetrícia. Tem sinais vitais normais e está tudo bem com o bebé. Exame ginecológico normal. Ecografia normal. Cardiotocografia normal. É pedida observação por Medicina Interna.

Está consciente e colaborante. Nega conhecimento de qualquer doença crónica. Tem as unhas das mãos e extremidade distal dos dedos com tom azulado, sem sinais de hipoperfusão sanguínea. Nega agravamento com o frio. Tem as unhas e a extremidade distal dos dedos dos pés com coloração normal.
- Minha senhora! A senhora não pintou as unhas de azul?
- Não! Pintei-as há uma semana, e usei um verniz branco!
- Vamos ter de limpar uma unha, para ver o que acontece! Mas vai ter de esperar uma hora, porque não há acetona no Serviço de Urgência e o Armazém só abre às 14:00h!

Está acompanhada por uma filha adolescente, que já mostra sinais de impaciência. Sai, inconformada, enquanto eu faço os registos no computador.
Nem cinco minutos depois, bate à porta do consultório.

-Dá licença!?
- Faz favor! Então que há de novo?
- A Dra. deixou-me a pensar e, de facto, anteontem à tarde, estive a lavar um édredon azul e foi só à noite que a minha filha notou que eu tinha as unhas azuis. No dia seguinte de manhã, elas estavam mais clarinhas. Mas o édredon não ficou bem lavado e voltei a lavá-lo! Agora, como me disse que ia esperar tanto tempo pela acetona, pedi à enfermeira um pouco de gaze e lavei os dedos com álcool, água quente e sabão e raspei uma unha. Desapareceu tudo! …. Posso ir embora?

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Manipulação genética em humanos


Eu já esperava uma notícia deste teor.
Era uma questão de tempo, para que se iniciasse a manipulação genética no ser humano. O princípio do que virá a ser uma das principais áreas de negócio do futuro.
Começa-se por tratar um defeito genético ainda no ovo ou até no óvulo ou no espermatozoide, e vai-se por aí afora.

Amanhã, quem tiver recursos económicos, não vai querer que seja o acaso a definir qual espermatozóide irá fecundar qual óvulo. Vai querer ter a certeza que os gametas têm qualidade e que não transportam qualquer gene que possa comprometer o futuro do novo ser e, se possível, que tenha todos os que entendemos como benéficos para o sucesso social – ser alto, louro, ter olhos verdes e, uma especial apetência para as ciências abstratas, pois é nelas que se irão centrar os novos investidores.

Foi na China que se deu este primeiro passo e não nos USA., por ali não haver a mesma pressão ética e por o seu Concelho de Estado ter elegido a investigação genómica como um pilar das suas ambições industriais para o século XXI. As suas empresas habitam uma zona cinzenta entre o sector público e o privado e são abençoadas pelo Banco de Desenvolvimento da China com “milhões” que, a par com o baixo custo de mão de obra, os irá pôr na linha da frente. 

A Notícia é de 28/09/2017

Pesquisadores chineses afirmam ter realizado pela primeira vez no mundo uma "cirurgia química" em embriões humanos para extrair uma doença.

A equipe da Universidade de Sun Yat-sen usou uma técnica chamada "edição de base" para corrigir um único erro entre as três biliões de "letras" do nosso código genético.

Eles alteraram embriões feitos em laboratório para extrair a doença talassemia beta. A equipe disse que a experiência pode levar, algum dia, ao tratamento de uma série de doenças herdadas geneticamente.

A técnica altera a construção base do DNA.

A talassemia beta é uma doença do sangue que causa anemia e pode levar à morte. É provocada por uma mudança numa única base no código genético - conhecida como mutação pontual.

Os pesquisadores chineses "editaram” o DNA e trocaram o G (guanina) por um A (alanina) corrigindo o problema.

"Somos os primeiros a demonstrar a viabilidade de curar doenças genéticas em embriões humanos a partir de um sistema de edição de base", disse à BBC Junjiu Huang, um dos cientistas do grupo, e continuou: "o estudo abre novas portas para tratar pacientes e prevenir bebés de nascerem com a talassemia beta, e até mesmo outras doenças hereditárias".

As experiências foram efectuadas com tecidos de um paciente com a doença e através de embriões humanos criados a partir da clonagem.

Revolução genética

A edição de base é um avanço em relação a outra forma de editar genes, a técnica conhecida como Crispr, que já está a revolucionar a ciência.

A Crispr quebra o DNA. Quando a célula tenta consertar a quebra, desactiva uma série de instruções genéticas, e cria a oportunidade de inserir novas informações genéticas.

A edição de base faz com que as próprias bases de DNA se transformem umas nas outras.

O professor David Liu, pioneiro da edição de base na Universidade de Harvard, descreveu o método como "cirurgia química".

Afirma que a técnica é mais eficiente e tem menos efeitos colaterais indesejados do que a Crispr.

"Cerca de dois terços das variantes genéticas humanas associadas a doenças são mutações pontuais. Portanto, a edição de base tem o potencial de corrigir directamente, ou reproduzir para fins de pesquisa, muitas mutações patogénicas".

O grupo de cientistas da Universidade de Sun Yat-sen em Guangzhou (China) foi manchete quando  foram os primeiros a usar a técnica Crispr em embriões humanos.

O professor Robin Lovell-Badge, do Instituto Francis Crick em Londres, disse que determinados trechos desse último estudo são "engenhosos", mas também questionou por que não fizeram mais pesquisas com animais antes de irem directamente aos embriões humanos e afirmou que as regras sobre pesquisas com embriões noutros países teriam sido "mais rigorosas".

O estudo, publicado na revista científica Protein and Cell, é o mais recente exemplo da rapidez na evolução da habilidade dos cientistas de manipular o DNA humano, o que está a provocar um debate profundo de ética na sociedade, sobre o que é e o que não é aceitável nos esforços para prevenir doenças.

O professor Lovell-Badge disse que esses métodos dificilmente serão usados clinicamente em breve:
"Serão necessários muito mais debates sobre ética e sobre como esses métodos serão regulados. E, em muitos países, incluindo a China, é necessário ter mecanismos mais robustos para regulação, fiscalização e acompanhamento a longo prazo."


E eu que já ando neste mundo há uns bons pares de décadas, contraponho: 
- Se uma coisa pode ser feita, ela irá ser feita. Aqui, ali, às claras ou às escuras!

quarta-feira, 19 de julho de 2017

A pagela


- Sr. Manuel! A doença parece estar a ser debelada. A febre alta passou e você já se sente melhor!
- Então, vou ter alta hoje?
- Talvez amanhã, que ainda faltam as análises que confirmam o diagnóstico, pois são elas que irão definir o tempo de tratamento, para que não haja recidivas! … Você agora até está de férias!
- Antes fossem férias! Eu ainda sonho em voltar à Venezuela!
- Tem saudades do Nicolás Maduro?

- Nem me fale nesse tipo! Não passa de um condutor de autocarro a mando do Diosdado Cabello. Esse é que tem os cordelinhos na mão! Vivi lá 37 anos. Decidi vir embora porque o negócio ia de mal a pior e a insegurança crescia todos os dias. No último ano, roubaram-me um camião de transporte e tive de pagar, pelo de resgate, metade do seu valor. Assaltaram-me em casa, amarraram-me, juntamente com a mulher e as minhas filhas e roubaram-me o que puderam. Só em dinheiro foram mais de 10.000 Euros. Foi então que vendi a padaria. Mas ainda lá tenho um restaurante e a casa, à espera de melhores dias.
- Vai ser difícil aguentar aquela política! O homem está cada vez mais isolado! É uma questão de tempo!
- Ouça-o Deus!

- Sr. Manuel! Você invoca o divino para as coisas da política, mas para a saúde, parece confiar mais na intervenção do Dr. José Gregorio Hernández!

















- É verdade! Tenho muita fé nele e sempre que chego à Venezuela, vou a Guacara agradecer, junto a sua estátua, tudo o que ele me tem ajudado na saúde.  Ele lá é conhecido como o médico dos pobres.Até lhes pagava-lhes os medicamentos do seu próprio bolso! O Dr. conhece-o!?
- Fiquei a conhecê-lo, ontem, depois de ter visto a pagela que tem em cima da mesinha de cabeceira e ter ido ao Mr. Google! Eu tenho um fraco por santos. Você conhece o Dr. Sousa Martins?





- Não!
- Tem uma história de vida muito parecida com a do Dr. José Gregório e também tem uma estátua em Lisboa, rodeada por ex-votos dos que lhe atribuem curas milagrosas. Só que este não pode ser santificado por se ter suicidado. O Dr. José Gregório, dentro do azar (foi atropelado pelo primeiro automóvel que apareceu em Caracas), teve mais sorte, e está a caminho da beatificação.


Ambos viveram nos finais do século XIX. O Dr. Sousa Martins de 1843 a 1897 e o Dr. José Gregório de 1864 a 1919, numa época em que a ciência médica sofreu um grande desenvolvimento, com nomes como o de Louis Pasteur (1822-1895), Koch (1843-1910) e Claude Bernard (1813-1878).
Concordo consigo! Homens como estes que puseram a ciência ao serviço das comunidades mais desfavorecidas, merecem veneração! Mas duvido da sua capacidade de intervenção nas doenças actuais. Até porque, no tempo deles, não se conheciam a maior parte das soluções que agora dispomos. Olhe que a Penicilina só ficou disponível, como fármaco, em 1941!

...

terça-feira, 27 de junho de 2017

Doença mental


1:
29 anos. Refere problemas familiares de longa data. "Os pais querem-no expulsar de casa e insultam-no frequentemente, reclamando os cuidados e gastos que têm com ele!".
Não se sente acarinhado. Refere violência mútua e chamadas para a GNR. Pretende morar sozinho, mas não tem estabilidade económica para tal.
Afastou-se da família. Está descontente com o emprego, porque é muito exigente e os problemas em casa não o deixam concentrar. Terá recebido um alerta para possível despedimento. Descreve relação razoável com os colegas, assumindo algumas divergências como "questões de feitio".
Necessita de medicação para dormir, por causa do cão da vizinha, que faz barulho à noite. Pratica desporto no ginásio.
Diz-se "molestado, traumatizado e desesperançado" porque não o valorizam. Fala em arranjar um advogado para processar a família.
Está colaborante e orientado. Atenção e concentração mantidas. Humor deprimido, com labilidade emocional. Sinais de ansiedade e irritabilidade. Baixa auto-estima. Discurso lógico e coerente, pueril e em fluxo acelerado. Sem alterações do conteúdo do pensamento. Traços de personalidade impulsiva. Nega alterações perceptivas. Sem ideação suicida estruturada.
...
Após umas horas diz-se melhor. Acha que exagerou e que estava a ser injusto com a família.... Quer voltar de novo a trabalhar!

2:
45 anos, solteira. Vive com irmã e sobrinha. Desempregada. Iniciou pedido de reforma. Completou a 4ª classe aos 15 anos e tirou o 9º ano através das Novas Oportunidades.Tem diagnósticos de Oligofrenia leve/moderada e de Perturbação bipolar.
Há 15 dias que se sente "mais nervosa... a falar mais... e com toda a gente. A rir-se muito!...".
A acompanhante nota-a "acelerada e desinibida... com períodos de euforia". Não tem tomado a medicação.
Aspecto minimamente cuidado. Colaborante. Desinibida. Discurso espontâneo e coerente, pobre em conteúdos. Sem evidencia de actividade heteróloga.

3:
68 anos. Viúva. Sem filhos. Vive só. Doméstica. Concluiu a 3ª classe aos 12 anos.
Terá passado a noite a tomar banho e, durante o dia, esteve sempre a "tirar a roupa" e com discurso confuso ... "
A deambular sozinha pelo corredor. Prontamente acompanha-me ao gabinete. Está orientada sorridente e calma, mas facilmente irascível. Impaciente com a insistência das questões. Aspecto minimamente cuidado. Humor alternando rapidamente entre a eutimia e a irritabilidade.
Inicia o discurso em voz ciciada, que evolui para timbre normal.
Discurso tangencial, por momentos incoerente - "eu fui ontem visitar uma pessoa... fechei mal a garrafa... molhei os documentos... fiquei com estes... que meti na parede...".
Pergunto como se ocupa em casa e responde "faço essa camisola que tem vestida... essa bata também".
Reconhece estar no hospital. Assume que se despiu da cintura para baixo e que esteve a tomar banho a noite toda.  ... Na minha casinha faço o que quero! ... Estava no jardim e chamei o INEM! ... Não!, ... Chamaram!...".
Por vezes o discurso tem conteúdo de prejuízo: "as minhas vizinhas chamam - ó vaca!, ... querem-me mal!", mas refere "estar sempre bem disposta!".
Sem ideação suicida. Sono irregular. Apetite diminuído com percepção de perda ponderal. Nega consumos etílicos ou tabágicos.

4:
58 anos. Casado. Dois filhos. A atravessar problemas pessoais com a esposa. Em "situação de despejo" da habitação onde reside.
Hoje de manhã terá feito tentativa de suicídio por enforcamento. Há dias que andava a pensar nesta solução para os seus infortúnios.
Apresenta-se com o colar cervical e com alguma dificuldade em falar. Choroso. Humor lábil. Sentimentos de angústia e de desesperança. Ideação suicida não estruturada. Foi já acompanhado por Psiquiatria.
Descreve angústia, irritabilidade, sono fragmentado e anedonia de há um mês. Apetite preservado.
Está colaborante e orientado. Aspecto suficientemente cuidado. Postura adequada. Emociona-se ao falar dos seus problemas actuais. Humor depressivo. Afectos congruentes. Crítica preservada para a situação. Mostra arrependimento perante o gesto realizado. "A minha ideia está fora de questão! ... Arrependido e de que maneira!...".
Nega hábitos etílicos ou tabágicos regulares. Nega toma de medicação regular.

5:
50 anos. Casada, em processo de separação. Tem duas filhas (uma a viver em França).
Trazida ao Serviço de Urgência por comportamentos parassuicidários. Segundo a própria "queria atirar-me aos carros para morrer, porque não tenho para onde ir! ..."
Refere história familiar/social complicada, fornecendo dados pouco consistentes. Diz que foi vitima de violência doméstica por parte do marido e que esteve numa casa abrigo até finais do ano. Nessa altura, e por sua livre vontade, regressou ao domicílio. Entretanto, por dívidas contraídas, a casa teve que ser hipotecada. O marido recusa recebê-la, razão pela qual verbaliza pensamentos de morte.
Está a ter acompanhamento por Psiquiatria, por Perturbação da Personalidade. Já teve dois internamentos psiquiátricos.
Está orientada e colaborante. Bom estado geral. Discurso fluente, lógico e coerente, pobre em conteúdos e muito inconsistente. Humor triste, congruente com a situação vivencial. Sem delírios ou alucinações. Sem ideação suicida estruturada. Juízo crítico preservado.

6:
26 anos. Casado. Vive com a esposa e os três filhos dela e mais a mãe. Tem o 9º ano de escolaridade.
Ontem à noite fez tentativa de suicídio por enforcamento.
Está acompanhado pela esposa. Ambos referem ambiente familiar difícil porque a mãe é muito invasiva e não dá espaço ao casal.
Foi já acompanhado em Psiquiatria por sintomas depressivos, mas faltou à consulta agendada. Ontem, após discussão familiar, foi encontrado pela esposa inconsciente, no monte, com uma corda a dar 3 voltas ao pescoço. Após algumas "compressões" recuperou a consciência e foi trazido ao SU, onde foram excluídas lesões orgânicas.
Segundo a esposa, esta não foi a primeira tentativa de suicídio. Há duas semanas fez alguns cortes nos pulsos com uma faca.
Está orientado e moderadamente colaborante. Postura reservada. Responde apenas quando solicitado, com discurso lógico e coerente, pobre em conteúdos. Sem actividade delirante ou alucinatória. Mantém ideação suicida estruturada.

7:
62 anos. Casada. Três filhos que residem em França.Vive com marido e o pai de quem é cuidadora. Tem a 4º classe.
Trazida ao SU após ingestão voluntária de medicamentos.
Sente-se saturada "de aturar o marido" que "está constantemente a queixar-se de dores de cabeça".
Ontem, após ter regressado da piscina, ingeriu 10 comprimidos, depois de o ouvir queixar outra vez "da cabeça". Diz não ter motivos para viver. Está longe dos filhos e não tem apoio do marido. Pertence ao grupo coral da igreja. Durante a entrevista, atende vários vezes o telemóvel (marido + padre ?).
Aspecto e vestuário muito cuidados e investidos, desapropriados para a sua faixa etária. Postura apelativa, teatral. Discurso coerente e fluente, mas muito circunstancial, focando os seus problemas no marido. Humor eutímico, malgrado referir não "ter motivo para viver". Ligeiramente ansiosa.
Sem actividade heteróloga. Apesar de verbalizar ideias de morte, não apresenta ideação suicida estruturada. Traços de personalidade histeriforme, com conflitos conjugais de longa data.
Está a ser medicada por psiquiatra privado.
Entra-se em contacto telefónico com o marido - Não tem disponibilidade para se dirigir ao hospital. Fica irritada ao sabê-lo. Será um amigo que virá.

8:
32 anos. Solteira. Vive com uma filha menor, após ruptura conjugal. Completou 9º ano, com 2 reprovações. Trabalha num restaurante.
Tem recorrido ao SU por crises ansiosas, com somatizações várias e está medicada com antidepressivos.
Há dois anos que anda mais depressiva, após a saída do companheiro de casa. Afinal está detido por assaltos.
A sua família nunca favoreceu esta relação. Anda receosa e tem medo de ser envolvida nos processos legais do ex-companheiro.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

A motinha






- E como é que ele vai para casa, após a alta?
- Vai de mota!
- De mota?
- Sim! Quando ele veio para o Hospital trouxe a moto na ambulância e pediu para a gente a guardar na arrecadação do serviço! Há quase um mês que lá está! É uma scooter eléctrica para quem tem mobilidade reduzida. Ele leva-a para todo o lado! Se for preciso, de ambulância! Diz que tem autonomia para 70Km. Embora não possa andar na estrada, ele pôs-lhe uma matrícula e anda por todo o lado na aldeia onde mora.
- E não só! Este, está anos à frente do nosso Hospital, que obriga doentes e funcionários a grandes caminhadas, muitas vezes em situações nada fáceis!

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Depressões


1
32 anos. Tem o 9º ano (3 reprovações). Separado há 1 ano, após 12 anos de união de facto. Vive com os pais. Tem um filho.
Está acompanhado pela mãe que descreve tristeza, irritabillidade, choro fácil e pensamentos obsessivos em relação à separação. Fez ameaças à ex-companheira e tem queixas na polícia.
Já foi medicado, mas suspendeu o tratamento, por iniciativa própria. Tem mantido a actividade profissional. Refere ingestão de "muitas” cervejas no final do trabalho. Fuma 1 maço e meio por dia. Nega consumo de outros tóxicos.
Inicialmente muito defensivo, progressivamente mais colaborante, até choro profuso. Por fim, calmo, assume necessitar de ajuda. Humor depressivo. Afectos congruentes. Reconhece, por momentos, a existência de pensamentos suicidas e homicidas. Sem actividade delirante ou alucinatória. Sono fragmentado. Apetite e Insight preservados.

2:
65 anos. Divorciado. Seis filhos. Apenas mantém relação com um deles. Reformado por invalidez. Só sabe escrever o nome. Frequenta Centro de Dia. Tem défice cognitivo e síndrome de dependência do álcool. Foi já seguido em Psiquiatria. Fez tentativa de suicídio em 2014 – atirou-se de um muro de três metros de altura, de que resultou hemorragia fractura da base do craneo e da clavícula esquerda. Mantém consumos. Ontem chegou ao Centro alcoolizado.
Quando etilizado torna-se agressivo e, muitas vezes, precipita-se contra os automóveis.
Está colaborante e parcialmente orientado (não sabe o ano). Atenção e concentração mantidas. Humor eutimico. Sem sinais de ansiedade ou comportamento agressivo. Discurso dificultado pela paralisia das cordas vocais e hipoacusia. Focado nas queixas de "querer comer e só lhe darem comida passada". Sem alterações da percepção ou do conteúdo do pensamento. Nega ideias de morte ou ideação suicida estruturada.

3:
54 anos. Casada. Reside com o marido, filha e genro. Reformada por invalidez. Tem a 4º classe.
É seguida em Psiquiatria por Depressão Major recorrente e ansiedade. Faltou a última a consulta e reduziu a terapêutica por moto próprio.
Refere vários problemas de saúde nos familiares próximos e estar muito preocupada com eles, insónia de há 1 mês, agravamento das cefaleias e anedonia: "Faço porque tenho de fazer! Se os outros não fazem, faço com raiva!".
Tem tido pensamentos de morte, mas sem ideação suicida: . "Acho que ninguém me vai aturar! Sou muito chata!"
Está colaborante e orientada. Aspecto cuidado. Sem labilidade emocional. Ansiosa. Sem alterações da percepção ou do conteúdo do pensamento.

4:
22 anos. Solteira. Reside com os pais e avós. Está desempregada, há 2 semanas - foi despedida, porque “esteve de atestado!”.
Sente-se mal e muito deprimida, após ruptura de relação amorosa, que durava há 1 ano. Ficou em casa. Só chorava e a mãe insistiu para vir ao médico.
Foi já acompanhada por Psiquiatria e tem diagnóstico de Debilidade Intelectual.
Está orientada e colaborante. Bom estado geral. Discurso fluente, pobre em conteúdos, mas lógico e coerente. Humor lábil, congruente à situação vivencial. Sem actividade delirante ou alucinatória.

5:
36 anos.  Tem o 4º ano de escolaridade com reprovações e referência a dificuldades de aprendizagem.Vive em união de facto. Não tem filhos. Trabalha aos fins-de-semana num restaurante. Mãe e irmã com problemas ligados ao álcool. Pai já faleceu.
Está a ser acompanhada em Psiquiatria após episódio de ingestão medicamentosa voluntária. Há dias que se sente mais cansada, o que atribui a sobrecarga profissional.
Ontem, ingeriu dez comprimidos de um ansiolítico “porque queria descansar!”. Depois, sentiu-se muito sonolenta, ficou preocupada, e alertou uma colega. Na admissão tinha alcoolemia de 1.41 g/l. Depois de confrontada com a análise, refere ter ingerido uma garrafa de vinho do Porto. Admite ainda abuso crónico de bebidas alcoólicas, afirmando que não bebe mais, porque o companheiro a controla.
Neste momento, sente-se bem. Verbaliza arrependimento para o seu gesto, embora de forma pouco consistente. Está orientada. Aspecto cuidado. Moderadamente colaborante, com postura defensiva. Contacto pueril. Discurso lógico e coerente, com acentuada pobreza de conteúdos. Humor deprimido, com labilidade emocional. Embora negue ideação suicida, parece ambivalente neste aspecto.
O companheiro descreve consumos regulares de bebidas alcoólicos que são a causa da conflituosidade conjugal. Faz ainda referência a relacionamentos extra-conjugais por parte da doente. Diz que o relacionamento está terminado e que não a aceita em sua casa.

6:
Há dois dias faltou-lhe a medicação e sentiu vontade de beber. Diz ter bebido 3 copos de bagaço. Depois, não se lembra de mais nada.
Segundo a irmã, quando bebe, torna-se verbalmente agressiva com a mãe, o namorado e ela própria.
Aparenta estar etilizada e desinibida. Tem discurso fluente, coerente e lógico. Juízo crítico preservado. Repetiu alcoolemia. Tem 1,33 g/L. A pesquisa de drogas na urina é positiva para canabinóides e benzodiazepinas.

7:
Trazido pela GNR com mandado de condução.
É casado e tem uma filha a estudar. Faz biscates. Tem história de depressão. É grande fumador e nega consumos abusivos de álcool.
Há uma semana teve discussão com esposa por causa de dinheiro que desapareceu em casa. Há dois dias, ela ameaçou abandonar o domicílio e houve ameaças de ambas as partes.
Assume que partiu a chave de casa para a impedir de sair, por ainda lhe manter afecto. Está convencido que ela irá pedir o divórcio.
Refere dificuldades económicas. É o único que trabalha. A esposa aufere subsídio por doença profissional e tem doença oncológica. Nega ideação suicida ou homicida. Diz andar mais nervoso, … mas ela também.
Está colaborante e orientado. Parcos cuidados de higiene, mas com apresentação minimamente cuidada - estava deitado quando o foram buscar a casa. Tem discurso organizado e coerente. Humor ansioso. Sem actividade delirante. Juízo crítico presente.

8:
Solteiro, sem filhos. Trabalha numa fábrica. Tem o 12º ano incompleto. Ex-consumidor de canabinóides. Vem acompanhado pelo pai.
Diz que tem dormido mal e ter suores frios. Anda irritado, o que relaciona com a meteorologia. - "Quando está sol, estou melhor!". Quer ir trabalhar, mas custa-lhe. Sente-se “dentro de uma gaiola”. Foi já seguido em Psiquiatria por Psicose Afectiva. Não tem ido às consultas. Diz ter feito o desmame da medicação sozinho.
- "Fui viciado em drogas! Não ia, agora, ser viciado em medicamentos!". Hoje só quer "medicação para dormir".
Está colaborante e orientado. Aspecto investido. Humor irritável. Discurso coerente e lógico, sem alteração do timbre ou ritmo. Sem actividade heteróloga. Sem pensamentos de morte ou ideação suicida. Crítica mantida.

9:
64 anos. Casado. Dois filhos. Reformado por invalidez. Esteve emigrado. Está em Portugal desde 2001. Foi seguido por Psiquiatria por depressão. Há quatro anos, abandonou a consulta, mas manteve a medicação prescrita. Refere agravamentos sobretudo quando muda a estação do ano. Há duas semanas sem vontade de sair da cama. Nega alteração do apetite. Bom aspecto geral. Discurso coerente, lógico, sem alteração do ritmo ou timbre. Sem pensamentos de morte. Crítica mantida.

10:
68 anos. Casada. Seis filhos. Vive com o marido. Reformada. Escolaridade: 4ª classe.
Tem diagnóstico de "depressão neurótica". Sente-se mais triste e com menos apetite. Com maus pensamentos. "Esta medicação que estou a fazer, há muitos anos, já não está a fazer nada!" ..."Esta doença, é uma doença muito má!".
Aspecto cuidado. Discurso fluente coerente e lógico. Humor deprimido com pensamentos ambivalentes relativamente a morte. Juízo critico conservado.

11:
49 anos. Analfabeta. Vive só.
Vem com carta a referir "alteração do comportamento, abuso crónico de álcool, alucinações visuais e auditivas. Terá invadido a casa de um vizinho com o intuito de "retirar alguém de dentro que estaria fechado!"
Aspecto humilde. Vestida totalmente de preto. Idade aparente superior a real. Discurso pobre, embora lógico e coerente. Humor eutímico. Sem alterações da forma e conteúdo do pensamento. Sono e apetite regulado.
Recusa qualquer tipo de intervenção. Assina termo de responsabilidade.

12:
52 anos. Casada. Vive só. Reformada. Cuida da casa, sem outras actividades.Teve oito filhos (5 vivos). Três emigrados, dois na região Centro.  Marido preso por tráfico de droga.
HIV+. Foi acompanhada em Psiquiatria por perturbação de personalidade. Faltou às consultas.
Nas últimas semanas tem-se sentido muito em baixo, preocupada com o marido e com o seu estado de saúde. Não lhe apetece arranjar-se. Diminuição do apetite.
Colaborante e orientada. Discurso coerente e lógico, sem alteração do ritmo ou timbre. Pensamentos de morte passivos. Crítica mantida.

13:
55 anos. Casada. Dois filhos. Vive com marido e um filho. Funcionaria pública. Completou 12º ano. Esteve já longos períodos de baixa médica.
Diz depressão reactiva a problema laboral. Nas últimas semanas, marcada obsessão pela possibilidade de regresso ao trabalho. Aparente quadro histeriforme. Grita, insónia, inquietação. Sente que a perseguem. Acha que andam carrinhas atrás de si! Chorosa por momentos.
Humor lábil. Verbaliza pensamentos passivos de morte. Sem planos de concretização. Sem alterações da percepção. Sem aparente ideação delirante, quanto muito ideias sobrevalorizadas e discreta auto-referência.


quarta-feira, 19 de abril de 2017

A espera


Tem 99 anos e está à espera do fim. Não tem doença “de maior”, mas todas as limitações do mundo. É cega, mal se aguenta nas pernas, ouve mal e, recentemente, o Clínico Geral que a segue há vários anos, diagnosticou-lhe “demência”, coisa que eu duvido. Ou melhor, às vezes sim, outras, não! A verdade é que a fúria facilmente se confunde com loucura e a raiva que ela tem, por não ser capaz de dar dois passos, seguir uma conversa ou de apreciar uma belo prato de comida (o paladar também já se foi), tolda-lhe o pensamento. Está zangada com o mundo e, como tal, grita. Se pudesse, batia no mundo. No mundo todo! De preferência com um pau.

Foi uma grande mulher, daquelas de mangas arregaçadas e para a frente é que é o caminho. Casou cedo e, dois dias antes do nascimento da sua primeira filha, já era viúva. O telegrama de guerra, sobre a morte do seu marido, chegou quando ainda estava deitada na cama do hospital a amamentar pela primeira vez. Casou, anos mais tarde, com o pediatra da filha e nunca mais falou do homem que perdeu na guerra. O novo não gostava e ... para a frente é que era o caminho. Teve mais três filhos de quem foi mãe implacável. Fez de raiz as roupas das crianças, cozinhou para seis, todos os almoços e jantares e bolo para o lanche, trabalhou com assistente do novo marido, fez voluntariado, correu o mundo de auto-caravana e a Europa, à boleia, com a filha mais velha. Não deve ter parado um segundo. Fortíssima, esta mulher!

Quando a conheci, mais ou menos, há um ano, já estava bastante fraca. Acabava de regressar de três meses no Canadá, onde tem dois dos filhos emigrados. Teve um enfarte no dia anterior à viagem de volta e contou-me, a rir-se da confusão que criou, como teve de ser evacuada de helicóptero da ilha de Galliano. Comia com prazer e queria saber tudo sobre tudo. Passávamos os dias, já lentos, é claro, a ouvir a radio BBC-4 e a discutir os direitos das mulheres ou o sentido da vida, a guerra na Síria ou os atletas russos banidos por doping dos jogos olímpicos. Também vimos os jogos olímpicos - ela sentada na sua poltrona com o olho azul pregado no tecto e eu, ao lado, a fazer o relato das acrobacias dos ginastas da team GB. Ela ria e batia palmas.

Agora grita, quando a pontada lhe atinge as costas, 'Turn it off!!!! Turn it off!!! Please! Turn it off!!!' e eu fico sem saber se ela está a falar da dor ou da vida. Quando a pontada lhe atinge as costas (está amansada pelos analgésicos), suspira profunda e sonoramente, como se fosse um pirata 'Aarrrggg!!!!' e depois diz baixinho ' I can't take this anymore!', eu sei que ela está a falar com Deus. Ela que sempre foi ateia, … a falar com Deus!
Os dias, agora, são passados em silêncio, que é a forma mais correcta de se estar numa sala de espera. De vez em quando, há uma impaciência e um grito, um atirar a mesa para o fundo da cozinha. Qualquer interrupção do silêncio, por mais de dois minutos, leva com um 'Aarrrggg!' e … ficamos assim.
Os netos, antes, telefonavam amiúde e ela perguntava sem pudor 'Como vai a vida amorosa?' e, depois do telefonema, perguntava-me o mesmo a mim. E ria-se. Ou franzia a testa, quando era caso disso. Ou resmungava comigo, que assim não ia lá. Agora, os netos já raramente telefonam e ela também já não tem conversa para eles. O telefone incomoda e quase não se percebe o que dizem do outro lado pelo que ela opta por perguntar apenas 'como vão as coisas contigo' sem se importar com a resposta e despede-se 'All good for the next adventures!', que é uma coisa que vai bem com tudo.
De vez em quando pergunta-me 'And what's next?' e a seguir, que vamos fazer? e eu nem sei como responder. A resposta correcta seria esperamos um pouco mais. Depois, almoçamos. E depois, … esperamos. Às cinco, tomamos o chá que já não te sabe a nada. Darás uma golada e dirás 'Obrigada! Não sabe a nada! Não quero mais!' e será mais um pacote de Twinings pela banca abaixo. Depois, … esperamos. À noite recusarás o jantar depois da segunda garfada. 'Muito obrigada! Estava delicioso! Não quero mais!' ou, se estiveres de mau humor, como é frequente no final do dia, dirás 'it's discusting' e empurrarás o prato para longe. Depois, iremos para cima outra vez num ballet difícil, com berros e tropeções, mão esquerda, mão direita, elevador a apitar escadas acima enquanto gritas 'quero sair' e finalmente havemos de ir para a cama e amanhã repetimos tudo outra vez e … esperamos. Mas não posso responder assim, embora ambas saibamos que é verdade. Digo que a filha deve estar a telefonar, ou desconverso perguntando se não quer usar o quarto de banho ou dizendo que hoje falei com a minha mãe e que ela lhe mandou um abraço. Desconverso um pouco até ela se esquecer da pergunta e me mandar um 'Aarrrrggg!', que significa apenas 'Cala-te! Fico melhor no silêncio!' e voltamos a esperar.

A morte é chata. Nunca mais chega, e a minha amiga, incapaz de se deslocar até à linha de comboio que vemos passar da janela, já não aguenta mais a espera.
Tem uma família maravilhosa. Na mesma aldeia, vive um dos filhos que, religiosamente, a visita pelo menos duas horas por dia. A mais velha, no Canadá, liga todos os dias às sete e veio de propósito, a semana passada, à Inglaterra, para visitá-la durante uma semana. A outra filha liga-lhe três vezes por semana e os telefonemas nunca duram menos de vinte minutos. O mais novo, liga ao domingo no final da tarde. Os vizinhos, malta de quarenta anos, trazem bolo para o chá de domingo. Mas ela já não consegue ouvir ninguém. É muita confusão. O cérebro mete-se no meio e grita 'Aarrrggg!'.
'Turn it off! Turn it off! Please turn it off! You should know how to turn it off! If not call your boss, he certainly knows! Turn it off, please! I can't take this anymore!'.
A vida não é isto. A vida nunca foi isto! A vida é ainda, para ela, uma casa cheia de filhos a brincar no jardim e é injusto que lhe tenham roubado isso. Isso sim, era a vida! Todos a correr à volta dela. Ela a estender a roupa no fundo do jardim e o telefone a tocar - havia um telefone no fundo da casa, para ela poder atender as chamadas do consultório do marido, mesmo quando estava a estender a roupa no fundo do jardim e a correr atrás dos filhos - preciso disto, tenho fome, é uma urgência. Fazer o bolo, alimentar as galinhas, apanhar a fruta das árvores, esquecer o primeiro marido que ela adorava mas de quem nunca mais pôde falar, remendar os joelhos das calças dos miúdos, tratar do marido, que era médico acima de qualquer outra coisa, e ela entendia. Isso era vida. Não isto. Correr, fazer, coser, assar, ouvir, correr, atender o telefone, ajudar nos deveres, correr, estender a roupa, rir, ir ao Canadá, ajudar a construir a casa de férias da filha mais velha, com as próprias mãos, até ser levada para o hospital de helicóptero. Ser importante, ser essencial, ser o centro. Isso era vida! Não isto! Isto, é que não!

Hoje, enquanto a guiava para a cama, agarrou-me as mãos com força - ainda tem muita força, foram muitos anos a ter muita força - cravando as unhas nos meus dedos, como faz quando quer bater no mundo com um pau, mas sabe que não pode. Disse-lhe 'Jean, larga as minhas mãos' e ela apertou ainda com mais força, com o olho azul, muito cego, a olhar para mim cheio de raiva. E eu disse ' Jean! Tenho de coçar o nariz! Se não largas as minhas mãos, vou coçar o nariz na tua cabeça!' e cocei o nariz no ombro dela, com força e ela desmanchou-se a rir e largou as mãos, mais relaxada, feliz por um segundo. Depois, deitou-se e gemeu 'Porquê a mim? Explica-me! Porque é que me roubaram tudo? Os olhos, as pernas, o marido que eu amava quando tinha 22 anos, os filhos, o jardim? O que é que eu fiz para merecer isto? Porquê eu? EXPLICA-ME! Se é assim, prefiro morrer!'


Texto de H.G.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Psiquiatria


*
Após ruptura afectiva com a namorada, há um ano e meio, retomou os consumos alcoólicos e de cannabis. Há dois meses intensificou-os depois de ler um post no Facebook dela, que interpretou como uma mensagem que lhe era dirigida.
Então, começou a ter insónias e a ouvir vozes. "- Ouço a mãe dela a dizer para a matar!"
Abandonou o trabalho e veio para Portugal com esse objectivo. Comprou um bidão de gasolina para pegar fogo "a ela, ao seu novo companheiro e à família dele!".
Continua a ouvir a voz da falecida, como "um eco na cabeça", a dizer para matar a filha.
"-Ela já teve um acidente de viação! Eu rezei e o acidente aconteceu! Até me senti melhor! Só depois soube que não morreram!"
Considera-se capaz de influenciar, com o pensamento, o destino de outras pessoas. Assegura que já anteriormente as suas ideias se concretizaram: "Eu dei uma semana à mãe dela, e ela morreu na semana a seguir!".
Nas últimas noites tem tido insónia total.
Está orientado, calmo e colaborante. Atenção captável e concentração mantida. Aspecto e vestuário cuidados. Discurso espontâneo e coerente, centrado na ruptura do relacionamento amoroso. Humor disfórico. Mantém ideação homicida. Nega outro tipo de actividade alucinatória.

*
32 anos. "Solteiro e descomprometido!". Vive com os pais. Sempre praticou desportos. Define-se como "muito inquieto, distraído e de extremos". Tem curso profissional. Há algum tempo, trata de cavalos. -"Sempre fui muito sensível. Os cavalos até se põem-se de pé para brincar comigo!”
Relata pensamentos confusos. Não sabia nada e começou a ler livros sobre o poder da mente “positiva” e teve um despertar espiritual. -“Coisas que me interessam, sou capaz de ler!”.
Começou a perceber cheiros e sinais, e a ter capacidade para interpretar os animais. Já há dez anos, ao passar por Fátima, sentiu uma espiritualidade muito forte.
Namorou e traiu a namorada várias vezes. Agora não, porque teme um castigo de Deus.
Tem um padre amigo, a quem está mais ligado. Gosta de passear pelas Igrejas, para ver como as põem para os fregueses.
Diz que se emociona com facilidade. Ontem “foi o pior dia da sua vida!”, por causa do falecimento de um gato. Di-lo cabisbaixo e até choroso.
Mantém consumo de cannabis, embora receie que o fumo possa atrair o mal. Não o quer suspender porque lhe causa elevação do espírito e porque um naturopata lhe disse que havia uma pessoa perto que ficava com todo mal que ele fizesse.

*
Casado. Tem 2 filhos. Trabalhou na construção civil. Desempregado há 4 anos.
Comprou uma mota pesada há uma semana e, desde de então, está em conflito com a esposa. Diz que ela o culpa de não ajudar com as despesas de casa e de ter gasto todo o dinheiro com a mota. Além disso, a esposa terá comentado a situação com um vizinho, o que lhe desagradou.
Ontem, depois de mais uma discussão, deu "um golpe em cada pulso" e tomou os medicamentos dela.
Sente-se "péssimo"... porque as coisas, em casa, não funcionam bem! A esposa não lhe fala, bloqueou-lhe as contas e hoje enviou-lhe uma mensagem a dizer que quer a separação. Refere não ter intenção de vender a mota, porque ... "não é pessoa de se rebaixar!"
Está colaborante e orientado. Tem aspecto cuidado, postura defensiva, contacto ocular escasso. Fácies triste. Humor depressivo. Discurso escasso e pobre, embora coerente. Timbre baixo. Sono e apetite regulado. Juízo critico mantido.
Já foi seguido em consulta de psiquiatria por perturbação de personalidade.

*
Trazido, algemado, pela GNR, por agressividade.
Há dois dias que está descontrolado. Ameaça matar os pais.
É já seguido em Psiquiatria. Tem consumos regulares de haxixe e má adesão a terapêutica. A mãe diz que recusa ou finge tomar a medicação.
Está verborreico e com discurso incoerente.
Acha que o mundo é uma luta entre as boas e as más energias, onde, às vezes, ganham as más.
Refere que foi uma “pequena confusão”. Sentiu coisas muito desagradáveis. Que os pais estavam possuídos. A mãe, pelo dono da TMN, que controla as linhas de telefone e o pai pelo dono da Google.
Tinha chegado a casa contente, com a cabeça cheia de pensamentos muito bonitos... de rir, de amor, de comédia. Foi para o quarto fumar e soube-lhe tão mal, que achou que podia ser algum veneno...

quarta-feira, 15 de março de 2017

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A Roulote-Bar



Na sequência das alterações recentes que desviam doentes para as traseiras do hospital, e na impossibilidade de espaço para um Bar coberto, ir-se-à abrir em breve um concurso para uma Roulote-Bar, que tem por fim servir os inúmeros doentes que diariamente para ali são referenciados para colher análises, para tratamentos em Fisiatria e para as consultas para ali deslocalizadas.

Foi decido cativar dois lugares do parque de estacionamento dos funcionários, para que a Roulote-Bar possa suprir esta crescente necessidade. No inverno, será colocada uma mesa encostada ao vidro exterior do corredor onde se situa a porta da Central de Colheitas e, no verão, será permitida uma pequena esplanada nas imediações.
Esta modernidade, juntamente com o "vai-vem" eléctrico, irá, por certo, contribuir para a humanização e eficiência do nosso hospital.

Bem haja quem assim decide!

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O Transfer


De acordo com as normas europeias para com as pessoas com mobilidade reduzida, estamos em vias de nos equipar com um pequeno "Vai-vem" eléctrico de cinco pessoas, para transportar os muitos doentes crónicos, da Entrada do Hospital para a Central de Colheitas, que recentemente foi colocada no outro extremo do edifício.
Resolve-se assim o problema dos idosos com graves problemas cardiovasculares e neuromusculares que, há cerca de um mês, lutam com a dispneia e as muletas, para chegarem vivos àquele local.  

Esta opção só foi possível devida à excelente prática de contenção de gastos supérfluos em medicamentos e material de uso clínico, para além da contratação de quem, em concursos públicos, mostrou maiores competências, acabando de vez com as políticas de favorecimento por "cunhas" e dos funcionários que tiraram um qualquer curso como trabalhador estudante.

O "Vai-vem" irá funcionar durante toda a manhã. Prevê-se a sua desactivação quando a Central de Colheitas e algumas Consultas Externas forem deslocadas para fora do Hospital, dando cumprimento à norma 3.77 do Memorando da Troika: Mover alguns serviços ambulatórios dos hospitais para as USF. (2T 2012)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Indecisão Clínica


Há profissões em que só é necessário conhecer as fórmulas e aplicá-las, sem muito pensar.
Há outras que exigem soluções individualizadas e que implicam riscos. Nessas, exige-se "estofo”! 

Mário Soares dizia que um político “assume-se”. Mas não são só os políticos que, para o bem e para o mal, devem assumir as suas opções, sem se esconderem atrás das ineficiências dos outros. Todos os indivíduos com curso superior o devem fazer, principalmente quando lidam com “coisas de muito valor”, como são as vidas humanas.

Um local onde a maioria dos doentes é vítima do adiar de soluções, talvez ficasse melhor identificado como "Unidade de Indecisão Política"!

sábado, 21 de janeiro de 2017

Uns cachaços



Estava em vias de fechar o SClinico, quando a enfermeira da Manchester, me abordou.
- Dr.! Espere um pouco! Triei agora mesmo um doente para si!
É uma rapariga agradável, que sabe estar mesmo quando a confusão é mais que muita e que nunca me penaliza se eu me "passo". Sem grande convicção, como a resistir-lhe, antes de me sentar de novo, arrisco:
- Oh! Teresa! Eu amanhã tenho de estar no Serviço às oito!

Não vale a pena. Ela sabe que me é impossível dizer-lhe não, e continua.  
- Está acompanhado pela GNR. É só para decidir se vai transferido para Psiquiatria. Dizem que bateu na mãe!
- Para Psiquiatria!? Agora os agressores vêm para o Serviço de Urgência? Não me digam que enviaram a vítima para a Cadeia?, digo, antes de lhe ver os antecedentes.
Depois, dou uma rápida passagem pelo seu historial no computador.
Tem 30 anos. Há seis meses foi trazido para uma observação compulsiva e foi orientado para o CRI (Centro de Respostas Integradas) por dependência alcoólica e tabágica. Última consulta há 4 meses. Faltou à seguinte.

Está acompanhado por um irmão que quer falar antes que o doente entre.
- Faz favor! Então o que é que se passou?
- Foi o meu irmão que bateu na minha mãe. Já não é a primeira vez! Há um ano que anda alterado, bebe e faz desacatos. Ultimamente anda para aí a dizer que a minha mãe e eu lhe ficámos com um prémio que ganhou no Euromilhões. 
- E droga-se?, pergunto, por o ter lido no registo da consulta de Psiquiatria.
- Isso não sei, que eu não vivo perto! Ele esteve três anos emigrado, a trabalhar na construção. Quando veio ficou a viver em casa da minha mãe, mas como não trabalha, os conflitos com ela têm vindo de mal a pior. Ele não está bom da cabeça.
- Ok! Espere um pouco lá fora! Já percebi que você também anda na mira dele!
- É verdade! Ele só não se atira a mim porque tem medo que eu lhe dê forte!

Sai um e entra o outro, acompanhado por um GNR.
- Faz favor de se sentar!
É um homem forte com mãos grossas e botas de trabalho bem gastas. Usa uma sweatshirt cinzenta com capuz e uma jeans azuis já esquecidas do cheiro do sabão.
Olha para trás, para confirmar se o GNR também entrou. Senta-se mole e de olhos baixos. Responde contrafeito.
- Você sabe porque é que o trouxeram aqui, ao Hospital?
- Deve ter sido por bater na minha mãe!
- E você estava bêbado, ou quê?
- Eu só bebi um copo ao jantar!
- E hoje consumiu droga?
- Fumei um charro, mais nada!
- E você acha bem ter batido na sua mãe?
Levanta os olhos, como a rebobinar o filme dessa noite e, depois de alguns segundos em que me olha de soslaio, responde, a desmerecer todo aquele envolvimento despertado pela denuncia do seu acto:
- Eu só lhe dei uns cachaços!

- Ahh!

São 24h. Não tenho condição para lhe avaliar a disfunção. A minha vontade é receitar-lhe uma noite nos calabouços e que venha amanhã para observação por psiquiatria, mas, como não falta para aí gente disposta a criar problemas a quem se preocupa com os gastos públicos, contenho-me e pego no telefone, enquanto lhes peço para aguardarem fora da sala.
- Está!? Sra. Telefonista. Por favor faça-me uma chamada para o Hospital Central.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Prioridades



Manobras evasivas devem ser aquelas em que um doente manhoso, utiliza engenhosamente artifícios ambíguos, para, de modo dúbio, se esquivar, subtilmente, aos últimos lugares da fila.