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segunda-feira, 23 de abril de 2018

Consulta de Oftalmologia Abril 2018


- Eu vou receitar-lhe uma gotas novas para colocar nos olhos. Não sei se lhe vão fazer mal ao coração! ... Mas veja! … Se se sentir mal, não tome!…
Terá sido assim que acabou a última consulta no Hospital que, em nome de especialista de renome, foi efectuada por jovem interna, inexperiente com as expectativas sobre a visão, terapêutica ou efeitos laterais desta, de um jovem de 97 anos.
O facto é que colocou uma gota nos olhos e logo o coração se contorceu em espasmos e arritmias e gritos aflitivos, mais do que esperados…

As queixas têm sido recorrentes: - Vejo cada vez pior!, O teu pai não vê nada!, O avô não percebe nada da consulta!, Não presta atenção às indicações médicas!…
Lá vou ouvindo também com a convicção de que realmente não há muito mais a fazer, e que será tempo de nos conformarmos com as maleitas que a idade nos vai oferecendo, para nos tornar gratos por cada dia que desfrutamos da vida.

Mas o bichinho fica a roer por dentro: …e se, afinal, há algo mais que se possa fazer?
Aí vou eu marcar mais uma consulta na privada (como um bom português), para tirar a limpo.

Lá vamos os três para a sala de espera, que estava a abarrotar, onde o paciente encontrou publico para tentar cantar uma cantiguinha - Os teus olhos verdes” - alto, muito alto, que a consulta de ORL, para tirar a cera, ainda tarda….
Enquanto esperamos, faço as recomendações do costume – Vê lá o que dizes!, ... Responde objectivamente às perguntas!, ... Não entres em conversas que não têm nada a ver com os olhos!…

Com algum atraso, lá somos chamados para a porta da Doutora, depois de passar pelo crivo das tensões oculares.
Continua a falar alto e a voz ecoa agora pelo corredor silencioso dos gabinetes de consulta. Embaraçoso q.b.
Quando atendidos, preocupo-me em que a doutora entenda o motivo da consulta e confesso que quase o não deixei falar, para que a conversa não se enviesasse e se perdesse o foco.

-Muito bem! Ora vamos lá ver primeiro o olho direito. Senhor Engenheiro diga lá o que vê (a 5 metros)
P N T U V X H
-E agora estas
X K L P O C R
-Muito bem e estas, atreve-se?
A D Z não sei bem talvez N …não. É   H, P L S
-E a última linha? Também com uma pequena hesitação e está perfeito!
Mesma cena com o olho esquerdo.
-Em visão binocular tem 80%! Aos 97 anos! Pode ter campos restritos, mas a visão está lá. Tensão normal. Cristalino operado e transparente humor aquoso com algumas floculações próprias da idade. Uma sinéquia pós-operatória sem grande significado… Mácula sem escavação, alguma palidez provavelmente de eventos vasculares, mas globalmente muito bem.
Portanto, Sr. Engenheiro, pode continuar com a medicação de base e manter uma boa lubrificação do olho!

- Pois, Sr.ªDra.! Eu passo muito tempo ao computador.
- Claro! Não se esqueça de piscar e lubrificar os olhos.
- É a escrever o meu blog - Vivências Mineiras ponto blogspot ponto com, mas a minha filha não quer que eu fale disso! Aliás, eu vinha cá na esperança que me fizesse um transplante de células estaminais, na retina, para recuperar a visão.
- Como sabe isso?
- É da revista "Nature", conhece?
- Sim! Mas sabe, esse tratamento não é para si! Isso é para tratar a doença dos velhos, coisa que o Sr. Eng. não tem.
...
E foi preciso empurra-lo porta fora.

Escrito pela filha M.H.S.G., 

terça-feira, 13 de março de 2018

Um marido preocupado

Era um casal "diferente". Ambos na casa dos setenta. Vinham à consulta como quem ia à Ópera. Ela de tacão alto, roupa vistosa e perfume de encher pavilhão. Ele aprumado, sapato a espelhar e capachinho. -Doutor! Não se nota, pois não?! ... É Eurocave!!, à minha primeira olhadela para o seu cabelo.
Ajeita-lhe a cadeira antes de se sentar.
- Então dona Beatriz, como vai?, pergunto.
Ela tenta responder, mas é ele que se chega à frente para relatar um rol interminável de queixas. Ela faz ligeiras inclinações de cabeça e pisca os olhos, para anuir.
Reparo que ele tem uma cábula na mão, para se não perder. Escreveu-a na máquina de escrever do filho, no dia anterior, para não se esquecer de NADA! Mudou a tinta para o vermelho, para chamar a atenção aos pontos principais, mas esqueceu pormenores e rasurou à mão por cima.
- Posso ficar com essas notas? É mais fácil ser eu a lê-las!
- Oh, Dr.! Fique com elas! Escrevi-as de propósito para si!
- Obrigado!
... ...

(Dada a fraca qualidade das fotos, sugere-se: 
1: clique nas imagens.
2: clique no botão direito do rato e abra-as num novo separador.
3- no novo separador, clique nas imagens para as aumentar)

quarta-feira, 19 de abril de 2017

A espera


Tem 99 anos e está à espera do fim. Não tem doença “de maior”, mas todas as limitações do mundo. É cega, mal se aguenta nas pernas, ouve mal e, recentemente, o Clínico Geral que a segue há vários anos, diagnosticou-lhe “demência”, coisa que eu duvido. Ou melhor, às vezes sim, outras, não! A verdade é que a fúria facilmente se confunde com loucura e a raiva que ela tem, por não ser capaz de dar dois passos, seguir uma conversa ou de apreciar uma belo prato de comida (o paladar também já se foi), tolda-lhe o pensamento. Está zangada com o mundo e, como tal, grita. Se pudesse, batia no mundo. No mundo todo! De preferência com um pau.

Foi uma grande mulher, daquelas de mangas arregaçadas e para a frente é que é o caminho. Casou cedo e, dois dias antes do nascimento da sua primeira filha, já era viúva. O telegrama de guerra, sobre a morte do seu marido, chegou quando ainda estava deitada na cama do hospital a amamentar pela primeira vez. Casou, anos mais tarde, com o pediatra da filha e nunca mais falou do homem que perdeu na guerra. O novo não gostava e ... para a frente é que era o caminho. Teve mais três filhos de quem foi mãe implacável. Fez de raiz as roupas das crianças, cozinhou para seis, todos os almoços e jantares e bolo para o lanche, trabalhou com assistente do novo marido, fez voluntariado, correu o mundo de auto-caravana e a Europa, à boleia, com a filha mais velha. Não deve ter parado um segundo. Fortíssima, esta mulher!

Quando a conheci, mais ou menos, há um ano, já estava bastante fraca. Acabava de regressar de três meses no Canadá, onde tem dois dos filhos emigrados. Teve um enfarte no dia anterior à viagem de volta e contou-me, a rir-se da confusão que criou, como teve de ser evacuada de helicóptero da ilha de Galliano. Comia com prazer e queria saber tudo sobre tudo. Passávamos os dias, já lentos, é claro, a ouvir a radio BBC-4 e a discutir os direitos das mulheres ou o sentido da vida, a guerra na Síria ou os atletas russos banidos por doping dos jogos olímpicos. Também vimos os jogos olímpicos - ela sentada na sua poltrona com o olho azul pregado no tecto e eu, ao lado, a fazer o relato das acrobacias dos ginastas da team GB. Ela ria e batia palmas.

Agora grita, quando a pontada lhe atinge as costas, 'Turn it off!!!! Turn it off!!! Please! Turn it off!!!' e eu fico sem saber se ela está a falar da dor ou da vida. Quando a pontada lhe atinge as costas (está amansada pelos analgésicos), suspira profunda e sonoramente, como se fosse um pirata 'Aarrrggg!!!!' e depois diz baixinho ' I can't take this anymore!', eu sei que ela está a falar com Deus. Ela que sempre foi ateia, … a falar com Deus!
Os dias, agora, são passados em silêncio, que é a forma mais correcta de se estar numa sala de espera. De vez em quando, há uma impaciência e um grito, um atirar a mesa para o fundo da cozinha. Qualquer interrupção do silêncio, por mais de dois minutos, leva com um 'Aarrrggg!' e … ficamos assim.
Os netos, antes, telefonavam amiúde e ela perguntava sem pudor 'Como vai a vida amorosa?' e, depois do telefonema, perguntava-me o mesmo a mim. E ria-se. Ou franzia a testa, quando era caso disso. Ou resmungava comigo, que assim não ia lá. Agora, os netos já raramente telefonam e ela também já não tem conversa para eles. O telefone incomoda e quase não se percebe o que dizem do outro lado pelo que ela opta por perguntar apenas 'como vão as coisas contigo' sem se importar com a resposta e despede-se 'All good for the next adventures!', que é uma coisa que vai bem com tudo.
De vez em quando pergunta-me 'And what's next?' e a seguir, que vamos fazer? e eu nem sei como responder. A resposta correcta seria esperamos um pouco mais. Depois, almoçamos. E depois, … esperamos. Às cinco, tomamos o chá que já não te sabe a nada. Darás uma golada e dirás 'Obrigada! Não sabe a nada! Não quero mais!' e será mais um pacote de Twinings pela banca abaixo. Depois, … esperamos. À noite recusarás o jantar depois da segunda garfada. 'Muito obrigada! Estava delicioso! Não quero mais!' ou, se estiveres de mau humor, como é frequente no final do dia, dirás 'it's discusting' e empurrarás o prato para longe. Depois, iremos para cima outra vez num ballet difícil, com berros e tropeções, mão esquerda, mão direita, elevador a apitar escadas acima enquanto gritas 'quero sair' e finalmente havemos de ir para a cama e amanhã repetimos tudo outra vez e … esperamos. Mas não posso responder assim, embora ambas saibamos que é verdade. Digo que a filha deve estar a telefonar, ou desconverso perguntando se não quer usar o quarto de banho ou dizendo que hoje falei com a minha mãe e que ela lhe mandou um abraço. Desconverso um pouco até ela se esquecer da pergunta e me mandar um 'Aarrrrggg!', que significa apenas 'Cala-te! Fico melhor no silêncio!' e voltamos a esperar.

A morte é chata. Nunca mais chega, e a minha amiga, incapaz de se deslocar até à linha de comboio que vemos passar da janela, já não aguenta mais a espera.
Tem uma família maravilhosa. Na mesma aldeia, vive um dos filhos que, religiosamente, a visita pelo menos duas horas por dia. A mais velha, no Canadá, liga todos os dias às sete e veio de propósito, a semana passada, à Inglaterra, para visitá-la durante uma semana. A outra filha liga-lhe três vezes por semana e os telefonemas nunca duram menos de vinte minutos. O mais novo, liga ao domingo no final da tarde. Os vizinhos, malta de quarenta anos, trazem bolo para o chá de domingo. Mas ela já não consegue ouvir ninguém. É muita confusão. O cérebro mete-se no meio e grita 'Aarrrggg!'.
'Turn it off! Turn it off! Please turn it off! You should know how to turn it off! If not call your boss, he certainly knows! Turn it off, please! I can't take this anymore!'.
A vida não é isto. A vida nunca foi isto! A vida é ainda, para ela, uma casa cheia de filhos a brincar no jardim e é injusto que lhe tenham roubado isso. Isso sim, era a vida! Todos a correr à volta dela. Ela a estender a roupa no fundo do jardim e o telefone a tocar - havia um telefone no fundo da casa, para ela poder atender as chamadas do consultório do marido, mesmo quando estava a estender a roupa no fundo do jardim e a correr atrás dos filhos - preciso disto, tenho fome, é uma urgência. Fazer o bolo, alimentar as galinhas, apanhar a fruta das árvores, esquecer o primeiro marido que ela adorava mas de quem nunca mais pôde falar, remendar os joelhos das calças dos miúdos, tratar do marido, que era médico acima de qualquer outra coisa, e ela entendia. Isso era vida. Não isto. Correr, fazer, coser, assar, ouvir, correr, atender o telefone, ajudar nos deveres, correr, estender a roupa, rir, ir ao Canadá, ajudar a construir a casa de férias da filha mais velha, com as próprias mãos, até ser levada para o hospital de helicóptero. Ser importante, ser essencial, ser o centro. Isso era vida! Não isto! Isto, é que não!

Hoje, enquanto a guiava para a cama, agarrou-me as mãos com força - ainda tem muita força, foram muitos anos a ter muita força - cravando as unhas nos meus dedos, como faz quando quer bater no mundo com um pau, mas sabe que não pode. Disse-lhe 'Jean, larga as minhas mãos' e ela apertou ainda com mais força, com o olho azul, muito cego, a olhar para mim cheio de raiva. E eu disse ' Jean! Tenho de coçar o nariz! Se não largas as minhas mãos, vou coçar o nariz na tua cabeça!' e cocei o nariz no ombro dela, com força e ela desmanchou-se a rir e largou as mãos, mais relaxada, feliz por um segundo. Depois, deitou-se e gemeu 'Porquê a mim? Explica-me! Porque é que me roubaram tudo? Os olhos, as pernas, o marido que eu amava quando tinha 22 anos, os filhos, o jardim? O que é que eu fiz para merecer isto? Porquê eu? EXPLICA-ME! Se é assim, prefiro morrer!'


Texto de H.G.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

GPS


O meu GPS, de há 35 anos, para fazer domicílios no Porto em associação a este pequeno mapa.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Eu sou do tempo



Dos automóveis pelo eixo da via.
Dos cantoneiros a cumprimentar os carros que passavam.
Dos homens de chapéu.
Das mulheres não usarem calças nem tomarem a pílula.
Do telegrama para notícias de emergência.
Dos pombais para o arroz de borrachos.
De não se servir cerveja sem acompanhamento.
De comer pinhões com chave para os abrir.
Do fazer a barba com navalha.
Do banho semanal.
Dos burros de carga e das carroças dos ciganos
Da ceifa e da monda à mão.
Dos ferradores no centro da cidade.
Das licenças de isqueiro e dos cigarros avulso.
Dos cadernos de duas linhas e do papel mata-borrão.
Das cartas-de-amor e das contas em papel.
Da lei a proibir andar descalço na cidade e do penico no quarto de dormir.
Das reguadas e dos puxões de orelhas.
Das vendas a granel e dos cartuchos nas mercearias.
Dos urinóis públicos de ferro no centro das cidades.
De ser o menino Jesus a dar as prendas do Natal.
Dos bebés virem de cegonha de Paris.
Da verdade só ser uma e da Rádio Moscovo não falar verdade.
Da Emissora Nacional e do Rádio Clube Português.
Da paralisia infantil e das mortes por apendicite.
Dos cigarros "não fazerem mal".
Do beber vinho ser dar de comer a um milhão de portugueses.

Tão depressa que o tempo passa

domingo, 16 de novembro de 2014

Santiago

E lá fui eu a Santiago ver o “Servizo de Cardioloxía, do Complexo Hospitalario Universitario de Santiago de Compostela, pela mão do seu director Dr. José Ramon Gonzalez-Juanatey.
Para quem está, há anos, a observar a degradação do Serviço Nacional de Saúde, ouvi-lo, é uma lufada de ar fresco -  liderança por quem sabe, trabalho de equipa e muito pouca vaidade vã. Um paradigma que nos foge, a 178Km (1 hora e 50 minutos) deste Lethes fictício.

Depois, o abraço ao santo, a purificação pelo incenso, a “Cidade da Cultura” e as ruas da cidade.
Um tempo de encontros.


domingo, 2 de novembro de 2014

Dia dos Fiéis Defuntos

Lembrar os mortos e visitar-lhes o túmulo. Uma forma de manifestar saudade, respeito e carinho, mas também um compromisso social e protocolar.


sábado, 1 de novembro de 2014

Vidas breves


Porque hoje é dia de lembrar os mortos, o pensamento foge-me para jovens profissionais de saúde do Hospital de Viana do Castelo, que nos deixaram precocemente.

João José Lima Pereira, 41 anos. Um bom amigo. Interno de Cirurgia Geral do último ano de especialidade, com muito para dar, como pessoa e como técnico. Em 1995 de "doença prolongada".







Ricardo Marques, 35 anos.
Assassinado em 20/06/1997 em Baidoa - Somália, onde integrava uma equipe dos «Médicos Sem Fronteiras». .
Tinha acabado a especialidade de Ginecologia e Obstetrícia e foi para uma terra onde é interdito a um homem ver o corpo de uma mulher que não seja a sua.


António Abel Leitão Neto Parra,  45 anos. Um bom amigo. Foi director da Farmácia do Hospital de Viana do Castelo. Vendia saúde e competência. Em 08/06/2000, de morte súbita quando todas as portas se lhe abriam.


José Manuel Loureiro Albuquerque Pinho (1955 – 2003) – Anestesista e vizinho da juventude.
Uma catástrofe abateu-se sobre aquela família com fortes raízes em Albergaria-a-Velha. Em poucos anos faleceram o pai (professor do ISCAP), a mãe (Assistente na Universidade de Farmácia do Porto), ele e dois irmãos (um médico que foi director do serviço de Gastrenterologia do Hospital de Santo António, e outro advogado). Cada um com a sua doença e todos no auge das suas carreiras. Só resistiu uma irmã.


José Torcato Jácome Passos, 45 anos. Cirurgião. "Foi também um activista político e, nessa qualidade, foi nomeado para o cargo de Director do Centro Hospitalar do Alto Minho" (entre 1999 e 2002).
Procurou mulher noutras culturas e teve uma vida complicada demais para esta cidade tão pequena. Sem pedra para essa grade, abandonou-nos em 2005.

Dra. Isabel Granado,  28 anos. Um passarinho que por aqui passou a caminho de Braga para aprender a tratar de outros passarinhos ainda mais pequenos.











Mas nem só de médicos se fizeram óbitos. Outros nos deixaram na força da idade.
Regina Pureza Leite (1958-1995)  - a primeira da minha era. Uma vaga lembrança de quem estava na secretaria da Farmácia, bonita, organizada, responsável.




Maria João Sousa Lima Carneiro (1971 - 1999). Um anjo à porta da Farmácia, apanhada pela gadanha quando lutava por dar mais vida à vida.

Eduardo Lopes Rodrigues (1964-2007). Um drama em muitos actos de um homem eficiente e discreto.
Enf Lúcia Cavalheiro (1965-1998) - sapato alto e passo curto para mostrar que se é profissional.

E outros, que a memória trai, e que também partiram. O Luciano, a Dra. Eugénia, ...
...
Tão depressa que o tempo anda!

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Professor


Filinto Elisio Vieira da Costa, era respeitado pela exigência de rigor a que obrigava, e temido pelo insólito da sua postura como professor.
No início de cada ano, ao apresentar-se aos alunos, clarificava a sua disponibilidade, sibilando os "sss":
 -Dentro desta sala, somos todos iguais! ... Com uma diferença! Daqui ... manda-ssse, e daí .... obedeccce-ssse!
...
Histórias de outros tempos, que passam de pais para filhos.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Quatro Santos, Um Carneiro e Dois Andrades


Na linha da frente, sentados: a minha bisavó Maria, o 2º marido - Faustino e a minha avó Helena.
De pé, na fila de trás, e da esquerda para a direita, os 3 filhos do 1º casamento - Alberto, Amílcar, o meu avô António,  e Faustino do 2º .
Torres Vedras - Fevereiro/1926, um mês depois do nascimento da minha mãe.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Georgina























A minha avó, que não conheci. Nasceu em Constância.
Faleceu em Macedo de Cavaleiros, com 36 anos, em 11-3-1927.
Teve seis filhos.
A sua morte precoce criou um silêncio em seu redor.
Tão estranho!

Casamento de Isidoro da Silva Gomes com Georgina Ferreira Rocha

Às catorze horas e trinta minutos do dia doze de Dezembro do ano de mil novecentos e doze, na rua Luiz de Camões e casa residência de João Rocha, perante mim, José Vicente Anes d’Oliveira, funcionário do Registo Civil, compareceu o noivo, Isidoro da Silva Gomes, vinte e dois anos de idade, estado de solteiro, natural da freguesia de São Julião, Concelho de Constância, domiciliado e residente na Praça Alexandre Herculano, desta vila de Constância, filho legítimo de Florêncio da Silva Gomes, natural da dita freguesia de São Julião e de Joaquina da Conceição, de profissão doméstica, natural da freguesia e concelho de Proença-a-Nova e residentes com seu filho; e a noiva, Georgina Ferreira Rocha, de vinte anos de idade, de profissão doméstica, no estado de solteira, natural da dita freguesia de São Julião, domiciliada e residente na dita rua Luiz de Camões desta vila de Constância, filha legítima de João Rocha, marítimo, e de Maria Ferreira de profissão doméstica, ambos naturais da dita freguesia de São Julião e residentes com sua filha, se declaram perante mim e as testemunhas adiante nomeadas que, de sua livre vontade, desejavam celebrar, como por este acto celebram, o seu casamento definitivo, segundo o regime de comunhão de bens.

Tendo previamente procedido em tudo conforme determina a lei, cumprindo todas as formalidade do artigo duzentos e vinte do Código do Registo Civil e nada havendo que a isso me impedisse em nome da Lei e da República Portuguesa, declarei os contraentes unidos pelo casamento.

Foram testemunhas presentes a todo este acto, os quais declararam querer ser padrinhos, Florêncio da Silva Gomes, pai do noivo contratante e José Vicente da Silva Rocha, solteiro, maior comerciante morador nesta vila de Constância e testemunhas João Soares Esteves casado, administrador do Concelho de Constância e José Francisco Gameiro Burguete, casado, comerciante e morador nesta vila de Constância.

E para constar, lavrei este registo que vai ser assinado por todos e por mim, José Vicente Anes de Oliveira, ajudante da Repartição do Registo Civil depois de ser perante todos lido e conferido com o seu extracto. Foi dado por escrito a autorização a que se refere o artigo quinto do Decreto de vinte e cinco de Dezembro de mil novecentos e dez.

A importância dos emolumentos é de seis escudos e sessenta centavos, estando neles incluído a quantia de cinco escudos por o casamento ter sido efectuado em casa e a importância dos selos que vão colados no extracto e de um escudo e vinte centavos e cinco milésimas.

Constância, em doze de Dezembro de mil e novecentos e doze.

 Isidoro da Silva Gomes
Georgina Ferreira Rocha
Florêncio da Silva Gomes
José Vicente da Silva Rocha
João Soares Esteves
José Francisco Gameiro Burgete
José Vicente Anes de Oliveira

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Saudosismos

“O café é água! É só vaidade!”, rouquejava com sentido desprezo, ao passar. Ainda não eram quatro da tarde e já mal se segurava.
Durante um tempo, aquele grito, foi rotina. Depois, como seria de esperar, desapareceu.

O Café era um modo de estar. Uma sala de estudo nas horas mortas, com sons. O de quem entra e o de quem sai, o das chávenas que tilintam, o sussurrar dos pequenos gestos simultâneos à chegada de uns passos femininos e o omnipresente cheiro a café e a tabaco.
Um livro, um café, às vezes meia torrada. As mesas marcadas pela preferência dos poucos clientes daquelas horas. Uns estudavam, os reformados olhavam para a rua e o Sr. Sousa zelava, enquanto lia os jornais desportivos que ia buscar à borla à tabacaria que ficava na entrada.

De longe a longe surgia do nada o sr. Lopes, escanzelado, de fato negro, a sussurrar-nos ao ouvido: “Quer preservativos?”, para depois dizer com voz mais clara, enquanto se endireitava: ”...e …pasta dos dentes?, e …creme da barba? Também temos pensos rápidos e outras pequenas coisas para a higiene diária!”, e abria o expositório da mala, para nos tirar do embaraço inicial.

Depois, mudavam as horas e, surgia outra vida. A rua também era ali. 

segunda-feira, 5 de março de 2012

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Intolerância de ponto






















... concatenar,implementar, paradigma, estrangulamento, ajustamento, ...

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Apelidos invulgares




Falamos deles, porque, em qualquer altura, hesitámos usá-los num relacionamento directo, mesmo quando vivemos no meio de Chícharos, Calazans, Gaitinhas, Caixinhas, Chibeles e Cachopos.
Lembro-me do Sr. Armário, do Sr. Engana e do Catrapona, que eu não ousava, porque, nesse tempo, um alentejano sem alcunha, era uma raridade.

Agora a Net dá-nos pistas de alguns de quem perdemos rasto. O Reinaldo Chibeles Cananão (ou o mesmo nome no filho) mantém-se em Beja, o Franganito Olho Azul chegou a Tenente-Coronel, a Maria Corália Carrajola Macara, escreveu uma monografia.
Ali andam eles a forçarem-nos um sorriso, no meio dos Arrenega, Tainha, Favinha, Pitacho, Carraça, Grilate, Caçoete, Sequinhos, Canheto, Lamoso, Casquilho, Grabulho, Fanado, Carapuchinho, Farrobo, Carrajana, …. e outras raridades.
Mas quando pai e mãe não ajudam e surgem os Coelho Canudo, Caixado Couzinho, Leite Lavado, Ribeiro Fundo, Robalo Tereso, Fadista Sêco, Protásio Poeira, Parcelas Alcobia, Rebola Santo, Pandaio Bacalhau, Ameixa Rolhas Bandeiras, ... o sorriso abre-se de orelha a orelha.

E tudo isto porque tropecei numa notícia em que a nossa cantora Adelaide Ferreira decidiu pôr na ribalta a sua filha mais nova de nome "Alexia" cujo significado é "inabilidade adquirida de compreender a linguagem escrita".

domingo, 25 de setembro de 2011

sábado, 25 de junho de 2011

Músicas dos bailes de S. João do Porto



por Carlos Alberto (o Rei do Bolero) em 1956.



e o mesmo tema na versão anglo-saxónica (1967), por Engelbert Humperdinck.