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terça-feira, 13 de março de 2018

Um marido preocupado

Era um casal "diferente". Ambos na casa dos setenta. Vinham à consulta como quem ia à Ópera. Ela de tacão alto, roupa vistosa e perfume de encher pavilhão. Ele aprumado, sapato a espelhar e capachinho. -Doutor! Não se nota, pois não?! ... É Eurocave!!, à minha primeira olhadela para o seu cabelo.
Ajeita-lhe a cadeira antes de se sentar.
- Então dona Beatriz, como vai?, pergunto.
Ela tenta responder, mas é ele que se chega à frente para relatar um rol interminável de queixas. Ela faz ligeiras inclinações de cabeça e pisca os olhos, para anuir.
Reparo que ele tem uma cábula na mão, para se não perder. Escreveu-a na máquina de escrever do filho, no dia anterior, para não se esquecer de NADA! Mudou a tinta para o vermelho, para chamar a atenção aos pontos principais, mas esqueceu pormenores e rasurou à mão por cima.
- Posso ficar com essas notas? É mais fácil ser eu a lê-las!
- Oh, Dr.! Fique com elas! Escrevi-as de propósito para si!
- Obrigado!
... ...

(Dada a fraca qualidade das fotos, sugere-se: 
1: clique nas imagens.
2: clique no botão direito do rato e abra-as num novo separador.
3- no novo separador, clique nas imagens para as aumentar)

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Fora da caixa



- Ele veio de França, há-de haver um ano, sem qualquer informação sobre a doença, que estava diagnosticada desde 1984. É um compêndio de patologias com as respectivas complicações e, para piorar o cenário, ... vive só!  Logo que melhorou da anemia que o trouxe ao hospital, começou a falar na alta. Nem sei como o aguentámos dez dias internado!
- E porque é que não o deixaram ir?
- Ele tinha sangrado pelo tubo digestivo e não sabíamos exactamente onde. Ainda por cima estava hipocoagulado e tinha necessidade absoluta de continuar a estar!

Conversa de quem tem de lidar com quem vive "fora da norma" e obriga a atenções redobradas para que um "azar" o não atire para a primeira página de um jornal necessitado de empolar um facto para aumentar as vendas.

- Ontem, às dez e meia da noite, arrumou os poucos pertences e só não foi embora porque vim cá acima e me impus! Ele mora a mais de 100Km daqui, junto à fronteira! Mas foi difícil! Ele sabe os horários das camionetas e dos comboios e tinha um em vista. Ia como estava: pijama, roupão, chinelos e gorro na cabeça!
- E foi assim que, hoje, o encontraram no Shopping!?
- Foi! A empregada da "Seaside", depois de lhe ter vendido os sapatos, telefonou para o hospital! Os seguranças encontraram-no à entrada da "Mike Davis"!
- E ninguém o viu sair?
- Não! Quando lhe perguntei por onde tinha saído, disse que não dizia e eu fiquei com a ideia de ele ter utilizado uma das portas de serviço, aproveitando um tempo em que ninguém por lá andava.
- E hoje deste-lhe alta!?
- Escrevi a Nota de Alta a correr, porque ele estava a contar o tempo para a camioneta.
- E foi de roupão e gorro?
- E de sapatos novos! Talvez a pressa fosse para acabar as compras no Shopping, que dinheiro e despacho não lhe faltam!
- ... Pelo menos para a asneira!
-Sei lá! O certo é que se tem aguentado!

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Água

Então é assim: 
- Fui a Matosinhos, almoçar, com a família, ao "Dom Peixe", e, pouco depois de nos termos sentado, o empregado pôs esta garrafa de água na mesa.

Água Dom Peixe.


da torneira

Pura
Micro-filtrada 
que conserva e
realça as suas
propriedades

Local
Purificada 
engarrafada 
e consumida 
no momento

Sustentável
Garrafas de vidro 
reutilizáveis que 
respeitam o meio 
ambiente

Um exemplo para os restaurantes que "teimam" em vender água mineral (se possível) em garrafas de plástico!

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Um "raminho"!


Sr. Dr..! O meu pai sempre foi muito ansioso! Há uns anos, quando ainda estava bem, levava todas as noites para a cabeceira da cama um copo de água açucarada, com medo das hipoglicemias!  Ele ainda não tomava insulina, mas precavido como era, queria ter a solução à mão!
Um dia acordou a meio da noite com um formigueiro no braço. Com medo que aquilo fosse um sinal, deitou a mão ao copo, bebeu dois goles e voltou a deitar-se. Só que, em vez de melhorar, piorou. O formigueiro que inicialmente só sentia no braço, estendeu-se a toda a face e à língua.
Muito assustado, sentou-se na cama, acendeu a luz e chamou pela minha mãe, dizendo-lhe que estava a ter um “raminho”. Ela, assarapantada, deu a volta à cama para ver o que se passava. Foi quando viu o copo cheio de formigas e muitas espalhadas por aquele lado da cama!

sábado, 4 de novembro de 2017

Kickboxing




Quando o conheci, já estava entrado na vida. Era irmão de um companheiro de trabalho e abrira recentemente um Ginásio, que era assim que, na altura, se denominava um "Fitness Center". Basicamente, ele tinha alugado uma garagem e dispusera, ao longo das paredes, uma meia dúzia de máquinas e halteres.

- Dr.! Tem de lá ir! Aquilo está cinco estrelas! Tem tudo! E, ainda por cima, fica a dois passos de sua casa! Insistia o colega, inconformado com as minhas repetidas recusas.

A curiosidade matou o gato e, também, para o não ter que o ouvir mais outras tantas vezes, dei por mim a justificar umas idas com a vida sedentária e, durante não mais de um mês, fui levantar pesos, puxar cordas e correr numa bicicleta estática.

Os clientes, àquela hora tardia, eram poucos. O habitual era eu só ter de partilhar os suores com o dono do Ginásio, que levava a vantagem de um dia inteiro a dar forma ao corpo, uma vez que era esse o primeiro objectivo daquele espaço, com poucas intenções a ganha-pão.

Eu entrava pelas 19:00h, quando o seu treino, era marcado por períodos de grande intensidade, a preceder o ciclo final de relaxamento.

Era um homem alto, de farto cabelo encaracolado mas, ao contrário do que seria de esperar, escasso de carnes. O Ginásio era o seu investimento para uma tão desejada alteração do aspecto físico. Fazia os exercícios em frente a um grande espelho, onde se media, na esperança de ver um músculo que lhe lembrasse um Rambo, um Schwarzenegger ou, no mínimo, um Mickey Rourke. O rosto afogueado e a camisola empapada assinalavam o empenho que punha na obra.

De vez em quando, a esposa, solidária, animava o espaço com música, enquanto corria no tapete, ou dava ordem ao material, para o dia seguinte. Era uma rapariga pouco faladora, pequena, bonita e de sorriso agradável. Vestia um fato de treino justo que lhe acentuava o corpo musculado e facilitava a agilidade felina com que discretamente se movia. Era uma luz no escuro daquela garagem a interrogar os porquês de uma garça se unir a um escadote cabeludo com pretensões a urso da floresta.

Da última vez que lá fui, ele treinava “kickboxing”, saltando em redor do saco de boxe pendurado do tecto, desferindo-lhe murros, pontapés e joelhadas. O cabelo desgrenhado escorria suor, a T-shirt vermelha totalmente colada ao corpo, criava um riacho que lhe descia pela costura mediana dos calções.

Entrei sorrateiro, e dei as Boas-noites! O atleta deu mais uma série de socos, como a mostrar todo o potencial daqueles ossos mal forrados, e respondeu:

- Boa noite! Dr.! Bem-vindo! Já não estava a contar consigo. Comece ali pela bicicleta, para aquecer! Dez minutos! Enquanto eu acabo o meu treino de hoje!
- Esteja à vontade! Que eu faço o programa do dia anterior e não vou necessitar de ajuda!

Tirou as mitenes das mãos, cumprimentou-me e voltou ao saco para mais umas dúzias de enérgicos socos e pontapés. Minutos depois, já com a toalha ao pescoço e garrafa de água na mão, olhou para as minhas dificuldades e decidiu-se por uns conselhos.
- Dr.! Tenho ali umas latas de produto que fazem maravilhas! Têm a força da proteína. O Dr. também devia tomar! Eu agora tomo-as para ganhar volume mas, daqui a três meses, vou ter de começar com outras para obter definição!

Parei de levantar os pesos.
- Obrigado! Eu não pretendo entrar em concursos! A ideia é compensar o muito tempo à secretária. Com um jogo de futebol de cinco, à sexta e uma hora aqui à terça, se fugir às jantaradas, talvez chegue aos oitenta a tomar conta de mim! respondi, a evitar um discurso técnico, que se oporia radicalmente ao seu objectivo, e que não teria qualquer eficácia naquele ambiente.

Retomei os halteres para mais uma série de braços, cumprindo o plano colado numa das paredes, e o meu “personal trainer” voltou ao kickboxing, para um final apoteótico de sopapos e pernadas, no meio de gritos, impropérios e Uuuhhhs, em crescendo, até, em plena exaustão física e num climax exaltado, gritar na direcção do seu reflexo no espelho:

- Eu quero ficar um BOOOOOIIIIIIIIIIiiiiiiiiiiiiiiii !!!!!!!!!!! … Eu quero ficar um BOOOOOIIIIIIIIIIiiiiiiiiiiiiiiii !!!!!!!!!!!



Creio que Deus o não ouviu e eu, talvez com medo do contágio, pus fim à minha experiência de culturista amador!

domingo, 13 de agosto de 2017

Cruela DeVil



Abriu a porta, levantou a cabeça e mediu o palco. Hoje, qual Glenn Closeencarnava Cruela DeVil.
- Dr.! Não pode ser! A sua decisão fez adiar uma reunião im-por-tan-tí-ssi-ma! Veio gente de fora, que teve de ir embora! Não pode ser!
O visado, sentiu o gelo daquela voz de aranha arrepiar-lhe a pele e, qual dálmata encurralado numa viscosa teia, titubeou, a medo, uma desculpa, que rápido despertou um sorriso nos grossos lábios da malévola.

Era uma artista que se perdera naquela profissão. Tinha a “dramatização” nas veias e, se identificava ineficiências, não desperdiçava a oportunidade para se agigantar, na procura da importância que não tinha. O seu papel preferido era o de Iago, por salas e corredores, chilreando historietas confabuladas, na ilusão de, um dia, o mundo girar em seu redor.

Roger Dearly repetiu desculpas e o escasso público suspendeu a respiração ao sentir que a catarse daquela "Cruela de mão na anca", salpicava de fel as paredes da pequena sala.
Temeu-se que o drama terminasse em tragédia. Mas seguiu-se um silêncio e, do nada, cresceu uma música, e a maior vilã do mundo animado, não encontrando nem Jasper nem Horácio disponíveis, levantou o mento, meteu na boca a cigarrilha, virou costas e desapareceu no corredor, numa nuvem dardejante de coriscos!.

Uffff!!!!!!

Cruella Devil, Cruella Devil,
A coisa mais rara é vê-la gentil,
Ao vê-la sinto logo um arrepio
Cruella, Cruella Devil

Ao vê-la você pensa que é o diabo
O diabo disfarçado de mulher
Você vai confirmar, pois ela vai mostrar
Que ataca como um animal qualquer

É uma vampira querendo sugar
Deviam prendê-la e nunca soltar
O mundo era bonito até que viu
Cruella... Cruella Devil

domingo, 16 de julho de 2017

Elvirinha

- Os tempos eram outros! Havia os bailes para a gente casadoira se encontrar, mas nem todos tinham essa possibilidade ou dotes que o fizessem valer.
O meu pai era caixeiro viajante, quando se apaixonou pela minha mãe.
Impedido de lhe chegar ao coração pela presença física, decidiu enviar-lhe diariamente, das terras por onde ia passando, um postal ilustrado. Hoje Penafiel, amanhã Marco de Canaveses, Felgueiras, Fafe e por aí fora. Todos os dias, semanas seguidas. No fim, assinava: - Manuel!

Um dia, em que se assegurou que ela estava em casa, sem os pais, tocou à campainha e apresentou-se: "Sou o Manuel!"

Depois, casaram, tomaram conta da empresa, tiveram oito filhos e foram muito felizes!

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Humm Hamm


-Olha lá! Hás-de ver aquilo ali da cara da tua mãe. Tenho posto muito creme, mas está cada vez pior!
-OUTRA VEZ!?
Confesso que reagi assim. Volta meia volta lá vem a conversa da lesão da face. Hoje tem, amanhã não é importante…, afinal tem, afinal não era nada e já está melhor…
Eu sempre fui olhando e o aspecto nunca me impressionou. Mas desta vez saquei do telefone e logo ali agendei uma consulta de Dermatologia para 5ª feira, no hospital privado. Afinal tem que se pôr a render a ADSE. Não fico a dever favores a ninguém. poupo uma ida ao Hospital público e acabo com esta cena de uma vez por todas.
-Humm, Hamm, Humm! Achas mesmo que é necessário?
- Agora vai. Queiras ou não!

Dois dias antes da consulta:
-Olha lá! Afinal não é necessário levares a tua mãe à consulta de Dermatologia. Tenho posto bastante creme e já quase não se nota.
-Agora vai!, respondi, seca como só eu sei ser.
-Humm, Hamm, Humm, Hamm! É que ouvi um programa na televisão sobre infecção hospitalar. Não sei se sabes mas morrem mais pessoas de infecção com bactérias hospitalares do que de acidentes de automóvel e eu não quero ir ao hospital e vir de lá mais doente porque os profissionais não lavam as mãos e não mudam de roupa. Isto nos hospitais está muito mal! Eu ouvi e acho uma pouca vergonha, ...blá, blá…
Vesti-me de paciência e dissertei sobre infecção hospitalar…
- Hummm,…Hammm,…Hummm! Bem, vamos lá… se tu dizes!.

Chegado o dia e, bem antes da hora marcada, chegamos ao hospital para termos tempo de procurar o local e ultrapassar todos os obstáculos previsíveis, desde o estacionamento até as burocracias inerentes ao registo.
Sentados na sala de espera tentei a minha sorte:
- Entro eu ou entras tu com a mãe?
- Humm, Hammm, Humm! Porquê? Não podemos entrar os dois? Hummm, Hammm, Humm! Está bem vai tu! Mas eu quero saber tudo!
Estratégia definida e já em castelhano sonoro se ouvia: Maria Antonieta

A dita levantou-se pesarosa como se fosse para o cadafalso. Ombros tombados, sobrancelhas caídas a acompanhar o arco descendente das comissuras labiais A carteira pendia do braço prestes a despenhar-se. Olhos em alvo, como só ela sabe fazer, mal cumprimentou o médico que, no seu melhor castelhano, a mandou sentar.
-Entonces de que se queixa?, perguntou, falando muito alto e com a boca aberta, tal como nós fazemos quando falamos castelhano.
Sem falar, apontou com a unha do indicador, impecavelmente rubra, a lesão da face… O olhar mantinha a gravidade no acto…olhos em alvo.
De um pulo o Doutor saca da lupa e assesta-a na lesão e, de imediato, grita:
-No tem problema! Es benigno. No es maligno, nem nunca va a ser! No tem problema! Pode descansar! Se quiera podemos sacar, mas fica una mancha! Es igual!
Agora já os olhos da paciente retomam a linha do horizonte e ainda de lábios cerrados, levanta os dedos unidos que abre e fecha à face do doutor.
-Tienes medo!? No tengas! No es nem va a ser malo!.
Nestes 3 segundos estava concluída a consulta mas ainda consegui pedir ao doutor para repetir ao meu pai as boas notícias. Que sim, mas fez-me sentir que teria de ser rápido.

Lá o trouxe até ao consultório e quase consegui que não se sentasse. Repetiu então o médico a boa frase, no mesmo tom de voz, como se fossemos todos portugueses a falar espanhol com a boca aberta.
-Humm, hamm, hummm, hamm! Eu tenho posto bastante creme…
-Vamos lá que está tudo bem!, disse eu enquanto o levantava para o empurrar porta fora.
-Hummm, hammm! O sr. dr. não é português?
-No! Espanhol!
E já com o corpo fora do consultório – Hummm, Hammm! Então quer dizer que não é psoríase?? ... Ainda bem!


Texto de Helena Gomes (
my sister)

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Aplicações de Telemóvel



- Dr.! Está um “verde” na Sala de Espera, a aguardar Medicina, que está muito ansioso. É melhor ver o que se passa. Já começou a disparatar e eu temo que vá causar mais confusão do que aquela que já temos, se não for atendido rapidamente.
- Há três laranjas em lista de espera para Medicina Interna, mas mande lá entrar o homem, não vá haver razões para tanto nervoso!
Olho para o écran e procuro um “verde”. É uma transferência. Já foi observado pela Triagem Geral. Registou-se à uma da madrugada, e foi encaminhado para Medicina pouco antes das oito, depois de ter efectuado análises.

A Triagem de Manchester tem destas coisas. Se estiverem a entrar “vermelhos” ou “laranjas” com regularidade, os tempos de espera dos doentes a quem foram atribuídas outras cores começam a ser ultrapassados, e como os “verdes” são “pouco urgentes”, são frequentemente entendidos como “azuis” - “nada urgentes” e só são observados quando já não há outras prioridades.

São nove horas, quando o chamo.
Entra um jovem na casa dos 20 anos. Cabelo rapado dos lados e um tufo no cocuruto. Camisa branca desabotoada a partir do meio, manga dobrada, jeans que deixam ver os tornozelos, sapatos de matar a barata no canto em couro castanho claro e uma pequena sacola a tiracolo de sarja amarela.
- Faz favor de se sentar! O que se passa?
Recusa sentar-se de imediato, para se queixar do tempo de espera. É brasileiro e está em Portugal há uma semana. Veio ao Serviço de Urgência porque teve uma relação com um parceiro HIV-positivo e, no final, rompeu o preservativo. Está zangado, porque ainda não foi medicado e sabe que há uma janela temporal para que esse tratamento possa ser eficaz, em caso de contágio.

- Já percebi o seu problema, mas entenda que, durante a noite, há funcionalidades que se perdem num Serviço de Urgência e, no seu caso concreto, a eficácia da profilaxia pós-exposição mantém-se durante 72h. Por isso, temos tempo para avaliar correctamente a situação, antes de iniciar qualquer atitude.
Já mais calmo, o homem senta-se.
- Então vamos lá ver. O senhor disse que o seu parceiro era VIH-positivo!?
- Sim! Foi ele que o disse, quando rompeu o preservativo. Eu antes não o sabia. Se eu o soubesse não me tinha metido com ele!
- E como é que ele se chama?, pergunto na esperança de conseguir ver no S.Clínico alguma informação sobre o estadio da doença e da carga vírica do parceiro.
- Não sei!, responde. – Sei só que se chama Manuel! Mais nada!, e depois virando para mim o écran do smartphone. – Também posso lhe mostrar a cara! É este!
- Oh! Homem! Vire isso para lá, não vá eu até reconhecê-lo! Mas o senhor mete-se numa aventura destas e não sabe o nome dele?
- Não! Eu pus três aplicações no telefone e apareceu ele! Só sei o primeiro nome e sei a cara dele! Quando ele disse que o preservativo rompeu, fiquei em pânico e fui à Farmácia pedir o tratamento. E sabe o que o farmacêutico me deu??? ... Sabe!? … A pílula do dia seguinte, para não engravidar! … Você acredita!!!!, e gesticulava virando as palmas das mãos e os olhos para o céu. - Deus do Céu!! A pílula! Eu sou HOMEM! Santo Deus!, e repetia os gestos, incrédulo, para depois se recostar na cadeira, simulando exaustão.
- Tenha calma, que o farmacêutico não deve ter percebido que você estava numa relação homossexual e talvez tivesse entendido que estava preocupado com o risco de a gravidez indesejada de uma sua parceira!, respondo, para amenizar uma eventual provocação, e continuo. - Vou pedir ao laboratório para completar as suas análises e marcar-lhe uma Consulta para daqui a um mês. Quanto ao tratamento, vai ter que aguardar mais um pouco porque temos de o pedir à Farmácia do Hospital. Espere um pouco naquela salinha, ali ao fundo, que quando estiver tudo pronto, vou ter consigo! OK!

….

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Maçon



- Dr.! Isso é trabalho para três homens em quatro dias. A 10 Euros a hora, conte com 1000 Euros, mais o material e o IVA. Se quiser sem IVA, tem de me dar em dinheiro!
- Sr. Luís! Você sabe quanto se ganha no Serviço Nacional de Saúde?
- Não!
- Por exemplo: Uma médica de família, com um contrato de trabalho de 35 horas/semana, tem um vencimento bruto de 1996€ e recebe líquido 1282€ e um enfermeiro tem um vencimento base de 1.200€ por 35 horas semanais.
Faça as contas. Um enfermeiro, antes de impostos, ganha pouco mais de 8€ e um médico 14. Você pede 10 Euros a hora e limpos. Acha isso normal?
- É o mercado a funcionar!  Limitar vencimentos por classes profissionais é simplesmente desvirtuar o mercado da oferta e da procura! Deixe-os continuar a formar em barda, tipo linha de montagem, economistas, gestores, advogados, professores, enfermeiros, médicos, etc ... e vai ver o que acontece aos seus vencimentos!
Não foi à toa que a Merkel disse que Portugal tinha licenciados a mais! ... Até dá pena ver os "miúdos" irem ao engano para o ensino superior!
- Tem toda a razão! Este país não é para licenciados!

sexta-feira, 29 de julho de 2016

A Ucrânia a passar por aqui



Hi Fernando,
This is Simone. You hosted me and a girl Nadya at the beginning of May this year.
We promised to send you a photo in one of social networks here:
I've uploaded them and send you a file.

Our trip was very good and we liked Portugal a lot. Even more than Spanish part of Camino de Santiago.
Thanks again/ Obrigado/Дякую/Спасибо
You're welcomed if you be in Kyiv
With Regards
Simeone&Nadia


domingo, 15 de maio de 2016

Dr.

- Sr. Dr.! Desculpe, mas devia ter chamado a atenção em privado, sem a presença dos internos!
- Mas ele é Dr. ?
- Claro que é!
- Eu pensei que era Nutricionista! Mas agora toda a gente usa o Dr.! Ele é só ... mais um! Só que este escreve no Diário Clínico. Será que também é clínico?
- Isso não!
- Ahhh! Nem sei porque é os técnicos do Laboratório, da Farmácia, da Fisioterapia, da Ortóptica, da Radiologia e de Cardiologia, não agarraram também o Dr.! Ao fim e ao resto ...!
Este, com uma "pen", mete duas páginas no Diário Clínico, com um texto pré-definido, cheio de erros, que preenche com cruzes ou valores. Para Dr. exijo mais!!!
Reconheço que a minha indignação (que é a directa medida do meu espanto), não seja o melhor método de corrigir as ineficiências, mas assistir a erros deste teor a quem se arroga a um Dr. antes do nome, faz-me subir a tensão arterial e aumenta-me a acidez gástrica.
Eu até podia desculpar o "sobnutrido" e a "Deplecção muscular torácica evidente", como dependente de "uma pressa", mas logo a seguir o "Peso estimado (subjectivo)" como se pudesse haver um peso estimado objectivo, uma classificação da Massa muscular em: eutrofia ( ), atrofia ( ) e fusão ( ) e a sigla "dcl" repetidas vezes usada, para significar decilitro, pôs-me os cabelos em pé e com vontade de chorar. É que se trata de um texto pré-definido!!!!!!
Desculpe-me, mas estamos na Europa e em 2016. Eu esperava encontrar pérolas destas só em "países em vias de desenvolvimento" e não em profissionais que usam Dr. e que se abalançam em actividade privada.





sexta-feira, 13 de maio de 2016

Cação


As histórias começam tímidas. Depois, ganham asas, experimentam a confiança e alargam o espaço ao bairro e à cidade.
Umas exigem ao narrador grande certeza nas palavras. Outras valem pelo insólito de uma frase que, não raro, persegue o visado até ao fim dos dias.

Esta chegou-me ontem, envolta em vozes baixas, que o personagem é filho de gente influente. Os pares olham-no como um “alien” que desperta dissonâncias pelo excesso de voluntarismo com que procura o que deve e o que não deve, a horas certas e às inconvenientes, como a compensar um tempo perdido, ... sabe-se lá onde.

No Serviço de Urgência, terá recebido um doente a quem a mulher atribuía o estranho comportamento de só querer comer sopa de cação e recusar tudo o resto.

Na folha da História Clínica, aparece referida, repetidas vezes, a palavra "cação", numa transcrição excessiva da conversa da mulher, mas é no início do registo do Exame Objectivo, que surge o ponto alto: “Consciente, colaborante e orientado. Hálito a cação! …”

sábado, 9 de abril de 2016

Barata amarela


Nessa altura, eu ria-me de tudo o que fugisse ao habitual, principalmente quando as situações o não aconselhavam, fosse inovação, disfunção, facto insólito ou acidente.
É assim a vida dos jovens quando o desconhecido lhe é apresentado de chofre e não têm "matriz" onde o possa integrar. É fácil surpreendê-los até que a vida os faça contar com os factos pouco comuns e passarem a considerar que são raros os impossíveis.
O nosso passado está recheado dessas surpresas que, se acontecessem agora, nos mereceriam um olhar diferente ou, até, nenhuma atenção, do mesmo modo que ao relermos um livro há muito tempo parado numa estante, nos surpreendemos com entrelinhas a que não tínhamos dado a devida importância.
Vem esta conversa a propósito de um caso da minha última Urgência, onde um homem se debateu duas horas com um tique que repetidamente lhe provocou contrações dos músculos da parede abdominal, num quadro clínico que tem o nome pomposo de Síndrome de Gilles de la Tourette.
Aquela crise deixou-o em exaustão e só regrediu à força de muita medicação.
Nunca tinha visto igual, mas não me passou pela cabeça rir daquele pai de família a braços com um problema que o desacredita e impede de ter uma vida pessoal e profissional normal.
Mais tarde, lembrei-me do "Barata Amarela", que, embora vivesse nas minhas imediações, raramente aparecia, talvez por se obrigar a uma vida distante dos olhares de quem se ri do insólito.
Os seus tiques eram comentados sem comiseração e, quando algum de nós o identificava, imediatamente se focava nele, pois sabia que era uma questão de tempo para uma cena hilariante.
Um tique pode ser discreto ou um gesto abrupto e largo imediatamente perceptível.
O "Barata Amarela" movia repentinamente a metade direita do corpo. O braço e a perna fugiam-lhe, ao que se lhe seguia um movimento em saca-rolhas da cabeça, em direcção ao céu. Coisa de três segundos, mas o suficiente para o fazer notar onde estivesse. Incapaz de assumir o tique, tentava disfarçá-lo, integrando-o num outro mais complexo, como se, de repente, iniciasse uma nova actividade.
Ganhara a alcunha num desses episódios quando, numa paragem do eléctrico, se atirou para cima da senhora do lado, e se justificou apontando para o local para onde lhe tinha fugido o sapato, gaguejando: "Uma barata amarela!"
E era isso que esperávamos. Primeiro o tique e depois o “disfarce”, para termos que contar à mesa dos nossos catorze anos.
- Vi o “Barata Amarela”, no eléctrico. Ia seguro a um puxador do tecto, quando lhe deu o tique e o tentou disfarçar simulando que se lembrara de uma música e começou a marcar o ritmo com a mão e a perna!
E riamos, sem entender que aquilo era doença.
Não era “bullying”, era um nada fazer para melhorar a sua auto-estima, como se, para ser cidadão, só contassem os actos e não os pensamentos, as palavras e as omissões.

sábado, 12 de março de 2016

Telefonema


- Está?
-Sim! Diz!
-Vais ficar em casa?
-Sim!
-Então eu já apareço aí. Tenho umas coisas para te mostrar. Não saias!
-Ok! Jantas cá connosco?
-Não! Tenho de ir para o Porto. Mas antes queria que visses o que achei nas coisas do pai! Estou aí daqui a quinze minutos!
-Mas de que se trata?
-Eu já te digo. Vais ficar espantado!

O telefonema indiciava coisa importante. A não menção do assunto e a visita inesperada, numa fugida, adensavam o mistério. Havia imperiosidade na sua voz, mas morte ou coisa do género era coisa excluída, e meia hora depois, tocava a campainha.

-Então? Que te traz assim tão bem disposta?
-Já vais ver!

E entrou porta adentro com um grande saco de compras, com qualquer coisa a ocupar-lhe o fundo. Sentámo-nos, um de cada lado da mesa, e pousou o saco longe da minha vista.

-Tu lembras-te de se falar em moedas na casa da avó?
-Vagamente. Lembro-me até de ter ouvido que o tio Mauro levou algumas.
-Pois é! Eu também me lembro disso.
-Mas não tens a certeza?
-Não!
-Nem eu. Mas ao que é que isso vem agora?
- É que eu, há uma semana, fui a casa do pai procurar uns papéis que ele tinha numa gaveta do escritório e dei com duas caixas cheia de moedas. Uma, maior, tinha escudos e outras moedas europeias, anteriores ao Euro e outra, umas moedas antigas, algumas delas em ouro.
Agora prepara-te! Eu estive a ver na Net e descobri que as de ouro eram dois dobrões do tempo de D. João V e três morabitinos. Além dessas, há outras em prata do início da nacionalidade. 
Como o pai nunca se meteu nessas coisas, aquilo só pode ter vindo da casa da avó e, como também não me parece que eles andassem a investir em moedas, lembrei-me do tio dela, que era padre e que andou pela Índia. Ele era muito chegado à avó. Será que ele lhas deu e que ela as meteu naquela caixa e que o pai também as guardou sem saber o valor daquilo?
- Capaz disso era ele. Tirando o serviço, não via mais nada!
- Mas é estranho não se lembrar. E logo ele que se lembra de tudo! Até sabe o nome dos professores que teve no liceu e isso foi na década de 1930!
-O problema vai ser saber o que é que elas valem. 
-Pois é! Eu estive a ver leilões onde se venderam algumas destas e o preço varia imenso. Uma vendeu-se por mais de 100.000 €. É que não são todas iguais. As que têm imperfeições de origem parecem ser as mais valiosas! ... Vai ser agora que mudo de casa!
-Mostra lá! ... Onde é que compraste essas caixas onde estão metidas?
-No chinês. E estas luvas também, para não lhes pegar com as dedos.
-Nem lhes toco, não vá ficar com algum ouro preso às mãos e torna-las menos valiosas. Pelo que dizes, vendê-las bem, vai ser um problema. Conheces alguém que perceba de moedas?
-Eu não! Talvez o Licínio. Ele herdou, de um tio padre, algumas moedas de ouro antigas. Mas duvido que seja conhecedor! ... Se fosse automóveis! …
-Também não há pressa! Guarda-as bem, que temos tempo para encontrar a pessoa certa para as vender. É dinheiro caído do céu. Ainda dizem que não há Deus!

A conversa deixou-me a congeminar naquele achado. O frade, tio da minha avó, era franciscano, do convento do Varatojo. Em princípio, deveria ter feito votos de pobreza. Como justificaria as moedas? Depois, elas foram encontradas numa gaveta, sem qualquer protecção ou cuidado, numa pequena caixa de óculos, que nem antiga era, ao lado de uma outra maior, de um perfume, cheia de escudos e outras, misturadas com coisas sem qualquer valor. Tudo muito estranho! Mas luziam e eram iguais às que estavam na Net.

Conhecendo-a como a conheço, não vai tardar com novas de um avaliador de confiança e pôr tudo em pratos limpos.
E, logo no dia seguinte, a notícia chegou, seca como uma múmia de Guanajuato.

- Está!
- Sim! Não me digas que já encontraste avaliador!
- Já! Pus-me aqui à voltas com as moedas e vi que elas tinham um “R” e com mais uma volta na Net concluí que fazem parte da "Grande colecção de Moedas e Notas da nossa História", Edição do  "Jornal de Notícias", de 2004.
- Ora bolas! Logo agora que eu já tinha encomendado o Jaguar!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Emblemas de lapela



Aquela dor que, por uns dois meses me baralhou, foi amor! Que mais podia ter sido? Não dizem que ele não escolhe idades? Porque é que comigo havia de ser diferente!? Eu estava a-pai-xo-na-do! Ponto final! Senão qual seria a justificação para lhe ter dado a minha colecção de emblemas de lapela, que me custara horas e horas de trocas e pedidos?

Eram da Siera, da Grundig, da Blaupunkt e de outras fábricas de electrodomésticos, do Benfica, do Sporting, do Belenenses, de marcas de automóveis, dos bombeiros e até dois com asas de aviador. Um a um voaram para as mãos daquele anjo de caracóis louros, aos cachos.
Inocente, defraudou-me o património e, ao me não dar espaço no meio das suas bonecas, fez-me velho antes do tempo. Quase deixei o futebol de rua e, só ao fim da tarde me juntava ao bando, para as actividades radicais da época.

Ali esquecia-a, pois os riscos exigiam plena atenção para que não acontecesse a tão falada “morte do artista”. Eram horas do stress ao pôr-do-sol, quando o calor ressoava do chão e o grupo do bairro se juntava para a asneira. Podia ser um cigarro, uma fanfarronice, uma prova daquelas que não lembram ao tinhoso. O que contava era a superação.

-Vamos todos?
- Não! Hoje vão só três!, dizia o Cachopo Piqueno, exímio em fazer cara de macaco e em jogar à bola com os dois pés. E o grupo desfazia-se e ficava a observar.
- Estás a ver ali aquele par de namorados a entrar pela seara adentro? Vão vocês que são mais baixos. Quando as cabeças desaparecerem no meio do trigo, esperam um bocadinho, aproximam-se de-va-ga-ri-nho e, quando os tiverem ao alcance, atiram-lhes uns torrões e fogem. Eles não vão conseguir vir atrás de vós. Mas não deixem ver a cara, senão …!

Era a tal morte do artista de que todos tínhamos medo.

Mas também havia que saltar muros para comer o que as árvores tivessem, fosse limão ou maçã verde ou atirar umas fisgadas aos cães vadios para nos rirmos. Havia que encher o tempo, que ainda não se tinham inventado as ATLs.
Depois era ficar calado para não ser descoberto e evitar alguns lugares.

- Vai cortar o cabelo Fernando! Pareces um cigano!, dizia a minha mãe e, eu a lembrar-me que um dos que levara com os torrões era barbeiro no Cabanitas e, enquanto imaginava as tesouras e a navalha junto ao pescoço, planeava. Primeiro, passo na rua, depois, à porta, pergunto qualquer coisa a ver se ele dá sinal que me obrigue às de Vila Diogo.
Uma semana para parecer lavado!

Quando se acabaram os emblemas e sem ter mais com que a seduzir, larguei as nuvens e voltei ao dia a dia de pontapés nas pedras. Ficou-me o seu nome completo MMLML e a memória profunda dos seus caracóis.
Se a voltasse a ver, não a reconheceria.

A história podia ficar por aqui, mas o mundo dá mais voltas que as pernas de um infeliz com o síndrome delas inquietas e, quarenta anos depois, o seu espírito voltou a pairar sobre a minha cabeça para provocar duas lágrimas geladas.

Estava eu num jantar com médicos portugueses que participavam na “St. Gallen International Breast Cancer Conference”, quando a conversa se fixou nas mudanças frequentes de residência e nas suas implicações. Falou-se do afastamento dos amigos, das dificuldades em reconstruir uma rede de proximidade e de amizade capaz de um socorro numa aflição. E blá, blá, blá … que agora cada família vive acantonada no seu espaço e blá, blá, … quando eu, pecador, me confesso:

- Eu, já vivi em Beja, no Porto, em Vila Real, em Vila Pouca de Aguiar, em Matosinhos até parar em Viana do Castelo.
À minha frente, uma ginecologista, da minha criação, pergunta:
- Tu viveste em Beja? Quando?
Acertámos datas, escolas e zonas da cidade, até chegarmos aos amigos comuns.
- Tu conhecias os C.M.?
- Sim! Sou prima deles!
- Mas eu ia a casa deles e nunca te vi!
- Como estava interna no colégio, só lá ia aos fins-de-semana e nas férias mas, mesmo nessas alturas, a minha tia, que era uma mulher de Igreja, quando sentia rapazes por perto, não nos deixava aparecer. Chamava-os de galfarros!
- Cruz, Credo! Maria Santíssima! Eu não era flor que se cheirasse, mas para esse patamar faltava-me muito. Eu saí de lá aos treze anos. Que é feito deles? Ainda andam por Beja?

Tinham saído para Lisboa, pouco tempo depois de eu ter ido para o Porto. Tinham cursos superiores e  sucesso profissional. O Chico numa área de Saúde e o Zé em Direito. Muitos outros os tinham acompanhado.
- Lembras-te do John? E da Margarida?
- A MMLML?, pergunto curioso.
- Sim! Ela casou com o Chico. Tiveram 3 filhos. Eram um casal modelo. Depois ela deu em beber e começou a desgraça. Muitos remédios e tratamentos psiquiátricos até que, há-de haver uma meia dúzia de anos, se suicidou!
- Livra!!!! Ela ainda era bonita como quando era pequena?
- Não! Da última vez que a vi, estava balofa e pastosa. A morte foi um alívio para todos!

Calei-me e ali fiquei, a remoer uma pequena dor e a pensar no Destino, no Fado, na Sorte e no Azar e que a pior coisa que nos pode acontecer é sermos vítimas dos nossos desejos.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Permanente 1981



- Espera! Não saias já, que daqui a nada a chuva abranda!, disse a mulher, preocupada.
- Não posso! Tenho seis domicílios a fazer e, queira Deus, que não apareçam mais quatro. O modo como está pegada, parece para ficar. Já são quase 22:00h. Se não for já, vou chegar muito tarde! Dois são aqui perto. Entretanto pode ser que a chuva cesse. Vou tentar parar mesmo em cima das portas. Com este temporal, não deve andar ninguém na rua.

De facto assim foi. Chovia a potes ou, como dizem os franceses “comme vache qui pisse”. Rios de água pelas ruas, poças a esconder buracos, a insuficiência do pára-brisas para tanta água e os vidros embaciados a obrigar a limpeza constate para ver o caminho, as placas toponímicas e os números das portas. Mas porque é que ainda não divulgaram o ar condicionado para os automóvei???! Nem com o aquecimento no máximo consigo visibilidade suficiente. Para mais, de cada vez que saio, trago para dentro do carro um quarto de litro de água na roupa. Mas o que tem de ser tem muita força e não vale a pena estar com choradeiras.

23:30h. Já vi três. Todos a dizerem mal do tempo e a lamentarem-me.
-Oh Sr. Dr.! Andar por aí com uma noite destas!
E eu com os pés encharcados, a fazer de forte.
-Deixe lá. A vida não é fácil. Às vezes, quando não nos metemos nelas, é que ficamos pior. Todas as profissões têm coisas boas e dificuldades que nos obrigam a um esforço para além do habitual. Não vão ser umas gotas de água a mais, que me vão fazer parar em casa. Ando de carro, não ando ao tempo!
Mas também não me via a ir à Central justificar, que depois de ter aceite aquelas chamadas e ter gente à minha espera, soçobrara àquela contrariedade.
...
P’rá frente é que é o caminho, que só faltam três, dizia para dentro, sem saber o que me esperava. Era uma prova que, por certo, outros já tinham vivido e que eu também tinha de ultrapassar, sem mariquices, que um homem é um homem e um gato é um bicho!  
O quarto era numa rua da Foz Velha. Depois, no regresso, meteria pela Avenida Marechal Gomes da Costa e apanhava os dois que faltavam, no caminho de casa.

Entretanto a chuva intensificara-se. Descera a Rua Dom Pedro Menezes, passara as piscinas do Fluvial e entrara na Rua de Sobreiras, que margina o Douro. Estava atapetada por um lençol de água. Medi-lhe a altura por um carro que passou em sentido contrário, disse para dentro “ainda há malucos como tu!”, e fui por ali de cabeça encostada ao pára-brisas, pano na mão, a ver onde punha os pneus, a não mais de 30Km/h.
De repente – TUM! TUM! Meto uma roda num buraco e o motor pára.

- Ggggghhhhh!!!!, - Gggggghhhhhh!, - Ggggghhhhh!!!!, - GGGGGGHHHHHHHHHHhhhhhhhhhhhh!! - GGGGGGHHHHHHHHHHhhhhhhhhhhhh!!
O motor de arranque não consegue pôr o carro a trabalhar.
Mais - Ggggghhhhh!!!! - Ggggghhhhh!!!!
- GGGGGGHHHHHHHHHHhhhhhhhhhhhh!! - GGGGGGHHHHHHHHHHhhhhhhhhhhhh!!
O melhor é parar antes que acabe a bateria.

São 24:15h. Não passa ninguém e estou no meio da rua.
Ponho os mínimos. Olho em volta à procura de uma cabine telefónica. Há uma a uns duzentos metros. A chuva abrandou.
Saio. Meto os pés na água que corre em torrente e, em segundos, fico com as calças molhadas até acima dos joelhos. 
Dou graças por ter moedas no bolso. Entro na cabina e ligo: 25442 e espero.
- Está!? Quem fala?
- Sou eu, pai! Estou parado junto ao rio. Passei por cima de uma poça de água, e o carro pifou! O motor de arranque funciona, mas o carro não pega. Deve ter espirrichado água para o motor.
- E o que é que tu andas a fazer por esses lados a estas horas?
- Isso agora não interessa! Podes vir aqui ajudar-me?

Entretanto deixara de chover. Esperei meia hora até ele chegar, atarantado, com a roupa por cima do pijama.
- Deixa lá ver!
Ggggghhhhh!!!! Ggggghhhhh!!!! 
- Deixa limpar as velas! 
Cinco minutos depois.
-BBBrrrrrrrrruuuuuummmmm!!!!! BBBrrrrrrrrruuuuuummmmm!!!!! BBBrrrrrrrrruuuuuummmmm!!!!!, o motor a trabalhar como se não tivesse passado nada.
- Entrou-te água nas velas. Nada de maior! 
- Porreiro! Obrigado! Volta à cama que eu ainda vou a meio e vou aproveitar não estar a chover!
- Eh pá! Tu não devias …
- Adeus! E mais uma vez obrigado. Amanhã falamos!!

 No quarto domicílio lamentaram-me as calças, no quinto o aspecto dos sapatos, no sexto já não esperavam por mim.
- Posso utilizar o seu telefone para ligar para a Central?
- Faz favor!
- Sr. Sousa! Estou no último. Alguém mais telefonou?
- Não, Dr.! Hoje está com sorte!
- Sortes destas não lhe desejo, Sr. Sousa! Estou molhado até à cueca! Até Domingo!
 …
São 03:30h. Entro em casa, sorrateiro. Dispo-me na cozinha e penduro a roupa numa das cadeiras. Tomo um banho quente e enfio-me na cama.
- Apanhaste muita chuva?
- Um bocadinho! Dorme, que é tarde!

domingo, 29 de novembro de 2015

O irmão do Facadas



E ao fim de meia hora, chegou o “Facadas”. Registou o irmão que estava como “laranja - não identificado” e entrou no gabinete. Finalmente havia uma história.

A enfermeira do INEM que trouxe o doente, pouca informação dera. A VMER encontrou-o à porta de um café, com grande espasticidade e desvio conjugado dos olhos para cima, amarfanhando um velho trapo amarelo de limpar as mesas, junto à boca persistentemente aberta, onde pontuavam três únicos dentes meios podres. Sinais vitais normais. O irmão, o tal “Facadas”, que estava junto, não aparentava muita preocupação e pedira para lhe telefonarem quando ele estivesse bem.

- Faça o favor de se sentar! O que é que se passou?
- É assim! Ele bloqueia! ... Mas isso é mais … da … “ugia” … da … cabeça!
- Hoje esteve consigo o dia todo?
- Não! Ahhh! Eu vou-me embora no domingo. Para França! … Trabalhar na construção civil!
- E ele? Trabalha?
- Ele ... não faz nada! ... Está reformado! Do remédio da cabeça!
- É epiléptico?
- Ai não sei! Isso aí …!
- Você está sempre em França?
- Eu estou de vez em quando e ... hoje, convidei-o para jantar e ele … bloqueou! … Que ele bloqueia mesmo!
- Então, você não vive com ele e só o convidou para almoçar?
- Ahh! Oui!
- E então o que é que aconteceu?
- Nada. Bebeu uma garrafinha de água, que ele não bebe álcool e ... bloqueou!
- Mas teve movimentos esquisitos?
- Ai teve! Mas o que eu não achei graça, foi mandarem dois carros do INEM para lá!
- Porquê?
- Dois carros? Eu só disse que o meu irmão não estava bem. Que começou a revirar os olhos em branco. … Por amor de Deus!
- Então ele estava a revirar os olhos?
- De que maneira!
- E há quanto tempo está você em Portugal?
- Ora vamos lá ver. … Quatro meses!
- E nesse tempo você deve-o ter visto várias vezes. Ele andava bem, a falar direito?
- Isso… !!! … Eu vou-lhe ser sincero! … Aqui há uma coisa! ... A senhora dele não fala com nós! Pode ser minha mãe. … E eu sou mais velho que ele! … É uma senhora já de idade! … Dói muito! … Nem à morte do meu pai veio! ... Mas sou o único e disse-lhe: Anda embora comer! Mas come devagar! … O Sr. Dr. sabe o que é um leão? … É ele a comer!
- Mas ele engasgou-se?
- Não! Não se engasgou! Eu pedi à senhora do Café para chamar o 112, e ainda não percebo porque mandaram dois carros do INEM! … Hay que pagar, ...  aãã!!!!, e pode haver pessoas a…
- Não “hay que pagar” nada, esteja descansado!
- É que … eu já o vi! E … daqui a bocado, … ele está bom!
- E quando ele está bom, o que é que ele faz?
- Então é assim! … Quer que lhe explique? … Quando recebe a reforma dele, anda tudo bem. Quando acaba o dinheiro e não há cigarros, pronto … “bareia”!
- E ele não toma medicamentos?
- Ui! ... de que maneira!?
- E hoje terá tomado?
- Não lhe posso dizer nada. … Isso não sei! Mas a Maria dele, trabalha aqui perto, e sabe os remédios.

O “Facadas” é coveiro de nove cemitérios. Diz que fez o teste de “coveiro profissional”” e que, de vez em quando, “também veste o fatinho” para as cerimónias, mas o trabalho não é regular, e vai para França “ganhar o seu”, porque “ele não cai do céu”. À saída disponibilizou-se para avisar “a Maria dele”, mas não foi necessário, porque se fez o diagnóstico de síndrome extrapiramidal dependente do haloperidol, que o doente trazia num dos bolsos, e que reverteu completamente com 5 mg de Biperideno.


A graça da história é que, apesar de alcoolizado, o “Facadas” deu as dicas para o diagnóstico e, uma hora depois, o doente estava a caminho da sua Maria, com a Nota de Alta dirigida ao psiquiatra, para reduzir a dose ou suspender o haloperidol, para acabar aquele “bloqueio”.

domingo, 1 de novembro de 2015

terça-feira, 3 de março de 2015

O Sr. Meireles


O Sr. Meireles era o chauffeur da minha avó. Pelo menos era assim que lhe chamávamos. Tinha andado ao serviço de uma família amiga e, como já estava velho e não tinha para onde ir, a minha avó deu-lhe guarida num anexo da sua casa. De vez em quando, conduzia o carro do meu falecido avô.
Não tinha reforma e vivia do fabrico de uns pudins Abade de Priscos, com que fornecia alguns restaurantes da zona de Braga. Usava a cozinha exterior, que forrara de formas, bacias, caixas de ovos e baldes de todo o tipo.
A sua suposta actividade de chauffeur, era escassa. Lembro-me de o ver ao volante uma ou duas vezes e até a minha avó tinha de marcar com grande antecedência, porque as horas de entrega dos pudins estavam primeiro.
Tinha um corpo de touro encimado por uma pequena cabeça de abutre careca e luzidia, debruada de longos cabelos, que pintava, com desvelo, de preto azeviche cintilante.
Era um solitário de poucas falas. Às vezes, depois do jantar, aparecia na sala de estar da casa, para ver televisão. Cumprimentava, sentava-se no sofá mais afastado e ali ficava, mudo e quedo, até que sono o fizesse cambalear.
Depois era uma questão de tempo, para se ouvir o Nsstt! Nsstt! da minha avó, para que ele desencostasse a cabeça dos naperons que decoravam o cimo dos sofás. E de Nsstt! em Nsstt! o Sr. Meireles vacilava, até às horas de se ir, sem deixar cor nas alvas rendas.

No seu funeral éramos cinco, incluindo o meu irmão mais novo, de sete anos, e um fulano que por lá apareceu, para a missa, e que acabou numa asa do caixão.
Sabíamos que ele não era de amizades, mas sempre pensámos que teria alguma família.
Parece que deixou saudades nos gulosos da região.