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domingo, 29 de novembro de 2015

O irmão do Facadas



E ao fim de meia hora, chegou o “Facadas”. Registou o irmão que estava como “laranja - não identificado” e entrou no gabinete. Finalmente havia uma história.

A enfermeira do INEM que trouxe o doente, pouca informação dera. A VMER encontrou-o à porta de um café, com grande espasticidade e desvio conjugado dos olhos para cima, amarfanhando um velho trapo amarelo de limpar as mesas, junto à boca persistentemente aberta, onde pontuavam três únicos dentes meios podres. Sinais vitais normais. O irmão, o tal “Facadas”, que estava junto, não aparentava muita preocupação e pedira para lhe telefonarem quando ele estivesse bem.

- Faça o favor de se sentar! O que é que se passou?
- É assim! Ele bloqueia! ... Mas isso é mais … da … “ugia” … da … cabeça!
- Hoje esteve consigo o dia todo?
- Não! Ahhh! Eu vou-me embora no domingo. Para França! … Trabalhar na construção civil!
- E ele? Trabalha?
- Ele ... não faz nada! ... Está reformado! Do remédio da cabeça!
- É epiléptico?
- Ai não sei! Isso aí …!
- Você está sempre em França?
- Eu estou de vez em quando e ... hoje, convidei-o para jantar e ele … bloqueou! … Que ele bloqueia mesmo!
- Então, você não vive com ele e só o convidou para almoçar?
- Ahh! Oui!
- E então o que é que aconteceu?
- Nada. Bebeu uma garrafinha de água, que ele não bebe álcool e ... bloqueou!
- Mas teve movimentos esquisitos?
- Ai teve! Mas o que eu não achei graça, foi mandarem dois carros do INEM para lá!
- Porquê?
- Dois carros? Eu só disse que o meu irmão não estava bem. Que começou a revirar os olhos em branco. … Por amor de Deus!
- Então ele estava a revirar os olhos?
- De que maneira!
- E há quanto tempo está você em Portugal?
- Ora vamos lá ver. … Quatro meses!
- E nesse tempo você deve-o ter visto várias vezes. Ele andava bem, a falar direito?
- Isso… !!! … Eu vou-lhe ser sincero! … Aqui há uma coisa! ... A senhora dele não fala com nós! Pode ser minha mãe. … E eu sou mais velho que ele! … É uma senhora já de idade! … Dói muito! … Nem à morte do meu pai veio! ... Mas sou o único e disse-lhe: Anda embora comer! Mas come devagar! … O Sr. Dr. sabe o que é um leão? … É ele a comer!
- Mas ele engasgou-se?
- Não! Não se engasgou! Eu pedi à senhora do Café para chamar o 112, e ainda não percebo porque mandaram dois carros do INEM! … Hay que pagar, ...  aãã!!!!, e pode haver pessoas a…
- Não “hay que pagar” nada, esteja descansado!
- É que … eu já o vi! E … daqui a bocado, … ele está bom!
- E quando ele está bom, o que é que ele faz?
- Então é assim! … Quer que lhe explique? … Quando recebe a reforma dele, anda tudo bem. Quando acaba o dinheiro e não há cigarros, pronto … “bareia”!
- E ele não toma medicamentos?
- Ui! ... de que maneira!?
- E hoje terá tomado?
- Não lhe posso dizer nada. … Isso não sei! Mas a Maria dele, trabalha aqui perto, e sabe os remédios.

O “Facadas” é coveiro de nove cemitérios. Diz que fez o teste de “coveiro profissional”” e que, de vez em quando, “também veste o fatinho” para as cerimónias, mas o trabalho não é regular, e vai para França “ganhar o seu”, porque “ele não cai do céu”. À saída disponibilizou-se para avisar “a Maria dele”, mas não foi necessário, porque se fez o diagnóstico de síndrome extrapiramidal dependente do haloperidol, que o doente trazia num dos bolsos, e que reverteu completamente com 5 mg de Biperideno.


A graça da história é que, apesar de alcoolizado, o “Facadas” deu as dicas para o diagnóstico e, uma hora depois, o doente estava a caminho da sua Maria, com a Nota de Alta dirigida ao psiquiatra, para reduzir a dose ou suspender o haloperidol, para acabar aquele “bloqueio”.

domingo, 1 de novembro de 2015

terça-feira, 3 de março de 2015

O Sr. Meireles


O Sr. Meireles era o chauffeur da minha avó. Pelo menos era assim que lhe chamávamos. Tinha andado ao serviço de uma família amiga e, como já estava velho e não tinha para onde ir, a minha avó deu-lhe guarida num anexo da sua casa. De vez em quando, conduzia o carro do meu falecido avô.
Não tinha reforma e vivia do fabrico de uns pudins Abade de Priscos, com que fornecia alguns restaurantes da zona de Braga. Usava a cozinha exterior, que forrara de formas, bacias, caixas de ovos e baldes de todo o tipo.
A sua suposta actividade de chauffeur, era escassa. Lembro-me de o ver ao volante uma ou duas vezes e até a minha avó tinha de marcar com grande antecedência, porque as horas de entrega dos pudins estavam primeiro.
Tinha um corpo de touro encimado por uma pequena cabeça de abutre careca e luzidia, debruada de longos cabelos, que pintava, com desvelo, de preto azeviche cintilante.
Era um solitário de poucas falas. Às vezes, depois do jantar, aparecia na sala de estar da casa, para ver televisão. Cumprimentava, sentava-se no sofá mais afastado e ali ficava, mudo e quedo, até que sono o fizesse cambalear.
Depois era uma questão de tempo, para se ouvir o Nsstt! Nsstt! da minha avó, para que ele desencostasse a cabeça dos naperons que decoravam o cimo dos sofás. E de Nsstt! em Nsstt! o Sr. Meireles vacilava, até às horas de se ir, sem deixar cor nas alvas rendas.

No seu funeral éramos cinco, incluindo o meu irmão mais novo, de sete anos, e um fulano que por lá apareceu, para a missa, e que acabou numa asa do caixão.
Sabíamos que ele não era de amizades, mas sempre pensámos que teria alguma família.
Parece que deixou saudades nos gulosos da região.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Primeiro dia do ano

Primeiro dia do ano. Sete e meia. Os primeiros raios de sol. A estrada vazia. Cinco horas de sono. Doze de trabalho pela frente. 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Sexta-feira


IIIiiiiii  ... uma boa sexta-feira!
IIIIiiiii .... Nossa Senhora de Fátima nos ajude!
IIIIiiiii ...  a Senhora da Agonia! ....

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Assédio


Assédio, assédio! Assim com letra grande, … nunca. Nunca senti esse tipo de cobiça por detrás de um olhar de uma mulher. Sou homem. Não é suposto ser alvo, principalmente quando se anda com arco, flechas e um chapéu com uma pena. 

Viro-me para o lado e pergunto. E tu? E ouço-lhe a história de uma vez, em que a sorte lhe levou quem não preenchia requisitos.

Primeiro foi uma vez, e uma vez é nunca, como dizem os alemães e eu concordo. Depois, porque ser vítima de uma "madame" vinte anos mais velha, pletórica, de cabelo empastado e hipertensa é filme de terror, que não deve ser automaticamente incluído nesta categoria. 

Conta ele uma novela de seis visitas, de roupas às cores e rendas dos anos trinta, de cheiros a naftalina e adereços rebuscados do fundo de baú. Um cio tardio de solidão. O último uivo de uma alma reprimida, de uma vida iniciada com fogos de artifício. Casa de brasão. Nome de seis apelidos. Sons de Marinha e de Exército. Anos a aprender as coisas de mulher. Orações, confessos e recato. Uma prenda esquecida no canto do salão, até o desespero lhe propor jogar o ás de copas, naquele dia tão lindo sem uma nuvem no ar.

Era Abril. A mãe junto a Deus, o pai em viagem, a irmã nas lides domésticas. Duas horas mortais.
A igreja a três passos. A lembrança da homilia. Uma rosa no cabelo.
-Sr. Padre!

Depois, o hall de entrada e ele ali à mão. O rubor a subir, o corpo a tremer, as palavras mil vezes languidamente pensadas ditas de uma vez.
De repente, uma outra porta que se abre. A irmã!.

- Carlota! Foi o sr. Padre que me chamou!
-  Lucinda! Foste tu que me seguiste! 

O resto da vida marcada pelo ferrete daqueles instantes. Os meses a agravar a desavença. A solidão partilhada naquele casarão a degradar-se. Os anos num triste fio de rotinas, até medir a tensão e lhe dizerem que estava alta.

Uma consulta, duas consultas, … seis consultas. A história a repetir-se.

domingo, 16 de novembro de 2014

Santiago

E lá fui eu a Santiago ver o “Servizo de Cardioloxía, do Complexo Hospitalario Universitario de Santiago de Compostela, pela mão do seu director Dr. José Ramon Gonzalez-Juanatey.
Para quem está, há anos, a observar a degradação do Serviço Nacional de Saúde, ouvi-lo, é uma lufada de ar fresco -  liderança por quem sabe, trabalho de equipa e muito pouca vaidade vã. Um paradigma que nos foge, a 178Km (1 hora e 50 minutos) deste Lethes fictício.

Depois, o abraço ao santo, a purificação pelo incenso, a “Cidade da Cultura” e as ruas da cidade.
Um tempo de encontros.


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Crucifixo


Nunca entendi este icon da cristandade. Dá-me logo para pensar que se Cristo tivesse sido executado de outro modo, iria encontrar agora, na rua, alguém com uma jóia ao peito com Ele pendurado pelo pescoço numa corda, num cepo com um machado, num garrote, à frente de um pelotão de fuzilamento ou numa cadeira eléctrica, se tal acontecesse noutra época ou noutro local, já que são inúmeras as opções para pôr fim às dissidências.
Trouxe-te por seres em pau-preto e representante da arte africana, e pus-me às voltas contigo. Aqui não! Aqui também não! Ali ... definitivamente Não! Não ficas bem em nenhum canto desta casa. Pareces atrair maus humores. Lembras a traição e o oportunismo de quem te esteve próximo.
Se fosses positivo e nos inspirasses confiança,  eu arranjava-te um lugar. Assim ..., desculpa a viagem. Vais voltar à origem e ficar à espera de quem esteja disponível para o martírio, que é o fim provável dos espíritos sedentos de verdades absolutas.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Os filhos e os netos


Conversa entre a minha filha e os meus netos. Contada por ela.

"Anda uma mãe a comprar livros de parentalidade e a tentar aplicar tudo o que lá se diz e, afinal, a coisa é clara como água.

João: - Ó mãe, queria fazer-te uma pergunta, mas não leves a mal (o meu filho começa muitas vezes as perguntas assim, deve achar-me muito sensível...). O que é que tu achas que é melhor, ser criança ou ser adulto? E não me respondas que são as duas boas, que não é esse tipo de resposta que eu quero...
Eu: -Bem! Para ser sincera são coisas diferentes. Eu acho que estou a gostar mais de ser adulta do que gostei de ser criança!...
João: - Então é melhor ser adulto?
Eu:- Não é isso. O que acho é que já tive mais tempo para aprender a não ficar triste ou irritada com determinadas coisas! ... É uma coisa que se aprende e se treina! ... Ser criança, às vezes, não é fácil!

Nesta altura da conversa, a Rita, que estava sentada à mesa, achou que devia intervir para ajudar a esclarecer as coisas. Pôs-se em pé à minha frente e com ar de regateira disse:
-Ó mãe, a pergunta é muito simples. Preferes MANDAR OU OBEDECER?????

E pronto. Afinal é mesmo por isso que eu prefiro ser adulta!  "

terça-feira, 1 de julho de 2014

Acidentes




- E isso foi verdade?
- Deve ter sido. Falava-se à boca pequena. Lembro-me dela como uma mulher bonita, pequena e muito despachada. Trabalhava no Liceu. O que fazia exactamente, não sei! Ele era um assalariado indiferenciado. A certa altura começaram uns rumores de que ela se encontrava com o reitor, e alguém o foi avisar. E ele, em vez de se indignar, parece ter retrucado: “cornos que dão de comer, deixá-los crescer!” A coisa não chegou a escândalo público. O reitor foi substituído, dizia-se que por causa disso, e ela foi trabalhar num outro organismo do Estado. Mais não sei!

quinta-feira, 13 de março de 2014

Manipuladores


Chega "Laranja" por "ideação suicida". É a 25ª vinda ao S.U. .
"Está desesperado" e "sente-se só". Entrou de férias. "O trabalho era um escape"!
Vive sozinho num quarto e "diz" estar a tomar três antidepressivos.
Está bem arranjado, gesticuloso, chamando a atenção para o suor que lhe cobre a testa neste dia de calor. A interrupção que pede, para ir fumar um cigarro, parece premeditada.

Será um bipolar ou um manipulador?
Prolongo a conversa, decifrando-lhe os gestos e as meias palavras.
-Amigos? pergunto. Responde que não gosta de conversas de café nem de futebol. - Família? Tem mãe e duas irmãs. - Pode telefonar a uma delas, para eu lhe falar.
...

- Oh Dr! Eu já me cansei! Ele sempre foi mulherengo. Há cinco anos a mulher fartou-se e divorciaram-se. Desde então tem vivido com várias, geralmente em casa delas, raramente só. Agora, parece que está a viver num quarto. Ele não ganha mal, mas quer que cuidem dele sem dar nada em troca.
Há um ano, quando eu ainda o ouvia, foi chorar para a minha porta, a dizer que tinha um aperto no peito que nem o deixava engolir. Tive pena! Sentei-o à mesa e ele comeu três grandes costeletas e uma pratada de arroz que dava para uma família. Não me contive e disse-lhe: Oh Luís! Ainda bem que não te passa nada na garganta, porque senão comias uma vaca inteira!
Dr.! O que ele agora quer, é ir para a casa da minha mãe que tem 84 anos. Mas a minha irmã, que vive com ela, não está para sustentar cavalos malandros.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A chave


Tem 24 anos. É bonita e agradável. Tem um curso Politécnico que lhe devia ter dado uma abertura de espírito superior ao meio onde nasceu. Mas o berço puxa-a e integra-a na cultura onde, de facto, pertence.
Há pouco mais de um ano usa uma chave ao pescoço, depois de um padre lhe ter fechado o corpo, para que não volte a ficar possessa de nenhum espírito. Nessa altura falava com vozes que não eram suas em crises de agressividade.

Num exame radiológico, cumpriu-se a rotina, e o amuleto foi-lhe retirado. A intervenção demora e implica desconforto. Surge ansiedade e a doente descontrola-se. De imediato um familiar que a acompanha (enfermeiro) topa a falta do amuleto, e também ele entra em histeria, procurando a toda a pressa colocar-lho, recriminando quem lho tinha tirado. De seguida saem apressadamente de encontro ao padre, para que ele lhe feche de novo o corpo.
De então para cá, não voltou a ter crises e não toma medicação.

Agora quer terminar o exame que ficou incompleto. Diz que, na hora, põe a chave no tornozelo.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

As varizes

Conheço-a há mais de dez anos. Talvez, nessa altura, fosse uma mulher vistosa, mas a esta distância, lembro-me mais das suas análises e das dificuldades no tratamento, que do seu aspecto físico.  Embora habitualmente venha arrumada, topo-lhe na pele e nos modos nuances que me fazem lembrar o dia em que veio à consulta com a voz entaramelada pelo vinho. Tem ainda muito caminho a percorrer, e a esperança de ir a tempo de encarrilar a vida.
É mãe solteira de uma gravidez diagnosticada aos seis meses, quando se queixou de “uma cobra a rabiar-lhe na barriga”. Depois surgiram os “ai meu deus!” com as suas doenças agravadas pelas do companheiro, também ele um desgraçado às voltas com dúzias de comprimidos.
A irmã, que usualmente a acompanha, faz de mãe e lamenta-lhe a falta de regra. É mais nova e mais forte de carnes. Brilha-lhe o ouro no pescoço e nos pulsos, principalmente quando projecta a voz pela sala, contando-lhe as misérias. –“Não tem juízo, esta minha irmã! Olhe Dra.! Eu pago-lhe a mercearia, para ela andar bem alimentada. E a conta cada vez é maior, por causa do vinho! Tem jeito?”, questiona-me, enquanto a fixa de olhos no chão. Às vezes, vem só ela para levantar os medicamentos. -“A minha irmã está com vómitos, Sra. Dra.! Voltou a beber! Anda perturbada por ter de voltar à escola, para lhe darem o rendimento mínimo.”

Mas hoje vem a acompanhar um homem de 72 anos à primeira consulta, porque “ele não conhece as voltas do Hospital”.
Está toda "produzida". Salto alto, casaco de couro azul cobalto, pulseira de ouro a deslizar até à mão, um traço forte a rasgar o olho e com um despacho que eu nunca lhe conheci. Sentam-se.
O computador informa: ...teste HIV positivo, pedido porque … “o senhor anda com uma mulher de maus comportamentos!”.
Peço para ela aguardar lá fora, para dar lhe privacidade e pergunto por doenças sexualmente transmissíveis, e mais especificamente por infecção pelos vírus da SIDA.
Fica atrapalhado. Fala da disponibilidade dela para o arranjo da casa, já antes da mulher lhe morrer, e de o terem avisado que ela não era de confiança. Mas nunca teve doença “nas partes”. Lembra-se de um "esquentamento" em Lisboa, causado por uma ida descalço a uma sanita, ... há muitos anos.
Esclarecida, continuo. Dou as orientações e despeço-me.
Mal a porta se fecha, logo se abre para ela entrar de lágrima no olho, preocupada por se sentir culpada por aquela doença.
-“Sabe senhora. Dra.! Aqui há uns tempos, quando ele foi operado às varizes, eu fui lá a casa fazer-lhe os pensos e, com certeza, passei-lhe a minha doença ao sangue!”
- “Só pode ter sido, Judite! Só pode!”, respondi.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Quarta Idade


O meu tio Manuel está para lavar e durar. Anda todos os dias para cima de 5 Km, tem a cabeça escorreita e não se conhece uma artrose no seu metro e sessenta e cinco.
Quando fez 100 anos, a família fez-lhe uma grande festa e ele andou de mesa em mesa a oferecer fotografias suas autografadas.
No fim da refeição, quando já estava tudo mais calmo, para lhe fazer um carinho, disse-lhe: - “Oh tio! Daqui a dez anos, vamos estar cá outra vez para festejar!”
Aí, ele pôs um ar grave, como convém quando se fala com um médico, e respondeu-me: - “Não sei como vai ser a minha vida, Judite! A minha filha está velha. O meu genro, … velhíssimo! Um destes dias morrem! … E o que é que vai ser de um homem?”

Ele disse aquilo preocupado, sem um laivo de ironia. E olha que não está longe da verdade!

História de J.Q.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Efeitos colaterais


Tem 83 anos, é viúva e vive com uma empregada que trata de tudo. Teve vida em Lisboa, o que transparece no sotaque, na roupa e nos enfeites. O coração falha-lhe há meia dúzia de anos, e hoje vem à consulta depois de ter sido operada às cataratas que a cegavam. Está feliz com a sua nova visão e, aproveitando uma pequena pausa, enquanto procuro os resultados analíticos, dá largas à sua natural expansibilidade.
- O Sr. Dr. é tão bonito! Eu já o adivinhava na voz. Posso dar-lhe um beijo? ... Sabe, eu tive de parar aquele remédio, o Pradaxa, porque me excitava muito. Só me apetecia fazer amor! ... , e eu sem ter com quem!
- Dona Ana! Vamos de ter de reportar essa reacção adversa do medicamento ao Infarmed, pois deve ser o primeiro caso a ser descrito. Quanto ao beijo …

História de E.T.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Vidas



Com doze anos fui para Lisboa trabalhar, com a ideia de ser sapateiro como o meu pai, mas para cada anúncio de emprego havia mais de 50 candidatos. Só arranjei trabalho nas obras, para os lados do Chiado e o dinheiro que ganhava não dava para as despesas. Um dia, um amigo arranjou-me um lugar de ajudante de cozinha num Hotel e a minha situação melhorou. Ganhava 300 escudos por mês, mas comia de graça. Cheguei a cozinheiro e a vestir o "fato branco". Mas aquilo era uma prisão e eu gostava do putedo, e em 57 tirei a carta e fui para taxista. Voltei em 66 e comprei um taxi na minha terra. Naquela altura havia muita gente emigrada e sem carro, e eu calcorreei essa Europa toda! Tive períodos de ir duas vezes por semana a Paris. Levava 5 de cada vez a mil escudos cada um (o bilhete do comboio custava 700$). Ia buscá-los a casa e punha-os onde eles queriam. Levava-lhes mais malas do que as que eles conseguiam levar no comboio, e isso compensava-os. A grade no tejadilho não podia levar mais. Bons tempos!

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Trabalhos de um bisavô


 
- Rita! Deixa o teu bisavô em paz!
- Está quase! Ele não se importa!

terça-feira, 4 de junho de 2013

A Julinha e o Cansado


A Julinha, chefe da Secretaria no Hospital Velho, era uma "disciplinadora". Tinha um gosto particular em alimentar com papéis os inúmeros dossiers por que era responsável, como se cada um fosse um ser vivo a necessitar de novas folhas para crescer. Criara uma teia burocrática tão eficiente que, até os mais avisados, contribuíam para elevar as suas endorfinas. Estava ali para aplicar as soluções já definidas e sentia que tinha por missão educar os funcionários.

Na altura, a Secretaria era uma sala rectangular, dividida por um balcão em L, com dois guichets contíguos no canto, para o Atendimento. Em cima deles dois letreiros de grandes letras informavam, num “Tesouraria” e no outro “Secretaria”. O horário era ESCRUPOLOSAMENTE cumprido. -"Sr. Dr.! Abrimos às onze e fechamos ao meio-dia!", e, quem chegasse fora desta hora, ou se entretinha a observar o ponteiro dos segundos a sobrepor-se ao dos minutos até às onze ou teria de vir no dia seguinte, se não fosse sexta-feira.

Um dia, o Dr. Coelho Cansado, foi à Secretaria para regularizar um esquecimento de assinar o Livro de Ponto. Não havia ninguém a aguardar. A Julinha debruçava-se sobre uma resma de papéis no guichet "Tesouraria". Cumprimentou-a:  
- "Dona Júlia, eu vinha aqui porque não assinei o Ponto!", disse então, na esperança de uma fácil solução, por ignorar a importância que pode ser atribuída a um sarrabisco colocado a tempo e horas numa folha de papel, e aguardou o seu olhar por cima dos óculos.
- "Sr. Dr.! Trata-se então de um problema de presença!”, confirmou com ar de poucos amigos, decidida a não deixar qualquer i sem o respectivo ponto.
De seguida levantou-se, disse “Um momento!”, contornou a esquina que a separava do outro guichet, onde estava escrito “Secretaria”, abriu o vidro, voltou a sentar-se e continuou:
"-Sr. Dr.! ... Agora ... Faz favor de dizer!"


O Dr. Cansado, que já era torcido, aprendeu o que lhe faltava. Desde então, não se envolve em nada. Anda pelos mínimos e cumpre religiosamente o registo da assiduidade. Se sai às cinco, às cinco menos vinte, começa os preparativos. Se está com um doente, informa-o: - "A sua consulta acabou, porque eu tenho de ir despir a bata e demoro cinco minutos a descer as escadas até ao lugar onde tenho de pôr o dedo!"

sábado, 1 de junho de 2013

Rita


- Avó!
- Diz, Rita!
- Os católicos são bons?
- Ser bom ou mau não tem nada a ver com ser católico. Ser católico é acreditar em Deus e ir à missa. Os não católicos não vão.
...
...
...
- Eu não sou católica!. … … ... … … Não gosto de missas! … … ... ... Nunca mais acabam, ... ... falam uma língua que eu não percebo nada do que dizem!
- Mas, Rita! Tu alguma vez foste a uma missa?
...
- Fui!
- Foste com a avó Guida?
...
- Sim! … … … … A missa faz-me vómitos!
- Rita! Como é isso? A missa não pode fazer vómitos.
- Faz, avó! Vomitei em dois papéis que a avó Guida me deu. Uma espuma branca! ... ... ... Depois a avó Guida saiu de ao pé de mim e foi lá fora procurar um caixote do lixo para pôr os papéis, e quando veio, a missa estava a acabar! ... ... ... Foi esperta! ... Saiu da missa e eu tive de ficar até ao fim com o avô João!

domingo, 26 de maio de 2013

Um transmontano

Eu nasci em 1950, em Trás-os-Montes. No fim do mundo. O meu pai era um janota, de olho azul traição, a quem a família arranjou casamento tardio, depois de muitas altercações sobre o seu modo de viver, e a minha mãe, era o que se pode chamar … uma mulher “feroz”!

Com poucos meses de idade fui entregue à minha madrinha, irmã dela e professora numa aldeia do distrito.  Uma viking, alta e loura que levava todos na frente. Nunca casou. Dava-me aulas dentro e fora da escola.
Até à ida para o Liceu, só ia a Moncorvo alguns dias de férias.

Quando voltei para casa dos meus pais, mal conhecia os meus irmãos. Vinha de correr atrás dos burros e das ovelhas e estranhava-lhes os ademanes.
A minha mãe era de uma religiosidade à prova de bala. Ia à missa para se salvar e ao bruxo para dar tino a um irmão que era feito da pele do diabo. Antes de se deitar, atirava sal para os cantos da cave e depois rezava o terço. Só permitia que se festejassem dois eventos. A Páscoa e o Natal. Só soube o que era uma festa de anos quando me casei.

Aos 16 anos mudámos para o Porto, por questões de saias do meu pai. Foi a primeira vez que vi uma cidade com luz à noite. Era só abrir os olhos e deixar que tudo entrasse cérebro adentro.

Quando fiz vinte e três anos a minha madrinha informou-me que tinha uma mulher para mim. Nessa altura eu já era citadino e recusei. Mas atenção, que madrinha em Trás-os-Montes não era o mesmo que no Porto, que é madrinha de festa. Madrinha obrigava. Foi com grande dificuldade que evitei aquele casamento cuidadosamente arranjado.

Depois o meu pai morreu e a minha mãe vestiu-se de preto opaco nos trinta anos que lhe sobreviveu. Morreu aos 92 anos, sem nunca nos entendermos.

Deus, se existe, deve divertir-se à brava a baralhar destinos.