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quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Carta a Santo Antão


Caro Santo:


Há dois meses me vens ao pensamento, por ter lido coisas que pouco abonam a favor da tua santidade.

Eu só te conhecia de nome. Primeiro, nas aulas de Geografia, eras uma das ilhas de Cabo Verde. Mais tarde, foste uma rua (Rua das Portas de Santo Antão), onde ficava a Casa do Alentejo, um dos meus restaurantes de referência na capital. Depois, no Palácio das Necessidades, identifiquei-te no tríptico de Bosch – As Tentações de Santo Antão, sem nunca me ter dado ao trabalho de estudar a tua biografia.



Só agora, depois de reformado, arranjei tempo para ler sobre o que deve ter sido a tua vida.

Li que foste um cristão egípcio, fervoroso e iletrado, que nasceste em 251 da E.C. (era comum), que no início da vida adulta, abdicaste de significativo património, para te tornares eremita no deserto, à procura de uma confrontação direta com o demónio, por ser essa a sua “morada”. Passados vinte anos de solidão, tornaste-te o mestre de uma horda de monges que, com a justificação de “ajudar cristãos perseguidos”, demoliu templos, profanou estátuas e queimou livros que consideravas “pagãos”, onde vias os tais “demónios”.

Percebeste que homens ofendidos e magoados se podem transformar em combatentes destemidos e obedientes, se lhes for dada uma causa emocionante pela qual possam lutar e, através da religião, visaste o poder e os valores culturais de Roma.
Isso nada tem de religioso. É pura política. Mas foi o teu fanatismo e essa ideia de auto-flagelação que deu início ao imenso retrocesso cultural que havia de pôr fim à civilização greco-romana.

Lembras-me o ISIS (Islamic State of Iraq and Syria) - radicais, a celebrar a ignorância e a destruir os símbolos das outras culturas, para impor uma Sharia ao mundo, recorrendo ao terror, invocando os mesmos demónios. Também eles alegam que o fazem “não por crueldade, mas para orientar os pecadores no caminho da salvação”.
Santo Agostinho (354 – 430) - (também ele oriundo do norte de África), não só deu continuidade ao teu estar, como incendiou ainda mais a fogueira, com “ensinamentos” onde a intolerância era a regra: “Oh! Violência misericordiosa!”, disse quando se chacinavam "pagãos".

Sabes, Antão!: Depois de isto tudo, não te vejo como um santo atormentado por demónios, vejo-te como um perturbado mental, que utilizou o mundo horripilante dos demónios, para se opor a uma aristocracia romana que vivia no meio de uma “indulgência licenciosa” e oportunista, onde muitos morriam à fome. Só que a tua ignorância fez-te ficar por aí. Mediste o todo pela parte,  e não consideraste os verdadeiros valores dessa civilização.

A tua história deveria ser reescrita, para que deixasses de ser exemplo a radicalismos que usam essas tretas de “demónios" e outras visões vesgas da sociedade, sem considerarem a repercussão das suas "boas intenções" no contexto de um Mundo plural. 

domingo, 1 de abril de 2018

Domingo de Páscoa




Filme baseado na Ópera rock de Andrew Lloyd Webber, com libreto de Tim Rice. Apresentado em 1970.

Uma versão baseada no provável pensamento de Judas (apresentado como o braço direito de Jesus), que sente que o projecto a que aderiu se desvirtuou e pôs em risco todo o grupo, quando Jesus aceitou que lhe chamem "rei dos judeus" e ter uma relação preferencial com Deus.

História (possível) com algum rigor histórico:

Jesus nasceu aproximadamente no ano 4 a.e.c. (antes da era comum), por volta da morte de Herodes Magno.
Passou a infância e os primeiros anos de adulto, em Nazaré, uma aldeia da Galileia.
Foi um judeu praticante, que leu as Escrituras.
Aos 30 anos foi baptizado por João Baptista, o que lhe mudou a vida. (João Baptita foi mandado executar por ter criticado o casamento de Antipas com a mulher do seu irmão, o que fez que se tornasse referência com muitos seguidores, que poderiam dar início a uma revolta).
Reuniu discípulos à sua volta. Ensinou em pequenas povoações e na região rural da Galileia (nunca nas grandes cidades) e anunciou a eminente vinda do “Reino de Deus” à Terra.

Por volta do ano 30, foi a Jerusalém, para a festa da Pessach. Entrou de burro na cidade, como a cumprir a previsão do profeta Zacarias: “Estai atentos! O vosso rei virá até vós, triunfante, montado num burro!”
Quando foi ao Templo agrediu os cambistas e os vendedores de pombas e insultou-os de ladrões, interferindo nos negócios de compra e venda que eram necessários para a manutenção do serviço do Templo, o que deve ter causado escândalo.
Depois, deve-se ter considerado um “homem marcado”. Foi para o Monte das Oliveiras, tomou uma última refeição com os discípulos e aguardou a intervenção de Deus.

Um dos seus discípulos denunciou-o. Foi preso e, num processo adequado a um caso sem grande importância, o sumo sacerdote Caifás, ouvidos os conselheiros, fez uma recomendação de execução ao prefeito romano (Pôncio Pilatos), que agiu em conformidade.

Os seus discípulos fugiram e criaram uma comunidade para aguardar o seu regresso, juntamente com o "Reino de Deus", e procuraram persuadir outros a acreditar nele como Messias enviado por Deus. Este movimentou difundiu-se muito mais rapidamente entre os gentios que entre os judeus.

Geopolítica da época:

Quando Herodes Magno morreu, o Imperador romano Augusto, analisou os seus testamentos (eram dois) e decidiu dividir o reino entre os três filhos. Arquelau foi nomeado governador da Judeia, Samaria e Idumeia, Antipas herdou a Galileia e a Pereia e Filipe recebeu as regiões mais remotas do reino de Herodes.

Antipas revelou-se um vassalo fiel e governou a Galileia durante 43 anos. Arquelau teve menos sorte. Os seus súbditos protestaram contra algumas das suas medidas e Roma deu-lhes razão. Destitui-o, exilou-o, e nomeou um funcionário romano para o substituir.

Os judeus reagiam com muita sensibilidade ao que acontecia em Jerusalém. Além disso, as grandes concentrações que ali ocorriam, por ocasião das festas religiosas, criavam condições favoráveis à eclusão de distúrbios.

O prefeito, no tempo de Jesus, vivia em Cesareia, na costa do Mediterrâneo, num dos luxuosos palácios de Herodes Magno. Dispunha de tropas de 3.000 homens, o que não era suficiente para resolver problemas graves. Havia uma pequena guarnição na fortaleza Antónia em Jerusalém, bem como outros fortes na Judeia, mas Roma não governava a Judeia no dia-a-dia. As cidades e as aldeias eram governadas, como sempre o tinham sido, por um pequeno grupo de anciãos, entre os quais, um ou vários, serviam de magistrados. Quando havia dificuldades que pudessem levar ao derramamento de sangue, os cidadãos mais importantes mandavam uma mensagem ao prefeito. Os distúrbios mais significativos exigiam a intervenção do legado da Síria, que era superior ao prefeito da Judeia e dispunha de grandes contingentes militares (quatro legiões, no total de aproximadamente 20.000 homens de infantaria e de uma cavalaria de 5.000 homens).

Durante as festas mais importantes, o prefeito romano vinha para Jerusalém e o contingente de tropas era reforçado, para garantir que as multidões não se descontrolassem.
Só o prefeito tinha o direito de condenar à morte, com uma excepção: Roma permitia aos sacerdotes afixar avisos em grego e latim, no Templo, proibindo os prosélitos a entrada num determinado sector do Templo. Quem infringisse essa proibição, mesmo que fosse cidadão romano, era executado imediatamente, sem que fosse enviado ao prefeito. Exceptuando este caso, o direito a condenar à morte não só era exclusivo, como absoluto – ele podia mandar executar até um cidadão romano, sem precisar de formular uma acusação que fosse apresentada perante um tribunal romano.

Jerusalém fica na Judeia que, ao contrário da Galileia, era uma província romana.
Jerusalém, era governada pelo sumo sacerdote dos judeus (José Caifás), que estava subordinado ao prefeito romano (Pôncio Pilatos).
A Galileia era governada por Herodes Antipas, filho de Herodes Magno.

Os Judeus acreditavam que Deus controlava a História e decidia o resultado de todos os acontecimentos importantes. Alguns acreditavam que Deus estabeleceria o Seu Reino na terra num futuro próximo. Muitos Judeus desejavam a libertação do domínio romano e pensavam que isso só podia ser alcançado com a ajuda de Deus.

Também acreditavam (e acreditam) que Deus fez uma aliança com o seu povo, que os obriga a obedecer-Lhe, assim como obriga Deus a guiá-los e protegê-los. Também acreditam que Deus lhe deu a terra da Palestina e que lhes falou através dos profetas.


Páscoa Judaica:

É uma das três festas de peregrinação ao Templo, do ano litúrgico judaico. Começa a 15 do mês de Nissan e dura sete dias em Israel e oito dias na Diáspora. Celebra a libertação de Israel da servidão no Egipto em 14 de Nissan do ano de 1446 a.e.c.

Deus enviou as Dez pragas sobre o povo egípcio. Antes da décima, o profeta Moisés foi instruído a pedir a cada família hebreia que sacrificasse um cordeiro e molhasse os umbrais das portas com o sangue do cordeiro, para que não fossem acometidos pela morte de seus primogénitos.

Chegada a noite, os hebreus comeram a carne do cordeiro, acompanhada de pão ázimo e ervas amargas. À meia-noite, um anjo enviado por Deus feriu de morte todos os primogénitos egípcios, desde os primogénitos dos animais até mesmo os primogénitos da casa do Faraó. Então o Faraó, temendo a ira divina, aceitou liberar o povo de Israel, o que levou ao Êxodo.

Como recordação dessa libertação e do castigo de Deus sobre o Faraó, foi instituído para todas as gerações o sacrifício da Páscoa (Pessach).

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Lembranças do Olimpo (33)


Hipólito respondeu positivamente ao convite para Reunião Anual da Sociedade Universal dos Novos Feiticeiros. Recebera o programa e conseguira identificar cinco dos nomes que lá apareciam: o de Yuval Noah Harari, o de Henry Kissinger, o de Dwight Eisenhower, o de Anwar Sadat e o de Mikhail Gorbachev, os restantes nada lhe diziam.
Como destes, uns estavam vivos e outros mortos, previu que ali tudo poderia acontecer.
O tema da sua mesa era “O que os deuses antigos pensam do futuro do Homem na Terra”, mas o que o estimulava era poder assistir a sessões que já marcara no Programa como – “O futuro em 2050!”, ou “Quem decide os futuros possíveis!”
Recebeu pela Net o voucher para a viagem e Hotel e a indicação de que, à sua chegada ao aeroporto Aeroporto Internacional Ben Gurion, tudo o que necessitaria para a sua estadia, lhe seria entregue.

Há alturas na vida em que o tempo passa sem disso darmos conta e, num repente, Hipólito encontrava-se em Massada, meia hora antes da hora de início da sessão de abertura.

Estava um dia ameno. Uma brisa vinda do Mar Morto abanava as bandeiras colocadas num dos seus topos. O médico identificou rapidamente a de Israel, a dos EUA, a da China, a da India, a da União Europeia, a da Rússia e a do Irão. Todas as outras, por não estarem totalmente desfraldadas, não permitiam identificação. Nos terreiros, uma meia dúzia de congressistas dirigia-se para a zona das ruinas, onde uma única nuvem azulada, impedia a sua completa visualização. Junto às grades, a sul, estava instalado o que lhe pareceu ser um ponto de “catering” e foi para aí que se dirigiu, na esperança de um café.
No trajecto um segurança interceptou-o e sugeriu-lhe que se dirigisse rapidamente para o recinto da Reunião, pois não seriam cordiais atrasos nas entradas.

Hipólito acelerou o passo na direcção às ruínas, quando um som de dez trombetas alvoroçou a manhã. Do nada, irromperam seis anjos dourados, seguidos de uma quadriga triunfal de alvos cavalos transportando uma figura humana transparente vestido de T-shirt branca e jeans azuis, empunhando um tridente de aço cintilante, que penetraram na nuvem azulada. Hipólito pasmou ao ver um deus em indumentarias que mais lembravam um geek de meia idade.

Entrou na sala já cheia e rapidamente alguém lhe pegou no braço e levou para um lugar junto à coxia. Olhou para o lado e reconheceu o Harari. Hipólito, sentiu-se honrado como lugar. Já não era a primeira vez que se tinha sentado ao lado de alguém importante. Uma vez em Lisboa, no teatro, ficara ao lado do António Guterres e tinha-o cumprimentado com um sorriso aprovador. Agora não queria fazer por menos e estendeu-lhe a mão. O Harari levantou-se, meio espantado, e cumprimentou-o, enquanto o médico lhe dizia: - Eu devia ter lido os seus livros no início da minha vida adulta! Só que você, nessa altura, ainda não tinha nascido! O historiador sorriu, agradeceu e voltou a sentar-se.

A sala, não tinha mais de cem lugares, divididos em dois quartos de círculo. Naquele onde se sentou estavam pessoas como ele, umas com trajos tradicionais, a maioria vestindo desportivamente à ocidental. No outro quarto de círculo, as figuras humanas eram transparentes e de contornos mal definidos. Todos tinham diante uma pequena mesa de apoio, com um bloco de notas e um lápis.

Na presidência, o personagem que vira entrar, mantinha-se, de pé, à frente de um enorme écran que passava imagens de Galáxias, Buracos Negros, estrelas e satélites artificiais.

Soaram de novo as trombetas e o geek, depois de um curto agradecimento de boas-vindas, iniciou o discurso:

- Estamos nesta sala para tratar do futuro da Humanidade, que devemos entender como em risco de extinção. É nossa obrigação achar soluções para que tal não aconteça num futuro próximo, pelo que se torna necessário definir quais as crenças a implementar para que o Homem continue e acreditar em poderes sobre-humanos que o levem a fazer as coisas certas, mesmo que baseados em razões erradas.
A evolução tecnológica e a globalização, vieram para ficar. Já não há espaço para deuses eremitas ou que façam do sofrimento um “must”! Há que pôr a tónica em valores que não estimulem o conflito físico. Deuses que obriguem a comportamentos socializantes, sem deixarem de incentivar a valorização pessoal.
...

Hipólito cutucou o braço do Harari e segredou-lhe: - Conhece-o?

- Sim! Disseram-me que é meio irmão da Pandora e que foi construído, recentemente, pelo mesmo processo que ela. Reparou na mochila dele?! Queira Zeus que contenha os antídotos para os males que a caixa da irmã deixou neste mundo! Chamam-lhe Phoebe, o Radiante. Actualmente vive em Shanghai, mas não há garantia de que se mantenha ali indefinidamente, que ele é defensor da "Labor Mobility"

Entretanto aquele pequeno discurso tinha terminado e o palco foi invadido por várias figuras humanas, entre as quais estava o Gorbachev. Ajustaram-se os microfones e o presidente da mesa, que lhe pareceu indiano, apresentou o Henri Kissinger como primeiro palestrante, salientando que ele iria falar verdade e não dizer as coisas mais convenientes, como habitualmente fazia quando estava na política activa.
O estadista avançou até a um pequeno púlpito que se situava ligeira à esquerda do palco.
Hipólito pegou no lápis para anotar, no bloco, o pensamento político do país mais poderoso da actualidade:

O direito de dominar é um princípio primordial da política externa dos EUA encontrado em quase toda a parte, embora normalmente escondido por detrás de termos defensivos.

Os EUA são proprietários, de pleno direito, do mundo, e são, por definição, uma força ao serviço do bem.

"Seremos multilaterais quando pudermos, unilaterais quando a isso obrigados! (Bill Clinton)

Os EUA têm o direito de recorrer ao uso unilateral do poder militar para assegurar o livre acesso a mercados fulcrais, fontes de abastecimento de energia e recursos estratégicos.

Os arquitectos do poder dos EUA têm de criar uma força que possa ser sentida, mas nunca vista. O poder preserva a sua força quando mantido em segredo; uma vez exposto, começa a dissipar-se.

É necessário manter uma força militar de dimensão idêntica ao somatório do resto do mundo e bastante mais avançada quanto à sofisticação tecnológica!

As sociedades complacentes, autoindulgentes e brandas estão prestes a ser varridas juntamente com os detritos da história. Apenas as fortes, terão alguma possibilidade de sobrevivência.

Os EUA têm o exclusivo estatuto de imunidade ao sistema legal internacional e há legislação aprovada no Congresso que autoriza o presidente a fazer uso das forças armadas para “salvar” qualquer norte-americano de um eventual julgamento em Haia.

Houve quem acreditasse que por via do diálogo e da consolidação gradual de uma relação de confiança, seria criada uma irreversível dinâmica de paz que pudesse desembocar numa solução. O problema desta visão é que a questão não reside na confiança, mas no poder. O processo facilitador mascara essa realidade. No final, os resultados que podem ser alcançados por intermédio de um débil grupo de terceiros, não vai além do que o grupo forte permitirá.

Há muitos que estão convencidos de que os primeiros beneficiários do desenvolvimento dos recursos de um país devem ser as pessoas desse país, esquecendo-se dos “investidores”.


O orador terminou. Metade do público levantou-se para aplaudi-lo e um pequeno grupo pateou!
Hipólito virou-se para o Harari: – Tanta clareza até atordoa!
O historiador encolheu os ombros com ar de quem entende quem está decidido a manter o poder: - Se não forem estes, outros o farão! O problema são as opções, que os pressupostos são iguais!

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Lembranças do Olimpo (32)



A vida é como é, e, mesmo que tenhamos um forte “wishfull thinking”, a realidade irá, mais tarde ou mais cedo, bater-nos à porta, para nos tirar o sorriso de “dreamer!”
Necessitamos de uma esperança de felicidade no futuro, principalmente quando vivemos enleados em problemas que não dependem de factores que controlamos, e esquecemo-nos que muito dessa “felicidade” está dentro da nossa cabeça e que seria mais fácil se reduzíssemos aos desejos.

De qualquer modo, sendo eles muitos ou poucos, a felicidade está em superar os desafios que aceitamos, embora frequentes vezes sejamos levados desejar o que nada tem a ver connosco, para, no fim, sermos vítimas deles, que não é um nem dois que morre jovem ao volante de um bólide topo da gama, nem na viajem de sonho aos confins do mundo ou até, que casa com a mulher mais vistosa da terra, para o atormentar o resto da vida.

O ambiente que queremos construir obriga a responder a afirmações dentro do grupo, e o “grupo” não é tão “livre” nas escolhas como pode parecer aos menos atentos. Há uma montanha de pressões a orientar os seus desejos, desde a publicidade mais inócua, às mensagens veiculadas através das escolas e das instituições, que visam direcionar a “populaça”, para o que interessa às elites que condicionam as políticas dos governos. A “fabricação de necessidades” e a “engenharia do consentimento”, são as novas artes da Indústria das Relações Públicas, para moldar opiniões, atitudes e percepções, de modo a que os cidadãos se coloquem no lugar de “espectador não participante”, e  “a minoria inteligente se proteja do ruído da carneirada desnorteada e dos intrusos ignorantes e metediços”.

Eram estes pensamentos que estavam por detrás da aceitação de Hipólito, para ir a Massada. Aquela reunião soava-lhe a movimento com pretensões a tomar conta do futuro da maior parte da população do mundo. Tentara acertar-se com a História Contemporânea. Lera o Kissinger e o Chomsky, para ter a noção dos opostos e mais umas coisas dentro das políticas de saúde para o caso de alguém aproveitar a sua condição de médico de um país periférico com um Sistema Nacional de Saúde, para lhe fazer perguntas.

A complexidade da natureza humana sempre o surpreendera. Tivera um circulo de relacionamentos com quem tivera complacência, até se espantar com a trafulhice de que muitos eram capazes a troco de uns míseros euros ou por uma pequena vantagem. Tentava manter os amigos mais antigos e alguns jovens que ainda resistem àquelas tentações que resolvem dois problemas e criam dez!

A velha máxima de que o homem faz todo o mal que pode e todo o bem a que é obrigado, era uma das suas preferidas. Fazia o seu trabalho com a sensação de que podia alterar o estar de uma meia dúzia de pessoas, mas perdera qualquer veleidade de fazer filosofia sobre o que quer que fosse, para além disso.

Admirava a ousadia dos visionários que se dispunham a orientar as massas para amanhãs cantantes, ignorando as consequências a curto, médio e longo prazo das suas soluções, e mantinha a opção de defender a diversidade organizacional e não uma única via como o fazem os “grandes líderes”!

Lembrava o mal que a ignorância pode causar, e fazia analogias com as salamandras, um bichinho que até há bem poucos anos, não tinha qualquer importância para a Humanidade, mas que por se ter descoberto a sua capacidade em regenerar, na totalidade, os membros, estava a ser alvo de estudo para tentar entender como obter iguais resultados no homem.

Quanto fica por desvendar, no que desaparece?

Os radicalismos, mesmo que tenham a melhor das intenções, são exterminadores e limitam as opções ao conhecimento e esse, era o seu verdadeiro Deus.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Lembranças do Olimpo (31)



Passaram mais de duas semanas quando Hipólito se disponibilizou a responder ao convite para o Congresso em Massada. A vida desviava-o para outros afazeres e os dias curtos cansavam-no, a ponto de às dez da noite, já o corpo lhe pedir descanso. Até aquela hora vespertina que sempre guardara para passar os olhos pelas revistas que regularmente lhe chegavam a casa, estava a aguardar melhores dias.

Antes de sentar ao computador, foi à cozinha, passou a mão pela chaleira, para se assegurar que ainda tinha chá quente, quando sentiu um borbulhar de água e viu aparecer no ar um fumo branco que lentamente esboçou uma figura humana.

- Hei! Lá!, espantou-se Hipólito, olhando a nuvem que lentamente escurecia. - Por esta é que eu não esperava! O Génio da Lâmpada!? Vens mesmo a calhar!, disse enquanto um sorriso lhe rasgava o rosto.

Esperou uns segundos até que ela ganhasse a forma definitiva e analisou-a melhor. Tinha uma barba branca de seis meses, um turbante preto cuidadosamente enrolado na cabeça e umas sobrancelhas negras ameaçantes a cobrir o olhar penetrante. Vestia uma camisa com colarinho “mao” e por cima uma capa castanha impecavelmente lisa.

Ainda Hipólito não tinha assumido o seu erro, quando ele se lhe dirigiu, com voz autoritária:

-Eu não sou um Djinn! Sou a alma do aiatola Khomeini! Por isso atem-te, que o forno não está para rosquilhos!...

Há equívocos que se podem pagar caro. Chamar Génio a um aiatola é um insulto para o mais alto dignitário na hierarquia religiosa do Islão xiita, descendente direto de Maomé e expoente máximo do conhecimento e do discernimento. E ainda por cima ao Khomeini, que pôs ponto final a 2.500 anos de monarquia no Irão!

Era para estar no Paraíso, refastelado. Aparecer-lhe assim trinta anos após a morte, saído de uma chaleira, era de arrepiar os cabelos. Talvez a família se tivesse esquecido de lhe colocar, debaixo da língua, a moeda para pagar a Caronte e, por isso, a sua alma não atravessara o rio dos Infortúnios. O Alexandre, o Grande, andou por ali e deve ter deixado lá a tradição.

Aquela aparição apanhara-o desprevenido. Mediu a situação e, depois de um longo suspiro, e de um Cruz! Credo! Maria Santíssima!, dito para dentro, engoliu em seco e justificou-se:

- Calma! Não contava com visitas a estas horas da noite! E o tipo de encenação que escolheste, confunde qualquer um!

A figura manteve o ar austero. Sentou-se no tampo do armário da cozinha e explicou-se:

-Se estavas a pensar que eu era um génio, que te ia fazer as vontades, muito ao imaginário ocidental, tira o cavalinho da chuva, e muda o discurso! Pelo menos enquanto estiveres na minha presença! Deves saber o tratamento que damos aos infiéis! E não penses que por estares em Portugal te safas. Olha que uma "fatwa" abrange todo o planeta!

A coisa estava negra. Aquela alma penada, que não dera descanso ao Ocidente, durante os dez anos que estivera no poder no Irão, estava ali com alguma intenção, a que não devia ser alheia a sua última conversa com Moisés.

Hipólito convidou-o para dentro da sala e sentaram-se na mesa de jantar. Depois, procurou colocar tom na sua voz de rádio e, com a maior delicadeza, ousou perguntar-lhe ao que vinha. A alma do Khomeini, sintonizou-se e respondeu:

- Como deves saber, desde a Segunda Guerra Mundial que os Estados Unidos ditam os termos por que se rege o discurso global, embora nas últimas décadas tenham partilhado o poder, com os países do G7 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido) e as Instituições por eles controladas, como o FMI, … no contexto de um verdadeiro governo mundial. São as elites económicas que têm verdadeiro impacto nas políticas governamentais, enquanto a vasta maioria da população é ignorada e excluída do sistema político. A era neoliberal com a sua economia cada vez mais monopolizada, e com as figuras políticas a representarem amplamente os interesses das predatórias instituições financeiras e das multinacionais protegidas, fez com que uns poucos adquirissem o estatuto de “donos disto tudo”. Ora é contra este estado de coisas que eu continuo a lutar, mesmo depois de morto! A revolução iraniana de 1979, foi o início da Revolução Islâmica, que se quer mais ampla.
O Mapa do Médio Oriente do século XX é uma criação falsa e anti-islâmica dos imperialistas e dos apetites de soberanos tirânicos, que apartaram os vários segmentos da “ummah” (comunidade) islâmica, para criar nações artificiais, sem qualquer base na lei divina.

O médico ouviu e arriscou interromper:

- Eu já conhecia o proselitismo islâmico, mas o que fizeste foi usar o Estado como arma instrumental de um conflito religioso. Se os aiatolas se intitulam Líderes Supremos da Revolução Islâmica, da ummah islâmica e do povo oprimido, não são apenas figuras nacionais, mas autoridades globais.

Hipólito mantinha a voz calma de um repórter da CNN a entrevistar um senhor da guerra no seu território. Sentia que aquela alma não estava em paz, que almejava uma ordem mundial fundamentada nas suas crenças, e avançou a pergunta:

- E foi por isso que reivindicaste autoridade jurídica mundial para emitir uma fatwa pronunciando uma sentença de morte contra Salman Rushdie, cidadão britânico de ascendência indiana muçulmana, pela publicação na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos dos “Versículos Satânicos”, livro que consideraste ofensivo?

A alma do aiatola, enfunou e desenfunou, como que um respirar fundo a englobasse na totalidade e respondeu:

- Esse facto foi um erro de principiante! Devíamo-lo ter feito sem o pronunciar, como fazem os Estados Unidos, com aquilo a que chamam guerra contra o Terrorismo. Só a título de exemplo e só para falar na América Latina, lembro que uma semana depois da queda do muro de Berlim, seis eminentes intelectuais latino-americanos, todos eles padres jesuítas, foram alvejados na cabeça por ordem directa do alto comando de El-Salvador. Os perpetradores pertenciam a um batalhão de elite armado e treinado por Washington. Mas foram inúmeras as execuções de dissidentes políticos, não violentos, nessa região, consistentemente apoiados ou iniciados pelos Estados Unidos entre 1960 e 1990, para travar a terrível heresia proclamada no Concílio Vaticano II, em 1962, que propunha a “opção preferencial pelos pobres!”, desde o golpe de Pinochet em 1973, no Chile, à mais cruel das ditaduras – a ditadura militar que se instaurou na Argentina – o regime predilecto de Ronald Reagan.

O médico lembrou os honrados dissidentes que motivavam muitas das suas preocupações, quer eles se situassem a Ocidente ou a Leste, a Norte ou a Sul, à mercê daquela mãozinha que, escondida, “define” quem está a favor da “civilização” e quem nos quer levar para o “obscurantismo”, esquecendo que o nome de Nelson Mandela só foi retirado da lista oficial de terroristas do Departamento de Estado dos EUA, em 2008, e que vinte anos antes era, segundo o Pentágono, o líder criminoso de um dos mais conhecidos grupo terroristas do mundo.

Mas o Irão (como foi baptizada a Pérsia, em 1935), era um caso mais actual, de uma governação que se considera divina, a fazer lembrar os tempos da velha Inquisição. E lembrou Heródoto, historiador grego do século V a.C., que descrevia a autoconfiança dos persas, que se consideravam o centro das realizações humanas, do seguinte modo: “Acima de tudo, honram-se a si mesmos, mais do que os que com eles convivem, ou os que convivem com estes, e assim sucessivamente, com uma progressão honorífica em função da distância. Têm em menor apreço aqueles que têm a habitação mais afastada da sua. É assim porque consideram que são, em tudo, o melhor que a humanidade tem e que os outros têm um grau de virtude proporcional à sua proximidade: os que vivem mais longe são os mais destituídos”.
O seu sentido de identidade manteve-se ao longo dos séculos, bem como a sua confiança na superioridade cultural. A Pérsia – núcleo demográfico e cultural do Xiismo, optara por esta forma de diferenciação do Islão, como forma de contestação ao Império Otomano que era sunita, e colocou a tónica nas facetas místicas e inefáveis da verdade da fé. Mas quanto à questão da necessidade de derrubar a ordem mundial vigente, islamitas de ambos os lados da trincheira – sunistas e xiitas – estão geralmente de acordo.

Enquanto todo este emaranhado se lhe passava pela cabeça, o médico retomou o diálogo, indo directamente ao assunto:

- Mas o que te traz aqui a Portugal, a esta cidade onde não há vestígio da cultura islâmica?

- Tu!, disse, enquanto se levantava e deambulava pelo tapete. – Sei que foste convocado para uma Reunião em Israel, para falares das tuas experiências com os vários deuses, que dizem terem regido o mundo, e vim aqui para te dizer que “Não há outro deus além de Allah e que Muhammad é o seu profeta!”. Que haverá paz apenas para aqueles que seguem o caminho verdadeiro. Que só o Islão é capaz de libertar os povos oprimidos e que é fundamental que se lute contra a América, o saqueador mundial e as sociedades comunistas materialistas da Rússia e da Ásia, bem como contra o sionismo de Israel. Que o conflito com o Ocidente não é uma questão de concessões técnicas específicas ou de negociação de fórmulas, mas um confronto sobre a natureza da ordem mundial.

-Eu?!!! Estás muito enganado! Levantou-se também Hipólito, apontando-lhe o dedo. - Eu não estou na política!!!. Ouço o que me dizem! E, se queres saber, acho que as comunidades humanas podem ser felizes com muitas matrizes, mais ou menos religiosas, desde que haja capacidade em as fazer crer que há justiça, que os poderosos não utilizam o poder em beneficio próprio e cuidam minimamente dos desprotegidos da sorte. Ora essas matrizes governamentais, mais tecnológicas ou mais abstratas, podem ser lideradas por reis, presidentes, triunviratos ou qualquer outro esquema onde se entendam os equilíbrios como dinâmicos, pois o que hoje responde às necessidades de um povo, não se mantém imutável e, mesmo uma religião, se não evolui, morre!.
Eu entendo a tua animosidade contra os Estados Unidos! Não entendo é como tens a vaidade de dizer que tens o conhecimento e o discernimento para os substituíres! Eu, prefiro o “Iberian way of life”, com tudo o que tem de mau, ao “Afghan way of life”, só porque respondo melhor a esta matriz cultural. Percebes??? Eu, em minha casa, sinto-me em casa! Ter de aprender a viver como tu achas que eu devia viver, não me agrada nada! Prefiro lutar para corrigir as imperfeições do meu sistema, que andar aos tombos dentro do teu!
Vai para dentro do púcaro, que não tens nada com a minha vida! És uma alma penada que não trazes nada de novo! Queres substituir aquilo a que chamas tirania, por outra de igual sentido ou pior! Quando a governação é considerada divina, toda a dissidência é tratada não como oposição, mas como blasfémia e eu já paguei para esse peditório!

E dito isto, abriu a tampa da chaleira e a alma do Khomeini, qual cãozito assustado de rabo entre as pernas, enfiou-se por ali abaixo sem qualquer ruído que revelasse a sua importância histórica.

Hipólito respirou fundo! Esta coisa dos deuses e dos seus mandatários na Terra, tem muito que se lhe diga. Um tipo não está seguro de nada. Já não são só os esquizofrénicos que ouvem vozes vindas dos Céus. Há muita gente na política que se diz com orelhas capazes de interpretar os sons que vêm do espaço e transformá-los em linguagem religiosa, e esse é um problema que tem milénios.

O médico subiu para o quarto. Lavou os dentes, tirou a roupa, vestiu o pijama e enfiou-se na cama. Fora um fim de dia atribulado. Felizmente que a alma perdera a convicção. Caso lhe mandasse uma fatwa, faria como o Salmon Rushdie. Pediria protecção à Scotland Yard.

A resposta ao convite ficava para outro dia!

sábado, 13 de janeiro de 2018

Lembranças do Olimpo (30)


Era Inverno. Os dias pequenos e a instabilidade do tempo, não estimulavam saídas. Hipólito aproveitava o domingo para concertar aquelas pequenas coisas que se arrumam a um canto à espera que uma disposição nos leve a medir com dificuldades que se têm por garantidas, pois a “obsolescência programada” é uma realidade, e aquilo que pensávamos ser para lavar e durar, acaba ao fim de meia dúzia de meses de uma utilização normal.

Pegou num candeeiro de mesinha de cabeceira e procurou numa caixa onde guardara uns antigos que herdara de uma sua avó, um abajour para substituir o original que estava partido. Não serviam. Voltou-se então para a torradeira. Revirou-a. Os dois parafusos embotados eram impossíveis de desapertar. Estava a perder tempo. Decidiu-lhe o destino - reciclagem do material eléctrico.  Limpou os bornes a uma lanterna, mudou-lhe as pilhas e acendeu. - Graças a Deus!, e falou com o aspirador, antes de lhe tocar: - Espero que não me deixes ficar mal...!,  e o aspirador fez-lhe a vontade. A substituição da ficha resolveu o problema.
Estava a medir o vidro de um quadro, quando sentiu um toque de um Mail no smartphone. Retirou-o do bolso, e leu:

- Caro Dr. Hipólito:

A Sociedade Universal dos Novos Feiticeiros, irá efectuar brevemente a sua Reunião Anual, sob o tema – O Futuro e as Crenças!

Tendo chegado ao nosso conhecimento que, nos últimos tempos, o Dr. tem recebido, frequentes visitas de deuses no activo e até de alguns já reformados, tínhamos o maior prazer que partilhasse connosco algumas das suas experiências, numa das mesas redondas da nossa Reunião, ficando a tema da sua palestra inteiramente a sua disposição.

Todas as despesas com deslocação, alojamento e alimentação ficarão a cargo da Organização. De acordo com as normas da nossa Sociedade, não há “Fee” para os intervenientes, incluindo os convidados.

Sem mais,

Atenciosamente,


Hipólito leu as datas e o local – 14 de Maio, Massada – Israel, uma assinatura indecifrável e por baixo “Benjamin Cohen”, Presidente da 70ª Reunião da SUNF.

Meteu o smartphone no bolso e sentou-se. Como seria possível que alguém soubesse daqueles seus encontros, se tudo se tinha passado em locais recatados, sem a presença de qualquer outro humano? Olhou em volta na procura de algo estranho, enquanto congeminava em quão pequeno está o mundo e na entrada triunfal que alguns dos deuses quiseram fazer nas suas aparições. Mas o que lhe parecia mais provável, era aquele mail ter partido de uma organização do tipo da NSA, da CIA ou do KGB, que esses estão em todo o lado.

Aparentemente eram os judeus os primeiros a questioná-lo e faziam-no de um modo “elegante”, convidando-o para uma Reunião com gente preocupada com as crenças humanas e com o modo de os levar a fazer coisas úteis mesmo que para isso se lhes tenha de dar razões erradas.
O desafio era claro. Quem estava na crista da onda era a gente do dinheiro. Uma reunião no deserto de Israel, no lugar mítico de Massada, onde Herodes “O Grande” construiu um palácio e uma fortaleza “inexpugnável”, até os romanos, no ano 70, o destruíram, depois dos seus defensores se suicidarem para não serem capturados. E quem seriam estes judeus? O Mark Zuckerberg do Facebook?, o Sergey Brin, da Google?, o multimilionário George Soros? o Jared Kushner, genro de Donald Trump?, ou algum dos banqueiros que mandam no mundo, das famílias Rothschild, Lehman Brothers, Goldmans-Saches, ou dos Kuhns,  dos Loebs, ????…  
Antes de aceitar o convite, iria enviar uma carta a perguntar se quem estava por detrás era gente viva ou mortos influentes.
O nome do presidente era “sonante” - Benjamin Cohen. Bin-yamín: ben - “filho”, yamin, “mão direita” - "filho do lado direito", “o bem-amado”. Cohen indica que tem ancestrais sacerdotes no Templo de Jerusalém. Nada mal! Um judeu que, com grande probabilidade, tem registo do DNA para assegurar a sua origem genética.

Olhou em redor como se sentisse vigiado dentro da sua própria casa. Confirmou que o mail não continha nenhum anexo e pesquisou na Net “Sociedade Universal dos Novos Feiticeiros” sem qualquer resultado significativo.
Podia ser uma brincadeira. Mas quem? Se não contara a ninguém as suas entrevistas com os deuses! Tinha de haver ali uma estrutura com capacidade de vigilância suficiente para ter acesso aos seus movimentos. Tentou ligar para o seu amigo Saldanha, que vivia em Macedo de Cavaleiros e que era filho de um judeu antigo, na esperança de ele lhe poder dar alguma pista, mas ele não atendeu. 

Tentava entender  aquele convite, quando um velho de grandes cabelos e barbas brancas, lhe bateu à porta. Hipólito abriu-a e, parecendo-lhe alguém vindo do Médio Oriente, saudou-o com um "Salaam Aleikum!", ao que ele respondeu "Alaikum As-Salaam!".
Trazia duas tábuas numa das mãos e, na outra, um bastão que o ultrapassava em altura. Vestia uma túnica branca desbotada e, sobre os ombros, uma manta vermelho-da-Pérsia, dava cor à indumentária. O olhar era arguto e cada ruga parecia denunciar um grande problema resolvido. Apesar da idade, que se lhe deduzia, tinha o porte corporal de um haterofilista em fim de carreira.
O médico convidou-o a entrar. O ancião apontou o bordão ao fundo da sala e, de imediato, toda a mobília se arredou para os lados para o deixar passar. O médico seguiu-o e, para corrigir a gafe do cumprimento inicial, arriscou: Shalom! Desculpa não ter percebido logo quem eras! Tomei-te por um palestiniano e afinal, pelo jeito, tu és Moisés, o grande libertador dos hebreus.
- Vejo que estás atento! Respondeu o profeta. – Este truque de afastar as coisas à passagem, é a minha imagem de marca. Faço-o desde que abri as águas do Mar Vermelho. Funciona sempre! Não te esgacei a porta, porque venho numa boa! Estava no Jardim do Éden a apanhar kiwis, quando reparei que estavas atarantado com um convite feito por uma sociedade judaica e não resisti em descer, para te esclarecer as dúvidas que ele te possa ter despertado. Por isso, pergunta que eu respondo, de acordo com as nossas normas internas! 

E dito isso, sentou-se no chão, junto à lareira, e convidou Hipólito a sentar-se em frente.
- Ainda bem que vens com esse espírito! Sorriu o médico. - Tomas uma cerveja ou preferes um copo de vinho para acompanhar a conversa?
- Se o vinho fôr kosher, preferia! Senão, bebo um copo de água!
Hipólito trouxe água e dois copos e sentou-se, como ele, no chão, com as pernas cruzadas.
- Ainda bem que te disponibilizas. Desde jovem que procuro entender os porquês de há mais de três mil anos o povo judeu ter períodos de grande florescimento, seguidos de outros em que é vítima de perseguições. Estou-me a lembrar do Egipto Antigo, da Babilónia, do Império Persa, do Império Selêucida, do Reino dos Ptolomeus, do Império Romano, do Império de Carlos Magno, do Império Islâmico, da Península Ibérica, da União Soviética, da Alemanha … . Em todas essas épocas os judeus ocuparam lugares de grande influência económica e política, mas acabaram perseguidos e expulsos. O que é que, na realidade, se passou para estas reviravoltas?

Moisés rolou o bordão sobre as tábuas, como a procurar palavras para uma explicação resumida e, depois de uma pausa, falou.
- A história é longa mas, para abreviar, lembro-te que, depois da destruição do Segundo Templo em Jerusalém, no ano 70 da Era actual, a sobrevivência da nossa religião exigiu que todos os judeus aprendessem a ler, a escrever e a adquirir competências e que, para assegurar a continuidade, todos os pais eram obrigados a ensinar os filhos a fazê-lo, o que constituiu um desenvolvimento revolucionário numa época em que a grande maioria da população era iletrada.
Ora os Impérios, à medida que se expandem, necessitam de profissionais educados e com competências intelectuais diferenciadas e é por isso que os judeus têm sido solicitados para os países nas épocas em que têm maior desenvolvimento. 
Desde que o mundo iniciou a “globalização”, que os judeus se concentram nas cidades com maior pujança económica, organizando a produção e o comércio, mantendo uma rede de influência altamente eficiente
Hoje em dia, dos treze milhões de judeus, 5,5 milhões vivem em Israel e 5,1 milhões EUA. Neste último vivem maioritariamente em Nova York, onde são 9% da população. Na Califórnia, Texas e Massachussetts, estados que geram o maior número de políticos influentes, são 7,6% dos brancos! 
Na época dos descobrimentos tinham forte presença na Península Ibérica, pois eles foram grandes financiadores dessa actividade. Quando foram expulsos levaram de Lisboa a industria de lapidação e o comércio dos diamantes para a Holanda.

Hipólito conhecia o poder e influência dos judeus no mundo ocidental, por serem dos principais banqueiros e CEOs das maiores multinacionais do mundo. Mas o que Moisés ainda não lhe tinha dito era os porquês das perseguições, e insistiu:
- Já vi que falas debaixo do conceito do “povo escolhido por Deus”, mas as perseguições e as mortes como as do Hananias, do Misael e do Azarias, podem ter outra explicação, à luz do conhecimento actual, que aquela que vem na Bíblia. Há milénios que se fala dos judeus como uma comunidade com grande cooperação dentro do grupo (etnocêntrismo), mas com um código ético muito laxo para com a restante população onde se inserem, que os leva a ser considerados, uns ferozes predadores especializados no crédito, na finança, nos bancos e em actividades tradicionalmente consideradas pouco éticas ou imorais como publicidade, entretenimento e pornografia. 

O mais humilde dos homens sobre a face da terra, que um dia recebeu no alto do Monte Sinai as Tábuas da Lei de Deus, suspirou com enfado e respondeu:
- Olha que eu, levado por uma justa cólera, já matei um feitor egípcio. Questionares que o Hananias, o Misael e o Azarias, depois de terem sido nomeados superintendentes dos negócios da província da Babilónia, deitaram a mão ao dinheiro do Nabucodonosor, e que foi por isso que foram jogados na fornalha ardente, é grave! Foram conversas como essa que levaram ao Holocausto e aos pogroms! O verdadeiro judeu, embora faça a gestão de grandes valores, é frugal porque cumpre o desígnio que Deus lhe atribuiu. Escolhido, não significa superior. Significa que transporta o peso e a responsabilidade de O representar neste mundo. O que tem sucedido é que nem sempre quem nos pede ajuda, faz boa gestão e, quando as coisas correm mal e se necessita de um bode expiatório, encontra-nos sempre à mão. A realidade é que a ausência de perseguição que actualmente se verifica nos EUA, tem diminuído a nossa coesão tornando-nos mais americanos e menos judeus! 

Hipólito retraiu-se. Arriscara questionar aquela história bíblica dos três jovens judeus levados para o Reino da Babilónia, que eram “dez vezes mais doutos que todos os magos daquele reino”, sem contar que Moisés estava habituado a lançar pragas e que até tinha capacidade para o extermínio em massa, como o fizera ao exército egípcio no Mar Vermelho, aquando do Êxodo. Decidira, agora, dar-lhe um pequeno elogio.
- Dizem que os judeus têm um Q.I. muito alto. Quando falei do que se tinha passado com aqueles judeus na Babilónia, não queria sugerir que eles tenham utilizado a vantagem que lhes fora concedida para enriquecimento ilícito. Estava a pensar em eventuais dificuldades de integração. 

- Não foi isso que eu entendi!, respondeu o Profeta. – Tens de ter mais cuidado com o que dizes! Uma palavra desajeitada é como a pasta de dentes fora do tubo, já não a consegues voltar a meter lá dentro. De facto, os Ashkenazi, têm um Q.I. médio entre 110-115, maior que qualquer outro grupo étnico do mundo. Há quem o atribua à sua prática antiga de casamento eugénico, mas eu penso que é o grande envolvimento na educação das suas crianças que os leva a obter estes resultados. É notável que sendo cerca de 0,2% da população mundial, tenham ganho 22% dos Prémios Nobel e vencido 54% dos Campeonatos do Mundo de Xadrez.

A conversa ia longa e o médico ainda não chegara ao ponto que mais lhe interessava e que era saber quais os objectivos últimos daquela reunião em Massada e arriscou a perguntar-lhe.
O profeta levantou-se. Riscou no tapete uma linha, com o bordão e disse: 
- Como sabes, são insondáveis os desígnios do Senhor! Mas está descansado, que quem está a liderar o projecto é o "povo de Deus"!, e dito isto, fez-lhe uma vénia e saiu, enquanto os móveis voltavam à sua distribuição habitual, fazendo com que um candeeiro de pé o atropelasse atirando-o ao chão. 
- lehitraot!, ainda teve tempo de lhe dizer, antes que a porta se fechasse. - lehitraot! ouviu, como um eco, do outro lado.

Hipólito sentou-se no sofá. Esta entrevista não fora nada produtiva. As suas dúvidas continuavam mais que muitas!

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Lembranças do Olimpo (29) - Jeová




Hipólito regressou a casa a matutar no sucesso da história de Jesus. Aquela profecia “maluca” da eminente vinda do Reino de Deus e que Ele iria impor a sua vontade “tanto na Terra como no Céu”, fora capaz de agregar as vontades que visavam igualizar os homens, numa altura em que Reis, Imperadores e Sacerdotes alegavam estreita familiaridade com os deuses, de quem emanava o seu poder. Era ainda esse movimento que, depois de 2.000 anos de voltas e cambalhotas, fundamentava o Humanismo actual. Até à revolução tecnológica do último século, a Igreja Católica estivera na crista da onda do conhecimento, mas desde então passara a andar a reboque, a reagir às novidades, em vez de ser ela a criá-las, sem nunca abraçar os movimentos de igualdade de género ou da defesa dos animais e só muito recentemente, com o Papa Bergoglio, é que parece ter acordado para os grandes problemas ecológicos do Mundo.

Ora estava o médico nestas conjecturas, quando um clarão apareceu por entre as nuvens do fim do dia. Exactamente como vira na banda desenhada dos catecismos. Um céu de fim de dia, com um corredor de luz a espreitar pelas alvas nuvens, por onde um enorme bando de pombas brancas descia, precedendo uma alva figura humana cintilante, com um báculo na mão e uma mitra bordada a ouro, cravejada de esmeraldas. A sua barba branca dava continuidade ao longo cabelo esvoaçante. Ao vê-lo descer na sua direcção, Hipólito abriu as janelas e o deus instalou-se na poltrona do fundo da sala que, de imediato, se transformou num trono recoberto por um baldaquino, muito semelhante ao do Papa no Vaticano.

- Boa noite!, disse-lhe o médico. – Calculo que sejas Jeová! Sê bem-vindo a esta humilde casa!
- Boa noite!, respondeu o deus. – Era para ter vindo mais cedo, mas tenho tido tantos afazeres por esse Universo fora, que o tempo não me chega para nada. Já me arrependi de ter criado o Big-Bang! Quando estava tudo concentrado no mesmo ponto, era mais fácil, agora com o Universo em expansão, o ter de andar do mais infinito para o menos infinito, para lhe dar alguma ordem, é uma canseira das antigas.
- Calculo!, disse o médico. – Mas com tantos afazeres, o que é que te trás até este grão de areia do deserto?
- Nem sei! Ouvi a tua conversa com Jesus e não resisti a propor que me entrevistasses. Como deves calcular, eu tenho muito trabalho organizativo, mas, de vez em quando, gosto de fazer trabalho de campo e ouvir o que a criação a quem atribui livre arbítrio, pensa.

Hipólito embora pouco impressionado, com aquela entrada apoteótica, sentiu-se lisonjeado. Puxou uma cadeira, pediu autorização e sentou-se.
- Antes de mais, quero-Te dizer que é um privilégio receber a Tua visita. Mas era escusado teres investido tanto na encenação da tua entrada. As técnicas de multimédia actual conseguem uma realidade virtual multi-sensorial semelhante. Quanto ao baldaquino, espero que ele seja virtual e não como o da Basílica de S. Pedro, feito com os antigos bronzes do Panteão de Roma que o Papa Urbano VIII mandou derreter.
- Ok!. Disse Jeová. E de imediato toda aquela parafernália desapareceu, para dar lugar a um idoso, bem-humorado, com um cajado na mão, sentado no seu sofá. – Esta tipologia de aparição, está programada desde que entreguei as Tábuas do Dez Mandamentos a Moisés. Como tem funcionado, deixei de me preocupar com a sua actualização. Mas agora, que chamaste a atenção, acho que está na hora de um upgrade! Vou pensar nisso.

Mas vamos à entrevista, que é o que me traz cá. Podes fazer três perguntas, senão eu fico aqui uma eternidade e há coisas que ficam por fazer. Aqui na Terra, o que se não faz no dia de Santa Luzia, faz-se noutro dia, mas no Céu, não há a mesma relação com o tempo e é melhor não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje.
Hipólito sorriu ao vê-lo citar, ironicamente, os ditados populares. Depois, endireitou-se na cadeira e fez a primeira pergunta:
- Já que te disponibilizas, gostava de saber a Tua opinião sobre a Cúria, sediada em Roma?
Jeová, deitou a mão à cabeça. – É um grande problema! Cada vez é mais difícil inspirá-los em soluções que lhes dêem credibilidade! Então agora com o Papa Francisco a querer aumentar a componente social da Igreja e o Bento XVI a minar-lhe, sorrateiramente, o projecto defendendo um forte poder central, baseado em abstracções teológicas que consigam unir cada vez mais os fiéis, a coisa está mais difícil.
- Mas Tu não consegues impor uma norma que os convença?
- Não posso, por imperativo organizacional. Decidi que na Terra, o Homem tem livre arbítrio e que Eu só trato dos ambientes, criando dificuldades ou facilidades para ele superar, mas, pelo caminho que estou a ver as coisas irem, ele vai mesmo dar cabo do planeta!.
- E Tu não te importas, tendo-o feito a Tua imagem e semelhança?
- Não! O Jorge Sampaio disse “Há mais vida para além do Orçamento!” e eu digo “Há mais vida para além da existente na Terra!”. Esta forma de vida aqui existente, com base no Carbono, é comum no Universo, embora menos frequente que aquela que tem por base o Silício.
- Já ouvi Zeus falar nessa! Diz que esses seres são mais dóceis e previsíveis que os da Terra. Até se transferiu para um desses planetas!
- Ah! O Zeus! Esteve cá?
- Sim! Desistiu dos projectos na Terra. Agora anda feliz num planeta da Galáxia Adrómeda. Só cá vem arejar o escritório e pouco mais. Mas voltemos aos teus Papas vivos. Apoias algum em especial?
Jeová corrigiu-o. – Não te esqueças que também sou Deus dos Judeus, dos Ortodoxos, dos Protestantes e de muitas outras seitas. Mas como tu estás mais interessado nos Católicos e no que se passa no Vaticano, informo-te que não apoio nenhum deles. Ambos têm razão. O Francisco é mais terra-a-terra, mas a ficção sempre foi mais importante que a realidade e o Ratzinger luta por uma narrativa motivadora, e isso pode ser mais decisivo que resolver pontualmente alguns dos problemas das comunidades onde o clero tem influência.
É esse equilíbrio entre a componente vertical e a horizontal das religiões que é necessário gerir.

- Queres dizer que uma pequena alteração na liturgia católica podia trazer mais benefícios para a Humanidade, que colaborar com os políticos na resolução dos problemas do dia-a-dia dos fiéis?
- Sim! Eu construí o Homem para viver na “Esperança” de … “um dia” as coisas irem melhorar, mesmo que esse dia seja depois da sua morte. E essa narrativa pode não ter nada a ver com a realidade. Só tem de ser motivadora, capaz de se replicar e de agregar as novas inovações tecnológicas. O Francisco quer ser exemplo de humanidade e preocupa-se em estabelecer pontes entre a heterogeneidade do pensar dos povos e das suas religiões, mas esse passo só tem eficácia duradoura se for apoiado numa boa história.
- Entendo! Respondeu Hipólito. – E Fátima? Estás a par com o que se passa?? Como é que o entendes?
- O culto de Nossa Senhora como elemento no movimento para a igualdade de género é muito positivo, mas esta vinda do Francisco a Fátima foi um sapo que ele teve de engolir para dinamizar o turismo religioso. Foi como a recepção ao Trump. Devia ter-se posto em cima dele, para não ficar com aquela cara de “looser” na fotografia. Também esta coisa de canonizar a torto e a direito, não lhe vai ser favorável. Então a dos pastorinhos, não lembra ao demónio.
- Tens de concordar que aquela Cúria, que ele herdou, não o ajuda. Interrompeu Hipólito, que tinha um fraco por Francisco.
- Aquela Cúria é um saco de gatos! Não ajuda nem um nem outro. O Banco do Vaticano também não! Um Banco faz o jogo do dinheiro e esse jogo nem sempre é limpo. Um Banco pode ir à falência por uma desatenção ou passar de uma situação de aperto para uma de desafogo por causa das tais “fake news”, de que fala o Trump. Lembras-te do Horta e Osório ter sido convidado, em Março de 2011, pelo governo inglês, para dirigir o Lloyds Bank, que fora apanhado dois anos antes, nas malhas da crise do “subprime”? Mal tinha assumido funções, meteu baixa por dois meses, por … “exaustão”!!!! Logo que a notícia se espalhou, os mercados “reagiram” e venderam-se muitas acções a baixo preço!
- Queres dizer que aquela notícia foi “fabricada”, com esse propósito?
- Não estou muito dentro dos factos que tornam os mercados “nervosos”, como dizem os vossos políticos de direita, mas são notícias destas que estimulam os especuladores e fazem alterar os preços. O Horta e Osório sabia-o bem e, nesse jogo do compra e vende, um Banco pode ganhar milhões!

- Já vi que te não queres comprometer! Achas então que a solução para a crise do Cristianismo, nas culturas mais avançadas, passa pela construção de uma história integradora da imensa variedade de descobertas tecnológicas, num sistema politico global que promova bem-estar?
- Sim! É essa história que é necessário inventar para dar Esperança, pois é ela que alimenta o cérebro humano. Depois, é bom que haja alguma protecção para o corpo, contra o tempo, as doenças e alguma comida. Haja a tal história e tudo se suporta! Os bens materiais podem esperar!
- Então vamos à última pergunta. Disse o médico. – Achas que os exegetas ainda conseguem extrair dos Evangelhos essa tal história que os torne, de novo, actuais?

Deus sorriu. Pousou o cajado no chão, levantou-se e depois de dar três passos pela sala, virou-se para a janela e respondeu. – Estou em crer que tal não é possível. Talvez nos livros apócrifos haja histórias virgens das milhares de interpretações a que os Evangelhos canónicos já foram submetidos e que dêem a possibilidade de uma leitura que altere os discursos teológicos. Se não houver, os profetas de Silicon Valley vão dominar a filosofia do mundo moderno e dar início a uma nova religião baseada em fluxogramas - o Dataísmo.

Deu meia volta e dirigiu-se ao médico que também se tinha levantado.
- Acabaram as perguntas! Vou ter que ir! Qualquer dia apareço-te, de novo. Fica prometida uma outra encenação.
E dito isto, saudou Hipólito e dissolveu-se no ar, deixando na sala um leve aroma a lírios do campo. O médico esfregou os olhos. Mal tinha almoçado e já sentia um rato no estômago.

domingo, 9 de abril de 2017

Lembranças do Olimpo (28) - Jesus



Jesus, não apresentava qualquer sinal de tortura. Vestia uma túnica impecavelmente branca que contrastava com a tez bronzeada, de uma vida exposta ao tempo. Esboçou um sorriso afectuoso e respondeu:
- Ia a caminho do Vaticano, quando encontrei o Arcanjo Miguel, que me disse que tu andavas a identificar mitos que possam ser úteis a uma Religião futura. Como quero participar nela, apressei-me a vir ter contigo. Parece que já tens dois – ele e o Quixote. Será que eu podia ficar com o nº 3?
Hipólito surpreendeu-se e, para não dar parte de fraco, aumentou a parada.
- Meu caro Jesus! A tua história é muito imprecisa. O que consta nos Evangelhos, foi escrito mais de sessenta anos após a tua morte e por quem terá ouvido o que os apóstolos disseram de ti. É muito diz-que-disse, de pessoas com interesse em te glorificar. Não há fontes históricas romanas, porque o teu impacto imediato foi “demasiado insignificante”.
- Eu sei! Respondeu Jesus. – Mas pergunta o que quiseres que eu, se ainda me lembrar, respondo-te!. E, dito isto, reclinou-se na cadeira, simulando estar numa sessão de psicanálise.

- Então, antes de começarmos, diz-me se aquilo que eu penso saber de ti, é verdade! Nasceste em Nazaré. Eras um judeu praticante, que leu as Escrituras. Foste baptizado por João Baptista. Fizeste um ministério, de cerca de dois anos, nas aldeias rurais da Galileia e, nas duas últimas semanas, na Judeia, mais precisamente, nas festas da Páscoa, em Jerusalém, onde entraste montado num burro, copiando o profeta Zacarias. Alguns dos teus seguidores aclamaram-te como “Messias” e “Filho de David”. Foste ao Templo e viraste as mesas dos vendedores de pombas sacrificiais e dos cambistas, enquanto os insultavas de ladrões. Depois escondeste-te, e Judas denunciou-te. Foste preso e julgado por blasfémia, pelo sacerdote Caifás, que era a autoridade máxima dos judeus, que depois te enviou a Pilatos, por ser só ele que podia decretar a pena de morte, e que deu seguimento ao seu pedido.
- Confirmo, respondeu Jesus e Hipólito questionou:

- Desculpa a minha ousadia, mas gostava de saber se, com a tua pregação, pretendias, mesmo, dar início a uma nova religião?
- Se queres uma resposta simples, ela só pode ser: Não! Já ouviste falar no “efeito borboleta”? A minha profecia de que estaria próximo o Reino de Deus na Terra, foi capaz de mobilizar muitos dos descontentes. Inicialmente foram só os judeus que se sentiram ultrajados com a execução de João Baptista, mas, depois da minha morte, com o trabalho do Paulo junto dos gentios, o mito do Reino do Deus foi muito mais agregador de boas vontades que a da miríade de deuses pagãos que os romanos apoiavam.
- Mas se o Reino de Deus, que tu profetizaste, nunca chegou, como é que ele se transformou numa religião?
- É o tal efeito borboleta, onde um pequeno facto (no caso uma ideia) consegue incorporar outros e outros, até atingir uma grande dimensão. O Velho Testamento continuou activo, mas, agora, não só para os judeus. Para incluir os gentios, teve de rever algumas das leis mais “fundamentalistas”, como a que impedia o trabalho ao sábado, o consumo de carne de porco e outros alimentos considerados impuros e a obrigatoriedade da circuncisão. Depois, aos poucos, foi integrando os valores individualistas da cultura ocidental, até ao actual “American way of life”! Não sei se sabes, mas muitas culturas, ainda agora, secundarizam o indivíduo à sociedade, coisa que o cristianismo não promove.

Hipólito estava surpreendido. Sem querer perder a oportunidade, arriscou: - Queres então dizer que, no teu ministério, induziste pessoas a acreditar em coisas que se não verificaram!
Jesus não se importunou e respondeu, calmamente. – Sim! De facto, eu profetizei que estava eminente a vinda do Reino de Deus e que Ele iria impôr a sua vontade “tanto na Terra como no Céu”. Estava convencido que o ia fazer, que eu era o Seu último enviado, e que me dera autoridade para falar e agir em Seu nome. Só depois de estar umas horas na cruz é que caí em mim. Foi então que Lhe perguntei “Pai! Porque me abandonaste!”. Mas a mensagem que passou para a posteridade não foi essa. Foi que Deus ama cada individuo, independentemente das suas imperfeições e que deseja o regresso mesmo do pior de todos. Foi esta “inversão de valores”, onde “os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros”, que deu mote para que os poderosos se pusessem ao serviço de todos, com compaixão e sem grandes juízos.

- E para fazer valer a tua, era mesmo necessário teres morrido na cruz?
- Não estava nos meus planos. Eu, era um homem marcado na Galileia, onde o Herodes Antipas me chegou a considerar uma reencarnação do João Baptista. Quando entrei em Jerusalém já o Caifás estava de sobreaviso, de modo que, quando soube que os meus seguidores me saudaram com “Hosanas!”, me chamaram explicitamente “Filho de David” e aclamaram o “Reino” que estava a chegar, embora a manifestação fosse modesta, as forças de segurança passaram de alerta amarelo a laranja, que passou a “vermelho” quando entrei no Templo e derrubei as mesas dos cambistas e os bancos dos vendedores de pombas e comentei: “A minha casa será chamada casa de oração, … mas vós fizestes dela um covil de ladrões!”.

O médico ia de surpresa em surpresa. Ainda sem compreender a lógica de todo aquele processo, perguntou, como quem afirma: - Então, depois de uma afronta destas ao Templo sagrado de um povo, que tinha por Lei princípios ditados por Deus a Moisés, no dia em que celebravam em comunidade a Pessach - a "Festa da Libertação" dos hebreus da escravidão no Egipto em 1440 (a.C), que era a sua principal festa, a que todos os indivíduos do sexo masculino deviam participar, o que é que tu esperavas?
- Já te disse. Esperava que Deus surgisse do Céu, com os seus anjos, com grande poder e glória, e impusesse o seu Reino na Terra.

Hipólito, não resistiu e comentou: - Basicamente eras um escatologista radical que esperava que Deus interviesse na História, à semelhança do que dizia o Velho Testamento, onde Ele abrira o mar Vermelho, produzira maná no deserto e derrubara os muros de Jericó!
Jesus calou-se. “Escatologista radical” era um termo para pensar. Já lhe tinham chamado “exorcista” e “milagreiro”, mas “Escatologista radical” … . Endireitou a cadeira e sugeriu: - Se me vais aceitar com esse epíteto, prefiro o de “catalisador de efeito borboleta”, pois creio que foi o Deus que ajudei a criar que permitiu o desenvolvimento tecnológico do Ocidente, fundamental para que no mundo actual a Humanidade possa viver com algum bem-estar.

O médico concordou. – Ficas com o nº3.
Depois, saiu do automóvel, para se despedir.
- Essa coisa de procurar "fora da caixa", às vezes resulta, mas raramente beneficia o primeiro a fazê-lo.!, disse-lhe Hipólito. -Se encontrares o S. Paulo diz-lhe que eu admiro a sua coragem em levar a tua história a Roma. Aquilo é que foi meter uma lança em África.
Jesus, deu-lhe a bênção e subiu, ao som de trombetas, por um raio de sol que passava por entre as nuvens que, lentamente, se desvaneceram no ar.

Hipólito regressou a casa. Tinha que dormir sobre aquela conversa, para a conseguir integrar no que sempre lhe fora dito. Era muita informação para um só dia.

sábado, 1 de abril de 2017

S. Pedro de Verona


Pedro Mártir - Verona (1205-1252). Era filho de uma família cátara. Entrou para a Ordem dos Dominicanos e, de 1230 em diante, pregou contra a heresia, especialmente contra o Catarismo.

Em 1234, o Papa Gregório IX nomeou-o Inquisidor Geral para o norte da Itália, onde ganhou fama de "Zeloso Demolidor das Heresias".

Como tal, deve ter participado na Cruzada contra os Albigenses (1209-1244) que se caracterizou por grande violência contra aquelas comunidades pacíficas, que viviam no norte da Itália, no reino de Aragão, no condado de Barcelona e na região do Languedoque, a sul da actual França, onde morreram milhares às mãos do Santo Ofício, muitos deles queimados em "autos de fé", unicamente por professarem uma crença diferente da sua.

Quando um grupo de cátaros o matou, numa emboscada, com um machado na cabeça, caiu de joelhos, molhou o dedo no seu sangue e escreveu no chão: "Credo".



Pedro foi canonizado pelo Papa Inocêncio IV em 9 de março de 1253, a mais rápida canonização feita por um papa.


domingo, 26 de março de 2017

Lembranças do Olimpo (27) - A day in the life


Pouco passava das nove horas da noite, quando Hipólito se foi deitar. Aquele dia cheio de novidades aguardava que o sono lhe desse alguma arrumação. Quem trabalha com os braços ignora que pensar cansa mais que muitos trabalhos manuais. Pôs o CD dos nocturnos de Chopin, da Maria João Pires, no leitor e esperou que os olhos se fechassem.
Acordou, dez horas depois, no meio de um sonho. Procurava o automóvel num imenso parque onde todos tinham a cor do seu, e clicava repetidas vezes no comando da chave, sem que nenhum piscasse.
-Ufff! Não admira que se morra a dormir!, disse, enquanto se sentava na cama, ainda com o coração acelerado.
Se os sonhos dizem alguma coisa, esse estava em consonância com o seu estar: procurar o particular, naquilo que parece igual.

Apressou-se para chegar a tempo a um lugar do parque de estacionamento do hospital. A cidade atirara a população para a periferia e obrigava, mesmo os mais pobres, ao transporte individual. Aquele era dos poucos locais gratuitos e sem risco de ser multado, pelo que o estacionamento desordenado era a regra. Depois de cheio, um telefonema para o número do papelinho deixado no tablier, era suficiente para fazer alguém correr para aquele espaço tornado possível.
Era dia de Urgência e Hipólito fora avisado da falta de especialidades na Escala o que era frequente nas que tinham quadros mais reduzidos, nos períodos de férias, nas doenças e nos congressos ou outras formações. Nessas alturas, havia de decidir transferências dos doentes que necessitariam de parecer urgente.
Recebeu o turno e abriu o computador. Eram quatro os doentes à espera de Psiquiatria. A médica adoecera e não fora possível a sua substituição.

1:  Estava a receber subsidio de desemprego, mas faltou às apresentações e este foi-lhe cortado. Está a beneficiar de refeições da cantina social.
Não tinha solução para a vida e começou a vender os móveis da senhoria. Diz que teve consciência do que estava a fazer e que sempre pensou que o ia repor, mas ... não conseguiu.
Recebeu ordem de despejo. O pai é o fiador e tem pago todas as despesas.
Nunca ligou muito à escola e não concluiu o curso profissional.
Já trabalhou em inúmeras áreas (vendas, restauração e indústria). Onde trabalhou mais tempo (1 ano) foi no shopping a vender cartões de um Banco. - "Nunca fui estável em nível de empregos... ou por conflitos ou porque me fartava!"
Tem poucas amizades e foi-se distanciado dos familiares. Sempre quis a sua independência!
Presentemente não tem casa. Não parece possível voltar a residir com o pai, por também lhe ter vendido bens. -"Ele é de outra geração e não nos entendemos! Só pensa em dinheiro!".
Gostava de criar uma associação para ajudar pessoas. Quer ajudar o mundo, ter impacto nacional ou mundial. Impacto na televisão! Escrever um livro de auto-ajuda, dar conselhos …, auxiliar na procura de emprego!
2: Solteiro. Vive só. É electricista. Perdeu o controlo dos consumos de álcool há três anos, aquando de separação conjugal. Bebe nove a dez cervejas por dia.
Ontem de manhã, veio ao SU com o intuito de fazer “tratamento de desintoxicação” e foi orientado para o CRI. Depois, bebeu catorze “Macieiras” e à tarde foi resgatado do rio, para onde se atirou.
Ultimamente tem-se sentido mais nervoso e “pensativo". Nega ter planeado o gesto.
Já teve dois internamentos por Síndrome de Dependência Alcoólica. É filho de pais alcoólicos. Fuma um maço de tabaco por dia.
3: Há quatro dias teve uma quezília com a mãe. Saiu de casa e passou a noite na casa de uma tia. No dia seguinte voltou. Sentiu-se criticada e pressionada. Teve uma crise de nervos e desmaiou. Tentou sair de casa, mas foi impedida. Acabou por o conseguir e foi encontrada e tranquilizada por outros familiares, que a trouxeram ao Serviço de Urgência.
Relaciona o seu estado actual com conflitos familiares frequentes, sobretudo com a mãe, que questiona toda a sua vida, lhe lê o diário e a agenda e se intromete nas suas conversas com os amigos e namorado (tem um relacionamento há cerca de um mês). Sente-se invadida na sua privacidade e independência.
No Serviço de Urgência, terá encontrado (diz que por coincidência) um ex-namorado, com quem cruzou olhares e algumas provocações, após o que ficou muito ansiosa. Despiu as calças e as cuecas e ficou apenas com a camisola vestida, ... para o "provocar". Isso deu-lhe "algum gozo!".
Quer equilibrar-se e mostrar à mãe que sofre. Diz necessitar de umas férias!
4: Divorciado. Tem uma filha, que vive longe. Tem a 4ª classe e o 9º ano através das Novas Oportunidades. Esteve emigrado na Suíça. Há quatro anos foi reformado por motivos psiquiátricos.
Nas últimas semanas já recorreu ao SU por três vezes. Na última, psiquiatria reiniciou-lhe terapêutica anti-depressiva, que não cumpriu.
Diz ter descoberto que a companheira, com quem viveu nos dois últimos anos, o tem traído. Desde então não tem apetite e tem dormido muito pouco. Ouve barulhos durante a noite - "móveis a estalar e outros ruídos estranhos!”. Hoje, ao acordar, deparou com a "casa toda aberta, com as janelas escancaradas!”.
A sua intenção actual é comprar uma arma, a um cigano, dar dois tiros em cada perna da companheira e depois, entregar-se à polícia!"

Hipólito encaminhou-os e passou às doenças do corpo que, apesar de poderem ser fatais, são mais fáceis de entender, mesmo quando afectam gente de idade e sem capacidade de se exprimir.
1:  98 anos; trazida por prostração desde ontem. É dependente, mas ajuda no vestir e por vezes trata da sua higiene sozinha. Reconhece os familiares.
TA:148/83mmHg; Temperatura auricular: 34ºC; Saturação de O2: 99%; Frequência Cardíaca: 78 bpm
Responde a questões simples. Diz que tem frio.
2: 83 anos. Acamada. Solteira, Vive com uma sobrinha, que é a cuidadora. Referenciada ao SU por afasia súbita. ...
3: 86 anos. Trazido do Lar por dispneia intensa e febre, com inicio esta manhã.  ...
4: 94 anos. Trazido ao SU por prostração e recusa alimentar ...
5: 33 anos. Obesidade mórbida. Recorre ao SU por dor précordeal ...
n: ...

20:00h. Passou o turno, vestiu-se, pôs o dedo no pontómetro e saiu.
Junto à porta do automóvel notou um pequeno crucifixo, em prata, a brilhar no chão. Olhou em redor e não viu ninguém. Ia metê-lo no bolso quando ouviu uma voz.
- Obrigado! Estou aqui caído há quatro dias! Chamei-te, quando chegaste, mas com a pressa não me ouviste! Estava a ver que ia ser esmagado!".
Hipólito passou o indicador sobre a imagem, como a limpá-la e, no segundo seguinte, viu Jesus sentado a seu lado, no lugar do morto.
- A que devo a tua visita!? perguntou.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Lembranças do Olimpo (26)


O Arcanjo riu e perguntou: - Mas porquê o Quixote se ele sofre de Demência Fronto-Temporal?
- Porque eu necessito de alguém, consensual, com um misto de agressividade, impulsividade, inflexibilidade, comportamento inapropriado, ilusões e falsas concepções, que possa proclamar liberdades, questionar costumes e proferir inconveniências, com total inimputabilidade.
Ele tem 400 anos de provas dadas, o que é mais que suficiente. Nada como um louco para apontar o dedo à Justiça.

- Então é ele que queres para me questionar?, pasmou S. Miguel, fazendo subir e descer os pratos da sua balança.
- Exactamente!, respondeu Hipólito. – Não é necessário que um homem conheça as razões que o movem quando opta por um de dois caminhos. Querendo, pode mesmo iludir-se sobre os motivos da escolha, atribuir-se virtudes que não possui, inventar pretextos e invocar imperativos ditados pela boa índole, pela rectidão moral, pela fibra ética, pelos princípios. Pode tentar convencer-se de que é o amor que o move e que é a Justiça que o obriga; reclamar-se guardião dos mais elevados ideais e argumentar que a sua defesa justifica o uso de qualquer meio.
O homem vive de enganos. Inventa deuses, persevera em acreditar neles e cuida para que os demais creiam também com tanto ou maior fervor. Não tem ideais, tem humores. E este é o móbil de todas as suas acções, das boas e das más, dos gestos acertados e dos erros. As disposições humanas, por mais volúveis ou ponderadas, constroem os destinos e todas as coisas, ditam sortes e convocam desgraças.

- Vejo que citas de cor o Manuel Jorge Marmelo no “O homem que julgou morrer de amor”.
- Não te sabia leitor, pelo que ainda mais te admiro! Julgava-te um fundamentalista, mas dou a entender-te como alguém à procura de um equilíbrio dinâmico para a humanidade, que sabe que o homem é, de entre todos os animais, aquele que mais se assemelha ao lobo: se devidamente alimentado e vestido, com um punhado de moedas na mão, chega a parecer dócil e assustado, mas se tem a barriga vazia transforma-se num ser selvagem, capaz de renegar os seus deuses e amaldiçoar as suas crenças, sem pestanejar antes de fazer o que julga necessário para ganhar o direito ao alimento que lhe falta, e até de dar caça ao seu pai, irmão ou mestre, o que inspirará gerações e as ensinará a vencer sem olhar a meios, armado apenas de pragmatismo, da determinação e do ódio que faz dos fracos vencedores.

- Fim de citação!, riu o Arcanjo. Hipólito que, com o ânimo, se tinha levantado, voltou a esparramar-se no cadeirão, simulando um grande cansaço.
- Desculpa a referência. Lembrei-me deste trecho porque, de vez em quando, tropeço em colegas de profissão que evoluem para “testemunhas de Jeová da Medicina”, decididos a impor o seu modo de estar não só na profissão, como também no dia-a-dia. Costumam dizer que a Medicina é um “sacerdócio”, mas se lhes pagam menos do que as suas expectativas, passam à peixeirada e esquecem o tal espírito de missão que habitualmente reivindicam.

S. Miguel deu dois passos até à janela, de onde se via o mar.
-Então o D. Quixote é o nº 2, e ficará a representar quem reclama por Justiça quando é beneficiário de leis que protegem os seus privilégios.
- Isso mesmo! E também daqueles que se julgam “top” e se cegam para tudo o resto, transformando-se em martelos que em todo o lado vêem pregos!

Depois despediram-se e Hipólito ficou longos minutos a olhar para a nuvem por onde o viu entrar, a pensar se algum dos outros Arcanjos teria características que os pudessem eleger para os números seguintes.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Lembranças do Olimpo (25)


“Façamos de 2017 um ano de paz”, instava, nas Nações Unidas, o novo secretário-geral, António Guterres, quando Zeus passava sobre Nova York no regresso a casa. Sorriu com benevolência e disse para consigo. – Reza para que não te apareça pela frente um qualquer tiranete a abanar uma bandeira, pois vais ver que ele consegue um batalhão de palermas dispostos a guerrear!, e retomou rapidamente o rumo na direcção do Planeta Gliese 581 c.

Entretanto Hipólito, já em casa, ouvia, no Telejornal, o Papa Jorge Bergoglio a apontar a evolução tecnológica como a causa da ”orfandade espiritual", o que o pôs a divagar sobre o efeito da maior educação das populações sobre a violência, nos “Illuminati” que temiam que o saber caísse em mãos erradas e em Jesus Cristo e Sócrates que nunca escreveram uma linha e se focaram naquela dúzia de discípulos, para garantir que o seu pensamento não fosse adulterado.

Embora reconhecesse as boas vontades do Papa, não acreditava que o seu caminho tivesse futuro, nem que os santos, que tanto tinham ajudado a sua Igreja no passado, pudessem ter qualquer relevância futura, mesmo que ele se apressasse a criar novos em todo o mundo cristão. A solução para a paz, parecia-lhe estar na educação da população, mesmo correndo o risco do “saber” cair nas mãos de quem não o integre em valores humanistas e ecológicos.

Ora estava Hipólito nestes pensamentos, quando lhe apareceu um anjo no ecrã da televisão. Trazia na mão esquerda uma balança e na direita uma espada. A imagem manteve-se fixa durante uns segundos e depois dirigiu-se-lhe.
- Desculpa se te interrompo as notícias! Há meses que te observo e hoje, ao ver-te enleado nesses pensamentos, decidi abordar-te!
O médico reconheceu-o e puxou o sofá mais para frente do aparelho, para dar intimidade à conversa.
- Muito me honra a visita de alguém que ainda está no activo e com múltiplos afazeres. Mas o que é que em mim te despertou curiosidade!?. Eu sou um clínico sem mais pretensões que as de ter alguma qualidade naquilo que faz.
O anjo pousou os apetrechos, abriu e fechou as asas, para se ajeitar, e pôs as pernas fora do ecrã como se estivesse sentado num muro, para também se chegar ao colóquio.
- Desde que Zeus te convocou para dares assistência ao Lar da sua família, que fiquei com uma pulga atrás da orelha. É que tu nem um doutoramento tens!

O médico tentou disfarçar o sangue que lhe subia às faces:
- Vejo que, apesar de ainda usares espada e uma balança de braços, estás muito moderno. A tua conversa está na onda das universidades que, para se sustentarem, promovem doutoramentos que pouco contribuem para melhorar as práticas profissionais e só alimentam vaidades. Como deves saber eu pertenço à Carreira Hospitalar. Podia ter feito a opção pelo ensino e, se calhar, a esta hora até era professor universitário, mas optei pela actividade hospitalar e, na carreira, atingi o último grau.
- Calma!, respondeu o Arcanjo. - Não vejo o porquê de te zangares! Já tens idade para saber que o homem é um bicho oportunista e que a incompetência sempre achou caminhos para se sobrepor a quem anda distraído das modas que se jogam nas altas esferas.
Hipólito concordou e justificou-se:
- Desculpa, se me exaltei! É que agora qualquer um é professor. Tira-se um doutoramento na glândula sebácea do prepúcio do rato e exige-se um título de professor! Mas adiante! Queres tomar qualquer coisa. Um chá de hortelã ou preferes uma bebida alcoólica quente? Tenho ali um whisky que faz um óptimo Irish coffee!

O Arcanjo Miguel riu com a provocação e não resistiu a perguntar:
- Mas isto é assim ou oito ou oitenta?
- Não queria ofender. Não me digas que és abstémio!
- Se tens essa disponibilidade, aceitava um chá de menta! De vez em quando bebo um copo. Principalmente com a chanfana de borrego ou com a "maqluba". Na maior parte das refeições bebo água. Mas a causa de me teres aqui, foi o teu congeminar sobre o Papa e o pensar que os santos não ajudam a actual Igreja Católica a retomar a sua influência.

Hipólito, pediu-lhe um minuto e foi aquecer água, aproveitando esse tempo para organizar o pensamento. Depois, trouxe a chaleira a fumegar e, enquanto o servia, retomou a conversa:
- Há anos, quando a minha sogra era viva, a toda a hora eu ouvia nomes de santos. Ela vivia num ambiente rural, numa casa onde não havia livros. Os aforismos eram o seu guião para as boas práticas e resguardos, pois quem tem os bens ao relento e não tem seguro de colheitas, muito tem de se lembrar do que se passa nos céus. "No dia de S. Matias (14/5) começam as enxertias.”; “Pelo S. João (24/6) a sardinha pinga no pão.” “Pelo S. Tiago (25/7) pinta o bago e cada pinga vale um cruzado.”; “Nevoeiro de S. Pedro (29/6) põe em Julho o vinho a medo.” ; “Quem planta no S. Miguel (29/9), vai à horta quando quer.”; “Pelo S. Martinho (11/11), semeia o teu cebolinho.” ; “Quem colhe azeitona antes do Natal, deixa metade no olival.”. Era assim o ano todo ...
Mas numa época em que a agricultura de subsistência está a dar as últimas e a terra tende a concentrar-se em grandes multinacionais agrícolas, os santos só dão nome aos dias de folga ou de festa e os mitos de que se fala variam com o que Hollywood vai produzindo.

O Arcanjo saiu da borda da TV e foi para junto da janela. Passados uns minutos, respondeu:
- Dois homens, se são Homens, estão condenados a entenderem-se!, li-o numa crónica do António Lobo Antunes! Quando um homem se liberta dos seus instintos primários e consegue ver para além do seu umbigo, habitualmente entende o outro. Eu pertenço às três grandes religiões monoteístas e sou paladino de quem luta contra os embustes e procura virtude na humildade. Não tenho nenhum contrato com a cúria de qualquer dessas religiões, que as mais das vezes são formadas por gente marcada por crenças sem fundamento. Concordo contigo na necessidade de fazer com que a educação consiga uma maioria que não embarque em ilusões e se foque em objectivos exequíveis.

O médico foi a uma das prateleiras onde tinha os livros de ciência e trouxe um de Richard Dawkins – “O gene egoísta”, e questionou-o:
- Mas como dar essa volta, se Deus introduziu no ADN humano, uma memória tribal que tende a avaliar o outro negativamente quando lhe topa alguma diferença?
O arcanjo pegou na espada e apoiou-se nela, enquanto dissertava: - A globalização ajuda a corrigir essa tendência, mas é necessário "proximidade física" e vocês estão a apostar demasiado no virtual, com o que dificilmente vos ireis sentir pertencentes ao mesmo grupo. Nisso o Papa tem muita razão. A solidão é um refúgio e não é possível viver à sombra de um só livro, pois ele torna "infiéis" todos os que o não seguem!

O médico ignorava esta faceta de S. Miguel. Conhecia a sua relação com as colheitas e a luta contra o mal, mas entendia-o como defensor de uma facção. Afinal, ele estava presente nas três principais religiões monoteístas (Islamistas, Protestantes e Católicos) e, depois de o ouvir mais um tempo e se certificar que ele nunca tinha entrado nas Cruzadas, nem ter ajudado os exércitos nas lutas contra os Eixos de Mal que os políticos e religiosos, de várias origens, foram criando, deu-se à liberdade de o abraçar como a um amigo, e dizer-lhe:

- São Tiago, o “mata mouros”, foi invocado na reconquista da península ibérica e nas lutas contra Portugal. O São Jorge, da mitologia nórdica, ajudou-nos em inúmeras batalhas, mas a tua luta sempre foi contra as pessoas negativas, estivessem elas de um lado ou do outro, usando sempre a espada para evitar danos colaterais. Ainda bem que não aderiste às novas tecnologias, como outros deuses que passaram a usar armas de destruição maciça. Eu ando a juntar mitos que possam ter valor universal e gostava de te dar o nº1. Vês algum inconveniente?

- Tenho o maior gosto!, alegrou-se o anjo. - Mas o meu apoio não é incondicional! Espero que não me ponhas a fazer equipe com o Pai Natal, nem com o Batman!?
- Está descansado que eu, sempre que encontrar um mito com características favoráveis a uma universalidade, peço a tua opinião. Por falar nisso: Tens alguma coisa conta o D. Quixote?

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Lembranças do Olimpo (24)


Há duas semanas que Hipólito não tinha qualquer contacto com o sobrenatural e isso deixava-o inquieto. O que se passava em redor tresandava a terreno. Os dias rotineiros faziam parceria com as notícias que enchiam os meios de comunicação, nacionais e internacionais, onde pontuava a vida mundana de Hollywood, do futebol ou da moda. Quem casava, quem se divorciava ou morria, sem qualquer toque daqueles que os deuses põem nas coisas banais para as transformar em guias para os mortais. Até os doentes morriam previsivelmente de doenças crónicas e tinha-se por garantida a presença diária do presidente da república, na televisão, à procura de “consensos”, ao mais pequeno desequilíbrio social. O Natal enchia as lojas de gente e o “All I want for Christmas is you!” tocava repetidas vezes em todas as ruas.

Hipólito afastou-se do bulício da cidade. Foi até à margem do rio admirar a elegância das taínhas a lutar contra a força da maré, a pensar se esta acalmia não seria aquela que precede os estranhos fenómenos ou as espetaculares intervenções divinas que alteram o curso da História do Homem na Terra, quando Zeus se sentou a seu lado. O médico levantou-se, agradado com a sua presença.
- Oh! Que bom é ver-te! Pensava que te tinhas esquecido de nós!
Zeus, pousou o raio e abraçou-o. -Também folgo em saber que estás bem! Tinha planeado só vir no verão, por causa da gripe, mas o Papa Francisco convidou-me para um Concílio de Deuses e eu não tive coragem de lhe dar uma nega!

- Então, estás a planear um regresso!, sorriu Hipólito, manifestamente feliz.
- Não!, respondeu o deus. – Vim só para não dizerem que sou um ressabiado e que não colaboro, quando é já evidente que a humanidade estar a dar cabo do planeta. O Tema também era apelativo: “Princípios Básicos para as Religiões que formatam o estar da Humanidade - Um novo paradigma”, e achei que a minha experiência podia servir aos deuses mais novos.
- E que tal está a correr esse Congresso, digo ... Concílio?, emendou Hipólito. Zeus não considerou a gafe e continuou:
- Nada bem! Logo nas primeiras sessões começaram as dissidências. O assunto era a "individualidade” e quando alguém defendeu que o homem deveria ser visto como uma abelha de um enxame, com um comportamento essencialmente determinado pelo grupo a que pertence, foi uma salgalhada das antigas!
Depois, como era Natal, o Papa Francisco, mostrou um presépio como símbolo da família. Havias de ver o sururu que se levantou. Que o presépio era só um pedacito da família, que deviam estar ali os irmãos, os tios, os avós, os antepassados e até os vizinhos próximos. O Francisco ainda tentou uma deriva dizendo que ele retratava o fruto do amor entre duas pessoas e que isso era a coisa mais linda que havia, mas já ninguém o ouviu.
À tarde, depois de umas generalidades, decidiu-se que o melhor era entrevistar os CEO das mais importantes instituições da Humanidade e começar pela cultura Ocidental. Ir ao Japão para falar com o Akihito, a Nova York falar com o Guterres e com o Trump, a Londres com a Rainha Elisabeth, a Berlim com a Angela Merkel, à Califórnia com o Bill Gates e a Moscovo com o Putin.
Mas quando se tentou distribuir estas tarefas pelos presentes, um grupo barulhento, desatou a gritar: “O Allahu é que vai!, O Allahu é que vai!”. Estás a ver! Quem queria ir começou a ficar irritado por só falarem naquele. Aos poucos, os deuses, foram saindo “à formiga”, até que o Francisco adiou a sessão alegando que tinha de ir comprar sapatos!

Hipólito estava surpreendido. Sabia que grande parte dos conflitos humanos tinham origem nos deuses, mas nunca pensara que as diferentes interpretações sobre o que é um homem poderia levar à sua exaltação. Zeus cingira a túnica ao corpo como a proteger-se do nevoeiro que entretanto se instalara e Hipólito sugeriu que fossem tomar um chocolate quente a um café que não tinha clientes, àquela hora. - Vais ver como te passa o frio num instante!, e, para estimular a conversa perguntou: - Tu achas que todos os deuses estão a par da evolução tecnológica da Humanidade?
Zeus sorriu. - Claro que estão! O problema não é esse. O problema está na estrutura que têm no terreno. Os Cristãos aceitaram reduzir o número de mosteiros e a passagem de algumas das suas funções para o poder temporal, mas o Islão não quer passar essa influência para um Estado Laico. As madrassas estão instaladas e asseguram emprego a milhares de pessoas. Eles não têm possibilidade de lhes fazer um "upgrade" e torná-los professores de Liceu ou de Universidades. Ia haver muita instabilidade social.

- Mas hás-de convir que, no mundo actual, as histórias dos heróis já não são veiculadas pelo clero. Quem agora dá referências aos miúdos, são os desenhos animados, o cinema e a TV. Soubeste que o Darth Vader foi a figura escolhida para representar o Mal numa das gárgulas da Washington National Cathedral, nos States? Não foi o Diabo! E isso só significa que a catequese foi vencida por Hollywood, pelo menos no Ocidente!
- É um facto!, concordou Zeus. Os personagens religiosos, para uma criança, são menos carismáticos que o Homem-Aranha ou o Skywalker e poucos se interessam pela vida do S. Vicente de Saragoça, mesmo sendo ele o padroeiro de Lisboa. Isto para falar da religião dominante no teu país. Daí que haja quem resista à globalização. Nós gregos, preocupávamo-nos em estimular a imaginação do nosso povo até ao limite. Mas há para aí religiões que funcionam em direcção oposta, porque lidam com populações com muito fraco desenvolvimento intelectual.

- Não tinha pensado nisso!, disse Hipólito, enquanto escorropichava o fundo da taça. - Mas se os fundamentalistas acreditam que conseguem fugir à globalização, estão muito enganados! Ela está para ficar! O melhor é colaborarem no estabelecimento de novas regras, com benefício para todo o planeta e não só para o Homem! Mas mudemos de assunto., sugeriu o médico. - a tua mulher dá-se bem, lá por onde vocês andam?

Zeus sorriu, ajeitou-se na cadeira e chegou-se mais próximo do médico para lhe confidenciar: - Deixou de tomar a pílula! Agora quer engravidar! Adaptou-se completamente àquele estar. Os 14 protões do silício ajudam mais os seres vivos daquele planeta que os 6 de carbono que a vida na Terra usa. Torna-os menos conflituais e sabes como são as mulheres, olham em primeiro lugar para a estabilidade. E por falar nisso!, deitou a mão à cabeça, a lembrar-se de um compromisso. - Fiquei de ir com ela visitar um rio de azoto líquido que existe nas montanhas. E já estou atrasado. Desculpa ter de ir assim tão de repente. Um abraço! , disse e, no mesmo instante, esfumou-se no nevoeiro que assumiu um leve tom azulado.

À porta do Café o empregado perguntou. - Você não estava acompanhado?. Hipólito pagou e respondeu: -Nunca estamos sós. Mesmo que os não vejamos, os deuses estão sempre connosco!.