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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Lembranças do Olimpo (23)



Uma lareira, um sofá aconchegante, um bom livro e um copo de vinho tinto “para senhoras”, faziam-lhe as delícias nas noites de inverno. Este mais parecia um Outono adocicado pelos ventos de África mas, à noite, bem dentro de Dezembro, manda a tradição que haja recolhimento e que as práticas divirjam das de outras estações.

Hipólito lia um livro de História que lhe apresentava os factos sob uma nova perspectiva e, surpreendia-se por não se ter apercebido de outras narrativas possíveis. A História deve ser lida à luz dos valores e conhecimentos da época, mas sendo ela sempre escrita pelos vencedores, há que manter distância, evitando embarcar na deificação dos lideres, que lhes omite os erros, lhes empola as virtudes e lhes fixa os objectivos em função dos resultados obtidos, a que o Acaso nunca é estranho.

Olhou para o copo. Aquela garrafa de Carbernet Sauvignon da Casa Ermelinda Freitas valia bem os nove Euros.
Pôs uma acha na lareira e voltou ao sofá. De repente, lembrou-se que tinha agendado uma consulta com Jó, para essa noite.
Olhou o relógio. Estava quase na hora. Fechou o livro e aguardou.

Minutos depois, a campainha tocou. Era Jó. Vinha diferente. A túnica nova e a barba aparada, tiravam-lhe o ar miserável do primeiro encontro. A pele já não tinha crostas embora se notassem múltiplas manchas cicatriciais descoradas. Nos pés trazia umas sandálias de couro, amarradas em torno do tornozelo.

- Entra, entra! Que não estás vestido para uma noite como esta. Nem umas meias calçaste!, preocupou-se o médico ao vê-lo naqueles preparos, como se estivesse em pleno verão, nas margens do Eufrates.

-Não te preocupes!, respondeu Jó. - Estou habituado ao sofrimento. O Purgatório é uma provação diária!. O frio é o menos. O pior é a humidade! Então quando há nevoeiro …, entranha-se-me nos ossos e fico tolhidinho de todo!
Hipólito conhecia de cor essas histórias do reumatismo e ainda se tentou a explicar-lhe que um ambiente saturado de água dificulta o aquecimento, mas lembrou-se que Jó não possuía conhecimentos básicos de física e conteve-se. Foi ao móvel onde tinha os copos e trouxe-lhe um que encheu de vinho, enquanto o empurrava em direcção à lareira.
- Aquece-te aqui um pouco, que estás com as mãos geladas! Depois diz-me como tens passado!. convidou o médico.
- Melhorzinho!, respondeu Jó. - Principalmente da pele. Ainda futuro muito, mas nada como dantes! Mas o ambiente também não tem ajudado à minha recuperação psicológica!
- Como assim?, perguntou o médico.

Jó olhou-o suspenso na indecisão de contar histórias do Purgatório a um mortal, ainda vivo, e, por fim, desabafou:
- É que há umas três semanas, mudaram-se para o pé de mim os três pastorinhos! Como deves calcular não são a melhor vizinhança. O Francisco e a Jacinta, ainda se suportam. São crianças e fora o barulho que fazem, pouco chateiam! Agora a irmã Lúcia!... , abanou no ar, repetidas vezes, os dedos da mão direita. - É um cromo de alto lá com ele!. … Anda cheia de vaidades a dizer "Eu é que sou santa! Eu é que faço milagres! Eu é que ponho o sol a dar voltas!"... É um espancamento!!!!!. Passa a vida a dizer que, se não fosse ela, o centro do país só era conhecido pela pêra rocha!
O médico confirmou. - Lá isso é verdade! Ela é figura central no turismo religioso! Mas não contava com ela no Purgatório!? Isso é possível??, pasmou Hipólito.

Jó, meteu a mão cabelos adentro e respondeu com enfado: - O Purgatório está cheio de santos. Muitos deles, se aparecessem hoje, eram rapidamente encaminhados para hospitais psiquiátricos. Olha o S. Simeão "estilita"! Esse também anda por lá meio ganzado!
- Dizes que há santos no Purgatório!, insistiu o médico, a tentar tirar nabos da púcara.
- Ui!, respondeu Jó. – São “paletes” deles! Sempre houve muitas pressões sobre o Vaticano para a atribuição do grau de santo a um paisano excêntrico que, por uma qualquer razão, mais ou menos lógica, conseguiu chamar a atenção da populaça e gerar um movimento tal, que a Cúria não tem alternativa senão a de cavalgar a onda, antes que outros o façam. Uns estão identificados como “santos populares”, como o S. Roque, mas nem sempre assim é. A mitologia cristã é muito complexa. Eu sou de outro campeonato. Pertenço ao Velho Testamento. Infelizmente, a minha história de vida foi alterada, para se tornar exemplo de fidelidade, quando, de facto, ela é exemplo do que se não deve fazer quando nos deparamos com dificuldades, que é entrar em pânico e desatar a implorar a ajuda divina. Os árabes têm um ditado que diz “Deus ajuda quem se ajuda!” e os brasileiros dizem que “Pão de pobre quando cai, é com a manteiga para baixo!”. Naquele tempo não se dizia nada disto! Implorava-se a Deus na desgraça. E foi nesse barco que embarquei!

-Vejo que fizeste um esforço para interpretar os erros da tua vida!, confirmou Hipólito. – Apesar de tudo, tiveste sorte, porque Deus deu-te novo gado e novos filhos! Mas, já que me abriste a curiosidade, ao falares do Purgatório, eu gostava de saber se viste lá santos portugueses? O S. Teotónio? O D. Nuno Alvares Pereira? E os mártires de Viana do Castelo – a Revocata, o Teófilo e o Saturnino?
Jó deixou a cadeira e sentou-se no tapete. Hipólito acompanhou-o.
- Temos este hábito de nos sentarmos no chão!, justificou-se. E depois, enquanto passava a mão pelo tecido, anotou. - Belo tapete! É bem macio! É português?
- Sim! respondeu o médico. – É de Beiriz. Cem por cento lã. Em Portugal só se fazem tapetes em dois locais. Em Beiriz e Portalegre. Embora chamem tapete ao que se faz em Arraiolos, aquilo, na verdadeira acepção da palavra, é um “bordado”.

- É engraçado como as palavras perdem significância, quando se divulgam para fora das camadas mais eruditas da população. Um tapete tem uma urdidura muito diferente da de um bordado. Mas, respondendo à tua pergunta sobre os santos portugueses, também aqui as palavras ganharam diferente significância e a população começou a chamar santo a todos os que, de algum modo, se identificaram com o seu sofrimento, sem qualquer aval da cúria romana. É assim que aparecem os “santos” mártires, os “santos” bispos (também chamados doutores da igreja), e santos como o Nuno Álvares Pereira, que de “estratega e génio militar”, aos 64 anos, depois de enviuvar e ter perdido os filhos, se tornou “humilde monge”, no imponente Convento do Carmo, por si mandado construir, em 1389. Só foi reconhecido beato em 1918 e santo em 2009, depois da sua suposta intervenção na recuperação «milagrosa» de uma úlcera de córnea provocada por óleo de fritar, que deveria ter demorado um ano a sarar e que sarou em apenas três meses.

- Como é que sabes isso tudo?, inquiriu Hipólito. – Podes ser de outro campeonato, mas estás bem actualizado!
Jó sorriu. – Foi um acaso!, explicou. – Como a Lúcia, no meio das suas vaidades se comparou com o Santo Condestável, dizendo que ele quase não tinha devotos, eu fui ver quem era o personagem. Depois, como tu vives em Viana do Castelo, procurei os santos dessa região e só encontrei o São Teotónio. Quanto aos mártires por que perguntaste, devem ser uma invenção. Uma coisa como as antigas relíquias.

Agora era a vez de Hipólito sorrir. – Fiquemos por aqui, senão ainda acabamos a falar dos 14 prepúcios de Jesus que circulavam pela Europa na Idade Média! Se estás melhor, vais manter o tratamento e aguardar a consulta de psiquiatria, que eu agendei para o início do ano!
Levantaram-se. Hipólito foi à cozinha e trouxe um pequeno embrulho que lhe meteu entre as mãos. – Tens aqui uns sidónios, da Confeitaria Flôr, para a viagem de regresso. Vais ver que são dos melhores que aqui se fazem! Não comas tudo de uma vez, que eles também são bons no dia seguinte.
Jó agradeceu. – Deixas-me sem jeito! Não pago a consulta e ainda por cima, me dás prendas!
- Quando ficares bom, se te lembrares de passar por cá, traz umas costeletas de carneiro, para degustarmos em conjunto e fazermos as honras a uma pomada que eu ali tenho para as circunstâncias especiais.

Abraçaram-se. A noite estava fria e aceleraram as despedidas.
- Até uma próxima!, respondeu Jó, desfazendo-se em fumo.
- Vai com calma, que o mundo não acaba amanhã!, disse Hipólito, enquanto pensava: A eternidade é uma chatice!

domingo, 4 de dezembro de 2016

Lembranças do Olimpo (22)


Acendeu a televisão. Anunciava-se a morte de Fidel de Castro e o médico anotou o corropio de comentadores e as frases de circunstância - que só a História o julgará, que era uma figura controversa, singular, que tinha um sonho, que … . Desligou ao quinto, sem esperar pela análise de Marcelo que, a julgar pelas fotos da sua visita, um mês antes, o deve ter surpreendido com uma qualquer “bavaroise”.
Pegou no smartphone e ligou para a mulher. Que não demorava! Que adiantasse o jantar! Que havia sopa no frigorífico, mas que fizesse um arroz e uma omeleta ou então que fosse à churrascaria buscar qualquer coisa já confeccionada!
Foi à cozinha, pegou numa tábua de queijos, numa garrafa de vinho e num pão tradicional do Alentejo. Foi para a sala, pôs a tocar, no leitor, o Álbum de Chopin de Lang Lang e sentou-se a petiscar.

Foi nessa altura que tocaram à porta. Um homem escanzelado, com múltiplas crostas na face, apareceu no intercomunicador.
Hipólito, perguntou: - Quem és, e o que pretendes?
-Tem calma! Eu necessito de ajuda! Já deves ter ouvido falar de mim. Sou Jó!
- Jó????, exclamou o médico. - O da Bíblia?
- Sim! Esse mesmo!

Foi à porta. Olhou-o de alto a baixo. A tez escura, a longa barba, a túnica rota, por onde saíam dois braços com inúmeras pústulas, o sotaque e a linguagem corporal, davam coerência à sua afirmação e Hipólito não hesitou e convidou-o a entrar.
- Tens uma história de vida do mais bizarro que há!, disse-lhe enquanto empurrava a porta. - Em que te posso ajudar? Pensei que estavas na maior e não nesse estado lastimoso. Ao fim e ao cabo voltaste a ter património, família e saúde, depois de Deus te ter tirado tudo, naquela aposta descabelada com o Diabo!

Jó, fez-lhe um salamaleque e entrou, enquanto explicava:
- O que se escreveu sobre mim não corresponde ao que se passou. Já nessa altura os narradores confabulavam para tornarem as histórias apelativas. A verdade é que foi quando adoeci que tudo começou a correr mal.

O médico, ofereceu-lhe uma cadeira em frente à sua e foi à cozinha buscar outro copo, na esperança de que aquele Quinta da Bacalhoa fosse fermento para pormenores que dessem maior credibilidade às suas afirmações. 
- Estás então a dizer que foi a doença que levou a tua casa à desgraça?
- É a pura verdade! Já rebobinei o filme da minha vida vezes sem conta e, depois de ter lido muita coisa, cheguei à conclusão de que sofro de uma Perturbação da Ansiedade Generalizada!, respondeu Jó, contristado. Depois, bebeu dois goles de vinho, deu um estalo com a língua em sinal de aprovação, e continuou: - Como sabes, nasci numa família rica, na terra de Uz, que hoje faz parte da Jordânia. Herdei um património enorme e, nos primeiros tempos, até o acrescentei! suspirou, fez uma pausa como a relembrar o sofrimento passado, e continuou: - Grande nau, grande tormenta! Todos os dias havia problemas! A certa altura, dei por mim a "empreender" neles, sem lhes achar solução e a passar noites em claro. Em desespero, virei-me para Deus a pedir piedade, na esperança de uma ajuda, mas quanto mais orava, mais desgraças atraía e, em pouco tempo, eu, que era um dos homens mais ricos do oriente, perdi o gado, a gente que estava ao meu serviço e até os filhos. Por fim surgiu-me a doença da pele e fiquei com este aspecto desgraçado.

Hipólito mediu o pobre homem. Aquela história bíblica, por mais que as exegetas se esforçassem por lhe dar um significado actual, não tinha pés nem cabeça. Um Deus a apostar com um Diabo a fidelidade de um crente, a ponto de permitir que este lhe desse cabo da vida, era mau demais para um ser misericordioso. A interpretação que Jó dava, a de um homem atormentado por crises de pânico, que o tornam num farrapo, era uma explicação muito mais razoável para aquela situação.

- Jó!, interrompeu o médico, quando lhe chegava a cesta do pão. - Então não são “inverdades”, como agora se diz, as tuas constantes preces a Deus e a tua exemplar fidelidade?!
- Foi o desespero! Nessa altura, eu acreditava no poder da oração e que, se eu apelasse a Deus, ele realizaria maravilhas e ajudar-me-ia a superar todas aquelas dificuldades. Só mais tarde é que entendi que elas não eram reais, mas resultantes do meu problema de saúde.
- Mas uma vez que já morreste, o teu tormento devia ter acabado. No Céu é suposto haver um gozo pleno e eterno, ouvindo música celestial e bebendo o leite e o mel da contemplação divina.
- Não, Hipólito!, respondeu célere Jó. - Eu vivo no Purgatório! Ali, é como na Terra. Mesmo quando lá estamos há séculos, como eu, e temos direito a recreios prolongados e licenças precárias, há tribulações frequentes!

- É curioso! Eu pensei que o Papa João Paulo II tinha fechado o Purgatório em 1999!, lembrou o médico.
- Como é que podia!, exclamou Jó, com alguma impaciência. - São biliões de almas que lá estão! Para lhes arranjar um outro destino, é preciso tempo. Há muita burocracia a cumprir. Lembras-te quando surgiram os movimentos que criticavam o atendimento dispensado nos Hospitais Psiquiátricos, acusando-os de promoverem isolamento, reclusão, abandono, estigmatização e tratamentos inadequados? Já analisaste os resultados do que se fez para que esses doentes passassem para o ambulatório? Lá ia ser pior! Uma coisa são as intenções e outra é pôr a obra no terreno!

Hipólito pasmou com a actualização de Jó.
- Vejo que estás a par do que se passa na psiquiatria portuguesa. Mas conta que a demografia e a crise também não nos têm ajudado. As famílias estão cada vez mais pulverizadas e sem capacidade para tratar dependentes.
- Entendo! Respondeu Jó. – Mas apesar de tudo há respostas! No Purgatório só há produtos “naturais” e não há apoios sociais.!
- E permitem entrada de medicamentos, vindos do exterior?, sondou Hipólito.
- Quanto a isso, não há problema! Até droga se pode levar! Na admissão há quem anote, para o "deve e haver" do Juízo Final! Mas não há limites!


Jó ajeitou-se na cadeira, puxou de um caco de louça e começou a raspar uma das crostas do antebraço.
- Está quieto e não agraves essas lesões!, levantou-se o médico, para lhe retirar o fragmento da mão. - Tens uma neurodermite infectada e ainda te pões para aí a escarafunchar!? Confirmo o teu diagnóstico. Vou ver se tens alguma outra doença concomitante, mas depois vou ter de te orientar para psiquiatria! e, a talho de foice, ainda intrigado com aquela aparição, perguntou: - Quem é que te aconselhou a vir ter comigo?

- Foi o Hércules. Encontrei-o em Petra, numa das minhas saídas precárias. Procurava dois cavalos que se tinham tresmalhado. Ficámos um tempo à conversa e ele falou que andava muito melhor desde que tu lhe mudaste a medicação. Então, dispus-me a vir até aqui na expectativa de me ver livre desta dor existencial que me faz amaldiçoar o dia em que nasci!
- Ainda bem que não entraste em depressão e mantiveste essa Fé, senão a coisa ainda era pior. A filha do Onassis também tinha tudo, como tu, e suicidou-se aos 37 anos!
- Ouvi falar!, respondeu Jó. – Talvez por temor a Deus, sei lá, recusei sempre o suicídio, mesmo quando a minha mulher me incentivava a fazê-lo. Mas cheguei a pedir a Deus que soltasse a sua mão protectora e me eliminasse.
- Ok!, já percebi as tuas angústias! Acaba o vinho e vamos ali para baixo, para eu te fazer o exame físico, não vá teres hipertensão ou outra qualquer maleita, que possa interferir com a medicação que te quero propor!

Hipólito deu-lhe a mão para que não tropeçasse nos dois degraus, que distavam da sala de estar. Depois, mediu-lhe os sinais vitais, viu-lhe a orofaringe, auscultou-o, palpou-lhe as cadeias ganglionares, deitou-o para uma palpação abdominal e fez-lhe um toque rectal. No fim concluiu. -Vais ter de fazer umas análises, uma radiografia ao tórax e um electrocardiograma. Entretanto inicias um antidepressivo em doses baixas associado a um ansiolítico, mais um antibiótico para essa estafilococia que tens na pele. Quero ver-te daqui por uma semana e, nessa altura, espero já ter um agendamento para um psiquiatra! Queres outro copo de vinho ou preferes que te faça uma sandes para a viagem?

Jó recusou ambos. Estava feliz na expectativa de tão bons resultados como aqueles que Hércules obtivera, e isso era um bom augúrio, constatou Hipólito.
Despediram-se. Jó deu três passos e um salto e, qual coruja, desapareceu na noite como um fumo, sem um ruído, quando, ao longe surgiam os dois faróis do automóvel da mulher. - Já não era sem tempo!, exclamou.  

domingo, 6 de novembro de 2016

Lembranças do Olimpo (21)


Hipólito regressou a casa tentando identificar as árvores por que passava. Carvalhos, castanheiros, faias, salgueiros, cedros, medronheiros, bétulas, eram fáceis. Outras obrigavam-no a parar. Pena não ter trazido o livrinho das autóctones, pensava, embora, mesmo com ele, algumas, por serem de outras regiões ou lhe faltarem elementos distintivos, como frutos, flores e até folhas, ficassem para outras alturas.
Desde pequeno que a natureza lhe despertava curiosidade, fossem seres animados ou rochas. Lembrava-se ainda do espanto com que vira, pela primeira vez, os rifts do fundo do mar que estão na origem da tectónica das placas e também de um livrinho sobre Darwin que o tirara das limitações das crenças religiosas, mas fora o funcionamento do corpo humano, na saúde e na doença, que acabou por vencer e orientá-lo para a profissão.
Embora a teoria lhe interessasse, era pela prática que se media, sem se impressionar com quem recitava de cor as mais recentes “guidelines” e fugia da proximidade dos doentes, nem com quem entendia os actos médicos, como actos de piedade, e escondia a incompetência debaixo de um discurso pseudo-ético-religioso, parasita do trabalho dos pares. Admirava, acima de tudo, um diagnóstico difícil, principalmente se feito com recursos limitados, a que se seguia uma terapêutica eficaz. Era aí que punha a tónica da profissão, embora nunca descurasse o respeito por quem sofre o infortúnio de uma doença.

Chegou a casa cansado. Procurou no frigorífico uns restos que pudessem servir para um almoço tardio, aqueceu-os e acompanhou-os com uma cerveja gelada. Depois estendeu-se na sua Lounge Chair, e adormeceu. Foi nessa precisa altura que Zeus lhe apareceu.

- Que é feito de si, meu amigo!?, perguntou Hipólito, satisfeito, enquanto se endireitava na cadeira e lhe oferecia o "ottoman". – Há meses que não sei nada de vós! Como é que se dão pelo vosso novo planeta?
Zeus sorriu. Já não se vestia à antiga, com o quiton branco. Agora usava calças e uma jaqueta em couro duro, azul-cobalto de tons iridescentes, qual exosqueleto de um insecto, que em nada lhe limitava os movimentos. Na mão mantinha o raio azul e na cabeça os longos cabelos e a barba não escondiam quem ele era.
- Estamos todos bem e activos!, respondeu. –Deixámos de ser deuses de uma só espécie e agora somos deuses de todos os seres vivos daquele planeta. É curioso como aquilo que parecia ser uma carga de trabalhos, nos deu tranquilidade. Já não temos só a forma humana. Agora, ao aproximarmo-nos das diferentes formas de vida, assumimos as suas configurações e tentamos entender-lhes as angústias e expectativas, para as ajudar a aceitar limitações e assim não serem vítimas dos seus desejos. Olhe! O Dionísio, que era Deus do vinho e da vegetação, agora virou entomologista e passa a vida à volta das abelhas e das formigas. Qualquer dia até se esquece do que são uvas. O Eros, de Deus do Amor e do Desejo, agora, interessa-se por harmonizar os movimentos dos asteróides para que as colisões não sejam só obra do Acaso, e o Ares deixou as guerras e agora dedica-se ao jornalismo. Está entusiasmadíssimo com a capacidade de criar movimentos populacionais com as notícias, sejam elas verdadeiras ou falsas. Diverte-se imenso. No outro dia noticiou lá o “Calcitrin MD Rapid” como um medicamento “muito bom para os ossos”, esquecendo-se que aqueles seres têm por base o silício e não o carbono. Muito nos rimos! … Está um “bem-disposto”! Mas a maior parte das notícias que cria, são mais dirigidas a fabricar futuros que a registar o passado. Tem tido imenso sucesso! Agora anda a dedicar-se à necrologia. Sempre que morre um ser vivo, ele inventa-lhe um passado cheio de dignidades, que possa servir de inspiração aos outros seres da sua espécie, para estimular vidas consonantes com os outros seres daquele planeta. Qualquer dia perdem a angústia com a morte e deixam de se virar para nós!, sorriu, enquanto dava um jeito aos cabelos que lhe caíam para a frente dos olhos.

- Pelo que contas, não vejo que estejam a perspectivar um regresso à Terra!, perguntou, como quem afirma, o médico.
Zeus levantou-se, passeou um pouco pela sala, como a admirar os bibelots que repousavam sobre os móveis e continuou, ignorando a interrupção.
- Até a minha mulher está diferente. Ela tinha obsessão por tudo o que se relacionava com sexo. Se eu saísse para fora do seu olhar, ficava inquieta. Tinha uns ciúmes de morte! Naquele planeta fomos obrigados a rever o nosso conceito de “individualidade”, pois o seu sistema combate os extremos, impedindo, em todas as espécies, os muito ricos e os muito pobres, sem contudo impedir que cada um se possa realizar de acordo com as suas potencialidades. Até as grandes árvores têm de deixar passar a luz para que as mais pequenas possam crescer e, se já forem muitas a ocupar um espaço escasso, têm de aceitar não produzir mais sementes.
O Acaso é o único que pode fazer o que quiser, porque é de “outro campeonato”! Naquele planeta é ele o responsável pelos acidentes, dos domésticos aos provocados pela actividade tectónica (tsunamis, terramotos e vulcões). O Hefesto teve de se conformar e, agora, dedica-se à microbiologia. O seu maior trabalho é convencer as bactérias mais patogénicas a só atacarem quando os seres vivos morrem, por velhice ou por obra do Acaso.

- Interessante!, confirmou o médico. – Sinto no teu falar grande satisfação com o que ali encontraste. Parece ser tudo muito “cool”! Mas está-me aqui a parecer que, se a coisa se passar sempre como descreves, daqui a uns anos, vais achar esse planeta muito parado e vais ter saudades da Terra onde estão sempre a acontecer coisas novas. A não ser que o Acaso não durma e faça a vida negra a todos os seres vivos!
- Para já está a ser bom! É como nos Hotéis “cinco estrelas”. O horário de trabalho é de vinte horas por semana e mesmo assim o maior problema é o desemprego. É necessário inventar muitos factos para os manter entretidos a conversar uns com os outros, mas nisso o Ares tem-se mostrado um Às!
Olha, Hipólito! Vou ter que voltar. O Dionísio não está a conseguir fazer com que a lagarta mineira deixe de atacar os citrinos, e ele não frequentou o curso de aplicação de produtos fitofarmacêuticos. Vou ter de o ajudar. Fica bem!
- Até uma próxima!, respondeu o médico. – E volta sempre! Dá os meus cumprimentos a toda essa malta olímpica e um abraço especial à tua mulher, que é uma santa, que mais não seja por te aturar!

E, dito isto, Hipólito acordou com a sensação de estar envolto numa nuvem com um leve cheiro a enxofre. Esfregou os olhos e olhou para o relógio. Eram quase sete da tarde e a mulher ainda não tinha chegado.

sábado, 8 de outubro de 2016

Lembranças do Olimpo (20)


Hipólito andou ao longo da orla do mar, subiu as dunas, depois uns rochedos e meteu-se pela veiga até à povoação mais próxima. Uma boa hora e meia com passo estugado.
Levara na cabeça um Panamá fino, que o protegia daquele forte sol de Setembro, mas esquecera a água e, no fim do caminho, a sede obstinava-o para uma qualquer fonte ou Café onde a pudesse satisfazer.
A terriola parecia deserta e, não fora o ruído de um prato a partir-se, passaria pela tasca sem reparar que estava aberta.

Entrou na semi-obscuridade da sala. A mobília de madeira maciça lembrava os anos cinquenta do século passado. Não havia moscas e o ar era fresco e isso reconfortou-o. Atrás do balcão o tasqueiro vociferava enquanto apanhava os cacos do chão.
- Bons dias!, disse o médico. - Está aberto?
- Bons dias!, respondeu o homem, ainda de pá na mão. – Pode entrar! Desculpe este meu praguejar. mas de há um mês para cá acontecem coisas estranhas nesta casa! Lamentou-se enquanto despejava o lixo no caixote. - Olhe que hoje já me caíram da parede três pratos, e sem ninguém lhes tocar, nem passar uma corrente de ar! Ontem dei com a torneira da cerveja de pressão aberta e foi-se um barril que tinha aberto momentos antes!
Hipólito sorriu e tentou amenizar-lhe a irritação. -Tenha calma que há dias assim! Andamos preocupados com qualquer coisa e nem reparamos no que fazemos! Se ainda há cerveja que tenha sobrado, podia arranjar-me uma caneca, por favor!, pediu o médico. - Está um calor que lembra Julho! Se não encontrava aqui este oásis, creio que caía na próxima valeta!, exagerou.

O vendeiro acercou-se do balcão, serviu-lhe um pratinho de tremoços e a bebida, que médico despachou de um trago.
- Está um calor infernal! Qualquer dia o deserto do Sahara entra pela península ibérica e vamos ter de andar de camelo e beber chá de menta!, gracejou.
Depois de um Ahh reconfortante, Hipólito pediu outra caneca, pegou num tremoço e anotou: - Vejo que aqui se mantêm os hábitos antigos de adivinhar a vontade do cliente!
- É regra desta casa pôr sempre um petisco para picar, quando se serve uma bebida. Uma orelha de porco de coentrada, um polvo à galega, umas favas com chouriço, umas fatias de queijo ... qualquer coisa bem apurada, mas, neste último mês, como lhe disse, temos andado às voltas com uma série de acidentes, e só temos tido tempo para tremoços, azeitonas e favas secas! A minha mulher até diz que temos a casa assombrada!

Hipólito dispôs-se à conversa e o taberneiro prosseguiu:
- Ele são ruídos estranhos à noite, ferramentas que desaparecem de um local para aparecerem dias depois onde menos se espera, portas que batem sem ninguém estar por perto e tudo isto desde que a minha irmã, que ficou viúva, veio morar connosco. A gente até brinca com ela, mas lá que coincidiu, isso ninguém pode negar!
- E no meio dessas contrariedades, aconteceu alguma que fosse um grande mal?, insistiu o médico, que de repente assumira o caso como se fosse um detective.
- Coisa grave, … que me lembre, não aconteceu. Mas têm sido tantas fora do normal, que até parece bruxedo!, respondeu o homem, com uma vaga esperança numa solução.

O médico levantou-se para se certificar que os pratos pendurados na parede estavam bem fixados e que os que tinham caído tinham o mesmo tipo de suporte. Depois, voltou ao balcão, bebeu dois goles de cerveja e atreveu-se a mais uma pergunta. - Desculpe a minha curiosidade, mas sinto que talvez possa ajudar a descobrir o que o atormenta. Onde residia a sua irmã antes de vir para cá?
O tasqueiro, levantou o olhar, surpreendido: - Vivia em Vimioso, em Trás-os-Montes! O que é que pensa que poderá estar por detrás disto?
O médico, pegou-lhe no braço e convidou-o a sentar-se na mesa mais próxima, não fosse a estranheza da notícia causar-lhe uma sulipampa. Depois, pôs o seu melhor ar de entendido e disse-lhe, do mesmo modo como daria a notícia de uma doença não fatal, mas a merecer grandes cuidados.
- Tudo aparenta de que se trate de um trasgo que tenha seguido a sua irmã. Não se preocupe que não vai passar disto, desde que não dê sinal de estar irritado. Se o tolerar, passado um tempo, ele vai para outra casa, provocar outro.

- É capaz de ser isso!, confirmou o pobre homem. - A minha mulher numa destas noites de lua cheia, quando veio cá abaixo ao estabelecimento, por causa de um ruído, pareceu-lhe ter visto qualquer coisa, como um rato vermelho, a esconder-se por detrás do balcão!
- Então é quase certo! Eles vestem-se de vermelho e usam um gorro de bico na cabeça. Se o tivesse visto coxear da perna direita, tínhamos a confirmação. Eles vivem mais para o interior do país, mas muitas vezes seguem as pessoas de lá, nas suas deslocações. Só querem divertir-se!
Há uns anos tive um lá em casa. Escondia as chaves do carro, fazia desaparecer uma meia de cada par, comia as sobras dos bolos do frigorífico e punha nódoas na roupa lavada. Deve-me ter perseguido num dia em fui com o meu neto ver um arco-íris. Como deve saber, eles fabricam uma substância parecida com o ouro, que colocam no pote que está no fim do arco e que desaparece quando a gente se aproxima. Ficou uns dois meses connosco, mas como a minha casa tem muita luz e eles preferem sótãos e adegas, foi-se embora!
No seu caso, como o seu estabelecimento é pouco iluminado, se quiser ver-se livre dele mais depressa, tem de o desafiar a fazer uma tarefa impossível, como trazer uma cesta de água do mar, clarear uma ovelha negra ou outra coisa do género. Como ele acha que sabe fazer tudo, vai ficar exausto a tentá-lo. Então fica com o orgulho ferido, sai e não volta. 

- Obrigado pela informação! Bendita a hora em que entrou na minha casa! Já me tinha esquecido da existência desses seres. Quer mais um fino ou prefere uma sande de presunto?. O taberneiro estava visivelmente satisfeito. Pelo menos já sabia que se não tinha que se preocupar e que se mostrasse irritação a coisa iria de mal a pior.

O médico agradeceu, aceitou uma garrafa de água para o regresso e despediu-se. Depois, meteu-se pela estrada, a pensar se não haveria zanganitos destes na política. Aquela candidatura de última hora de Kristina Georgieva a Secretário-Geral das Nações Unidas e a de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, tinham características que lembravam as suas traquinices …

sábado, 1 de outubro de 2016

Lembranças do Olimpo (19)


Hipólito teve uma noite descansada e acordou já o sol ia alto. Nada como ser domingo e não ter preocupações com missas ou qualquer outro evento social a cumprir, pensou. Gostava da comunidade onde residia, mas encontrá-la numa missa era um preço demasiado alto. O padre era um sujeito imbuído de uma mentalidade tacanha, um crente em que as sociedades só têm um modo de se organizar, o seu, incapaz de qualquer gesto de humor em público, daqueles que repete à exaustão "Graças a Deus muitas, Graças com Deus nenhumas!".
Tivera a má experiência de o ouvir em três funerais a repetir "ad nauseam" a mesma fórmula, sem anotar a mínima particularidade daqueles seres que definitivamente nos deixavam, e saiu revoltado.
Não entendia que alguém pudesse subir a um púlpito sem ser capaz de um elogio fúnebre. Da primeira vez ouvira-o na missa de corpo presente da mãe de um amigo seu. Uma analfabeta que ficara viúva ainda jovem e que conseguira dar um curso superior aos três filhos. Da segunda, vira-o chegar atrasado e "despachar" o morto em menos de três penadas e da terceira, agrupara numa cerimónia, missas por um montão de falecidos e um baptizado.
Também as histórias que contava, dos martírios dos Santos primordiais pareciam-lhe ficções da Marvel e, lembravam-lhe as dos fanáticos religiosos do Islão actual, à espera que uma qualquer surata lhes dê acesso a um Paraíso do tipo “Club Med”.

Depois deste pensamentos, foi ao quarto de banho e olhou-se ao espelho.
- Estás a ficar sábio de mais!, disse à sua imagem. - Já não consegues achar graça à incoerência humana!
Depois, lavou cara e reconsiderou: - Deixa-te dessas merdas, que "p´rá frente é que é o caminho!", mesmo que duvides do lado para que estás virado!
Ajeitou o pijama, preparou os sucos para o pequeno-almoço e quando passou pelo Nkisi e lhe deu os bons-dias, lembrou-se da pergunta que ficara pendente da noite anterior.

O Nkisi, que devia estar já à sua espera, respondeu prontamente.
- Bom dia! Gostava de te ajudar, mas sou um espírito que anda com os pés na terra. Ainda por cima, sempre por África. São os meus anos que me dão vantagem, por já ter visto muita injustiça e montes de boa gente a morrer por más causas. Os meus poderes são limitados. Ajudo com conselhos, mas sem aquela magia dos milagres, com que todo o ser humano parece estar a contar!

- Obrigado!, respondeu o médico. - Hoje a minha mulher foi trabalhar e estou sozinho em casa. Era uma óptima oportunidade para vires comigo e falarmos. Eu ando a ler umas coisas sobre a expansão do Homo sapiens por este planeta, e gostava de tirar umas dúvidas contigo. Como foi em África que ele nasceu, tu, por certo, sabes histórias da sua actividade primordial.

O Nkisi, como que ganhou um brilho diferente. Há anos que ninguém se dispunha a ouvi-lo sobre um assunto tão vasto e, o facto do médico se dispor a dar-lhe ouvidos, envaidecia-o.
- Como tens tempo, vou explicar-te. Não sei se sabes, mas os primatas raramente formam grupos com mais de 50 elementos e os primeiros humanos a que vocês chamam de Homo erectus, neanderthalensis, habilis, … estavam limitados a grupos em que todos se conheciam e, nessa circunstância não conseguiam ultrapassar os 150. Foi com o aparecimento dos mitos religiosos que foi possível ao Homo sapiens fazer com que cada vez mais indivíduos colaborassem no mesmo objectivo e começassem a dizimar as outras espécies.
Como todas as religiões colocaram o Homem como figura central, deram-lhe a oportunidade de ser vítima dos seus desejos.

- É um facto!, retorquiu o médico. – O homem convenceu-se de que era o único ser vivo portador de alma, mesmo que pareça que anda muito desalmado por aí!
O Nkisi concordou. - E não é por se ser rico ou ter um curso universitário!, continuou. - Há que ter respeito pelas outras formas de vida, pelas pedras, pelos rios e pelos mares. São os desalmados que há 30.000 anos andam a dar cabo da Terra. Antes de se ter inventado a roda já eles tinham acabado com mais de metade dos mamíferos terrestres com mais de 50 quilos.
Temo que os deuses tenham decidido pôr cobro aos seus desmandos!

Hipólito, sentiu a ameaça como real e perguntou assustado. - Mas se o executarem, vai tudo a eito, como fizeram os cruzados à população de Béziers em 1209, ou os que têm alma ficam para ocupar o espaço que sempre lhes foi devido?
- Lá isso, não sei! O mais provável é haver quem se safe!, respondeu o espírito.
– E será que eles esperam por 2030, para dar tempo a que a NASA chegue a Marte, ou achas que catorze anos é muito tempo!, insistiu Hipólito. – E se alguém influente no Vaticano, no Islão na administração Obama, na China, na Índia ou na Rússia, der uns passos no caminho certo e a Economia deixar de necessitar do crescimento que os actuais economistas desejam? Será que eles suspendem essa reprimenda?

- Não estou a par da política mundial para te responder!, admitiu o Nkisi. - Mas nestas coisas, um bater de asas de uma borboleta é muito importante!. E depois para lhe amenizar o dia, continuou: -Mas vejo que já acabaste a refeição. O melhor é arrumares-te e ires dar uma volta que, se não deixas de pensar nisso, ainda dás em doido! Para mais, depois de teres passado uma semana sem apanhares sol na moleirinha! O que for, se verá! E não é por muito madrugar, que amanhece mais cedo! Vês como também sei uns provérbios!

Hipólito, subiu com a estatueta, colocou-a no seu sítio e obedeceu-lhe. Minutos depois estava na praia a dar pontapés nas algas, que também é para isso que todas as semanas há domingos .

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Lembranças do Olimpo (18)



Hipólito saíra da Urgência às 20:00h, quando o céu do fim da tarde se tingia de vermelho e o sol se apagava no mar. Rumou em direcção à praia e estacionou virado para a linha do horizonte, enquanto pensava nos porquês daquela cor.
Partículas em suspensão no ar? A última cor visível do espectro da luz? Ou sangue subindo aos céus proveniente de algum ritual pagão nos confins da Terra?

Confabulava. Tivesse pensado que o céu estava tingido de encarnado e a associação de ideias, por certo, seria diferente (em Lisboa, os nobres do Império dizem encarnado e a plebe diz vermelho, e vermelhos são os comunistas e encarnados os adeptos do Benfica).

Encarnado trar-lhe-ia à mente, não sangue, mas carne e o mais provável seria o tê-la associado a um qualquer acidente explosivo que esfacelasse completamente um indivíduo, como os homens-bomba no Próximo Oriente ou um choque de lixo espacial à deriva com o corpo de um cosmonauta em passeio fora da sua Estação Espacial ou quiçá, com um deus “encarnado” em humano.
Na Grécia antiga não havia restos de satélite na órbita do nosso planeta e os seus deuses não tinham problemas desta índole, bem como Nossa Senhora ou Jesus que subiram aos Céus em corpo, talvez para evitarem as profanações. Agora, se passarem perto da Terra, têm de ter cuidado. Talvez por causa disso “sepultaram” o Bin Laden no mar Arábico em vez de o enviar para a estratosfera. Ficou mais barato e evitaram-se colisões.

Depois, lembrou-se que conhecera um José da Encarnação na Escola Primária, que fora colega de turma de uma Maria da Encarnação no 3º ano do Liceu, e que, no Norte do país, nunca encontrara Encarnações, onde as mulheres antigas são Agonias e Dores ou quando muito Ascenções.

Aquele "vermelho de sangue", embora só prenunciasse um dia seguinte quente e sem nuvens, permitia-lhe conjurar que podia haver quem o julgasse resultante de um ritual religioso, daqueles em que se tira a vida a um ser para agradecer ou pedir um favor pois, desde tempos imemoriais, que o sangue das vítimas agrada aos deuses, seja o de um bode expiatório, de um inimigo ou o de um qualquer paisano que o acaso pôs no caminho de um sacerdote disposto a redimir os erros de um grupo, com a vida alheia.
À cota onde o sol se estava a pôr, podia ser um Maya fundamentalista, de Cancun ou de Kukulcán, a tentar aplacar algum dos novos deuses dos “Mercados” ou do FMI. Vá-se lá saber o que anda na cabeça de quem crê que o Além influencia o que se passa neste Mundo!

Estes pensamentos distraíam-no. Fizera-se noite e o estômago pedia um regresso a casa. No caminho estranhou que os Gregos não tivessem inventado um Deus para o dinheiro com atributos que obrigassem os crentes a resguardar-se do seu poder. Se o tivessem feito, talvez o caminho da História fosse diferente e os sacrifícios não fossem com sangue dos outros, mas com a riqueza do próprio e então, o pôr-do-sol seria dourado, prateado ou esverdeado se lhe abundassem as notas de 100 Euros.

Chegara a casa. O cão fez-lhe a festa do costume, o gato enrolou-se-lhe nos pés e a companheira estranhou o atraso. Nas notícias da TV viu os destroços de casas e gente a correr com crianças nos braços. Os gritos de Allahu Akbar lembraram-lhe as guerras entre portugueses e castelhanos, uns gritando por S. Jorge e outros por Santiago, enquanto se atiravam encarniçadamente uns sobre os outros. Nessa altura o Deus cristão devia estar tão baralhado como Allah está nos tempos que correm.

Jantou automaticamente sem notar que o cozinhado tinha cuidados “gourmet” e subiu ao quarto para lavar os dentes, quando, ao passar pelo Nkisi lhe decidiu perguntar se na terra dos Bakongos, também faziam distinção entre vermelho e encarnado.

A imagem respondeu-lhe, no mesmo tom ciciado, que não tinham grandes diferenciações das cores, mas que tinha ouvido, há minutos, que os pretos não querem que lhes chamem negros e não percebia o porquê.

Hipólito pasmou com a rapidez com que o Nkisi se tinha apercebido das nuances que o racismo pode ter na linguagem, e aproveitou para o pôr a par.
- Sabes a palavra “negro”, no mundo ocidental tem uma conotação desgraçada. É que negro também quer dizer infeliz, maldito. É a ovelha negra, o dia negro, a lista negra, o mercado negro, a peste negra, o buraco negro, a fome negra, o humor negro, o passado negro, futuro negro e por aí fora. Tudo o que é negro está relacionado com coisas negativas. Quando se quer valorizar não se diz negro. Diz-se preto. Come-se feijão preto, compra-se um carro preto, toma-se café preto e quando se ganha a lotaria ganha-se uma nota preta. Percebes?

- Percebo!, respondeu o espírito. - Podem ser mensagens subliminares, mas por certo que são eficazes. Depois é o medo que o “outro” possa trazer valores que ponham em causa os nossos, muitas vezes sem ter feito o mínimo esforço para o conhecer. É curioso como o homem confia tanto nos seus olhos!
- É um facto!, respondeu o médico. - Desde o século XVI que a Europa trata a África muito mal. Não só escravizou grande parte da sua população, como também destruiu a sua História e coesão social.

O Nkisi permaneceu calado. O médico pensou que ele estava a integrar estas informações e afastou-se sem lhe falar das quarenta e nove tonalidades de vermelho e das cinquenta de preto que a indústria das tintas cataloga. Despediu-se com um “Boa Noite!” e só depois se lembrou de que lhe queria perguntar se ele seria capaz de contactar com os deuses do Olimpo que se tinham deslocalizado. 
Mas não voltou atrás. Disse para consigo: "O que se não faz no dia de Santa Luzia, faz-se noutro dia!", e continuou. ... "Para alguma coisa hão-de servir os provérbios!".

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Lembranças do Olimpo (17)


Fora em Março que os deuses gregos lhe deram o último sinal de presença. Desde então passara duas ou três vezes pelo Lar, à procura de um qualquer movimento que o levasse a bater à porta, mas encontrara-a sempre fechada, as persianas corridas, nada de fumo na chaminé e o mato a tomar conta do jardim.
Malgrado a sua não fiabilidade, sentia saudades deles. Ainda que andassem desmotivados, mantinham-se dinâmicos. Um levava diariamente o carro do Sol através do imenso espaço, outro activava vulcões, outro tempestades e acorriam prontos onde acontecesse desgraça, na procura de almas para reciclar no Hades. De vez em quando, se queriam pôr à prova a soberba de alguém, vestiam-se de andrajos e pediam-lhe uma esmola ou então, se havia necessidade de ajudar na natalidade, engravidavam mulheres para que dessem à luz futuros heróis. Eram origem para os centos de histórias que estimulavam as mentes dos crentes a perseguir objectivos que os pudessem transcender e, nesse acto, desenvolviam as sociedades que os acolhiam.

Hipólito andava numa fase má, céptico da política nacional e internacional, com o sentimento de que muitas lideranças estavam entregues a atrevidos que utilizavam o Estado como trampolim para lugares de topo nos grandes negócios internacionais. Depois também não via solução para os conflitos, de ontem, de hoje e para os que se perspectivavam, por mais que os comentadores os tentassem explicar e os religiosos os lamentassem, porque as crenças no seu cerne, têm séculos, sem nada mais as valide que uma “Fé” construída em cima de “verdades irreais”, que só aquele grupo aceita, sejam elas a “Santíssima Trindade”, a revelação da “última palavra” de Alá a Maomé, ou as actividades do sem número de espíritos que pululam no Hinduísmo.

Para ele, a coexistência pacífica de várias religiões no mesmo espaço, era uma utopia, principalmente quando elas reclamam normas jurídicas e governativas. Os católicos tinham a vantagem da experiência da Inquisição e, pelo menos em teoria, entregavam a César o que é de César.

Nessa tarde fora ao Porto ver a ruína da casa onde nascera e o andamento da reabilitação do Centro Histórico da cidade. Estacionou o carro no Silo-Auto, foi pela Rua de Santa Catarina até à Batalha, desceu a Rua de Santo António, bebeu um fino na Cervejaria Sá Reis e subia a Rua do Almada quando, quase ao chegar à Praça da República, uma montra com arte africana o fez parar. Há anos que pensava numa peça para pôr em cima de um aparador, ao pé de uma pequena caixa de pau preto que um tio lhe dera de prenda de casamento e uma máscara daquelas, talvez desse continuidade ao quadro que lhe estava próximo, e que ele entendia como uma representação do Santo Graal.
No amontoado de figuras que cobria o chão, não encontrou o que procurava e foi quase à saída que o gerente, natural do Mali, na perspectiva de um não negócio, foi ao fundo de um baú retirar uma estatueta que o encantou. Era de uma madeira escura e não teria mais que trinta centímetros de altura. Representava um homem com os pés assentes numa tartaruga e um comprido gorro de tecido canelado a cobrir-lhe a crânio. Tinha às costas um grande cesto de vime, onde uns pequenos objectos chocalhavam. Mordia um pau, que segurava com ambas as mãos.
Era aquilo. Perguntou o que representava e ouviu a resposta num português “macarrónico” que ele continha o espírito de um poderoso falecido, que poderia ser usado pelos vivos para combater doenças ou pessoas que nos querem mal.
- Ora nem mais! É disto mesmo que eu preciso!, disse ao pagar, desvalorizando-lhe os supostos atributos. Desejou sorte para o negócio, paz para o Mali e despediu-se do Keita, que insistia em lhe vender um bronze do Benim.

Chegado a casa, com a mulher, reorganizou o recanto. Parecia que a estatueta fora feita para ali. Depois, jantou, leu um artigo médico numa das revistas que regularmente lhe chegavam a casa e, quando ia para o quarto descansar, junto ao aparador, ouviu um sussurro que lhe pareceu um “obrigado”. Incrédulo, pegou na imagem, como a medi-la, quando uma voz do seu interior lhe disse: - Fica calmo! Já vi que não sabes quem eu sou!
Hipólito, deu um passo atrás, e desceu as escadas em direcção à garagem, para que a conversa pudesse continuar sem interferências, enquanto lhe ciciava: - Espera um pouco. A minha mulher não vai gostar de saber que tu falas! Se queres ficar connosco, é melhor resguardares-te!
Chegados, o médico sentou-se ao volante do automóvel, pousou a estatueta em cima do tablier e, após um suspiro, continuou: - Agora podes falar! Mas sê breve que, se me demoro, ela desce a procurar-me!
A imagem fez com que a sua voz saísse pelos altifalantes do rádio:
- Antes de mais, queria reforçar o meu agradecimento por me teres tirado daquele lugar. Estive embrulhado montes de tempo e já estava a recear nunca mais ver um ser humano. Sou um Nkisi e, se assim o entenderes, posso cuidar do teu equilíbrio físico, energético e emocional. Estou ao teu inteiro dispor!

- Um Nkisi? Perguntou o médico. – Eu conheço o Nkisi Nkondi, mas tu não és nada parecido com ele. Ele tem o corpo coberto de pregos e lâminas.
- Esse é um primo meu, que é doutorado. Para onde vai, leva o currículo. Cada prego ou lâmina corresponde à resolução de uma disputa ou de uma vingança. Eu dedico-me a doenças mentais e a problemas sociais. Sou um Nkisi Luganbe.
- E não achas que os teus poderes estão circunscritos à África ... “profunda”?
- Nunca experimentei aqui na Europa, com os autóctones, mas creio conseguir contactar com os teus antepassados. Para além disso, transporto no cesto, garras de águia capazes de darem castigo aos malfeitores e de tratar doenças malignas.
- Ok! Retorquiu Hipólito. – No fundo, o que me estás a propor, é seres o meu Anjo da Guarda?
- Não sei bem o que fazem esses anjos, mas eu posso defender-te de quem te quiser fazer mal e pôr-te no caminho dos teus antepassados.

O médico não o queria desconsiderar. O espírito estava manifestamente desactualizado. Devia ter passado mais de cinquenta anos no fundo do baú. Pegou na imagem, colocou-a com bonomia sobre os joelhos e disse-lhe: - Não deves estar a par do salto exponencial que a ciência deu nos últimos tempos. Aqui no Ocidente, o modo como se vive alterou-se muito. A globalização levou à formação de grandes Multinacionais em todas as áreas, na indústria, no comércio, nos serviços e na religião. E a tendência é para aumentarem. Actualmente, em Portugal, estão a tomar conta do Serviço Nacional de Saúde, mas há muito que os Hipermercados rebentaram com os merceeiros e que o Vaticano domina o pensamento religioso.
O vosso Animismo ao imaginar forças divinas na natureza, numa árvore, numa gruta ou num qualquer recanto, não cumpre os objectivos do "Mercado". A Economia precisa que se façam muitos edifícios e de grande valor, que o diga o pai do Bin Laden que se tornou o segundo homem mais rico da Arábia Saudita, a construir mesquitas. Isto sem falar das peregrinações e do turismo religioso que estão em alta. O vosso mundo de agora está no folclore e nos museus etnográficos.

O espírito, após uma pausa, respondeu ressentido: - Pelos vistos dispensas os meus favores. Mas não te esqueças que é o passado que determina o futuro e que sem o apoio dos ancestrais, ele perde sentido.
- Oh meu caro Nkisi! , respondeu paternalmente o médico. - O passado, não existe! O que existe são versões sobre factos passados. E Ponto Final. O local onde se coloca o observador é determinante para a história que irá contar. Se está do lado de um vencedor escreverá o “passado oficial”, se estiver do lado dos perdedores, o mais certo é ser esquecido ou lembrado como infiel, herético ou takfir ou com qualquer outro epíteto que o desclassifique. Tu começaste a perder no dia em que os primeiros missionários portugueses pisaram o teu território. Depois foi a máquina da globalização a triturar o que não gera riqueza.
- Como tenho estado embrulhado, não tenho essa noção. Pelo que dizes, o mundo está muito mudado, mas “o espírito” de cada um, será que se transformou assim tanto? Será que alguém pode viver bem, onde quer que seja, sem equilíbrio físico, energético e emocional. Ora é isso que eu te propus ... a custo zero!

Hipólito, coçou a cabeça. Aquele espírito era resiliente. Não exigia templos e procurava mostrar a essência espiritual na natureza, para manter um percurso de vida sem sobressaltos. Iniciou o regresso ao quarto com a imagem, com uma proposta: - Não me importo que vivas connosco, mas só deves falar comigo e sem interferir com a actividade desta casa. Se um dia eu precisar de um anjo-da-guarda digo-te! Ok? Até lá observa! Sabes, há quem diga que a vida é um eterno retorno e que o que já foi, voltará na mesma ordem e sequência. Então pode ser que possas ter alguma vantagem. Mas o facto é que te comprei pelo teu aspecto exótico, sem considerar os teus eventuais poderes e gostava que a coisa ficasse por aí.

O Nkisi resignado, respondeu que ficava a aguardar novas ordens. Hipólito pousou-o delicadamente no seu local e despediu-se, pois no dia seguinte esperavam-no dezasseis horas de trabalho no Serviço de Urgência e, apesar de já haver menos turistas na cidade, a afluência mantinha-se acima da média.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Madonna del Ghisallo

Na Europa, mil e quinhentos anos depois do que sobra do Império Romano, a sua cultura persiste.
Os Romanos eram politeístas e abertos a outras religiões. Não tentavam impôr a sua matriz religiosa aos territórios conquistados. Antes perguntavam quais as suas divindades e procuravam as correspondências com os deuses romanos. 
Aconteceu com os Gregos, que os ajudaram a estruturar a sua própria religião, Zeus – Júpiter, Juno – Hera, Poseidon – Neptuno, Ares – Marte, Hermes – Mercúrio. … e por aí fora, e com os Egípcios, Horus – Júpiter, Ísis – Juno, Osíris – Vulcano … .
Mas se não havia correspondência com nenhum dos conhecidos, não havia problema e integravam-no com a função que lhe era atribuída.

Quando o Imperador Constantino, no início do século IV legalizou e apoiou fortemente a cristandade, não tornou o “paganismo” ilegal, pelo que as duas religiões coexistiram durante séculos, com os seus templos e cultos.
O Deus único dos cristãos poderia ser equiparado a Zeus, mas os outros não tinham correspondência, pois os santos eram poucos e sem poderes especiais universalmente reconhecidos e Nossa Senhora ainda não se dispusera às aparições.

Só quando, mais tarde, os santos e Nossa Senhora ganharam funções semelhantes às dos antigos deuses greco-romanos, é que os venceram definitivamente. O S. Roque, para as Epidemias, o S. Brás, para as aflições das gargantas, o S. Albino para as cólicas renais, a Santa Otília para as doenças dos olhos, S. Fiacre para as hemorroides, …  e a Madonna del Ghisallopadroeira dos viajantes desde a Idade Média, sub-especializou-se em ciclismo, em 1949, pela mão do Papa Pio XII.  Desde então na sua capela, acolhe fotos, bicicletas, camisolas e outros objectos que foram pertença de muitas das figuras míticas do ciclismo europeu, de Marco Pantani (o Pirata) a Eddy Merckx.




-Allez! Allez! Allez!!!!!!!!

segunda-feira, 28 de março de 2016

Lar Lembranças do Olimpo (16)



Despediram-se. Hipólito, iniciou a viagem de regresso a pensar na volatilidade do Universo, onde até os deuses têm de lutar, temerosos que as outras religiões lhes ganhem o espaço conquistado, palmo a palmo, durante séculos.
A pequena quota que estes, mesmo retirados, ainda mantinham, mais para combater o ócio que para influenciar o curso da história humana, em vez de os ter tornado complacentes, dificultava-lhes o progresso.
Pareciam ignorar que as suas histórias já não tinham credibilidade e que só convenciam crianças e os pobres de espírito.

Hipólito chegou a casa mais cansado que o habitual, com um pressentimento de que algo importante procurava oportunidade para se revelar. Talvez o lobby dos deuses desiludidos, tivesse ganho e já todos estivessem de mudança para aquele planeta de seres vermelhos, à base de silício, que tanto tinha encantado Hera.
Passou em revista as notícias, ouviu pela enésima vez o Marcelo a explicar a triangulação da esfera, e saiu para esticar as pernas, aproveitando a folga daquela tarde.

Meteu pela Rua da Constituição em direcção ao Marquês, entrou na Rua da Alegria, cumprimentou as prostitutas na esquina e foi por ali fora, quando se apercebeu que a luminosidade diminuíra e que, de repente, se estabelecera noite cerrada. 
Olhou em redor. Nas ruas perpendiculares, passavam faróis dos automóveis, como se o dia tivesse encolhido doze horas. Depois, sentiu um cheiro a enxofre e viu surgir, do nada, um vulto de grandes asas negras a barrar-lhe o caminho.

Hipólito estacou ao reconhecê-lo. Era Tártaro.
- Boa noite!, disse, simulando a calma de quem não teme a morte. O deus do submundo sentou-se em cima do marco do correio, como a dispor-se para uma longa conversa.
- É a terceira vez que nos encontramos!, disse. – Na última avisei-te, para não interferires com a minha actividade, e tu, nem um mês depois, pões-te a tentar tirar o Sísifo da minha jurisdição. Quem é que pensas que és?

Hipólito, olhou-o, com a sensação de que qualquer que fosse a sua resposta, iria despertar uma reacção fora do seu controle. Perdido por cem ou por mil, jogou a cartada.
- Carísssimo! Como sabe, sou médico, discípulo de Esculápio, e, basta-me essa razão para reter, o mais tempo possível, os mortais neste mundo. Quando soube que o Sísifo voltara ao mundo dos vivos, senti-me na obrigação de lhe dar apoio, principalmente por saber o que o esperava, se fosse apanhado.
- Estou a ver!, disse Tártaro. – És daqueles que não mede as consequências antes de se aventurar. Como médico, podes usar poções e intervenções que alterem a evolução das doenças, mas a tua jurisdição sobre a vida acaba aí. No resto és igual a todos os outros! Devias conhecer as razões porque Zeus matou Esculápio!

Hipólito, que olhava para cima, numa posição de clara inferioridade, respondeu: - Desculpe mas, se não desce daí,  terei de subir para o tejadilho deste automóvel, para conversarmos. Tenho uma hérnia cervical que se agrava quando estou muito tempo com hiperextensão do pescoço.
Tártaro desceu e sentou-se no guarda-lamas do carro estacionado e Hipólito subiu para a soleira de uma porta para o poder olhar de frente.

- Obrigado! É mais fácil entendermo-nos quando estamos confortáveis!, e continuou: - A minha conversa com Zeus visou pô-lo a par dos conceitos que actualmente obrigam os carcereiros no mundo ocidental, para que ele os considerasse numa eventual reformulação das penas. Há mais mundo para além das punições e há malta que teve comportamentos nada recomendáveis na juventude e que na idade adulta foi fonte de inovação de que muitos beneficiaram. Pelo contrário, há para aí uns mongas de “low profile” que chegam a velhos sem nunca terem contribuído para o bem comum.
Quanto a Sísifo, penso que ele podia ter sido reabilitado, se vocês se tivessem modernizado!

Tártaro ouvira-o com enfado e demorou a resposta, como a ponderar a utilidade daquele diálogo. Depois, talvez por ter encontrado as palavras que julgava certas, levantou-se e respondeu:
- Talvez eu esteja aqui a perder tempo, mas como não quero chatices com Zeus, vou dar-te uma oportunidade!
Deu meia dúzia de passos e voltou a sentar-se, para continuar.
- Olha para as catedrais. São formadas por múltiplas pedras mais ou menos trabalhadas, encaixadas umas nas outras ou unidas por um cimento. No conjunto fazem um edifício harmonioso onde as pessoas encontram um ambiente propício à reflexão. Agora pensa a religião não como um edifício físico, mas como uma estrutura muito maior, feita de conceitos uns mais trabalhados que outros, onde cabem muitas mais pessoas que se regem por essas referências para uma vida em comum.
Como não estão todas no mesmo patamar de pensamento abstracto, os conceitos da sua base têm de ser abrangentes e eternos. Sísifo, é uma ficção com fundamento real, que utilizamos para marcar bem que há princípios a que se não pode desobedecer. Não te preocupes que ele passa muito tempo no Hades. Zeus só o queria apanhar porque ele não saiu pelo Lethes e assim a sua alma não ia começar do zero, dentro de uma família que lhe garantisse a sobrevivência. O resto era show off. A história que se conta é fundamental para que vocês tenham referências.
- Eu entendo isso!, respondeu o médico. – Mas também vos quero dizer que, se vocês se não actualizam rapidamente, não terão hipóteses!
Tártaro continuou: - Não te preocupes com isso. Nós, deuses, também precisamos de descansar e de mudar de ares. Como nos movemos por todo o Universo, alteramos frequentes vezes a Sede.
Olha! Antes de te ter encontrado aqui, estive num Concílio onde se decidiu a nossa deslocalização! Por isso, se queres ajudar alguém, é melhor virares-te para os cristãos. Esses estão a ver o tapete a fugir-lhe debaixo dos pés. E não é o Islão que os vai destronar. São os Secularistas! Nós vamos fechar a porta, mas levamos a chave! É por isso que tem de ficar tudo como está! Percebes porque é que o Sísifo tem de continuar?

- Ok! Então Zeus desistiu da Humanidade!?, espantou-se o médico. -Ainda há pouco estivemos a almoçar e ele não me disse nada!
Tártaro ao sentir o desconforto do médico, tentou pôr água na fervura. - De certo modo, mas com intenções de virmos regularmente à Terra. Só se as coisas se processarem muito melhor que o previsto, é que deixamos de nos preocupar definitivamente convosco e só cá viremos nas férias. O Plano A é mudar só a Sede!
- Já que falou nos Secularistas, posso perguntar-lhe se a luta que antevê entre eles e os Cristãos vai ser tão sangrenta como a que se desenrola com o Islão desde há mil e quatrocentos anos?
Tártaro deu uma gargalhada. - Olha este a querer tirar nabos da púcara!, exclamou. – Só te digo que não há religiões eternas, que toda a mudança é traumática e quem é apanhado na curva de aprendizagem, habitualmente sofre consequências. Mas está descansado, que vais saber muito antes do conflito chegar a Portugal. Aqui chega tudo requentado!

- Se é como diz, só me resta pedir desculpa!, concluiu o médico. – Se as almas que estão eternamente no Inferno são figuras semânticas, já cá não está quem falou! Desejo-vos boa viagem e que nesse outro planeta, para onde agora vão, tenham muita saúde, paz, amor e dinheiro para os gastos.
- Ora isso é que é falar!, anuiu Tártaro. – Até dá vontade de te levar connosco!
- Muito obrigado! Mas tenho afazeres por estes lados e não tenho estrutura para o ambiente para onde vocês vão, nem para a vossa relação com o espaço/tempo. Dê os meus cumprimentos a Zeus e à família, e diga-lhes que escusam de se despedir.  Fico à espera das vossas férias. Até mais ver!

Deram um longo aperto de mão e Hipólito ficou a ver as suas asas negras iridescentes desaparecerem na linha do infinito, iluminadas por um forte sol, que entretanto aparecera.
No fundo aquelas visitas estressantes faziam-lhe subir a tensão arterial.

domingo, 6 de março de 2016

Lar Lembranças do Olimpo (15)



Hipólito dormira mal. Aquele programa para o dia seguinte, pesava-lhe como chumbo. Tinha que achar uma solução para que Sísifo não voltasse para o Tártaro e lá ficar a eternidade às voltas com a pedra, só porque numa altura da vida decidiu tentar enganar um deus.
Tentar ludibriar é prática de todo o humano. Só que não o dizemos assim. Chamamos-lhe “racionalizações” e são fundamentais para a auto-estima. Senão como é que conseguíamos viver com as asneiras, sempre que não resistimos às tentações e a coisa dá para o torto?

O problema estava no mau hábito destes deuses antigos com os castigos corporais, para além de não contarem com o aumento da esperança de vida do homem.
Nesse tempo, aos trinta e cinco anos era-se quase um sénior sem perdão para erros desse teor. Agora, nessa idade, aprende-se o que o excesso de juventude dificulta e muitos ainda andam em mestrados ou em doutoramentos com a ajuda dos pais, sem casa ou família constituída.
Desconhecia a idade com que Sísifo cometera os delitos mas, a julgar pela sua impetuosidade, devia se um adulto jovem.
O castigo deveria ter relação com a necessidade de impor obediência ao mesmo código, para evitar um enfraquecimento face às incursões de invasores que estariam a alterar a relação de forças naquela zona do planeta.
Sísifo arriscara um combate com os deuses sem calcular a pena que o esperava. Contaria que, como todos os mortais, em caso de morte, ir para o Hades esperar uma nova vida. Não deve ter considerado o Tártaro e nunca um trabalho daqueles.
Quem acreditaria que os mesmos deuses que fizeram as paixões curtas, iriam fazer o ódio eterno?
Definitivamente, tinha que o ajudar.

Acordou cedo, arrumou numa mochila umas botas, umas calças grossas, um casaco de couro e um boné e saiu. O dia amanhecera claro e durante a manhã o sol alegrou as janelas mas, pelas onze, surgiram as primeiras nuvens, prenunciando uma tarde chuvosa a dar razão ao dito “Março, marçagão, manhã cara de gente, à tarde focinho de cão!”. Hipólito sorriu pensando na sorte de se não estar a cumprir o seu oposto “Março, marçagão, manhã de inverno, tarde de verão”, pois assim não teria a ideia que agora lhe assomava à cabeça e, sem esperar a hora de saída do hospital, dirigiu-se ao Lar do Olimpo.

Bateu à porta e perguntou à vestal que lha veio abrir.
- Zeus está?, e nem teve tempo de lhe ouvir a resposta, pois Zeus apareceu nas suas costas.
- Entre, entre, meu amigo! Fuja desta chuva! Não contava consigo antes da uma!, estranhou, enquanto o encaminhava para dentro do templo.
- Vim mais cedo. O tempo está muito desagradável. Há previsão de chuva para toda a tarde. O terreno vai ficar difícil e com riscos para a minha integridade física. Não seria melhor adiarmos a procura do Sísifo? Como está a acabar a época da lampreia e eu cumpro todos os anos uma refeição da dita, lembrei-me de almoçarmos fora. Você já a provou de escabeche? Sei de um sítio onde a fazem muito bem!

Zeus coçou os longos cabelos, pesando os prós e os contras:
- Ok! Dr. Hipólito! Nós aqui, habitualmente comemos carne. O meu irmão Posídon é que é dado ao peixe, com medo do colesterol, mas o que o anda a afligir é o reumático. É sempre assim. A gente faz um seguro contra incêndios e calha-nos em sorte uma inundação. Mas concordo! Vamos lá fazer as honras ao bicho! Mas com contas à moda do Porto. Está bem?
- Como queira! Eu tenho o carro lá fora. Vem comigo, ou vai lá ter?
- Se não se importa, vou lá ter. Queria pedir ao Polifemo, que deve estar aí a chegar, para tirar a ferrugem de uns raios que tenho no armazém e encomendar-lhe uns cabritos para a Páscoa . Nós celebramos nessa data a nossa Eos, deusa do amanhecer,  responsável pelo brilho do sol e pelas tonalidades do Céu. Se não se importa, vá indo, que eu chego lá um pouco antes das duas.

Despediram-se. Hipólito, meteu-se pela A28 em direcção a Loivo. Accionou o Bluetooth e chamou “Lau”. Esperou que os toques cessassem e surgisse a voz do lado de lá.
- Sr. Júlio! Daqui é Hipólito. Como está? Você ainda tem lampreia?
- Boa tarde, Dr.!, respondeu ao reconhecer-lhe a voz. – Claro, que tenho Dr.! E fresquinha, de hoje. Vem cá? Quantos são?
- Somos dois! Devemos chegar aí pelas duas menos um quarto. Por favor, guarde-me uma mesa, junto à janela e prima no escabeche!

Choveu toda a viagem. O eucaliptal, marcado pelos incêndios, envolvera-se numa nuvem de grossas gotas que caíam em bátegas sobre o seu automóvel.
Antes assim. Se o tempo mudasse, era quase certo Zeus voltar à carga e lá teria de se meter com ele mato adentro.

Entrou no restaurante a correr, que há muito desistira dos guarda-chuvas, depois de ter desfeito ou perdido uma boa dúzia e meia deles. Sacudiu as calças e foi directo ao balcão principal onde o Sr. Ladislau o esperava.
Saudaram-se, falaram de saúde, que é obrigatório a um médico em qualquer lado dar um conselho, e sentou-se na mesa indicada.
Pegou no cardápio, leu as primeiras linhas e, quando levantou os olhos para ver as horas, deparou-se com Zeus sentado na cadeira em frente.

- Rápido e sem se molhar!, gracejou Hipólito. – Eu, só do carro até aqui, fiquei com as calças todas molhadas! Ainda bem que a chuva não nos apanhou no meio da mata!
Zeus, sorriu. – Como os elementos não me afectam, esqueço-me que vós, mortais, passam a vida em cuidados com o tempo, não vá uma roupa molhada ter de secar no corpo ou um ar mais encanado desandar em pneumonia!

Iniciaram os aperitivos. Zeus, de início torceu o nariz, enquanto lembrava carapaus alimados e umas cavalas à João Sem Medo que comera no Algarve, depois, à medida que o petisco desaparecia e se começou a ver o fundo à garrafa de Alvarinho, foi-se centrando na lampreia, dando pequenos estalos com a língua.
- É diferente! Mas o azeite, aqui, também manda!
- Para prato principal vamos num cabritinho da serra de Arga, para comparar com aqueles que o Polifemo lhe vai trazer.

Zeus estava feliz e Hipólito aproveitou o momento para a pergunta que lhe roera a noite e, com ar descontraído, limpou a boca, e atacou:
- Quanto ao Sísifo! Vocês já pensaram que talvez tenha sido essa vossa incapacidade em pôr um fim a essas penas eternas, que fez a humanidade preferir outros deuses? Repare que no catolicismo, o arrependimento à hora da morte e as missas dos seus familiares, levam muitas almas para o Céu!
- Não diga isso! Só agora é que não falam no Inferno nas homilias, mas eles sempre condenaram "eternamente" como nós!, respondeu o deus. - O Inferno deles é à base de caldeirões e braseiros. Nós somos criativos e contra a normalização das penas. O nosso Ixion está preso à roda em chamas a girar e o Tântalo metido em água, cheio de sede, a que não pode chegar. Mas a variedade é infinita.

- Desculpe insistir, mas como mostrou vontade de lutar por uma maior cota no mercado das almas, não seria melhor rever essas punições eternas, e fazer do vosso Tártaro um lugar de aprendizagem de bons princípios. No fundo, a vida, é uma curta passagem pela Terra, que pouco significa na eternidade de uma alma. Porquê fazer esse tempo tão determinante?
Desculpe-me a ousadia, mas na minha modesta opinião, com alguma formação dos carcereiros, não seria difícil recuperar as almas do Tártaro e coloca-las fiéis aos vossos princípios.
Até os miúdos se habituam a dragões e dinossauros e, com um pouco de marketing, era possível dar graça à Hidra, ao Cerebero, às Fúrias e às Górgonas.
- Talvez tenha razão. Temos um Concílio próximo para definir se ficamos ou se partimos e, no caso de ser o Sim a ganhar, vou pôr esse tema à discussão. Então talvez ponhamos o Sísifo a fazer qualquer coisa de útil.
- Isso seria o mínimo para quem tanto penou!, atreveu-se o médico. - Já merecia que o mandassem para o Hades esperar uma outra vida!
- Não diz mal. Talvez tenha chegado a altura de redefinir o mundo dos mortos. Os Indus usam um esquema que me agrada. Aquela coisa de a vida seguinte ser consequência da anterior, tem lógica. Uma alma que se portasse mal, teria uma próxima encarnação num pária, e a que se portasse bem subiria uns degraus na direcção do Nirvana. Era também um modo do nosso Olimpo se renovar!
Entretanto parara de chover e um pedacito de sol batia nas águas do rio. Dividiram a despesa e, à porta, Zeus olhou o céu e disse:
-Fiquei pesado! Vou necessitar de uma boa sesta! Por agora, deixemos o Sísifo que, com este tempo, sem abrigo, vacinas, dinheiro e amigos, o mais certo é ter morrido. Quando chegar a casa, pergunto se ele deu entrada no Hades! Até à semana!

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Lar Lembranças do Olimpo (14)



O céu estava encoberto, a tarde já ia longa e Zeus dava sinais de querer iniciar, de imediato, a procura de Sísifo, na expectativa de que o médico o acompanhasse.

Hipólito falara sem pensar. A sugestão de procurar Sísifo no antigo convento, tornava-o cúmplice daquele suplício eterno, fora da sua lista de valores. Antes a morte, a castigos deste teor. Teria de adiar a sua procura. Talvez assim conseguisse uma outra solução. Aproximou-se do deus, olhou para o relógio e explicitou-se:
- Zeus! São quase cinco da tarde! Para ir consigo, tinha de ir a casa mudar de roupa e, com isso, a noite cai. E, para atrasar mais uma eventual saída, alongou-se: - Aquilo, embora próximo da cidade, é uma mata de eucaliptos, descurada pelos Serviços Florestais. Podia ser explorada para fins turísticos mas, tirando a zona do parque de Santa Luzia, anexo ao zimbório, é um emaranhado de galhos e folhas. Se um dia o fogo lhe pega, chega à cidade num instante. 

Zeus aceitou a conversa.
- Ok! Fica para amanhã! Vocês vivem tempos esquisitos. Não há quem plante para os filhos, quanto mais para os netos! Os eucaliptos e os pinheiros são as vossas árvores rainhas e as de crescimento lento são abatidas antes de atingirem a maturidade. Esquecem-se que para ter uma árvore com cinco séculos é necessário esperar quinhentos anos!, gracejou.

Hipólito aproveitou a boa onda e atreveu-se:
- Se me permite voltar ao assunto do Sísifo, porque é que aquela punição é assim tão importante para vós? Não vos chegam milhares de anos de suplício?
Zeus olhou-o, como a medir a sua capacidade para entender, convidou-o a sentar-se numa pedra em L que estava num canto da sala e fez aparecer uma mesa com um bule e duas chávenas. 
- Como já deve ter percebido, as religiões necessitam de pequenas histórias para centrar os seus valores, pois é assim que eles se tornam fáceis de memorizar. Sísifo rebelou-se e tentou repetidamente enganar-me. Como queríamos que o conceito da obediência fosse basilar, decidimos puni-lo eternamente. Não era possível uma pena menor.
Escolhemos-lhe aquela tarefa e fizemos com que a cumprisse. O normal seria ele tê-la abandonado, desesperado, ao fim de uma dúzia de tentativas. Aquela opção teve o propósito de marcar bem o absurdo de um fulano que se rebela e quer pensar por sua cabeça, ficar preso a um trabalho repetitivo e sem qualquer utilidade. Mas repare que as lides numa linha de produção têm um cariz muito semelhante.

- Percebi. Eu nunca fui a favor da especialização excessiva. Por isso fui para Medicina Interna. Mas, mesmo nesta especialidade, tenho colegas que derivaram para uma só doença, como se quisessem repisar diariamente os mesmos passos. Agora até são doutores e querem que lhes chamem professores, ... sem terem alunos!
- Nem me fale dessa gente! Sorriu Zeus, e bebericou a infusão de camomila. - Não há coisa pior na humanidade, que aquela ideia maluca de tentar ser quem se não é. De castigo, eu tenho-lhes dado uma significativa dose de angústia, directamente proporcional à sua disfunção!

Hipólito levantou a chávena, para dar sinal da sua concordância e voltou ao tema da punição de Sísifo, alegando que durante todo esse tempo, por certo, ele se transformara num homem diferente. Com a testosterona em níveis menores, se lhe oferecessem uma solução razoável, talvez ele lhes aceitasse a autoridade e se submetesse. - Com mil demónios, todo o homem tem um preço!
- Não tenha certezas dessas!, respondeu-lhe Zeus. - Olhe que, no outro dia, perguntei a um ex-presidiário, que cumprira uma pena por homicídio, se estava arrependido. Respondeu que sim! Que estava arrependido de só ter morto um, pois a pena era igual à de ter morto os dois com quem tinha conflituado! A cabeça dessa gente é muito complicada. Os primeiros anos de vida e a família onde se nasce, deixam marcas difíceis de apagar. É por isso que o Sísifo vai ter de voltar ao Tártaro, pelo menos até termos programas de reabilitação bem estruturados e monitorizados. Amanhã conto consigo depois do almoço.

- Ok!, concordou Hipólito, a congeminar um caminho diferente para o futuro daquele atormentado rei de Corinto. - Posso vir acompanhado de um psicólogo, para negociar com o homem? Eles agora estão na moda na gestão deste tipo de conflitos, e lá no hospital há muitos!

- É melhor não! Dr. ! Só ia criar confusão. Quando o acharmos, você fala com ele. Eu prometo que só lhe atiro com o raio em última instância.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Lar Lembranças do Olimpo (13)



Eram duas da tarde quando Hipólito acabou o trabalho de enfermaria.
O registo da sua actividade no computador, depois de ter observado os doentes, ocupava metade do seu horário. Era trabalho de secretária pago a preço de hora médica que tinha de ser feito.
Os políticos do país centravam-se noutros números que os gestores locais se esforçavam por torturar para darem certo com o que lhes era pedido, ou distraíam-se com controles biométricos, que os incumpridores sabotavam impunemente.
A capital mandava e os médicos, aos poucos, iam-se tornando peças de uma máquina onde o doente passara a utente, e toda a população a cliente, onde qualquer defeito podia ser entendido como enfermidade.

O edifício crescera dando primazia aos meios auxiliares de diagnóstico. Surgiram psicólogos, gestores, assistentes sociais e “boys” do partido vencedor. Criaram-se doenças, para justificar os empregos, e divulgou-se nos meios de comunicação um extenso cardápio, para que quem sentisse dificuldades na vida se pudesse encaixar. Surgiu a “hiperactividade” das crianças, as fibromialgias, as depressões por dá cá aquela palha, os “burnouts” crónicos, as lombalgias laborais, os rastreios descontrolados e o desgoverno no número de consultas necessárias para resolver um único problema, fosse ele qual fosse. Tudo bem justificado por relatórios sociais, psicológicos, educacionais, porque as “contratualizações” exigiam números que não podiam ser esquecidos pelos gestores que tendiam a subvalorizar a qualidade, mesmo quando ela alterava o curso de uma ou de muitas histórias.
Indiferente a este estar, um núcleo duro mantinha o sistema eficiente e capaz para a população realmente doente.

No refeitório, comeu umas potas com batatas a murro e subiu para pegar em Eurídice.
- Estava a ficar preocupada, a pensar que não vinha!, disse à sua chegada à sala de espera do serviço. - Tenho tudo preparado. Até já me despedi das enfermeiras!
- Como podia esquecê-la!. retrucou o médico, de sorriso aberto. - Só se caísse o Carmo e a Trindade!, e ofereceu-lhe o braço, convidando-a.
Desceram pelas escadas para evitar a multidão que aguardava os elevadores e saíram por uma porta lateral, para que o diz-que-diz fosse menor, mesmo sabendo que, naquela casa, um supor era automaticamente tomado por verdade. Pareciam um casal em núpcias. Ela feliz com a solução e ele vaidoso por ter aquela linda mulher, a sorrir, ao lado.

Hipólito abriu-lhe a porta do automóvel. Eurídice sentou-se a olhar para todas aquelas luzes, que se acenderam quando ele meteu a chave na ignição e, temerosa, confessou:
- Que coisa é esta? O que é que vai acontecer agora?
O médico acalmou-a. - Esteja descansada! Está dentro de um automóvel. É como uma quadriga, só que as pessoas vão comodamente sentadas e não há cavalos a puxá-la. Tente abstrair e vai ver que a viagem vai ser rápida e confortável.
Eurídice deixou que ele lhe pusesse o cinto de segurança e agarrou-se ao assento com as duas mãos quando sentiu os primeiros movimentos.

Saíram. Os olhos dela, como faróis, tentavam seguir todos os objectos com que se cruzavam. Quando se cruzavam com uma camioneta ou passavam um edifício maior, levantava-se para os manter durante mais tempo no campo de visão. Ao atravessar a ponte, assustou-se com o comboio e, do outro lado do rio, mais calma, pediu para ir pela margem para ter uma imagem completa da cidade.
- É uma cidade bonita!, disse. – Pena é aquele prédio alto, ali no meio!
- É o prédio Coutinho! Há uma grande vontade de o implodir! Talvez daqui por vinte anos já lá não esteja! Em Portugal, quando um problema destes cai na esfera da Justiça, demora décadas. A ineficiência dá dinheiro a muita gente!
Vamos um bocadinho mais à frente, que vai ver o porto e um navio que hoje lá atracou. Pertencente à Enercon, um dos maiores fabricantes mundiais de turbinas eólicas, com várias fábricas em Viana. Está a ver aquelas quatro torres cilíndricas no convés? Têm vinte e sete metros de altura e captam a energia do vento para auxiliar a propulsão a diesel. Vem cá carregar torres de aerogeradores.
- Já vi que chegue, Dr., e não percebo essas palavras. Vocês são de outra galáxia. Se eu tivesse que ficar aqui, ia ficar velha em pouco tempo com o que tinha de aprender. É melhor levar-me aos tais deuses que me falou. Se me mostra mais coisas, ainda me dá um treco.

Hipólito entrou na nacional 13, andou dez quilómetros e, desviou para direita. Minutos depois, chegou ao parque de estacionamento do Lar.
- Venha comigo! Zeus, às vezes, sai por longos períodos. Mas a mulher dele é muito caseira, costuma ficar.

Subiram as escadas, Hipólito ia bater à porta, quando esta se abriu e apareceu Zeus com ar sorridente. Cumprimentaram-se.
- Estava ali à janela a apanhar um pouco de sol, quando o vi na curva da estrada! e, enquanto se dirigia a Eurídice, exclamou: - Ora bem! Hoje, vem muito bem acompanhado!
O médico apresentou-a.
- É Eurídice. Conhece-a, de certeza! Deve-se ter saído do Hades por uma porta errada, e perdeu-se. Pensou que ela dava acesso ao Lethes e saiu para o rio Lima.
- Claro que a conheço!, respondeu o deus. -É das almas mais bonitas que passaram por aqui. Ainda bem que a trouxe! Saíram várias por essa porta nesse dia. Umas, como ela, estavam programadas para voltar à terra, mas outras estavam a cumprir penas eternas. Houve um engraçadinho que desenhou uma porta ao pé do Tártaro e pôs lá a placa Lethes. Suspeitamos que tenha sido o Almada Negreiros, que ele tem a mania dos exotismos, mas não temos provas incriminatórias suficientes. O certo é que por essa porta também desapareceu o Sísifo. Você não o viu?
Há uma semana que o procuramos. Criou um motim e aproveitou o cão estar velho. Aquela coisa da pedra, pô-lo zangado. Se encontra alguém que o contrarie, desfá-lo em menos de um fósforo.
- Se ele esteve sempre às voltas com a pedra, o mais provável é que esteja escondido a descansar!, disse Hipólito. -Vamos resolver primeiro o problema de Eurídice, que ela já me mostrou vontade de sair pela porta certa e começar um processo de aprendizagem que lhe permita uma integração social de qualidade.

Zeus virou-se para Eurídice.
- Minha querida. Fico muito feliz com o seu regresso. Deve estar cansada desta semana de novidades. Vamos entrando, que a minha mulher prepara-lhe um revigorante hidromel !
- Estive doente, com febre e fui tratada no hospital do Dr. Hipólito. Ainda bem que saí junto à cidade. Se tivesse saído no meio de um monte não sei o que seria de mim!

Entretanto Hera encaminhara Eurídice para os seus aposentos enquanto lhe perguntava das experiências na sua recente aventura terrena, deixando-os a sós.
Hipólito aproveitou e questionou Zeus:
- Posso-lhe fazer um pedido para ela?
- Eu, se fosse a si, não me metia nisso e deixava que fosse o Acaso a determinar-lhe a sorte, mas, como a trouxe até aqui, vou dar-lhe esse privilégio. Peço-lhe, no entanto, que tenha cuidado com a sua formulação! Estou farto de ver gente vítima dos desejos dos outros!, advertiu o deus. 
Hipólito, não hesitou:
- Queria pedir-lhe que a fizesse nascer saudável e numa família com cultura!
Zeus, riu. - Você não é parco no pedir! Só faltava pedir para nascer rica! Agora que o PS vai acabar com a austeridade, talvez seja possível fazê-la nascer em Portugal. Para já volta ao submundo, que esta experiência foi um choque a exigir uns anos de repouso.
E quanto ao Sísifo. Onde é que o homem pode estar escondido? Já passámos a pente fino as casas da cidade e aldeias próximas e nada.
O médico, sem que estivesse sintonizado com Zeus, deixou que a fala lhe saísse da boca, sem medir as consequências.
- Já foram às ruinas do Convento de S. Francisco?, sugeriu. –  Aquilo está envolto em mato e fechado a cadeado. Eu começava por aí!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Lar Lembranças do Olimpo (12)


O Sporting ganhara e mantivera o primeiro lugar. Hipólito, que sofria de clubite dolorosa, fora ao Bar do Hospital tomar um café e picar portistas e benfiquistas.
- Ah leão! Que andas de unhas afiadas!, disseram-lhe os colegas, - Mas cuida-te, que o único clube português abençoado pelo Papa é o FCP!
- Não há volta! Já passámos o Natal! Este ano o Campeonato é nosso!
Riam e descomprimiam. O café da manhã, era um ponto de encontro para outros saberes ou notícias de quem não aparece mas, como as oportunidades não escolhem hora nem lugar, muitos assuntos técnicos era ali que encontravam solução.

- Dona Lucinda ainda bem que a vejo! O sistema informático está impossível! Se fazemos uma prescrição para o exterior, vai abaixo, se a fazemos para um doente internado, demora mais de dois minutos a abrir. E anda aí gente vaidosa com a informatização dos registos! Não sei se é a vossa manutenção que está a falhar ou se é o programa que está mal feito, mas alguém tem de se chegar à frente e dar uma volta nisto.
E o café, nesse dia, sabia um pouco a azedo.
Outras vezes sentava-se na mesa das Assistentes Sociais para lhes sentir o pulso.
- Dra. Lurdes, que me diz? Nós temos cada vez mais idosos sem retaguarda familiar e cada vez é maior a dificuldade em encontrar soluções para que os internamentos se não prolonguem!
E o café arrefecia.

Nessa manhã sentara-se na mesa dos Internos. Falava-se de encarniçamento terapêutico e Hipólito acrescentou:
- E o encarniçamento diagnóstico? Isto é, ter já informação suficiente para poder decidir e submeter o doente a mais exames só para conhecimento médico ou para dar a sensação de que ainda é possível prolongar a vida com qualidade?
A Lúcia, que era a mais velha dos internos, retrucou:
- Dr. Hipólito, se não tivermos práticas defensivas, as famílias criam-nos problemas de difícil solução.
- Nem todas! E é aí que é preciso actuar. Há muita gente que entende que chegou o fim do seu familiar e o sofrimento que mais exames e terapêuticas podem causar. Claro que para se fazer uma afirmação destas, é necessário que o médico ou a instituição mereça confiança.
As situações dúbias devem ser discutidas com médicos seniores para que o ónus da decisão de passar um doente para cuidados paliativos, não fique sobre o médico que tem o doente a seu cargo.

A conversa ficou ali porque o café chegara ao fim e o trabalho ia a meio.
Voltara à enfermaria, revira as terapêuticas, preparara altas, quando se surpreendeu com o nome de uma doente acabada de chegar, com o diagnóstico de Pneumonia e Amnésia.
Tinha sido admitida no Serviço de Urgência no fim-de-semana e ficara em vigilância na Unidade Polivalente. A punção lombar revelara uma irritação meníngea.

Voltou à enfermaria e olhou-a. Estava sentada na cama com a revista Blitz na mão. Tinha uma idade indeterminada que não escondia ter sido, em jovem, uma mulher de formosura serena. No seu punho esquerdo, uma fina pulseira de ouro tinha o seu nome gravado.
- Bom dia dona Eurídice! A senhora está melhor?
- Bom dia, Dr.! Obrigada! Parece que tive febre alta e um período de confusão, mas hoje já me sinto melhor!
- Desculpe interromper a sua leitura, mas estive a rever o seu histórico no SClínico e não encontrei registos anteriores. A morada que está na sua identificação é a de uma pensão e não temos informação de qualquer familiar. A senhora vive cá?
- Eu hoje já me lembro de algumas coisas! Sei que acordei na margem de um rio, cheia de frio e que tive de procurar uma pensão, onde estive dois dias cheia de tosse e febre, até me trazerem para este hospital!
Hoje de madrugada fiz uma intensa introspecção que me trouxe à memória factos soltos que estou a tentar organizar. Por exemplo, lembrei-me de ter nascido na Grécia e que o meu marido é músico e que se chama Orpheu. Olhe! Até pedi à enfermeira que arranjasse uma revista de música a ver se ele aparecia lá, mas a palavra mais parecida com o seu nome é Orfeão.

Hipólito não queria acreditar. Tinha conhecido os deuses gregos, em carne e osso, há pouco menos de um mês e agora até mortais da sua mitologia lhe estavam a aparecer. Intrigado, arriscou a perguntar:
- Dona Eurídice! Desculpe a pergunta, que nada tem a ver com a sua situação clínica, mas será que a senhora se lembra de ter sido mordida por uma serpente no dia do seu casamento?
- É verdade!, exclamou. - E depois … morri?! … Foi assim?
- Se a senhora é quem eu penso, deve-lhe ter acontecido qualquer coisa semelhante!

Não havia dúvida. Eurídice saíra do Hades pelo rio Lima, confundindo-o com o Lethes, que fazia as almas esquecerem-se de todo o passado no regresso ao mundo dos vivos. Este só lhe causara a doença.
Hipólito procurou ouvi-la contar a sua história de amor, dando-lhe as dicas para que ela completasse, enquanto lhe assomavam aos olhos grossas lágrimas.
Falaram de Orpheu e da sua música, e lembraram o seu desespero após a sua morte e a descida ao submundo para a recuperar.

- Lembro-me disso! . ... E depois! Que foi feito dele?, perguntou Eurídice.
-Que foi feito dele?, repetiu o médico. – Vocês não se encontraram no Hades?, insistiu. - Essa história passou-se há mais de dois mil e quinhentos anos. É muito tempo, dona Eurídice!
- Não sei se sabe que o Hades é uma espécie de limbo. As almas andam por ali feitas zombies, sem qualquer alegria ou tristeza. Não interagem umas com as outras. É como um SPA onde se relaxa do stress das vidas já vividas, enquanto se aguarda uma reencarnação. Por isso, não sei o que se passou depois da minha morte!
Hipólito olhou os fios de água que corriam dos seus olhos e, procurou a explicação mais simples para a não fazer sofrer, e disse só: - Nunca mais tocou até morrer!, evitando contar que se havia tornado amargo e solitário, até acabar barbaramente trucidado por um grupo de mulheres bêbadas adoradoras de Dionísio.

Eurídice limpara as lágrimas. Uma suave ruga assomou à sua testa, quando de novo se lhe dirigiu:
- Dr.! Obrigado por me ter ajudado a recordar esses factos. Devo ter saído do Hades pela porta errada. Devia ter saído pela que diz Lethes. Não sei o que terá acontecido!
Hipólito tentou justificar-lhe o erro: - Talvez tenha confundido o rio Lethes com o rio Lima. É que de Viana do Castelo a Ponte de Lima, não faltam alusões a esse rio da mitologia grega.
- Se calhar foi isso! É o que dão as pressas! Admitiu Eurídice. – E agora, Dr.?! Quando me der alta, para onde irei?
- Posso pôr o problema à nossa Assistente Social, mas creio que, dadas as circunstâncias, melhor será regressar ao Hades. É fundamental que a sua nova vida comece do zero e que a sua alma venha esquecida de todas as outras vidas que já teve.
Eu conheço uns deuses antigos que lhe podem dar uma ajuda. Se já se sente com forças, hoje à tarde, podemos ir ao encontro deles para regularizar a sua situação.

- Dr. Hipólito! Você é um amor! Fico à espera de si depois do almoço. Posso dar-lhe um beijo?, e, sem mais abraçou-o e espetou os lábios contra os seus.
Hipólito saiu corado, enquanto ela feliz, confirmava, sorrindo:  
- Não se esqueça! Depois do almoço!