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domingo, 18 de agosto de 2019

18 de mau gosto



Pum! Pum! … Pum! Pum!
- Que horas são?
- São seis e meia da manhã!
- E que dia é hoje?
- É domingo, 18 de Agosto!
- Então isto são tiros! Raça de “desporto” este de andar a matar o que resta de alguma vida independente do homem e que não lhe faz mal nenhum! Devem andar aos tiros às rolas ou às pegas, já que não vejo por aqui outra ave com algum porte. Dá vontade de ir à veiga dar-lhes um puxão de orelhas. Ainda por cima temos um Ministério do “Ambiente” que secundariza este problema.
Gosto de ver rolas, patos, galeirões, galinhas de água, pombos, codornizes, narcejas, tarambolas, galinholas, tordos, estorninhos, pegas, gralhas, faisões e perdizes. Fico feliz quando o acaso me põe um à frente, coisa que é cada vez mais rara, e dói-me saber que há uns caramelos que se atiram ao património de todos nós e os banem do nosso campo visual.
A extinção das espécies está em processo acelerado. Já foram os grandes animais, agora é o tempo dos mais pequenos e ainda por cima sem qualquer controle.
Ouve! … Outra vez! … Pum! Pum! Este já deve ter exterminado a população de rolas daqui da zona. Lembras-te daquela comunidade de pegas que havia na veiga, quem vai para a praia de Carreço? Se ainda não foi, deve estar na calha! Dá vontade de telefonar aos GIPS da GNR para ver quanta e que bicharada ele já abateu.
- Fala-se das touradas, onde o bicho é criado para aquele propósito, mas pouco se fala dos caçadores. Raio de “desporto”!

quinta-feira, 25 de julho de 2019

O porteiro


Desta vez foi a Cristina. A Ferreira. A que grita. Era ela que ocupava o ecrã, sintonizado na SIC. Apesar do som baixo, sobressaía a estridência da voz que, no entanto, se mantinha indiscernível, enquanto em rodapé se salientavam as desditas das entrevistadas que tinham tido cancro do colo do útero e expunham a sua vida à curiosidade dos espectadores ociosos da manhã ou, como eu, presos nas malhas das idas ao hospital, por acidentais quedas alheias.
Tirando isto, o ambiente era o mesmo. As mesmas cadeiras incrivelmente desconfortáveis, o ronronar da máquina da comida, o passo cadenciado dos profissionais, as suas conversas fragmentadas.
Para conseguir a minha pulseira roxa, já tinha estado 20 minutos na fila admissão ao Serviço de Urgência, juntamente com aqueles que aí iam por um motivo de saúde. Dava para ver que a sala de espera estava repleta, com grande parte lugares ocupados por membros de uma mesma família. Eram seis mulheres que vestiam calças justas, coloridas, até meio da canela e que deixavam bem patente a distribuição do excesso de gordura corporal.  À volta delas gravitavam quatro crianças entre 1 e 10 anos manobrando um triciclo de plástico entre pernas de cadeiras e pernas de pessoas, algumas de chupeta na boca, uma de chaves ao pescoço. Mas tudo em boa ordem e em silêncio.
O tempo de espera é …tempo de espera… e quando sabemos que as situações estão controladas. é mais fácil.

O que achei interessante de verificar foi a competência e simpatia do pessoal médico, de enfermagem e auxiliar com que me cruzei, em contraste com a postura de distância e sobranceria dos agentes da empresa de segurança, contratada pelo hospital, que delimitam os espaços com as suas pernas abertas, braços cruzados de bíceps bem delineados, três bolas vermelhas bordadas na camisa cinzenta e olhar sobranceiro de olhos semicerrados, que se salienta quando lhes peço uma informação. Não são informadores…e remetem-me para uma fila qualquer. Quando lhes digo, em jeito de pedido, que vou precisar de ajuda para tirar o meu pai da cadeira de rodas, respondem-me com um subtil, quase imperceptível, levantar de uma comissura labial, que talvez se encontrar um auxiliar por aí, ele me possa ajudar.
A figura do porteiro que conhecia o pessoal, que sabia dar informações, que dizia bom dia, boa tarde e até amanhã, que tomava conta de um recado se alguém precisasse, que guardava uma encomenda para levantar à saída, que dava uma mãozinha para subir o degrau,… desapareceu.
É sabido que tinham imensos defeitos e, como todos os porteiros, partilhavam informações da forma que entendiam e talvez alguns com isso lucrassem. Envelheciam nos lugares e, enquanto perdiam capacidades físicas, tornavam-se mais manhosos e alguns mais sábios.
Mas não são os nossos defeitos que nos humanizam?
Esta imagem musculada de “segurança”, treinada para ser fria, anónima, indiferente, impessoal, rotativa para não criar laços, será necessária?

Quando comecei a trabalhar havia um hospital com médicos, enfermeiros, auxiliares e administrativos… agora é uma empresa com colaboradores;
Tratávamos doentes e passámos a trabalhar com utentes;
Tínhamos uma agenda e passámos a ter um “sistema” que, quando fica “em baixo”, deixa todos de braços cruzados a aguardar que o informático resolva.
Assinávamos o ponto na sala do Enfermeiro Chefe, a quem dávamos um bom dia e uma frase de circunstância antes de tomar o pulso à jornada e passámos a “pôr o dedo”;
O horário passou a contar-se em horas de trabalho efectivo e em horas de bolsa, que podem ser generosamente geridas pelos directores, atribuindo-lhes valor temporal ou material;
Escrevíamos os diários, fazíamos resumos e revisões terapêuticas e passámos a fazer “copy paste”, quantas vezes de modo despudorado, repetindo erros não verificados;
Líamos as notas de enfermagem que traduziam o sentir de quem cuidou e vigiou na nossa ausência, e passámos a ter check lists ilegíveis;
Tínhamos gráficos de temperatura e passámos a ter listas de temperaturas sem o impacto visual de uma imagem;
Telefonávamos ao colega para expor um caso ou colocar uma dúvida, e passámos a enviar um mail;
As horas a que os registos foram efectuados passaram a ser mais importantes que os próprios registos e ganharam a dimensão de provas de defesa em tribunal, na certeza de que mais tarde ou mais cedo a todos vai acontecer;
Muitas coisas melhoraram: a eficiência, a gestão de recursos, o controlo do desperdício, supostamente a transparência dos actos… Mas pagamos um preço elevado que tanto afecta profissionais como doentes e seus familiares. Quando entramos num hospital, seja em trabalho ou na doença, não deixamos de ser nós próprios com os nossos medos, inseguranças, alegrias e frustrações. O sentir que são pessoas a trabalhar com pessoas, que a compaixão pelo sofrimento não se deve perder, apesar da frieza dos écrans de computadores que se interpõe na comunicação e dos braços cruzados de seguranças altivos.

Disse.

Texto de M.H.S.G.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

29


Nesses dias de muitos amigos, de futebol em qualquer espaço e de corridas a ver quem era o último, a alma não tinha poiso. Ia-se à Escola sem o objectivo do conhecimento, mas tão só o de "passar de ano", para que não questionassem o tempo que queríamos para todas as brincadeiras.
O entendimento do mundo estava muito para além do horizonte e estudar era mais um “jogo” que uma oportunidade de ganhar competências e muitos destes “estudantes” lutavam pelos mínimos, somando as notas de fim de período para darem 29 e faltando às aulas até ficarem “tapados por faltas”.
Este “lutar por mínimos” também implicava o copianço pelo parceiro mais próximo e a cábula o mais dissimulada possível, pois se entendia que a fraude e enganar ou “gozar” o professor, eram a vingança possível para uma "opressão" de programas que não eram nem “Child Friendly” nem “Pupil Friendly”, como também não o eram os métodos usados, onde a violência física e verbal pontificavam para conter a rebeldia dos mais difíceis.

Como resultado, muitos dos que “trabalhavam” para o 29, estão hoje na vida activa, com o mesmo espírito. Lutam por mínimos, sem qualquer brio, usando múltiplos estratagemas para obter proventos sem fornecer um bom serviço, numa táctica da “vitimização como passaporte, alibi ou motor de existência”.

Já chega de espertalhaços . É tempo de dar espaço a quem sabe e se esforça, se queremos utilizar os padrões das sociedades mais avançadas, e isso tem de começar na escola.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Cincinnatus

Custa-me aceitar quem se eterniza, principalmente se ocupa um qualquer lugar de direcção do Estado. Todos temos incapacidades para algum tipo de problemas e, quando persistimos, são esses que vão ganhando volume sem resposta e nos fazem cair com estrondo.
É esse um dos motivos porque não simpatizo com o PCP, nem com o Mário Nogueira, nem com os "dinossauros" das nossas autarquias.

Todos os "Team Leaders" dos diferentes organismos do Estado, deveriam ter mandatos limitados. por não mais que 10 anos, mesmo que se mantivessem competentes.
As funções de direcção, se tomadas com responsabilidade, não só são desgastantes, como causam ressentimentos que se agravam com o andar dos anos, pelo que, mesmo quando já não há "Up", tem de haver "Out", que mais não seja para dar descanso aos que há muito o não suportam.

Transporto comigo a figura/mito do Cincinatus que ponho em contraponto a Salazar, ao Generalíssimo (o íssimo é real) Franco, ao Saddam Hussein, ao Erdogan e às famílias Bashar al-Assad e Kim Jong-un e a outros tantos que têm todas as soluções para aquele futuro que só eles conhecem.
São eles que enchem os Noticiários, com os seus 9 anos, 4 meses e 2 dias, repetidos à exaustão em negociações do inegociável, pois são habitualmente cabeçudos incultos que não entendem que um problema pode ter várias soluções razoáveis e que a História ensina que raramente se tem 100% da razão.
"Dez anos é muito tempo!", já o dizia o Paulo de Carvalho, quando ainda tinha cabelo, voz e alguma graça, e eu concordo. Um máximo de dois mandatos de quatro anos é o certo. Mais que isso só para excepções muito excepcionais.

Na historia de Roma Lucius Quintus Cincinatus (519 AC — 439 AC) , é modelo de virtude e simplicidade. Foi eleito ditador para salvar o exército numa guerra contra os Volscos. Quando o informaram da nomeação estava a lavrar a terra. Largou as alfaias e foi para o campo de batalha. Em 16 dias derrotou os inimigos. Entrou em triunfo em Roma e, "por amor à República", renunciou imediatamente à sua autoridade absoluta para voltar aos seus campos e ao arado. 

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Incêndio Florestal



- Esteja descansado que aqui nunca houve incêndios!, dizia-me a vizinha, tão certa como aqueles que vivem nos leito de cheia e confiam que o rio nunca lhes há-de chegar aos pés, quando eu, que sempre fui avesso à sabedoria popular, me punha a "empurrar" o mato para longe dos muros.
O povo da aldeia faz coro com ela e, como  os Serviços Florestais se dizem incapazes de identificar os proprietários da floresta confinante com as habitações, só me restou contar com a ajuda dos deuses.

De acordo com a 1ª Lei de Murphy “Se alguma coisa pode dar errado, dará, e no pior momento, e o incêndio florestal da passada sexta-feira, veio quando eu estava a milhas de casa e, não fora uma boa estrela pôr no ar dois aviões Canadair e no chão um carro de Bombeiros e um tractor com uma cisterna, o fogo não parava a três metros dos meus muros.

Parecer de um popular estabelecido nas imediações do início do incêndio.
O fogo teve origem numa fogueira activada por madeireiros, junto à aldeia vizinha. O dia estava seco e com muito vento. O fumo que saía da zona fazia prever o pior, pelo que chamou os Bombeiros, que chegaram uma meia hora depois e que, em vez de apagarem as chamas, ficaram à espera de uma ordem do seu chefe. Entretanto chegou à fogueira “alguém” com uma cisterna cheia de água, que foi impedido de a descarregar.
Quando, minutos depois, o fogo se estendeu à floresta, foram chamados os meios aéreos, “por o terreno, não ter acessos suficientes para o combate com os meios disponíveis.
Arderam cerca de 25 hectares de eucaliptal e pinheiro, com muitas austrálias pelo caminho.  

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Narcos




Ambas as séries dizem estar fundamentadas em factos reais.
Custa a crer!
Volta Sócrates, estás perdoado! Armando Vara, fora da prisão JÁ! Duarte Lima, venham cá esses ossos! ... e por ai afora ....

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Kaspuscinski - “O Imperador”




Caro amigo, uma mania domina este mundo louco e imprevisível – a mania do desenvolvimento. Todos querem desenvolver-se, mas não normalmente, como Deus manda, que o homem nasça, se desenvolva e morra, mas desenvolver-se de maneira espectacular, dinâmica e grandiosa, desenvolver-se para outros verem, invejarem, comentarem abanando a cabeça. De onde vem isso? Não se sabe. As pessoas correm, que nem ovelhas atrás da ganância porque basta que alguém noutro canto do mundo se desenvolva, de seguida todos querem imitá-lo, atacam, pressionam, exigem, para se desenvolverem também, subir, convergir. E basta, amigo, que ignores essas vozes, e já tens em seguida frustrações, revoltas, negações e clamores.

In “O Imperador” de Ryszard Kaspuscinski - A história do golpe militar que depôs Haile Selassie, o Grande Senhor, Eleito por Deus, Imperador da dinastia salomónica que ocupara o trono da Etiópia ao longo de mais de quarenta anos, contada pelos "do regime".

Lê-se de um fôlego e ensina ... tanto.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

O nosso "anti-racismo"




Os europeus tornaram-se multiculturais, tanto nos factos como por princípio. As comunidades imigrantes, muitas vezes pesadamente muçulmanas, crescem nos países europeus em resposta à carência de mão de obra de princípio do pós Segunda Guerra Mundial. Nos primeiros tempos, os activistas destas comunidades lutaram por direitos iguais para os imigrantes e seus filhos, mas viram -se frustrados por continuas barreiras à mobilidade ascendente e à integração social. Inspirados tanto pela Revolução Iraniana de 1979 como pelo apoio saudita às mesquitas e madrassas salafistas, começaram a aparecer na Europa grupos islamitas que defendiam que os muçulmanos não deviam procurar integrar-se , mas sim manter instituições culturais separadas. Muitas pessoas da esquerda europeia abraçaram esta tendência, considerando os islamitas como os autênticos porta-vozes dos muçulmanos, mais marginalizados do que integrados, que tinham optado por se integrarem no sistema social. Em França, os muçulmanos tornaram-se o novo proletariado, com parte da esquerda a abandonar o seu secularismo tradicional em nome do pluralismo cultural. As criticas de que os islamitas eram ele próprios intolerantes e iliberais era muitas vezes minimizadas sob a bandeira do antirracismo de contrariar a islamofobia.

In Identidades, Francis Fukuyama

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Pimentos picantes

Recentement o WhatsApp deu-me acesso a este pequeno vídeo, onde um paisano arrisca a comer o mais picante dos pimentos. O filme não mostra a totalidade dos seus efeitos, que se podem prolongar por dias e que incluem cefaleias intensas na dependência do Sindrome de Vasoconstrição Cerebral Reversível. 
Na minha prática clínica, encontrei uma vez uma jovem médica com anestesia da mão, por ter manuseado este pimento. 


A capsaicina é o responsável pelo picante dos pimentos. É um composto químico capaz de estimular os receptores térmicos e dolorosos da pele e especialmente das mucosas. Algumas variedades de pimentos podem apresentar variações importantes na sua concentração (como os pimentos de Padrón, que “uns picam e outros não")



A capsaicina é muito irritante para os mamíferos, o que evita que os seus frutos sejam comidos pelos herbívoros. As sementes, onde se concentra o composto, são dispersas predominantemente pelo pássaros, que são imunes ao químico.

O homem praticamente não metaboliza a capsaicina, pelo que os seus efeitos também se fazem sentir no outro extremo do tubo digestivo.
Aplicada directamente sobre a pele, pode saturar os receptores da dor, pelo que já foi usada como analgésico tópico.

O Carolina Reaper, foi considerado em 2012, pelo Guinness World Records, o pimento mais picante.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Frases da semana - Yurval Harari


Quando mil pessoas acreditam numa história inventada durante um mês, chamamos-lhe "Fake news".
Quando mil milhões acreditam nisso há mil anos, dizemos que é uma Religião.

Se por "livre arbítrio" entendermos a liberdade de fazer o que se deseja - os seres humanos têm livre arbítrio. Mas se "livre arbítrio" significar a liberdade de escolher aquilo que se deseja, então não, os seres humanos não têm "livre arbítrio".

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Fogos.pt


Começo a ter raiva a quem me entra diariamente em casa a falar dos incêndios e a dizer que é do vento, da falta do retardante, dos helicópteros Kamov e do SIRESP que custam milhões, das casas que ardem que são primeira e segunda habitação e as que estavam, há décadas, desabitadas, e dos milhares de hectares de área ardida.

Eu quero é saber como se vai acabar com este desbarato de recursos. Quero saber se é possível manter o minifúndio na floresta, onde a maioria dos proprietários são idosos, sem nenhuma vontade de modificar o que quer que seja, e que pensa (e bem) que, se vender, no dia seguinte, o dinheiro que pôs no Banco, começa a desaparecer.

Portugal não tem tradição de associativismo e não é possível gerir uma floresta quando as propriedades têm pouco mais de meio hectare. O que se gasta a apagar fogos não compensa a rentabilidade que de lá se tira e os impostos não podem ser aplicados a alimentar quem faz do fogo negócio, nem políticos temerosos que acções mais enérgicas lhes possam trazer maus resultados  eleitorais.

Exige-se frontalidade no impedir que eucaliptos e pinheiros convivam com os aglomerados urbanos, na modernização do cadastro florestal e na implementação de obrigações mínimas de manutenção.
Só assim a floresta atrairá empregos e fixará população, mesmo que os proprietários vivam nas cidades, como os que a vêm apagar.

Já chega de jornalistas a descrever “ad nauseam” os “cenários de guerra”, os “infernos” dantescos, as lágrimas dos desafortunados, as frustrações dos bombeiros, dos políticos, dos comentaristas, enquanto “o touro” investe sobre tudo e todos, sem que um Governo se decida pegá-lo pelos cornos para que, ao menos, se protejam as pessoas e as habitações.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Motins


Provavelmente é impossível, para as pessoas que viveram e prosperaram num determinado sistema social, imaginarem-se na pele daqueles que, nunca tendo podido esperar nada desse mesmo sistema, encaram a destruição do sistema sem receio especial. 

Ando a ler - Submissão,  de Michel Houellebecq. Uma sátira política, que imagina uma situação em que um partido islâmico vence eleições em França em 2022.
O autor foi já acusado de islamofobia, mas não considera esta obra uma provocação. Na sua opinião é uma evolução muito provável.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Os Ismaelitas e "Os Lusíadas"


Aga Khan IV descende do profeta Maomé. É o líder espiritual de 15 milhões de fiéis muçulmanos, xiitas ismaelitas, 10 mil dos quais vivem em Portugal, comunidade que doa ao Imamato (que ele  gere), cerca de 10 a 12% do que ganha.
É um dos homens mais ricos e mais influentes do mundo. Dizem que a sua fortuna ronda os 14 mil milhões de dólares. Está prestes a estabelecer residência em Lisboa. Será o novo sr. Gulbenkian. 

Com funções múltiplas e muito além da orientação religiosa, Karim Aga Khan tem a seu cargo a educação cívica da comunidade, que o adula. Significa isso cuidar do seu bem-estar e guiá-los no sentido de criarem os seus próprios meios de subsistência. Terá dito: “Os meus deveres são bem mais latos que os do Papa!".

Luís de Camões, nos Lusíadas (1572) no CANTO I, via-os assim:

1
As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

2
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis, que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;
E aqueles, que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando;
...

3 ...
4 ...
5 ...
6 ...
7 ...

8
Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;
Vê-o também no meio do Hemisfério,
E quando desce o deixa derradeiro;
Vós, que esperamos jugo e vitupério
Do torpe Ismaelita cavaleiro,
Do Turco oriental, e do Gentio,
Que inda bebe o licor do santo rio;

domingo, 15 de julho de 2018

A dominância dos teimosos


Há uns meses, um amigo aconselhou-me o livro “Skin in the Game”. O segundo capítulo – O mais intolerante vence: A dominância da minoria dos teimosos”, deu-me luz sobre como se propagaram (e propagam) muitas das teorias que regem o Mundo.

A principal ideia por detrás de um sistema complexo é que o conjunto se comporta de modo não previsível pelos seus componentes e que as interacções são mais importantes que a natureza das suas unidades.
Estudar individualmente o comportamento de uma formiga, nunca nos irá dar uma clara indicação do como o formigueiro funciona. É necessário olhar para uma colónia de formigas como uma colónia de formigas e não como um conjunto delas. A isto chama-se uma propriedade “emergente” do todo, na qual as partes e o todo diferem, porque o que interessa são as interacções entre as partes.

Uma das suas regras é a "Regra da Minoria": Se um certo tipo de minoria intransigente – com significativo “skin in the game” (ou, melhor, “soul in the game”) - atingir um pequena percentagem da população - 3 a 4%, pode fazer com que toda a restante se submeta às suas preferências.

Um exemplo desta complexidade atingiu o autor, quando ajudava um barbecue em Nova York.
Estavam os anfitriões a desempacotar as bebidas, quando um amigo que só consome alimentos “kosher”, se aproximou para o cumprimentar. O autor ofereceu-lhe uma limonada, na certeza de que ele a iria rejeitar. Mas, para seu espanto, ele bebeu o líquido, enquanto outra pessoa comentou: “Aqui, todas as bebidas são kosher!”. Olhou para o rótulo da garrafa e, no fundo, tinha um pequeno símbolo – um U envolto num círculo, indicando que era kosher. O símbolo só é detectado por aqueles que necessitam de o saber, e fê-lo ganhar consciência de que bebia regularmente líquidos kosher sem o saber.

A população kosher representa menos de 0.3% dos residentes nos Estados Unidos (cerca de 9% dos noviorquinos são judeus) e estava-lhe a parecer que todas as bebidas eram kosher. Porquê? Simplesmente porque se forem kosher, os produtores, os revendedores e os restaurantes, não têm de fazer distinções entre kosher e não kosher para os líquidos, com marcações especiais, áreas e inventários separados.

A regra simples que altera o total é a seguinte: Um kosher (ou halal) nunca irá comer alimentos não kosher (ou não halal), mas um não kosher não está proibido de comer alimentos kosher.

Alguém com alergia ao amendoim, não irá comer produtos que o possam conter, mas uma pessoa sem alergia poderá comê-los. O que explica o porquê de ser tão difícil de encontrar amendoins nos aviões dos Estados Unidos e porque as escolas são “peanuts-free”.

Chamemos a estas minorias um grupo intransigente e à vasta maioria um grupo flexível.

Dois pormenores. Primeiro, o modo como estão implantados no terreno, é importante. Se a minoria dos intransigentes vive em guetos, com uma economia pequena e separada, então esta regra não se aplica. Mas quando a população tem uma distribuição espacial uniforme, isto é, quando a percentagem da minoria na vizinhança é a mesma que na cidade inteira, que a da cidade a do país, então a maioria flexível ir-se-á submeter à regra da minoria. Segundo, o custo também interessa. No exemplo da nossa limonada kosher o aumento de preço não é significativo.

Os muçulmanos também têm leis do tipo “kosher”, que se aplicam à carne, regras de abate herdadas de práticas sacrificiais antigas dos cultos Grego Oriental e do Levante. Tudo o que é kosher é “halal”, para a maior parte dos Sunitas (ou era assim nos séculos passados), mas o reverso não é verdade.

No Reino Unido, onde a população muçulmana praticante é de 3 a 4%, uma grande proporção de carne que se encontra nos talhos é halal. Cerca de 70% do anho importado da Nova Zelândia é halal. Perto de 10% da restauração do metropolitano vende “Halal-only meat”.

Mas nos países de matriz cristã, halal não é suficientemente neutro. Há ainda muitos cristãos que entendem os valores sagrados dos outros como uma violação dos seus. Lembremos que, no século VII e anteriores, muitos mártires cristãos foram torturados por se recusarem a comer carne sacrificial e assumiram a postura heroica de morrer à fome por considerarem um sacrilégio aquela comida impura.

Se o objectivo é vencer e não vencer um argumento, pôr o foco unicamente nas palavras coloca-nos num declive perigoso. É necessário fazer preceder as palavras de actos significativos. Só a realidade consegue convencer alguém de que está errado.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Abate de árvores no jardim D. Fernando




Exmo Senhor Presidente da Câmara de Viana do Castelo,
     Exmo Senhor Vereador do Ambiente e Biodiversidade,
     Exmo Senhor Vereador do Planeamento e Gestão Urbanística

Sou moradora na Praça General Barbosa há 9 anos. Comprámos uma casa antiga e restauramo-la porque sempre quisemos morar em frente a este jardim.
Quando soube que iam fazer uma remodelação no Jardim D. Fernando, confesso que fiquei preocupada. Achei que devia ir ver o projecto à Câmara mas o dia-a-dia meteu-se no meio, o tempo foi passando, e as obras começaram.
Sábado passado, dia 14 de Abril, quando saí de casa para o trabalho, pude assistir ao corte de um carvalho. Quando voltei, tinham sido cortadas e transformadas em toros mais quatro tílias e um carvalho. Um triste espectáculo com vários transeuntes a assistir.
Na minha opinião, uma vergonha. E uma tristeza gigante.
Eram árvores muito bonitas, saudáveis, com dezenas de anos, de espécies autóctones.
Quem já passeou pelo nosso monte de Sta Luzia consegue ver a infestação que por lá vai. Eucaliptos, mimosas e austrálias. Raramente se consegue ver mais alguma coisa. Uma bouça com alguns carvalhos é uma festa para os olhos.
E vocês abatem 4 tílias e 2 carvalhos?
No jardim do Marquês, no Porto, aquando das obras para fazer a estação de Metro, a autarquia viu-se obrigada, devido à pressão da sociedade civil, a transplantar para a praça Velasquez os plátanos que planeavam cortar. Ainda hoje lá estão.
Não teria sido possível fazer o mesmo? E alegrar um canto do monte de Santa Luzia, por exemplo?
Imagino que seja uma solução um bocado mais cara, mas acho que há acções que não têm preço. E além de salvar as árvores, este transplante teria uma vantagem ainda maior. Daria o exemplo aos nossos filhos de que as árvores são seres vivos que temos de proteger e respeitar. A consciência ambiental não se adquire apenas nas visitas escolares ao CMIA…
Numa altura em que falamos tanto da reflorestação e da importância da floresta autóctone, este abate foi um acto de uma incongruência que entristece. Porque significa que as coisas ainda estão muito no plano das ideias e das palavras. Andamos em acções de sensibilização a plantar carvalhos, mas se algum deles com 20, ou 30 ou 40 anos se mete no nosso caminho, puxamos da moto-serra e num instante temos o caminho desimpedido. Problema resolvido.
Esta carta tem como objectivo expiar um pouco a culpa que sinto por não ter ido ver o projecto a tempo. E por não ter falado na hora certa.
Espero que sirva também como alerta, para que, numa próxima ocasião, não se opte pela solução mais fácil. Para uma autarquia que se preza em ter uma postura diferente, esta foi uma oportunidade perdida.
Obrigada pelo tempo que me dispensaram.

A.G.

domingo, 4 de março de 2018

Gestão da floresta portuguesa




Avisos não faltam: 
“Os proprietários têm até 15 de Março para limpar as áreas envolventes às casas isoladas, aldeias e estradas, e, caso não o façam, ficam sujeitos a processos de contra-ordenação, com coimas que variam entre 280 e 120 mil euros”.
No que respeita a casas isoladas há que fazer a gestão de combustível numa faixa de 50 metros, mas quando se trate de “conglomerados urbanos” essa gestão, estende-se a uma largura não inferior a 100 metros.

Ligo a Televisão e ouço os deputados. Os do PS a defender o cumprimento da lei, mesmo quando se levantam vozes a alertar para as dificuldades da sua implementação no terreno, e ouço os da “oposição” preocupados com os problemas sociais dos proprietários de terrenos que se encontram nessas zonas. Ambos cheios de razões, mas nenhum com a coragem suficiente para dizer as palavras verdadeiras que lhes estão na mente e que são: “que o minifúndio na floresta não tem viabilidade e que os proprietários, ou vendem a quem tenha capacidade de gerir floresta ou se associam para a ganharem!

Mas isto é uma mudança radical para os nossos mini-proprietários, a grande maioria herdeiros já bem entrados nos anos e com a vida arrumada ao jeito de que foram capazes, e a quem as poucas centenas de Euros a que conseguirão vender as suas parcelas (à volta de 3 euros/m2) lhes não altera o viver, e manter limpos os eucaliptais, só lhes dá despesa.
Uns, nem lhes sabem os limites. Outros, ainda não fizeram partilhas mas sentem-se donos de um quinhão de uns três mil metros de mato onde predominam acácias e outras infestantes, mas que "um dia poderá ser urbanizado". Outros, perderam-lhes acesso, porque os caminhos estão atulhados pelos galhos que os madeireiros não levaram.

Dizer a essa gente que "tem de vender" porque senão o Estado os vai multar, é coisa que nenhum político ousa fazer, porque sabe que, no dia seguinte, a comunicação social vai esquecer os benefícios da gestão da floresta e passar a falar nos proprietários pobres, na sua reforma de miséria e das bouças como um complemento para alguma dignidade.

Portugal pertence a uma Europa que aposta no crescimento económico e na competitividade e que quer modernizar a exploração da sua floresta.  Ora ela só pode ser feita se deixar de estar na mão de sexagenários conformados e passar a ser gerida por quem quer fazer dela o seu futuro.

É isso que os políticos evitam dizer abertamente. Protegem-se, fazendo-o pela calada e tentam gerir o problema à medida que ele for aparecendo!

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Esquizofrenia 2



Sente-se “decaído!”, cansado e com a boca queimada - "Foi ao comer a sopa!". Diz ter sido burlado! Venderam-lhe um telemóvel desactualizado e não dormiu com medo de não acordar a horas da consulta.
Anda na vida de médico há muitos anos! Desde que está nos psiquiatras, está em sofrimento… A cabeça não anda sossegada!”... Quando era jovem, olhou para uma mulher e sentiu o cérebro a cair desde o céu. Nunca mais teve descanso! Esteve na Guerra Colonial. Foi ele que causou, com o pensamento, o golpe de estado em Moçambique. Diz ter duas cruzes uma à frente e outra nas costas, que já conseguiu falar pelas costas e que consegue transportar-se para uma quarta dimensão. Acha que as pessoas podem ouvir o que pensa e que os americanos e os russos lutam por controlá-lo. Foi por isso que a avó, um dia, lhe bateu!

Não quer ficar internado. Está irritado por ter recebido uma carta do tribunal para tratamento ambulatório compulsivo.

Hoje não abriu a porta à equipa de entrega domiciliária de refeições e os vizinhos, que há mais de um dia o não viam, alertaram a GNR. Foi encontrado caído no chão com fezes e urina em redor. No transporte para a Urgência teve uma crise convulsiva.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

As palavras que não disse

Fui educado no respeito pelo outro e num ambiente em que se devem procurar as explicações para todos os fenómenos com que a natureza nos surpreende. Cedo desvalorizei a importância do Deus que me foi presente nos primeiros anos de escola, talvez por não ter sido assombrado com as situações dramáticas que afligiam (e afligem) grande parte da população de Portugal e do Mundo. Custa-me, pois, aceitar “orações” e “mortificações” a solicitar a intervenção divina em nosso favor e as práticas de um clero que, frequentes vezes, ao longo da História, tudo fez para manter o poder dos poderosos, por temer que a “heterodoxia” pusesse um fim à “ordem” que assumiam como única possível.
Até ao meu meio século de vida, sempre acreditei que o Homem é “bom por natureza” e toda a maldade que é capaz, tem origem nas circunstâncias em que é colocado e, nesse sentido, tendi a classificar-me como um “Humanista pouco convicto”, pois sempre recusei a pô-lo no centro de toda a vida neste planeta.
As novas religiões (que se apelidam a si próprias de Ideologias) – o Liberalismo, o Comunismo, o Capitalismo, os Nacionalismos e o Nazismo, apesar dos esforços missionários sem paralelo e das guerras mais sangrentas da História, também não me conseguiram converter, deixando-me sem sentido de pertença.

Quem viveu em sociedades fortemente marcadas pela adversidade, e não sentiu soluções para as provações que o acaso lhes pôs no caminho, optou, quase obrigatoriamente, por um Deus e por intermediários humanos, para agradecer as vitórias mais significativas da vida e para ter a quem recorrer nas aflições.

O Humanismo, a religião a que todos agora querem pertencer (mesmo que professem outras), quer que seja o Panteão (familiar ou colectivo) a dar as directivas à sociedade, mas, quando toda a população tem smartphones, já poucos perguntam orientações aos deuses ou à memória dos antepassados. As dúvidas são colocadas ao Mr. Google e os pedidos de ajuda ao Facebook. O relacionamento é feito “on line” e são raros aqueles que se reconhecem pelo cheiro da pele.
Os mais velhos lembram as “velhas glórias” enquanto os jovens viajam no mundo virtual dos novos deuses “made in” Silicon Valley, seguindo-lhes os gostos e objectivos que os fazem acreditar no Dataísmo, que mais não é que um Fé cega nos dados que o Mr. Google e as redes sociais fornecem, e que já constitui a nova religião do século XXI.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Manipulação genética em humanos


Eu já esperava uma notícia deste teor.
Era uma questão de tempo, para que se iniciasse a manipulação genética no ser humano. O princípio do que virá a ser uma das principais áreas de negócio do futuro.
Começa-se por tratar um defeito genético ainda no ovo ou até no óvulo ou no espermatozoide, e vai-se por aí afora.

Amanhã, quem tiver recursos económicos, não vai querer que seja o acaso a definir qual espermatozóide irá fecundar qual óvulo. Vai querer ter a certeza que os gametas têm qualidade e que não transportam qualquer gene que possa comprometer o futuro do novo ser e, se possível, que tenha todos os que entendemos como benéficos para o sucesso social – ser alto, louro, ter olhos verdes e, uma especial apetência para as ciências abstratas, pois é nelas que se irão centrar os novos investidores.

Foi na China que se deu este primeiro passo e não nos USA., por ali não haver a mesma pressão ética e por o seu Concelho de Estado ter elegido a investigação genómica como um pilar das suas ambições industriais para o século XXI. As suas empresas habitam uma zona cinzenta entre o sector público e o privado e são abençoadas pelo Banco de Desenvolvimento da China com “milhões” que, a par com o baixo custo de mão de obra, os irá pôr na linha da frente. 

A Notícia é de 28/09/2017

Pesquisadores chineses afirmam ter realizado pela primeira vez no mundo uma "cirurgia química" em embriões humanos para extrair uma doença.

A equipe da Universidade de Sun Yat-sen usou uma técnica chamada "edição de base" para corrigir um único erro entre as três biliões de "letras" do nosso código genético.

Eles alteraram embriões feitos em laboratório para extrair a doença talassemia beta. A equipe disse que a experiência pode levar, algum dia, ao tratamento de uma série de doenças herdadas geneticamente.

A técnica altera a construção base do DNA.

A talassemia beta é uma doença do sangue que causa anemia e pode levar à morte. É provocada por uma mudança numa única base no código genético - conhecida como mutação pontual.

Os pesquisadores chineses "editaram” o DNA e trocaram o G (guanina) por um A (alanina) corrigindo o problema.

"Somos os primeiros a demonstrar a viabilidade de curar doenças genéticas em embriões humanos a partir de um sistema de edição de base", disse à BBC Junjiu Huang, um dos cientistas do grupo, e continuou: "o estudo abre novas portas para tratar pacientes e prevenir bebés de nascerem com a talassemia beta, e até mesmo outras doenças hereditárias".

As experiências foram efectuadas com tecidos de um paciente com a doença e através de embriões humanos criados a partir da clonagem.

Revolução genética

A edição de base é um avanço em relação a outra forma de editar genes, a técnica conhecida como Crispr, que já está a revolucionar a ciência.

A Crispr quebra o DNA. Quando a célula tenta consertar a quebra, desactiva uma série de instruções genéticas, e cria a oportunidade de inserir novas informações genéticas.

A edição de base faz com que as próprias bases de DNA se transformem umas nas outras.

O professor David Liu, pioneiro da edição de base na Universidade de Harvard, descreveu o método como "cirurgia química".

Afirma que a técnica é mais eficiente e tem menos efeitos colaterais indesejados do que a Crispr.

"Cerca de dois terços das variantes genéticas humanas associadas a doenças são mutações pontuais. Portanto, a edição de base tem o potencial de corrigir directamente, ou reproduzir para fins de pesquisa, muitas mutações patogénicas".

O grupo de cientistas da Universidade de Sun Yat-sen em Guangzhou (China) foi manchete quando  foram os primeiros a usar a técnica Crispr em embriões humanos.

O professor Robin Lovell-Badge, do Instituto Francis Crick em Londres, disse que determinados trechos desse último estudo são "engenhosos", mas também questionou por que não fizeram mais pesquisas com animais antes de irem directamente aos embriões humanos e afirmou que as regras sobre pesquisas com embriões noutros países teriam sido "mais rigorosas".

O estudo, publicado na revista científica Protein and Cell, é o mais recente exemplo da rapidez na evolução da habilidade dos cientistas de manipular o DNA humano, o que está a provocar um debate profundo de ética na sociedade, sobre o que é e o que não é aceitável nos esforços para prevenir doenças.

O professor Lovell-Badge disse que esses métodos dificilmente serão usados clinicamente em breve:
"Serão necessários muito mais debates sobre ética e sobre como esses métodos serão regulados. E, em muitos países, incluindo a China, é necessário ter mecanismos mais robustos para regulação, fiscalização e acompanhamento a longo prazo."


E eu que já ando neste mundo há uns bons pares de décadas, contraponho: 
- Se uma coisa pode ser feita, ela irá ser feita. Aqui, ali, às claras ou às escuras!