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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Manipulação genética em humanos


Eu já esperava uma notícia deste teor.
Era uma questão de tempo, para que se iniciasse a manipulação genética no ser humano. O princípio do que virá a ser uma das principais áreas de negócio do futuro.
Começa-se por tratar um defeito genético ainda no ovo ou até no óvulo ou no espermatozoide, e vai-se por aí afora.

Amanhã, quem tiver recursos económicos, não vai querer que seja o acaso a definir qual espermatozóide irá fecundar qual óvulo. Vai querer ter a certeza que os gametas têm qualidade e que não transportam qualquer gene que possa comprometer o futuro do novo ser e, se possível, que tenha todos os que entendemos como benéficos para o sucesso social – ser alto, louro, ter olhos verdes e, uma especial apetência para as ciências abstratas, pois é nelas que se irão centrar os novos investidores.

Foi na China que se deu este primeiro passo e não nos USA., por ali não haver a mesma pressão ética e por o seu Concelho de Estado ter elegido a investigação genómica como um pilar das suas ambições industriais para o século XXI. As suas empresas habitam uma zona cinzenta entre o sector público e o privado e são abençoadas pelo Banco de Desenvolvimento da China com “milhões” que, a par com o baixo custo de mão de obra, os irá pôr na linha da frente. 

A Notícia é de 28/09/2017

Pesquisadores chineses afirmam ter realizado pela primeira vez no mundo uma "cirurgia química" em embriões humanos para extrair uma doença.

A equipe da Universidade de Sun Yat-sen usou uma técnica chamada "edição de base" para corrigir um único erro entre as três biliões de "letras" do nosso código genético.

Eles alteraram embriões feitos em laboratório para extrair a doença talassemia beta. A equipe disse que a experiência pode levar, algum dia, ao tratamento de uma série de doenças herdadas geneticamente.

A técnica altera a construção base do DNA.

A talassemia beta é uma doença do sangue que causa anemia e pode levar à morte. É provocada por uma mudança numa única base no código genético - conhecida como mutação pontual.

Os pesquisadores chineses "editaram” o DNA e trocaram o G (guanina) por um A (alanina) corrigindo o problema.

"Somos os primeiros a demonstrar a viabilidade de curar doenças genéticas em embriões humanos a partir de um sistema de edição de base", disse à BBC Junjiu Huang, um dos cientistas do grupo, e continuou: "o estudo abre novas portas para tratar pacientes e prevenir bebés de nascerem com a talassemia beta, e até mesmo outras doenças hereditárias".

As experiências foram efectuadas com tecidos de um paciente com a doença e através de embriões humanos criados a partir da clonagem.

Revolução genética

A edição de base é um avanço em relação a outra forma de editar genes, a técnica conhecida como Crispr, que já está a revolucionar a ciência.

A Crispr quebra o DNA. Quando a célula tenta consertar a quebra, desactiva uma série de instruções genéticas, e cria a oportunidade de inserir novas informações genéticas.

A edição de base faz com que as próprias bases de DNA se transformem umas nas outras.

O professor David Liu, pioneiro da edição de base na Universidade de Harvard, descreveu o método como "cirurgia química".

Afirma que a técnica é mais eficiente e tem menos efeitos colaterais indesejados do que a Crispr.

"Cerca de dois terços das variantes genéticas humanas associadas a doenças são mutações pontuais. Portanto, a edição de base tem o potencial de corrigir directamente, ou reproduzir para fins de pesquisa, muitas mutações patogénicas".

O grupo de cientistas da Universidade de Sun Yat-sen em Guangzhou (China) foi manchete quando  foram os primeiros a usar a técnica Crispr em embriões humanos.

O professor Robin Lovell-Badge, do Instituto Francis Crick em Londres, disse que determinados trechos desse último estudo são "engenhosos", mas também questionou por que não fizeram mais pesquisas com animais antes de irem directamente aos embriões humanos e afirmou que as regras sobre pesquisas com embriões noutros países teriam sido "mais rigorosas".

O estudo, publicado na revista científica Protein and Cell, é o mais recente exemplo da rapidez na evolução da habilidade dos cientistas de manipular o DNA humano, o que está a provocar um debate profundo de ética na sociedade, sobre o que é e o que não é aceitável nos esforços para prevenir doenças.

O professor Lovell-Badge disse que esses métodos dificilmente serão usados clinicamente em breve:
"Serão necessários muito mais debates sobre ética e sobre como esses métodos serão regulados. E, em muitos países, incluindo a China, é necessário ter mecanismos mais robustos para regulação, fiscalização e acompanhamento a longo prazo."


E eu que já ando neste mundo há uns bons pares de décadas, contraponho: 
- Se uma coisa pode ser feita, ela irá ser feita. Aqui, ali, às claras ou às escuras!

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Pensamentos do Dia



“The whole problem with the world is that fools and fanatics are always so certain of themselves, and wise people so full of doubts.”
Bertrand Russell

Não é preciso acreditar em deuses ou mitos, desde que se saiba que as certezas são temporárias e não absolutas. O único conceito absoluto é que nada é absoluto!
O problema surge quando, carregados de dúvidas, ficamos paralisados e não vamos a lado nenhum.  
Não é necessário, nem suficiente, nem indispensável, ser fanático para se ter uma certeza suficiente para resolver os problemas que se nos deparam.  
António Gomes

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Querer


Razão tinha o Eusébio. Não basta querer. É preciso querer Querer! ... Acreditar! Ter Fé! ... Na vitória de um jogo, no sucesso de uma empreitada, no futuro da Humanidade ou  na Vida Eterna, ... Amén!, Mesmo quando nos bombardeiam com histórias mal contadas ou com soluções inviáveis, é preciso ter Fé, pois são os Deuses, os Mitos e as Crenças, que dão oportunidade ao Acaso e tornam o Incerto possível .
...
Mal de quem tem dúvidas, onde a maioria tem certezas infundadas!

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Dores


Há a dor física, a dor moral e a dor de antever uma grande dor.
Há quem se previna e quem a aguarde.
Há quem viva dela e para ela.
E há quem a tente ignorar.

Há os médicos, os deuses, os santos e os psicólogos.
E há ... o Marcelo para as dores de Telejornal.
Uns curam ou ajudam. Outros ... agravam!

São tantas as dores e tantos os graus com que se sentem,
que não há remédio, que a todos alivie!



Triste de quem der um “ai” sem achar eco em ninguém!

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Insólito

Num Banco da Póvoa de Varzim

terça-feira, 4 de julho de 2017

domingo, 2 de julho de 2017

Wishful thinking



Wishful thinking é uma expressão idiomática inglesa que significa tomar decisões ou seguir raciocínios baseados em desejos, em vez de em factos ou na racionalidade.
Basicamente é uma "fé" em que não hão-de surgir grandes problemas ou, se eles surgirem, havemos de desenrascar uma qualquer solução e tudo irá acabar bem.
Do mestre de obras ao Ministro, há sempre alguém disponível para liderar um projecto que nasce coxo e com fracas possibilidades de se acertar.
O resultado destas lideranças depende da sorte de não lhe surgirem problemas que revelem toda a fragilidade decorrente do incumprimento de normas elementares.

Ele são médicos que assumem chefia de Serviços sem garantirem os meios necessários para a correcção dos erros sistemáticos de que têm conhecimento prévio à sua tomada de posse, são Ministros que dizem assumir a responsabilidade política por erros de gestão gravíssimos de Instituições a quem é pedido a máxima competência, mas que só se mostram "agressivos" na sua correcção, quando a disfunção lhes bate à porta, etc...

Aqui, "Chico-esperto" com historial de corrupção concorre e ganha nas Eleições autárquicas, o amigo do Partido recebe a paga pelo envolvimento eleitoral, o filho do cacique entra nas Instituições por mãos travessas e quando chega o verão lamentam os incêndios e a falta de ordenamento do território e no Inverno o choro de quem vive nas linhas de água ou junto ao mar, atirando responsabilidades para a Natureza ou para as costas uns dos outros, por terem estado enredados com problemas comezinhos, sem qualquer visão de futuro.

Quando se lida com coisas de pouco valor, o "wishful thinking" até funciona, mas quando se trata com a vida das pessoas ou com património de grande utilidade, todo o cuidado é pouco, para não se ser obrigado a explicações "esfarrapadas" como aquelas que ultimamente temos ouvido sobre a catástrofe de Pedrógão Grande, sobre o roubo de armas de guerra do paiol de Tancos ou para desvalorizar a falta de monitorização das curvas de aprendizagem!

Pouca gente com mérito se disponibiliza para assumir responsabilidades quando lhe restringem, não só o orçamento, como o poder para alterar procedimentos, se uma Instituição necessita de modernização e racionalização de recursos.

É esse o espaço para os arrivistas do "wishful thinking" e do "fizemos tudo quanto era possível!"

terça-feira, 27 de junho de 2017

Doença mental


1:
29 anos. Refere problemas familiares de longa data. "Os pais querem-no expulsar de casa e insultam-no frequentemente, reclamando os cuidados e gastos que têm com ele!".
Não se sente acarinhado. Refere violência mútua e chamadas para a GNR. Pretende morar sozinho, mas não tem estabilidade económica para tal.
Afastou-se da família. Está descontente com o emprego, porque é muito exigente e os problemas em casa não o deixam concentrar. Terá recebido um alerta para possível despedimento. Descreve relação razoável com os colegas, assumindo algumas divergências como "questões de feitio".
Necessita de medicação para dormir, por causa do cão da vizinha, que faz barulho à noite. Pratica desporto no ginásio.
Diz-se "molestado, traumatizado e desesperançado" porque não o valorizam. Fala em arranjar um advogado para processar a família.
Está colaborante e orientado. Atenção e concentração mantidas. Humor deprimido, com labilidade emocional. Sinais de ansiedade e irritabilidade. Baixa auto-estima. Discurso lógico e coerente, pueril e em fluxo acelerado. Sem alterações do conteúdo do pensamento. Traços de personalidade impulsiva. Nega alterações perceptivas. Sem ideação suicida estruturada.
...
Após umas horas diz-se melhor. Acha que exagerou e que estava a ser injusto com a família.... Quer voltar de novo a trabalhar!

2:
45 anos, solteira. Vive com irmã e sobrinha. Desempregada. Iniciou pedido de reforma. Completou a 4ª classe aos 15 anos e tirou o 9º ano através das Novas Oportunidades.Tem diagnósticos de Oligofrenia leve/moderada e de Perturbação bipolar.
Há 15 dias que se sente "mais nervosa... a falar mais... e com toda a gente. A rir-se muito!...".
A acompanhante nota-a "acelerada e desinibida... com períodos de euforia". Não tem tomado a medicação.
Aspecto minimamente cuidado. Colaborante. Desinibida. Discurso espontâneo e coerente, pobre em conteúdos. Sem evidencia de actividade heteróloga.

3:
68 anos. Viúva. Sem filhos. Vive só. Doméstica. Concluiu a 3ª classe aos 12 anos.
Terá passado a noite a tomar banho e, durante o dia, esteve sempre a "tirar a roupa" e com discurso confuso ... "
A deambular sozinha pelo corredor. Prontamente acompanha-me ao gabinete. Está orientada sorridente e calma, mas facilmente irascível. Impaciente com a insistência das questões. Aspecto minimamente cuidado. Humor alternando rapidamente entre a eutimia e a irritabilidade.
Inicia o discurso em voz ciciada, que evolui para timbre normal.
Discurso tangencial, por momentos incoerente - "eu fui ontem visitar uma pessoa... fechei mal a garrafa... molhei os documentos... fiquei com estes... que meti na parede...".
Pergunto como se ocupa em casa e responde "faço essa camisola que tem vestida... essa bata também".
Reconhece estar no hospital. Assume que se despiu da cintura para baixo e que esteve a tomar banho a noite toda.  ... Na minha casinha faço o que quero! ... Estava no jardim e chamei o INEM! ... Não!, ... Chamaram!...".
Por vezes o discurso tem conteúdo de prejuízo: "as minhas vizinhas chamam - ó vaca!, ... querem-me mal!", mas refere "estar sempre bem disposta!".
Sem ideação suicida. Sono irregular. Apetite diminuído com percepção de perda ponderal. Nega consumos etílicos ou tabágicos.

4:
58 anos. Casado. Dois filhos. A atravessar problemas pessoais com a esposa. Em "situação de despejo" da habitação onde reside.
Hoje de manhã terá feito tentativa de suicídio por enforcamento. Há dias que andava a pensar nesta solução para os seus infortúnios.
Apresenta-se com o colar cervical e com alguma dificuldade em falar. Choroso. Humor lábil. Sentimentos de angústia e de desesperança. Ideação suicida não estruturada. Foi já acompanhado por Psiquiatria.
Descreve angústia, irritabilidade, sono fragmentado e anedonia de há um mês. Apetite preservado.
Está colaborante e orientado. Aspecto suficientemente cuidado. Postura adequada. Emociona-se ao falar dos seus problemas actuais. Humor depressivo. Afectos congruentes. Crítica preservada para a situação. Mostra arrependimento perante o gesto realizado. "A minha ideia está fora de questão! ... Arrependido e de que maneira!...".
Nega hábitos etílicos ou tabágicos regulares. Nega toma de medicação regular.

5:
50 anos. Casada, em processo de separação. Tem duas filhas (uma a viver em França).
Trazida ao Serviço de Urgência por comportamentos parassuicidários. Segundo a própria "queria atirar-me aos carros para morrer, porque não tenho para onde ir! ..."
Refere história familiar/social complicada, fornecendo dados pouco consistentes. Diz que foi vitima de violência doméstica por parte do marido e que esteve numa casa abrigo até finais do ano. Nessa altura, e por sua livre vontade, regressou ao domicílio. Entretanto, por dívidas contraídas, a casa teve que ser hipotecada. O marido recusa recebê-la, razão pela qual verbaliza pensamentos de morte.
Está a ter acompanhamento por Psiquiatria, por Perturbação da Personalidade. Já teve dois internamentos psiquiátricos.
Está orientada e colaborante. Bom estado geral. Discurso fluente, lógico e coerente, pobre em conteúdos e muito inconsistente. Humor triste, congruente com a situação vivencial. Sem delírios ou alucinações. Sem ideação suicida estruturada. Juízo crítico preservado.

6:
26 anos. Casado. Vive com a esposa e os três filhos dela e mais a mãe. Tem o 9º ano de escolaridade.
Ontem à noite fez tentativa de suicídio por enforcamento.
Está acompanhado pela esposa. Ambos referem ambiente familiar difícil porque a mãe é muito invasiva e não dá espaço ao casal.
Foi já acompanhado em Psiquiatria por sintomas depressivos, mas faltou à consulta agendada. Ontem, após discussão familiar, foi encontrado pela esposa inconsciente, no monte, com uma corda a dar 3 voltas ao pescoço. Após algumas "compressões" recuperou a consciência e foi trazido ao SU, onde foram excluídas lesões orgânicas.
Segundo a esposa, esta não foi a primeira tentativa de suicídio. Há duas semanas fez alguns cortes nos pulsos com uma faca.
Está orientado e moderadamente colaborante. Postura reservada. Responde apenas quando solicitado, com discurso lógico e coerente, pobre em conteúdos. Sem actividade delirante ou alucinatória. Mantém ideação suicida estruturada.

7:
62 anos. Casada. Três filhos que residem em França.Vive com marido e o pai de quem é cuidadora. Tem a 4º classe.
Trazida ao SU após ingestão voluntária de medicamentos.
Sente-se saturada "de aturar o marido" que "está constantemente a queixar-se de dores de cabeça".
Ontem, após ter regressado da piscina, ingeriu 10 comprimidos, depois de o ouvir queixar outra vez "da cabeça". Diz não ter motivos para viver. Está longe dos filhos e não tem apoio do marido. Pertence ao grupo coral da igreja. Durante a entrevista, atende vários vezes o telemóvel (marido + padre ?).
Aspecto e vestuário muito cuidados e investidos, desapropriados para a sua faixa etária. Postura apelativa, teatral. Discurso coerente e fluente, mas muito circunstancial, focando os seus problemas no marido. Humor eutímico, malgrado referir não "ter motivo para viver". Ligeiramente ansiosa.
Sem actividade heteróloga. Apesar de verbalizar ideias de morte, não apresenta ideação suicida estruturada. Traços de personalidade histeriforme, com conflitos conjugais de longa data.
Está a ser medicada por psiquiatra privado.
Entra-se em contacto telefónico com o marido - Não tem disponibilidade para se dirigir ao hospital. Fica irritada ao sabê-lo. Será um amigo que virá.

8:
32 anos. Solteira. Vive com uma filha menor, após ruptura conjugal. Completou 9º ano, com 2 reprovações. Trabalha num restaurante.
Tem recorrido ao SU por crises ansiosas, com somatizações várias e está medicada com antidepressivos.
Há dois anos que anda mais depressiva, após a saída do companheiro de casa. Afinal está detido por assaltos.
A sua família nunca favoreceu esta relação. Anda receosa e tem medo de ser envolvida nos processos legais do ex-companheiro.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Depressões


1
32 anos. Tem o 9º ano (3 reprovações). Separado há 1 ano, após 12 anos de união de facto. Vive com os pais. Tem um filho.
Está acompanhado pela mãe que descreve tristeza, irritabillidade, choro fácil e pensamentos obsessivos em relação à separação. Fez ameaças à ex-companheira e tem queixas na polícia.
Já foi medicado, mas suspendeu o tratamento, por iniciativa própria. Tem mantido a actividade profissional. Refere ingestão de "muitas” cervejas no final do trabalho. Fuma 1 maço e meio por dia. Nega consumo de outros tóxicos.
Inicialmente muito defensivo, progressivamente mais colaborante, até choro profuso. Por fim, calmo, assume necessitar de ajuda. Humor depressivo. Afectos congruentes. Reconhece, por momentos, a existência de pensamentos suicidas e homicidas. Sem actividade delirante ou alucinatória. Sono fragmentado. Apetite e Insight preservados.

2:
65 anos. Divorciado. Seis filhos. Apenas mantém relação com um deles. Reformado por invalidez. Só sabe escrever o nome. Frequenta Centro de Dia. Tem défice cognitivo e síndrome de dependência do álcool. Foi já seguido em Psiquiatria. Fez tentativa de suicídio em 2014 – atirou-se de um muro de três metros de altura, de que resultou hemorragia fractura da base do craneo e da clavícula esquerda. Mantém consumos. Ontem chegou ao Centro alcoolizado.
Quando etilizado torna-se agressivo e, muitas vezes, precipita-se contra os automóveis.
Está colaborante e parcialmente orientado (não sabe o ano). Atenção e concentração mantidas. Humor eutimico. Sem sinais de ansiedade ou comportamento agressivo. Discurso dificultado pela paralisia das cordas vocais e hipoacusia. Focado nas queixas de "querer comer e só lhe darem comida passada". Sem alterações da percepção ou do conteúdo do pensamento. Nega ideias de morte ou ideação suicida estruturada.

3:
54 anos. Casada. Reside com o marido, filha e genro. Reformada por invalidez. Tem a 4º classe.
É seguida em Psiquiatria por Depressão Major recorrente e ansiedade. Faltou a última a consulta e reduziu a terapêutica por moto próprio.
Refere vários problemas de saúde nos familiares próximos e estar muito preocupada com eles, insónia de há 1 mês, agravamento das cefaleias e anedonia: "Faço porque tenho de fazer! Se os outros não fazem, faço com raiva!".
Tem tido pensamentos de morte, mas sem ideação suicida: . "Acho que ninguém me vai aturar! Sou muito chata!"
Está colaborante e orientada. Aspecto cuidado. Sem labilidade emocional. Ansiosa. Sem alterações da percepção ou do conteúdo do pensamento.

4:
22 anos. Solteira. Reside com os pais e avós. Está desempregada, há 2 semanas - foi despedida, porque “esteve de atestado!”.
Sente-se mal e muito deprimida, após ruptura de relação amorosa, que durava há 1 ano. Ficou em casa. Só chorava e a mãe insistiu para vir ao médico.
Foi já acompanhada por Psiquiatria e tem diagnóstico de Debilidade Intelectual.
Está orientada e colaborante. Bom estado geral. Discurso fluente, pobre em conteúdos, mas lógico e coerente. Humor lábil, congruente à situação vivencial. Sem actividade delirante ou alucinatória.

5:
36 anos.  Tem o 4º ano de escolaridade com reprovações e referência a dificuldades de aprendizagem.Vive em união de facto. Não tem filhos. Trabalha aos fins-de-semana num restaurante. Mãe e irmã com problemas ligados ao álcool. Pai já faleceu.
Está a ser acompanhada em Psiquiatria após episódio de ingestão medicamentosa voluntária. Há dias que se sente mais cansada, o que atribui a sobrecarga profissional.
Ontem, ingeriu dez comprimidos de um ansiolítico “porque queria descansar!”. Depois, sentiu-se muito sonolenta, ficou preocupada, e alertou uma colega. Na admissão tinha alcoolemia de 1.41 g/l. Depois de confrontada com a análise, refere ter ingerido uma garrafa de vinho do Porto. Admite ainda abuso crónico de bebidas alcoólicas, afirmando que não bebe mais, porque o companheiro a controla.
Neste momento, sente-se bem. Verbaliza arrependimento para o seu gesto, embora de forma pouco consistente. Está orientada. Aspecto cuidado. Moderadamente colaborante, com postura defensiva. Contacto pueril. Discurso lógico e coerente, com acentuada pobreza de conteúdos. Humor deprimido, com labilidade emocional. Embora negue ideação suicida, parece ambivalente neste aspecto.
O companheiro descreve consumos regulares de bebidas alcoólicos que são a causa da conflituosidade conjugal. Faz ainda referência a relacionamentos extra-conjugais por parte da doente. Diz que o relacionamento está terminado e que não a aceita em sua casa.

6:
Há dois dias faltou-lhe a medicação e sentiu vontade de beber. Diz ter bebido 3 copos de bagaço. Depois, não se lembra de mais nada.
Segundo a irmã, quando bebe, torna-se verbalmente agressiva com a mãe, o namorado e ela própria.
Aparenta estar etilizada e desinibida. Tem discurso fluente, coerente e lógico. Juízo crítico preservado. Repetiu alcoolemia. Tem 1,33 g/L. A pesquisa de drogas na urina é positiva para canabinóides e benzodiazepinas.

7:
Trazido pela GNR com mandado de condução.
É casado e tem uma filha a estudar. Faz biscates. Tem história de depressão. É grande fumador e nega consumos abusivos de álcool.
Há uma semana teve discussão com esposa por causa de dinheiro que desapareceu em casa. Há dois dias, ela ameaçou abandonar o domicílio e houve ameaças de ambas as partes.
Assume que partiu a chave de casa para a impedir de sair, por ainda lhe manter afecto. Está convencido que ela irá pedir o divórcio.
Refere dificuldades económicas. É o único que trabalha. A esposa aufere subsídio por doença profissional e tem doença oncológica. Nega ideação suicida ou homicida. Diz andar mais nervoso, … mas ela também.
Está colaborante e orientado. Parcos cuidados de higiene, mas com apresentação minimamente cuidada - estava deitado quando o foram buscar a casa. Tem discurso organizado e coerente. Humor ansioso. Sem actividade delirante. Juízo crítico presente.

8:
Solteiro, sem filhos. Trabalha numa fábrica. Tem o 12º ano incompleto. Ex-consumidor de canabinóides. Vem acompanhado pelo pai.
Diz que tem dormido mal e ter suores frios. Anda irritado, o que relaciona com a meteorologia. - "Quando está sol, estou melhor!". Quer ir trabalhar, mas custa-lhe. Sente-se “dentro de uma gaiola”. Foi já seguido em Psiquiatria por Psicose Afectiva. Não tem ido às consultas. Diz ter feito o desmame da medicação sozinho.
- "Fui viciado em drogas! Não ia, agora, ser viciado em medicamentos!". Hoje só quer "medicação para dormir".
Está colaborante e orientado. Aspecto investido. Humor irritável. Discurso coerente e lógico, sem alteração do timbre ou ritmo. Sem actividade heteróloga. Sem pensamentos de morte ou ideação suicida. Crítica mantida.

9:
64 anos. Casado. Dois filhos. Reformado por invalidez. Esteve emigrado. Está em Portugal desde 2001. Foi seguido por Psiquiatria por depressão. Há quatro anos, abandonou a consulta, mas manteve a medicação prescrita. Refere agravamentos sobretudo quando muda a estação do ano. Há duas semanas sem vontade de sair da cama. Nega alteração do apetite. Bom aspecto geral. Discurso coerente, lógico, sem alteração do ritmo ou timbre. Sem pensamentos de morte. Crítica mantida.

10:
68 anos. Casada. Seis filhos. Vive com o marido. Reformada. Escolaridade: 4ª classe.
Tem diagnóstico de "depressão neurótica". Sente-se mais triste e com menos apetite. Com maus pensamentos. "Esta medicação que estou a fazer, há muitos anos, já não está a fazer nada!" ..."Esta doença, é uma doença muito má!".
Aspecto cuidado. Discurso fluente coerente e lógico. Humor deprimido com pensamentos ambivalentes relativamente a morte. Juízo critico conservado.

11:
49 anos. Analfabeta. Vive só.
Vem com carta a referir "alteração do comportamento, abuso crónico de álcool, alucinações visuais e auditivas. Terá invadido a casa de um vizinho com o intuito de "retirar alguém de dentro que estaria fechado!"
Aspecto humilde. Vestida totalmente de preto. Idade aparente superior a real. Discurso pobre, embora lógico e coerente. Humor eutímico. Sem alterações da forma e conteúdo do pensamento. Sono e apetite regulado.
Recusa qualquer tipo de intervenção. Assina termo de responsabilidade.

12:
52 anos. Casada. Vive só. Reformada. Cuida da casa, sem outras actividades.Teve oito filhos (5 vivos). Três emigrados, dois na região Centro.  Marido preso por tráfico de droga.
HIV+. Foi acompanhada em Psiquiatria por perturbação de personalidade. Faltou às consultas.
Nas últimas semanas tem-se sentido muito em baixo, preocupada com o marido e com o seu estado de saúde. Não lhe apetece arranjar-se. Diminuição do apetite.
Colaborante e orientada. Discurso coerente e lógico, sem alteração do ritmo ou timbre. Pensamentos de morte passivos. Crítica mantida.

13:
55 anos. Casada. Dois filhos. Vive com marido e um filho. Funcionaria pública. Completou 12º ano. Esteve já longos períodos de baixa médica.
Diz depressão reactiva a problema laboral. Nas últimas semanas, marcada obsessão pela possibilidade de regresso ao trabalho. Aparente quadro histeriforme. Grita, insónia, inquietação. Sente que a perseguem. Acha que andam carrinhas atrás de si! Chorosa por momentos.
Humor lábil. Verbaliza pensamentos passivos de morte. Sem planos de concretização. Sem alterações da percepção. Sem aparente ideação delirante, quanto muito ideias sobrevalorizadas e discreta auto-referência.


sexta-feira, 5 de maio de 2017

Yuval Noah Harari









Yuval Noah Harari (Haifa, 1976) é professor de História e lecciona no departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Diz que não é um Profeta, mas eu elege-o como tal. "I don't think he is as widely recognized as he deserves to be, but, in my opinion, Yuval Harari will become one of the most influential thinkers of the XXI century".

O Youtube tem muitas aulas suas disponíveis e os dois livros que recentemente escreveu - "Sapiens: Uma breve História da humanidade" (2014) e "Homo Deus: Uma breve história do amanhã" (2016), são uma verdadeira Bíblia, que toda a gente que se preocupa com o evoluir da Humanidade tem obrigação de ler.

domingo, 30 de abril de 2017

O amado


As paixões não têm idade. Embora gostemos de o pensar, as nossas vidas não são assim tão diferentes e aquilo que acontece a uma pessoa, acontece a muitas mais. Já o dizia a Dee Dee do Bukowski, que sabia uma ou outra coisa da vida. O Bukowski também, mas talvez menos, já que estava tão convencido da sua excepcionalidade.

A minha velhinha está apaixonada. Tem 91 anos, enviuvou há mais de 30 de um POW da Segunda Grande Guerra, e está perdidamente apaixonada. Para complicar a situação, está apaixonada por um holandês de 66 anos. Sim! Outro cliché! Não só as paixões atacam a qualquer idade, como a partir de determinada altura, os anos de vida já não contam para nada. Somos todos adultos, é ou não é?

Todos os dias, por volta das 8 da manhã, vou até ao quarto da Mrs. R. e abro as cortinas às flores, pesadas e rotas pelo sol e pelo pó. Ela abre os olhos remelosos pela querato-conjuntivite seca e pergunta-me se já tem de se levantar. É que não lhe apetece nada. Está tão bem ali. Pergunto-lhe se não quer tomar o pequeno-almoço e ela, com um ar entre o preguiçoso e o covarde (como na música do Chico), diz que tem muito sono de manhã e pede mais 10 minutos, com o rádio ligado na estação da música clássica. Todos os dias ela faz tudo sempre igual e não se sacode da cama de forma nenhuma. Lá lhe dou os 10 minutos, que na verdade são vários 10 minutos (cerca de 4) e ela lá se dispõe ao pequeno-almoço. E sussurra 'Está-se tão bem aqui!... Será que eu podia, hoje, tomar o pequeno-almoço na cama?'. Há dois anos que Mrs. R. toma o pequeno-almoço na cama, todos os dias, depois de ter tropeçado escadas abaixo - exactamente quando ia preparar o pequeno-almoço - e, na queda, partir o pescoço. Como conseguiu chegar ao telefone, de pescoço partido e do alto dos seus já 89 anos, para chamar a ambulância, é mistério que eu não sei explicar. Caríssimos, eu só falo do que sei e só estou aqui há 1 semana. Isto contaram-me! E quem sou eu para duvidar!

Depois do pequeno-almoço, partilhado com a pequena Lulu Bell, a caniche preta (Oh! angel child!, suspira a Mrs. R.), e de mais uns valentes 10-40 minutos de ronha, são horas de sair da cama. O sonho de Mrs. R. é não ter de sair da cama. Nunca. No outro dia, depois de 3 espirros, perguntou-me se se desse o caso de estar com uma constipação, podia ficar na cama o dia inteiro. Não! Não é opção! As manhãs, ou o que sobra delas, são passadas na drawing room (sala onde nunca vi um lápis de cor, um caderno de desenho ou um pincel), mas onde nos sentamos à frente da lareira e da televisão o resto do dia, entre o "Downtown Abbey" e os numerosos assassinatos que acontecem todos os dias na Inglaterra e respectivos super-detectives - minha nossa, tanta gente morre, todos os dias, nestas terras!!! Felizmente há o Frost, o Morse, o Sherlock, a Vera, o Poirot, a Miss Marple e mais uns tantos inspectores, policias e até a jardineiras do Rosemary and Thyme para prender essa escumalha!. Entre isso, rainhas, Reis e príncipes encantados, há uma presença obrigatória, e é logo o primeiro a abrir a sessão - André Rieu, o amado!
 Mal a encaminho para o sofá, Mrs. R. pergunta - Será que podemos ver o André Rieu? E lá abrimos o youtube e ficamos com as valsas do Mr. Rieu até à hora de almoço, às vezes a tarde toda, às vezes até à hora de ir dormir. André Rieu em Viena, André Rieu em Maastrich, André Rieu no cruzeiro do amor, na Escócia, na Ópera de Sydney. "Isn´t he wonderful, Helêna? don´t you think he´s wonderful?"

André Rieu, para os meus leitores ignorantes, é a super-estrela da música clássica. É a Beyonce do violino, o Bieber da Valsa, o Jagger das Orquestras! É uma estrela! Há-de ser o primeiro a tocar uma valsa na Lua, promete a cada entrevista a partir do seu Chateau em Maastritch, que em tempos pertenceu ao Charles de Batz-Castelmore D´Artagnan, aquele em que o Dumas se inspirou para os famosos mosqueteiros. E oh! She loves him! São horas a sorrir para a televisão, a sonhar com uma valsa nos braços do senhor. "Isn´t he beautiful? Gorgeous!" diz ela.

A minha avó, em tempos, também se apaixonou por uma estrela. Estávamos em 1945 e ela andava de beicinho pelo Francisco José. Reza a história que tinha posters e t-shirts assinadas e que ía a todos os concertos, mas nisto eu acredito pouco - a minha família é muito mentirosa e tem como lema porquê estragar uma boa história com a verdade... foi assim que me contaram e eu juro que prometo que até nem acrescentei um ponto ou outro... Diz que o meu avô, na altura jovem marido ciumento, teve de intervir, e, com uma sacudidela valente, arrancou "o chora" (assim lhe chamava e chama o meu avô, quando esta história vem à baila) lá de casa!

Ora, Mrs. R. já não tem o seu marido para se enciumar e quem me conhece sabe que, sendo membro número um e co-fundadora do Sindicato das Cartas, mesmo estando demissionária há algum tempo (não tendo ninguém se apresentado para o posto), não poderia deixar esta história de amor passar em branco. Vai daí, disse "Oh Mrs. R.! Olhe lá! Isto de ficarmos aqui a babar para o moço, não tem jeito nenhum! Acho que bem, bem, era mandar-lhe uma carta de amor!" Oh a cara dela! "Can we?" Claro que podemos Mrs. R.! Não só podemos, como temos! É proibido, pelos estatutos do Sindicato das Cartas, não enviar as cartas de amor! "E nós sabemos a morada dele?" Saber, não sabemos, Mrs. R.! Mas perguntamos ao google! E vai daí, sai carta de amor para a Holanda.

Reza a história que a Mrs. R. nem sempre foi um amor de mulher. Senhora e dona de uma Manor magnífica e dos 54 hectares em volta, sempre foi de arregaçar as mangas e conduzir o tractor terreno afora e ser ela a primeira a pegar na moto-serra para cortar as árvores abanadas pelos temporais. A Manor, por si só, já lhe daria direitos feudais (isto para não falar dos casacos de peles e dos colares de pérolas e o fino gosto de preferir comer a sopa de lata com colher de prata e não com a de estanho que, por acidente (qual acidente, ignorância! lhe levei no tabuleiro do almoço) mas agora, ali meio abandonada, sem família ou criados por perto, sem ninguém para lhe ouvir as ordens ou clamar as jóias, já não se preocupa com coisas maiores do que a selecção diária de programas de televisão. "Às vezes, esqueço-me de quão próxima sou da família real!", diz-me, quando aparece o príncipe Carlos, de bochechas vermelho reluzente, na televisão. "Está com um ar acabado, o príncipe, não está? Eu sou prima de um barão! Ele era boa pessoa e eu gostava muito dele, mas às vezes ficava louco e a minha avó trancava-o no quarto ao lado do nosso quarto de crianças. Mas ele era realeza e era meu primo!." Agora, raramente se lembra disso e ainda bem, porque às páginas tantas, a minha vida era muito mais complicada e não podíamos mandar cartas de amor ao Rieu, mesmo ele vivendo num castelo na Holanda.

História de  H. G.

domingo, 23 de abril de 2017

O Fim da Lei da Selva


Desde a Idade da Pedra até à Época do Vapor, e do Árctico ao Sahara, todos sabiam que, de um momento para o outro, um vizinho poderia invadir o seu território, derrotar o seu exército, chacinar a sua população e ocupar a sua terra.
Durante a segunda metade do século XX, esta Lei da Selva, foi finalmente quebrada, ou melhor, revogada e, na maior parte do mundo, as guerras nunca foram tão raras.
Enquanto nas sociedades agrícolas antigas a violência era a causa de 15% de todas as mortes, durante o século XX, apesar das duas guerras mundiais, a violência causou 5% das mortes, e no início do século XXI é responsável por 1% da mortalidade global.
Em 2012, morreram cerca de 56 milhões de pessoas do mundo; 620.000 das quais de morte violenta – a guerra matou 120.000 e o crime 500.000.
Por sua vez 800.000 pessoas cometeram suicídio e 1,5 milhões morreram de Diabetes. O açúcar é, actualmente, mais perigoso que a pólvora.


In “Homo deus” de Yuval Noah Harari

quarta-feira, 19 de abril de 2017

A espera


Tem 99 anos e está à espera do fim. Não tem doença “de maior”, mas todas as limitações do mundo. É cega, mal se aguenta nas pernas, ouve mal e, recentemente, o Clínico Geral que a segue há vários anos, diagnosticou-lhe “demência”, coisa que eu duvido. Ou melhor, às vezes sim, outras, não! A verdade é que a fúria facilmente se confunde com loucura e a raiva que ela tem, por não ser capaz de dar dois passos, seguir uma conversa ou de apreciar uma belo prato de comida (o paladar também já se foi), tolda-lhe o pensamento. Está zangada com o mundo e, como tal, grita. Se pudesse, batia no mundo. No mundo todo! De preferência com um pau.

Foi uma grande mulher, daquelas de mangas arregaçadas e para a frente é que é o caminho. Casou cedo e, dois dias antes do nascimento da sua primeira filha, já era viúva. O telegrama de guerra, sobre a morte do seu marido, chegou quando ainda estava deitada na cama do hospital a amamentar pela primeira vez. Casou, anos mais tarde, com o pediatra da filha e nunca mais falou do homem que perdeu na guerra. O novo não gostava e ... para a frente é que era o caminho. Teve mais três filhos de quem foi mãe implacável. Fez de raiz as roupas das crianças, cozinhou para seis, todos os almoços e jantares e bolo para o lanche, trabalhou com assistente do novo marido, fez voluntariado, correu o mundo de auto-caravana e a Europa, à boleia, com a filha mais velha. Não deve ter parado um segundo. Fortíssima, esta mulher!

Quando a conheci, mais ou menos, há um ano, já estava bastante fraca. Acabava de regressar de três meses no Canadá, onde tem dois dos filhos emigrados. Teve um enfarte no dia anterior à viagem de volta e contou-me, a rir-se da confusão que criou, como teve de ser evacuada de helicóptero da ilha de Galliano. Comia com prazer e queria saber tudo sobre tudo. Passávamos os dias, já lentos, é claro, a ouvir a radio BBC-4 e a discutir os direitos das mulheres ou o sentido da vida, a guerra na Síria ou os atletas russos banidos por doping dos jogos olímpicos. Também vimos os jogos olímpicos - ela sentada na sua poltrona com o olho azul pregado no tecto e eu, ao lado, a fazer o relato das acrobacias dos ginastas da team GB. Ela ria e batia palmas.

Agora grita, quando a pontada lhe atinge as costas, 'Turn it off!!!! Turn it off!!! Please! Turn it off!!!' e eu fico sem saber se ela está a falar da dor ou da vida. Quando a pontada lhe atinge as costas (está amansada pelos analgésicos), suspira profunda e sonoramente, como se fosse um pirata 'Aarrrggg!!!!' e depois diz baixinho ' I can't take this anymore!', eu sei que ela está a falar com Deus. Ela que sempre foi ateia, … a falar com Deus!
Os dias, agora, são passados em silêncio, que é a forma mais correcta de se estar numa sala de espera. De vez em quando, há uma impaciência e um grito, um atirar a mesa para o fundo da cozinha. Qualquer interrupção do silêncio, por mais de dois minutos, leva com um 'Aarrrggg!' e … ficamos assim.
Os netos, antes, telefonavam amiúde e ela perguntava sem pudor 'Como vai a vida amorosa?' e, depois do telefonema, perguntava-me o mesmo a mim. E ria-se. Ou franzia a testa, quando era caso disso. Ou resmungava comigo, que assim não ia lá. Agora, os netos já raramente telefonam e ela também já não tem conversa para eles. O telefone incomoda e quase não se percebe o que dizem do outro lado pelo que ela opta por perguntar apenas 'como vão as coisas contigo' sem se importar com a resposta e despede-se 'All good for the next adventures!', que é uma coisa que vai bem com tudo.
De vez em quando pergunta-me 'And what's next?' e a seguir, que vamos fazer? e eu nem sei como responder. A resposta correcta seria esperamos um pouco mais. Depois, almoçamos. E depois, … esperamos. Às cinco, tomamos o chá que já não te sabe a nada. Darás uma golada e dirás 'Obrigada! Não sabe a nada! Não quero mais!' e será mais um pacote de Twinings pela banca abaixo. Depois, … esperamos. À noite recusarás o jantar depois da segunda garfada. 'Muito obrigada! Estava delicioso! Não quero mais!' ou, se estiveres de mau humor, como é frequente no final do dia, dirás 'it's discusting' e empurrarás o prato para longe. Depois, iremos para cima outra vez num ballet difícil, com berros e tropeções, mão esquerda, mão direita, elevador a apitar escadas acima enquanto gritas 'quero sair' e finalmente havemos de ir para a cama e amanhã repetimos tudo outra vez e … esperamos. Mas não posso responder assim, embora ambas saibamos que é verdade. Digo que a filha deve estar a telefonar, ou desconverso perguntando se não quer usar o quarto de banho ou dizendo que hoje falei com a minha mãe e que ela lhe mandou um abraço. Desconverso um pouco até ela se esquecer da pergunta e me mandar um 'Aarrrrggg!', que significa apenas 'Cala-te! Fico melhor no silêncio!' e voltamos a esperar.

A morte é chata. Nunca mais chega, e a minha amiga, incapaz de se deslocar até à linha de comboio que vemos passar da janela, já não aguenta mais a espera.
Tem uma família maravilhosa. Na mesma aldeia, vive um dos filhos que, religiosamente, a visita pelo menos duas horas por dia. A mais velha, no Canadá, liga todos os dias às sete e veio de propósito, a semana passada, à Inglaterra, para visitá-la durante uma semana. A outra filha liga-lhe três vezes por semana e os telefonemas nunca duram menos de vinte minutos. O mais novo, liga ao domingo no final da tarde. Os vizinhos, malta de quarenta anos, trazem bolo para o chá de domingo. Mas ela já não consegue ouvir ninguém. É muita confusão. O cérebro mete-se no meio e grita 'Aarrrggg!'.
'Turn it off! Turn it off! Please turn it off! You should know how to turn it off! If not call your boss, he certainly knows! Turn it off, please! I can't take this anymore!'.
A vida não é isto. A vida nunca foi isto! A vida é ainda, para ela, uma casa cheia de filhos a brincar no jardim e é injusto que lhe tenham roubado isso. Isso sim, era a vida! Todos a correr à volta dela. Ela a estender a roupa no fundo do jardim e o telefone a tocar - havia um telefone no fundo da casa, para ela poder atender as chamadas do consultório do marido, mesmo quando estava a estender a roupa no fundo do jardim e a correr atrás dos filhos - preciso disto, tenho fome, é uma urgência. Fazer o bolo, alimentar as galinhas, apanhar a fruta das árvores, esquecer o primeiro marido que ela adorava mas de quem nunca mais pôde falar, remendar os joelhos das calças dos miúdos, tratar do marido, que era médico acima de qualquer outra coisa, e ela entendia. Isso era vida. Não isto. Correr, fazer, coser, assar, ouvir, correr, atender o telefone, ajudar nos deveres, correr, estender a roupa, rir, ir ao Canadá, ajudar a construir a casa de férias da filha mais velha, com as próprias mãos, até ser levada para o hospital de helicóptero. Ser importante, ser essencial, ser o centro. Isso era vida! Não isto! Isto, é que não!

Hoje, enquanto a guiava para a cama, agarrou-me as mãos com força - ainda tem muita força, foram muitos anos a ter muita força - cravando as unhas nos meus dedos, como faz quando quer bater no mundo com um pau, mas sabe que não pode. Disse-lhe 'Jean, larga as minhas mãos' e ela apertou ainda com mais força, com o olho azul, muito cego, a olhar para mim cheio de raiva. E eu disse ' Jean! Tenho de coçar o nariz! Se não largas as minhas mãos, vou coçar o nariz na tua cabeça!' e cocei o nariz no ombro dela, com força e ela desmanchou-se a rir e largou as mãos, mais relaxada, feliz por um segundo. Depois, deitou-se e gemeu 'Porquê a mim? Explica-me! Porque é que me roubaram tudo? Os olhos, as pernas, o marido que eu amava quando tinha 22 anos, os filhos, o jardim? O que é que eu fiz para merecer isto? Porquê eu? EXPLICA-ME! Se é assim, prefiro morrer!'


Texto de H.G.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Lições de rua


O que a gente aprende nas feiras de Londres

domingo, 15 de maio de 2016

Dr.

- Sr. Dr.! Desculpe, mas devia ter chamado a atenção em privado, sem a presença dos internos!
- Mas ele é Dr. ?
- Claro que é!
- Eu pensei que era Nutricionista! Mas agora toda a gente usa o Dr.! Ele é só ... mais um! Só que este escreve no Diário Clínico. Será que também é clínico?
- Isso não!
- Ahhh! Nem sei porque é os técnicos do Laboratório, da Farmácia, da Fisioterapia, da Ortóptica, da Radiologia e de Cardiologia, não agarraram também o Dr.! Ao fim e ao resto ...!
Este, com uma "pen", mete duas páginas no Diário Clínico, com um texto pré-definido, cheio de erros, que preenche com cruzes ou valores. Para Dr. exijo mais!!!
Reconheço que a minha indignação (que é a directa medida do meu espanto), não seja o melhor método de corrigir as ineficiências, mas assistir a erros deste teor a quem se arroga a um Dr. antes do nome, faz-me subir a tensão arterial e aumenta-me a acidez gástrica.
Eu até podia desculpar o "sobnutrido" e a "Deplecção muscular torácica evidente", como dependente de "uma pressa", mas logo a seguir o "Peso estimado (subjectivo)" como se pudesse haver um peso estimado objectivo, uma classificação da Massa muscular em: eutrofia ( ), atrofia ( ) e fusão ( ) e a sigla "dcl" repetidas vezes usada, para significar decilitro, pôs-me os cabelos em pé e com vontade de chorar. É que se trata de um texto pré-definido!!!!!!
Desculpe-me, mas estamos na Europa e em 2016. Eu esperava encontrar pérolas destas só em "países em vias de desenvolvimento" e não em profissionais que usam Dr. e que se abalançam em actividade privada.





sexta-feira, 29 de abril de 2016

Demência



-Vai-me desculpar, mas a dona Conceição não tem doença que justifique internamento hospitalar. A sua demência está razoavelmente controlada e as análises estão bem. Vai ter de a levar assim!

-Dr.! Eu não tenho vida para cuidar dela. Até há duas semanas, antes de adoecer com a celulite da perna, ainda ajudava, mas depois de ter vindo do hospital, não colabora em nada. A Segurança Social tem que lhe arranjar um Lar, que a reforma dela é muito baixa.

-Mas a senhora não é da família?

- Não Dr.! Eu sou casada com um sobrinho dela. O meu marido, há uns meses, arranjou-lhe um quarto num anexo de nossa casa. Ia de dia para o Centro e à noite ficava sozinha. Mas assim, como agora está, eu não a posso ter connosco. Ela tinha uma casa, mas doou-a ao padre na esperança de que ele a ajudasse na velhice, mas o padre morreu, e quem herdou foi uma filha dele, que não mora na freguesia. Agora não tem nada. Nós ajudamos, mas não podemos pagar o que os Lares pedem e ela nem 300 € tem de reforma!

- Ahhh!

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Fim de vida


Esgotadas todas as possibilidades de recuperação, após múltiplos tratamentos que se mostraram progressivamente menos eficazes, decidira-se nessa manhã suspender antibióticos e iniciar cuidados de conforto.

O filho chegara na hora da visita, quando o doente, inconsciente, agonizava na enfermaria.
Chamei a enfermeira, para lhe comunicarmos, a decisão e o seu provável falecimento nas próximas horas.
Manteve-se calado, ora fixando o chão ora a televisão que, ao fundo, passava resumos de futebol.
Por fim, após longos minutos de silêncio, levantou a cabeça e disse com voz solene:
- Pois Dr.! O que eu tenho pena, é que o meu pai nunca vá ver o Sporting campeão!
- Pois! …



... e por ali ficámos!

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Consulta


Lembro-me dela. Teria pouco mais de trinta anos, embora as rugas da face, em alguns ângulos, pudessem indicar mais uma década.
O motivo da consulta fora o filho que, temeroso, lhe segurava a saia. Coisa pouca, mas suficiente para dificultar a jorna desses dias. 

- A senhora é casada?
- Sim!. Baixou os olhos e respondeu entre dentes:
- O meu marido está preso!
E de seguida, para corrigir o que me podia parecer uma indignidade, olhou-me de frente e completou:
- Dr.! Mas é por matar! Não é por roubar!

Ribeira de Pena (1979)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016