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segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Frases da semana - Yurval Harari


Quando mil pessoas acreditam numa história inventada durante um mês, chamamos-lhe "Fake news".
Quando mil milhões acreditam nisso há mil anos, dizemos que é uma Religião.

Se por "livre arbítrio" entendermos a liberdade de fazer o que se deseja - os seres humanos têm livre arbítrio. Mas se "livre arbítrio" significar a liberdade de escolher aquilo que se deseja, então não, os seres humanos não têm "livre arbítrio".

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Carta a Santo Antão


Caro Santo:


Há dois meses me vens ao pensamento, por ter lido coisas que pouco abonam a favor da tua santidade.

Eu só te conhecia de nome. Primeiro, nas aulas de Geografia, eras uma das ilhas de Cabo Verde. Mais tarde, foste uma rua (Rua das Portas de Santo Antão), onde ficava a Casa do Alentejo, um dos meus restaurantes de referência na capital. Depois, no Palácio das Necessidades, identifiquei-te no tríptico de Bosch – As Tentações de Santo Antão, sem nunca me ter dado ao trabalho de estudar a tua biografia.



Só agora, depois de reformado, arranjei tempo para ler sobre o que deve ter sido a tua vida.

Li que foste um cristão egípcio, fervoroso e iletrado, que nasceste em 251 da E.C. (era comum), que no início da vida adulta, abdicaste de significativo património, para te tornares eremita no deserto, à procura de uma confrontação direta com o demónio, por ser essa a sua “morada”. Passados vinte anos de solidão, tornaste-te o mestre de uma horda de monges que, com a justificação de “ajudar cristãos perseguidos”, demoliu templos, profanou estátuas e queimou livros que consideravas “pagãos”, onde vias os tais “demónios”.

Percebeste que homens ofendidos e magoados se podem transformar em combatentes destemidos e obedientes, se lhes for dada uma causa emocionante pela qual possam lutar e, através da religião, visaste o poder e os valores culturais de Roma.
Isso nada tem de religioso. É pura política. Mas foi o teu fanatismo e essa ideia de auto-flagelação que deu início ao imenso retrocesso cultural que havia de pôr fim à civilização greco-romana.

Lembras-me o ISIS (Islamic State of Iraq and Syria) - radicais, a celebrar a ignorância e a destruir os símbolos das outras culturas, para impor uma Sharia ao mundo, recorrendo ao terror, invocando os mesmos demónios. Também eles alegam que o fazem “não por crueldade, mas para orientar os pecadores no caminho da salvação”.
Santo Agostinho (354 – 430) - (também ele oriundo do norte de África), não só deu continuidade ao teu estar, como incendiou ainda mais a fogueira, com “ensinamentos” onde a intolerância era a regra: “Oh! Violência misericordiosa!”, disse quando se chacinavam "pagãos".

Sabes, Antão!: Depois de isto tudo, não te vejo como um santo atormentado por demónios, vejo-te como um perturbado mental, que utilizou o mundo horripilante dos demónios, para se opor a uma aristocracia romana que vivia no meio de uma “indulgência licenciosa” e oportunista, onde muitos morriam à fome. Só que a tua ignorância fez-te ficar por aí. Mediste o todo pela parte,  e não consideraste os verdadeiros valores dessa civilização.

A tua história deveria ser reescrita, para que deixasses de ser exemplo a radicalismos que usam essas tretas de “demónios" e outras visões vesgas da sociedade, sem considerarem a repercussão das suas "boas intenções" no contexto de um Mundo plural. 

domingo, 1 de abril de 2018

Domingo de Páscoa




Filme baseado na Ópera rock de Andrew Lloyd Webber, com libreto de Tim Rice. Apresentado em 1970.

Uma versão baseada no provável pensamento de Judas (apresentado como o braço direito de Jesus), que sente que o projecto a que aderiu se desvirtuou e pôs em risco todo o grupo, quando Jesus aceitou que lhe chamem "rei dos judeus" e ter uma relação preferencial com Deus.

História (possível) com algum rigor histórico:

Jesus nasceu aproximadamente no ano 4 a.e.c. (antes da era comum), por volta da morte de Herodes Magno.
Passou a infância e os primeiros anos de adulto, em Nazaré, uma aldeia da Galileia.
Foi um judeu praticante, que leu as Escrituras.
Aos 30 anos foi baptizado por João Baptista, o que lhe mudou a vida. (João Baptita foi mandado executar por ter criticado o casamento de Antipas com a mulher do seu irmão, o que fez que se tornasse referência com muitos seguidores, que poderiam dar início a uma revolta).
Reuniu discípulos à sua volta. Ensinou em pequenas povoações e na região rural da Galileia (nunca nas grandes cidades) e anunciou a eminente vinda do “Reino de Deus” à Terra.

Por volta do ano 30, foi a Jerusalém, para a festa da Pessach. Entrou de burro na cidade, como a cumprir a previsão do profeta Zacarias: “Estai atentos! O vosso rei virá até vós, triunfante, montado num burro!”
Quando foi ao Templo agrediu os cambistas e os vendedores de pombas e insultou-os de ladrões, interferindo nos negócios de compra e venda que eram necessários para a manutenção do serviço do Templo, o que deve ter causado escândalo.
Depois, deve-se ter considerado um “homem marcado”. Foi para o Monte das Oliveiras, tomou uma última refeição com os discípulos e aguardou a intervenção de Deus.

Um dos seus discípulos denunciou-o. Foi preso e, num processo adequado a um caso sem grande importância, o sumo sacerdote Caifás, ouvidos os conselheiros, fez uma recomendação de execução ao prefeito romano (Pôncio Pilatos), que agiu em conformidade.

Os seus discípulos fugiram e criaram uma comunidade para aguardar o seu regresso, juntamente com o "Reino de Deus", e procuraram persuadir outros a acreditar nele como Messias enviado por Deus. Este movimentou difundiu-se muito mais rapidamente entre os gentios que entre os judeus.

Geopolítica da época:

Quando Herodes Magno morreu, o Imperador romano Augusto, analisou os seus testamentos (eram dois) e decidiu dividir o reino entre os três filhos. Arquelau foi nomeado governador da Judeia, Samaria e Idumeia, Antipas herdou a Galileia e a Pereia e Filipe recebeu as regiões mais remotas do reino de Herodes.

Antipas revelou-se um vassalo fiel e governou a Galileia durante 43 anos. Arquelau teve menos sorte. Os seus súbditos protestaram contra algumas das suas medidas e Roma deu-lhes razão. Destitui-o, exilou-o, e nomeou um funcionário romano para o substituir.

Os judeus reagiam com muita sensibilidade ao que acontecia em Jerusalém. Além disso, as grandes concentrações que ali ocorriam, por ocasião das festas religiosas, criavam condições favoráveis à eclusão de distúrbios.

O prefeito, no tempo de Jesus, vivia em Cesareia, na costa do Mediterrâneo, num dos luxuosos palácios de Herodes Magno. Dispunha de tropas de 3.000 homens, o que não era suficiente para resolver problemas graves. Havia uma pequena guarnição na fortaleza Antónia em Jerusalém, bem como outros fortes na Judeia, mas Roma não governava a Judeia no dia-a-dia. As cidades e as aldeias eram governadas, como sempre o tinham sido, por um pequeno grupo de anciãos, entre os quais, um ou vários, serviam de magistrados. Quando havia dificuldades que pudessem levar ao derramamento de sangue, os cidadãos mais importantes mandavam uma mensagem ao prefeito. Os distúrbios mais significativos exigiam a intervenção do legado da Síria, que era superior ao prefeito da Judeia e dispunha de grandes contingentes militares (quatro legiões, no total de aproximadamente 20.000 homens de infantaria e de uma cavalaria de 5.000 homens).

Durante as festas mais importantes, o prefeito romano vinha para Jerusalém e o contingente de tropas era reforçado, para garantir que as multidões não se descontrolassem.
Só o prefeito tinha o direito de condenar à morte, com uma excepção: Roma permitia aos sacerdotes afixar avisos em grego e latim, no Templo, proibindo os prosélitos a entrada num determinado sector do Templo. Quem infringisse essa proibição, mesmo que fosse cidadão romano, era executado imediatamente, sem que fosse enviado ao prefeito. Exceptuando este caso, o direito a condenar à morte não só era exclusivo, como absoluto – ele podia mandar executar até um cidadão romano, sem precisar de formular uma acusação que fosse apresentada perante um tribunal romano.

Jerusalém fica na Judeia que, ao contrário da Galileia, era uma província romana.
Jerusalém, era governada pelo sumo sacerdote dos judeus (José Caifás), que estava subordinado ao prefeito romano (Pôncio Pilatos).
A Galileia era governada por Herodes Antipas, filho de Herodes Magno.

Os Judeus acreditavam que Deus controlava a História e decidia o resultado de todos os acontecimentos importantes. Alguns acreditavam que Deus estabeleceria o Seu Reino na terra num futuro próximo. Muitos Judeus desejavam a libertação do domínio romano e pensavam que isso só podia ser alcançado com a ajuda de Deus.

Também acreditavam (e acreditam) que Deus fez uma aliança com o seu povo, que os obriga a obedecer-Lhe, assim como obriga Deus a guiá-los e protegê-los. Também acreditam que Deus lhe deu a terra da Palestina e que lhes falou através dos profetas.


Páscoa Judaica:

É uma das três festas de peregrinação ao Templo, do ano litúrgico judaico. Começa a 15 do mês de Nissan e dura sete dias em Israel e oito dias na Diáspora. Celebra a libertação de Israel da servidão no Egipto em 14 de Nissan do ano de 1446 a.e.c.

Deus enviou as Dez pragas sobre o povo egípcio. Antes da décima, o profeta Moisés foi instruído a pedir a cada família hebreia que sacrificasse um cordeiro e molhasse os umbrais das portas com o sangue do cordeiro, para que não fossem acometidos pela morte de seus primogénitos.

Chegada a noite, os hebreus comeram a carne do cordeiro, acompanhada de pão ázimo e ervas amargas. À meia-noite, um anjo enviado por Deus feriu de morte todos os primogénitos egípcios, desde os primogénitos dos animais até mesmo os primogénitos da casa do Faraó. Então o Faraó, temendo a ira divina, aceitou liberar o povo de Israel, o que levou ao Êxodo.

Como recordação dessa libertação e do castigo de Deus sobre o Faraó, foi instituído para todas as gerações o sacrifício da Páscoa (Pessach).

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Nossa Senhora de Fátima



- Sr. Dr.! Os meus pais iam à igreja ao domingo e cumpriam os rituais nos dias santos. Trabalhavam de sol a sol para tratarem dos campos e dos animais e para juntar algum para o caso de surgir uma desgraça. Não eram pobres, mas estavam longe de poder dizer que viviam desafogados.
O que poupavam, à boa maneira do Minho, era para comprar ouro ou algum terreno a um vizinho, mais que para qualquer luxo na casa.

Um dia, a minha mãe adoeceu e, temendo morrer sem ver os filhos criados, apegou-se a Nossa Senhora de Fátima e prometeu-lhe um dos cordões de ouro que já vinha de família. 
Dias depois ficou boa e com aquela promessa para pagar. Mas a vida não lhe permitia folgas e uma ida a Fátima, naquela altura, era uma dificuldade que não conseguia ultrapassar, por causa da muita coisa que dependia deles. Então, um dia foi ao pároco da terra perguntar se ele lhe fazia o favor de entregar o cordão em Fátima, de uma vez que lá fosse.

O padre respondeu-lhe que tanto fazia coloca-lo aos pés da imagem de Nossa Senhora que estava em Fátima, como aos pés da imagem de Nossa Senhora que estava na igreja da freguesia, pois ela era a mesma, quer aparecesse aqui ou ali.
Com o espírito prático que sempre lhe conheci, o meu pai foi a uma loja de artigos religiosos, comprou uma Nossa Senhora e, quando chegou a casa, disse à minha mãe: - Dá o cordão a esta Nossa Senhora e assim, se um dia precisares, pede-lho, que, de certeza, ela to empresta! 

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Lembranças do Olimpo (29) - Jeová




Hipólito regressou a casa a matutar no sucesso da história de Jesus. Aquela profecia “maluca” da eminente vinda do Reino de Deus e que Ele iria impor a sua vontade “tanto na Terra como no Céu”, fora capaz de agregar as vontades que visavam igualizar os homens, numa altura em que Reis, Imperadores e Sacerdotes alegavam estreita familiaridade com os deuses, de quem emanava o seu poder. Era ainda esse movimento que, depois de 2.000 anos de voltas e cambalhotas, fundamentava o Humanismo actual. Até à revolução tecnológica do último século, a Igreja Católica estivera na crista da onda do conhecimento, mas desde então passara a andar a reboque, a reagir às novidades, em vez de ser ela a criá-las, sem nunca abraçar os movimentos de igualdade de género ou da defesa dos animais e só muito recentemente, com o Papa Bergoglio, é que parece ter acordado para os grandes problemas ecológicos do Mundo.

Ora estava o médico nestas conjecturas, quando um clarão apareceu por entre as nuvens do fim do dia. Exactamente como vira na banda desenhada dos catecismos. Um céu de fim de dia, com um corredor de luz a espreitar pelas alvas nuvens, por onde um enorme bando de pombas brancas descia, precedendo uma alva figura humana cintilante, com um báculo na mão e uma mitra bordada a ouro, cravejada de esmeraldas. A sua barba branca dava continuidade ao longo cabelo esvoaçante. Ao vê-lo descer na sua direcção, Hipólito abriu as janelas e o deus instalou-se na poltrona do fundo da sala que, de imediato, se transformou num trono recoberto por um baldaquino, muito semelhante ao do Papa no Vaticano.

- Boa noite!, disse-lhe o médico. – Calculo que sejas Jeová! Sê bem-vindo a esta humilde casa!
- Boa noite!, respondeu o deus. – Era para ter vindo mais cedo, mas tenho tido tantos afazeres por esse Universo fora, que o tempo não me chega para nada. Já me arrependi de ter criado o Big-Bang! Quando estava tudo concentrado no mesmo ponto, era mais fácil, agora com o Universo em expansão, o ter de andar do mais infinito para o menos infinito, para lhe dar alguma ordem, é uma canseira das antigas.
- Calculo!, disse o médico. – Mas com tantos afazeres, o que é que te trás até este grão de areia do deserto?
- Nem sei! Ouvi a tua conversa com Jesus e não resisti a propor que me entrevistasses. Como deves calcular, eu tenho muito trabalho organizativo, mas, de vez em quando, gosto de fazer trabalho de campo e ouvir o que a criação a quem atribui livre arbítrio, pensa.

Hipólito embora pouco impressionado, com aquela entrada apoteótica, sentiu-se lisonjeado. Puxou uma cadeira, pediu autorização e sentou-se.
- Antes de mais, quero-Te dizer que é um privilégio receber a Tua visita. Mas era escusado teres investido tanto na encenação da tua entrada. As técnicas de multimédia actual conseguem uma realidade virtual multi-sensorial semelhante. Quanto ao baldaquino, espero que ele seja virtual e não como o da Basílica de S. Pedro, feito com os antigos bronzes do Panteão de Roma que o Papa Urbano VIII mandou derreter.
- Ok!. Disse Jeová. E de imediato toda aquela parafernália desapareceu, para dar lugar a um idoso, bem-humorado, com um cajado na mão, sentado no seu sofá. – Esta tipologia de aparição, está programada desde que entreguei as Tábuas do Dez Mandamentos a Moisés. Como tem funcionado, deixei de me preocupar com a sua actualização. Mas agora, que chamaste a atenção, acho que está na hora de um upgrade! Vou pensar nisso.

Mas vamos à entrevista, que é o que me traz cá. Podes fazer três perguntas, senão eu fico aqui uma eternidade e há coisas que ficam por fazer. Aqui na Terra, o que se não faz no dia de Santa Luzia, faz-se noutro dia, mas no Céu, não há a mesma relação com o tempo e é melhor não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje.
Hipólito sorriu ao vê-lo citar, ironicamente, os ditados populares. Depois, endireitou-se na cadeira e fez a primeira pergunta:
- Já que te disponibilizas, gostava de saber a Tua opinião sobre a Cúria, sediada em Roma?
Jeová, deitou a mão à cabeça. – É um grande problema! Cada vez é mais difícil inspirá-los em soluções que lhes dêem credibilidade! Então agora com o Papa Francisco a querer aumentar a componente social da Igreja e o Bento XVI a minar-lhe, sorrateiramente, o projecto defendendo um forte poder central, baseado em abstracções teológicas que consigam unir cada vez mais os fiéis, a coisa está mais difícil.
- Mas Tu não consegues impor uma norma que os convença?
- Não posso, por imperativo organizacional. Decidi que na Terra, o Homem tem livre arbítrio e que Eu só trato dos ambientes, criando dificuldades ou facilidades para ele superar, mas, pelo caminho que estou a ver as coisas irem, ele vai mesmo dar cabo do planeta!.
- E Tu não te importas, tendo-o feito a Tua imagem e semelhança?
- Não! O Jorge Sampaio disse “Há mais vida para além do Orçamento!” e eu digo “Há mais vida para além da existente na Terra!”. Esta forma de vida aqui existente, com base no Carbono, é comum no Universo, embora menos frequente que aquela que tem por base o Silício.
- Já ouvi Zeus falar nessa! Diz que esses seres são mais dóceis e previsíveis que os da Terra. Até se transferiu para um desses planetas!
- Ah! O Zeus! Esteve cá?
- Sim! Desistiu dos projectos na Terra. Agora anda feliz num planeta da Galáxia Adrómeda. Só cá vem arejar o escritório e pouco mais. Mas voltemos aos teus Papas vivos. Apoias algum em especial?
Jeová corrigiu-o. – Não te esqueças que também sou Deus dos Judeus, dos Ortodoxos, dos Protestantes e de muitas outras seitas. Mas como tu estás mais interessado nos Católicos e no que se passa no Vaticano, informo-te que não apoio nenhum deles. Ambos têm razão. O Francisco é mais terra-a-terra, mas a ficção sempre foi mais importante que a realidade e o Ratzinger luta por uma narrativa motivadora, e isso pode ser mais decisivo que resolver pontualmente alguns dos problemas das comunidades onde o clero tem influência.
É esse equilíbrio entre a componente vertical e a horizontal das religiões que é necessário gerir.

- Queres dizer que uma pequena alteração na liturgia católica podia trazer mais benefícios para a Humanidade, que colaborar com os políticos na resolução dos problemas do dia-a-dia dos fiéis?
- Sim! Eu construí o Homem para viver na “Esperança” de … “um dia” as coisas irem melhorar, mesmo que esse dia seja depois da sua morte. E essa narrativa pode não ter nada a ver com a realidade. Só tem de ser motivadora, capaz de se replicar e de agregar as novas inovações tecnológicas. O Francisco quer ser exemplo de humanidade e preocupa-se em estabelecer pontes entre a heterogeneidade do pensar dos povos e das suas religiões, mas esse passo só tem eficácia duradoura se for apoiado numa boa história.
- Entendo! Respondeu Hipólito. – E Fátima? Estás a par com o que se passa?? Como é que o entendes?
- O culto de Nossa Senhora como elemento no movimento para a igualdade de género é muito positivo, mas esta vinda do Francisco a Fátima foi um sapo que ele teve de engolir para dinamizar o turismo religioso. Foi como a recepção ao Trump. Devia ter-se posto em cima dele, para não ficar com aquela cara de “looser” na fotografia. Também esta coisa de canonizar a torto e a direito, não lhe vai ser favorável. Então a dos pastorinhos, não lembra ao demónio.
- Tens de concordar que aquela Cúria, que ele herdou, não o ajuda. Interrompeu Hipólito, que tinha um fraco por Francisco.
- Aquela Cúria é um saco de gatos! Não ajuda nem um nem outro. O Banco do Vaticano também não! Um Banco faz o jogo do dinheiro e esse jogo nem sempre é limpo. Um Banco pode ir à falência por uma desatenção ou passar de uma situação de aperto para uma de desafogo por causa das tais “fake news”, de que fala o Trump. Lembras-te do Horta e Osório ter sido convidado, em Março de 2011, pelo governo inglês, para dirigir o Lloyds Bank, que fora apanhado dois anos antes, nas malhas da crise do “subprime”? Mal tinha assumido funções, meteu baixa por dois meses, por … “exaustão”!!!! Logo que a notícia se espalhou, os mercados “reagiram” e venderam-se muitas acções a baixo preço!
- Queres dizer que aquela notícia foi “fabricada”, com esse propósito?
- Não estou muito dentro dos factos que tornam os mercados “nervosos”, como dizem os vossos políticos de direita, mas são notícias destas que estimulam os especuladores e fazem alterar os preços. O Horta e Osório sabia-o bem e, nesse jogo do compra e vende, um Banco pode ganhar milhões!

- Já vi que te não queres comprometer! Achas então que a solução para a crise do Cristianismo, nas culturas mais avançadas, passa pela construção de uma história integradora da imensa variedade de descobertas tecnológicas, num sistema politico global que promova bem-estar?
- Sim! É essa história que é necessário inventar para dar Esperança, pois é ela que alimenta o cérebro humano. Depois, é bom que haja alguma protecção para o corpo, contra o tempo, as doenças e alguma comida. Haja a tal história e tudo se suporta! Os bens materiais podem esperar!
- Então vamos à última pergunta. Disse o médico. – Achas que os exegetas ainda conseguem extrair dos Evangelhos essa tal história que os torne, de novo, actuais?

Deus sorriu. Pousou o cajado no chão, levantou-se e depois de dar três passos pela sala, virou-se para a janela e respondeu. – Estou em crer que tal não é possível. Talvez nos livros apócrifos haja histórias virgens das milhares de interpretações a que os Evangelhos canónicos já foram submetidos e que dêem a possibilidade de uma leitura que altere os discursos teológicos. Se não houver, os profetas de Silicon Valley vão dominar a filosofia do mundo moderno e dar início a uma nova religião baseada em fluxogramas - o Dataísmo.

Deu meia volta e dirigiu-se ao médico que também se tinha levantado.
- Acabaram as perguntas! Vou ter que ir! Qualquer dia apareço-te, de novo. Fica prometida uma outra encenação.
E dito isto, saudou Hipólito e dissolveu-se no ar, deixando na sala um leve aroma a lírios do campo. O médico esfregou os olhos. Mal tinha almoçado e já sentia um rato no estômago.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Yuval Noah Harari









Yuval Noah Harari (Haifa, 1976) é professor de História e lecciona no departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Diz que não é um Profeta, mas eu elege-o como tal. "I don't think he is as widely recognized as he deserves to be, but, in my opinion, Yuval Harari will become one of the most influential thinkers of the XXI century".

O Youtube tem muitas aulas suas disponíveis e os dois livros que recentemente escreveu - "Sapiens: Uma breve História da humanidade" (2014) e "Homo Deus: Uma breve história do amanhã" (2016), são uma verdadeira Bíblia, que toda a gente que se preocupa com o evoluir da Humanidade tem obrigação de ler.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Milagres


Desde sempre que as pessoas esperam milagres em caso de doença ou outros azares.

São três as alternativas:

1: Pedir directamente a Deus, ou a um dos muitos deuses do mundo pagão.
É muito barato e, aqueles que rezam com regularidade, verificam que, de vez em quando, a oração é eficaz, pois algumas doenças curam espontaneamente e "não há mal que sempre dure! ...".
A ajuda divina pode ser pedida em privado ou em público. O deus grego, Asclépio/Esculápio, que se especializara em curas, tinha santuários em todo o mundo mediterrânico.

O bastão de Esculápio

2: Pedir a um indivíduo particularmente piedoso ou dotado, habitualmente designado como “carismático”, com capacidade especial para influenciar Deus.
Há pessoas que se especializaram em exorcismos e dedicam-se às doenças do comportamento que entendem como possessão demoníaca. Outros dedicam-se ao controle do ambiente. Honi, o desenhador de círculos, que viveu no 1º século AC, na Palestina, era conhecido pelas orações bem sucedidas a pedir chuva, o que, numa região sujeita à seca, levava muita gente a orações e a jejuns colectivos, que, algumas vezes, resultavam. Mas Honi era particularmente eficaz. Uma vez desenhou um círculo, colocou-se dentro dele e rezou: “Senhor do universo, os Teus filhos voltaram as suas face para mim, porque, aos Teus olhos, sou como um filho da casa. Juro sobre o Teu grande nome que não me vou mexer deste lugar enquanto não tiveres compaixão dos Teus filhos!”, e começou a chuviscar. Mas Honi não ficou satisfeito: “Não rezei por uma chuva destas, mas por uma chuva de boa vontade, de bênção e de graça!”. Então começou a chover com mais intensidade e durante tanto tempo que alguns habitantes de Jerusalém foram para o monte do Templo, que estava no ponto mais alto. O fariseu que era chefe naquele dia, teve uma posição ambígua em relação a Honi e ao seu feito: “Se não fosses Honi, declarava-te anátema! Mas o que hei-de fazer contigo? Importunas Deus e Ele faz o que tu queres, tal como um filho importuna o pai e ele faz-lhe a vontade!” – Honi tinha um relacionamento íntimo com Deus.

3: Pedir a um Mágico. Os mágicos não fazem milagres devido à sua relação especial com um deus. A magia baseia-se na aplicação particular de uma cosmogonia, segundo a qual existe uma Grande Cadeia de Seres na qual tudo está ligado e que a manipulação de determinados elementos comuns, influenciam os seres imediatamente acima e assim sucessivamente, até à divindade.
É possível alugar um mágico e fazer com que a divindade cumpra os nossos desejos.
Quando a magia tem por fim prejudicar alguém, tem o nome de “Magia Negra”, quando visa a cura de doenças ou outros males, tem o nome de “Magia Branca”                                                  


quinta-feira, 14 de julho de 2016

Madonna del Ghisallo

Na Europa, mil e quinhentos anos depois do que sobra do Império Romano, a sua cultura persiste.
Os Romanos eram politeístas e abertos a outras religiões. Não tentavam impôr a sua matriz religiosa aos territórios conquistados. Antes perguntavam quais as suas divindades e procuravam as correspondências com os deuses romanos. 
Aconteceu com os Gregos, que os ajudaram a estruturar a sua própria religião, Zeus – Júpiter, Juno – Hera, Poseidon – Neptuno, Ares – Marte, Hermes – Mercúrio. … e por aí fora, e com os Egípcios, Horus – Júpiter, Ísis – Juno, Osíris – Vulcano … .
Mas se não havia correspondência com nenhum dos conhecidos, não havia problema e integravam-no com a função que lhe era atribuída.

Quando o Imperador Constantino, no início do século IV legalizou e apoiou fortemente a cristandade, não tornou o “paganismo” ilegal, pelo que as duas religiões coexistiram durante séculos, com os seus templos e cultos.
O Deus único dos cristãos poderia ser equiparado a Zeus, mas os outros não tinham correspondência, pois os santos eram poucos e sem poderes especiais universalmente reconhecidos e Nossa Senhora ainda não se dispusera às aparições.

Só quando, mais tarde, os santos e Nossa Senhora ganharam funções semelhantes às dos antigos deuses greco-romanos, é que os venceram definitivamente. O S. Roque, para as Epidemias, o S. Brás, para as aflições das gargantas, o S. Albino para as cólicas renais, a Santa Otília para as doenças dos olhos, S. Fiacre para as hemorroides, …  e a Madonna del Ghisallopadroeira dos viajantes desde a Idade Média, sub-especializou-se em ciclismo, em 1949, pela mão do Papa Pio XII.  Desde então na sua capela, acolhe fotos, bicicletas, camisolas e outros objectos que foram pertença de muitas das figuras míticas do ciclismo europeu, de Marco Pantani (o Pirata) a Eddy Merckx.




-Allez! Allez! Allez!!!!!!!!

quarta-feira, 20 de abril de 2016

São João Crisóstomo



João Crisóstomo - o Boca de Ouro (347-407, n. Antioquia).
Foi arcebispo de Constantinopla e um dos mais importantes patronos do cristianismo primitivo.
É conhecido pela sua oratória na denúncia dos abusos cometidos por líderes políticos e eclesiásticos de sua época.
As igrejas ortodoxas e católicas orientais veneram-no como santo. A Igreja Católica classifica-o Doutor da Igreja.

Como não era politicamente correcto, acabou os dias exilado, num fim do mundo da Anatólia.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Mártires


Viana do Castelo, tem os seus mártires na fachada da Igreja dos Santos Mártires, popularmente chamada “Igreja das Ursulinas”. 
Tem S. Bartolomeu dos Mártires, por ter vindo aqui morrer na paz do Senhor, e que tinha Mártires no nome por ter nascido nessa antiga freguesia de Lisboa.
Não tem Rua dos Mártires da Pátria, nem dos Mártires da Liberdade, nem tão pouco dos Mártires da Arménia.

Os "seus" mártires - Teófilo, Saturnino e Revocata, não andam pelas suas freguesias. Aí pontuam mártires estrangeiros. Santa Luzia de Siracusa na Sicília, Santa Leocádia de Toledo, Santa Eulália de Mérida, São Lourenço de Valência e São Paio de Córdova, Santa Quitéria da Aquitânia e São Sebastião de Narbone em França, Santa Cristina da Toscana e São Martinho de Todi na Itália, São Pedro, São Bartolomeu e São Tiago da Palestina, São Romão de Antioquia e São Mamede da Cesareia na Turquia.

Alguns morreram muito jovens – Santa Quitéria aos 15 anos, Santa Cristina aos 12, Santa Eulália aos 14, Santa Luzia aos 21, Santa Leocádia (bela e muito jovem), São Mamede aos 15 anos e São Paio aos 13, todos eles nos primeiros 4 séculos da nossa Era. 

Os seus ícones lembram os que deram a vida para defender a “verdade”, uma verdade questionável à luz de outras fés, bem como o modo de a fazer valer. 

Com a tónica actual posta na "Inteligência emocional”, isto é, na capacidade de reconhecer a par dos próprios sentimentos, os sentimentos dos outros, e ter a capacidade de lidar com eles, orientamos a disponibilidade para o martírio para as consultas de Psiquiatria.
Recusamos entender os mártires no Islão, principalmente quando tomamos conhecimento de crianças atiradas para a morte a gritar Allahu Akbar (Deus é Grande) e vemos os mártires dos nossos dias, como vítimas das circunstâncias - os judeus no Holocausto, os Arménios de há 100 anos, os tutsis no Ruanda de 1994, os soldados no desembarque nas praias da Normandia ou os civis apanhados na guerra da Síria.

Quem radicaliza o gesto e se dispõe a morrer para não "apostasiar a sua fé", fica sem espaço.
Hoje, a um santo exige-se um currículo e o exemplo de compromissos com as outras Fés, para que, mantendo a sua, possa contribuir para a paz neste mundo globalizado.

Faltam ícones desses para o lembrar.


Nota:
A igreja dos Santos Mártires, popularmente chamada “Igreja das Ursulinas” é um pequeno templo do século XVIII, apenso a um grande edifício que serviu como convento sob a denominação de “Colégio do Senhor das Chagas”, regido por freiras devotas a Santa Úrsula.

domingo, 4 de outubro de 2015

Nossa Senhora da Cabeça


No distrito de Viana do Castelo, Nossa Senhora da Cabeça, tem romaria em Freixieiro de Soutelo -  V. Praia de Ancora, em Cortes – Monção e em Cristelo-Côvo – Valença.
Tem Santuário, capelas, um Parque Natural e uma Área de Lazer, com restaurante e centro náutico.

No Brasil, é venerada na Catedral do Rio de Janeiro e na cidade de Perdizes, depois de, em 1948, ter livrado de grave doença, o lojista Sr. Aristonides Afonso do Prado, e ele para ali ter levado uma sua imagem.
Nos dois países as orações diferem e a imagem também.

Em Portugal é representada com a mão na cabeça para protecção de quem tem dores de cabeça e para os filhos que não estão bem na escola, no Brasil com uma cabeça na mão, respeitando a sua História maravilhosa.


O pico da Cabeça é o mais alto da Serra Morena na Andaluzia, Espanha. Lá vivia um soldado das Cruzadas, Juan Alonso de Rivas, que ficara mutilado de um braço na guerra contra os infiéis. Por isso se tornou pastor.
Juan era devoto de Maria e, enquanto apascentava as ovelhas, rezava pedindo-lhe protecção.
Em 12 de Agosto de 1227, foi alertado por uma grande luz e por um sininho vindos do
cume do monte. Aproximou-se. N
uma gruta, viu uma imagem de Nossa Senhora, e uma voz vinda do Céu pediu-lhe  para ir ao povoado de Andujar falar da sua visão para que todos se convertessem e construíssem naquele lugar uma igreja.
Juan, com medo de que não acreditassem nele, pediu a Nossa Senhora que lhe desse um sinal e  viu o seu braço refeito.
O vigário de Andajur e todos correram para o pico da Serra da Cabeça para verem a imagem e venerar Nossa Senhora. Ela passou a ser chamada ali de Nossa Senhora da Cabeça. Trouxeram a imagem para o vilarejo, até que fosse construído um grande templo em sua honra e toda a região se converteu e passou a peregrinar à  Serra Morena.
Vários milagres começaram então a acontecer. Um condenado, que jurava inocência, pediu-lhe um milagre, e, na hora de sua execução, chegou um mensageiro do Rei trazendo o perdão, dizendo que haviam errado no seu julgamento. O homem mandou fazer uma cabeça de cera e depositou-a aos pés da imagem em agradecimento.
Por este motivo é representada segurando uma cabeça em suas mãos.



quarta-feira, 23 de setembro de 2015

terça-feira, 23 de junho de 2015

S. João


Hoje é dia de S. João no Porto e em Braga. Era inicialmente uma festa pagã, associada à fertilidade e à alegria das colheitas, centrada no solstício de Junho e que, à semelhança do que sucedeu com o Entrudo, a Igreja cristianizou atribuindo-lhe o nascimento de S. João Baptista.

João, filho do sacerdote Zacarias e Isabel, prima de Maria, pregava a purificação pelo baptismo. Tinha 25 a 30 discípulos e baptizava judeus e gentios arrependidos. Foi preso por alegadamente liderar uma revolução. Foi decapitado aos 24 anos, a pedido de Salomé, neta de Herodes, o Grande, por alegadamente a ter difamado.

É santo protector contra as doenças infantis, da amizade, das modistas e dos antiquários e santo padroeiro do Porto, Braga em Portugal e de Camaquã e Macaé no Brasil, de Florença em Itália, ... para além de múltiplas paróquias da "latinidade" e também da Maçonaria.


Pensamento:
Se quisermos memorizar eficientemente um facto ou um conceito, temos de o incluir numa pequena história. É este o fundamento da Bíblia para dar os princípios prevalentes nas sociedades judaico-cristãs. Como essas histórias têm milhares de anos e se reportam a um estar que já não existe, os exegetas tentam dar-lhes sentido.

Algumas, só são aceites por “tradição”, como a de Job, onde Deus numa “aposta” com o Diabo, lhe permite a destruição do seu património, família e saúde, para pôr à prova a sua fé, para depois desta confirmada, lhe dar novas mulheres, filhos, gado e outros bens, tudo incluído no mesmo "pacote".


A igreja católica, para além da Bíblia, utiliza também os “Santos”, para controlar as crenças pagãs, que tendem a desviar-se do núcleo bíblico, orientando-as para “comportamentos úteis”.

A religião romana, à semelhança das grega, persa e egípcia da Antiguidade, era politeísta. Os seus deuses tinham formas e carácter humano, o que lhes possibilitou adoptar o culto a deuses dos povos com que estabeleciam contacto, quando eles possuíam poderes inexistentes no seu "cardápio" religioso. O culto público era organizado pelo Estado através de funcionários públicos, sendo o maior deles o Sumo Pontífice.
Quando Constatino (272 -337), em 313, publicou o Édito de Milão, foi concedida liberdade para todas as religiões no Império Romano e terminou a perseguição aos cristãos. Mais tarde, à boa maneira romana, assumiu o papel de Sumo Pontífice, responsável pelos deuses e pela saúde espiritual dos súbditos e, como Jesus não deixara nada escrito e a transmissão oral levara a múltiplas interpretações e cultos em igrejas locais independentes, em 325, patrocinou generosamente o Primeiro Concílio de Niceia, para estabelecer as bases da ortodoxia cristã, a serem aplicadas em todo o Império, criando assim os hereges para questionar essas “verdades”.

O culto dos Santos padroeiros, surgiu naturalmente, num povo habituado a uma multitude de deuses menores, cada um com a função de defender um aspecto da vida ou de uma comunidade, dependendo mais da "fėzada" de quem o invoca de que da sua actividade em vida.

domingo, 3 de maio de 2015

Dia da mãe


O marido será o chefe da mulher, ...
... . A mulher será a humilde cooperadora do marido na Criação,  ....

domingo, 8 de março de 2015

Dia Internacional da Mulher


Se eu não tivesse um Y, até era capaz de escrever isto. Como tenho, mandei o meu X e metade dos meus outros genes fazê-lo.

Quem me conhece sabe que sou feminista acérrima e que, como tal, vivo em luta por um mundo de igualdade, sofrendo todos os dias os lugares comuns onde nos põem (a todas nós mulheres) neste país. 
Mas este ano, porque ainda 2014 estava a começar quando me apercebi que 2015 ia ser brutal, decidi dedicar este dia à grande maravilha que é ser mulher, em vez de me queixar dos números da violência domésticas (40 mulheres morreram o ano passado às mãos dos seus "companheiros"), ou das tarefas caseiras e domésticas (chão, fraldas, quartos de banho e máquinas de lavar roupa e os pobres dos moços, namorados e maridos que até ajudam). 
Hoje decidi não pensar nas desigualdades salariais nem nos minúsculos números de mulheres em cargos de chefia. Hoje e só hoje, amanhã arregaçarei as mangas e voltarei à luta, decidi não pensar na minha empregada que trabalha todos os dias e a quem marido, no final da semana, lhe dá 20€ (que ela ganhou) e lhe diz para trazer recibo. Hoje, e só porque estamos em 2015 e eu acho que 2015 é um ano maravilhoso, decidi que a minha perspectiva ia ser diferente.
Se me dessem a escolher, a mim ou a cerca de 99% das mulheres deste mundo (este dado estatístico foi agora mesmo inventado por mim) preferia continuar a ser mulher. Todos os dias. E perguntam vocês, como é possível uma feminista dizer tal coisa? É como um pobre esfomeado dizer que preferia ser pobre a ser rico. Pois uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa e este erro na leitura da palavra feminista, é uma coisa que põe os cabelos em pé. Passo a esclarecer - uma feminista não quer ser homem, quer ser mulher, e nem sequer quer ter os direitos dos homens, quer todos os direitos humanos.
Mas voltando ao elogio de ser mulher - somos, em geral, muito mais giras que os homens, o que é uma coisa que logo pela manhã nos dá uma energia do caraças quando saímos da cama e nos arrastamos para o quarto de banho para lavar as remelas.
- podemos vestir calças e saias e vestidos e calções e saias-casaco, botas de cano, sapatilhas ou sapatos de tacão agulha, meias de renda cor de rosa ou cardadas dentro de botas de montanha.
- podemos usar roxo, amarelo, verde preto ou cor de laranja sem que ninguém questione a nossa sexualidade
- temos melhores amigos e melhores amigas a quem podemos contar tudo, até coisas realmente ridículas, mas que sabe bem não guardar dentro de nós próprias
- podemos pintar o cabelo e os olhos ou não pintar coisa nenhuma, podemos dar cor às nossas unhas, usar laços fitas ganchos, colares anéis ou tiaras, podemos viver o Carnaval todos os dias, mascarar-nos de coisas tolas ou de divas de cinema
- não temos de esconder que somos fortes quando o somos mas acima de tudo, podemos mostrar que somos fracas, que choramos a ver filmes, que nos apaixonamos por personagens dos livros e que sofremos quando o amor não é para sempre
- podemos dar saltinhos e jogar ao braço de ferro e fazer ginástica artística ou judo, podemos dançar na rua ou fazer discursos políticos
Eu gostava que a palavra machista fosse tão bonita como a palavra feminista. Gostava que ela tivesse dentro dela o sonho de que os homens pudessem ser tudo, gostava que dentro dela coubessem homens com saias e fitas no cabelo, homens a dançar na rua, homens de fato e gravata que gostam de receber flores, homens fato de treino a chorar nos cinemas, homens de barba e bigode cor de rosa, homens com brilhantina e chinelos, homens de todas as cores, com personalidades únicas, gostos únicos, não encafuados dentro daquilo que são suposto ser. Gostava que os homens também acordassem para a maravilha que é ser homem (digo que também não há-de ser mau) e exigissem para si próprios todos os direitos humanos. Gostava de viver num mundo em que feministas e machistas marchassem juntos, fossem parceiros nas descobertas e que todos juntos sacudissem do capote imagens cinzentas de formas de estar pouco igualitárias, pouco justas, pouco ecológicas até. Gostava que género deixasse de ser assunto e que a palavra mulher deixasse de ser cor de rosa e homem castanho, e deixasse de fazer sentido andarmos a criar diferenças onde elas não existem.



Texto roubado

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Secularismo

(clique na imagem para a aumentar)

Nada contra.  As religiões nascem, crescem, evoluem e, se não se adaptam e integram o conhecimento existente  ... morrem.

sábado, 17 de janeiro de 2015

A triangulação do círculo


É o que se pretende quando se tenta a coexistência pacífica das religiões do livro único.
Elas representam poder demais para que possamos acreditar num abrandamento dos seus movimentos expansionistas e que os seus missionários aceitem que só uma perda dos seus mercados pode levar a uma maior paz no mundo, abandonando a prática secular de "demonizar" aqueles a quem chamam infiéis. São “máquinas ideológicas” pesadas, barricadas e armadas contra todos os que optam por outro viver.
A evolução da ciência, quer nos aspectos técnicos, quer nos aspectos da compreensão da mente humana, permitem já novos pilares para um viver digno de acordo com o grau de envolvimento no benefício de todos, sem o espectro omnipresente de um Deus supervisor.
É tempo de novos “missionários” substituírem quem anda a vender a "Vida Eterna" e passarmos a fazer planos para a vida na terra com preocupações ecológicas e de sustentabilidade, com prudência, justiça e temperança, que são as verdadeiras virtudes que os Estados modernos necessitam e não de imolações em nome de um Deus faccioso e déspota para quem não professa a sua fé.
É a esse Deus terreno, que sempre esteve entre nós, que temos de recorrer diariamente.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Natal

Dia da Família e dos amigos do coração.
O símbolo é o presépio. Uma família minimalista. Um átomo de Deutério. Um protão, um neutrão e um electrão a girar em seu redor. Não há irmãos, primos, avós, nem burro, nem vaca. Uma estilização, com um S. José jovem, belo e enamorado, espoado de qualquer drama.

Este presépio encerra os conceitos modernos de uma família ocidental, numa sociedade competitiva, obrigada a investir na educação dos filhos, para os tornar capazes de conquistar um lugar ao sol.
Mas se a história fosse contada de outro modo, talvez não houvesse tanta crise nos valores.
Por isso, eu gosto mais do modo como Erri de Luca, põe a tónica em S. José, para que se dê espaço a motivações significativamente diferentes.

José vem do verbo hebraico “yasaf”, que quer dizer acrescentar. “Yosef”, à letra, é aquele que acrescenta, e eu gosto de o pensar a fazer jus ao nome e a contrapôr-se àquela sociedade que punia o adultério com a lapidação e a impedir que Maria fosse ostracizada por estar grávida de pai desconhecido.

São um par estranho. Maria adolescente e José, um velho viúvo. Sinto-o cansado de injustiças e a ver naquela miúda a gota de água, depois de muitas mortes por razões iníquas, a decidir ser aquela a altura de um sinal público contra essa Lei Judia, aceitando todas as contrariedades sociais, para se olhar serenamente e poder morrer com a dignidade dos justos.

Afirmou-se pai da criança e, ao desposar Maria, anulou a suspeita de adultério, mas criou um sururu em Nazareth. Um “idoso” notável noivo de uma jovem que a turba marginalizara.
Consigo imaginá-lo a dirimir razões, a negar dúvidas, a argumentar contra as desconfianças da cidade, a arrastar o problema até ao risco eminente e aí, sem hesitações, pegar no burro e na rapariga e fazer-se à estrada, sem tempo para armar uma carroça.
Só assim justifico aquela viagem de 80Km de burro, pois ninguém no seu perfeito juízo se mete a caminho com uma primípera de termo naquelas circunstâncias.
Bethlehem era o acolhimento procurado, junto da sua família original, pois a de Maria estava destroçada e impedida de lhe prestar apoio.
Com as mãos de carpinteiro, habituadas a resolver obra com inteligência e saber, fez-lhe o parto e garantiu todos os necessários para um final feliz.

É assim que eu gosto da história, sem "recenseamentos" ou "fugas a Herodes" que não fazem sentido, e nada acrescentam à figura de José.
Por fim a adopção de Jesus por inteiro. Um trabalho responsável com uma criança saudável, feliz e de fácil aprendizagem, a ensinar-lhe o que sabe, com  amor, e a planear-lhe o futuro.
Com um significativo pecúlio, os outros filhos criados e o conhecimento de que outras culturas, não muitos distantes, se impunham, não só pela força das armas, mas também pela força das suas soluções, como bom judeu, apostou na educação e reuniu condições para que Jesus estudasse em Alexandria, a cuna da ciência da época, e ganhasse asas, com os gregos e todas as filosofias que ainda agora nos orientam.

Não se voltará a falar de José. Ele ir-se-á projectar no percurso do filho que lhe dá continuidade lutando por uma nova ordem que pusesse o poder ao serviço da população, onde a esperança fosse a luz desse difícil caminho, a individualidade se contivesse pelo interesse colectivo, e o erro entendido como parte da natureza.