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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Natal

Dia da Família e dos amigos do coração.
O símbolo é o presépio. Uma família minimalista. Um átomo de Deutério. Um protão, um neutrão e um electrão a girar em seu redor. Não há irmãos, primos, avós, nem burro, nem vaca. Uma estilização, com um S. José jovem, belo e enamorado, espoado de qualquer drama.

Este presépio encerra os conceitos modernos de uma família ocidental, numa sociedade competitiva, obrigada a investir na educação dos filhos, para os tornar capazes de conquistar um lugar ao sol.
Mas se a história fosse contada de outro modo, talvez não houvesse tanta crise nos valores.
Por isso, eu gosto mais do modo como Erri de Luca, põe a tónica em S. José, para que se dê espaço a motivações significativamente diferentes.

José vem do verbo hebraico “yasaf”, que quer dizer acrescentar. “Yosef”, à letra, é aquele que acrescenta, e eu gosto de o pensar a fazer jus ao nome e a contrapôr-se àquela sociedade que punia o adultério com a lapidação e a impedir que Maria fosse ostracizada por estar grávida de pai desconhecido.

São um par estranho. Maria adolescente e José, um velho viúvo. Sinto-o cansado de injustiças e a ver naquela miúda a gota de água, depois de muitas mortes por razões iníquas, a decidir ser aquela a altura de um sinal público contra essa Lei Judia, aceitando todas as contrariedades sociais, para se olhar serenamente e poder morrer com a dignidade dos justos.

Afirmou-se pai da criança e, ao desposar Maria, anulou a suspeita de adultério, mas criou um sururu em Nazareth. Um “idoso” notável noivo de uma jovem que a turba marginalizara.
Consigo imaginá-lo a dirimir razões, a negar dúvidas, a argumentar contra as desconfianças da cidade, a arrastar o problema até ao risco eminente e aí, sem hesitações, pegar no burro e na rapariga e fazer-se à estrada, sem tempo para armar uma carroça.
Só assim justifico aquela viagem de 80Km de burro, pois ninguém no seu perfeito juízo se mete a caminho com uma primípera de termo naquelas circunstâncias.
Bethlehem era o acolhimento procurado, junto da sua família original, pois a de Maria estava destroçada e impedida de lhe prestar apoio.
Com as mãos de carpinteiro, habituadas a resolver obra com inteligência e saber, fez-lhe o parto e garantiu todos os necessários para um final feliz.

É assim que eu gosto da história, sem "recenseamentos" ou "fugas a Herodes" que não fazem sentido, e nada acrescentam à figura de José.
Por fim a adopção de Jesus por inteiro. Um trabalho responsável com uma criança saudável, feliz e de fácil aprendizagem, a ensinar-lhe o que sabe, com  amor, e a planear-lhe o futuro.
Com um significativo pecúlio, os outros filhos criados e o conhecimento de que outras culturas, não muitos distantes, se impunham, não só pela força das armas, mas também pela força das suas soluções, como bom judeu, apostou na educação e reuniu condições para que Jesus estudasse em Alexandria, a cuna da ciência da época, e ganhasse asas, com os gregos e todas as filosofias que ainda agora nos orientam.

Não se voltará a falar de José. Ele ir-se-á projectar no percurso do filho que lhe dá continuidade lutando por uma nova ordem que pusesse o poder ao serviço da população, onde a esperança fosse a luz desse difícil caminho, a individualidade se contivesse pelo interesse colectivo, e o erro entendido como parte da natureza.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Caminho francês de Santiago

Segundo os Estudos Galegos da Universidade Nova de Lisboa, "já muito antes da data apontada pela igreja para a descoberta da tumba do apóstolo, existia uma rota de peregrinação (romana e anteriormente celta), que ia do extremo Este ao Oeste de Espanha, até Finisterra. Este velho caminho de peregrinação, simbolizava a viagem do sol de Oriente para Ocidente, “afogando-se” no oceano para voltar a surgir no dia seguinte. O renascer do Sol estaria intimamente ligado com o renascer da vida; fala-se também de uma rota para o templo de Ara Solis em Finisterra, erigido para honrar o Sol. Hoje em dia, são muitos os peregrinos que chegando a Santiago resolvem continuar o Caminho até Finisterra o que põe em causa a definição da rota apenas como uma peregrinação religiosa católica".

Este “caminho francês de Santiago” tem numerosas construções arquitectónicas de interesse histórico (românico, gótico, barroco e neoclássico). Foi revitalizado nos anos 60 do século passado e de modo mais acentuado depois do ano Jacobeo de 1993 - quando o dia do apóstolo Santiago Maior (25 de Julho), coincide com um domingo. Nestas datas a peregrinação equivale a uma a Jerusalém e a Igreja concede indulgência plenária - o perdão para todos os pecados.

Agora “está na moda”, e junta-se às  inúmeras outras rotas que desportistas de todo o mundo percorrem dos mais variados modos - a pé, de BTT, a cavalo, de uma só vez, ou por grupos de etapas cumpridas em diferentes anos.

É surpreendente a longevidade deste trajecto e o seu efeito multiplicador noutros trajectos, que em grande parte se deve às "miraculosas" melhorias que efectuava nos primeiros séculos do 1º milénio, sobre os peregrinos com ergotismo
Durante sete séculos a ordem dos Hermanos Hospitalarios de San Antonio, construíram ao longo de todo o seu percurso, hospícios e mosteiros para receber e "tratar" os peregrinos apoquentados pelo "fogo de  Santo António", e a sua eficácia projectou-os muito para além da península ibérica, quando o benefício se devia essencialmente à alteração da dieta, passando a comer pão de trigo em vez do de centeio cheio de maleita.

Agora o caminho está a voltar às origens. O que mais se vê são orientais, malta do desporto e curiosos que se medem com a dificuldade enquanto se esforçam por entender a lenda que diz que Tiago, um dos primeiros discípulos de Jesus, decapitado no ano 44 D.C.,  embarcado e trazido para a Galiza para ser sepultado, foi descoberto no ano de 813 D.C., depois de uma chuva de estrelas ter avisado um ermitão. 

Eu, que gosto de histórias, só entendo esta como um engenhoso marketing religioso, que se apodera de uma marca pagã em decadência, para vender um produto, fundamentando-o na necessidade humana de sair do seu ambiente tradicional, para ir mais além na compreensão do mundo.
Felizmente que assim também se desenvolvem regiões.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Crucifixo


Nunca entendi este icon da cristandade. Dá-me logo para pensar que se Cristo tivesse sido executado de outro modo, iria encontrar agora, na rua, alguém com uma jóia ao peito com Ele pendurado pelo pescoço numa corda, num cepo com um machado, num garrote, à frente de um pelotão de fuzilamento ou numa cadeira eléctrica, se tal acontecesse noutra época ou noutro local, já que são inúmeras as opções para pôr fim às dissidências.
Trouxe-te por seres em pau-preto e representante da arte africana, e pus-me às voltas contigo. Aqui não! Aqui também não! Ali ... definitivamente Não! Não ficas bem em nenhum canto desta casa. Pareces atrair maus humores. Lembras a traição e o oportunismo de quem te esteve próximo.
Se fosses positivo e nos inspirasses confiança,  eu arranjava-te um lugar. Assim ..., desculpa a viagem. Vais voltar à origem e ficar à espera de quem esteja disponível para o martírio, que é o fim provável dos espíritos sedentos de verdades absolutas.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Quadros Vivos

A catequese é muito importante para converter e fortalecer a fé dos fiéis. As histórias e as parábolas (uma forma de ensino tipicamente judaico), foram muito utilizadas por Jesus para que o ouvinte pudesse entender e identificar-se com os conceitos transmitidos.
Para além da narrativa oral, outras formas são utilizadas desde o período paleo-cristão, para tornar a Mensagem de Cristo compreensível por todos. É o caso das imagens nos frescos e painéis de azulejos das igrejas que ilustram o nascimento ou a paixão de Jesus Cristo e os hinos cantados no culto.

Há também a tradição de construir "quadros vivos" – sem texto e com escassa movimentação dos intervenientes, que encenam, em poses plásticas,  a vida de Jesus, principalmente dos seus últimos dias (a paixão e morte), ou o seu nascimento – Presépios vivos.

Em 2002, o Hospital de Viana do Castelo foi palco de um desses eventos, a lembrar a Ressurreição dos “Contos da Montanha”, de Miguel Torga.
(Clique nas fotos para as aumentar)












segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O Bezerro de Ouro


O irmão de Moisés é o protagonista desta história de Israel. 

Êxodo 32, Deuteronómio 9Durante sua permanência no Egipto, os hebreus tinham-se acostumado às formas materiais dos deuses e era-lhes difícil confiar num Deus invisível. 

Alarmado pela loucura desenfreada do povo, e vendo em perigo a sua segurança, Aarão (irmão mais velho de Moisés) rendeu-se às exigências da multidão dizendo-lhes:
- Tudo bem! Vocês querem deuses? Então tirem os brincos de ouro das vossas mulheres e filhas e tragam-mos.
E os israelitas tiraram das orelhas os brincos e os trouxeram a Aarão, que os derreteu e derramou num molde para fazer um bezerro de ouro. 

O bezerro era algo natural aos israelitas, pois estavam acostumados ao culto ao deus Apis no Egipto.
Então alguns disseram: - Este sim é o nosso deus! 

Depois o povo sentou-se para comer e beber e se levantou para se divertir.
...



... e só mais tarde surgiu o Turismo Religioso.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Maria da Circuncisão

- Oh dona Maria! Que raio de nome a senhora tem. Quem é que lho pôs?
- Foi uma freira da Maternidade do Hospital Velho, onde nasci. Disse que era o nome de um santo! Eu, embora registada no dia 12, nasci a 1 de Janeiro.
(de acordo com o Evangelho de Lucas, Jesus foi circuncidado oito dias após o seu nascimento -tradicionalmente em 1 de Janeiro)
- E nunca pensou em mudar de nome?
- ... e podia? Agora não vale a pena. Toda a gente me conhece por Circuncisão!

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Sexo Oposto


Muita água havia ainda de correr debaixo das pontes até o monge austríaco Gregor Mendel concluir, em 1865, que cada característica de um indivíduo era determinada por um par de factores hereditários de origens distintas e se fundamentasse a agora tão corrente noção de "sexo oposto".
Até então a maioria da população entendia o feminino como o terreno onde a semente masculina germinava, apoiando o conceito de que só existe um sexo que se desenvolveu plenamente, exprimindo órgãos sexuais claramente visíveis – o masculino, entendendo o feminino como uma paragem intra-uterina da maturação, do que resultam órgãos sexuais atrofiados, que unicamente servem de terreno fértil para a semente que o macho lá poderá depositar.

Com o aparecimento dos primeiros microscópios (1590) que permitiram a descoberta dos espermatozoides, houve “gente de ciência" que afirmou ter visto no seu interior uns diminutos seres preformados - os “homúnculos” que iriam crescer no ventre materno que, nesse processo, poderiam adquirir algumas características da sua mãe.

Esta teoria (o Preformismo) respondia ao imaginário colectivo, que acreditava que a raiz da mandrágora (que por vezes assemelha a forma humana), era um pequeno homem que dormia dentro da terra e, como tal, detentora de importantes qualidades medicinais e mágicas.

A raiz da mandrágora estava envolta em inúmeros rituais, a que não são alheias as suas propriedades alucinogénicas. Para a retirar do solo havia que ter muito cuidado pois o “homúnculo”, ao sair do seu descanso, dava um grito tão lancinante que podia matar quem o ouvisse. Deveria ser arrancado numa sexta-feira à noite, depois do equinócio de verão, pouco antes do nascer do sol. Fazia-se uma vala à volta da raiz para lhe expor a parte inferior, amarrava-se ao pescoço de um cão preto e fugia-se para bem longe. Depois chamava-se o bicho para que ele a arrancasse. O cão morreria inevitavelmente, mas então passava a ser seguro manuseá-la.
Para que os seus poderes se fortalecessem, cortavam-se-lhe as extremidades, enterrava-se na campa de um morto durante trinta dias e regava-se diariamente com leite de vaca diluído onde previamente se haviam afogado três morcegos. A meio da noite do 31º dia, ia-se buscar, secava-se num forno aquecido com ramos de verbena e envolvia-se numa mortalha.
A mandrágora mais não era que uma semente humana que havia crescido na terra e não num útero feminino.
Dizia-se que eram frequentes por debaixo do patíbulo dos enforcados.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Conflitos


O mundo está um lugar perigoso. Tal é mais evidente onde os Estados teocráticos (com acções políticas, jurídicas e policiais submetidas às normas de alguma religião) se encontram, como actualmente acontece na faixa de Gaza.

Os ensinamentos da Tora e os do Corão "não encaixam". A verdade absoluta dos seus deuses únicos e omnipotentes dão como única solução o aniquilamento de um deles e, como sempre, será a razão da força a vencer e não a força da razão.
A cultura judaico-cristã do "Ocidente" tem na sua base o individualismo, que outros povos tradicionalmente combatem, promovendo a partilha como norma social.
É a luta entre o “American way of life” do capitalismo de Wall Street contra o fundamentalismo islâmico - o “Afgan way of life”.

Com todos os males que daí advêm, eu não hesito em escolher o primeiro, mas o bom era que todos os Estados fossem laicos e que a dose de individualismo neles permitida, se reduzisse, de modo a impedir o livre arbítrio de quem, por qualquer razão, tem grande sucesso económico.


quinta-feira, 24 de julho de 2014

São Brás


Neste meu périplo pelos santos, hoje, mesmo sem ser 3 de Fevereiro, é dia de São Brás (Blasius).
Eu já o conhecia do bacalhau e dos rebuçados peitorais, mas só quando perguntei porque é que uma sua imagem tinha a mão na garganta é que me pus a escavar as suas lendas e como o povo o foi moldando ao longo das épocas.
Para já o bacalhau à Brás (um dos meus pratos preferidos), para lhe fazer jus, tem o dito desfiado, sem peles nem espinhas e os rebuçados S. Brás, há anos que aguentam a competição dos seus congéneres do Dr. Bayard e do Santo Onofre, e da multinacional Vick, na defesa de faringites e constipações.
A lenda diz que S. Brás foi médico, sacerdote e bispo de Sebaste na Armênia (actual Turquia) e que livrou uma criança da morte, ao retirar-lhe uma espinha de peixe da garganta sem qualquer instrumento.
Morreu degolado em 316 e começou a ser venerado como protector contra os males da garganta no sul da Europa e depois na América latina, onde é padroeiro do Paraguai.
Na bênção das gargantas colocam-se duas velas bentas apagadas, em cruz, de encontro à garganta do crente e recita-se: “São Brás te proteja!”, que é o que também se deve dizer sempre que alguém se engasga.
Mas S. Brás também é padroeiro dos animais selvagens e, em Vila Real, a sua gancha é moeda de troca para o pito de Santa Luzia.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

São Fiacre


Nasceu na Irlanda e viajou para a França onde viveu. Nunca permitiu que mulher entrasse no seu ermitério onde mantinha um frondoso jardim de flores, hortaliça e plantas medicinais, que disponibilizava para os pobres e doentes que o procuravam.
Diz a tradição que teve hemorroidas (os figos de S. Fiacre) e que um dia se sentou numa pedra (que ainda lá existe) que lhe deu cura miraculosa e o fez padroeiro das doenças do recto. Também o é dos fabricantes de tijolos, telhas e manilhas de barro.
Cerca de 1650, o Hotel de São Fiacre, na rua St-Martin em Paris, alugava carruagens, que se tornaram conhecidas por "fiacres", termo que depois se generalizou a todos os transportes de aluguer puxados por cavalos, pelo que alguns taxistas o pretendem patrono.

Desconhecia-o. Sempre pensei que eram os anõezinhos da Branca de Neve que ajudavam no jardim e até estive para pôr um à porta da horta, sem pesar que eles eram mineiros e que o São Fiacre é que é o verdadeiro e legítimo padroeiro da jardinagem. 
Ignorâncias!!

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Todo Poderoso


Pantocrator é uma palavra de origem grega que significa "Todo-Poderoso" -  pan : tudo ou todo e krátos - alto, em cima e, daí, poder.
A mão direita abençoa “à maneira grega” com os dedos em posições bem precisas. Na mão esquerda, as Sagradas Escrituras.

Quando fizeres uma mão que abençoa, não unas os três dedos juntos, mas une o polegar com o anular apenas; o indicador forma o I e o médio curvado forma o C criando o nome IC; o polegar e o anular unindo-se obliquamente e o mínimo que está ao lado, formam o nome XC - a obliquidade do mínimo, ao lado do anular forma a letra X; o mesmo mínimo, curvado, indica o C.
A Inscrição IC XC: É a abreviatura do nome de Jesus em Grego.
… por esse motivo, pela divina providência do Criador de todas as coisas, os dedos da mão humana foram modelados assim e não foram demais ou de menos, mas em quantidade suficiente para formar este nome.” (Gharib, p. 102)



sábado, 12 de julho de 2014

sábado, 5 de julho de 2014

S. Roque




- É que te digo. S. Roque, na minha região é o santo que se invoca em casos de diarreia.
Ele é de Riba de Ave, onde em 1606, foi mandada construir uma Ermida dedicada ao santo, durante um surto de peste negra para refúgio das pessoas sãs, e onde a 16 de Agosto e 25 de Dezembro, se realizam festas.
Este meu amigo sabia que ele é habitualmente representado em trajes de peregrino (por vezes com a vieira típica dos peregrinos de Santiago), com um bordão onde pende uma cabaça, com uma perna desnudada com uma ferida e um pequeno cão com um pão na boca. Também sabia que ele é padroeiro dos cirurgiões e protector do gado. Mas desconhecia o seu curriculum vitae e foi isso que me fez consultar algumas fontes, para concluir que, apesar de dar nome a numerosas ruas, freguesias, paróquias e igrejas do sul da Europa e da América do Sul, a sua história mitológica é mais fraca que a dos destronados deuses gregos.

São Roque (1295 – 1327) nasceu em Montpellier (sul de França), filho tardio de uma família nobre e abastada, que lhe deu os melhores professores. Não terá completado os estudos em Medicina, e ficou órfão aos vinte anos.
Vendo-se sozinho e herdeiro de uma fortuna invejável, doou aos pobres todos os bens e foi em peregrinação a Roma. Pelo caminho passou por várias aldeias, onde grassava a peste negra, e disponibilizou-se para cuidar dos doentes. Diz-se que obtinha sucesso tratando-os com “um bisturi e o sinal da cruz”.
Atormentado por uma febre violenta e chagas na perna (o bobão da peste), isolou-se numa cabana abandonada numa floresta, onde um fidalgo, para evitar o contágio, lhe fez chegar os alimentos através de um cão.
Quando se reestabeleceu, voltou para a sua terra natal onde foi preso por espionagem a favor do Papa.
Estava no auge o conflito entre Roma (Papa Bonifácio VIII) e o Rei de França Filipe IV, o Belo, pois o Papa não permitia que o rei cobrasse tributos da igreja, e deste cisma resultaria os Papado de Avinhão (1309 – 1377).
O tio, figura importante da cidade, não intercedeu por ele e São Roque morreu ao fim de cinco anos de cativeiro.

A sua morte desperta a devoção popular e a sua canonização não é por decisão eclesiástica. Depois surgem os poderes das suas relíquias (de que Veneza “se apodera”) contra a peste e depois contra tudo o que seja epidemia e até o nosso Rei D. Manuel I, em 1506, solicitou uma relíquia do santo para proteger a população de Lisboa.
Nunca foi em peregrinação a Santiago, pese embora a vieira no chapéu.

Se, de facto, foi espião de Roma em França, não se fala, mas que o tio deve ter ficado furioso por ele se ter desfeito da herança, em vez de se envolver em acções mais consistentes, parece-me melhor justificação que a de “não ter tido conhecimento”, para a sua morte encarcerado. 

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Correr o fado



- Se do mesmo casal nascesse uma série de sete filhos do sexo masculino e o mais velho não fosse padrinho do mais novo, ou se lhe faltassem algumas palavras no baptismo, o primogénito estaria sujeito a “correr o fado” e, à meia-noite, de alguns dias, sairia de casa sorrateiro, despia-se, deitava-se num local onde algum animal se tivesse espojado e, tomando a forma deste, corria, por caminhos e campos até ao romper do dia, obrigando-se a passar por sete montes, sete pontes, sete fontes e sete portelos de cão. Então voltaria ao mesmo sítio, deitava-se outra vez, recuperaria a forma humana, vestia-se e recolhia a casa, para dormir.
Era um martírio para o condenado mas com um remédio infalível para o terminar. Durante essa corrida era necessário feri-lo com uma aguilhoada para que sangrasse e se purificasse, para assim poder retomar a forma humana e jamais a perder. Era perigoso aplicá-lo, pois caso não fosse bem-sucedido, ir-lhe-ia acontecer uma grande desgraça. O local mais fácil para o efectuar era num portelo de cão (um portelo de cão é uma pequena abertura de passagem colocado num caminho do monte, num muro baixo, em forma de Z com uns 60cm de largo, que de algum modo dificulta a passagem).
Havia portelos de cão em muito lado. Na bouça do Mato, em Guardizela, no Pio Nono também. 
...

quinta-feira, 26 de junho de 2014

A minha aldeia




Eu fui ensinada a parar o que estivesse a fazer ao ouvir o sino. Era ele que organizava o quotidiano. Antes do nascer do sol, tocavam as Almas, a garantir a segurança dos caminhos. Ao meio-dia, as Ave-marias chamavam para o “jantar” e ao lusco-fusco as Trindades indicavam a hora de recolher.
Eram três badaladas no sino grande, três no pequeno, outras três no grande e várias no pequeno. Os homens descobriam-se e as mulheres, se estivem à porta ou à janela, iam para dentro de casa. Não havia melhor relógio nem serviço noticioso para as alegrias e tristezas.
Na 6ª feira Santa, às 3 da tarde, em Moreira de Cónegos, quando o sino tocava, o quadro eléctrico das empresas têxteis, ia abaixo e as fábricas paravam. Era assim! Agora não sei! ...
Depois surgiu um relógio ligado a um altifalante a dar horas misturadas com o 13 de Maio por cima das sirenes das fábricas e os ritmos passaram a ser outros. – “Porra para o canudo, que já estou atrasada!”, dizia a minha sogra, ao antever a chegada do marido.
Agora com o declínio da agricultura, os telemóveis na mão de toda a gente e a televisão ligada de manhã à noite, tudo se modificou e os sinos regressam ao serviço religioso.

Mas a Sagrada Família ainda anda de casa em casa. É uma capelinha com a Nossa Senhora, o Menino e S. José e  um mealheiro na base. Na casa da minha mãe fica uma sexta e um sábado e vai para a casa de uma vizinha no domingo. Percorre toda a Paróquia. Só vai à igreja descarregar as esmolas. 

...


quarta-feira, 25 de junho de 2014

O Profano




A dona Gracinda contava histórias giríssimas. Quando a conheci ela deveria ter uns quarenta e cinco anos. Se fosse viva, teria agora 102 anos.
Era de Guardizela, filha de um carreteiro e com dez anos já participava nas viagens que se faziam em carro de bois, para levar o vinho, o milho ou outros cereais, o que fosse… ao Porto. Mais precisamente ao Zezinho da Areosa, onde ficavam, davam de comer aos animais e carregavam com outras coisas para a volta. Habitualmente juntavam-se vários grupos e eram os miúdos que iam a tangir bois. Eram três dias para ir e vir e grande parte do trajecto era feito à noite. Ora muitas dessas histórias tinham a ver com os medos que os sons e as luzes da noite despertavam. E aí o fantástico tinha todo o espaço. Nas encruzilhadas havia regras a ser respeitadas. Ir de olhos postos no chão, não olhar para o lado, e se por acaso vissem o diabo a saltar junto das rodas dos bois, não parar e benzer-se. Lembro-me de ela falar, numa das últimas viagens, de uma camioneta de rodas de ferro da “Fábrica Rio Vizela”. Era a novidade.

Também falava muito das almas que não subiam para o Céu porque tinham promessas por cumprir e que ficavam a transtornar a vida dos vivos. Contava aquilo com nomes e todos os pormenores, relacionando factos passados com episódios que de algum modo coincidiam com uma alteração de uma evolução. Lembro-me de uma vez ela contar que a sua irmã Olinda andava muito doente, a emagrecer de dia para dia, e que alguém se terá lembrado de fazer qualquer coisa que uma tal Joaquina, recém-falecida de pneumónica, poderia ter prometido e não cumprido e, num dia em que estava num grupo a ordenhar vacas, surgiu uma borboleta que bateu na cabeça de eles todos e subiu. Era o espírito da Joaquina a agradecer a libertação e a Olinda melhorou logo a seguir.

As almas do Purgatório eram uma preocupação, porque sozinhas nunca iriam conseguir ir para o Céu. Precisavam da nossa ajuda, e disso ela estava sempre atenta.

domingo, 8 de junho de 2014

90 anos da BIAL

E aí fui eu, auto-estrada abaixo, em 31 de Maio, aos 90 anos da BIAL, uma empresa do Norte a dar razão à máxima: "Lisboa é Portugal e o resto é paisagem"!

Na Meo Arena sintonizei-me com o Dr. Luís Portela na necessidade de alterar a trama onde na actualidade se penduram os factos científicos e as crenças, para que se possam corrigir muitos dos loucos objectivos por que se regem os indivíduos neste mundo.
Também gostei da entrevistadora - Dra. Maria José Loureiro. Simples e objectiva, a fazer-lhe as perguntas que eu lhe gostaria de fazer naquele momento.

Depois, ouvi ciência misturada com publicidade, encontrei quem só vejo em alturas destas, e juntei-me aos turistas no dia livre de domingo.


E foi na residência Real do Palácio da Ajuda - que substituiu a “Real Barraca”, que D. José mandou edificar em madeira, depois do terramoto de 1755 ter destruído o velho Palácio da Ribeira, no Terreiro do Paço - onde encontrei o que há muito procurava: o Anúncio Bom, a Honestidade, o Amor da Virtude, o Amor da Pátria, a Lealdade e o Decoro no meio de muitas outras virtudes, pese embora alguns nichos vazios me levassem a pensar que outras os abandonaram, temerosas, depois de verem amputada  a mão direita à Generosidade. 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Confissões


- Eu já desconfiava que isto fosse sífilis, e até me admirei quando a médica me disse para ficar descansado, que “não era!”. Ainda fui a uma Urgência a Coimbra, mas as manchas, a dor de garganta e estes caroços no pescoço não passaram com o antibiótico.
- Mas o Sr. Padre sabe como é que a sífilis se apanha! Isso significa que não teve os devidos cuidados.
- Eu sou muito responsável. Nas minhas relações cumpro as normas, mas pode ter sido um acidente com um relacionamento que tive há dois meses!

É um homem cuidado, daqueles que as mulheres dizem "que é um desperdício ser padre”. Veste na moda e está totalmente depilado como mandam as regras dos metrosexuais. Não tem trejeito que me levante suspeita de vida paralela, onde o sexo seja rei, embora, aqui ao lado, alguém mais novo lhe ponha a chancela de “perigoso”.
A doença é uma linha que nos une e nos separa. Se ele avança, eu recuo. Só cada três meses nos vemos, por não mais que trinta minutos.
...
- Então, para terminar, vai tomar esta medicação em associação à que já estava a tomar. Faz estas análises e fica com a próxima consulta marcada para …
- Sr. Dr.! Não me marque para Maio, que nessa altura eu tenho muito que fazer com as missas e as comunhões da Páscoa. E será que posso pedir que uma enfermeira amiga me colha sangue, em vez de o vir ao Hospital? Sabe, Sr. Dr., na posição que tenho, não me posso expor, e quando venho fazer análises, a técnica chama em primeiro lugar as pessoas a quem foi dito que têm análises “para fora do hospital”, e eu vou num grupo que levanta muitas suspeitas.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Carta aberta a Deus - Nosso Senhor


Caro Deus - Nosso Senhor:

Há anos que planeio escrever-te para te dizer algumas das “verdades” que me rabeiam na caixa dos pirolitos, mas, como as tuas diferentes personalidades me põem indeciso a qual me dirigir, viro-me para outras prioridades, em vez de me atirar ao texto.
Já te vi pelos olhos fendidos dos asiáticos, pelos espantados dos negros subsaarianos, pelos sanguíneos dos árabes e pelos sibilinos dos judeus, e concluo que o que dizes a uns não joga com as promessas que fizestes aos outros para que todos te seguissem.
Coisas como aquela das 20 virgens para os mártires do Islão não lembram ao diabo, como também o não faz que tivesses escolhido Israel para teu povo e dares-lhes um livro com “toda a Verdade”, a fazer inveja a mais de 99% da população do Mundo.
Mas o que aqui me traz, não são as guerras que patrocinaste, onde até gente da mesma família se mata enquanto grita “Deus é Grande” ou “Allah Akbar”, ou o mesmo noutras formas.

Eu queria é perguntar-te qual o papel que te reservaste na sociedade global em que o mundo se tornou, pois parece que, depois de teres feito todas as coisas animadas e inanimadas, com um especial fascínio pelo Homem, descuraste a manutenção.

Já deves ter reparado nas mudanças das últimas décadas e na tendência para a normalização dos comportamentos e procedimentos em todo o planeta. O que começou com a ocidentalização do vestuário, já envolve a Lei e as tuas determinações celestiais. Lentamente vão-se movendo os cordelinhos dessa nova ordem, fazendo com que os regionalismos tenham uma crescente dificuldade em se mover.
Viste o que aconteceu ao Kadafi e à restante malta do Norte de África, e todos esperam um fim parecido ao Mugabe e ao Kim Jong-un. E não é por eles serem piores do que outros que por aí andam. O seu mal é quererem manter regras próprias num mundo em que todos anseiam por ir a todo o lado em suposta segurança.

No norte da Europa, onde a religião tem perdido fiéis, fala-se menos de “moral” e de “ética” e a tónica é posta na Lei e nos Tribunais, numa lógica muito diferente daquela que ainda prevalece nos países onde o Vaticano se implanta. Falar de uma “moral” que ninguém leva a sério (porque é no incumprimento que frequentemente está o sucesso económico), não faz sentido num mundo onde quem manda é o dinheiro. É como andar de carroça a ver passar os aviões.
Já há tecnologia para despistar a maior parte dos crimes, pelo que é mais útil que as pessoas os não cometam com medo das consequências civis do que de um qualquer poder supra-humano as venham condenar. Nem que seja eternamente. Esse esquema só dá em sociedades sem recursos com uma gritante falta de qualidade na luta contra o crime.
Tens de acordar. Faz-te um Deus moderno com gente que goste de viver e que cumpra regras e os ditames da natureza. Esquece os dramatismos terríficos de um Inferno cheio de supliciados e a paz de um Céu onde nada acontece.

Se fosse a ti, arranjava uma grande Roda da Sorte e garantia que era eu que a fazia parar nos números certos, que dizia aos guarda-redes o lado para que vai o penalty e coisas assim do género, pois essa malta, quando acerta, vira-se sempre para o céu a agradecer, e não há quem não se benza quando a sorte nos aperta.

Fica a ideia. Se resultar, dás-me 1% que eu dou metade para os pobres.

Desejo-te uma Boa tarde e um grande "Até à Eternidade", se ainda andares por aí.

Fica bem!

Fernando