terça-feira, 13 de agosto de 2013

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Efeitos colaterais


Tem 83 anos, é viúva e vive com uma empregada que trata de tudo. Teve vida em Lisboa, o que transparece no sotaque, na roupa e nos enfeites. O coração falha-lhe há meia dúzia de anos, e hoje vem à consulta depois de ter sido operada às cataratas que a cegavam. Está feliz com a sua nova visão e, aproveitando uma pequena pausa, enquanto procuro os resultados analíticos, dá largas à sua natural expansibilidade.
- O Sr. Dr. é tão bonito! Eu já o adivinhava na voz. Posso dar-lhe um beijo? ... Sabe, eu tive de parar aquele remédio, o Pradaxa, porque me excitava muito. Só me apetecia fazer amor! ... , e eu sem ter com quem!
- Dona Ana! Vamos de ter de reportar essa reacção adversa do medicamento ao Infarmed, pois deve ser o primeiro caso a ser descrito. Quanto ao beijo …

História de E.T.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Vidas



Com doze anos fui para Lisboa trabalhar, com a ideia de ser sapateiro como o meu pai, mas para cada anúncio de emprego havia mais de 50 candidatos. Só arranjei trabalho nas obras, para os lados do Chiado e o dinheiro que ganhava não dava para as despesas. Um dia, um amigo arranjou-me um lugar de ajudante de cozinha num Hotel e a minha situação melhorou. Ganhava 300 escudos por mês, mas comia de graça. Cheguei a cozinheiro e a vestir o "fato branco". Mas aquilo era uma prisão e eu gostava do putedo, e em 57 tirei a carta e fui para taxista. Voltei em 66 e comprei um taxi na minha terra. Naquela altura havia muita gente emigrada e sem carro, e eu calcorreei essa Europa toda! Tive períodos de ir duas vezes por semana a Paris. Levava 5 de cada vez a mil escudos cada um (o bilhete do comboio custava 700$). Ia buscá-los a casa e punha-os onde eles queriam. Levava-lhes mais malas do que as que eles conseguiam levar no comboio, e isso compensava-os. A grade no tejadilho não podia levar mais. Bons tempos!

domingo, 4 de agosto de 2013

As "cunhas"

Não há volta a dar. A nação sempre contou com o compadrio, pois melhor que um saber tem sido a "cunha".
Depois é seguir o trilho. Cumprir a religião e aderir a um dos partidos maioritários que, com esses cartões, poucas portas se lhe hão-de fechar.
Nos últimos anos, respondeu à expansão do Estado. Lutou por um lugar qualquer num dos seus órgãos e com ofertas e adulações, agachou-se com o pragmatismo calculista dos aflitos, refazendo o discurso às necessidades do momento.
Como a exigência de quem nos governa se tem vindo a degradar, frequentemente só lendo as “Conclusões” e não o “Material e Métodos”, todos os caminhos se tornaram possíveis, porque é o curto prazo que domina e se esqueceu que há princípios que se não forem respeitados invalidam as “Conclusões”.
E, para pôr a cereja no bolo, surgiram os concursos internos para que alguém da casa, depois de um qualquer curso nocturno ou diurno como trabalhador estudante, seja integrado em novas funções na mesma instituição.
O resultado final é andarmos enxameados de gente que ocupa lugares para onde nunca entraria num concurso aberto, onde se tivessem de medir com os seus pares.
Entrar enfermeiro e passar a gestor, entrar "relações públicas" e passar a psicólogo, entrar assistente operacional e passar a enfermeiro ou a advogado, na mesma instituição, sem concurso aberto, é uma bizarria, que o Estado sustenta, e que só afecta a sua eficiência.
Também é por isso que "assim não vamos onde era suposto chegarmos!"

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Siglas

Em serviços oficiais, o uso de siglas tem regras, e não se pode permitir que cada um use as que quer.

As siglas são indiscutivelmente úteis no léxico médico, mas sem uma lista aprovada, ninguém se entende.
Morrer de TP para uns pode ser na consequência de uma "Tuberculose Pulmonar" e para outros uma morte causada por um “Tiro de Pistola”, e BCG (Bacillus Calmette-Guérin) já foi interpretado por um aluno de Medicina, aqui do norte, como a “Bacina Contra a Gripe”.

Nos últimos anos, tenho assistido “à malta nova”, cheia de energias positivas, atirar-se aos textos com uma  "criatividade" sem nexo, perante a passividade e a falta de rigor dos mais velhos.
Surgiram então nos diários e outros registos, os “coc” – consciente, orientado e colaborante, os “2 id” ou “3 id” em vez de “b.i.d.” ou “t.i.d.”, vindos do latim "bis in die" e "ter in die", para significar duas e três vezes por dia, e a incapacidade/recusa em adoptar qd - "quaque die" – uma vez por dia, e o q_h - "quaque_hora” indicando o intervalo entre as administrações da medicação (por exemplo: 2 cápsulas q4h, para dizer 2 cápsulas de 4 em 4 horas) e outros sinais de desrespeito pelos nossos primórdios linguísticos, principalmente quando até os anglo-saxões as usam no seu léxico médico.
Mas são os tempos que correm. Aquilo a que os aventureiros chamam "A nova Era" e que tem resultado em fogachos "para inglês ver" e conseguir uma certificação de qualidade, esquecendo que tudo tem um princípio, um meio e um fim, e que se alguém se eleva, deve respeitar os ombros sobre quem se apoia.

domingo, 28 de julho de 2013

Nicolau Tolentino (1740- 1811)

Poeta, boémio, professor e oficial na Secretaria de Estado dos Negócios do Reino (depois de muitas cunhas), fazia parte da minha “Selecta Literária” do 2º ciclo do Liceu. Chamávamos-lhes o Nicolino Tilintau
Deixou-me neste soneto um gosto por epitáfios, semelhante ao de Machado de Assis, que escreveu:  "Gosto dos epitáfios; eles são, entre a gente civilizada, uma expressão daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar à morte um farrapo ao menos da sombra que passou."

Vai, mísero cavalo lazarento,
Pastar longas campinas livremente;
Não percas tempo, enquanto to consente
De magros cães faminto ajuntamento.

Esta sela, teu único ornamento,

Para sinal da minha dor veemente,
De torto prego ficará pendente,
Despojo inútil do inconstante vento.

Morre em paz, que, em havendo algum dinheiro,
Hei-de mandar, em honra de teu nome,
Abrir em negra pedra este letreiro:

«Aqui piedoso entulho os ossos come
Do mais fiel, mais rápido sendeiro,
Que fora eterno, a não morrer de fome».

Neste soneto, Nicolau não eutanasia o seu fiel cavalo. Manda-o para o campo, na certeza de que ele, doente, acabará comido por cães vadios. Era assim nesse tempo, em Portugal, como atestaram vários estrangeiros que por aqui passaram, reportando matilhas deambulando pelas cidades, que não só comiam o lixo das populações, como se encarregavam de dar destino ao que morria e não era aproveitado para consumo humano.

Agora, são raros os elogios fúnebres e os epitáfios sobre as campas. Morremos e o que fica é um nome e duas datas por baixo dele. 
Há bichos com mais sorte!


domingo, 21 de julho de 2013

Carta a Cavaco


Caro Cavaco:
Estou a escrever-te antes do teu previsível discurso, com mais um dos teus avisos.
Já sabes que não admiro a tua longevidade política, porque sempre vi nela uma preocupação em serenar o povaréu, garantindo uma cortina de “ legalidade” a quem mexe nos cordelinhos, que frequentemente acaba com um dos teus “avisos” quando, por um qualquer acaso, um vento põe tudo a nu.
Tu reflectes este país, sempre à espera que um milagre de última hora nos salve do abismo para que caminhamos anos seguidos. Nunca te vi uma atitude de arrojo, que nos fizesse sair desse rumo. Pelo contrário, estiveste metido nas disfunções do Oliveira e Costa e do Dias Loureiro, e eu não acredito que não tivesses conhecimento de muitas outras, que não vieram a público, e que são agora causa da nossa ruína.
Era aí que esperava que desses o murro na mesa para que não acontecessem. Agora vir avisar do  inevitável é trabalho de qualquer um.
Esta tua proposta de um Governo de Salvação Nacional era, à partida “um bacalhau com asas com sabor a marisco” para encanar a perna à rã e dar tempo para que a Finança nos "ajuste" aos “Mercados”, sob a óptica de uma Alemanha que nos entende como humanóides um pouco civilizados.

Vais ficar na História como um paisano de Boliqueime que um dia, em Lisboa, vestiu um fato e gravata para veneração de quem aguarda milagres, sem perceber que estava a dar cobertura às negociatas de uma elite, que de elite nada tem.
Agora, esgotado, vais a rojo, procurando nas palavras significados tão ambíguos como as do Paulo Portas, sem assumires intervir de peito cheio, porque isso "não faz parte do teu ADN", como dizia o teu amigo prof Marcelo, que te apelidou de “herbívoro”, por não atacares os problemas de frente, no medo de uma eventual morte política. Vais lavar as mãos, mais uma vez, alegando que “avisaste”, “que “tentaste tudo” , que “foram os partidos” e que “só te apetecia mandá-los à m####”, mas que “a Constituição não permite” e que “blá, blá, blá” e que “há que sofrer para que sejamos redimidos”.

Pede à Maria para não aparecer. A sua visibilidade é dolorosa e deixa-me envergonhado, constantemente a relembrar os seus esgares no teu discurso de vitória. Depois podias fazer-lhe companhia. Ias visitar um lugar qualquer “profundo” no nosso Portugal e arredavas-te o tempo que te falta até ao fim do mandato e talvez as coisas melhorassem.
Vai por mim, que eu, sem ser barbeiro, dou conselhos como um taxista e é na boca deles que está a sabedoria do povo e não no fundo das urnas.
Até daqui a bocado

terça-feira, 16 de julho de 2013

Tabaco

Ele fuma. Ela vai fumando. Os amigos estimulam-se no hábito.
Entra-se em casa e o cheiro domina a sala. Ali um cinzeiro com cinza de ontem. Na lareira umas piriscas esperam o próximo outono. O sofá ressua a nicotina das noites de sábado e os morrões nos vasos aguardam a voracidade das plantas.
A um canto, o gato, fumador passivo no apartamento, sufoca com um cancro do pulmão.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Rapação

1 - Acção de usar o rapão, na limpeza das bimbaduras, nas salinas. 
2- RAPação é uma banda de RAP - "mais que por enquanto tamos apenas trabalhando em letras e composições !"
Rapão: Utensílio de salineiro, para cortar o lodo que se prende às armações das salinas
Bimbadura: Fragmento de lodo, aderente aos travessões das salinas.


quarta-feira, 10 de julho de 2013

Pretuguês

- Boa continuação! ... Obrigada!, disse prazenteiro, enquanto se despedia, e deixou-me a pensar no mau domínio do português.

 Há dias num Blog do burgo e no meio de um comentário (Anónimo - 1/7/2013 - 00:39h) que merecia a minha simpatia, deparo-me com estas pérolas:

Na Inglaterra já é assim. Qual é o escanda-lo???,QUE no dia de greve e de FORMA CONBARDE, trocam o dia por CH e QUE NÃO inventão horas ficticias para acrescer ás que tem acumuladas no horário".

Nem queria acreditar, pois o assumi o texto como escrito por quem tem bem mais que o 12º ano.
Depois lembrei-me dos meus "Cadernos de Significados" para as palavras difíceis, das reguadas por cada erro no ditado e do ar de desprezo do "Rapa-Côdeas", meu professor de português no 8º e 9º anos de escolaridade,  quando a ignorância da língua-mãe atingia estes foros.

Nos tempos que correm, escrever mal num computador com um corrector de texto, que nos evita erros de palmatória, embora outros do tipo  "acabava-mos" quando se quer escrever "acabávamos", os não detecte, é sinal de falta de qualidade.

É que não chegam as preocupações com a marca da roupa, do carro ou do discurso sobre o que se consome, se a toda a hora se manifestam incapacidades primárias.
Erros destes retiram valor ao texto, ao seu autor, e à sua classe profissional, pois indiciam que o grau atingido é fruto do facilitismo que se instalou nas escolas, preocupadas com a elevação dos resultados estatísticos.
No caso ... é uma pena.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Irrevogável

 SERÁ QUE o adjectivo Irrevogável também pode ter diferentes graus?

Irrevogável em grau ligeiro, quando se quer dar sinal de vida.
Irrevogável em grau moderado, quando se exige uma influência que é negada.
Irrevogável em grau elevado, quando te apetece "virar-lhes as costas e mandá-los f####"

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Trabalhos de um bisavô


 
- Rita! Deixa o teu bisavô em paz!
- Está quase! Ele não se importa!

terça-feira, 25 de junho de 2013

Um pouco de História

Um pouco de História ajuda-nos sempre a entender o presente, principalmente porque cem anos não é nada na evolução de uma espécie.

Uso o livro “Civilization” de Niall Ferguson, publicado em 2011 e editado em Portugal pela Editora Civilização, em Fevereiro de 2012.

Niall Fergurson é professor de História na Universidade de Harvard

A guerra que começou em 1914 não foi uma guerra entre meia dúzia de Estados europeus quezilentos. Foi uma guerra entre impérios mundiais.
 ... 
Em 1917, a França estava à beira de perder a Primeira Guerra Mundial. Onde deveria pedir ajuda? A resposta foi: África.
Apesar dos súbditos africanos da França não terem direito à plena cidadania francesa, eram considerados elegíveis para pegar em armas em defesa da pátria.  Contudo, em todas as colónias - Senegal, Congo, Sudão, Daomé, Costa do Marfim - os africanos declinaram responder ao apelo. A maioria acreditava que o recrutamento para o exército equivalia a uma sentença de "morte certa". O único homem que parecia capaz de dar a volta à situação era Blaise Diagne, o primeiro africano eleito para a Assembleia Nacional Francesa. Estaria ele disposto a regressar ao Senegal como uma espécie de sargento recrutador glorificado?
Diagne viu a possibilidade de fechar um negócio com o primeiro-ministro francês, George Clémenceau, e insistiu que todo o africano que se apresentasse para combater, recebesse a cidadania francesa e que os tirailleurs veteranos ficassem isentos de impostos e tivessem direito a uma pensão decente. 
...
Em Abril de 1917, Demba Mboup e os seus camaradas do Corpo Colonial Francês, integrado no Sexto Exército do general Charles Mangin e no Décimo Exército do general Denis Duchêne, tinham pela frente as posições poderosamente fortificadas do Sétimo Exército alemão, comandado pelo general Hans von Boehn, no Caminho das Damas – assim chamado por ter sido utilizado pelas duas filhas de Luís XV, no século XVIII.
O comandante francês, o general Robert Nivelle, acreditava ser o homem que iria conseguir o tão ansiado rompimento na Frente Ocidental. Os Franceses construíram 450km de via férrea para apoiar a ofensiva com 872 comboios carregados de munições. Ao longo de uma frente de 40km, foi concentrado para o assalto mais de um milhão de homens. Dias e dias de barragens de artilharia deveriam amaciar os Alemães. No dia 16 de Abril, às 6h00, as tropas coloniais começaram a subir as colinas que a chuva e o granizo tinham transformado em lamaçais escorregadios. Mangin colocara os Senegaleses na primeira vaga, quase de certeza com o intuito de poupar vidas francesas. Segundo o tenente-coronel Bedieuvre, comandante do 58º Regimento de Infantaria Colonial, os africanos eram “inquestionavelmente e acima de tudo tropas de assalto soberbas que permitem poupar as vidas dos brancos, os quais, avançando atrás deles, exploram o seu sucesso e organizam as posições que eles conquistam”.
Nas trincheiras alemãs, o capitão Reinhold Eichacker observou horrorizado:

Os escuros pretos do Senegal, o gado para o matadouro da França. Centenas de olhos de combatentes, fixos, ameaçadores, mortíferos. Avançaram. Primeiro sozinhos, muito espaçados. Às apalpadelas, como os tentáculos de uma lula horrível. Ávidos, sôfregos, vacilando e por vezes desaparecendo na sua nuvem. Tipos fortes, selvagens, de dentes arreganhados como panteras. Os olhos, monstruosamente arregalados, acesos e injectados de sangue, eram horríveis.
Avançaram como uma parede móvel, negra e sólida, erguendo-se e caindo, oscilante e palpitante, impenetrável, infindável.
“reduzir a alça! Fogo à vontade! Apontem bem!” – as minhas ordens foram concisas e claras.
Os primeiros negros caíram a meio da corrida, em cima do nosso arame farpado, dando saltos mortais como palhaços num circo. Grupos inteiros evaporaram-se. Corpos desmembrados, terra pegajosa e pedras despedaçadas misturaram-se numa desordem selvagem. A nuvem negra parou, vacilou, cerrou fileiras e continuou a aproximar-se, irresistível, esmagadora, devastadora!
De súbito, uma parede de chumbo abateu-se sobre os atacantes e o arame farpado mesmo à frente das nossas trincheiras. Um martelar e chocalhar, um estalar e bater, um crepitar ensurdecedor atirou com tudo por terra com um clamor de furar os tímpanos e destroçar os nervos. As nossas metralhadoras estavam a apanhar os negros de flanco! Passaram como uma mão invisível sobre os homens, atirando-os por terra, estropiando-os e fazendo-os aos bocados! Os negros caíam sozinhos, em linha, em fila, ao monte. Ao lado uns dos outros, em cima uns dos outros.
Blaise Diagne protestou contra o desperdício negligente dos seus compatriotas mas regressou ao Senegal em busca de novos recrutamentos, desta vez armado com a garantia de que o combate, além da cidadania francesa, lhes valeria a Cruz de Guerra. No dia 18 de Fevereiro de 1918, Clemenceau defendeu o retomar do recrutamento militar perante um grupo de senadores, deixando perfeitamente claro o modo como os Franceses viam os Senegaleses:
“Tenho um respeito infinito por estes valentes negros, mas prefiro ver dez negros mortos a ver um francês, porque julgo que já morreram suficientes franceses e que há que sacrificá-los o menos possível”.

..............
 
Isto passou-se em França, país defensor dos direitos humanos - da liberdade, da igualdade e da fraternidade.
Ao lado, na Alemanha Imperial o alemão médio via os africanos como primatas superiores - o termo predileto para eles era "babuínos" - e tratava-os como animais. Os povos de "raça mista" - os bastardos - eram considerados racialmente superiores aos negros puros, mas inferiores aos brancos puros. Admitia-lhes uma eventual utilidade como polícias coloniais ou funcionários menores. No entanto, desaconselhava qualquer mistura racial adicional.

Será que estes conceitos perderam actualidade e que já não é fácil recrutar carne para canhão.

domingo, 23 de junho de 2013

Mobilidade especial


“Estremeceu!”, diagnosticou o jardineiro. “Foi de um arejo”, disse a jornaleira. Mas, por uma razão ou outra, ou por nenhuma delas, a Camelia japonica, não tolerou os efeitos da mobilidade especial do processo de reorganização do jardim.
Depois de excluir os outros diagnósticos que grassam na linguagem dos "entendidos", do tipo “foi o caracol da noite”, foi andaço, foi moléstia..., e sem nada de científico que o apoie, desta vez dou razão ao jardineiro.

Na verdade, não se tratava de uma requalificação, pretendiam-se as mesmas funções ornamentais num outro local, depois de ter passado dois anos difíceis num terreno saibroso e ensombrado, "na extrema" do jardim.
Se fosse uma Camelia sinensis (a espécie de onde se extrai o chá por infusão das suas folhas, flores ou raízes) não me espantaria, pois nunca se adaptou bem ao nosso clima, mas esta, que no Minho tem honras de fachada em todos os solares e casas rústicas, tinha-a por mais resistente.
Falhei. Não a quis mudar em Outubro “quando pega tudo” e deslocalizei-a em início de Abril, com tempo chuvoso. Não gostou. Estremeceu!
Agora volta a cuidados de internamento, com regas diárias, de vez em quando borra de café e estrume de cavalo nas imediações e muita “conversa”, porque até as plantas gostam que se lhes fale e se lhes explique as razões e os processos de reorganização – extinção, fusão, reestruturação de órgãos e racionalização de efectivos, para que não desmoralizem e entrem em depressão.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Mito-Croc


Célula

Mitocôndria

As mitocôndrias são organelos celulares responsáveis pelo fornecimento de energia de fácil utilização às células de todos os seres vivos. Vivem no citoplasma como se fossem bactérias domesticadas, e concentram-se nas mais activas (musculares e do sistema nervoso) como se procurassem uma irrigação sanguínea vantajosa.

Como “seres vivos” estão sujeitas a mutações no seu DNA o que pode condicionar graves doenças congénitas e ou a disfunções adquiridas resultantes de efeitos adversos de medicamentos, infecções ou de outras causas ambientais.
A hiperglicemia da Diabetes ao causar glicolização das proteínas (isto é: ligando glicose às proteínas de forma irreversível) de todo o corpo, altera-as também, dificultando-lhes a actividade, o que se reflecte no funcionamento dos nossos órgãos mais nobres - o cérebro e o coração, promovendo-lhes um envelhecimento acelerado, se o controle da doença não for muito precoce.

Felizmente está em vias de ser lançado no mercado um soluto de mitocôndrias selvagens, extraídas do sistema nervoso do crocodilo do Nilo, que mantêm a capacidade de reprodução “in vitro” e que, ao invadirem as células com mitocôndrias doentes as regeneram.

O Mito-Croc, assim se chamará o produto, é uma inovação que usa a biologia das origens da vida, para o tratamento de um dos maiores flagelos do mundo ocidental – a diabetes e a aterosclerose, prevendo-se que com ela a o homem possa viver, com qualidade, para lá dos 150 anos.

Para já, o tratamento só será disponibilizado por via endovenosa para uso exclusivo de alguns hospitais, mas estamos a estudar a sua administração em cápsulas gastroresistentes, a fim de a poder administrar por via oral.

Caso a segurança se prove, irá por certo concorrer com o Q-10 da Depuralina e com as xantonas do Mangustão, e espera-se a sua venda em Parafarmácias até ao final desta década.