segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Quarta Idade


O meu tio Manuel está para lavar e durar. Anda todos os dias para cima de 5 Km, tem a cabeça escorreita e não se conhece uma artrose no seu metro e sessenta e cinco.
Quando fez 100 anos, a família fez-lhe uma grande festa e ele andou de mesa em mesa a oferecer fotografias suas autografadas.
No fim da refeição, quando já estava tudo mais calmo, para lhe fazer um carinho, disse-lhe: - “Oh tio! Daqui a dez anos, vamos estar cá outra vez para festejar!”
Aí, ele pôs um ar grave, como convém quando se fala com um médico, e respondeu-me: - “Não sei como vai ser a minha vida, Judite! A minha filha está velha. O meu genro, … velhíssimo! Um destes dias morrem! … E o que é que vai ser de um homem?”

Ele disse aquilo preocupado, sem um laivo de ironia. E olha que não está longe da verdade!

História de J.Q.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Elas

Talvez eu esteja enganado, mas está “na moda” pôr as mulheres a mandar.
Quando há necessidade em arrumar a casa, para que possamos dar novos passos em segurança, o “X” ajuda mais que o “y”.
De facto, as novidades da última metade do século foram tantas que, para que a população possa usufruir delas, sem a ajuda daqueles técnicos que resolvem um problema e criam dois, há que meter as mulheres ao barulho.
Claro que há homens com um “X” grandioso, arrumadinhos e disponíveis, mas na maioria deles, o “X” é pouco activo e o pequeno “y” anda eternamente a testar novos limites com pouca disponibilidade para esse recado.
O “y” tem os genes ocupados “a mostrar quem se é” – para os automóveis, para o futebol, para os relógios e roupa de "marca" e os que sobram, para “arrotar umas postas de pescada” em futurices desmedidas e  para uns arrancos directos à concupiscência e à procriação da espécie.
Os homens de X grandioso, são habitualmente homo ou metrossexuais, facilmente identificáveis pelos trejeitos. É a necessidade de adulação que os move e, como tal, são erráticos e com laivos maníaco-depressivos. São abundantes na política e nos círculos que lhe estão afectos. Gabam-se do jogo de cintura e estão sempre disponíveis para defender hoje uma causa e amanhã o seu contrário, desde que não os tirem do palco.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Bonecas



Desde a antiguidade mais remota que as bonecas nos servem, nos rituais magico-religiosos e como brinquedos.
Inspiram as meninas para a maternidade, ensinam-lhes um modo de estar, vivem-lhes as angústias, sofrem com elas e morrem esquecidas a um canto, quando perdem utilidade.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Carta a S. José


Caro S. José

Antes de mais, desejo sinceramente que andes feliz pelo Céu, na companhia dos teus, porque há anos que te admiro.

Quando eu era jovem, fiz do Robin dos Bosques, do Superman e do Lone Ranger os meus heróis, mas quando o cabelo me ficou branco e me deu para analisar a tua história, arrumei com eles e dei-te primazia pela tua coragem em não pactuar com o estar dessa época que, brutalmente, sacrificava inocentes à mínima suspeita de irreverência para com os supostos deveres socio-religiosos.
Tu já deves ter entendido onde quero chegar. Quero falar da Maria. Essa miúda que decidiste proteger da lapidação, quando já não estavas em idade de entrar em guerras nem em conflitos com o poder.
A malta agora conta a tua história como um conto da carochinha, mas eu decidi-me a montar os factos de outro modo, para a tornar lógica, e foi aí que me surgiste como um homem a ter em consideração.
Vamos aos factos:
1: Nos Hebreus, como em todas a civilizações da antiguidade, a religião ditava as bases da sociedade e obrigava a padrões morais muito rígidos.
2: As mulheres eram educadas especialmente para o casamento e, depois de casadas viviam para a casa e para os filhos, que geralmente eram muitos. A virgindade era um valor.
3: Tu nasceste em Bethlehem e estabeleceste-te de carpinteiro em Nazareth  e um carpinteiro naquela sociedade não era um “qualquer”. Devias pertencer à “nata” da cidade. Eras viúvo e tinhas uma família. Eras o terceiro de seis irmãos e pai de vários filhos.
4: Falam de ti como um “velho” entre os 45 e os 50 anos, certamente com experiência de vida suficiente para conhecer a natureza humana, sempre disponível a atirar pedras ao vizinho à mínima suspeita, para se afirmarem “defensores da moral e dos bons costumes”.
5: Quanto a Maria, o pouco que se diz da sua genealogia não tem consistência. Na época e no local, as mulheres não tinham relevância político-social. Maria pouco mais seria que “uma mercadoria” a negociar num casamento que trouxesse alguma vantagem ao clã.
6: O teu encontro com ela deve ter sido despertado por essa gravidez sem casamento nem pai identificado. O mais provável é nunca a teres visto antes, e teres-te sensibilizado com a notícia de que a lei determinava que a "adúltera fosse lapidada e o filho do pecado morresse com ela".
E é aqui que tu apareces a pôr um travão àquelas mortes, argumentando contra quem duvidava da tua paternidade, numa Nazareth onde todos se vigiavam e te via mais preocupado com as tábuas do que atrás de jovenzitas púberes a dar largas a um cio tardio.
Ainda bem que não falaste no “Espírito Santo”, em avatares ou em semideuses como o grego Hércules, filho de Zeus e da mortal Alcmena, para justificar o fenómeno. Por imperativo de consciência, afirmaste-te pai, mas não deves ter resolvido o problema com a veemência das palavras e ficaste fragilizado ao contrariar a lei e os costumes.
6: Deves ter visto o caso tão mal parado que pegaste na miúda e no burro e fugiste à procura do apoio da tua família original em Bethlehem, numa viagem louca de 160Km. Só um enorme perigo justifica teres saído sozinho com uma adolescente grávida de termo, em cima de um burro. Nem uma carroça aparelhaste, nem procuraste ajuda numa das mulheres da família para ajudar no parto - uma das principais causas de morte das mulheres. Deves ter andado de sol a sol, arriscando chegar tarde aos caravançarais, como foi o caso no dia do nascimento da criança, quando só encontraste dormida numas grutas à mercê de tudo o que é bicho.
7: Voltaste quando a maledicência acalmou, para te dedicares a Yeshua e lhe ensinar a tua arte e o “estar”, e foi esse “estar diferente” fundamentado no afecto, que lhe marcou as opções e deu origem a uma nova ordem moral.
8: Mas a coisa não deve ter ficado esquecida. É provável que tivesses levado Yeshua aos 12 anos para Alexandria, a cuna dos grandes pensadores de então, fugindo a um mau ambiente. Depois ... desapareceste.

Se fosses mais novo, não tinhas esta lucidez, mas isso em nada te desmerece, pois aquilo que eu mais vejo é gente muito vigorosa a defender “princípios” enquanto procura o tacho, mas que, quando o atinge, passa a pactuar com as maiores injustiças.
Tu foste a terreiro por alguém fragilizado e puseste em risco o teu bem-estar. Depois, assumiste a educação de uma criança, inculcando-lhe os valores certos, num ambiente cruel e androcêntrico.
Por tudo isto, és o meu herói! Bem hajas!
Quando eu morrer quero andar na tua nuvem!

Fernando

domingo, 15 de setembro de 2013

Vende-SE


terreno para construção para 4 vivendas germinadas com três fretes cada a 2 minutos da cidade
Metros quadrados: 2000 ; Preço: € 250.000,00 - Negociável
Tipo: Vende-se

Concelho: Viana do Castelo
Freguesia: Meadela

Gosto destes anúncios sem pontos nem vírgulas.
Primeiro porque o preço é “negociável” (que pode ser objecto de permutação ou de transacção comercial), depois porque dá direito a "fretes" a 2 minutos da cidade e à possibilidade de uma "germinação". Isto é: se criarmos condições ambientais favoráveis, podemos fazer "germinar" e em vez de 4 vivendas, obter um prédio de 10 andares - esquerdo/direito. Além disso o terreno é do tipo “Vende-se” e eu gosto de tudo o que seja do tipo “tipo”.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Wilson Simonal

Ahahahahahaha!
-"Vamos voltar a pilantragem.
Xá comigo, uma musiquinha
Prá machucar os corações"

Nem Vem Quem Não Tem
Nem vem de garfo
Que hoje é dia de sopa
Esquenta o ferro
Passa a minha roupa
Eu nesse embalo
Vou botar prá quebrar
Sacudim, sacundá
Sacundim, gundim, gundá!...

Nem Vem Quem Não Tem
Nem vem de escada
Que o incêndio é no porão
Tira o tamanco
Tem sinteco no chão
Eu nesse embalo
Vou botar prá quebrar
Sacudim, sacundá
Sacundim, gundim, gundá!...

Nem Vem!
Numa casa de caboclo
Já disseram um é pouco
Dois é bom, três é demais
Nem Vem!
Guarda teu lugar na fila
Todo homem que vacila
A mulher passa prá trás...

Nem Vem Quem Não Tem
Prá virar cinza
Minha brasa demora
Michô meu papo
Mas já vamos'imbora
Eu nesse embalo
Vou botar prá quebrar
Sacudim, sacundá
Sacundim, gundim, gundá!...

Nem Vem Que Não Tem!

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Férias

Primeira etapa Pamplona, num fim da tarde cheio de jovens de telemóvel em punho, nos primeiros dias de aulas. Muitas de shorts rendados, eles numa de "negligé cuidado". O comum de uma cidade universitária moderna.
No dia seguinte o destino - Pirenéus Atlânticos, pelo país Basco, de um lado e de outro da fronteira, com tempo para discernir aquela coerência de pintura, dos campos e das aldeias, sem "casas de emigrantes", nem arquitectos por conta própria. Não há evidência de abandono dos campos nem do património edificado. Não se percebem luxos e conservar parece ser a palavra de ordem.
O plano dá margem para o imprevisto.

Num dia, uma visita à Passerelle d´Holzarte, noutro, um trilho pelas Gorges de Kakuetta, com passagem por Saint-Jean-Pied-Port onde a GR 10 se cruza com o caminho de Santiago Francês. Dá vontade de nos equiparmos e seguir um dos muitos caminheiros/peregrinos, mas rapidamente caímos na realidade ao pensar nos 26Km, com um desnível de 1200 metros, da primeira etapa do caminho de Santiago até Roncesvalles, mesmo que nos prometam as mais lindas paisagens atlânticas. Quanto ao GR10 - dois meses a percorrer os seus 900km, da costa do atlântico à do mediterrâneo, pelos Pirenéus, deve ser trabalho para campeões.

Passamos por Ainhoa porque alguém disse que era a mais bonita, por Espelette para ver os pimentos, por Oleron, porque Bidos fica ao lado e há que levar as senhoras às compras, pela fama de Lartigue 1910, e na Hostellerie du Chateau em Mauléon-Licharre comemos como uns príncipes. Em Larressore ouvimos os porquês do Makhila e em todo o lado bebemos vinho e comemos o queijo da região.

Na despedida de França quisemos matar saudades de 30 anos e, em Cambo-les-Bains, fomos ao “Hotel de Charme” de então. Mais uma vez se prova que “nunca devemos voltar aos locais onde já fomos felizes”, o meu quarto tinha a entrada pelo quarto de banho.





Regresso por S. Sebastian. Visita à cidade e ao Museu de S. Telmo, recentemente modernizado. Por fim o inevitável Gugenheim em Bilbao.
2.000 km. Algumas fotos. Muita conversa.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Paulo Cardoso

Paulo Cardoso nasceu em Lisboa em 1953, oriundo de uma família de músicos e artistas plásticos. Diz ter estudado Química e frequentado o Conservatório Nacional e a Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa.
Considera-se Astrólogo, pintor e ensaísta (publicou pelo menos 30 livros).

Há 12 anos que não dá consultas porque “vivia demasiado o que via nelas”. Agora faz cursos e workshops sobre Astrologia e Tarot. 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Porta dos Fundos

Não é qualquer grupo que faz videos assim, com actualidade, saber e inteligência.
Neste “Líder de Torcida” a caracterização de um indivíduo que sofre de Mania é tão perfeita que custa a crer que não esteja fundamentada num facto real a que Fabio Porchat tenha assistido de modo a compor o personagem.

neste, - "É pau é pedra”, que foca o problema da auto-imagem e o quanto nos podemos sacrificar por ela, lembrou-me uma minha "cliente" de 14 anos, lindíssima, que sofria com umas sardas de fazer inveja a qualquer uma, incapaz de valorizar a sua diferença.

e, … neste outro - “Juiz” salienta não só a atitude louca das claques de apoio, mas também uma possível visão sobre a terceira equipe em jogo da minoria que a defende.



Ou este ainda que toca o misticismo e os videntes que para aí andam a distrair os aflitos das suas aflições. Parabéns por esta lufada de ar fresco no humor em português.

domingo, 18 de agosto de 2013

A verdade


-É verdade! Acredita! Eu não tenho outra mulher! Só te tenho a ti!, esbracejava, tentando acalmar a mulher que, sentada ao lado, soprava inconformada com a notícia que lhe caíra em cima como um punho, a lembrar o empréstimo da casa, o desemprego e os filhos menores.

- Oh homem! Diz-me lá como é que apanhaste isso! Isso apanha-se com as mulheres da vida, ou julgas que eu não sei!
, e olhava-o incrédula, enquanto se ajeitava desconfortável na cadeira.
- Acredites ou não, é a verdade! Não há mais nenhuma mulher! Juro!
– retorquiu, derrotado, e deixou cair os braços de olhos postos no chão.
Era a segunda consulta. Na primeira viera sozinho, sem lhe dizer nada, mas as frequentes idas ao hospital para fazer exames, alertou-a e pôs-lhe uma pulga atrás da orelha. Que raio de doença havia de aparecer ao seu homem aos trinta e cinco anos. A ele que tinha uma saúde de ferro. Ainda por cima sem lhe terem receitado nada e marcado consulta para quinze dias depois. Havia de ser grave. Tinha que ver o que se passava.
- Sifilis! …
, repetia enquanto abanava a cabeça entre as mãos, junto aos joelhos. – Era o que me faltava!
Entretanto a médica escrevia, dando tempo para que a poeira assentasse e se pudessem combinar as novas atitudes.
- Minha senhora. Tenha calma que a doença tem tratamento! - interrompeu, sem sequer se atrever a mencionar o HIV negativo, para não lembrar maleitas de que se livrara. – Ele começa já o tratamento e daqui por um mês já deve estar bem. A senhora vai também fazer análises e vem cá para a semana! Há doenças bem piores! Esta vai-se resolver!
À saída, ele dá-lhe o braço, que ela aceita a contragosto.

...

- Então Sr. Amado, como está? Melhor? – recebe-o na consulta seguinte, entre a porta e a secretária.
Vem cabisbaixo, sentido de um torção de alma. Cumprimenta, senta-se e responde delicadamente.
– Estou bem, obrigado, Sra. Dra.! Já quase não tenho manchas nem caroços. Até já voltei a trabalhar!

-E a sua mulher, continua zangada, ou já fizeram as pazes?
- Ela ainda fala em outra mulher, mas eu sempre lhe fui fiel! Aquilo aconteceu por causa de uns homens. Eu estava muito falho de dinheiro e foi uma solução para pagar umas contas. Foi só durante um tempo. Agora acabou! Eu não quero que ela saiba. Ai de mim. … Matava-me!

terça-feira, 13 de agosto de 2013

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Efeitos colaterais


Tem 83 anos, é viúva e vive com uma empregada que trata de tudo. Teve vida em Lisboa, o que transparece no sotaque, na roupa e nos enfeites. O coração falha-lhe há meia dúzia de anos, e hoje vem à consulta depois de ter sido operada às cataratas que a cegavam. Está feliz com a sua nova visão e, aproveitando uma pequena pausa, enquanto procuro os resultados analíticos, dá largas à sua natural expansibilidade.
- O Sr. Dr. é tão bonito! Eu já o adivinhava na voz. Posso dar-lhe um beijo? ... Sabe, eu tive de parar aquele remédio, o Pradaxa, porque me excitava muito. Só me apetecia fazer amor! ... , e eu sem ter com quem!
- Dona Ana! Vamos de ter de reportar essa reacção adversa do medicamento ao Infarmed, pois deve ser o primeiro caso a ser descrito. Quanto ao beijo …

História de E.T.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Vidas



Com doze anos fui para Lisboa trabalhar, com a ideia de ser sapateiro como o meu pai, mas para cada anúncio de emprego havia mais de 50 candidatos. Só arranjei trabalho nas obras, para os lados do Chiado e o dinheiro que ganhava não dava para as despesas. Um dia, um amigo arranjou-me um lugar de ajudante de cozinha num Hotel e a minha situação melhorou. Ganhava 300 escudos por mês, mas comia de graça. Cheguei a cozinheiro e a vestir o "fato branco". Mas aquilo era uma prisão e eu gostava do putedo, e em 57 tirei a carta e fui para taxista. Voltei em 66 e comprei um taxi na minha terra. Naquela altura havia muita gente emigrada e sem carro, e eu calcorreei essa Europa toda! Tive períodos de ir duas vezes por semana a Paris. Levava 5 de cada vez a mil escudos cada um (o bilhete do comboio custava 700$). Ia buscá-los a casa e punha-os onde eles queriam. Levava-lhes mais malas do que as que eles conseguiam levar no comboio, e isso compensava-os. A grade no tejadilho não podia levar mais. Bons tempos!

domingo, 4 de agosto de 2013

As "cunhas"

Não há volta a dar. A nação sempre contou com o compadrio, pois melhor que um saber tem sido a "cunha".
Depois é seguir o trilho. Cumprir a religião e aderir a um dos partidos maioritários que, com esses cartões, poucas portas se lhe hão-de fechar.
Nos últimos anos, respondeu à expansão do Estado. Lutou por um lugar qualquer num dos seus órgãos e com ofertas e adulações, agachou-se com o pragmatismo calculista dos aflitos, refazendo o discurso às necessidades do momento.
Como a exigência de quem nos governa se tem vindo a degradar, frequentemente só lendo as “Conclusões” e não o “Material e Métodos”, todos os caminhos se tornaram possíveis, porque é o curto prazo que domina e se esqueceu que há princípios que se não forem respeitados invalidam as “Conclusões”.
E, para pôr a cereja no bolo, surgiram os concursos internos para que alguém da casa, depois de um qualquer curso nocturno ou diurno como trabalhador estudante, seja integrado em novas funções na mesma instituição.
O resultado final é andarmos enxameados de gente que ocupa lugares para onde nunca entraria num concurso aberto, onde se tivessem de medir com os seus pares.
Entrar enfermeiro e passar a gestor, entrar "relações públicas" e passar a psicólogo, entrar assistente operacional e passar a enfermeiro ou a advogado, na mesma instituição, sem concurso aberto, é uma bizarria, que o Estado sustenta, e que só afecta a sua eficiência.
Também é por isso que "assim não vamos onde era suposto chegarmos!"

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Siglas

Em serviços oficiais, o uso de siglas tem regras, e não se pode permitir que cada um use as que quer.

As siglas são indiscutivelmente úteis no léxico médico, mas sem uma lista aprovada, ninguém se entende.
Morrer de TP para uns pode ser na consequência de uma "Tuberculose Pulmonar" e para outros uma morte causada por um “Tiro de Pistola”, e BCG (Bacillus Calmette-Guérin) já foi interpretado por um aluno de Medicina, aqui do norte, como a “Bacina Contra a Gripe”.

Nos últimos anos, tenho assistido “à malta nova”, cheia de energias positivas, atirar-se aos textos com uma  "criatividade" sem nexo, perante a passividade e a falta de rigor dos mais velhos.
Surgiram então nos diários e outros registos, os “coc” – consciente, orientado e colaborante, os “2 id” ou “3 id” em vez de “b.i.d.” ou “t.i.d.”, vindos do latim "bis in die" e "ter in die", para significar duas e três vezes por dia, e a incapacidade/recusa em adoptar qd - "quaque die" – uma vez por dia, e o q_h - "quaque_hora” indicando o intervalo entre as administrações da medicação (por exemplo: 2 cápsulas q4h, para dizer 2 cápsulas de 4 em 4 horas) e outros sinais de desrespeito pelos nossos primórdios linguísticos, principalmente quando até os anglo-saxões as usam no seu léxico médico.
Mas são os tempos que correm. Aquilo a que os aventureiros chamam "A nova Era" e que tem resultado em fogachos "para inglês ver" e conseguir uma certificação de qualidade, esquecendo que tudo tem um princípio, um meio e um fim, e que se alguém se eleva, deve respeitar os ombros sobre quem se apoia.