segunda-feira, 20 de maio de 2019

Kali

- E o nome, qual vai ser?, perguntou para completar os registos.
- Sei lá!, respondi. – Eu vim ver a ninhada. Não contava levar o cão assim tão pequeno!

São assim os filhos. Põem o nosso ritmo em causa e apressam-nos. E logo a mim, que demoro meses para comprar carro e que, deixado só, faria o mesmo por um cão. Tenho necessidade de sentir o “sim” a impôr-se, como numa relação amorosa. Olhar várias vezes e em tempos diferentes, vê-los correr, responder às solicitações, sentir como se encaixam em nós quando lhes fazemos festas.
Ainda a lembrar o meu velho Troll, que nos deixou, depois de 15 anos de bom entendimento, tentar ler nos olhos de uma cachorrinha de menos de dois meses, se ela tem potencial para um futuro idêntico, é trabalho de macumbeiro. E não foi a razão, foi o “gut feeling” que definiu a decisão. Vi como se portavam a mãe e o pai, senti como me olhou e as palavras saíram-me da boca – Levo-a!

Depois, foi a ida ao consultório para a desparasitação, vacinação e registos.
- Que nome propões? Nós costumamos pensar em figuras mitológicas em situações semelhantes. Ela vai ser grande e preta. Conheces alguma deusa negra?
- Nix? A deusa grega que personificava a noite, filha do Caos e mãe de Moros (Destino), de Tanatos (Morte), de Hypnos (Sono) e de muitos outros nesta senda.
- Nix! Nix! Não sei! Não soa bem chamar assim por um cão. Um nome com duas sílabas de vogais abertas soava melhor. Abre aí a Net e procura noutras religiões.

Não foi preciso. A minha filha tinha ido passar umas férias à Indonésia e lembrou-se da deusa Kali, do Induísmo, e por não nos lembrarmos de mais deusas de pele escura, e por já estarmos entrados nas horas, ficou Kali, com a promessa de um texto com a história dela.
Esta Kali, nasceu a 3 de Dezembro de 2018. É filha de um acasalamento casual de um Dogue Alemão com uma Serra da Estrela. É a nova companheira do Trovão.

O texto da minha filha, veterinária, é o que se segue:

Shiva
Kali
Shiva e Kali tinham casado - um match made in heaven - e andavam, para a delícia de todos os humanos, perdidamente apaixonados e felizes. 

O Shiva é, da divina trindade hindu, o tipo mais temido. Ao contrário da divina trindade cristã, em que o Pai manda e o Filho e Espírito Santo só levam com as culpas, os hindus têm uma equipa a sério - Braham é o criador, o Vishnu é o protector e o Shiva é o destruidor. É claro que o cognome de destruidor lhe dá má fama, mas o Shiva não é um deus mau, até porque isso não existe. Na maioria dos dias, o Shiva é um deus pacato e benevolente, dedicado à yoga (que ele mesmo inventou) e à meditação, mas quando a ignorância humana lhe chega ao nariz, quando nós nos pomos com confusões e com problemas sem fim à vista, ele interfere. E quando o Shiva interfere, não é meigo - se os problemas não têm solução, é pela raiz que têm de ser arrancados et voilá - terramotos, maremotos, erupções vulcânicas e fogos servem para limpar tudo e deixar terreno fértil para a regeneração. Destruir é criar espaço para que algo novo possa nascer. Eu que me tenho por ateia, admito que tenho alguma admiração por este tipo.

Os humanos faziam templos a Shiva e davam-lhe ofertas e coroas de flores, pedindo-lhe apenas que ele se mantivesse tranquilo e não interferisse com os assuntos dos homens, por isso andava toda a gente contente com o seu casamento com a Kali.

A Kali era uma rapariga bonita, azul, sempre nua, de dentes pontiagudos, a boca manchada de sangue, rodeada de cobras e com um colar de crânios ao pescoço e com o hábito de se passear entre as cinzas dos locais de cremação. Sim, era um pouco gótica, mas era um doce de rapariga e representava a mãe Natureza. A Natureza, ao contrário da nossa ideia citadino-bucólica da luz do sol a atravessar as folhas das árvores abanando docemente à brisa e ao som dos passarinhos, é um sítio terrível, cheio de perigos, venenos, espinhos e morte em cada esquina. A Kali era a Mãe Natureza, com toda a sua beleza e com todo o seu terror - símbolo do lado subestimado da mulher e da verdadeira força feminina.

O casamento, como é óbvio, corria bem - cozinhavam juntos, ouviam música, dançavam pela sala, faziam yoga ao pôr do sol e viam em conjunto os filmes de Bollywood nos serões. No entanto, Kali estranhava a tranquilidade de Shiva e temia que aquela vida pacata fosse demais para ele. Antes de se casarem, Shiva era um bon vivant e passava meses em tainadas com o Braham e com o Vishnu, bebendo até cair, filosofando o mundo e meditando durante anos a fio. Desde que se tinham casado, era um rapaz caseirinho. Preocupada com ele ou talvez porque também ela queria ir beber um copo com os seus amigos e deixar a vida modesta de mulher casada por uns tempos, Kali disse a Shiva - Homem, vai sair com os teus amigos! E Shiva foi.

Sucede que Shiva, quando se põe na treta com o Braham e com o Vishnu, e mandam vir mais um copo, e agora é mais um brinde à terra, e outro aos céus, e um puxa o outro e por lá nem fazia frio - dormia-se ao relento nas calmas -, perde-se. E acabou por passar anos entre festas e meditações até que se lembrou que era casado e que adorava a sua Kali e foi a correr para casa.

Entretanto Kali, que era uma mulher independente, foi vivendo a sua vida sem se chatear muito. Naquele dia, como em todos os outros, antes de entrar para o chuveiro, disse ao seu filho sentado no chão do quarto de banho - rapaz, a mãe vai tomar banho. não deixes ninguém entrar, sim? E deu-lhe um beijo na testa e foi-se.

Quis o destino que o Shiva chegasse nesse momento a casa, sedento de amor e morto de saudades. Correu a casa toda cantando para Kali e da Kali nada. Quando a foi procurar no quarto de banho encontrou a criança que prontamente lhe disse que não podia entrar. A criança não sabia quem era o Shiva e o Shiva não conhecia a criança de lado nenhum. O Shiva, já sabemos, é um tipo bom até que lhe cheguem a mostarda ao nariz e o miúdo, filho de quem era também não era pêra doce, e ficaram ali os dois em tensão - o pequeno dizia 'não interessa quem és, não podes passar' e o outro 'ai que não passo' e com os nervos em franja, saca da espada samurai Hattori Hanzo e corta a cabeça ao garoto. A Kali, quando sai do chuveiro, toalha na cabeça, as serpentes ainda a sacudirem-se ao seu lado, como seria de esperar, passou-se. 'Ai o meu menino, que foste tu fazer meu anormal, mataste-me o filho, mataste o teu filho, põe-te já daqui para fora!' e o Shiva 'ai meu amor, que eu não sabia quem ele era, e a frente que ele me fez, oh amor, o Kali, pombinha do meu coração, ai desculpa-me' e ela 'desaparece-me da frente demónio de homem, antes que eu use a minha espada no teu pescoço'. Kali, não se disse ainda, mas também tinha uma Hattori Hanzo e era a mais conhecida assassina de demónios do seu tempo.

Shiva ajoelhou-se e jurou voltar com a cabeça do primeiro bebé que encontrasse a dormir, para colar no corpo decepado do seu filho e com esta saiu de casa. Com a cabeça em água, correu o mundo à procura e quando avistou um elefante bebé a dormir, não hesitou - zás -, e correu para casa e com jeitinho e auxílio de super-cola 3 lá colou a cabeça orelhuda no corpo do pequeno, dando-lhe de novo vida. 



O Braham e o Vishnu, vendo o ar sanguinário da Kali perante o bebé-cabeça-de-elefante e temendo o pior, ofereceram à pobre criança, de nome Ganesh, o dom do intelecto, da sabedoria, do sucesso e da fortuna (basicamente, tudo o que se pode desejar na vida) transformando-o num dos mais adorados deuses do hinduísmo.

Reza a história que o Shiva e a Kali conseguiram resolver os seus problemas - a ilha indonésia de java sofreu bastante com esta situação (terramotos inundações dilúvios e vulcões em contínua erupção) e o povo dessa ilha também se fartou de adorar um deus tão intempestivo e converteu-se ao Islão. No entanto, eles continuaram felizes e destruidores e assassinos de demónios e criadores de terrenos férteis para que das cinzas se ergam novas histórias, até aos finais do tempo.

Esta história contaram-me, assim mesmo sem tirar nem pôr, duas javanesas, uma muçulmana e uma cristã, que defenderam o Shiva e a Kali com unhas e dentes, em Prambanam, no templo a Shiva, continuamente em reconstrução dado os acessos de fúria do mesmo.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Metrosideros

Fui tomar um café a Vila Praia de Ancora e, no regresso a casa, parei para fotografar os metrosideros em flor da marginal.

Conheço-os vai para trinta anos, quando decidi usá-los para sebe em minha casa. Agora, admiro-os ainda mais, pois tenho-os visto, já bem crescidos, a adornar muitos dos lugares públicos, principalmente se situados à beira-mar, diariamente à mercê dos ventos e da água salgada, sem grandes sinais de sofrimento.

Hoje, um belo exemplar recebeu-me à porta do Camipão, a fazer lembrar os do Passeio Alegre, no Porto, classificados como de "Interesse Público".

Têm folha perene, crescem até 25 metros e são originários da Nova Zelândia: Aí, florescem em finais de Dezembro e assumem o papel de árvore de Natal.

São da família das nossas murtas, que têm menor porte (não mais de 5 metros), também elas resistentes, principalmente a temperaturas altas e a verões secos e que são senhoras de uma fragrância usada em perfumaria, medicina tradicional e até como condimento. Os gregos e os romanos usavam-na nas grinaldas, para adornar as noivas.

Por muito que me custe, pertencem à família das Myrtaceae, onde também estão os eucaliptos, … esses ranhosos....! Mas ninguém tem culpa da família que lhe coube em sorte! É a vida! ...

 

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Cincinnatus

Custa-me aceitar quem se eterniza, principalmente se ocupa um qualquer lugar de direcção do Estado. Todos temos incapacidades para algum tipo de problemas e, quando persistimos, são esses que vão ganhando volume sem resposta e nos fazem cair com estrondo.
É esse um dos motivos porque não simpatizo com o PCP, nem com o Mário Nogueira, nem com os "dinossauros" das nossas autarquias.

Todos os "Team Leaders" dos diferentes organismos do Estado, deveriam ter mandatos limitados. por não mais que 10 anos, mesmo que se mantivessem competentes.
As funções de direcção, se tomadas com responsabilidade, não só são desgastantes, como causam ressentimentos que se agravam com o andar dos anos, pelo que, mesmo quando já não há "Up", tem de haver "Out", que mais não seja para dar descanso aos que há muito o não suportam.

Transporto comigo a figura/mito do Cincinatus que ponho em contraponto a Salazar, ao Generalíssimo (o íssimo é real) Franco, ao Saddam Hussein, ao Erdogan e às famílias Bashar al-Assad e Kim Jong-un e a outros tantos que têm todas as soluções para aquele futuro que só eles conhecem.
São eles que enchem os Noticiários, com os seus 9 anos, 4 meses e 2 dias, repetidos à exaustão em negociações do inegociável, pois são habitualmente cabeçudos incultos que não entendem que um problema pode ter várias soluções razoáveis e que a História ensina que raramente se tem 100% da razão.
"Dez anos é muito tempo!", já o dizia o Paulo de Carvalho, quando ainda tinha cabelo, voz e alguma graça, e eu concordo. Um máximo de dois mandatos de quatro anos é o certo. Mais que isso só para excepções muito excepcionais.

Na historia de Roma Lucius Quintus Cincinatus (519 AC — 439 AC) , é modelo de virtude e simplicidade. Foi eleito ditador para salvar o exército numa guerra contra os Volscos. Quando o informaram da nomeação estava a lavrar a terra. Largou as alfaias e foi para o campo de batalha. Em 16 dias derrotou os inimigos. Entrou em triunfo em Roma e, "por amor à República", renunciou imediatamente à sua autoridade absoluta para voltar aos seus campos e ao arado. 

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Incêndio Florestal



- Esteja descansado que aqui nunca houve incêndios!, dizia-me a vizinha, tão certa como aqueles que vivem nos leito de cheia e confiam que o rio nunca lhes há-de chegar aos pés, quando eu, que sempre fui avesso à sabedoria popular, me punha a "empurrar" o mato para longe dos muros.
O povo da aldeia faz coro com ela e, como  os Serviços Florestais se dizem incapazes de identificar os proprietários da floresta confinante com as habitações, só me restou contar com a ajuda dos deuses.

De acordo com a 1ª Lei de Murphy “Se alguma coisa pode dar errado, dará, e no pior momento, e o incêndio florestal da passada sexta-feira, veio quando eu estava a milhas de casa e, não fora uma boa estrela pôr no ar dois aviões Canadair e no chão um carro de Bombeiros e um tractor com uma cisterna, o fogo não parava a três metros dos meus muros.

Parecer de um popular estabelecido nas imediações do início do incêndio.
O fogo teve origem numa fogueira activada por madeireiros, junto à aldeia vizinha. O dia estava seco e com muito vento. O fumo que saía da zona fazia prever o pior, pelo que chamou os Bombeiros, que chegaram uma meia hora depois e que, em vez de apagarem as chamas, ficaram à espera de uma ordem do seu chefe. Entretanto chegou à fogueira “alguém” com uma cisterna cheia de água, que foi impedido de a descarregar.
Quando, minutos depois, o fogo se estendeu à floresta, foram chamados os meios aéreos, “por o terreno, não ter acessos suficientes para o combate com os meios disponíveis.
Arderam cerca de 25 hectares de eucaliptal e pinheiro, com muitas austrálias pelo caminho.  

domingo, 21 de abril de 2019

Líquens


Os líquenes são os organismos visíveis mais resistentes do planeta mas são dos menos ambiciosos. Dão-se por felizes a crescer num cemitério soalheiro, mas dão-se melhor ainda em ambientes onde nenhum outro organismo se instalaria – nos cumes ventosos das montanhas e nas regiões árticas desertas, onde há apenas rocha, chuva e frio, e quase nenhuma concorrência. Em áreas da Antártida, onde praticamente não cresce mais nada, encontram-se vastas extensões de líquenes – 400 tipos diferentes - dedicadamente agarrados a tudo o que seja rocha acoitada pelo vento. Durante muito tempo não se compreendeu como crescem sobre as rochas nuas, sem qualquer sinal de nutrição ou produção de sementes.
São uma sociedade entre fungos e algas. Os fungos excretam ácidos que dissolvem a superfície da pedra, libertando minerais que as algas convertem em nutrientes em quantidade suficiente para alimentar ambos. Existem mais de 20 mil variedades de líquenes.
Como a maior parte das coisas que vivem em ambientes hostis, os líquenes crescem devagar. Pode demorar meio século para que um líquen atinja as dimensões de um botão de camisa. Os que são do tamanho de um prato, escreve David Attenborough, são, portanto, capazes de ter centenas, senão milhares de anos de idade.
Seria difícil imaginar uma vida menos interessante.
Limitam-se a existir.

In "Breve História de quase Tudo" de Bill Bryson

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Narcos




Ambas as séries dizem estar fundamentadas em factos reais.
Custa a crer!
Volta Sócrates, estás perdoado! Armando Vara, fora da prisão JÁ! Duarte Lima, venham cá esses ossos! ... e por ai afora ....

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Kaspuscinski - “O Imperador”




Caro amigo, uma mania domina este mundo louco e imprevisível – a mania do desenvolvimento. Todos querem desenvolver-se, mas não normalmente, como Deus manda, que o homem nasça, se desenvolva e morra, mas desenvolver-se de maneira espectacular, dinâmica e grandiosa, desenvolver-se para outros verem, invejarem, comentarem abanando a cabeça. De onde vem isso? Não se sabe. As pessoas correm, que nem ovelhas atrás da ganância porque basta que alguém noutro canto do mundo se desenvolva, de seguida todos querem imitá-lo, atacam, pressionam, exigem, para se desenvolverem também, subir, convergir. E basta, amigo, que ignores essas vozes, e já tens em seguida frustrações, revoltas, negações e clamores.

In “O Imperador” de Ryszard Kaspuscinski - A história do golpe militar que depôs Haile Selassie, o Grande Senhor, Eleito por Deus, Imperador da dinastia salomónica que ocupara o trono da Etiópia ao longo de mais de quarenta anos, contada pelos "do regime".

Lê-se de um fôlego e ensina ... tanto.

quinta-feira, 28 de março de 2019

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

O nosso "anti-racismo"




Os europeus tornaram-se multiculturais, tanto nos factos como por princípio. As comunidades imigrantes, muitas vezes pesadamente muçulmanas, crescem nos países europeus em resposta à carência de mão de obra de princípio do pós Segunda Guerra Mundial. Nos primeiros tempos, os activistas destas comunidades lutaram por direitos iguais para os imigrantes e seus filhos, mas viram -se frustrados por continuas barreiras à mobilidade ascendente e à integração social. Inspirados tanto pela Revolução Iraniana de 1979 como pelo apoio saudita às mesquitas e madrassas salafistas, começaram a aparecer na Europa grupos islamitas que defendiam que os muçulmanos não deviam procurar integrar-se , mas sim manter instituições culturais separadas. Muitas pessoas da esquerda europeia abraçaram esta tendência, considerando os islamitas como os autênticos porta-vozes dos muçulmanos, mais marginalizados do que integrados, que tinham optado por se integrarem no sistema social. Em França, os muçulmanos tornaram-se o novo proletariado, com parte da esquerda a abandonar o seu secularismo tradicional em nome do pluralismo cultural. As criticas de que os islamitas eram ele próprios intolerantes e iliberais era muitas vezes minimizadas sob a bandeira do antirracismo de contrariar a islamofobia.

In Identidades, Francis Fukuyama

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Carta aberta a Nicolás Maduro




Caro Maduro:
Para governar um país é necessário ter mundo e jogo de cintura para não se refugiar numa solução que até pode ter sido boa, mas que a mudança das circunstâncias provou “ad nauseam” que já não é. A pouca razão que possas ter tido, não te irá servir para nada. A geografia e as enormes reservas de petróleo contam mais que a ideologia. Quiseste continuar a política à Robin dos Bosques, sem entenderes que a América do Sul é pertença do “Ocidente”, que é como quem diz está dependente da política internacional dos Estados Unidos. Esqueceste-te que Cuba não tinha petróleo e optaste pelo caminho do Saddam, e o mais certo é teres o mesmo fim. A Venezuela é demasiado importante para que a deixem ser um protectorado da Rússia ou da China.
Paraste no tempo. A globalização criou problemas que exigem mentalidades abertas a soluções integradas com o sentir das outras nações. Deves ter pensado que estar sentado sobre o petróleo te dava o direito de fazer uma “Arábia Saudita” à Venezuelana, quando devias ir à missa e procurar o apoio internacional que foste perdendo.  
Se arrastares o país para a guerra civil, vais ficar na História como mais um Vilão. Ouve o que te digo: marca as eleições que te pedem, mas faz por perder! Depois, foges para a Rússia, voltas aos camiões (aquela terra tem extensões que nunca mais acabam) e acabas de criar os filhos. Daqui a uns anos, escreves um livro a contar as mágoas e vais ver que não te vão faltar compradores. Com sorte, até te fazem santo, quando morreres!
Vai por mim que, mesmo não sendo taxista, sou mais velho e já vi o porco a andar de bicicleta.

Passa bem!

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Gripe Masculina



Aos homens constipados

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

Poema de António Lobo Antunes, In 'Sátira aos Homens quando estão com Gripe'

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

O futuro do SNS



Estou fora, mas mantenho as cicatrizes do tempo em que lutei por um SNS com custos sustentáveis e revolta-me ouvir quem defende resolver o problema atirando-lhe dinheiro para cima.
Senti as dificuldades de todos os graus da carreira médica e assisti ao crescimento da “medicina defensiva”, ao abuso de Meios Complementares de Diagnóstico, à incapacidade em conter os profissionais “disfuncionais”, ao papel nocivo do amiguismo politico-religioso e à inaptidão dos sucessivos ministérios da Saúde em dar credibilidade aos Centros de Saúde.
Como se estas ineficiências não lhe chegassem, quando os Hospitais Privados entraram e o Serviço Nacional de Saúde passou a “Sistema”, o descontrole agravou-se, pois os que dizem que o Estado é mau pagador, ocultam que ele paga muito bem as ineficiências e os oportunismos, e que raramente protesta.
Para cúmulo, a comunicação social, ao anotar essencialmente as falências do SNS, induz na população um sentimento de insegurança, que a leva a quase exigir TACs, análises e muitas opiniões, esquecendo que o funcionamento das instituições é monitorizado diariamente pelos pares, sejam eles Auxiliares, Enfermeiros ou Médicos.
As últimas intervenções dos políticos vão na direcção de entregar aos grandes grupos económicos ligados à Saúde, “as técnicas que dão dinheiro” e deixar para o SNS o que “não é rentável”, o que irá agravar o fosso salarial entre os profissionais dos dois lados, com a consequente “desnatação” dos quadros do Estado.

O futuro do SNS não depende de “mais dinheiro”. Depende da capacidade técnica e organizativa de que for capaz, e isso não é compatível com o “deixa andar”, com compadrios, com “faz-de-conta” para que os “números” dêem certo, quando se recusa a quem está “por dentro” e é responsável, capacidade de corrigir o que está mal.
É aqui que se ganha o SNS. Claro que o dinheiro tem de ser adequado às funções, mas sem uma responsabilização clara do modo como ele é gasto, só se irá agravar o problema e dar razão aos privados que se dizem capazes de melhor gestão. O SNS exige, acima de tudo, gente competente. 
Infelizmente, também aqui há “Estradas de Borba” (fruto de compadrios e da excessiva indulgência para com os “amigos”), a aguardar que uma chuvada mais forte as faça ruir e, mesmo que haja auto-estradas e muitas outras vias com bom funcionamento, vão ser elas que lhe irão dar a imagem, para desviar o dinheiro dos Impostos para o Sector Privado, e o transformar num Serviço  para os “pobres”.


sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Inclusão




Não desprezo os homens. Se o fizesse, não teria direito algum, nem razão alguma, para tentar governá-los. Sei que são vãos, ignorantes, ávidos, inquietos, capazes de quase tudo para triunfar, para se fazer valer, mesmo aos seus próprios olhos, ou simplesmente para evitar o sofrimento. Sei muito bem. Sou como eles, pelo menos momentaneamente, ou poderia tê-lo sido. Entre outrem e eu, as diferenças que distingo são demasiado insignificantes para que a minha atitude se afaste tanto da fria superioridade do filósofo como da arrogância de César. Os mais opacos dos homens também têm os seus clarões: este assassino toca correctamente flauta; este contramestre que dilacera o dorso dos escravos com chicotadas é talvez um bom filho; este idiota partilharia comigo o seu último bocado de pão. Há poucos a quem não possa ensinar-se convenientemente alguma coisa. O nosso grande erro é querer encontrar em cada um, as virtudes que ele não tem e desinteressarmo-nos de cultivar as que ele possui.

In “Memórias de Adriano” de Marguerite Yourcenar

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Natal


Natal, e não Dezembro
Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

David Mourão-Ferreira (
1927-1996), in 'Cancioneiro de Natal' 

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Pimentos picantes

Recentement o WhatsApp deu-me acesso a este pequeno vídeo, onde um paisano arrisca a comer o mais picante dos pimentos. O filme não mostra a totalidade dos seus efeitos, que se podem prolongar por dias e que incluem cefaleias intensas na dependência do Sindrome de Vasoconstrição Cerebral Reversível. 
Na minha prática clínica, encontrei uma vez uma jovem médica com anestesia da mão, por ter manuseado este pimento. 


A capsaicina é o responsável pelo picante dos pimentos. É um composto químico capaz de estimular os receptores térmicos e dolorosos da pele e especialmente das mucosas. Algumas variedades de pimentos podem apresentar variações importantes na sua concentração (como os pimentos de Padrón, que “uns picam e outros não")



A capsaicina é muito irritante para os mamíferos, o que evita que os seus frutos sejam comidos pelos herbívoros. As sementes, onde se concentra o composto, são dispersas predominantemente pelo pássaros, que são imunes ao químico.

O homem praticamente não metaboliza a capsaicina, pelo que os seus efeitos também se fazem sentir no outro extremo do tubo digestivo.
Aplicada directamente sobre a pele, pode saturar os receptores da dor, pelo que já foi usada como analgésico tópico.

O Carolina Reaper, foi considerado em 2012, pelo Guinness World Records, o pimento mais picante.