domingo, 28 de julho de 2019

Atahualpa




O momento mais dramático entre europeus e nativos americanos, foi o primeiro encontro entre o imperador inca Atahualpa e o conquistador espanhol Francisco Pizarro, na cidade de Cajamarca, nas montanhas peruanas, a 16 de novembro de 1532.

Atauhalpa era o líder absoluto da maior e mais avançada sociedade do Novo Mundo, enquanto Pizarro representava o sacro-imperador romano Carlos V (Carlos I em Espanha), monarca do mais poderoso estado europeu.

À frente de um exército de cento e setenta e oito soldados espanhóis, Pizarro encontrava-se num território desconhecido e nada sabia sobre os habitantes locais. … Atahualpa estava no seu império de milhões de súbitos, com um exército de oitenta mil soldados. Mesmo assim Pizarro capturou Atahualpa poucos minutos depois de os dois líderes se terem entreolhado.
Pizarro manteve o seu prisioneiro cativo durante oito meses e exigiu o maior resgate de sempre em troca da garantia de libertação. Após o resgate – ouro suficiente para encher um compartimento de sete metros de comprimento por cinco de largura e dois e meio de altura – lhe ter sido entregue, Pizarro ignorou a promessa e executou Atahualpa.


Segundo os relatos escritos por companheiros de Pizarro, entre eles os irmãos Pedro e Hernandez, testemunhas em primeira mão:

Pizarro queria obter informações de alguns índios e por isso mandou-os torturar. Eles confessaram ter sabido que Atahualpa os esperava em Cajamarca.

No dia seguinte chegou-nos um mensageiro de Atahualpa e Pizarro indicou-lhe: “Diz ao teu senhor que venha quando e como lhe aprouver e que, venha como vier, o receberei como amigo e meu irmão. Rezo para que venha depressa, pois desejo vê-lo. Nenhum mal ou injúria lhe serão dirigidos”.
...
Pizarro escondeu as tropas à volta da praça de Cajamarca. Dividiu a cavalaria em duas partes e entregou o comando de uma ao seu irmão Hernando e da outra a Hernandez de Soto. Dividiu também a infantaria, ficando ele com uma parte e entregou a outra ao irmão Juan Pizarro. Ordenou ainda a Pedro de Candia e a dois ou três soldados de infantaria que fossem com clarins para uma pequena fortificação na praça, onde deveriam ficar com uma pequena peça de artilharia.

Ao meio-dia, Atahualpa aproximou-se com os seus soldados. A quantidade de objectos de ouro e prata que traziam era imensa. Atahualpa, vinha numa liteira magnífica, carregada aos ombros por oitenta homens, envergando riquíssimas indumentárias azuis.


Entretanto, nós esperávamos, prontos a agir, ocultos num pátio, cheios de receio.

Pizarro enviou então Frei Vicente de Valverde para falar com Atahualpa, para lhe pedir, em nome de Deus e do rei de Espanha, que se submetesse à lei de Nosso Senhor Jesus Cristo e ao serviço de Sua Majestade, o rei de Espanha. Avançando com um cruz na mão e a Bíblia na outra, passando entre os soldados índios até onde se encontrava Atahualpa, o frade dirigiu-se-lhe assim: “ Sou um sacerdote de Deus Nosso Senhor e ensino aos cristãos as coisas do Senhor, e isso mesmo te venho ensinar a ti. O que eu ensino é aquilo que Deus nos diz neste Livro. Portanto, da parte de Deus e dos cristãos, rogo-te que sejas Seu amigo, pois tal é a vontade de Deus e será para teu bem!”

Atahualpa pediu o livro, para o poder examinar, ao que o frade lho entregou fechado. Atahualpa não sabia abrir o Livro e o frade estendeu o braço para o fazer, quando Atahualpa, lhe deu uma pancada no braço, não querendo que o Livro fosse por ele aberto. Depois abriu-o ele mesmo e, sem qualquer espanto perante as letras e o papel, atirou-o a uma distância de cinco ou seis passos.

O frade voltou-se para Pizarro, gritando: “Venham! venham, cristãos! Venham contra estes cães que rejeitam as coisas de Deus. Este tirano atirou o meu livro da Lei Sagrada ao chão! Não viram o que fez? Para quê ser educado e servil com este cão sarnento? Avancem contra ele, pois eu vos absolvo!”

Então Pizarro fez sinal a Candia que começou a disparar as armas. Ao mesmo tempo fizeram-se ouvir os clarins e as tropas espanholas nas suas armaduras, tanto a cavalaria como a infantaria, saíram dos seus esconderijos a caminho da massa de índios desarmados que se apinhavam na praça, bradando o grito de guerra espanhol “Santiago!”. Tínhamos prendido guizos aos cavalos para atemorizar os índios. O troar das bocas de fogo, a estridência dos clarins e os chocalhos dos cavalos lançaram os índios numa confusão de pânico. Os espanhóis caíram sobre eles e começaram a esquartejá-los. Os índios estavam tão apavorados que se pisotearam uns aos outros, sufocando-se mutuamente. Como estavam desarmados, puderam ser atacados sem risco para qualquer cristão. A cavalaria derrubou-os com as montadas, matando-os, ferindo-os e caçando-os. A infantaria levou a um ataque tão violento sobre os que ficaram que rapidamente a maior parte foi passada a fio de espada.

Pizarro com a ajuda de sete ou oito espanhóis montados, chegou à liteira de Atahualpa e agarrou-o com toda a coragem, capturaram-no e mataram todos os índios que o escoltavam.

Depois Pizarro disse a Atahualpa: “Não vejas como um insulto o facto de teres sido derrotado e feito prisioneiro. Foi o rei de Espanha que nos mandou conquistar esta terra para que todos possam ter conhecimento de Deus e da Sua Sagrada Fé Católica; e por causa da nossa boa missão, Deus Nosso Senhor, Criador do céu e da terra e de todas as coisas que nela existem, permite que assim seja, para que tu O possas conhecer e deixes a vida selvagem e demoníaca que tens levado. Quando vires os erros com os quais tens vivido, compreenderás o bem que te fizemos ao virmos para a tua terra, por ordem de Sua Majestade, o rei de Espanha. O Nosso Senhor permitiu que o teu orgulho fosse esmagado e fez com que nenhum índio pudesse vir a ofender um cristão.”

in "Armas, Germes e Aço" de Jared Diamond

quinta-feira, 25 de julho de 2019

O porteiro


Desta vez foi a Cristina. A Ferreira. A que grita. Era ela que ocupava o ecrã, sintonizado na SIC. Apesar do som baixo, sobressaía a estridência da voz que, no entanto, se mantinha indiscernível, enquanto em rodapé se salientavam as desditas das entrevistadas que tinham tido cancro do colo do útero e expunham a sua vida à curiosidade dos espectadores ociosos da manhã ou, como eu, presos nas malhas das idas ao hospital, por acidentais quedas alheias.
Tirando isto, o ambiente era o mesmo. As mesmas cadeiras incrivelmente desconfortáveis, o ronronar da máquina da comida, o passo cadenciado dos profissionais, as suas conversas fragmentadas.
Para conseguir a minha pulseira roxa, já tinha estado 20 minutos na fila admissão ao Serviço de Urgência, juntamente com aqueles que aí iam por um motivo de saúde. Dava para ver que a sala de espera estava repleta, com grande parte lugares ocupados por membros de uma mesma família. Eram seis mulheres que vestiam calças justas, coloridas, até meio da canela e que deixavam bem patente a distribuição do excesso de gordura corporal.  À volta delas gravitavam quatro crianças entre 1 e 10 anos manobrando um triciclo de plástico entre pernas de cadeiras e pernas de pessoas, algumas de chupeta na boca, uma de chaves ao pescoço. Mas tudo em boa ordem e em silêncio.
O tempo de espera é …tempo de espera… e quando sabemos que as situações estão controladas. é mais fácil.

O que achei interessante de verificar foi a competência e simpatia do pessoal médico, de enfermagem e auxiliar com que me cruzei, em contraste com a postura de distância e sobranceria dos agentes da empresa de segurança, contratada pelo hospital, que delimitam os espaços com as suas pernas abertas, braços cruzados de bíceps bem delineados, três bolas vermelhas bordadas na camisa cinzenta e olhar sobranceiro de olhos semicerrados, que se salienta quando lhes peço uma informação. Não são informadores…e remetem-me para uma fila qualquer. Quando lhes digo, em jeito de pedido, que vou precisar de ajuda para tirar o meu pai da cadeira de rodas, respondem-me com um subtil, quase imperceptível, levantar de uma comissura labial, que talvez se encontrar um auxiliar por aí, ele me possa ajudar.
A figura do porteiro que conhecia o pessoal, que sabia dar informações, que dizia bom dia, boa tarde e até amanhã, que tomava conta de um recado se alguém precisasse, que guardava uma encomenda para levantar à saída, que dava uma mãozinha para subir o degrau,… desapareceu.
É sabido que tinham imensos defeitos e, como todos os porteiros, partilhavam informações da forma que entendiam e talvez alguns com isso lucrassem. Envelheciam nos lugares e, enquanto perdiam capacidades físicas, tornavam-se mais manhosos e alguns mais sábios.
Mas não são os nossos defeitos que nos humanizam?
Esta imagem musculada de “segurança”, treinada para ser fria, anónima, indiferente, impessoal, rotativa para não criar laços, será necessária?

Quando comecei a trabalhar havia um hospital com médicos, enfermeiros, auxiliares e administrativos… agora é uma empresa com colaboradores;
Tratávamos doentes e passámos a trabalhar com utentes;
Tínhamos uma agenda e passámos a ter um “sistema” que, quando fica “em baixo”, deixa todos de braços cruzados a aguardar que o informático resolva.
Assinávamos o ponto na sala do Enfermeiro Chefe, a quem dávamos um bom dia e uma frase de circunstância antes de tomar o pulso à jornada e passámos a “pôr o dedo”;
O horário passou a contar-se em horas de trabalho efectivo e em horas de bolsa, que podem ser generosamente geridas pelos directores, atribuindo-lhes valor temporal ou material;
Escrevíamos os diários, fazíamos resumos e revisões terapêuticas e passámos a fazer “copy paste”, quantas vezes de modo despudorado, repetindo erros não verificados;
Líamos as notas de enfermagem que traduziam o sentir de quem cuidou e vigiou na nossa ausência, e passámos a ter check lists ilegíveis;
Tínhamos gráficos de temperatura e passámos a ter listas de temperaturas sem o impacto visual de uma imagem;
Telefonávamos ao colega para expor um caso ou colocar uma dúvida, e passámos a enviar um mail;
As horas a que os registos foram efectuados passaram a ser mais importantes que os próprios registos e ganharam a dimensão de provas de defesa em tribunal, na certeza de que mais tarde ou mais cedo a todos vai acontecer;
Muitas coisas melhoraram: a eficiência, a gestão de recursos, o controlo do desperdício, supostamente a transparência dos actos… Mas pagamos um preço elevado que tanto afecta profissionais como doentes e seus familiares. Quando entramos num hospital, seja em trabalho ou na doença, não deixamos de ser nós próprios com os nossos medos, inseguranças, alegrias e frustrações. O sentir que são pessoas a trabalhar com pessoas, que a compaixão pelo sofrimento não se deve perder, apesar da frieza dos écrans de computadores que se interpõe na comunicação e dos braços cruzados de seguranças altivos.

Disse.

Texto de M.H.S.G.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Campeões do Mundo


De um jogo que se joga em Portugal, em duas províncias de Espanha, em meia dúzia de vilas de dois outros países e nuns bairros de outros tantos.

Seja como for:
PARABÉNS!!!!!

domingo, 7 de julho de 2019

segunda-feira, 1 de julho de 2019

29


Nesses dias de muitos amigos, de futebol em qualquer espaço e de corridas a ver quem era o último, a alma não tinha poiso. Ia-se à Escola sem o objectivo do conhecimento, mas tão só o de "passar de ano", para que não questionassem o tempo que queríamos para todas as brincadeiras.
O entendimento do mundo estava muito para além do horizonte e estudar era mais um “jogo” que uma oportunidade de ganhar competências e muitos destes “estudantes” lutavam pelos mínimos, somando as notas de fim de período para darem 29 e faltando às aulas até ficarem “tapados por faltas”.
Este “lutar por mínimos” também implicava o copianço pelo parceiro mais próximo e a cábula o mais dissimulada possível, pois se entendia que a fraude e enganar ou “gozar” o professor, eram a vingança possível para uma "opressão" de programas que não eram nem “Child Friendly” nem “Pupil Friendly”, como também não o eram os métodos usados, onde a violência física e verbal pontificavam para conter a rebeldia dos mais difíceis.

Como resultado, muitos dos que “trabalhavam” para o 29, estão hoje na vida activa, com o mesmo espírito. Lutam por mínimos, sem qualquer brio, usando múltiplos estratagemas para obter proventos sem fornecer um bom serviço, numa táctica da “vitimização como passaporte, alibi ou motor de existência”.

Já chega de espertalhaços . É tempo de dar espaço a quem sabe e se esforça, se queremos utilizar os padrões das sociedades mais avançadas, e isso tem de começar na escola.