sábado, 12 de setembro de 2026

Se fosse eu...

«Cada um sabe de si e Deus sabe de todos.» Era o que repetia aquele meu colega de profissão, uma máxima cujo peso real só alcancei quando o vi consumido pela doença.

​Ele tinha todas as Cartas de Alforria do mundo: inteligência viva, berço de ouro, aprumo físico e um apelido de peso na cidade. No entanto, a constante desafinação entre esses atributos empurrava-o para o desprezo alheio, descarregado quase sempre sobre os mais frágeis. Semanalmente esbarrava nele ou nos destroços que deixava para trás. A sua presença provocava-me uma náusea funda e muda, sobretudo quando ouvia terceiros gabarem-lhe a audácia e os dotes. Reconhecia-lhe competência técnica, mas habitava nele uma compulsão por fazer "diferente" — e esse diferente traduzia-se, inevitavelmente, em ruína.

​Partiu a meio do caminho, vítima de uma fatalidade banal e evitável. Uma morte tecida pelo desleixo de quem tinha a obrigação de saber como se salvar. Só mais tarde soube que a sua bússola andava à deriva por força de uma Psicose Maníaco-Depressiva que o assaltava à revelia dos tratamentos.

​Atiramos pedras e traçamos destinos aos outros com a leveza de quem ignora o abismo alheio. As nossas certezas morrem quase sempre na praia de condicionantes invisíveis: aí, ou nos crescem asas para sobrevoar o absurdo, ou cruzamos os braços a lamentar a crueza do mundo.

​O poder tem, afinal, a mesma geometria hesitante. Veja-se o fenómeno de Fátima — uma heresia "fora da caixa" que a Igreja Católica acabou por engolir a custo, enquanto esmagava, com o mesmo fervor, as aparições idênticas em Vilar do Chão. É a conveniência a ditar a fé.

​Do mesmo modo, ao ouvir a retórica inflamada de Ventura contra o Ministro da Administração Interna, pergunto-me que mãos invisíveis lhe movem os cordões. Fosse eu um dos barões do tráfico apanhados pela Polícia Judiciária nos tempos de Luís Neves, e seria hoje o seu mais generoso patrono na sombra. Fosse eu o inquilino da Casa Branca, do Kremlin, de Pequim ou de Nova Deli, e moveria céus e terra para que a União Europeia nunca se erguesse como um bloco capaz de rivalizar com os meus desígnios.

​O bicho homem nunca foi espécie de confiança — quer a sós com a sua consciência, quer amordaçado em corporações. No final do dia, a arquitetura do mundo reduz-se a uma feira vulgar: quem vende o quê, e a que preço!

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Heurísticas

Heurísticas são atalhos mentais que simplificam decisões complexas. A palavra ainda não entrou no léxico comum, mas deveria, para nos mantermos atentos nas nossas escolhas.

​Não pensar antes de abrir a boca e reagir a quente, sem medir a conveniência ou a precisão das afirmações, são atitudes comuns em todos nós,  mas mais frequentes em quem cresceu  sem grandes dificuldades, apoiado pelo Estado e pela família, e que, na vida adulta, continua a acreditar que eles lhe vão continuar a proteger o futuro.

​Pais e psicólogos empurram jovens para o futuro, evitando atitudes "musculadas" que os obriguem a considerar que nem tudo é tão "fácil quanto parece", e é vê-los, já crescidos, a falar de bancada e a destratar qualquer tentativa de correção.

​Mas virá o dia em que a realidade lhes baterá à porta e, nessa altura, não haverá quem lhes possa secar as lágrimas, enquanto rebobinam o passado e veem tudo o que de importante se perdeu com as suas tentativas de afirmação.