
A solução é auditar e acabar com as modernices que só trouxeram encargos e perdas de tempo.
A significativa melhoria da qualidade dos enfermeiros, consequência da melhoria na escolaridade e do empenho de muitos que apostaram em dignificar a profissão com as suas vidas, é prejudicada pelo software que foi implementado para registo informático do seu Diário de Enfermagem (SAPE).
Este SAPE (Sistema de Apoio à Prática de Enfermagem) que foi concebido pelo Enfº Abel Paiva (Escola Superior de Enfermagem do Hosp. S. João - Porto), para a sua tese de Doutoramento e desenvolvido pelo Departamento de Informática do IGIF, sob o patrocínio da Dra. Cármen Pignatelli, não teve certificação dos órgãos representativos de enfermeiros ou médicos.
É uma "modernice" que os afasta dos doentes e dos médicos, com quem deviam partilhar informação.
Apoia-se na CIPE (Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem) que usa uma linguagem básica para, provavelmente, atingir países menos exigentes na qualidade dos seus enfermeiros.
O que a princípio era uma “vaidade” (registar informaticamente), transformou-se num pesadelo para quem se preocupa com a eficiência.
Os enfermeiros passaram a obrigar-se a preencher aquelas páginas de “fenómenos de enfermagem” que , por terem acesso difícil, informação dispersa e “formato rebuscado”, raramente são consultadas pelos médicos, o que diminui a eficiência do sistema.
A informação relativa ao doente internado deve ser concisa e facilmente partilhada pelos profissionais envolvidos, mas, enquanto os médicos disponibilizam a sua informação em papel na História e no Diário Clínico, os enfermeiros registam-na nas "suas" bases de dados, e nem os sinais vitais lhes disponibilizam em papel.
No sistema actual, para um médico saber se um seu doente teve febre, tem de dar os seguintes passos: 1- aceder a um computador disponível, 2- abrir o programa (SAM), 3- identificar-se com password, 4- escolher a área - Internamento, 5- identificar o serviço onde o doente está, 6- procurar o doente em causa, 7- abrir o item “Vigilâncias”, 8- procurar em temperatura.
Mas quem diz temperatura diz qualquer outro facto relevante que suspeite ter sido registado por um enfermeiro. É um desespero!
Eram muito mais eficientes as Notas de Enfermagem em papel, que estas montanhas de bits que diariamente enfiam nos PCs, atafulhando-os e lentificando todos os outros procedimentos importantes.
Atrevo-me a pensar que o CIPE/SAPE, é obra de quem tem os enfermeiros em fraca consideração, e que os toma por incapazes de descrever por palavras próprias os acontecimentos relevantes do seu turno, sem a muleta de grelhas que obrigam a respostas tipo “muito, pouco ou nada” para uma longa série de itens.
É possível identificar os problemas (diagnósticos de enfermagem), e fazer o registo da sua evolução em papel, e só usar o registo informático para uma eventual “Nota de Alta de Enfermagem”, se ela se tornar necessária.
Para cúmulo, as direcções dos enfermeiros para “apresentar serviço”, aumentaram ainda mais a carga de registos, tornando obrigatório o preenchimento de mais uns itens que definem o grau de dependência do doente “A TODOS OS DOENTES” e durante tempo ilimitado. Se é para estatística não se justifica (bastava uma amostra significativa), se é para gestão de recursos “na hora” … eu não acredito nessa capacidade.
Mas há sempre os deslumbrados que se preocupam mais com a forma que com a função e que julgam perder estatuto se voltarem ao papel, e outros tantos que assim se defendem da incapacidade de escrever um português “mínimo”. Mas esses são a minoria atrevida que tenta abafar quem sabe que registar não é o mesmo de executar com qualidade, e que é esta que urge promover.
Quem lucra no meio disto são as empresas de Informática que fizeram do SNS área de negócio, ao influenciarem os "políticos" das vantagens da "informatização", sem que se auditassem os programas antes da sua generalização.
Agora que se fala em contenção de gastos, é bom que estas patetices tenham fim, e se utilize a Informática para aquilo onde ela é realmente útil: Registo dos doentes, Gestão dos Meios Auxiliares de Diagnóstico, Farmácia e Notas de Alta e se acabe de vez com os "Diários informatizados".