sábado, 31 de julho de 2010

O fiel Jardineiro



O filme "The Constant Gardener" - (O Fiel Jardineiro) é um filme de 2005, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, baseado no romance de John le Carré com o mesmo nome.

Desenvolve-se sobre o tema "ter princípios e saber-se demais"!

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Mal-amadas



Helena tem 24 anos, não é especialmente bonita, mas é elegante, e se lhe puséssemos um sorriso e umas roupas coloridas, faria virar muita cabeça. Aos 19 teve uma paixão não correspondida. Desde então, a cada contratempo, agride-se. Esta é décima sexta vinda ao Serviço de Urgência. Uma foi para admissão para um parto.
–“Mas era filho desse teu namorado?”.
Não era! É de um rapaz que conheceu quando esteve internada na Psiquiatria. Depois da alta foi viver para casa dele, mas ele também tem problemas, e acabaram por se separar.
–“E desta vez, o que foi?”
–“É que eu ando a ajudar um rapaz com toxicodependência, e a minha mãe diz que ele é um poço de doenças, e não me deixa ir ter com ele!”
...
-“Então dona Fernanda, como foi esse desmaio?”
-“ Sr. Dr.! Eu estava no velório da minha irmã, e passou-me qualquer coisa pela cabeça e caí. Agora estou bem!”
-“Está acompanhada?”
-“Não! Eu não sou de cá. Vim só ao funeral dela!”
-“É casada?”
-“Sou divorciada! Tenho dois filhos. Digo, um filho e um enteado, mas quero-lhe tanto como ao meu filho!”
-“Conte lá isso, se não for segredo!”
-“Eu soube que o meu marido tinha outra, por causa do filho. Ela não o queria, e eu fiquei com ele. Depois, divorciei-me! O mais velho é polícia, e o mais novo está a acabar o curso de gestão. Gosto igual dos dois. O que seria a minha vida sem eles!”
-“Dona Fernanda! A senhora, que é uma mulher a sério, como é que deixou que um bocadinho de calor a deitasse ao chão? …
...
Tem 23 anos, está grávida de 33 semanas, e chora porque o companheiro a abandonou. Está desempregada e tem o encargo do empréstimo para a casa. -"Ele tem trabalhos temporários, e a meio do mês já não tinha dinheiro. Ainda em Março, ele chorava a dizer que me amava, a pedir para eu o aceitar, depois de não aparecer durante 15 dias. Mas nem uma semana depois, deixou de se interessar por mim. Entrava na cama, e virava-me o rabo. Deve ser por eu ter agora o corpo assim. Ele dizia que queria este filho. E eu queria-o tanto!”.
...
Tem 44 anos e uma asma que diariamente se faz lembrada.
-“Sr. Dr.!. Eu até estava bem! Mas veio-me aquela opressão no peito, e tive que vir!”.
Veio só. Está divorciada.
–“Ele disse que eu ia ficar bem, mas quando dei por mim, tinha levantado o dinheiro quase todo dos Bancos! Fiquei com a casa e com os filhos! Há 2 anos que ando nisto, a tentar chegar a tudo. Ao emprego, à casa, aos filhos! O que me vale é o meu pai, que me vai ajudando lá de longe. Sabe Dr., a minha família é de Lisboa! E este mau hábito de fumar, também não ajuda! O ECG está bem? Posso ir embora? …”

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Golden Share do Estado na PT







Afinal há negócio!
Uns irão concordar e outros discordar, mas no grande público (onde me incluo), fica a sensação de que estão a decidir na nossa vida, e que, se correr bem, o benefício público será escasso, e se correr mal, é fácil um aumento encapotado nas chamadas.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Acção de Formação


A história foi-me assim contada e, pelo que conheço do principal interveniente, não vejo razão para dela duvidar.
Estávamos em finais da década de 1980, quando a SIDA era uma novidade.

-Tu não vais acreditar! O tipo levou o Ventura a uma sessão de esclarecimento sobre SIDA na Junta de Freguesia!
- Verdade? Mas ele conhecia-o?
-Sei lá! Deve ter tido acesso a alguma análise, que o Ventura só há meio ano é que anda por cá. Mas isso, sabes tu melhor que eu!

O Ventura foi dos primeiros doentes com o diagnóstico de SIDA que conheci. Quem o trouxe à Urgência foi uma cunhada que, logo de início, chamou a atenção para a doença. Tinha-lhe caído em casa doente e sem dinheiro, o que a levou a estranhar, pois sempre o vira desafogado, a irradiar saúde e com todo o mundo por conta. Ora em Moçambique, ora na Bélgica, mas a maior parte do tempo sem saber dele e, de repente, entra-lhe pela casa adentro como um mendigo, para espanto dos filhos pequenos que não o reconheciam como família. –“Oh! Sr. Dr., eu não o quero lá em casa! Veja se a Assistente Social lhe dá apoio, porque se o meu marido o receber outra vez, pego nas crianças e quem sai, sou eu! E isto é definitivo!”
Foi viver para casa da mãe para o lado de lá do rio. Depois falou-se de que escrevera ao Mário Soares a pedir dinheiro para criar uma “Associação dos doentes com SIDA no Alto Minho”, e que se teria abotoado com 1000 contos, que a associação … era ele! Mas adiante … . Vinha às consultas, cumpria a medicação e nunca foi mal educado. Também se disse que fora mercenário em Angola, que traficara droga na Bélgica, mas creio que eram rumores não fundamentados...
Mas conta lá essa acção de formação, que eu estou cheio de curiosidade, principalmente por ter sido promovida por um indivíduo que não era nem médico, nem enfermeiro.

- Bem! O Dr. Santão, era muito conhecido na sua freguesia. Era “um filho da terra”, pelo que não lhe foi difícil convencer o Presidente da Junta a fazer uma sessão de esclarecimento, sobre uma doença nova que andava nas bocas do mundo. Era até meritório que as forças vivas da comunidade facilitassem o entendimento da doença e alertassem para os comportamentos de risco que lhe estavam associados.
Mas o homem não fez por menos, e convidou o Ventura para ficar no meio da assistência. Falou do que sabia e do que não sabia e, no fim, num clímax de oratória, virou-se para o público e disse: “Nestas circunstâncias, é possível que nesta sala possa até haver alguém com SIDA. Que o saiba ou não!”. Aguardou que um longo silêncio despertasse olhares inquiridores, e numa estocada final, perguntou alto e bom som: “Há alguém nesta sala que tenha SIDA?” e, enquanto os ouvintes se mediam com o olhar, o Ventura, estrategicamente colocado no meio da assistência, levanta-se e anuncia solenemente a sua condição: “Eu tenho!”
Depois, nem queiras saber! Aquela malta, dividida entre a consideração que tinha pelo Dr. Santão, e o temor atávico pelo desconhecido, abriu uma clareira em volta do Ventura que, angelicamente, assumira a candura de uma virgem. Vai daí o Dr. Santão desceu do palco e cumprimentou-o efusivamente, como se o homem tivesse chegado de outro planeta.
Consta que houve gente que chorou!

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Agricultores do século XXI


- Dona Maria, a Sra. andava ao jornal?
- Ai andava ao jornal!, exclama com um esboço de sorriso, - Eu trabalhava no que é meu, Sr. Dr.! Eu e mais o meu marido! Agora é só ele com as máquinas, que há dois anos que não faço nada.
- E seu marido também bebe?
- Ai não! Que ele tem de trabalhar! Então nestes dias de calor, é capaz de despachar 5 litros!.
- E vocês compram-no?
- Quê!? Nós fazêmo-lo! E o melhor fica para a casa. Sabe, o meu marido sempre foi muito agarrado aos campos. Andou pela França para criar os filhos, e graças a Deus que estão todos empregados, e ajudam quando podem, que a quinta é grande. Durante o dia está sozinho, mas precisa de ajuda para o sulfato, para a batata, para a azeitona, para a poda …, que aquilo é muito trabalho. Ainda no outro dia eu disse-lhe – “Para que queres as vacas? Para tirares o lixo debaixo delas?”. Mas ele precisa do estrume para os terrenos, que o adubo é muito caro. Trabalha que se mata por causa do vivo! Há tempos entrou pela porta adentro, pálido que nem o conhecia. E vai daí e eu disse-lhe: “o que é que tu tens, homem!”, e ele respondeu: “tem calma, que eu trato de mim!”, e foi para a cozinha pegou na malga, encheu-a de vinho, daquele escurinho que faz espuma, deitou-lhe dentro um pedaço de broa de milho e “uns pós” como ele lhe chama, que é um bocado de açúcar, e passada uma hora estava outra vez bom!
- E os seus seis filhos estão todos perto?
- Não! Um ainda ontem foi para o mar, que é marinheiro!, diz enquanto um soluço lhe assoma à garganta, - outra é advogada no Porto, e está muito bem! Tem um menino que é um sonho, e um marido que gosta tanto dela, que até parece que não a vê com os olhos.
- E o seu marido não tem doença do fígado como a Sra.?
- Não! Que ele come bem, Sr. Dr.!

domingo, 25 de julho de 2010

António Feio


Tinha de pôr qualquer coisa aqui para ti, que vais morrer a 29 de Julho às 23:40h numa Unidade de Cuidados Paliativos, vítima de um cancro do pâncreas.
Tu que, juntamente com o José Pedro Gomes, me ajudaste a entender este Portugal.

sábado, 24 de julho de 2010

A Organização Interna e a Governação dos Hospitais


















No preâmbulo deste Documento patrocinado pelos Ministérios das Finanças e da Administração Publica e da Saúde, e assinado por gente importante do nosso panorama hospitalar, refere-se:

...
A recente alteração ao estatuto jurídico dos hospitais, genericamente conhecida por “empresarialização dos hospitais”, alterando a modalidade de posse, não provocou alterações sensíveis na arquitectura organizacional, nem tão pouco na prática gestionária …

De facto, a nova cultura de gestão que se esperava que emergisse da reforçada autonomia conferida à instituição hospitalar não aconteceu, persistindo a indefinição estratégica, o planeamento incipiente ou inexistente, a falta de transparência nos processos de decisão, tudo concorrendo para a desresponsabilização e para a ausência de envolvimento da organização.

A focagem, por vezes excessiva, em objectivos de produção, potenciada por mecanismos de financiamento nem sempre ajustados, desguarnecida de adequados mecanismos de controlo de qualidade e efectividade, não favorece as boas práticas, compromete a formação e contribui para o desencanto e menor empenho dos profissionais. A preocupação excessiva com o aumento da produção, sem igual preocupação com a qualidade, a adequação e a pertinência dos cuidados prestados, poderá, até, ter contribuído para o deslize orçamental que ameaça a sustentabilidade do sistema de saúde.

A ausência de sistemas de informação capazes de produzir dados e indicadores consistentes e fiáveis, na perspectiva da saúde dos doentes e da qualidade dos cuidados de saúde prestados, persiste como uma das limitações mais significativas, simultaneamente à boa prática clínica e à gestão, impedindo definitivamente a adopção de estratégias de decisão baseadas na evidência, comprometendo qualquer tentativa séria de avaliação e cerceando o desenvolvimento de processos de auditoria e controlo de qualidade.

A gestão dos recursos humanos e a inerente definição das lideranças e hierarquias, na ausência de processos de avaliação credíveis que legitimem as decisões, resvala inexoravelmente para o arbítrio e para a iniquidade, contribuindo decisivamente para a criação de climas organizacionais negativos.

...
entre outras críticas, e ... propõe uma estratégia da mudança.

Aguardo para ver quem irá liderar esta eventual mudança! Se lhes ouvir as palavras “concatenar, priorizar, procurar sinergias, estimular a sã competição na complementaridade, e outras que tais”, está garantido um Preâmbulo semelhante daqui a meia dúzia de anos.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Diáspora - 2


















E o que são essas cicatrizes que tem nos braços?
Coisas da guerra Sr. Dr.! Eu era fuzileiro. Estava no mato, à espera de ser substituído, há mais de 3 meses. Estava tão desesperado que um dia peguei no punhal e cortei os pulsos. Mas deram logo comigo! Mesmo assim ainda lá fiquei mais meio ano.
Eu fui pequeno para Angola com o meu pai. Tínhamos terras e produzíamos gado. Tínhamos talhos! Ficou lá tudo. Só trouxe um filho mulato!

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Um amigo



Eu tenho um amigo importante. Não que os outros não sejam importantes, mas este é mais importante, porque para além de ser importante para mim, é importante para muitos outros.
É um amigo inesperado, um amigo fácil num tempo difícil, um amigo disponível que agarra o mundo com as pernas, enquanto com as mãos contem um mar de problemas e orienta os ventos. Não joga ao “faz de conta” em coisas sérias, e joga limpo com o jogo que lhe calha em mão.
Tem o saber de quem viveu a adversidade e concluiu que a solidariedade é o caldo onde se cozinha o futuro.
Hoje, mais uma vez surpreendeu-me, pela visão de futuro e pela determinação sem ambiguidades.
Bem hajas!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

terça-feira, 20 de julho de 2010

etc...

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Defensor











Há meses que procuravas espaço nessa Lisboa tão distante. Um espaço que te ficou curto por estas terras, fruto do natural desgaste do poder, mas também desse teu feitio.

Vives mal com o anonimato, e esta história das SCUT pôs-te com pele de galinha. Querias mediatização e, ser candidato a candidato, nesta altura em que todos estamos atentos à última notícia, a ver se nos alentamos ou nos deprimimos ainda mais, é uma oportunidade que, conhecendo-te como te conheço, não irias desperdiçar.
Verdade seja que sempre te vi a saltar obstáculos que me pareciam intransponíveis e que foi durante os teus mandatos na câmara, que Viana do Castelo resolveu muitos dos seus problemas.
Mas é esse teu "feeling" para o eleitorado, que vê em ti alguém casmurro mas honesto, que te dá vantagem, pese embora os anticorpos que despertas em muitos dos que te rodeiam, dentro e fora do teu espaço político.

Mas a pergunta fica-me no ar.
Estás mesmo convencido que darias um bom Presidente da República, ou não aguentaste mais tanta falta de protagonismo?

domingo, 18 de julho de 2010

Desconcertado



Oh Vintém! Então você prepara-me os sucos para uma pizza e sai-me uma lagosta suada acompanhada por Moet & Chandon!
Eu, no dia 14 de Julho, ia preparado para ouvir a sua filha "numa audição de fim de curso" e sai-me este Ensemble, que me deixou pregado na cadeira?
E linda, e ... com presença! Seu pai babado!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Diáspora portuguesa - 1


- Então Sr. Felgueiras, você não disse à sua médica, que tinha tido uma hepatite, e agora fala-me que teve a doença em 1986.
- Sabe Sr. Dr., eu não tive propriamente uma hepatite. O caso foi que, quando eu fui evacuado das Honduras para Madrid, por causa de um tiro que levei, fiquei no Hospital mais de um mês e, nessa altura, falaram-me que nas análises acusava uma hepatite.
- E o que é que você andava a fazer nas Honduras para levar um tiro?
- Oh Sr. Dr.! Isso são pecados velhos. Andava na guerrilha anti-sandinista, a soldo da York Company de Santa Mónica. A mesma que está agora no Iraque. Estavamos nas Honduras e fazíamos incursões na Nicarágua, em grupos de 8 a 10. Portugueses éramos quatro. Oh! Nessa altura estava na força da vida. Trinta e poucos anos. Ganhava mais de 4000 dólares por mês. Claro que se fosse preso, o melhor que fazia era matar-me, que ninguém me ia salvar. Estive lá de 83 a 86. Muitos ficaram por lá. Outros desapareceram, como foi o caso de um americano que fugiu com parte do meu dinheiro para a Noruega. Olhe!, quando eu saí do Hospital de Madrid fui lá procurá-lo, mas quando dei com a mulher dele, que era enfermeira, ainda tive problemas com a polícia. É que já lá tinham estado três antes de mim, que o tinham abafado.
- Então você viveu a maior parte da sua vida fora de Portugal!
- Sim! Eu nasci numa cidade do interior, e aos 17 anos (em 1964), ouvia aquelas histórias de gente que morria ou que vinha amputada da guerra nas colónias, e disse para comigo que o melhor era ir para a Força Aérea. Primeiro não andava na guerra a pé e depois a farda era muito mais bonita. Era mecânico de armamento, e fui para Angola. Em 1973 estava na Guiné. Mas já andei muito por esse mundo fora. Em 1996 pertenci à KFOR no Kosovo ...
- Mas você tinha casa em Portugal?
- Não, depois de me ter divorciado. Mas estive casado 13 anos. Depois, quando vinha cá, ficava em caso dos filhos. Olhe, a minha filha que está lá fora, não a vi entre os 10 e os 21 anos. Agora tenho uma casa, mas passo pouco tempo nela. Os últimos anos fui camionista TIR, a fazer transportes entre Portugal e o Norte da Europa, e foi há um mês, numa dessas viagens, para ensinar um camionista novo, que, ao saltar da cabina para o chão, me deu esta dor na coluna.
- Só mais uma coisa. Você quando andou nessa vida de guerra tomava medicação para profilaxia das doenças tropicais ou outros medicamentos?
- Não Sr. Dr.! Nós bebíamos whisky, gin e fumávamos marijuana. Nunca consumi droga! Só quando estava na KFOR é que nos punham três comprimidos à frente do prato que diziam Laboratório Militar, que a gente bebia com cerveja. Se calhar foi isso que me fez mal ao fígado.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Esvaziam-se os campos.


- Então Dona Aurora. Foi de repente que essa barriga cresceu?
- Foi em 8 dias. Ainda a semana passada fiz a vida normal, embora já me doesse. Mas eu tinha que andar, que o meu marido, desde que foi operado aos intestinos, deixou de me ajudar. Ultimamente sou eu que faço tudo. Não é que eu não tenha família, mas só me querem comer os olhos. Casei com 25 anos e não tive filhos. Vivemos da reforma numa casa antiga, num sítio muito bonito, e o meu sobrinho queria que eu a vendesse a uns espanhois que levou lá. Mas eu não fui nisso. Ele viveu toda a vida em França e sempre foi um estroina. Apanhava-se com o dinheiro e punha-me na rua.
Olhe que eu ia todos os 8 dias vender à feira, que eu tenho um eido muito grande. Cheguei a colher 2 pipas de vinho.
-Que idade é que a Sra. tem?
-Não sei. Tenho que ir buscar o Bilhete de Identidade. Não sei ler nem escrever, mas não há ninguém que me engane. O meu marido até diz que eu tenho um génio lixado. ... Isto que eu tenho na barriga, é ... grave?
-Sim Dona Aurora. Vai ser difícil você voltar a trabalhar!

......

- Que idade é que o Sr. tem, Sr. Afonso?
- 56, Sr. Dr. !
- E trabalha em quê?
- Trabalho nas obras. Quando precisam de mim, chamam-me, sabem que eu faço de tudo. O resto do tempo trabalho para mim. Às vezes passo semanas em casa a tratar das ovelhitas e de uns campos arrendados, mas a maior parte deles já os entreguei, que aquilo não paga o trabalho. Agora as batatas, o feijão e o milho são para a casa.
Também sou só eu e a minha mulher, que anda doente. Ainda temos um filho connosco, mas com 22 anos, qualquer dia vai à vida. Fiz a casa com esmolas, num terreno que a minha avó me deu. Faço um trabalhito aqui e ali e, com um bocadinho de terra, faço a vida!
Sr. Dr.! É grave?
- Não! É só uma pneumonia. Daqui a uns dias, vai poder voltar às ovelhas!