terça-feira, 31 de agosto de 2010

Demência alcoólica


- E porque é que o internaram, se não diagnosticaram mais que uma bebedeira?
- Ele foi encontrado caído na rua e trazido pelos Bombeiros. Estava como uma dorna, e ficou ali a dormir até ao dia seguinte. Como não se identificou nenhum contacto, e não há apoio do Serviço Social aos feriados e fins-de-semana, internaram-no.

- Pois é! Mas vamos no 6º dia de internamento, e ele está a tirar lugar a quem precisa. Antigamente levavam os bêbados para a cadeia até a bebedeira passar, agora, chamam-lhe intoxicação etílica, e metem-nos nos hospitais até ganharem aspecto de gente, para depois voltarem ao mesmo. O que é que disse a assistente social?
- Disse que quem cuida dele é a mãe, que tem oitenta e dois anos; que vive de uma pequena reforma do tempo em que foi pescador; que há uns dez anos que nada mais faz que beber e fumar; e que tem irmãos, mas pouco se importam com ele.
- Apesar de só ter 52 anos, este grau de demência deve dificultar-lhe o acesso ao álcool e facilitar o controle! Pode ter alta hoje?
- Ela já o referenciou à assistente social da sua área de residência, mas disse que precisava de mais um dia, para orientar as coisas!
- Já agora! ...

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Apicultor























- Sr. Dr.! Eu não vou deixar as abelhas! Há 6 anos que sou apicultor, e é das coisas que mais gosto!
- Mesmo correndo o risco de morrer de uma reacção anafiláctica?
- Sr. Dr.! Eu descobri que aquela opressão no peito com que ficava, depois de ter sido picado, era … pânico. E o inchaço não era nada que não se suportasse.
- Sr. Duarte! E a comichão nos olhos, o nariz a pingar, a chiadeira no peito também era pânico? Deixe-se de racionalizações! Fique com as abelhas, mas não se engane! Olhe que a Imunoterapia é eficaz em 98% dos casos.

domingo, 29 de agosto de 2010

MPB4

sábado, 28 de agosto de 2010

Vasco Pulido Valente


Vasco Pulido Valente no Público de 28 de Agosto comenta o Eurobarómetro.

Transcrevo o último parágrafo:

"É curioso como 30 anos de democracia conseguiram levar (ou devolver) os portugueses à irresponsabilidade. A sondagem Eurobarómetro não seria diferente no tempo de Marcelo Caetano e até em certas fases de Salazar. Os resultados revelam um cidadão. proibido ou incapaz de se governar (no caso, de mudar de Governo). Um cidadão sem voto e sem voz, reduzido a acreditar num milagre. Não que ele não queira reformas (60%), mas já aprendeu pela experiência que é inútil esperar que elas se façam de dentro e cá dentro, pelos meios normais que a lei estabeleceu e com a "classe dirigente" que se apropriou do Estado. A salvação virá de uma força superior e, principalmente, estranha à mísera realidade portuguesa. Ou virá assim; ou não virá."

Tenho muita pena em ter de concordar.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Ciganos

Que fazer com os Ciganos?

O povo dos “Roma” (a etnia prevalente no nosso país, e actualmente constituída por cerca de 40.000 indivíduos), chegou a Portugal na primeira metade do século XV, oriundo do Paquistão.
É um povo orgulhoso das suas tradições e costumes, que tem resistido a múltiplas perseguições (só os Nazis eliminaram cerca de 500.000).
São a comunidade de maior crescimento demográfico em Portugal (5% ao ano).
A sua principal actividade é a venda nas feiras, mas ultimamente têm sido apontados como os principais protagonistas do tráfico de droga, factos relacionáveis com a elevada taxa de analfabetismo, a inserção profissional prematura no contexto da economia informal, e a não participação socio-política.

A Lei Portuguesa concede-lhes direitos e deveres iguais aos demais cidadãos e muitas famílias ciganas estão dependentes do Rendimento Mínimo Garantido e de programas de realojamento.

A sua história, costumes, crenças, dificuldades, sonhos e esperanças continuam a ser mal compreendidos e desrespeitadas."

NOTA: Em 2010, mais de 2.000.000 de portugueses beneficiam de Abono de Família, Rendimento Social de Inserção e de Subsídio Social de Desemprego.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Ser pai e ser médico


- "Oh pai, anda depressa que o Dinky apanhou um passarinho no jardim! Vem depressa!" , e aí vou eu a correr atrás do cão que foge a dar ao rabo de felicidade. - "Dinky! DINKY! AQUI! ... Aqui!", para lhe arrancar um melro flácido da dentadura, perante a expectativa atenta de uma filha de doze anos. - “Oh pai! Tu és médico. Faz qualquer coisa!”, suplica, a medir-me as capacidades, e a obrigar-me a uma solução imediata para pôr cobro àquela aflição.

- “Vamos fazer-lhe uma massagem cardíaca e respiração boca a bico, durante um bocadinho!”, proponho, para que a minha credibilidade não caia. Ela assiste expectante, de olhos bem abertos a todos os meus movimentos. - “Então? pai!”, pergunta ao ver a imobilidade do pássaro. - “Parece melhor!” minto, depois de três bufadelas, a sentir-lhe o mau hálito, enquanto com o polegar lhe comprimo o abdómen, numa técnica improvisada de massagem cardíaca, e, num assomo de lucidez solicito-lhe: – “Vai buscar um bocadinho de água, para lhe passar na cabeça”.
Num ápice desaparece a correr em direcção à cozinha, aos gritos: - “Oh mãeeeeee! Arranja um copo de água para o pai! Depreeeeeeessaaaaaaaa!”
- “Uff!”, digo para mim, enquanto cuspo para o chão o sabor a melro morto, e o atiro para a bouça do vizinho.
Eis que chega, munida de uma tigela de água, que a custo mantém cheia. Pára, vê-me a olhar para fora de casa, e pergunta:.
- “O passarinho, pai? Onde está?”
- “Voou! ... Quando soprei pela quarta vez, começou a esbracejar e fugiu-me da mão! Vês ali à frente naquelas silvas? Vês?”
Não viu, mas ficou a pensar na sorte que é ter um pai médico.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A Coruja
























- “Oh pai! Ali naquela árvore está um pássaro grande. Anda ver!”
Era uma coruja que, em pleno dia, se exibia num galho baixo do carvalho mais próximo da casa, como se alguém a tivesse posto ali como decoração, quieta como uma estátua, dois metros acima de um braço esticado.
- “Só pode estar doente!”, concluímos, ao fim de largos minutos em que lentamente nos deixámos de fazer despercebidos, para depois de uma breve conferência ecológica, telefonarmos para o Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente.
Meia hora depois parou um Jeep, com dois jovens fardados, a perguntar pelo bicho.
- “Está ali!”, e ficámos todos a olhar para o ar, a medir distâncias.
Feitas a medições diz um dos jovens: “Vamos telefonar aos Bombeiros, que eles chegam cá num instante com uma escada!”, e num ápice o grupo foi engrossado pelo vermelho das fardas de dois bombeiros.
Esticou-se a escada bem por baixo da coruja, e, quando se tentava o segundo degrau, o bicho bateu asas e voou, deixando-nos de braços caídos a balbuciar palavras esdrúxulas.

Dois dias depois, num passeio pela zona, dou com a coruja a dar banho às patas, na bica da fonte pública. Estava cheia de formigas, com o mesmo ar de estátua. Enfiei-lhe um camaroeiro pela cabeça e, em menos de um "ai Jesus", estava a caminho do Centro de Acolhimento e Tratamento de Aves de Esposende, metida num balde.

Uma semana depois telefonei: – “A coruja está melhor? Sobreviveu?”, que não, que tinha morrido nessa mesma noite, e que ignoravam o resultado da autópsia.
Ainda fiz mais duas tentativas, mas como não obtive resposta suficiente, passei-lhe a certidão de óbito com o diagnóstico de ... "morte DE CAUSA INDETERMINADA". Paz à sua alma.

Hipermercados de Medicina

Ainda vivi o tempo em que a maior parte dos que disponibilizavam serviços, tinha nome. Não havia preço único nem certificação pela CE, a garantia era dada pela honra, e o bom-nome construía-se no dia a dia.

Há uns anos visitei Marraqueche, e nas voltas de turista fui levado a um armazém, onde um touareg me confrontou com um chá de menta a adocicar uma longa conversa sobre tapetes e sobre as generalidades da vida. O negócio terminou quando se atingiu o equilíbrio entre as nossas capacidades económicas e a força dos nossos desejos.

Só anos depois me deu para pensar naquele estar como ... a "garantia do tapete", numa região onde todo o homem que se preza é vendedor, e o “negócio” (nec-otium – negação do ócio) é o cimento social.
...

Ultimamente tenho-me confrontado com práticas tipo "hipermercado de saúde", onde o vendedor se faz vagamente representar pela menina asséptica da caixa registadora. E neste pensar, rebobino o passado e identifico-me com o touareg, que dá a cara pelo negócio, mesmo sabendo que posso estar ... "fora de moda"!

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Registos



De repente, as compras da mercearia passaram a ter registo digital. Já poucos trazem um papel para anotar um afazer ou uma qualquer particularidade de que se queiram lembrar. Estamos na época do digital, e quem “é”, saca do “smartphone” e digita.

Nas instituições os computadores são reis. É lá que estão os Protocolos e as Normas, com espaços para preenchimento obrigatório, sem o que não se pode passar para a página seguinte, numa sucessão de sim - não, e de muito - pouco - nada para definir em gavetas a nossa vida. E, quando a complexidade não encaixa nesses campos, sentimo-nos na obrigação de nos formatarmos para que possamos continuar o preenchimento.

O melhor modo de definir uma imagem é desenhá-la, pois no desenho acrescentamos a nossa interpretação, o que não é possível na fotografia. De igual modo um pequeno texto define com mais exactidão uma situação, que um conjunto de páginas digitais com pormenores, pois o “filtro” do autor é um benefício para quem vier a seguir.
Claro que é necessário saber desenhar e escrever, mas é para isso que servem as Escolas.

Só se não acreditamos nas capacidades de quem regista, é que lhe pomos à frente um protocolo, dispondo-nos para abdicar do característico das situações.
Ficamos mais esclarecidos com a meia duzia de palavras com que Miguel Torga definiu uma aldeia perdida em Trás-os-Montes, do início do século XX, in "A Ressurreição" - Contos da Montanha:

"Não há em toda a montanha terra tão desgraçada e tão negra como Saudel. Aquilo nem são casas, nem lá mora gente. São tocas com bichos lá dentro.
Apesar disso, Cristo Nosso Senhor, aos domingos, digna-se visitar a aldeia na pessoa do padre Unhão, que vem rezar missa ao nascer do sol."
...
que com dados sobre o rendimento médio, o nº de assoalhadas por habitação, actividades económicas, ... dessa mesma população.

domingo, 22 de agosto de 2010

Curso Superior / Curso Médio


Só entendo que alguém afirme ter nível de “Curso Superior”, se tem capacidade de individualizar soluções em problemas complexos. Se unicamente aplica “protocolos”, mesmo que o faça com eficiência, atribuo-lhe “Curso Médio”.
Não quero com esta frase tirar valor aos protocolos e a quem os aplica. São tão necessários uns como outros. Mas eles atingem o modo de fazer, e não a decisão de quando e como os aplicar, pois não são universais.

Qualquer desenhador médio é capaz de executar um projecto para uma casa, cumprindo protocolos. Mas uma casa de arquitecto é outra coisa. É fruto de outro saber (que não é só técnico) que lhe permite interpretar os espaços e os fins a que se destina, balizando-se pelo dinheiro que se disponibiliza.

É semelhante a profissão de médico. Identificar a doença e aplicar-lhe um plano terapêutico uniforme, tratando os doentes em linhas de produção como actualmente tende a acontecer com as cirurgias a cataratas ou no tratamento cirúrgico de varizes, hemorróides ou hérnias, onde os operadores não conhecem os doentes, e usam protocolos dirigidos ao órgão, não é trabalho médico. Qualquer indivíduo com curso médio seria suficiente.

Exemplos destes são possíveis em qualquer área do saber, pois dependem da postura de cada um. Ou se é capaz de "criar com qualidade" e se tem “um curso superior” ou se desvaloriza a individualização aplicando protocolos, e se funciona como “curso médio”!

sábado, 21 de agosto de 2010

Segunda opinião médica


Não posso ser mais a favor. Acho até que deviam ser obrigatórias em situações que envolvam risco de morte, como cirurgias de alto grau de complexidade ou onde a atitude inicial condiciona o resultado, como são algumas situações oncológicas.
Tal não significa que não haja problemas graves no diagnóstico e tratamento de outras doenças graves, mas naquelas, há tempo, coisa que na doença aguda, nem sempre existe.

Mas essa segunda opinião deve ser presencial porque “há perguntas a fazer e respostas a dar!” pois o acto médico é um acto individualizado, bem descrito na máxima do Prof William Osler (1849-1919): “Às vezes é mais importante saber que doente tem a doença, que a doença que o doente tem!”, e um bom parecer assenta em pequenos pormenores (que nem todos são capazes de valorizar) que fazem a diferença, e que vão a par do conhecimento científico.

Um parecer técnico dado sobre um texto elaborado por um doente, e sobre análises pedidas por outro médico, vale tanto como um parecer de um Jurista português sobre uma quezília em Marrocos.
É por isso que antevejo que este site: segundaopiniaomedica.pt, apesar de integrar médicos que prezo cientificamente e por quem tenho alguma amizade, disponibiliza um serviço que, a maior parte das vezes, irá criar mais confusão que esclarecer.
Custa 60 Euros e diz resposta em 72 horas.
Não tem o aval da Ordem dos Médicos. Mas tem gente de lá!

Adenda: O doente internado tem direito ao parecer de um outro médico da mesma especialidade, para complementar a informação sobre o seu estado de saúde ou sobre o tratamento proposto. O exercício deste direito, no entanto, deve ficar restrito aos casos graves ou aos de cirurgia electiva, para se obter um benefício real.
No caso de não haver recursos nesse estabelecimento, o doente tem o direito de recorrer a um profissional externo à instituição, mas, neste caso, deverá assegurar o pagamento dos respectivos honorários.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Carinhoso

Marisa Monte e Paulinho da Viola

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Festas da Sra. da Agonia


- Sr. Álvaro faça o favor de entrar. Já o ouvi protestar que está à espera, há hora e meia, mas só agora chegou a sua vez!

- Mas eu não consigo ficar à espera, Sr. Dr.! Já no negócio é igual. Quando vem um cliente espaçado do outro, fico nervoso e tenho que pedir a alguém para vir para o meu lugar. Eu sou feirante, tenho uma roulotte onde vendemos bifanas no pão. Estamos cá para as Festas da Sra. da Agonia. Hoje depois do almoço, senti-me mal, e o meu pessoal chamou a ambulância. E chego aqui e fico este tempo todo à espera!
- Está bem! Mas deram-lhe uma pulseira amarela, e não tem prioridade para passar à frente de todos.

- Então agora, com essas festas e feiras por todo o lado, vocês não páram?!
- É como diz. Ainda ontem o pessoal, deitou-se às 5 da manhã. Eu fui mais cedo para a cama. Quem é a alma daquilo é a minha mulher, que é dezassete anos mais velha que eu. Ela é que faz as compras, os temperos e que dá as ordens. Eu estou mais pela caixa registadora. Chego ao fim do dia, meto o dinheiro num saco e entrego-lho. Se ela me falha, acaba o negócio!
Quando acabar a Senhora da Agonia, vamos para a Festa do Avante. Já pagámos quatro mil Euros, por uma frente de seis metros. Vamos em três carros, com tudo de cá. O pão é de Ponte de Lima (que eles lá, não têm pão como o nosso) e as febras, de Famalicão. Vai tudo preparado, em arcas frigoríficas. Lá é só fazer os temperos, cozinhá-las e metê-las no pão. As nossas têm mais sucesso que as de lá, que são cozinhadas na chapa. Temos sempre uma fila de mais de 10 pessoas. É sempre a andar!
- E como é que você, com tanto trabalho, tem essa barriga, Sr. Álvaro?
- Isto não é barriga, Sr. Dr! É o fígado dilatado! Já o tenho assim desde os 30 anos. O meu problema são os ossos. ... Se eu conseguisse a Reforma ... !

- Sr. Álvaro! O seu problema é, aos 58 anos, ter essa barriga e uma hipertensão que recusa tratar! Deixe lá os ossos em paz!

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Como o tempo muda!


Com pouco mais de sete anos, apanhava gafanhotos de oito centimetros, embrulhava-os em papel de jornal e puchava-lhes fogo, para ouvir o que me parecia um chorar, e por me custar a acreditar que aqueles olhos grandes fossem capazes de lágrimas, repetia o gesto, sem nada concluir, porque muitos morriam estoicamente calados. Aos dez anos testei dois cães, na caça a um gato das redondezas, e dei-lhes a classificação de “mau”, por me obrigarem a abanar a árvore onde o desgraçado tinha achado refúgio. Com doze anos, ia aos passarinhos para mostrar a minha pontaria. Mais tarde, com a ajuda de um pescador desportivo, tirei kilos de barbos e tainhas do rio que deixámos apodrecer, por se alegar o seu mau sabor.

Só adulto feito, me apercebi da gratuitidade destes gestos, porque, até lá, tudo isto me parecia normal. Tão normal como me é agora, pôr insecticida nas formigas ou herbicida nas silvas do jardim.

... mas o meu neto teve um castigo, no Infantário, por ter morto publicamente um caracol.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Casamentos


O casamento sempre foi, e continua a ser, um contrato que nada tem a ver com laços amorosos, ainda que coincida com eles na história recente do mundo desenvolvido. É por isso que não tem que ser obrigatóriamente realizado entre pessoas de sexos diferentes, nem sequer entre duas pessoas apenas.


o que eu vou lendo ....