segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Os Fiscais
























- E o Quim continua desempregado?
- Está pelo Fundo de Desemprego, mas trabalha nas obras de um empreiteiro amigo! Só que agora anda com a roupa de domingo, para o caso de aparecerem os fiscais, não o questionarem, ao vê-lo com roupa de trabalho!

domingo, 12 de setembro de 2010

Pastor


Olhe que é verdade! Se o cão lá estivesse, ele não lhe batia. De uma das vezes que levantou a mão para a minha mãe, ele arreganhou-lhe os dentes, e agora, quando se "passa", assegura-se que o cão não está por perto.
O bicho não foi ensinado. De manhã vai com ele e as ovelhas, para uma leira no monte. Às vezes, aborrece-se e vem para casa mas, ao fim da tarde volta lá para as trazer. E olhe que não as deixa misturar com as outras! Com as galinhas é a mesma coisa. As da casa não as quer longe do galinheiro, e ladra às das vizinhas. Foi o homem do talho que o deu ao meu pai, há para aí cinco anos. Guarda a casa, mas na rua não ladra a ninguém.
Fosse ele capaz, e proibia-o de beber!

Centenários




Não resisto à divulgação desta notícia.
É bem certo que “Os homens fazem todo o mal que podem, e todo o bem a que são obrigados”
Que o diga a família de Sogen Kato

Adenda: Em Portugal o Decreto-Lei nº 329/93, no Artigo 89.º, obriga a que os pensionistas de invalidez e de velhice façam prova de vida (presencial ou testemunhal) na Junta de Freguesia onde residem.
Pelo menos nisto somos melhores que os japoneses.

O American Dream by George Carlin





Um humor americano, impossível em Portugal.

sábado, 11 de setembro de 2010

A Fuga


-"Calma Marina! Não aumente ainda mais o problema!”, dizia, a tentar controlar a auxiliar, que alternava as mãos entre a cabeça e os joelhos, numa aflição irreprimível, depois de ter visto o doente saltar pela janela.

-"Ele partiu o vidro com aquele vaso de flores, e depois enfiou-se pelo buraco e desapareceu!", repetia, apontando para o negro do telhado do 4º andar através da janela partida. –“Estava descalço e só tinha as calças do pijama vestidas. Ele é tão grande! Ninguém o conseguia segurar. Aiiiiii! Sr. Dr.! ... O homem matou-se!", e não parava de andar de um lado para o outro.

-“Marina, deixe lá o choro, que não adianta, e só perturba! Veja se fica calada, para a gente poder pensar. Enfermeiro Ruiz, conte lá o que se passou!"
-"É o doente da cama 5. Entrou ontem com uma cirrose hepática e deve estar com delírio alcoólico. Esteve bem durante a tarde. À meia-noite, recusou a medicação e começou a ficar agitado, dizendo que eu o queria matar com as injecções. Passei-o à frente e continuei a dar a medicação aos outros. Quando voltei a ele, deviam ser umas duas horas, começou o sarilho. Ficou muito perturbado com a minha presença e, quando eu me tentei aproximar, fugiu para o átrio dos elevadores e, … atirou-se pela janela!"

-Ok! Você consegue vê-lo ali em baixo, no meio deste escuro?"

-"Não se vê nada! Ele também de branco pouco tem, embora volume não lhe falte. Pesa bem mais que 100Kg! Nem sei como é que ele passou pelo buraco do vidro. Deve estar todo cortado!" E depois de uns longos segundos a esticar-se pela janela, identifica-o a andar pelo telhado, uns cinquenta metros para lá do local da queda.
-“Está ali! Vai na direcção da janela iluminada do Serviço de Obstetrícia, no outro módulo do Hospital! ... Está aos gritos ao telefone a pedir para o virem buscar, que o querem matar!”

-“Pelo menos está vivo! Avisem os Porteiros, as Oficinas e a Polícia para ver se lhe deitamos a mão antes que ele caia dali abaixo. Como é que se chega onde ele está?”, e, enquanto uns lhe tentam adivinhar os movimentos, outros saem em direcção ao possíveis locais de fuga.
-“Esperem! Ele desapareceu! Deve-se ter atirado do telhado abaixo!”

São três horas da manhã, quando se inicia a “caça ao homem”.
-“Você vai por ali! Eu por acolá e você Marina, fica aqui com o enfermeiro Ruiz a tomar conta dos outros doentes. Se alguém o encontrar, telefona para o Serviço de Urgência!”

Dou uma volta pelo exterior do edifício e pelo local da possível queda, sem ver vivalma, e entro pelo Serviço de Urgência. Foi a Polícia que o encontrou. Estava na primeira rotunda, bem fora da cerca do Hospital.
Está agora na Sala de Pequena Cirurgia, sentado num banco, de tronco nu, descalço e com múltiplas feridas cortantes dispersas pelo tronco, mãos, pernas e pés. À volta destes o sangue faz desenhos no chão de mármore. É um homem gordo, escuro e tem o ar assustado de um urso acossado, sempre atento à porta de entrada, como que a prever o reaparecimento do enfermeiro do serviço, enquanto a enfermeira o punciona e lhe diz com voz estrelada:
- “Tenha calma! Nós somos amigos! Aqui ninguém lhe faz mal! Deite-se ai na marquesa, para lhe limparmos as feridas que tem debaixo dos pés!”, e, como por milagre as pálpebras descem-lhe sobre o amarelo dos olhos e a cai na maca, leve como uma criança, no colo da mãe.
- “Sr. Manuel! Sr. Manuel!”, e depois, olhando para o ao lado: “Já o sedaram!? Que rápidos! Eu nem notei! ... Está lá fora a mulher! Deixem-na ficar com ele, para que, ao acordar, não voltemos ao mesmo! ... Até amanhã!”

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Psiquiatria de Urgência


- "Socorro! SOCORRO! Quem me ACOOOOOODEEEEEEEE!", grita o psiquiatra na sala ao lado.
Levanto-me a correr e, no meio de maqueiros e enfermeiros, abro-lhe a porta do consultório, e ficamos todos à espera de uma ordem, pois o doente, um homem bem parecido, de cerca de 40 anos, parece calmo.
- "Dr.! Quer que chame a Polícia?"
- "Obrigado! Parece que não vai ser necessário. Quero só que lhe tirem esse saco que ele tem aos pés. É que eu tenho medo que ele tenha aí qualquer objecto com que me possa agredir!", sussurra depois de o contornar e se aproximar do grupo.


Minutos mais tarde ...
- "A colega não percebeu que eu estava em apuros, e que aquela conversa tinha a intenção de ganhar tempo para que alguém me ajudasse?"
- "Desculpe! Eu apercebi-me que o vosso diálogo tinha grandes variações de tom, e que o doente por vezes assumia uma postura agressiva, acusando-o de ser o responsável por um “chip” que tinha na cabeça. Mas não me passou pela cabeça que o estivesse a ameaçar!"
- "Você nem queira saber! Ele disse que tinha ali uma arma para me matar, e eu só chamei por ajuda, quando ele deitou a mão ao saco. ... Vocês têm de estar atentos ao que se passa no Serviço de Urgência, principalmente com quem lida com doentes com perturbações mentais".
- "Eu já tinha reparado nele, quando entrei ao serviço e me pus, com os processos na secretária, a planear o que ia fazer. Ele assomou à minha porta e disse: “Então aqui não se trabalha? Ninguém chama os doentes? Vi-vos entrar, e ainda não vos vi fazer nada!”, mas depois de lhe ter pedido calma e o ter informado que o psiquiatra não demorava, ele ficou calado. Eu ia lá adivinhar que ele era esquizofrénico? Há tanto malcriado por aí!"

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A Televisão


- E quem trouxe a Sr. Glória?
- Foi uma sobrinha que a encontrou meio caída na cama, na manhã de sábado, sem dar acordo de si e a arder em febre. É ela que a arranja e a leva ao Centro de Dia, mas à noite é outra que a deita, pelo que esta não sabe como é que ela estava ao fim do dia. Fica todas as noites sozinha, já não se levanta e há muito que não diz coisa com coisa.
- E ao fim de semana?
- Antes de Abril ainda lhe metiam um braço de cada lado e levavam-na a almoçar à casa da que vive mais perto. Desde então, vão lá para a higiene e para as refeições!
- E, ela não tem gato nem cão?
- Não! Põem-na em frente da Televisão, mas ela já não lhe liga.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A Moto 4


- Oh Dr.! Ela tem um feitio terrível. Sempre fez o que queria. Mesmo agora com oitenta e cinco anos ninguém tem mão nela! Vive numa quintinha lá para os lados de Valença, com a ajuda de uma surda-muda, que “só lá vai quando lhe apetece” e que só a atura, porque não a ouve!
Muita sorte teve ela no acidente, em só partir umas costelas e não ter morto ninguém. Diz que levava capacete, que ia devagar, e que a rapariga do carro contra quem chocou não sofreu nada.
- E há quanto tempo é que ela andava de Moto 4?
- Tinha-a comprado há dois dias, depois de ter vendido um desses carros que não necessitam de carta, a que chamam “os mata-velhos”. Parece que estava tudo legal.
O filho, que vive na América, esteve cá ontem e completou a história. Ela, ainda jovem foi servir para Lisboa e por lá casou aos 25 anos. Mas o casamento não correu bem. Aos 40 anos divorciou-se e, anos depois, emigrou com o filho para Clermont-Ferrant. Foi aí que ela aprendeu a andar de moto. Só lá estiveram 4 anos, porque voltaram a emigrar para os Estados Unidos, onde continuaram a morar juntos, sempre com uma relação difícil por causa da sua autonomia. Aos sessenta e cinco anos, decidiu voltar sozinha, para viver numa quintinha de uma cunhada, que está internada num Lar, lá nos States.
Agora está tudo a monte, mas houve tempo em que ela a teve cuidada, embora nunca fizesse grandes obras. Foi até num desses arranjos, que caiu do telhado e fracturou a perna direita. Parece que estava a pôr umas pedras em cima de umas telhas que tinham voado com o vento.
- E agora? Vai voltar para casa, ou o filho leva-a para a América?
- Não sei! Para já vai para uma Unidade de Convalescença, e entretanto vê-se qual o grau de autonomia que consegue e a disponibilidade do filho. Agora que gastou todo o dinheiro na moto, parece mais convencida das suas limitações, e que aquele tempo em “não havia nada que eu não fizesse” já passou.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Obesidade Mental

O termo pretende definir o efeito da Comunicação Social sobre uma população pouco esclarecida, ao atafulhá-la de informação distorcida ou irrelevante. O conceito é útil, embora o texto o empole.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Muriel por Ruy Belo



















MURIEL
Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas para dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é com certo espanto que no espelho da manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de Janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
Eu aprendi a ver a minha infância
vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos
e penso que se bach hoje nascesse
em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior
que esta mesma tarde num concerto ouvi
teria concebido aqueles sweet hunters
que esta noite vi no cinema rosales
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
E penso que se nunca a bem dizer te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
Na melhor das hipóteses estou longe
qualquer de nós terá talvez morrido
No fundo quem nos visse àquela hora
à saída do metro de serrano
sensivelmente em frente daquele bar
poderia pensar que éramos reais
pontos materiais de referência
como as árvores ou os candeeiros
Talvez pensasse que naqueles encontros
em que talvez no fundo procurássemos
o encontro profundo com nós mesmos
haveria entre nós um verdadeiro encontro
como o que apenas temos nos encontros
que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
Isso era por exemplo o que me acontecia
quando há anos nas manhãs de roma
entre os pinheiros ainda indecisos
do meu perdido parque de villa borghese
eu via essa mulher e esse homem
que naqueles encontros pontuais
Decerto não seriam tão felizes como neles eu
pois a felicidade para nós possível
é sempre a que sonhamos que há nos outros
Até que certo dia não sei bem
Ou não passei por lá ou eles não foram
nunca mais foram nunca mais passei por lá
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos
junto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e me não vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
Terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
não telefones não marques o número
ele terá mudado a casa será outra
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás nessa altura jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão de escuridão e luz
e assiste ao assalto pelo sol
daquele poder que pertencia à lua
que transfigura em luxo o próprio lixo
que tão de leve vive que nem dão por ela
as parcas implacáveis para os outros
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e não me vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido

domingo, 5 de setembro de 2010

A Velocidade



No Mundo actual, e no nosso país em particular, o imediato domina as atenções, tal é a pressão que a comunicação social faz sobre o minuto em que se vive.

Neste contexto, onde não é necessário conhecer o passado nem projectar o futuro, todos podem ter opinião, até porque ela é um dos ingredientes para o espectáculo em que se tornou o dia a dia.

Transformámo-nos em bombeiros voluntários, sem conhecimentos, nem equipamentos, impelidos a acudir a supostas emergências, ignorantes dos riscos das nossas acções pouco acertadas.
...
Milan Kundera in "A Lentidão".
“... o homem inclinado para a frente na sua motorizada só pode concentrar-se naquele exato momento de seu vôo; agarra-se a um fragmento de tempo cortado tanto do passado como do futuro; é arrancado à continuidade do tempo; está fora do tempo; por outras palavras, está num estado de êxtase; nesse estado, nada sabe da sua idade, nada da mulher, nada dos filhos, nada das suas preocupações e, portanto, não tem medo, porque a fonte do medo está no futuro e quem se liberta do futuro nada tem a temer.
A velocidade é a forma de êxtase com que a revolução técnica presenteou o homem. Ao contrário do motociclista, quem corre a pé continua presente no seu corpo, obrigado ininterruptamente a pensar nas suas bolhas, no seu ofegar; quando corre, sente o seu peso, a sua idade, mais consciente do que nunca de si prórpio e do tempo de sua vida. Tudo muda quando o homem delega a faculdade da velocidade a uma máquina: a partir de então, o seu próprio corpo sai do jogo e ele entrega-se a uma velocidade que é incorpórea, imaterial, velocidade pura, velocidade em si mesma, velocidade êxtase.”

sábado, 4 de setembro de 2010

A Justiça

Foi assim que Miguel Torga pôs a Justiça num conto anterior a 1941, data da 1ª edição dos "Contos da Montanha"

Por mais ordeiro que um povo seja, sempre há coisa. É uma asneira que se diz, um marco que o arado arranca, uma cabra lambisqueira que salta à vinha de alguém, duas maçãs que uma criança rouba. Mas tudo isso não vale nada. As mulheres engaleiam-se, o falatório no tanque anima-se, discute-se nas cavas, e acaba tudo em águas de bacalhau. No tempo do Leonardo, porém, Deus nos livrasse! Aquele cobardola só sabia dizer:
- Embargo! Ou fazes o que eu digo, ou vou à vila e enrolo-te em meia folha de papel selado.

- Se tem assim tanta razão, salte! Salte para aqui, e tiram-se as teimas de homem para homem.
Olha lá não saltasse! Metia o rabo entre as pernas, e tribunal.
Ora o que a justiça quer é comer. Certo e sabido: vai-se ter com o Dr. Valério a Murça, e é logo:
- Você está cheio de razão, alma de Deus! Ponha a questão, que não há ninguém que lha perca. Se quiser, passe-me uma procuração, deixe trezentos mil réis para preparos, e o resto é comigo.
Um céu aberto. Até parece que a gente já está a ouvir o juiz. Mas depois é que são elas! Começa um moedoiro de dinheiro, que não há bolsa que chegue. O advogado só diz:
- Então agora, que isto vai tão bem encaminhado, é que você se quer compor?!
E cantem para aqui mais cinco notas! O pior é que daqui a um mês, zás: uma cartinha. "Senhor Fulano, é favor comparecer no meu escritório". Desce a gente de escantilhão pela serra abaixo, numas ânsias a cuidar mil coisas. E o que há-de ser? "Tenha paciência, isto não anda sem a mola real ..."
Até que chega o dia da audiência. Aí, então, é como quem quer livrar um filho. Presente a este, presente àquele, tia Preciosa, pelo amor de Deus, diga a verdade e beba mais uma pinga. E para nada, afinal de contas, porque o outro advogado, que é um bandalho da mesma raça, embrulha tudo. "Ora explique-me lá isso bem explicado! Não minta ..." A gente, quando se senta naquelas cadeiras, fica logo como há-de ir. Fazem-nos falar, apertam, apertam, e quem é que não cai? Tiram de nós o que eles querem. "Diga. Diga! Ora assim, sim! Vê como é tudo ao contrário do que pensava?!" Só visto! Ao fim, sai uma sentença que não é carne nem é peixe, uma pessoa fica borrada, empenhada até às orelhas, e a dever favores até às pedras da rua.
...

... com as devidas adaptações à actualidade, ... a coisa mantém-se!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Um desabafo

Quando o SNS universal e gratuito, dava os seus primeiros passos e se media com um significativo incremento de doentes, um dos grandes problemas do Serviço de Urgência, era a escassa e morosa disponibilidade de meios auxiliares de diagnóstico, efectuados maioritariamente por processos manuais.
Na "Triagem", havia que ser comedido, pois do outro lado estava um médico que facilmente se “afogava” se não houvesse contenção, o que era perceptível pelo atraso das suas respostas. Em tais circunstâncias, se me era imperiosa qualquer análise, ia em mão entregá-la e justificar as razões.

Nesse dia levava um frasco de urina. Assomo à porta do Laboratório, meio a medo, e deparo com as costas do analista debruçadas sobre a banca de trabalho
- "Dr. Silva! Posso?", digo, a tentar medir-lhe a disponibilidade.
- "Diga, que eu já tenho aqui que fazer até à noite!", responde, sem levantar os olhos do microscópio, enquanto com a mão direita continuava a clicar no contador de células.
- "Dr. Silva! Eu vejo que isto aqui está complicado, mas tenho um doente lá fora, cheio de febre, que penso ter uma infecção urinária. Será que daria para fazer um sedimento urinário?", arrisco a pergunta, adocicando a voz, o mais que posso.
- “Outro? Na última hora é o quarto que pedem!”, responde, mal-humorado. "Pouse aí na bancada, e prepare-se para esperar!" E num desabafo de desespero, completa:– “Sabe! Isto aqui é um Laboratório! Não é um Mictório!”
- “Obrigado! Dr. Silva! Eu vou ver se este é o último de hoje!”, e saí meio a rir, meio aliviado por a conversa ter ficado por ali.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Lisboa













Vive-se em Lisboa de uma forma que não se vive no resto do país. Tenho assistido a coisas que não pensava existirem. Vive-se de milhões de euros, de jantaradas, de almoçaradas, de grandes festas e, sobretudo, de grandes negociatas. Vivemos num país demasiado centralista e demasiado centralizado.

Quem o diz é Júlio Magalhães, “pivot” da TVI, numa entrevista ao DN.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A Reforma



- Então!? Não se reforma? Você precisa de aturar esses gajos?
- Desculpe lá, mas eu não entendo a coisa assim! Esses gajos, como você lhes chama, não são vitalícios, e eu não entendo a reforma como uma libertação.
- Olhe que se eu pudesse, era já hoje. Metia-me a passear por aí fora, com a patroa, e dedicava-me ao jardim e aos netos.
- Mas eu não penso assim. A mim só me incomoda o trabalho, quando ele ultrapassa as minhas capacidades, de resto, sempre achei graça àquilo que fiz! O que eu queria era reduzir a carga horária e ter mais dias de férias, sem me mexerem no ordenado. Coisa como trabalhar das 9:00h às 13:00h, cinco dias na semana e ter dois meses de férias. Mas depois dos 65, queria só trabalhar quatro dias na semana, ter três meses de férias, e uma actividade menos exigente. Esta coisa de passar a reforma para os 65 ou para os 67 anos, devia ser acompanhada por medidas deste tipo. Já chegaram as cargas horárias de outros tempos, em que trabalhei mais de 70 horas por semana! Agora são os meus filhos que estão nessa. E, se retirarem disponibilidade aos avós, quem dá coesão à família vai ser a empregada doméstica, se a tiverem.
- É verdade! Nos dias de hoje, a maior parte dos empregos, com as deslocações, consomem o dia todo. Com sorte, metem os miúdos na cama. E ainda se fala de políticas de protecção às famílias.
- Lembras-te, quando em Julho de 2007, o ministro José Vieira da Silva, se congratulou com o alargamento do horário de funcionamento dos infantários, e até deu como exemplo uma creche em Vila Nova de Cerveira: «… que estava aberta das sete da manhã até as dez noite e estava cheia». Esquecem-se daquela máxima, que eu acho muito feliz: "Educação é aquilo que eu aprendi com os meus pais, quando eles não me estavam a ensinar nada!"  Depois queixam-se de acontecimentos como os de Novembro de 2007 em Paris.