sexta-feira, 24 de setembro de 2010
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Tapeçarias de Portalegre

Este tríptico de 3 x (522 x 270) cm, efectuado em 1989 por Júlio Pomar, está no átrio da sede da CGD em Lisboa. Tem o nome de Tropel.
As Tapeçarias de Portalegre, reproduziram partes desta obra para tapeçaria, numa tentação de muitos mil euros!
No meu local de trabalho há uma de Guilherme Camarinha, que está desvalorizada por não encontrar parede que lhe dê relevo. Inicialmente colocada no Bar do Pessoal, cedo foi usada para encosto de cabeças pouco atentas. Depois de um alerta, foi para a administração, que ao fim de uns anos a enviou para
No meu local de trabalho há uma de Guilherme Camarinha, que está desvalorizada por não encontrar parede que lhe dê relevo. Inicialmente colocada no Bar do Pessoal, cedo foi usada para encosto de cabeças pouco atentas. Depois de um alerta, foi para a administração, que ao fim de uns anos a enviou para
o atendimento ao público, onde mal se vê.
Na cidade, conheço outra. É de Almada Negreiros, e está na Pousada de Sta Luzia com honras de Sala de Estar, mas não me admiro que haja muitas, nas salas do Tribunal e em outros edifícios públicos.
Ignoro se persiste a política de atribuir para arte, uma percentagem (1%) do custo de construção dos novos edifícios, com o que os governos animavam activamente a criação da arte pública.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Os políticos bailarinos

Num tempo em que o conflito político se agudiza, vem-me à memória este excerto do livro "A Lentidão" de Milan Kundera
Todos os homens políticos de hoje, segundo Pontevin, são um tanto bailarinos, e todos os bailarinos se metem na política, o que apesar de tudo, não deveria fazer-nos confundir uns com os outros. O bailarino distingue-se do homem político corrente pelo facto de não desejar o poder mas a glória; não deseja impor ao mundo esta ou aquela organização social (borrifa-se para isso), mas sim ocupar o palco fazendo refulgir o seu "eu".
Para ocupar o palco, é preciso correr de lá com os outros. O que supõe uma técnica especial de combate. O combate travado pelo bailarino é aquilo a que Pontevin chama judo moral; o bailarino lança a luva em desafio ao mundo inteiro: quem é capaz de se mostrar mais moral (mais corajoso, mais honesto, mais sincero, mais disposto ao sacrifício, mais verídico) do que ele? E maneja todos os recursos que lhe permitam colocar o outro numa situação moralmente inferior.
Se um bailarino tiver a possibilidade de entrar no jogo político, recusará ostensivamente as negociações secretas (que são desde sempre o terreno de jogo da verdadeira política) denunciando-as como mentirosas, desonestas, hipócritas, sujas; adiantará as suas propostas publicamente, de cima de um estrado, cantando, dançando, e chamará os outros citando-os pelos nome a seguirem-no na sua acção; insisto: não discretamente (a fim de dar ao outro tempo para reflectir, para discutir contrapropostas), mas publicamente, e se possível, de surpresa: “Está disposto agora mesmo (como eu) a renunciar ao seu salário de mês de Março em benefício das crianças da Somália?” surpreendidas, as outras pessoas terão apenas duas possibilidades: ou recusar e desacreditarem-se assim enquanto inimigas das crianças, ou dizem um “sim” terrivelmente embaraçado que a câmara mostrará maliciosamente como mostrou as hesitações do pobre Berck no fim do almoço com os doentes com SIDA. Porque se cala o senhor, doutor H, quando os direitos do homem são desprezados no seu país?” Esta pergunta foi feita ao doutor H. no momento em que ele, estando a operar um doente, não podia responder; mas depois de ter cosido o ventre cortado, sentiu-se presa de uma tamanha vergonha pelo seu silêncio que debitou tudo o que tinham querido ouvir da sua boca e mais ainda; ao que o bailarino que lhe dirigira a sua arenga (e é outro golpe de judo moral, especialmente terrível) tornou: “Vá lá. Mais vale tarde …”
Podem ocorrer situações (nos regimes ditatoriais, por exemplo) em que tomar posição publicamente seja perigoso; para o bailarino é-o, contudo, um pouco menos que para os outros, porque, depois de ter passeado à luz dos projectores, visível em todo o lado, ele fica protegido pela atenção do mundo; mas tem admiradores anónimos que, obedecendo ao seu apelo tão esplêndido como irreflectido, participam em reuniões proibidas, fazem manifestações de rua; estes últimos serão tratados sem contemplações e o bailarino jamais cederá à tentação sentimental de se recriminar por ter causado a sua desgraça, ciente de que uma nobre causa pesa mais do que a vida deste ou daqueloutro.
Vincent objecta a Pontevin: “É bem conhecida a tua execração por Berck e nós acompanhamos-te nela. No entanto, apesar de ser uma besta, ele apoiou causas que nós também consideramos justas, ou, se quiseres, apoiou-as a vaidade dele. E eu pergunto-te: se quiseres intervir num conflito público, chamar a atenção para uma abominação, ajudar um perseguido, como poderás, na nossa época, deixar de ser ou de parecer um bailarino?”
Ao que o misterioso Pontevin responde: “Enganas-te se pensas que eu queria atacar os bailarinos. Defendo-os. Quem sente aversão pelos bailarinos e quer denegri-los esbarra sempre num obstáculo intransponível: a honestidade deles; porque expondo-se constantemente ao público, o bailarino condena-se a ser irrepreensível; não concluiu como Fausto um pacto com o diabo, concluiu-o com o Anjo: quer fazer da sua vida uma obra de arte e é nesse trabalho que o Anjo o ajuda; porque não te esqueças, a dança é uma arte! É nessa obsessão de ver na sua própria vida a matéria de uma obra de arte que se encontra a verdadeira essência do bailarino; ele não prega a moral, dança-a! Quer comover e deslumbrar o mundo com a beleza da sua vida! Está apaixonado pela sua própria vida como um escultor pode estar apaixonado pela estátua que está a moldar.”
domingo, 19 de setembro de 2010
Pequenos políticos

- Então é por isso que tu não vais à bola com ele!?
- Ele andava armado em defensor dos “pobres e oprimidos”, a tentar fazer obra com o dinheiro daqueles a quem chamava ricos, mas não abdicava de um carro "topo de gama". O método era sempre o mesmo: “criar dificuldades, para vender facilidades!” Freguês que lhe caísse na alçada, não andava para frente sem calcetar uma rua, alargar um caminho ou participar na iluminação. Criava-lhe obstáculos sobre obstáculos, para que num desespero, ele cedesse.
- Este tipo de gente pensa que é o Robin dos Bosques, mas são muito cientes dos negócios e oportunidades que o lugar lhes oferece. Isso em termos jurídicos, chama-se “extorsão”.
- Um colega dele das Finanças, contou-me que ele, quando detectava irregularidades, fazia chantagem sobre as empresas, o que, naquele tempo, era o pão do dia. Fazia parelha com um amigo, que depois de algum sucesso regional, se abalançou para Lisboa. Mas lá a coisa piou fino e acabou “dentro”. Este, mais provinciano, ficou por cá e safou-se. O grosso da população não o critica, porque ele se vira mais para quem chega. É o eterno problema do “rouba, mas faz!”
- O homem viu na expansão da aldeia, a oportunidade para fazer obra que lhe rendesse dividendos políticos. Só que este estilo não dá com todos, e coisas que se resolveriam falando, ficaram paradas. No teu caso, tivestes que pagar!?
- Ele andava armado em defensor dos “pobres e oprimidos”, a tentar fazer obra com o dinheiro daqueles a quem chamava ricos, mas não abdicava de um carro "topo de gama". O método era sempre o mesmo: “criar dificuldades, para vender facilidades!” Freguês que lhe caísse na alçada, não andava para frente sem calcetar uma rua, alargar um caminho ou participar na iluminação. Criava-lhe obstáculos sobre obstáculos, para que num desespero, ele cedesse.
- Este tipo de gente pensa que é o Robin dos Bosques, mas são muito cientes dos negócios e oportunidades que o lugar lhes oferece. Isso em termos jurídicos, chama-se “extorsão”.
- Um colega dele das Finanças, contou-me que ele, quando detectava irregularidades, fazia chantagem sobre as empresas, o que, naquele tempo, era o pão do dia. Fazia parelha com um amigo, que depois de algum sucesso regional, se abalançou para Lisboa. Mas lá a coisa piou fino e acabou “dentro”. Este, mais provinciano, ficou por cá e safou-se. O grosso da população não o critica, porque ele se vira mais para quem chega. É o eterno problema do “rouba, mas faz!”
- O homem viu na expansão da aldeia, a oportunidade para fazer obra que lhe rendesse dividendos políticos. Só que este estilo não dá com todos, e coisas que se resolveriam falando, ficaram paradas. No teu caso, tivestes que pagar!?
- Aconselhei-me com o meu advogado, que me disse que: "os direitos não se pedem, exercem-se!"
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sábado, 18 de setembro de 2010
Foi a minha sorte!

Aos onze anos fiquei órfão, depois da minha mãe morrer uma semana antes da minha avó. Fui viver para casa de uma tia, que me dava um comer diferente daquele que dava aos filhos.
Aos dezasseis, o meu irmão mais velho, chamou-me para trabalhar nas obras em Lisboa
Quando o patrão me viu, disse: “Tu não tens corpo para carregar um balde de massa! Olha lá! Queres ir para a carpintaria!”
Foi a minha sorte!
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Saudades do Ti António – 2

A Montaria
Era o padre Rafael Gonçalves Roque, natural de Sistelo, e pároco no Soajo, que organizava as montarias, para os “apaixonados” soajeiros e das freguesias vizinhas. Era também ele que comandava os tiros dos “réfes” de carregar pela boca, com que se davam as ordens aos batedores.
A primeira descarga era feita na fraga da Mó, para o avanço do povo vizinho, até ao Outeiro Maior onde terminava a batida.
Quando todos os batedores chegavam ao Alto da Pedrada, já cansados e cheios de apetite, iam buscar o farnel e descansavam, atentos aos tiros dentro das chãs da Seida, onde os atiradores tinham sido previamente colocados, entre os quais estava o saudoso padre Rafael. De vez em quando ouvia-se um “tau”, e o povo em silêncio, tentava vislumbrar qualquer movimento do lobo na direcção do fojo, ou se o topava a fugir noutra direcção evitando os tiros dos caçadores.
Terminada a batida, tudo regressava à branda da Cova onde se queimavam os últimos cartuxos, fazendo tiro ao alvo a um calhau posto em cima de uma rocha, no meio de grande animação centrada no almocreve, com as meias canadas (1,5l) e os quartilhos (0,5l) de bom vinho, levado em odres de pele de cabra.
O calhau do Alto da Cova
Deve estar cheio de dores
Está marcado de mil balas
Pelos bons atiradores
E depois todos voltavam a casa, ouvindo o chocalhos dos animais a pastar nas brandas – branda de Cova, e do Alto do Guidão, branda da Urzeira e a do Poulo do Aguilhão, tudo brandas soajeiras dos tempos que já lá vão.
Texto fundamentado, nas memórias manuscritas do Sr. António Carvalho (1931- … )
Era o padre Rafael Gonçalves Roque, natural de Sistelo, e pároco no Soajo, que organizava as montarias, para os “apaixonados” soajeiros e das freguesias vizinhas. Era também ele que comandava os tiros dos “réfes” de carregar pela boca, com que se davam as ordens aos batedores.
A primeira descarga era feita na fraga da Mó, para o avanço do povo vizinho, até ao Outeiro Maior onde terminava a batida.
Quando todos os batedores chegavam ao Alto da Pedrada, já cansados e cheios de apetite, iam buscar o farnel e descansavam, atentos aos tiros dentro das chãs da Seida, onde os atiradores tinham sido previamente colocados, entre os quais estava o saudoso padre Rafael. De vez em quando ouvia-se um “tau”, e o povo em silêncio, tentava vislumbrar qualquer movimento do lobo na direcção do fojo, ou se o topava a fugir noutra direcção evitando os tiros dos caçadores.
Terminada a batida, tudo regressava à branda da Cova onde se queimavam os últimos cartuxos, fazendo tiro ao alvo a um calhau posto em cima de uma rocha, no meio de grande animação centrada no almocreve, com as meias canadas (1,5l) e os quartilhos (0,5l) de bom vinho, levado em odres de pele de cabra.
O calhau do Alto da Cova
Deve estar cheio de dores
Está marcado de mil balas
Pelos bons atiradores
E depois todos voltavam a casa, ouvindo o chocalhos dos animais a pastar nas brandas – branda de Cova, e do Alto do Guidão, branda da Urzeira e a do Poulo do Aguilhão, tudo brandas soajeiras dos tempos que já lá vão.
Texto fundamentado, nas memórias manuscritas do Sr. António Carvalho (1931- … )
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
As saudades do Ti António


Comecei a ser pastor com a idade de seis anos. Logo pela manhã subia serra fora, com meia dúzia de ovelhas, para só voltar à hora das galinhas irem para o poleiro. À chegada ia à fonte buscar um cântaro de água, acendia o lume com o feixinho de lenha que trazia, e punha um pote a aquecer, para andiantar o caldo, enquanto esperava pelos meus pais.
Comia um naco de pão de milho e, de vez em quando, uma sardinha ou um pouco de bacalhau, na companhia da “farrusca" e da "pega”, que sempre se aproximavam na esperança de uma côdea. Bebia na fonte das Chedas. Num dia de Abril apareceu uma cotovia para me animar as tardes, cantando, enquanto subia aos céus. Sentia-se bem comigo, poisava nas ovelhas, comia as migalhas do meu saco, e até me levou ao ninho onde tinha quatro pequeninos. Depois, satisfeita, cantou para mim o seu labri-labri. Ainda hoje, quando por lá passo, sei o monte de tojo onde os criou.
Pegureirinhos (pastorinhos) do monte
Dai-me da vossa merenda
A minha ficou em casa
Se a comi não me lembra
Em Janeiro, os pegureiros tinham o dia das merendas. Era uma festa que juntava todos os pastores, numa fraga com piocas naturais, já usadas pelos antigos e que ainda hoje se chama “Penedo das Merendas”, situada no cotinho dos Terreiros. Iam rapazes e raparigas e todos levavam uns rijõezinhos de porco para comer. Na pioca maior fazia-se o borralho para assar a carne e noutra faziam-se os formigos (água quente, grão de milho esfarelado, que se mexia com um garfo feito de fetos). Comia-se o petisco, e depois, mesmo sem música, tudo cantava o "Vira" e dançava ao toque do calcanhar.
Adeus dia das merendas
Dos pegureiros do monte
Comer formigos na fraga
E beber água da fonte.
Havia em S. Jorge, Oliveira e Barral, quem vendia uns bons cabaços (1 cabaço = 12 litros) de vinho para alimentar as gentes até aos lugares vizinhos de Adrão, Tibo, Paradela, Roucas, Gavieira e talvez Baleiral.
Eu então andava na Escola em Ermelo, a uns três quilómetros de casa. Pelo caminho cruzavamo-nos com os almocreves que o transportavam em burros e mulas, que trepavam por ranhadoiro fora, enervados com a carga e desejosos de chegar, para se aliviarem do peso e comerem as sopas de vinho que o dono lhes dava. A canalha de Vilarinho das Quartas, que passava o dia na escola, aguardava-os, pois quando lhes pedíamos, eles paravam, abriam um odre, e pegavam-nos ao colo para que pudéssemos beber.
Em Abril e Maio, quando o cuco e o gaio cantam, era o tempo das sementeiras. Começavam as carrejadas do esterco para os terrenos, para que estivessem prontos para semear o milho, na hora de virar a terra. E enquanto levávamos o cesto à cabeça, cantávamos:
Ó meu S. João Baptista
Ó meu belo marinheiro
Leva-me no teu barquinho
Lá para o Rio de Janeiro.
No fim da carregada, lá vinha a Ti Maria com bacalhau assado na brasa e um naco de pão de milho, para nos dar força à alma.
Depois era o tempo da sacha e da monda, e novos cantares ecoavam na aldeia.
Sachadeiras do meu milho
Sachai o meu milho bem
Não olheis para o portelo
Que a merenda já lá vem
Vivíamos satisfeitos e em paz. Passávamos uns pelos outros e cumprimentávamo-nos: “Olá rapaz, para onde vais? Não andes ao calor!" -"O Tio Zé hoje não vem?" -"Saiu de manhã à procura de um bezerro que nos falta, e não sei a que horas chega!”. “Ó ti Maria, quando é que há mais um serão?” -“Agora só quando rapar as ovelhas, para fazer um fiadeiro!”
Acarinhavam-se os animais e voltava-se para casa com um feixe de lenha para fazer na fogueira o caldo do dia seguinte, com um bom naco de toucinho, farinha de milho e um pouco de leite.
Laranjeiras do pé de ouro
Que dais laranjas de prata
Amar amores não me custa
O deixá-los é que me mata!
Em Julho começavam as preparações dos terrenos para aceitarem a rega dos milhos que se prolongava até ao fim de Agosto, quando ele começava a pintar, com amarelo no folhelho. Então cortava duas dúzias de pés e levava-as ao moinho para fazer pão de milho novo, que era uma das delícias da minha mãe.
Depois vinham as vindimas e o cheiro a vinho mosto. “Ó Teresa! Já tiraste as uvas todas?”, - “Porque perguntas?”, -“É que eu quero que vás comigo vindimar para o mês de Setembro!”
E depois de muita festa e muita música, vinha Setembro com o cheiro a rosmaninho a avisar que o S. Martinho estava à porta, para a prova dos vinhos. Ó videira, ó videirinha! E ó ai ó larilolela!
No Inverno, antes dos Serões, havia matança do porco. Era uma festa para todos, quando se repartia com quem não tinha.
No dia seguinte, de manhã cedo, levávamos um pratinho de sarrabulho aos vizinhos. Era feito de bicas de farinha de milho com mistura de centeio amassada num alguidar e cozidas no pote de cabaço, que depois se cortavam às rodelas para dentro de uma sopeira de barro, e se cobria de rojões, de acordo com a família a presentear.
Não saíamos da sua porta sem que aceitassem. Quando tal, aparecia a Ti Maria: “Meu filho, este ano não mato o porco. Leva o sarrabulho!”, e eu respondia: “Não senhora! O sarrabulho é para você!”, e ela aceitava o meu pratinho, ia despejar o convite, e na volta trazia-o cheio de batatas. Que agradável era este modo de partilhar.
Depois vinham os Serões para malhar as espigas, fiar a lã das ovelhas e cantar.
Em geral eram ao sábado, e vinha gente dos lugares vizinhos. Depois de debulhar as espigas com o malho e de escaroçar o resto do milho, aparecia a Ti Maria a cantar “Ó moças cantai, cantai, que o que passou, já lá vai!”, e todos dançavam ao som do fanga-fanga do harmónio do Ti Zé do Almónico, do “bira-que-bira” das moças e da voz do mandador “Bate certo! Seguidinho! Duas voltas! Ao meio! Palminhas para acertar!”.
E as raparigas em coro cantavam ao Ti Zé:
O Tocador do Almónico,
É bonito e toca bem!
Ó moças olhai para ele,
Olha a graça que ele tem!
Já madrugada, ainda a Ti Maria nos dizia: “Não vades embora já! Que bem cantades! Aguentai até de manhã!” Então, as moças faziam uma fogueira com lenha de urzeira, e assavam chouriças de fumeiro, para o pequeno-almoço. E quando já nos preparávamos para partir, lá vinha ela outra vez, com umas tigelas de café com mel e pão de milho cozido, dizendo: “Não vades antes do café!”, e, na hora da despedida, metia-nos no bolso do casaco, um pedaço de toucinho para o caminho, que fazíamos a olhar para traz, acenando-lhe de vez em quando com o lenço.
Hoje tudo isto acabou. Que saudade eu tenho da água de unto da Ti Maria, do fanga-fanga do Ti Zé do Almónico e daquele viver “tradicional”!
Texto fundamentado, num manuscrito com as memórias do Sr. António Carvalho (1931- … )
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Ansiedades 1

- “Mas está aqui escrito que a Sra. se tentou matar!”
- “Não Sr. Dr.! Eu estou, é desesperada! Nunca o pensei capaz daquilo!", respondia entre muitos soluços, aquela mulher bonita, de 32 anos, enviada ao Serviço de Urgência com o diagnóstico de “intenções suicidas”.
- “Eu sei que lhe custa, mas vai ter de me contar o que é que o seu companheiro lhe fez para que a Sra. ficasse neste estado!”, insisto, face à primeira recusa, que me pareceu motivada por pudor.
- “É que eu fui ao Computador dele e vi lá uma file cheia de material pornográfico. Fotografias e vídeos!”, responde por fim, no meio de muitos soluços e assoadelas, a intumescerem-lhe ainda mais a face.
Pondero a sua reacção ao que tenho em mente, e a medo pergunto:
- “Mas era ele que estava nos filmes e nas fotografias?”
Não era! Ufff!
- “Oh minha senhora! Onde é que a Sra. andou nestes últimos trinta anos! A maior parte dos homens troca esse material, como os catequistas de antigamente trocavam santinhos. A maior parte não guarda! Vê e faz “delete”, ... ou já nem vê, porque se fartou de ver! Que idade tem o seu companheiro?”
- “Tem trinta! … mas … podia não me ter escondido aquilo!”, ainda a fungar.
- “Olhe! Agora a sério! A senhora não lhe respeitou a privacidade. Quem devia estar furioso consigo, era ele! E se calhar está lá fora cheio de culpa! Já viu a situação que criou. Não seria melhor, não ter ido ao seu computador pessoal? Vá lá ter com ele, falem, mas não arengue em moralista, que você não tem cara de Madre Teresa! Quer tomar um comprimido “para os nervos” antes de sair?”
- “Não! Acho que não preciso! Obrigada!”
- “Não Sr. Dr.! Eu estou, é desesperada! Nunca o pensei capaz daquilo!", respondia entre muitos soluços, aquela mulher bonita, de 32 anos, enviada ao Serviço de Urgência com o diagnóstico de “intenções suicidas”.
- “Eu sei que lhe custa, mas vai ter de me contar o que é que o seu companheiro lhe fez para que a Sra. ficasse neste estado!”, insisto, face à primeira recusa, que me pareceu motivada por pudor.
- “É que eu fui ao Computador dele e vi lá uma file cheia de material pornográfico. Fotografias e vídeos!”, responde por fim, no meio de muitos soluços e assoadelas, a intumescerem-lhe ainda mais a face.
Pondero a sua reacção ao que tenho em mente, e a medo pergunto:
- “Mas era ele que estava nos filmes e nas fotografias?”
Não era! Ufff!
- “Oh minha senhora! Onde é que a Sra. andou nestes últimos trinta anos! A maior parte dos homens troca esse material, como os catequistas de antigamente trocavam santinhos. A maior parte não guarda! Vê e faz “delete”, ... ou já nem vê, porque se fartou de ver! Que idade tem o seu companheiro?”
- “Tem trinta! … mas … podia não me ter escondido aquilo!”, ainda a fungar.
- “Olhe! Agora a sério! A senhora não lhe respeitou a privacidade. Quem devia estar furioso consigo, era ele! E se calhar está lá fora cheio de culpa! Já viu a situação que criou. Não seria melhor, não ter ido ao seu computador pessoal? Vá lá ter com ele, falem, mas não arengue em moralista, que você não tem cara de Madre Teresa! Quer tomar um comprimido “para os nervos” antes de sair?”
- “Não! Acho que não preciso! Obrigada!”
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Os Fiscais
domingo, 12 de setembro de 2010
Pastor

Olhe que é verdade! Se o cão lá estivesse, ele não lhe batia. De uma das vezes que levantou a mão para a minha mãe, ele arreganhou-lhe os dentes, e agora, quando se "passa", assegura-se que o cão não está por perto.
O bicho não foi ensinado. De manhã vai com ele e as ovelhas, para uma leira no monte. Às vezes, aborrece-se e vem para casa mas, ao fim da tarde volta lá para as trazer. E olhe que não as deixa misturar com as outras! Com as galinhas é a mesma coisa. As da casa não as quer longe do galinheiro, e ladra às das vizinhas. Foi o homem do talho que o deu ao meu pai, há para aí cinco anos. Guarda a casa, mas na rua não ladra a ninguém.
Fosse ele capaz, e proibia-o de beber!
O bicho não foi ensinado. De manhã vai com ele e as ovelhas, para uma leira no monte. Às vezes, aborrece-se e vem para casa mas, ao fim da tarde volta lá para as trazer. E olhe que não as deixa misturar com as outras! Com as galinhas é a mesma coisa. As da casa não as quer longe do galinheiro, e ladra às das vizinhas. Foi o homem do talho que o deu ao meu pai, há para aí cinco anos. Guarda a casa, mas na rua não ladra a ninguém.
Fosse ele capaz, e proibia-o de beber!
Centenários

Não resisto à divulgação desta notícia.
É bem certo que “Os homens fazem todo o mal que podem, e todo o bem a que são obrigados”
É bem certo que “Os homens fazem todo o mal que podem, e todo o bem a que são obrigados”
Que o diga a família de Sogen Kato
Adenda: Em Portugal o Decreto-Lei nº 329/93, no Artigo 89.º, obriga a que os pensionistas de invalidez e de velhice façam prova de vida (presencial ou testemunhal) na Junta de Freguesia onde residem.
Pelo menos nisto somos melhores que os japoneses.
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