O homem por detrás da anomalia gravimétrica de
Neves-Corvo
Quando se fala da descoberta da Mina de Neves-Corvo, é
frequente encontrar referências vagas a “equipas do Fomento Mineiro” ou a
“campanhas geofísicas” realizadas na Faixa Piritosa Ibérica durante os anos 70.
Raramente surge um nome concreto associado à definição da anomalia gravimétrica
que levou às sondagens decisivas.
Contudo, importa recordar o papel do engenheiro de minas AlbertinoAdélio Rocha Gomes, então engenheiro-chefe da Brigada do Sul do Serviço de
Fomento Mineiro.
Foi sob a sua orientação técnica que se desenvolveram
trabalhos de prospeção geofísica e geoquímica no Baixo Alentejo, incluindo a
identificação da anomalia gravimétrica que viria a conduzir à descoberta do
jazigo de Neves-Corvo — uma das mais importantes descobertas mineiras europeias
do século XX.
A tendência da historiografia mais divulgada tem sido
atribuir a descoberta a entidades coletivas — Fundo Mineiro, Serviço de Fomento
Mineiro, equipas de prospeção ou empresas internacionais que mais tarde
participaram no desenvolvimento do projeto. Embora isso seja parcialmente
correto, corre-se o risco de apagar o papel determinante dos técnicos
portugueses que trabalharam no terreno durante décadas.
O próprio LNEG –
Laboratório Nacional de Energia e Geologia, ao assinalar o falecimento de
Albertino Adélio Rocha Gomes, reconhece explicitamente a importância do seu
trabalho na prospeção mineira da Faixa Piritosa Ibérica e nas descobertas daí
resultantes.
A história da mineração portuguesa faz-se também destas
figuras discretas: engenheiros, geólogos e geofísicos que, longe dos holofotes,
interpretaram sinais ténues no subsolo e abriram caminho a descobertas de
enorme impacto económico e científico.
No caso de Neves-Corvo, a anomalia gravimétrica teve um
rosto: o do engenheiro Albertino Adélio Rocha Gomes.
A importância económica da Mina de Neves-Corvo para
Portugal
A descoberta da Mina de Neves-Corvo representou muito mais
do que um êxito geológico. Foi um dos mais importantes acontecimentos
económicos do interior português nas últimas décadas.
Quando o jazigo foi identificado, em 1977, Portugal
atravessava ainda um período de grande fragilidade económica e tecnológica. A
confirmação da existência de enormes reservas de cobre, zinco e estanho colocou
o país no mapa mundial da mineração moderna. O jazigo de Neves-Corvo viria a
ser considerado um dos mais ricos depósitos de sulfuretos maciços da Europa e
um dos mais importantes do mundo em teor de estanho.
A exploração industrial iniciou-se em 1988, através da
SOMINCOR, numa parceria inicial entre o Estado português e a Rio Tinto. Desde
então, a mina tornou-se um dos maiores polos exportadores nacionais e um dos
principais motores económicos do Baixo Alentejo.
O impacto económico foi profundo em vários níveis.
Em primeiro lugar, pelo emprego. Numa região marcada pela
desertificação humana e pela escassez de indústria, a mina criou milhares de
postos de trabalho diretos e indiretos. Ao longo dos anos, sustentou não apenas
mineiros, engenheiros e técnicos especializados, mas também empresas de
transportes, metalomecânica, manutenção, restauração e serviços associados.
Algumas estimativas apontam para cerca de cinco mil empregos dependentes,
direta ou indiretamente, da atividade mineira.
Em segundo lugar, pela riqueza criada localmente. Castro
Verde passou a apresentar indicadores de poder de compra invulgares para um
concelho do interior alentejano, ultrapassando mesmo várias capitais de
distrito. Os salários relativamente elevados do setor mineiro transformaram
profundamente a economia local.
Mas a importância de Neves-Corvo ultrapassa largamente a
dimensão regional.
A mina tornou-se uma infraestrutura estratégica nacional. O
Ramal Ferroviário de Neves-Corvo ligou diretamente a exploração aos portos
portugueses, facilitando exportações minerais de elevado valor acrescentado.
Além disso, Neves-Corvo ajudou a preservar em Portugal
competências técnicas altamente especializadas nas áreas da geologia,
engenharia mineira, geofísica e metalurgia. A exploração exigiu tecnologias
modernas de mineração profunda, tratamento mineral e gestão ambiental,
contribuindo para a modernização do setor mineiro português.
Também no plano financeiro a mina teve enorme relevância. Ao
longo de décadas gerou exportações significativas de cobre e zinco, atraiu
investimento estrangeiro de centenas de milhões de euros e reforçou a balança
comercial portuguesa. Diversas expansões da mina implicaram investimentos muito
elevados destinados a prolongar a sua vida útil e aumentar a produção.
Por fim, Neves-Corvo teve um significado simbólico
importante: demonstrou que o interior português podia albergar projetos
industriais de dimensão internacional, tecnologicamente sofisticados e
economicamente sustentáveis.
Tudo isto começou com uma anomalia gravimétrica identificada
por técnicos portugueses do Serviço de Fomento Mineiro — entre eles o
engenheiro Albertino Adélio Rocha Gomes — num tempo em que poucos imaginavam a
riqueza escondida sob o subsolo alentejano.













































