«Cada um sabe de si e Deus sabe de todos.» Era o que repetia aquele meu colega de profissão, uma máxima cujo peso real só alcancei quando o vi consumido pela doença.
Ele tinha todas as Cartas de Alforria do mundo: inteligência viva, berço de ouro, aprumo físico e um apelido de peso na cidade. No entanto, a constante desafinação entre esses atributos empurrava-o para o desprezo alheio, descarregado quase sempre sobre os mais frágeis. Semanalmente esbarrava nele ou nos destroços que deixava para trás. A sua presença provocava-me uma náusea funda e muda, sobretudo quando ouvia terceiros gabarem-lhe a audácia e os dotes. Reconhecia-lhe competência técnica, mas habitava nele uma compulsão por fazer "diferente" — e esse diferente traduzia-se, inevitavelmente, em ruína.
Partiu a meio do caminho, vítima de uma fatalidade banal e evitável. Uma morte tecida pelo desleixo de quem tinha a obrigação de saber como se salvar. Só mais tarde soube que a sua bússola andava à deriva por força de uma Psicose Maníaco-Depressiva que o assaltava à revelia dos tratamentos.
Atiramos pedras e traçamos destinos aos outros com a leveza de quem ignora o abismo alheio. As nossas certezas morrem quase sempre na praia de condicionantes invisíveis: aí, ou nos crescem asas para sobrevoar o absurdo, ou cruzamos os braços a lamentar a crueza do mundo.
O poder tem, afinal, a mesma geometria hesitante. Veja-se o fenómeno de Fátima — uma heresia "fora da caixa" que a Igreja Católica acabou por engolir a custo, enquanto esmagava, com o mesmo fervor, as aparições idênticas em Vilar do Chão. É a conveniência a ditar a fé.
Do mesmo modo, ao ouvir a retórica inflamada de Ventura contra o Ministro da Administração Interna, pergunto-me que mãos invisíveis lhe movem os cordões. Fosse eu um dos barões do tráfico apanhados pela Polícia Judiciária nos tempos de Luís Neves, e seria hoje o seu mais generoso patrono na sombra. Fosse eu o inquilino da Casa Branca, do Kremlin, de Pequim ou de Nova Deli, e moveria céus e terra para que a União Europeia nunca se erguesse como um bloco capaz de rivalizar com os meus desígnios.
O bicho homem nunca foi espécie de confiança — quer a sós com a sua consciência, quer amordaçado em corporações. No final do dia, a arquitetura do mundo reduz-se a uma feira vulgar: quem vende o quê, e a que preço!












































