domingo, 15 de fevereiro de 2026
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
Informação assimétrica
Até que ponto deve o vendedor revelar informação ao comprador?
Diógenes da Babilónia (240 BC -150 BC) e o seu discípulo Antíparo de Tarso discutiram este dilema à luz da informação assimétrica. Imaginemos que um homem traz um grande carregamento de trigo de Alexandria para Rodes, num momento em que o trigo é caro nesta cidade devido à escassez e à fome. Suponhamos ainda que ele sabe que muitos outros navios zarparam de Alexandria em direção a Rodes com a mesma mercadoria.
Deverá informar os rodienses desse facto e vender o trigo a um preço justo, ou aproveitar a circunstância para o vender pelo preço mais elevado possível?
Diógenes defendia que o vendedor deveria revelar apenas o que o direito civil exigisse. Antíparo, pelo contrário, sustentava que toda a informação relevante deveria ser revelada, de modo que não existisse nada que o vendedor soubesse e o comprador ignorasse.
Taleb inclina-se para a ideia de que a política mais eficaz — e moralmente isenta de vergonha — é a transparência máxima, idealmente acompanhada até de transparência de intenções.
Mas surge a fratura ética quando o comprador é um “suíço”: o estranho, o distante, aquele em relação ao qual as nossas normas morais tendem a ser atenuadas ou mesmo suspensas. Exercemos as nossas normas éticas apenas até um certo limite de escala; a partir daí, elas deixam de funcionar.
É uma infelicidade estrutural, mas o geral acaba por matar o particular. Será possível ser-se simultaneamente ético e universalista? Em teoria, sim. Na prática, porém, sempre que o “nós” se transforma num clube demasiado grande, o sistema degrada-se e cada indivíduo começa a agir primordialmente em função do seu próprio interesse.
in "Arriscar a Pele - Assimetrias ocultas na vida quotidiana" de Nassim Nicholas Taleb
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
Eleições
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
A vida em Alta Voz
Por prudência ou timidez, tento cumprir o lema “Low profile, high performance” (baixo perfil, alto desempenho). “Alto desempenho” é, para mim, o melhor desempenho de que sou capaz, o que me obriga a procurar um resultado que não me deixe desconfortável com a minha própria consciência, mesmo quando o custo pessoal ultrapassa o que seria razoável para muitos.
Não me seduzem elogios públicos e sinto até algum embaraço quando ouço alguém expor as suas fragilidades e erros em praça pública, ou gabar-se de vitórias individuais. São coisas que considero deverem ser guardadas para a nossa “tribo”, para o círculo de confiança. Diferente é quando falamos de vitórias integradas num esforço de equipa, onde o mérito é partilhado e o resultado é coletivo.
Mas neste novo mundo de “likes”, onde muitos se expõem na procura de uma aceitação que dê sentido à vida, surgem os influencers, sempre prontos a “vender” qualquer produto, seja ele um bem de consumo ou uma ideia. Não se coíbem, muitas vezes, de distorcer a verdade, de exagerar ou mesmo de inventar uma mentira, desde que a coisa “funcione” ou “não funcione” conforme lhes convém e lhes dê espaço de ação e visibilidade.
Quando eu andava no 7.º ano do Liceu, uma das cadeiras com prova escrita e oral no fim do ano era a OPAN – Organização Política e Administrativa da Nação. Estudava-se por um pequeno livro, com pouco mais de cem páginas. Um dia ouvi, da boca de um ou dois dos melhores alunos da turma, que “para OPAN não é preciso estudar; aquilo lê-se dois dias antes do exame e tira-se boa nota”. E eu acreditei.
Não estudei. Mas, uma semana antes do exame, peguei no livro para o “medir” e caí na realidade: memorizar as funções dos diferentes órgãos do Estado não era tarefa de dois dias. Li, reli, e segui por aí fora, angustiado, até ao dia da prova. Consegui tirar 13 valores, mas o maior ensinamento não foi a nota. Foi deixar de acreditar em quem empola capacidades e minimiza o esforço, por passar a duvidar de que o seu propósito seja apenas serem “os melhores”, mesmo que isso implique fazer os outros tropeçar.
Os influencers pertencem, muitas vezes, a essa mesma classe de ilusionistas. Usam uma linguagem apelativa, emocional e simplificadora, que leva os crentes a “entrar na onda” em benefício deles próprios. A lógica é antiga, apenas mudou o palco.
A verdade é simples:
“Quem sabe, faz. Quem não sabe, fala para as multidões.”
Ensinar exige proximidade, responsabilidade e compromisso com a verdade. Exige acompanhar, corrigir, escutar e responder. Os influencers, em regra, não ensinam: seduzem. Não formam: atraem. Não constroem: exibem.
E talvez por isso eu continue a preferir o silêncio do trabalho bem feito ao ruído da vida em alta voz.
domingo, 18 de janeiro de 2026
A Esperança - 2
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
Sobre o amor, etc.
— É uma chamada de bolso! Desculpe se a incomodo.
— Não incomoda nada. É um gosto ouvi-lo!
E iniciamos uma conversa de amigos que raramente se encontram, depois de terem partilhado muitos meses de trabalho. É uma mulher delicada, bondosa e paciente. Um poço de bonomia, que diz, para me agradar, ter aprendido muito comigo.
E, nem de propósito, hoje, num dia em que a chuva desaconselha qualquer saída, leio esta crónica que os deuses puseram na minha mão e que não resisto a transcrever.
SOBRE O AMOR, ETC.
É tão perto do Rio a Paris! Assim é na verdade, mas acontece que raramente vamos sequer a Niterói. E alguma coisa, talvez a idade, alonga nossas distâncias sentimentais.
Na verdade há amigos espalhados pelo mundo. Antigamente era fácil pensar que a vida era algo de muito móvel, e oferecia uma perspectiva infinita e nos sentíamos contentes achando que um belo dia estaríamos todos reunidos em volta de uma farta mesa e nos abraçaríamos e muitos se poriam a cantar e a beber e então tudo seria bom. Agora começamos a aprender o que há de irremissível nas separações. Agora sabemos que jamais voltaremos a estar juntos; pois quando estivermos juntos perceberemos que já somos outros e estamos separados pelo tempo perdido na distância. Cada um de nós terá incorporado a si mesmo o tempo da ausência. Poderemos falar, falar, para nos correspondermos por cima dessa muralha dupla; mas não estaremos juntos; seremos duas outras pessoas, talvez por este motivo, melancólicas; talvez nem isso.
Chamem de louco e tolo ao apaixonado que sente ciúmes quando ouve a sua amada dizer que na véspera de tarde o céu estava uma coisa lindíssima, com mil pequenas nuvens de leve púrpura sobre um azul de sonho. Se ela diz “nunca vi um céu tão bonito assim”, estará dando, certamente, sua impressão de momento; há centenas de céus extraordinários e esquecemos da maneira mais torpe os mais fantásticos crepúsculos que nos emocionaram. Ele porém, na véspera, estava dentro de uma sala qualquer e não viu céu nenhum. Se acaso tivesse chegado à janela e visto, agora seria feliz em saber que em outro ponto da cidade ela também vira. Mas isso não aconteceu, e ele tem ciúmes. Cita outros crepúsculos e mal esconde sua mágoa daquele. Sente que sua amada foi infiel; ela incorporou a si mesma alguma coisa nova que ele não viveu. Será um louco apenas na medida em que o amor é loucura.
Mas terá toda razão, essa feroz razão furiosamente lógica do amor. Nossa amada deve estar conosco solidária perante a nuvem. Por isso, indagamos com tão minucioso fervor sobre a semana de ausência. Sabemos que aqueles 7 dias de distância são 7 inimigos: queremos analisá-los até o fundo, para destruí-los.
Não nego razão aos que dizem que cada um deve respirar um pouco, e fazer sua pequena fuga, ainda que seja apenas ler um romance diferente ou ver um filme que o outro amado não verá. Têm razão; mas não têm paixão. São espertos porque assim procuram adaptar o amor à vida de cada um, e fazê-lo sadio, confortável e melhor, mais prazenteiro e liberal. Para resumir: querem (muito avisadamente, é certo) suprimir o amor.
Isso é bom. Também suprimimos a amizade. É horrível levar as coisas a fundo: a vida é de sua própria natureza leviana e tonta. O amigo que procura manter suas amizades distantes e manda longas cartas sentimentais tem sempre um ar de náufrago fazendo um apelo. Naufragamos a todo instante no mar bobo do tempo e do espaço, entre as ondas de coisas e sentimentos de todo dia. Sentimos perfeitamente isso quando a saudade da amada nos corrói, pois então sentimos que nosso gesto mais simples encerra uma traição. A bela criança que vemos correr ao sol não nos dá um prazer puro; a criança devia correr ao sol, mas Joana devia estar aqui para vê-la, ao nosso lado. Bem; mais tarde contaremos a Joana que fazia sol e vimos uma criança tão engraçada e linda que corria entre os canteiros querendo pegar uma borboleta com a mão. Mas não estaremos incorporando a criança à vida de Joana; estaremos apenas lhe entregando morto o corpinho do traidor, para que Joana nos perdoe.
Assim somos na paixão do amor, absurdos e tristes. Por isso nos sentimos tão felizes e livres quando deixamos de amar. Que maravilha, que liberdade sadia em poder viver a vida por nossa conta! Só quem amou muito pode sentir essa doce felicidade gratuita que faz de cada sensação nova um prazer pessoal e virgem do qual não devemos dar contas a ninguém que more no fundo de nosso peito. Sentimo-nos fortes, sólidos e tranqüilos. Até que começamos a desconfiar de que estamos sozinhos e ao abandono trancados do lado de fora da vida.
Assim o amigo que volta de longe vem rico de muitas coisas e sua conversa é prodigiosa de riqueza; nós também despejamos nosso saco de emoções e novidades; mas para um sentir a mão do outro precisam se agarrar ambos a qualquer velha besteira: você se lembra daquela tarde em que tomamos cachaça num café que tinha naquela rua e estava lá uma louca que dizia, etc., etc. Então já não se trata mais de amizade, porém de necrológio.
Sentimos perfeitamente que estamos falando de dois outros sujeitos, que por sinal já faleceram – e éramos nós. No amor isso é mais pungente. De onde concluireis comigo que o melhor é não amar, porém aqui, para dar fim a tanta amarga tolice, aqui e ora vos direi a frase antiga: que é melhor não viver. No que não convém pensar muito, pois a vida é curta e, enquanto pensamos, ela se vai, e finda.
Maio, 1948.
"Desculpem tocar no assunto", pertence a uma coleção de livros de grandes autores brasileiros, assumida pela editora Tinta da China.
terça-feira, 23 de dezembro de 2025
Jantar de Natal
sábado, 6 de dezembro de 2025
quarta-feira, 3 de dezembro de 2025
A Reforma e o Tédio
Quando era adolescente, chegava regularmente a casa dos meus pais, a edição portuguesa das Selecções do Reader’s Digest. Detinha-me sobretudo nas pequenas histórias que encerravam cada artigo: episódios breves, muitas vezes anedóticos, que nada exigiam da mente mas que, unidos, ajudaram a formar o meu olhar sobre o mundo. Uma dessas histórias ficou-me para sempre.
Narrava-se que um homem morrera e a sua alma fora acolhida no céu por um pajem de libré que, depois de se apresentar como “um seu criado”, lhe garantiu satisfazer qualquer seu capricho. O recém-chegado, surpreendido com tamanha disponibilidade, deu azo aos seus desejos mais íntimos e pediu, lascivo, uma jovem mulher num quarto sumptuoso, para os seus devaneios sensoriais.
O criado estalou os dedos e, imediatamente, surgiu a loura perfeita, submissa às suas extravagâncias. Seguiram-se horas de cupidez, longas refeições, bebidas abundantes, despertares tardios. Nos dias seguintes repetiu o programa; mais tarde, extenuado da luxúria, exigiu viagens — Roma, Paris, Hong Kong, Nova Iorque ... — e tudo lhe foi concedido. Até que, vários meses depois, cansado de tantas "facilidades", chamou o criado e pediu-lhe "qualquer coisa onde pudesse sentir o gosto de superar uma dificuldade". O pajem, num gesto cortês, respondeu que isso era impossível: Podia conceder-lhe tudo, menos uma tarefa. O homem indignou-se — “Que Céu é este, onde não se pode fazer nada?” — ao que o criado devolveu, imperturbável: “O senhor não está no Céu! Está no Inferno!.”
Compreendi muito cedo que o não ter que fazer me corrói a alma e sempre me surpreendeu a serenidade com que alguns se declaram felizes vivendo dias sobrepostos, feitos de televisão, rotinas mecânicas, numa repetição litúrgica do nada. A reforma, imaginada como um território de liberdade, transformada num espaço onde o tempo se alarga além do suportável. A vida ativa com ritmos, responsabilidades e encontros, subitamente transmutada em horários irrelevantes, convivências escassas e a sensação de utilidade a extinguir-se.
Quarenta anos de trabalho não deixam apenas experiência: deixam hábito, estrutura mental, uma forma de se estar no mundo. Quando essa estrutura cai e se instala essa vertigem silenciosa, o cérebro, privado de desafios, perde agilidade; a memória embacia-se; o humor achata-se; a motivação desfaz-se como um músculo não exercitado.
Nada disto é inevitável. Com imaginação, disciplina e uma certa coragem é possível encontrar atividades com propósito, aprendizagem contínua, exercício adaptado e relações sociais vivas. Não é fácil nesta sociedade que não desenvolveu uma cultura de "lifelong learning". Mas essas portas existem e, para quem as atravessa, a reforma deixa de ser esse deserto monótono que vejo plasmado em tantos lugares por onde passo.
quarta-feira, 5 de novembro de 2025
A Ínclita Geração
domingo, 2 de novembro de 2025
O mapa e o território
“Aqueles que passaram demasiado tempo com o nariz colado aos mapas terão tendência para confundir o mapa com o território.”
Tropecei nesta frase de O Cisne Negro, de Nassim
Nicholas Taleb, e ela ficou a ecoar-me. Pensei em alguns dos conflitos que vivi
com a gestão do hospital onde trabalhei, sobretudo quando, por iniciativa
própria, decidi conter despesas no serviço que dirigia, tentando tratar mais
doentes com menos custos em medicamentos e meios complementares de diagnóstico.
Era uma tentativa de eficiência, num tempo em que essa palavra soava estranha
nos corredores da administração, como se o dinheiro fosse um bem inesgotável,
bastando querer para poder.
Mais de uma década depois, o discurso político muda e, pela primeira
vez, o governo declara querer tornar a Saúde mais eficiente,
combater o desperdício, corrigir os erros de gestão.
Mas o desperdício não nasce apenas da má organização. Brota
também da pressão social exercida sobre os médicos e sobre as instituições. A
Saúde é, nesse aspeto, irmã da Justiça: se queremos garantir que nenhum
inocente é condenado, temos de aceitar que muitos culpados fiquem impunes.
Na Medicina, se se exige erro zero, os médicos defender-se-ão com baterias de
exames e terapêuticas de eficácia duvidosa, para não
poderem ser acusados de “não terem feito tudo o que era humanamente possível”.
O preço é alto, e não apenas financeiro: multiplica-se a iatrogenia, o dano
colateral do excesso de zelo.
Recordo-me de ter alertado um gestor para o impacto negativo
que determinada decisão estava a ter sobre alguns doentes. Respondeu-me, sem
hesitar, que o que o preocupava era “a floresta e não as árvores”. Noutra
ocasião, pediram-me silêncio quando ousei questionar os custos da ineficiência.
Talvez alguma ineficiência seja inevitável, como o ruído que
acompanha qualquer sistema vivo. Mas quando ela é evidente para quem
está no terreno e invisível para quem observa de um gabinete, debruçado sobre
relatórios e gráficos, é sinal de que confundimos o mapa com o território.
Mas, entre o querer fazer e o fazer, vai uma grande
distância. Há que contar com os lóbis — os da indústria farmacêutica, os dos
médicos, os dos enfermeiros, os dos psicólogos e
ainda o da Assistência Social, que usa a muleta da Saúde para amparar o
desamparo em que uma parte significativa da população cai quando a velhice ou a
doença a atinge.
Ter resultados neste contexto é obra, porque é ainda maior a necessidade de não
confundir o mapa com o território.
domingo, 19 de outubro de 2025
Burka e Niqab
Dito pelo ChatGPT:
A burka (ou burqa) é uma peça de vestuário
usada por algumas mulheres muçulmanas para cobrir completamente o corpo e o
rosto, incluindo os olhos (que geralmente ficam por trás de uma rede ou tecido
translúcido). A sua utilidade depende do contexto cultural, religioso e
social em que é usada. Eis os principais aspetos:
🕌 1. Função religiosa e
de modéstia
- Em
certas interpretações do Islão, especialmente em versões mais
conservadoras (como entre alguns grupos no Afeganistão ou no Paquistão), a
burka é vista como uma forma de cumprir o princípio da modéstia (haya),
prescrito para homens e mulheres.
- A
ideia é que o corpo feminino não deve ser exibido em público para evitar
“tentação” ou “olhares indevidos”.
👩👧 2. Identidade
cultural
- Em
algumas regiões, a burka não é apenas religiosa, mas também um símbolo
cultural.
Exemplo: no Afeganistão rural, o uso é mais uma tradição social do que uma obrigação religiosa direta. - Pode
ser vista como um sinal de respeito, honra ou estatuto familiar.
⚖️ 3. Controlo social e género
- Noutros
contextos, o uso é imposto por normas patriarcais ou leis
religiosas, limitando a liberdade da mulher.
- Por
isso, é também um símbolo de debate político e feminista,
representando para uns a opressão e, para outros, a escolha identitária.
🛡️ 4. Funções práticas
- Em
regiões desérticas (como o Afeganistão ou a Península Arábica), a burka protege
contra o sol, a areia e o vento, funcionando também como vestuário
adaptado ao clima.
O uso do Niqab e da Burka, em Portugal, é totalmente desajustado, porque neste país é importante que qualquer pessoa seja facilmente identificável no espaço público, onde uma burka pode ser usada por um homem, como máscara para cometer um crime ou para esconder violência doméstica.
terça-feira, 14 de outubro de 2025
Esteios
Os metrosíderos morreram. Repor a sebe? A opção foram os esteios e uma tarde de trabalho. Agora é esperar que as árvores que sobraram se componham.






























