Há muitos anos, um responsável da unidade de saúde onde trabalhava afirmou, com indisfarçável arrogância: «Não há ninguém insubstituível». Dizia-o por estar disponível para dispensar um bom médico que lhe criava um pequeno problema. A frase ficou-me na memória, não tanto pela sua originalidade, mas pela insensatez que revelava. Com efeito, qualquer organização que ambicione ter sucesso deve preocupar-se não apenas em recrutar pessoas competentes, mas também em criar condições para as manter. Substituir um incompetente por outro será, provavelmente, tarefa fácil. Substituir alguém altamente competente, sobretudo quando alia ao conhecimento a experiência, o sentido de responsabilidade e a capacidade de decisão, pode revelar-se extremamente difícil.
Sempre atribuí grande importância à competência e à honestidade, relegando para segundo plano a obediência, sobretudo quando esta é exigida por quem confunde autoridade com autoritarismo e dispensa a explicação dos motivos que sustentam as suas ordens. Não me parece que a obediência cega seja uma virtude, particularmente em organizações cuja missão exige pensamento crítico, autonomia e responsabilidade. Afinal, só não muda de opinião quem não pensa, e uma divergência não tem necessariamente de ser entendida como um ato de insubordinação. Pode, pelo contrário, constituir o ponto de partida para uma discussão séria entre pessoas inteligentes, empenhadas em encontrar a melhor solução para um problema.
É certo que nem todas as divergências são legítimas, nem todas as desobediências justificáveis. Mas, antes de transformar um desacordo num confronto de poderes, importa perceber as suas razões. Quando está em causa alguém cujo contributo é valioso, talvez faça mais sentido procurar um entendimento do que afirmar uma autoridade que, por si só, nada acrescenta à qualidade das decisões.
O talento não abunda, não se improvisa e nem sempre é fácil de reconhecer. Além disso, ninguém é perfeito: há arestas que podem ser limadas, comportamentos que podem ser corrigidos e divergências que podem ser negociadas. Para isso, é necessária abertura ao diálogo e alguma humildade por parte de quem decide. A humildade, quando se ocupa uma posição de poder, não é sinal de fraqueza; é, frequentemente, a expressão mais inteligente da autoridade.
Dizer que ninguém é insubstituível pode ser uma verdade abstrata. Na prática, porém, há pessoas cuja substituição tem custos que só se tornam evidentes quando já não estão presentes. E há organizações que, na ânsia de provar que o poder lhes pertence, acabam por prescindir precisamente daqueles de que mais precisam.































































