quinta-feira, 6 de maio de 2021

A tirania da méritocracia


Estes são tempos perigosos para a democracia. Vivemos numa era de vencedores e perdedores, onde as chances favorecem os que já têm sorte. A mobilidade social paralisada e a desigualdade arraigada desmentem a promessa de que "você consegue, se tentar". E a consequência é uma mistura de raiva e frustração que alimentou protestos populistas, com o triunfo de Brexit e a eleição de Donald Trump.

Michael J. Sandel argumenta que, para superar a política polarizada de nosso tempo, devemos repensar as atitudes em relação ao sucesso e ao fracasso que acompanharam a globalização e o aumento da desigualdade. Sandel destaca a arrogância que uma meritocracia gera entre os vencedores e o julgamento severo que impõe aos que ficaram para trás. Ele oferece uma maneira alternativa de pensar sobre o sucesso - mais atento ao papel da sorte nos assuntos humanos, mais conducente a uma ética da humildade e mais hospitaleira a uma política do bem comum.

Michael Sandel é professor de filosofia política da Universidade Harvard.

Nota: Não há tradução portuguesa, mas há em espanhol.

terça-feira, 4 de maio de 2021

Vacinação Covid 19


Tive 2 convocatórias para a mesma hora, em centros diferentes de vacinação. Ordeiramente, fui pela última.
A vigilância estava garantida pela idosa que, imóvel, no seu roupão branco até aos pés, espreitava pela fresta da varanda do 3º andar, com vista para o centro de vacinação do Cerco do Porto.
Já a segurança estaria a cargo do “segurança” que, de pernas abertas, limitava a entrada dos candidatos à vacina, não fora este estar só ali a substituir um colega e não ter nada a ver com aquilo, porque ... ele nem era dali…
Por isso, quando lhe perguntei como devia proceder, limitou-se a dizer que só abria às 8.30.

Mas não havia problema porque a dúzia de pessoas que já estava à porta, cofiando os seus telemóveis e escrutinando por cima dos óculos quem ia chegando, foi logo dando ordens, em tom bem alto e de modo a não deixar margem para dúvidas: - Oh menina! Tem que saber quem é o ultimo!
Ainda arrisquei dizer que todos teríamos hora marcada, mas o ambiente não era propício a ser perturbado por qualquer argumento lógico. Mesmo assim, estava lançado o mote para discursos sobre a falta de organização e os problemas a que cada um tinha assistido em anteriores idas ao centro de vacinação, suponho eu, para espiar, pois íamos todos à primeira dose. Destacava-se, pelo vozeirão, um homem de casaco acetinado preto que, prudentemente, se havia munido de um banquinho desdobrável, não fosse o tempo de espera, em pé, ultrapassar a resistência das suas robustas pernas.

Atrás de mim dois homens mediam-se mutuamente, não já pelos atributos da natureza, performances de caracter sexual ou pela extensão da calvície, como seria de esperar, mas pela comparação da idade e da hora da marcação da vacina:
- O senhor tem prá i 70 anos!? 
- Nãaaao! Tenho 67. E sem doenças! Podia ter doenças, mas não tenho!
- Eu vou fazer 71 e estou para as 8.33!
- Que raio de hora…

Após a abertura dos portões exteriores a acumulação passou para a porta do centro onde as vozes se começaram a elevar…
-Eu estou para as 9h e já aviso que ninguém passa à minha frente…
-Olhem para aquilo …que pouca vergonha…
E o tal segurança não tinha mesmo nada a ver com o que ali se passava e só queria ir para casa.

Quando me apresentei com a minha convocatória à recepcionista, ouvi um “esta não está na lista” e, quando lhe mostrei o telemóvel com a mensagem, disse bem alto que sabia ler e que eu tinha que ir embora.
Até fiquei aliviada. Fui para o outro centro de vacinação para onde tinha sido convocada antes e tudo decorreu com a normalidade que é de esperar, quando não se vai predisposto ao conflito.

Vacina tomada apanho o táxi à porta e o taxista entabula a conversa com um – “Então já tomou a vacina?”
- É verdade…tem que ser…chegou a minha vez…
É então que, despudoradamente, pergunta:
- A senhora quantos anos tem?
- Tenho 68.
- Ahh!, disse ele, num suspiro contido e quase desiludido. - Eu tenho 66! Deve estar a chegar a minha vez…

Os que desconfiam do sistema mantêm-se vigilantes! Onde é que alguma vez um taxista perguntou a idade a uma cliente!!!!

Texto de M.H.S.Gomes

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Sereias



Gosto de estórias filtradas pelos olhos de um bom observador. “A história da Sereia” de Gonzalo Torrente Ballester, foi a última que li. Tem por base relatos antigos da família Mariño de Vilaxoan, nas margens da Ria de Arousa, na Galiza. Uma "racionalização" das populações de marinheiros, pescadores e das zonas ribeirinhas, para justificar os afogamentos frequentes.

Transcrevo um pouco do seu início:

“E esta história é, nada mais nada menos que a seguinte, quer o meu amigo acredite, quer não acredite nela: por volta do ano mil, segundo a tradição ou certos cálculos, um cavaleiro com esse nome de Mariño caminhava ao pé do mar, quando uma inesperada escorregadela ou outra causa qualquer o precipitou nas agitadas ondas, de que não teria podido livrar-se, armado como ia e lerdo na natação (que não no pelejar, como é óbvio), se não estivesse por acaso à coca por aquelas paragens a Sereia de Finisterra, a tão sinistramente reputada, que acorreu rápida em seu socorro e que, tendo visto de perto o belo rosto e o bem trabalhado corpo do desmaiado náufrago, concebeu por ele uns amores tão súbitos que o levou para o seu antro e o conservou como amante durante bastantes anos; e aí teria morrido o cavaleiro, de pura velhice, não fora os filhos havidos desse vínculo, que eram quatro, excelentes embora nas artes natatórias e piscatórias, ignorarem tudo da cavalaria e da espada, pelo que o pai pediu à Sereia que os deixasse levar a terra levando-os consigo para lhes dar educação cabal, ao que ela respondeu que sim, que estava bem, que os levasse e fizesse cavaleiros, mas com o compromisso de que, a cada geração, levaria um descendente para as suas necessidades particulares, e que esse destino singular se reconheceria pela cor azul dos olhos ou pelas escamas de peixe que o destinado haveria de ter nas coxas. E sucedeu, desde então, que todos os Mariños da costa, azuis dos olhos ou escamados das pernas, desapareceram no mar.

terça-feira, 27 de abril de 2021

Infernos

 


A filha de uma amiga minha, de três anos, diz que tem pena do Diabo porque ninguém gosta dele. Condói-se com aquela segregação, enquanto eu, que sei que ele não é um, mas legião, quero é vê-los a milhas.
A gente morre e fica à mercê do local onde está. Se somos acometidos por uma morte súbita, com um pecado mortal e sem tempo para um arrependimento, lá se vai uma vida de grande dignidade. Se estivermos em meio protestante, aí é a balança do deve e haver que conta, mas o castigo é sempre "eterno", o que é um grande problema, pois, quando à alma só é dada uma vida, o Inferno é o poiso para a maioria da população.
O nosso Inferno (que é o de Dante) fica no interior da terra e tem nove círculos. O mais periférico é o limbo e está reservado para as crianças não baptizadas e para os pagãos virtuosos. O próximo é para os adúlteros, depois veem os glutões, a seguir os avarentos, os coléricos, o sexto é para os heréticos, o sétimo para os assassinos, suicidas e sodomitas, o oitavo para os corruptos e o nono para os traidores.

O Inferno no Alcorão é mais pequeno. Tem sete níveis, cada um para um grupo específico de pecadores. Também é à base de fogo ardente e água fervente, mas está vazio. Os mortos estão todos a aguardar o dia do Juízo Final, quando serão ressuscitados e reunidos perante Alá, onde testemunharão contra e a favor de si próprios e, só então, aqueles que tiverem obrado melhor, irão para o Paraíso e os que tiverem obrado pior ou simplesmente descreram ou renegaram Alá, serão conduzidos ao Inferno onde queimarão vivos para sempre.

Os gregos de há 3.000 anos eram mais modernos. Acreditavam na "reciclagem" das almas. Uma alma tinha muitas vidas. Morria-se e ia-se para o Hades “descansar” e, na altura própria, atravessava-se o rio do esquecimento (rio Lethes) e voltava-se à terra para outra vida. As almas não se lembravam do que sabiam, embora se alguém se esforçasse numa introspecção de grande intensidade a que chamavam “anamnesis”, podia acontecer que se recordasse do que a sua alma já tinha vivido noutras vidas e ficasse sábio

Os Hindus, também reciclam. Se um paisano nasceu numa família de criminosos ou de párias é porque na vida anterior foi um canalha e agora tem de se esforçar para que na próxima lhe caiba em sorte qualquer coisa de melhor, mas para se chegar a “brahman”, no topo da sociedade das castas, são precisas várias vidas de grande honestidade e ciência. Embora recicladas, as almas enviadas de regresso à Terra também estão sujeitas à lotaria de soluções dependentes dos humores dos seus inúmeros deuses que nem sempre são justos, sem que haja tribunal de segunda instância a quem recorrer.

E eu, que me preocupo com o sofrimento das almas, não acredito que nenhum destes Infernos corresponda à realidade. Aquele que me parece mais credível é o que junta o Inferno no Além com os tormentos passados por cá, como tão bem descreve Gustavo Pacheco no livro “Alguns humanos”, num episódio passado num Inferno chinês.

"Contam os sábios tibetanos que o Inferno é dividido em 18 departamentos, dos quais oito insuportavelmente frios e dez insuportavelmente quentes. Esta história começa num dos departamentos menos quente, onde dois condenados puxam uma carroça cheia de blocos de pedra. Um tinha sido um salteador que assaltava caravanas nas estepes de Changtang, e era forte como um touro. O outro, magro e esquálido, tinha sido monge no mosteiro de Takpu, em Naksho Driru, e foi parar ao Inferno porque se esmerava em exigir dos outros o comportamento que ele mesmo nunca conseguira ter.
Os dois infelizes esforçam-se para fazer avançar a carroça, mas a coisa vai mal. A todo instante o monge tropeça e cai, exausto, e o seu companheiro é obrigado a parar para ajudá-lo, interrompendo o trabalho. As pedras são usadas para construir novos alojamentos para os recém-chegados ao Inferno, que nos últimos tempos tem recebido cada vez mais gente. Não há moradias para todos e o Rei Sinje, o Senhor dos Mortos, ordenou que os condenados trabalhassem a dobrar para reduzir o défice habitacional. Os capatazes estalam os seus chicotes de fogo nas costas do monge, urram e gritam, mas ele mal se consegue mexer, coberto de sangue e poeira.
Atormentado com tanto ver o seu companheiro sofrer, o ladrão deixa de puxar a carroça e fica em silêncio, inerte. O capataz com cabeça de cachorro, aproxima-se e ameaça-o com um porrete cheio de pregos. O ladrão diz que só voltará a trabalhar se soltarem as correntes que prendem o seu companheiro à carroça, pois assim ele poderá puxá-la sozinho e tudo andará mais rápido. O capataz, enfurecido, grita que não recebe ordens de condenados, e esmaga o crânio do ladrão com o porrete.
Como se sabe, no Inferno tibetano a danação não é eterna. Lá, é possível morrer e renascer noutro lugar. E é exactamente o que acontece com o ladrão, cuja compaixão faz com que ele reencarne com o nome de Li Xun, numa pequena aldeia no sul da província chinesa de Quinghai.
Como ele ainda tem muitos crimes para purgar, o destino se encarrega de que ele se torne um burocrata e leve uma vida enfadonha e repetitiva."
… … …

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Não é fácil!

 


“Não é fácil! Parece fácil, mas não é fácil!” diz com ar apatetado, quando é apanhado a espreitar o trabalho dos enfermeiros e dos fisioterapeutas nas enfermarias.

É um dos muitos casos em que, depois de resolvida a doença aguda que o levou a uma Urgência, permanecem nos hospitais e nas Unidades de Cuidados Continuados, à espera de uma solução que os tire do trilho de décadas de más escolhas. Sem ascendentes vivos ou descendentes, só lhe resta uma irmã cansada de lhe tentar dar rumo à vida. Aguarda “vaga de emergência social” numa ERPI (Estrutura Residencial para Pessoas Idosas), a nova nomenclatura para designar o que anteriormente denominávamos Lar de Terceira Idade, embora tenha bem menos de sessenta anos. Entretanto deambula pelas enfermarias e pela sala da televisão e, se tem oportunidade, deita a mão ao que julga ter alguma utilidade futura.

Se Educação é aquilo que aprendemos com os nossos pais, quando eles não nos estão a ensinar nada, ele parece educado. Isto é, habitualmente não é agressivo, está atento ao que se lhe diz, pede por favor e agradece o que se lhe dá, sem, no entanto, ser capaz de uma conversa com princípio, meio e fim, refugiando-se sistematicamente na primeira resposta jocosa que lhe vier à cabeça. Noutro tempo e noutras circunstâncias, talvez fosse menos reverente e fizesse coro com aqueles que, nas redes sociais, põem em causa tudo e todos, lembrando o aforismo do “Quanto mais longe te vejo, mais franco te falo!”, que é o que mais se lê nos comentários, mas, como hoje não sabe nem pode, fica-se pela oralidade contida, sem qualquer preocupação com os “likes”.

Tem uma demência dependente do álcool e das várias quedas que foi dando ao longo dos anos. O vinho arruinou-o e desfez-lhe os laços sociais. Ainda lembra os parceiros dos copos com quem partilhou mesa, festas e histórias, e alardeia os excessos e as picardias, no meio de um discurso confuso e confabulatório.

Está à espera que a Segurança Social se lembre dele e lhe dê um lar definitivo.
Parece fácil, mas não é fácil!, digo eu também, a pensar no trabalho que dá quem está longe da realidade e sempre à espera de voltar onde “já foi feliz!”.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Árvores Classificadas


Vai para lá de trinta anos, quando os meus filhos eram pequenos e tínhamos de fazer longas viagens, um dos jogos que servia para os entreter, era identificar uma marca de automóvel com os que nos cruzávamos. - Vamos ver quem vê mais Volkswagens!, e tínhamos distração para uma boa meia hora, longe das quezílias que um pequeno espaço sempre desperta.

Mais tarde, com eles mais crescidos, alterámos e jogo e passámos a identificar árvores. – Vamos ver quem vê mais araucárias, daqui até casa!. Podiam ser tílias, plátanos, palmeiras, choupos ou outra qualquer, dependendo do percurso. Comprei um livrinho que permitia identificá-las pelo aspecto geral, pelas folhas e pelo tronco e pu-lo no carro para as dúvidas e, muitas vezes, nas minhas andanças a pé por Viana do Castelo, levava-o para reconhecer o que por lá havia no espaço público e dentro dos jardins.
A princípio eles chamavam a tudo plátano ou cedro, mas aos poucos começaram a nomear cupressus, tuias, bétulas, lódãos, os diferentes tipos de carvalho, salgueiros, amoreiras… e por aí afora, e ao fim de alguns meses já me perguntavam se eu sabia onde é que havia esta ou aquela descoberta que haviam feito. Desde então conhecem os seus diferentes ciclos de vida e respeitam-nos e se sabem que há uma centenária nas imediações correm a vê-la.
No outro dia, alguém que conhece este meu gosto por árvores, perguntou-me se conhecia, em Carreço, alguma que merecesse referência pelo seu porte ou longevidade. Alguma que pudesse ter honras de ser “classificada” como já o foram a magnólia do mosteiro de Cabanas ou o cupressus da igreja de Afife.
Dei várias voltas pela aldeia a espreitar o que por cá havia. Vi uns pinheiros mansos com algum porte a indiciar umas décadas bem puxadas, mas fiquei-me por aí. Tudo o resto me pareceram árvores com menos de 50 anos. Depois fui espreitar aos jardins da aldeia do lado, onde há muitos residentes e segundas casas de estrangeiros e, no que é possível identificar da rua sugere outra sensibilidade ou outro desafogo que não obriga a olhar só o imediato.

domingo, 18 de abril de 2021

A Universidade da Vida


Quando me contaram que ela punha nomes de pessoa às galinhas e que depois as não conseguia matar, sorri, pois também eu não me imaginava a comer um ser com direito a nome próprio e a um histórico. Só lhe aproveitava os ovos e deixava-as morrer de velhas, incapaz de petiscar a Madalena, a Alice ou a Etelvina. 

Mais tarde associei esta história a uma outra em que, nalgumas comunidades com grande mortalidade infantil, as crianças só recebem o nome com vários meses de vida, como se fosse ele a dar-lhes direito a cidadania e não o nascimento. Por fim, dei por mim a magicar em que se não conseguirmos nomear as coisas, sejam elas animadas ou inanimadas, não as respeitamos.

Se olharmos em volta e só virmos “pardais”, então, tudo é “praga”, como aconteceu com Mao Zedong quando, em 1958, ordenou que se matassem todos eles, por comerem "demasiados grãos", o que causou um dos maiores desastres ecológicos da História. A população mobilizou-se, destrui ninhos e fez barulho continuado para os assustar e os impedir de pousar, até morrerem de exaustão. Nos três anos seguintes morreram 45 milhões de chineses de fome, devido aos erros económicos, ao desastre ambiental e ao estado de terror. É que passarinhos há muitos. Os que comem grãos, os que comem insectos e os que nos livram do que por aí morre, impedindo que as verdadeiras pragas se estabeleçam. A “inteligência” da nomenclatura comunista chinesa ao “cortar a direito” esqueceu-se que é na diversidade que se encontram soluções e não na monotonia do “faz como te digo e dá ao diabo o que pensas!”

Mas para ter opinião válida é preciso estudar. Não chega o que se aprende na “Universidade da Vida”. Se o berço for bom, talvez nos faça gente educada e respeitadora de valores, mas instrução (conhecimento, ciência, erudição, …), há que ir buscá-la onde houver o “saber”: às escolas, aos livros, às palestras, na Net, porque não?, mas nada como ter um bom professor que nos oriente e nos abra os olhos para o que está à nossa frente e não conseguimos ver, porque não o conseguimos nomear.

Amén

terça-feira, 23 de março de 2021

segunda-feira, 22 de março de 2021

Multas


-“Eu não pago multas!” 
-“Como é isso??”, pergunto incrédulo, àquele meu amigo que só vejo de onde em onde. 
-“Não pago porque eles andam numa caça à multa desenfreada!”, conclui energicamente, ciente das suas razões. 
Ainda descrente de que ele esteja a falar a sério, arrisco nova pergunta. –“E que multas é que te passaram?” 
-“Uma foi por ter deixado passar a data da inspeção do automóvel e a outra foi por ter um à venda com um letreiro na estrada.! Estás a ver, eu não tinha onde o pôr! Como não soube que tinha terminado a prorrogação por causa do Covid, escrevi para lá duas cartas. Agora eles vão andar às voltas com aquilo uma série de tempo e, ao fim de um ano a passear pelas gavetas, vai prescrever!”

Conheço-o há muitos anos e não o tenho por “louco” a armar-se em herói. Se o faz é porque tem uma boa dica de quem sabe como as coisas por lá funcionam. 

Jair Bolsonaro, o presidente do Brazil, ameaçou o Supremo Tribunal Federal, em maio de 2020, dizendo que “ordens absurdas não se cumprem!”, autorgando-se a autoridade para definir o que é absurdo. Por aqui, o chico-esperto joga no entupimento do sistema, pois não seria a primeira vez que a Assembleia da República retira uma lei, num esquema muito terceiro-mundista de esperar para ver se “a lei pega!”. Entretanto o cidadão cumpridor, quando falha, é punido.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Bairrismos

Há uma boa década ouvi, num programa da TV, uma actriz indiana “glorificar” Calcutá por ser uma cidade onde era possível encontrar pessoas a viver em vários séculos - do século XII ao XXI. Tal deu-me para pensar que em Portugal também há gente a viver sem se adaptar às grandes mudanças que a nossa sociedade sofreu nos últimos 50 anos e teima em “dançar com fantasmas” agarrada a ideias e situações que já não existem e só como história têm utilidade.

O mundo tem mudado a um ritmo difícil de acompanhar. A Inteligência Artificial e a Robótica vieram para ficar e vão obrigar-nos a rever comportamentos para que possamos viver em paz uns com os outros e com a natureza.
O que há bem poucas décadas se podia fazer sem constrangimento, pode hoje ser inadequado e até severamente punido. Em 1950 poucos falavam em pedofilia, violência doméstica, racismo, igualdade de género, bulling, impacto ambiental, e por aí fora. A população mundial era então de cerca de 2,5 biliões e a mobilidade reduzida. Em 2020 era o triplo - 7,8 biliões “globalizados”, a viver mais e melhor. Tal só é possível graças à enorme evolução tecnológica em todas as áreas, pese embora os inúmeros problemas que ela própria levanta, nomeadamente em relação à poluição.
O “comboio dos combustíveis fósseis” que foi posto em velocidade de cruzeiro neste período, é difícil de abrandar sem graves consequências para a economia. O Mundo acordou para o problema e iniciou alternativas à medida que as soluções se foram tornando mais seguras e economicamente rentáveis, atento aos acidentes de percurso para não desanimar com as vozes de quem fala saudoso do “antigamente”, esquecidos da sardinha para três, do trabalho de sol a sol, da falta de um SNS e de uma Segurança Social, que em fim de vida levava o pouco que se tinha poupado na vida activa.

Em Portugal há quem ainda viva no início do século XX, “pessoas boas” com fortes valores de solidariedade e que necessitam de ajuda para viver neste mundo digital, mas também cá estão uma meia dúzia de “velhos do Restelo” de mentalidade pequenina e olhar enviesado, a tentar “desacreditar” qualquer alteração ao que pensam ser uma ameaça aos seus interesses imediatos.
A população portuguesa (e a mundial) tem hoje grande mobilidade. Nasce-se num lugar, vive-se e trabalha-se onde há emprego e, com alguma sorte, vai-se morrer à terra de origem. É possível ir para Leiria vender seguros para toda a Europa, ir para um Call Center na Irlanda resolver problemas em Portugal, ou contratar italianos para trabalhar na WestSea em Viana do Castelo.

Linguagem discriminatória não é bem-vinda nos tempos que correm e é bom que os “bairrismos” se moderem para não serem considerados agressivos em relação a quem é excluído.
Se o Homem é hoje o ser mais importante na Terra, foi por ser capaz de colaborar com quem não conhece, debaixo de uma mesma bandeira, seja ela um país ou uma empresa. O “chico-esperto” armado de “razões” não ajuda nada, porque “Razões para explicar qualquer coisa nunca faltaram, mesmo não sendo as certas!”. Lembra-me o que li n"O Filomeno” de Gonzalo Torrente Ballester - -“Você tem razão, mas não a tem toda, e a pouca que tem, não lhe serve para nada!”

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Carvalhos centenários

Em 16/02/2021 dei com esta notícia no Guardian: Para restaurar o pináculo de 96 metros da Catedral de Notre Dame, destruído no incêndio de 2019, serão necessários mais de 1000 carvalhos com idades entre 150 e 200 anos. 
Os peritos franceses decidiram reconstrui-lo exactamente como era. 
As árvores deverão ser direitas, ter entre 8 e 14 metros de altura e entre 50 e 90cm de diâmetro. Devem ser cortadas até ao fim de Março, para que a madeira não fique muito húmida. Depois de cortada, as vigas serão deixadas a secar durante 18 meses. O artigo refere que só se irão utilizar árvores de florestas de produção, não de exemplares protegidos ou em áreas de conservação. 

Apesar de não ser comum, é notável haver em França zonas florestais de produção para construção com mais de dois séculos. Nos comentários a esta notícia leio: A silvicultura de longa rotação continua a ser largamente ignorada em Portugal. 

Em França, o valor/m3 da madeira de carvalho (antes do corte) pode atingir cerca de 270-390 Euros em troncos com diâmetro à altura do peito de 50-70cm. Em locais apropriados com condução adequada podem-se atingir fustes com essas características num arco temporal de 100-120 anos. 

Para a maioria dos portugueses a noção de plantar para os netos é uma loucura. 
Num carvalhal, a periodicidade de ocorrência de incêndios, embora maior nas primeiras décadas, decai à medida que ele se vai estabelecendo e ensombrando o sub-bosque, especialmente se forem feitos os desbastes e as desramas. 
A vantagem das longas rotações é a de poder executar os cortes de acordo com a valorização do mercado e os retornos intermédios provenientes dos desbastes cíclicos. 

Urge uma política de incentivos para que o pequeno proprietário invista em autóctones. 
Quando nascemos recebemos um património arbóreo, algum dele com centenas de anos. É bom que nos lembremos que as gerações vindouras também têm direitos semelhantes.

Há pouco mais de 1 mês vi, aqui em Carreço, um TIR carregado com carvalhos que penso serem centenários. Espero que não sejam substituídos por Eucaliptos e pinheiros bravos.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Sibarita




No dicionário: relativo ou pertencente à antiga cidade de Sybaris ou pessoa que é dada à indolência, ao luxo e aos prazeres físicos.

Sybaris fundada em 720 (AEC - antes da Era Comum), foi uma cidade importante da “Grande Grécia”, o que os historiadores romanos chamavam às zonas costeiras do sul de Itália e da Sicília, onde os gregos haviam fundado colónias. Estava situada no Golfo de Taranto, no sul de Itália, entre os rios o Crati e o Coscile
Dispunha de grande riqueza, graças à terra fértil e ao seu movimentado porto, e os seus habitantes ficaram famosos entre os gregos pelo seu hedonismo, festas e excessos, pelo que o termo sibarita ficou sinónimo de quem vive na opulência, luxúria e na procura ostensiva de prazer. Para que o ruido não perturbasse a sua tranquilidade, proibiam dentro da cidade ferreiros e carpinteiros e também os galos. Para maior comodidade dos seus intermináveis banquetes inventaram os urinóis e as banheiras.

In 510 AEC a cidade foi conquistada pelos seus vizinhos e, segundo a lenda, “como haviam ensinado os seus cavalos a dançar ao som da flauta, tiveram de presenciar, impotentes, o avanço do inimigo enquanto as suas montadas dançavam ao som da música que aquele exército tocava”.
De acordo com o relato de Estrabão, os crotoniatas, uma vez tomada Sybaris, desviaram o curso do rio Cratis para a apagarem do mapa. As ruínas do que havia sido uma das cidades mais importantes do mundo grego, foram localizados na década de 1960, debaixo de quatro metros de depósitos aluviais.

Ficaram na História para exemplo de quem não se sabe moderar quando a sorte o bafeja e cai em desmesura, atraindo a desgraça.  

Ouvi pela primeira vez esta palavra da boca do meu avô paterno, quando na adolescência não seguia as suas sugestões, que só entendi a utilidade décadas depois, quando interiorizei os seguintes princípios da filosofia estoica: A virtude é o único bem e caminho para a felicidade; Devemos sempre priorizar o conhecimento e agir com a razão; O prazer é um inimigo do homem sábio; As atitudes têm mais valor que as palavras; Os sentimentos externos tornam o homem um ser irracional e não imparcial; Não se deve perguntar porque algo aconteceu e sim, aceitar sem reclamar, focando apenas no que pode ser modificado e controlado naquela situação; Agir de forma prudente e assumir a responsabilidade sobre os seus atos; Tudo ao nosso redor acontece de acordo com uma lei de causa e efeito; A vida e as circunstâncias não são idealizadas. O indivíduo precisa conviver e aceitar a sua vida da forma que ela é.



sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

O Tigre Branco

Em Janeiro de 2010 fiz um post sobre O livro “O Tigre Branco”. Hoje faço um sobre o filme baseado naquele livro, que teve estreia recente na Netflix.

É uma história na Índia, um dos BRICS (Brazil, Russia, India, China, e South Africa), país com 1366 milhões de habitantes, com múltiplas etnias e crenças, onde o conceito das castas ainda prevalece e onde muitas multinacionais que ali se estabeleceram, acentuaram a já intensa desigualdade social.

É uma história sobre a pobreza e sobre a riqueza. Uma história que o livro conta muito melhor que o filme. 
Vejam o filme, mas não deixem de ler o livro.



sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Confinado



Na "linha de trás", a ouvir nas notícias as dificuldades de quem não teve sorte e as queixas de quem faz prova de vida para receber os benefícios que o Destino lhe concedeu, dou graças por não estar na "linha da frente" onde estive mais de 40 anos.

Passadas as Trumpalhadas e na obrigação de ficar em casa, face ao acentuado crescimento de Covid em Portugal, viro-me para os trabalhos manuais, que a passarada também precisa de atenção.

Hoje, estes paus destinados à lareira, foram para duas residências, que o Inverno anda frio e manda que em janeiro sete casacos e um sombreiro. Amanhã virão outros, já que os comedores ainda não têm plano de confecção.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Razões


 ... mas há razões. Se as procurarmos encontramo-las sempre. Razões para explicar qualquer coisa nunca faltaram, mesmo não sendo as certas. São os tempos que mudam, são os velhos que em cada hora envelhecem um dia, é o trabalho que deixou de ser o que havia sido, e nós que só podemos ser o que fomos, de repente percebemos que já não somos necessários no mundo, se é que alguma vez o tínhamos sido antes, mas acreditar que o éramos parecia bastante, parecia suficiente, e era de certa maneira eterno pelo tempo que a vida durasse, que é isso a eternidade, nada mais que isso.

...

in "A Caverna" de José Saramago