sexta-feira, 29 de maio de 2026

O meu pai e a Mina de Neves-Corvo

 


O homem por detrás da anomalia gravimétrica de Neves-Corvo

Quando se fala da descoberta da Mina de Neves-Corvo, é frequente encontrar referências vagas a “equipas do Fomento Mineiro” ou a “campanhas geofísicas” realizadas na Faixa Piritosa Ibérica durante os anos 70. Raramente surge um nome concreto associado à definição da anomalia gravimétrica que levou às sondagens decisivas.

Contudo, importa recordar o papel do engenheiro de minas AlbertinoAdélio Rocha Gomes, então engenheiro-chefe da Brigada do Sul do Serviço de Fomento Mineiro.

Foi sob a sua orientação técnica que se desenvolveram trabalhos de prospeção geofísica e geoquímica no Baixo Alentejo, incluindo a identificação da anomalia gravimétrica que viria a conduzir à descoberta do jazigo de Neves-Corvo — uma das mais importantes descobertas mineiras europeias do século XX.

A tendência da historiografia mais divulgada tem sido atribuir a descoberta a entidades coletivas — Fundo Mineiro, Serviço de Fomento Mineiro, equipas de prospeção ou empresas internacionais que mais tarde participaram no desenvolvimento do projeto. Embora isso seja parcialmente correto, corre-se o risco de apagar o papel determinante dos técnicos portugueses que trabalharam no terreno durante décadas.

O próprio LNEG – Laboratório Nacional de Energia e Geologia, ao assinalar o falecimento de Albertino Adélio Rocha Gomes, reconhece explicitamente a importância do seu trabalho na prospeção mineira da Faixa Piritosa Ibérica e nas descobertas daí resultantes.

A história da mineração portuguesa faz-se também destas figuras discretas: engenheiros, geólogos e geofísicos que, longe dos holofotes, interpretaram sinais ténues no subsolo e abriram caminho a descobertas de enorme impacto económico e científico.

No caso de Neves-Corvo, a anomalia gravimétrica teve um rosto: o do engenheiro Albertino Adélio Rocha Gomes.

A importância económica da Mina de Neves-Corvo para Portugal

A descoberta da Mina de Neves-Corvo representou muito mais do que um êxito geológico. Foi um dos mais importantes acontecimentos económicos do interior português nas últimas décadas.

Quando o jazigo foi identificado, em 1977, Portugal atravessava ainda um período de grande fragilidade económica e tecnológica. A confirmação da existência de enormes reservas de cobre, zinco e estanho colocou o país no mapa mundial da mineração moderna. O jazigo de Neves-Corvo viria a ser considerado um dos mais ricos depósitos de sulfuretos maciços da Europa e um dos mais importantes do mundo em teor de estanho.

A exploração industrial iniciou-se em 1988, através da SOMINCOR, numa parceria inicial entre o Estado português e a Rio Tinto. Desde então, a mina tornou-se um dos maiores polos exportadores nacionais e um dos principais motores económicos do Baixo Alentejo.

O impacto económico foi profundo em vários níveis.

Em primeiro lugar, pelo emprego. Numa região marcada pela desertificação humana e pela escassez de indústria, a mina criou milhares de postos de trabalho diretos e indiretos. Ao longo dos anos, sustentou não apenas mineiros, engenheiros e técnicos especializados, mas também empresas de transportes, metalomecânica, manutenção, restauração e serviços associados. Algumas estimativas apontam para cerca de cinco mil empregos dependentes, direta ou indiretamente, da atividade mineira.

Em segundo lugar, pela riqueza criada localmente. Castro Verde passou a apresentar indicadores de poder de compra invulgares para um concelho do interior alentejano, ultrapassando mesmo várias capitais de distrito. Os salários relativamente elevados do setor mineiro transformaram profundamente a economia local.

Mas a importância de Neves-Corvo ultrapassa largamente a dimensão regional.

A mina tornou-se uma infraestrutura estratégica nacional. O Ramal Ferroviário de Neves-Corvo ligou diretamente a exploração aos portos portugueses, facilitando exportações minerais de elevado valor acrescentado.

Além disso, Neves-Corvo ajudou a preservar em Portugal competências técnicas altamente especializadas nas áreas da geologia, engenharia mineira, geofísica e metalurgia. A exploração exigiu tecnologias modernas de mineração profunda, tratamento mineral e gestão ambiental, contribuindo para a modernização do setor mineiro português.

Também no plano financeiro a mina teve enorme relevância. Ao longo de décadas gerou exportações significativas de cobre e zinco, atraiu investimento estrangeiro de centenas de milhões de euros e reforçou a balança comercial portuguesa. Diversas expansões da mina implicaram investimentos muito elevados destinados a prolongar a sua vida útil e aumentar a produção.

Por fim, Neves-Corvo teve um significado simbólico importante: demonstrou que o interior português podia albergar projetos industriais de dimensão internacional, tecnologicamente sofisticados e economicamente sustentáveis.

Tudo isto começou com uma anomalia gravimétrica identificada por técnicos portugueses do Serviço de Fomento Mineiro — entre eles o engenheiro Albertino Adélio Rocha Gomes — num tempo em que poucos imaginavam a riqueza escondida sob o subsolo alentejano.

Parte superior do formulário

 

Parte inferior do formulário

 

terça-feira, 19 de maio de 2026

Viajantes

Hoje em dia, em Portugal, quase todos viajam. Em serviço ou por lazer, as estradas andam cheias de automóveis e, pelo ar, quase não há gato-pingado que não tenha ido à Polónia, a Paris ou a Cabo Verde, à boleia dos “low cost” da EasyJet e da Ryanair.

No tempo da outra senhora, ir ao “estrangeiro” era assunto para meses de conversa. A novidade fazia do viajante uma pessoa importante, mesmo que a viagem pouco lhe tivesse acrescentado.

Corria então uma anedota sobre um paisano que regressara de uma longa volta pela Europa até ao Egipto. No café, perguntavam-lhe o que mais o impressionara. Falava das italianas, das gregas, das alemãs, sempre com entusiasmo crescente, até que alguém lhe perguntou:

— E as pirâmides?

Ele hesitou um instante, como quem revira gavetas na memória, e respondeu:

— As pirâmides? Ah… as pirâmides são umas putas!...

Foi isto que ele viu do mundo.

A história sempre me pareceu menos caricatura de um homem do que retrato de muitos viajantes. Conhecem aeroportos, hotéis e restaurantes, acumulam fotografias e carimbos no passaporte, mas regressam praticamente iguais ao que eram quando partiram.

Talvez por isso olhe com algum cepticismo para esta necessidade moderna de colecionar países. Há quem percorra o mundo como outros colecionam caricas: o prazer parece estar menos na descoberta do que na contabilidade.

Viajar a sério dá trabalho. Obriga a ler antes de partir, a perceber a história dos lugares, a prestar atenção ao que não está exposto para turista ver. É mais fácil circular pelas ruas, absorver um ambiente vago e regressar com a ilusão de ter conhecido um país.

Às vezes olho o céu riscado pelos jactos que passam continuamente sobre nós e pergunto-me que utilidade tira o mundo de tão incessante movimento. Meio mundo corre de férias para o outro meio, muitas vezes em busca de qualquer coisa que talvez existisse já ao pé da porta.

E, no entanto, suspeito que isto não seja apenas frivolidade. Há no homem uma inquietação antiga, quase peregrina, uma necessidade persistente de abandonar o lugar onde está, como se algures, sempre mais adiante, pudesse encontrar qualquer coisa que não sabe bem o que é.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Frase do dia


Ninguém sabe nada de si, antes da acção em que tiver de empenhar-se todo!

In "Deste mundo e do outro" de José Saramago 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Sessão de Desenho de 24/03/2026


















 17 desenhos em 2h, com alguns retoques (poucos) em casa.

domingo, 8 de março de 2026

Eu e os gatos



Gatear é uma arte quase perdida. 

Hoje em dia, quando vaso parte, vai para o lixo. Mas aqui vai-se dando um jeito, para o vaso manter a funcionalidade a custo 0. 

sábado, 7 de março de 2026

A guerra USA-Irão

Estou cansado de ouvir tretas sobre os motivos desta guerra. É para libertar o povo de uma ditadura, é para libertar as mulheres da opressão, é por causa das armas nucleares e mísseis balísticos,  é por não gostarem de teócracias, é pelo raio que o parta, mas ninguém fala que é por causa da China.

Ninguém diz que o Irão a vender petróleo em yuans, e não em dólares, o que já acontecia na Venezuela, estava a dar tiros no estomago dos USA. 

Ninguém diz que Israel é o maior porta aviões dos USA, e ainda por cima inafundável! Ninguém diz que toda esta guerra visa tolher a economia chinesa e mais nada!

Não é Trump. É o Pentágono há décadas a planear o que se faz na Ucrânia, em Cuba, na Venezuela, no Brasil, no Iraque, na Síria, na Nigéria, etc..., para que os USA não caiam como caíu o Império Romano, com o qual mais se identificam. 

Os senadores de agora, vestem jeans em vez da toga, mas o "modus operandi" não mudou. 

E os Aiatololas, desde 1979, que andam a trilhar o caminho para afundar Israel, desvalorizando o poder dos judeus no mundo ocidental, o que me parece uma insensatez, que o povo iraniano não merecia!

segunda-feira, 2 de março de 2026

Sessão de Desenho de 24/02/2026


 













1




15 desenhos em 2 horas a deixarem-me exausto!







domingo, 22 de fevereiro de 2026

Virtude

 


Virtude é aquilo que fazes quando não está ninguém a olhar. Clive Staples Lewis (1898–1963) escritor, ensaísta e académico britânico


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Juventude



A juventude é uma coisa maravilhosa. Que pena desperdiçá-la em jovens.
George Bernard Shaw (1856 – 1950) dramaturgo.

Aquilo que mais admiro nos romanos é o desprezo absoluto que eram capazes de mostrar em relação ao culto da juventude.
Tom Holland (1968 - ....), historiador.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Sara

Sara a deixar-me agradavelmente surpreendido!
 Sara (7 anos)-volante. Carolina (11 anos)-base


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Informação assimétrica


Até que ponto deve o vendedor revelar informação ao comprador?

Diógenes da Babilónia (240 BC -150 BC) e o seu discípulo Antíparo de Tarso discutiram este dilema à luz da informação assimétrica. Imaginemos que um homem traz um grande carregamento de trigo de Alexandria para Rodes, num momento em que o trigo é caro nesta cidade devido à escassez e à fome. Suponhamos ainda que ele sabe que muitos outros navios zarparam de Alexandria em direção a Rodes com a mesma mercadoria.

Deverá informar os rodienses desse facto e vender o trigo a um preço justo, ou aproveitar a circunstância para o vender pelo preço mais elevado possível?

Diógenes defendia que o vendedor deveria revelar apenas o que o direito civil exigisse. Antíparo, pelo contrário, sustentava que toda a informação relevante deveria ser revelada, de modo que não existisse nada que o vendedor soubesse e o comprador ignorasse.

Taleb inclina-se para a ideia de que a política mais eficaz — e moralmente isenta de vergonha — é a transparência máxima, idealmente acompanhada até de transparência de intenções.

Mas surge a fratura ética quando o comprador é um “suíço”: o estranho, o distante, aquele em relação ao qual as nossas normas morais tendem a ser atenuadas ou mesmo suspensas. Exercemos as nossas normas éticas apenas até um certo limite de escala; a partir daí, elas deixam de funcionar.

É uma infelicidade estrutural, mas o geral acaba por matar o particular. Será possível ser-se simultaneamente ético e universalista? Em teoria, sim. Na prática, porém, sempre que o “nós” se transforma num clube demasiado grande, o sistema degrada-se e cada indivíduo começa a agir primordialmente em função do seu próprio interesse.

in "Arriscar a Pele - Assimetrias ocultas na vida quotidiana" de Nassim Nicholas Taleb

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Eleições



Os políticos de um país têm de ser capazes de dar passos visíveis na resolução dos problemas que vão sendo identificados, sabendo que haverá sempre uma parte da população negativamente afetada por essas medidas. Como é impossível “agradar a todos”, o melhor a fazer é resolver os problemas tentando minimizar os efeitos negativos sobre a população atingida. Minimizar não significa eliminar, pois, se essa fosse a intenção, nunca seria possível implementar coisa alguma.

Portugal enfrenta problemas crónicos, que os sucessivos governos têm evitado enfrentar por receio de que um aumento de impopularidade lhes faça perder as próximas eleições — e, consequentemente, os cargos de que depende a respetiva clique. 
Temos um país a envelhecer, sem solução eficaz para os idosos sem cuidadores familiares disponíveis e com rendimentos insuficientes para pagar uma ERPI (Estrutura Residencial para Idosos). 
Temos um SNS incapaz de lidar com os custos crescentes da Saúde, resultantes das maiores necessidades humanas e do preço cada vez mais elevado das terapêuticas sofisticadas. 
Temos um ordenamento do território incapaz de responder a incêndios, inundações, erosão costeira e à necessidade de criação de novas vias de comunicação. 
Vivemos num país onde a burocracia cresce em todos os setores, criando barreiras à resolução de pequenas dificuldades do dia a dia. 
Temos uma Justiça que, sob o pretexto das “garantias”, abre espaço à fraude mais descarada por parte de quem tem recursos financeiros. 
Temos um país pouco culto, onde grande parte da população é incapaz de compreender a complexidade de algumas soluções e se entrega com facilidade ao populismo das respostas simples. 

Sim! Precisamos de mudar! Mas não podemos saltar da frigideira para o fogo. 

Precisamos que os políticos estejam mais próximos, para que possam ser responsabilizados pela população. 
Precisamos que Lisboa deixe de ser o centro único, e que passemos a ter vários centros decisórios independentes — para a Saúde, a Justiça, a Segurança Social, o Ensino e a Gestão do Território.
Precisamos urgentemente de uma verdadeira “Regionalização”. 
Precisamos de responsabilizar os decisores e julgá-los quando for caso disso, sem permitir uma sucessão interminável de recursos, tratando o erro judicial do mesmo modo que se trata o erro médico.

Lisboa já deu provas de ineficiência na gestão do país. É tempo de pensar “fora da caixa”. É preciso que Lisboa deixe de sugar a “inteligência” e o poder económico de Portugal, para que se possam criar centros decisórios eficazes fora da sua tutela.

The way to get started is to quit talking and begin doing." - ... Walt Disney

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A vida em Alta Voz


Por prudência ou timidez, tento cumprir o lema “Low profile, high performance” (baixo perfil, alto desempenho). “Alto desempenho” é, para mim, o melhor desempenho de que sou capaz, o que me obriga a procurar um resultado que não me deixe desconfortável com a minha própria consciência, mesmo quando o custo pessoal ultrapassa o que seria razoável para muitos.

Não me seduzem elogios públicos e sinto até algum embaraço quando ouço alguém expor as suas fragilidades e erros em praça pública, ou gabar-se de vitórias individuais. São coisas que considero deverem ser guardadas para a nossa “tribo”, para o círculo de confiança. Diferente é quando falamos de vitórias integradas num esforço de equipa, onde o mérito é partilhado e o resultado é coletivo.

Mas neste novo mundo de “likes”, onde muitos se expõem na procura de uma aceitação que dê sentido à vida, surgem os influencers, sempre prontos a “vender” qualquer produto, seja ele um bem de consumo ou uma ideia. Não se coíbem, muitas vezes, de distorcer a verdade, de exagerar ou mesmo de inventar uma mentira, desde que a coisa “funcione” ou “não funcione” conforme lhes convém e lhes dê espaço de ação e visibilidade.

Quando eu andava no 7.º ano do Liceu, uma das cadeiras com prova escrita e oral no fim do ano era a OPAN – Organização Política e Administrativa da Nação. Estudava-se por um pequeno livro, com pouco mais de cem páginas. Um dia ouvi, da boca de um ou dois dos melhores alunos da turma, que “para OPAN não é preciso estudar; aquilo lê-se dois dias antes do exame e tira-se boa nota”. E eu acreditei.

Não estudei. Mas, uma semana antes do exame, peguei no livro para o “medir” e caí na realidade: memorizar as funções dos diferentes órgãos do Estado não era tarefa de dois dias. Li, reli, e segui por aí fora, angustiado, até ao dia da prova. Consegui tirar 13 valores, mas o maior ensinamento não foi a nota. Foi deixar de acreditar em quem empola capacidades e minimiza o esforço, por passar a duvidar de que o seu propósito seja apenas serem “os melhores”, mesmo que isso implique fazer os outros tropeçar.

Os influencers pertencem, muitas vezes, a essa mesma classe de ilusionistas. Usam uma linguagem apelativa, emocional e simplificadora, que leva os crentes a “entrar na onda” em benefício deles próprios. A lógica é antiga, apenas mudou o palco.

A verdade é simples:
“Quem sabe, faz. Quem não sabe, fala para as multidões.”

Ensinar exige proximidade, responsabilidade e compromisso com a verdade. Exige acompanhar, corrigir, escutar e responder. Os influencers, em regra, não ensinam: seduzem. Não formam: atraem. Não constroem: exibem.

E talvez por isso eu continue a preferir o silêncio do trabalho bem feito ao ruído da vida em alta voz.

domingo, 18 de janeiro de 2026

A Esperança - 2


Sempre me preocupou o modo como a Esperança é gerida, principalmente pelos médicos e pela religião, embora o dia de hoje esteja dominado pela sua gestão na política, com a eleição de um novo Presidente da República Portuguesa.
«Dá o que não é teu! Promete o que não tens! E... perdoa a quem não te fez mal!» — este é o lema de alguns candidatos. Outros fundamentam-se na obra feita, esquecendo uma outra máxima que diz: «Basta de realizações! Queremos promessas!»; e assim vamos indo, à espera dos resultados da primeira volta.
Entretanto, vou continuando a ler as crónicas de Rubem Braga e tropeço num texto de 1949, onde a esperança é abordada do jeito que melhor conheço: na saúde. Diz o cronista, no seu escrito intitulado «O Motorista do 8-100», que transcrevo em português de Portugal:
«É costume dizer que a esperança é a última a morrer. Nisto está uma das crueldades da vida; a esperança sobrevive à custa de mutilações. Vai minguando e secando devagar, despedindo-se dos pedaços de si mesma, apequenando-se e empobrecendo e, no fim, é tão mesquinha e despojada, que se reduz ao mais elementar instinto de sobrevivência. O homem, ou se revolta e joga a sua esperança para além da barreira escura da morte no reino luminoso que uma crença lhe promete, ou enfrenta, calado e só, a ruína de si mesmo, até ao minuto em que deixa de esperar mais um instante de vida, e espera como bem supremo o sossego da morte. Depois de certas agonias, a feição do morto parece dizer: "Enfim veio! Desta vez não me enganaram!"»

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Sobre o amor, etc.

Ouço o telefone no bolso das calças. — Está! Está! — atendo rapidamente. É a Marisa que pergunta: — Então, doutor! A que devo a honra deste telefonema?!
— É uma chamada de bolso! Desculpe se a incomodo.
— Não incomoda nada. É um gosto ouvi-lo!
E iniciamos uma conversa de amigos que raramente se encontram, depois de terem partilhado muitos meses de trabalho. É uma mulher delicada, bondosa e paciente. Um poço de bonomia, que diz, para me agradar, ter aprendido muito comigo. 
A vida separou-nos e apenas nos encontramos umas poucas horas por ano. No fim, questiona-me por que razão tenho escrito pouco neste blogue, que diz seguir regularmente, como se ele fosse um fio de união espiritual.
E, nem de propósito, hoje, num dia em que a chuva desaconselha qualquer saída, leio esta crónica que os deuses puseram na minha mão e que não resisto a transcrever. 




SOBRE O AMOR, ETC. 

Dizem que o mundo está cada dia menor.
É tão perto do Rio a Paris! Assim é na verdade, mas acontece que raramente vamos sequer a Niterói. E alguma coisa, talvez a idade, alonga nossas distâncias sentimentais.

Na verdade há amigos espalhados pelo mundo. Antigamente era fácil pensar que a vida era algo de muito móvel, e oferecia uma perspectiva infinita e nos sentíamos contentes achando que um belo dia estaríamos todos reunidos em volta de uma farta mesa e nos abraçaríamos e muitos se poriam a cantar e a beber e então tudo seria bom. Agora começamos a aprender o que há de irremissível nas separações. Agora sabemos que jamais voltaremos a estar juntos; pois quando estivermos juntos perceberemos que já somos outros e estamos separados pelo tempo perdido na distância. Cada um de nós terá incorporado a si mesmo o tempo da ausência. Poderemos falar, falar, para nos correspondermos por cima dessa muralha dupla; mas não estaremos juntos; seremos duas outras pessoas, talvez por este motivo, melancólicas; talvez nem isso.

Chamem de louco e tolo ao apaixonado que sente ciúmes quando ouve a sua amada dizer que na véspera de tarde o céu estava uma coisa lindíssima, com mil pequenas nuvens de leve púrpura sobre um azul de sonho. Se ela diz “nunca vi um céu tão bonito assim”, estará dando, certamente, sua impressão de momento; há centenas de céus extraordinários e esquecemos da maneira mais torpe os mais fantásticos crepúsculos que nos emocionaram. Ele porém, na véspera, estava dentro de uma sala qualquer e não viu céu nenhum. Se acaso tivesse chegado à janela e visto, agora seria feliz em saber que em outro ponto da cidade ela também vira. Mas isso não aconteceu, e ele tem ciúmes. Cita outros crepúsculos e mal esconde sua mágoa daquele. Sente que sua amada foi infiel; ela incorporou a si mesma alguma coisa nova que ele não viveu. Será um louco apenas na medida em que o amor é loucura.

Mas terá toda razão, essa feroz razão furiosamente lógica do amor. Nossa amada deve estar conosco solidária perante a nuvem. Por isso, indagamos com tão minucioso fervor sobre a semana de ausência. Sabemos que aqueles 7 dias de distância são 7 inimigos: queremos analisá-los até o fundo, para destruí-los.

Não nego razão aos que dizem que cada um deve respirar um pouco, e fazer sua pequena fuga, ainda que seja apenas ler um romance diferente ou ver um filme que o outro amado não verá. Têm razão; mas não têm paixão. São espertos porque assim procuram adaptar o amor à vida de cada um, e fazê-lo sadio, confortável e melhor, mais prazenteiro e liberal. Para resumir: querem (muito avisadamente, é certo) suprimir o amor.

Isso é bom. Também suprimimos a amizade. É horrível levar as coisas a fundo: a vida é de sua própria natureza leviana e tonta. O amigo que procura manter suas amizades distantes e manda longas cartas sentimentais tem sempre um ar de náufrago fazendo um apelo. Naufragamos a todo instante no mar bobo do tempo e do espaço, entre as ondas de coisas e sentimentos de todo dia. Sentimos perfeitamente isso quando a saudade da amada nos corrói, pois então sentimos que nosso gesto mais simples encerra uma traição. A bela criança que vemos correr ao sol não nos dá um prazer puro; a criança devia correr ao sol, mas Joana devia estar aqui para vê-la, ao nosso lado. Bem; mais tarde contaremos a Joana que fazia sol e vimos uma criança tão engraçada e linda que corria entre os canteiros querendo pegar uma borboleta com a mão. Mas não estaremos incorporando a criança à vida de Joana; estaremos apenas lhe entregando morto o corpinho do traidor, para que Joana nos perdoe.

Assim somos na paixão do amor, absurdos e tristes. Por isso nos sentimos tão felizes e livres quando deixamos de amar. Que maravilha, que liberdade sadia em poder viver a vida por nossa conta! Só quem amou muito pode sentir essa doce felicidade gratuita que faz de cada sensação nova um prazer pessoal e virgem do qual não devemos dar contas a ninguém que more no fundo de nosso peito. Sentimo-nos fortes, sólidos e tranqüilos. Até que começamos a desconfiar de que estamos sozinhos e ao abandono trancados do lado de fora da vida.

Assim o amigo que volta de longe vem rico de muitas coisas e sua conversa é prodigiosa de riqueza; nós também despejamos nosso saco de emoções e novidades; mas para um sentir a mão do outro precisam se agarrar ambos a qualquer velha besteira: você se lembra daquela tarde em que tomamos cachaça num café que tinha naquela rua e estava lá uma louca que dizia, etc., etc. Então já não se trata mais de amizade, porém de necrológio.

Sentimos perfeitamente que estamos falando de dois outros sujeitos, que por sinal já faleceram – e éramos nós. No amor isso é mais pungente. De onde concluireis comigo que o melhor é não amar, porém aqui, para dar fim a tanta amarga tolice, aqui e ora vos direi a frase antiga: que é melhor não viver. No que não convém pensar muito, pois a vida é curta e, enquanto pensamos, ela se vai, e finda.

Maio, 1948.

"Desculpem tocar no assunto", pertence a uma coleção de livros de grandes autores brasileiros, assumida pela editora Tinta da China.
Rubem Braga (1913 — 1990) foi um dos melhores cronistas brasileiros.