domingo, 25 de outubro de 2026

Reter talentos


Há muitos anos, um responsável da unidade de saúde onde trabalhava afirmou, com indisfarçável arrogância: «Não há ninguém insubstituível». Dizia-o por estar disponível para dispensar um bom médico que lhe criava um pequeno problema. A frase ficou-me na memória, não tanto pela sua originalidade, mas pela insensatez que revelava. Com efeito, qualquer organização que ambicione ter sucesso deve preocupar-se não apenas em recrutar pessoas competentes, mas também em criar condições para as manter. Substituir um incompetente por outro será, provavelmente, tarefa fácil. Substituir alguém altamente competente, sobretudo quando alia ao conhecimento a experiência, o sentido de responsabilidade e a capacidade de decisão, pode revelar-se extremamente difícil.

Sempre atribuí grande importância à competência e à honestidade, relegando para segundo plano a obediência, sobretudo quando esta é exigida por quem confunde autoridade com autoritarismo e dispensa a explicação dos motivos que sustentam as suas ordens. Não me parece que a obediência cega seja uma virtude, particularmente em organizações cuja missão exige pensamento crítico, autonomia e responsabilidade. Afinal, só não muda de opinião quem não pensa, e uma divergência não tem necessariamente de ser entendida como um ato de insubordinação. Pode, pelo contrário, constituir o ponto de partida para uma discussão séria entre pessoas inteligentes, empenhadas em encontrar a melhor solução para um problema.

É certo que nem todas as divergências são legítimas, nem todas as desobediências justificáveis. Mas, antes de transformar um desacordo num confronto de poderes, importa perceber as suas razões. Quando está em causa alguém cujo contributo é valioso, talvez faça mais sentido procurar um entendimento do que afirmar uma autoridade que, por si só, nada acrescenta à qualidade das decisões.

O talento não abunda, não se improvisa e nem sempre é fácil de reconhecer. Além disso, ninguém é perfeito: há arestas que podem ser limadas, comportamentos que podem ser corrigidos e divergências que podem ser negociadas. Para isso, é necessária abertura ao diálogo e alguma humildade por parte de quem decide. A humildade, quando se ocupa uma posição de poder, não é sinal de fraqueza; é, frequentemente, a expressão mais inteligente da autoridade.

Dizer que ninguém é insubstituível pode ser uma verdade abstrata. Na prática, porém, há pessoas cuja substituição tem custos que só se tornam evidentes quando já não estão presentes. E há organizações que, na ânsia de provar que o poder lhes pertence, acabam por prescindir precisamente daqueles de que mais precisam.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Lei de Brandolini


A lei de Brandolini, também conhecida como o princípio de assimetria da estupidez, é um
aforismo segundo o qual "a quantidade de energia necessária para refutar a idiotice é de uma ordem de grandeza maior do que a necessária para produzi-la".

Em síntese, enquanto a desinformação pode ser amplamente divulgada e aceite rapidamente, o processo de desmascará-la exige um esforço considerável para provar a sua falsidade.

In Wikipédia
editarO princípio foi formulado publicamente pela primeira vez em 11 de janeiro de 2013 pelo desenvolvedor de software italiano Alberto Brandolini sob o título em inglês bullshit assimetry principle.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Sessão de Desenho de 06/10/2026



18 desenhos em 2 horas. Poses de 3, 5, 10 e 15 minutos



















Ao meu lado desenhava, com um único traço, o pintor Manuel Rodrigues Almeida 






 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Sessão de desenho de 22/09/2026

14 desenhos em 2 horas. 


















E ao meu lado desenhava john Chien Lee


 

sábado, 12 de setembro de 2026

Se fosse eu...

«Cada um sabe de si e Deus sabe de todos.» Era o que repetia aquele meu colega de profissão, uma máxima cujo peso real só alcancei quando o vi consumido pela doença.

​Ele tinha todas as Cartas de Alforria do mundo: inteligência viva, berço de ouro, aprumo físico e um apelido de peso na cidade. No entanto, a constante desafinação entre esses atributos empurrava-o para o desprezo alheio, descarregado quase sempre sobre os mais frágeis. Semanalmente esbarrava nele ou nos destroços que deixava para trás. A sua presença provocava-me uma náusea funda e muda, sobretudo quando ouvia terceiros gabarem-lhe a audácia e os dotes. Reconhecia-lhe competência técnica, mas habitava nele uma compulsão por fazer "diferente" — e esse diferente traduzia-se, inevitavelmente, em ruína.

​Partiu a meio do caminho, vítima de uma fatalidade banal e evitável. Uma morte tecida pelo desleixo de quem tinha a obrigação de saber como se salvar. Só mais tarde soube que a sua bússola andava à deriva por força de uma Psicose Maníaco-Depressiva que o assaltava à revelia dos tratamentos.

​Atiramos pedras e traçamos destinos aos outros com a leveza de quem ignora o abismo alheio. As nossas certezas morrem quase sempre na praia de condicionantes invisíveis: aí, ou nos crescem asas para sobrevoar o absurdo, ou cruzamos os braços a lamentar a crueza do mundo.

​O poder tem, afinal, a mesma geometria hesitante. Veja-se o fenómeno de Fátima — uma heresia "fora da caixa" que a Igreja Católica acabou por engolir a custo, enquanto esmagava, com o mesmo fervor, as aparições idênticas em Vilar Chão. É a conveniência a ditar a fé.

​Do mesmo modo, ao ouvir a retórica inflamada de Ventura contra o Ministro da Administração Interna, pergunto-me que mãos invisíveis lhe movem os cordões. Fosse eu um dos barões do tráfico apanhados pela Polícia Judiciária nos tempos de Luís Neves, e seria hoje o seu mais generoso patrono na sombra. Fosse eu o inquilino da Casa Branca, do Kremlin, de Pequim ou de Nova Deli, e moveria céus e terra para que a União Europeia nunca se erguesse como um bloco capaz de rivalizar com os meus desígnios.

​O bicho homem nunca foi espécie de confiança — quer a sós com a sua consciência, quer amordaçado em corporações. No final do dia, a arquitetura do mundo reduz-se a uma feira vulgar: quem vende o quê, e a que preço!

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Heurísticas

Heurísticas são atalhos mentais que simplificam decisões complexas. A palavra ainda não entrou no léxico comum, mas deveria, para nos mantermos atentos nas nossas escolhas.

​Não pensar antes de abrir a boca e reagir a quente, sem medir a conveniência ou a precisão das afirmações, são atitudes comuns em todos nós,  mas mais frequentes em quem cresceu  sem grandes dificuldades, apoiado pelo Estado e pela família, e que, na vida adulta, continua a acreditar que eles lhe vão continuar a proteger o futuro.

​Pais e psicólogos empurram jovens para o futuro, evitando atitudes "musculadas" que os obriguem a considerar que nem tudo é tão "fácil quanto parece", e é vê-los, já crescidos, a falar de bancada e a destratar qualquer tentativa de correção.

​Mas virá o dia em que a realidade lhes baterá à porta e, nessa altura, não haverá quem lhes possa secar as lágrimas, enquanto rebobinam o passado e veem tudo o que de importante se perdeu com as suas tentativas de afirmação.


terça-feira, 18 de agosto de 2026

Volta



Em dia de canícula, fui levantar o passaporte à Loja do Cidadão. Saí cedo, para fugir ao calor, e andei sempre pela sombra, sem contar que ele se antecipara e entrara pela loja adentro, aproveitando a multidão acumulada pelos tempos de espera excessivos.

Nem meia hora passada, comecei a sentir aquela fraqueza, sintoma indefinido de sede, e fui comprar uma garrafa de meio litro de água para repor o equilíbrio.

E agora? Que fazer à garrafa?

Havia diversos contentores para separar o lixo, mas nenhum tinha o símbolo da “Volta”!

Ok! Já de passaporte na mão, dirigi-me ao Centro Comercial próximo, onde sabia haver um supermercado enorme.

Aí chegada, procurei… e não vi nada. Tive de perguntar. Era lá no fundo, bem escondido. Quando finalmente o encontrei, estava um jovem pai, com um carro de supermercado e dois enormes sacos de lixo cheios de garrafas vazias, divertindo-se com a sua criancinha, de uns três anos, a colocar as garrafas na máquina, ao seu ritmo, rejubilando com os barulhinhos que a máquina emitia a cada entrega.

Muito giro! Mas não dá para ficar à espera…

Decido apanhar o Metro e voltar para casa, na esperança de encontrar, no meio dos muitos contentores para separação do lixo ali existentes, um com o símbolo “Volta”! Dou duas voltas à estação e confiro que “não há Volta”. Quase dei por mim a temer que roubassem o meu tesouro de 10 cêntimos.

De volta à rua, deparo-me com uns contentores a abarrotar e com uma mulher a catar as embalagens que se encontravam ao alcance do braço, atirando para o chão o lixo que se interpunha. Podia ter-lhe dado a minha garrafa, mas escondi-a, instintivamente.

É óbvio que estou chateada com o sistema! Eu já não gastava embalagens de plástico e tinha o cuidado de reciclar as latas de Coca-Cola, que me servem de elixir da longa vida!

Da última vez que fui a uma máquina “Volta” do supermercado, havia fila de espera e a máquina avariou. Assim, andei pelo supermercado, às compras, com o lixo atrás de mim, para o trazer de volta a casa…

Sendo assim, e na impossibilidade de vandalizar cada máquina que existe, proponho:

  • levar sempre uma garrafa reutilizável;
  • não consumir NADA que tenha “Volta” no rótulo;
  • assinar uma petição para acabar com o “Volta”.

A não ser que:

Ponham as máquinas ao lado dos contentores de lixo normais, onde se faz a separação, e devolvam o dinheiro para o cartão de débito ou de crédito.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Sessão de Desenho de 28/07/2026





















 E ao meu lado desenhava John Chien Lee