terça-feira, 20 de julho de 2021

A antiga Casa do Cabo




A julgar por umas pedras lascadas no sopé do Monte da Gandra, onde actualmente impera o Farol de Montedor, já anda gente por Carreço desde o Paleolítico e há uma Anta, uma Mamoa e gravuras em pedras que sugerem que cedo o sapiens se fixou nestas paragens. A citânia de Santa Luzia dista menos de sete quilómetros da aldeia e data dos inícios da nossa Era.

Nos primórdios da nacionalidade, a paróquia de Carreço não era reguenga, isto é, não pertencia ao rei. Era domínio dos Mosteiros de Cabanas, de Tibães, de S. Romão do Neiva, de Freixieiro e de S. Romão da Torre, a quem os “casais” pagavam tributo. Aos poucos os casais foram-se apropriando das terras e os reis metendo a mão no que aqui se produzia, sem que a Igreja deixasse a sua influência e de cobrar o seu quinhão.

Paçô deve o nome a ter sido a zona onde um dos senhores teria o seu pequeno palácio e sua reserva.

A Casa do Cabo aparece nos livros de rol dos irmãos das Confrarias, nos princípios do século XVII. Então, era pertença de João do Cabo. Nas suas redondezas, a Casa do Cigano, a Casa de Agostinho, a Casa do Vale e a Casa do Neiva, que também aí se referem, ainda cá estão. Na época era-se mais sábio que na actualidade e construía-se na meia encosta, deixando a veiga para a agricultura, talvez por saberem (o que agora se tende a ignorar) que o terreno fértil não anda por aí aos pontapés.

Era uma “casa de lavoura”. Numa das pedras centrais da eira está gravada a data de 1818. Tinha espigueiro de madeira, de que persistem as pedras de apoio, cabana da eira, um alambique, um lagar, galinheiro, pocilga e currais para vacas. Recebia num tanque os sobrantes da Fonte Nova e tinha canalização da mesma fonte para água de consumo doméstico. Pelo que ainda se percebe no desenho das pedras, a casa sofreu acrescentos sucessivos, o que sugere épocas de prosperidade.

Embora não fosse sempre pertença da mesma família, manteve terrenos na veiga e bouças no monte. “Consta” que a avó da última habitante da casa, de nome Rosa Ennes da Silva, teria ido grávida de pai incógnito, para a Casa do Cabo, vinda da Casa do Cigano, tomar conta de três irmãos já velhotes (2 mulheres e 1 homem) que, por não terem descendência, a fizeram herdeira, não só da Casa, como de terrenos da veiga e bouças no monte. A sua filha Miquelina Enes da Silva, nasce a 22/07/1876, casará com José Alves de Sá, estucador e, aos 38 anos, terá uma filha - Ema Enes de Sá.

A dona Ema, que foi a última habitante desta casa, irá falecer subitamente em 15/07/1985, aos 70 anos, uns dois anos depois de ter sido assaltada e barbaramente agredida em sua casa, numa noite de julho. Apesar da idade e de viver sozinha, após um mês de internamento hospitalar e de um período de recuperação na residência de familiares, voltou à casa para produzir vinho, batatas e galinhas, com a ajuda dos parentes próximos, até aos seus últimos dias. O seu marido, Manuel Enes Barreiros, falecera em 25/05/1968, aos 62 anos e os seus três filhos, embora mantivessem raízes na terra, tinham emigrado para bem longe, desiludidos com a agricultura e descrentes na prosperidade da aldeia.






No início do século XXI, a casa era uma ruína, envolta em heras e silvas e o lugar um amontoado de pinheiros e eucaliptos, onde uma dúzia de carvalhos procurava espaço no que antes fora terra de vinha e batatas, elevando aos céus as videiras e os arames das ramadas, arrancados dos esteios. Os quinze anos de abandono, à mercê dos elementos e da vida daninha, tinham posto à prova as estruturas da casa e do lugar, causando derrocadas de muros e abatimento de telhados, por onde as silvas trepavam em direcção ao sol, dando abrigo a cobras, licranços, lesmas e caracóis. Uma espessa manta morta cobria totalmente a grande eira e, no pomar entre as casas, as heras atapetavam o topo das fruteiras que resistiam, formando um tecto contínuo impenetrável.

O tanque, ao norte, atulhado de folhas e galhos, abrira fissuras entre as lajes e a mina que na sua vizinhança atravessa transversalmente toda a propriedade, aluíra, expondo o perigo de uma cova de dois metros de profundidade. Os caminhos com que propriedade confronta em todo o seu redor, haviam sido tomados por mato e pelo desmoronamento de parte dos muros e, como consequência, a Câmara Municipal, deixou de considerar a metade norte do lugar como “agrícola” e passou a chamar-lhe “florestal”. O matagal era um contínuo com as bouças dos vizinhos, também elas nada cuidadas. Um panorama semelhante atingia as casas vizinhas, também elas desabitadas (Casa do Cigano) ou temporariamente habitadas (Casa do Vale, Casa da Corticeira). O risco de incêndio era enorme. A agravar a situação a Junta de Freguesia de então, deixara de limpar as linhas de água e, no Inverno, a água do monte de deveria correr para norte, pelas bouças em direcção a Afife, procurava os caminhos e vinha cair em cachão pelo monte sobranceiro à Fonte Nova, para aí formar um imenso lago cujas águas, perfuravam os muros da propriedade e desciam em cascata pelos socalcos do lugar.

Foi esta a casa que comprámos. Um sem número de problemas para resolver, numa freguesia com um presidente de Junta nada disponível a facilitar a nossa instalação na aldeia e vizinhos renitentes em cumprir as determinações legais de manutenção das suas bouças.

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