domingo, 18 de janeiro de 2026

A Esperança - 2


Sempre me preocupou o modo como a Esperança é gerida, principalmente pelos médicos e pela religião, embora o dia de hoje esteja dominado pela sua gestão na política, com a eleição de um novo Presidente da República Portuguesa.
«Dá o que não é teu! Promete o que não tens! E... perdoa a quem não te fez mal!» — este é o lema de alguns candidatos. Outros fundamentam-se na obra feita, esquecendo uma outra máxima que diz: «Basta de realizações! Queremos promessas!»; e assim vamos indo, à espera dos resultados da primeira volta.
Entretanto, vou continuando a ler as crónicas de Rubem Braga e tropeço num texto de 1949, onde a esperança é abordada do jeito que melhor conheço: na saúde. Diz o cronista, no seu escrito intitulado «O Motorista do 8-100», que transcrevo em português de Portugal:
«É costume dizer que a esperança é a última a morrer. Nisto está uma das crueldades da vida; a esperança sobrevive à custa de mutilações. Vai minguando e secando devagar, despedindo-se dos pedaços de si mesma, se apequenando e empobrecendo, e no fim é tão mesquinha e despojada, que se reduz ao mais elementar instinto de sobrevivência. O homem, ou se revolta e joga a sua esperança para além da barreira escura da morte, no reino luminoso que uma crença lhe promete, ou enfrenta, calado e só, a ruína de si mesmo, até ao minuto em que deixa de esperar mais um instante de vida, e espera como bem supremo o sossego da morte. Depois de certas agonias, a feição do morto parece dizer: "Enfim veio! Desta vez não me enganaram!"»

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