segunda-feira, 15 de junho de 2026

O Douro dos Contrastes: Entre o Choque, o Pavor e o Sossego Profundo



Fim de semana no Douro a ver as suas margens por dentro, aproveitando o convite de uma amiga (que tem um barco) para dar férias à minha mão direita.

Depois de um dia calmo pelo rio até às Caldas de Aregos, a observar o edificado luxuoso nas margens e os montes recobertos por uma escadaria de vinhas que vai bem até ao cimo, pontuados de longe em longe pela sumptuosidade da casa da quinta, fomos jantar a Cinfães. Ignorávamos por completo a existência de uma “Noite Branca”, evento onde o município convidara o público a vestir-se de branco e a desfrutar de uma noite “vibrante de festa”. Um absoluto “choque e pavor”. A pacatez duriense transformada numa avalanche de músicas “diabólicas” distribuídas por vários palcos onde os DJs “bombavam” decibéis de fazer a cabeça andar à roda. Pelo meio, uma multidão de tiaras de luzes brancas na cabeça made in China, tornava urgente a fuga para um teto seguro. A cura deste desvario veio à mesa, com uma gastronomia sem pretensões, generosa em batatas fritas douradas e carne de vaca tenra e bem temperada e o incontornável vinho do Douro a alegrar aquela comida “a sério”.

O domingo foi dia de comboio, a ver o espelho do rio logo ali ao lado, os vinhedos monte acima e os barcos turísticos a subir, a descer e a atracar, para descarregar anglo-saxões.septuagenários de bengala, rumo aos autocarros que os levariam a uma quinta, de onde sairiam mais tarde, já meios entornados, solidamente apoiados por gentis comissárias de bordo de tarjetas na mão para que ninguém se perca, para prosseguirem viagem, rumo ao navio-hotel.

Prolongou-se o fim de semana para se entrar pelo rio Bestança e dar mais uma pequena volta com piquenique a bordo, momento intervalado pela Polícia Marítima em ação de fiscalização, para me dar ideia da quantidade de papelada e material que uma pequena embarcação deve ter em ordem para poder circular pelos nossos rios.

Obrigado, Estela e Abílio!


sábado, 6 de junho de 2026

"In Memoriam" da minha mãe

Maria Antonieta, mãe, sogra, avó, bisavó e amiga, que nos deixou em 25/05/2026, merece que a recordemos.

Nasceu em 1926. Filha única de uma família de classe média. Estudou até aos 15 anos, quando uma tuberculose a obrigou a permanecer em casa. Era o tratamento da época: repouso e ar puro. Recuperou bem a saúde, mas apaixonou-se por aquele rapaz que via da janela, que viria a ser seu marido durante 75 anos, e nunca mais regressou à escola. Foi pena...

Saiu de casa para casar, aos 21 anos, com um homem cuja carreira profissional estava em ascensão e a  vida tornou-a esposa e mãe. Naquele tempo, era assim.

Como esposa, foi o suporte da carreira do marido, proporcionando a estabilidade necessária para que tudo girasse em torno do seu trabalho.

Como mãe, foi observadora discreta, sem se impor, mas a influenciar... muito mais do que percebíamos.

Tornou-se avó cedo e orgulhava-se de cada um dos netos, em quem via apenas qualidades. Foi para todos uma ajuda preciosa em inúmeras ocasiões.

Nos bisnetos revia, com alegria, todos os pormenores da sua própria vida dedicada a cuidar dos outros.

De cada neto e bisneto fui testemunha e confidente de todas as interações com ela. Sobretudo do prazer que sentia sempre que a visitavam, a abraçavam ou a beijavam. As palavras que lhe dirigiam ficavam gravadas na sua memória, e reproduzia-as vezes sem conta, com um prazer redobrado.

Nos anos em que ela e o avô passaram a viver mais limitados, reviviam cada momento de família que lhes era proporcionado. Cada Natal, cada aniversário, cada festa permanecia na sua memória e era revisitado vezes sem conta. Era um remédio que lhes fazia bem e que, talvez, tenha ajudado a explicar a sua longevidade.

Vamos recordá-la como uma mulher muito bonita e vaidosa, que gostava de se vestir bem, do cabeleireiro semanal, do seu batom, das unhas pintadas de vermelho, dos colares e dos anéis que nunca podiam faltar. Podia ter sido modelo ou estilista...

Vamos recordá-la também pelo seu espírito observador e pela sua fina capacidade de análise. Nenhum detalhe físico ou psicológico lhe escapava nas interações com os outros. Amplificava depois esse traço e guardava-o como a marca distintiva da pessoa. Inventava alcunhas que, por vezes, partilhava na intimidade e das quais retirava um prazer quase infantil. Podia ter sido humorista.

Podia ter sido muito mais. Acho que podia ter sido aquilo que quisesse. O tempo em que viveu não lho permitiu. Mas, no fim, fomos nós os beneficiados por termos tido nela um porto seguro.

Era comparável a uma águia capaz de voar alto, serenamente, observando tudo à sua volta. Algures no seu caminho, as suas asas ficaram presas ao destino que a vida lhe reservou. Que perdure em nós esse seu espírito de ambição, essa vontade de voar alto e de olhar mais longe.

E que nunca esqueçamos que o mais belo dos seus voos foi aquele que fez entre nós.

Lido no funeral: Elogio fúnebre da minha irmã Helena e Elogio da neta dileta


 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Frase do dia

 

“Nem sempre são os mesmos deuses que reinam no céu, nem sempre são os mesmos impérios que cobram impostos nas cidades e nos campos.”

Paul Veyne (1930-2022), historiador francês. 

terça-feira, 2 de junho de 2026

Desenhos de 12/05/2026

















 17 desenhos em 2h com pequenos acertos feitos em casa.