sexta-feira, 29 de maio de 2026

O meu pai e a Mina de Neves-Corvo

 


O homem por detrás da anomalia gravimétrica de Neves-Corvo

Quando se fala da descoberta da Mina de Neves-Corvo, é frequente encontrar referências vagas a “equipas do Fomento Mineiro” ou a “campanhas geofísicas” realizadas na Faixa Piritosa Ibérica durante os anos 70. Raramente surge um nome concreto associado à definição da anomalia gravimétrica que levou às sondagens decisivas.

Contudo, importa recordar o papel do engenheiro de minas AlbertinoAdélio Rocha Gomes, então engenheiro-chefe da Brigada do Sul do Serviço de Fomento Mineiro.

Foi sob a sua orientação técnica que se desenvolveram trabalhos de prospeção geofísica e geoquímica no Baixo Alentejo, incluindo a identificação da anomalia gravimétrica que viria a conduzir à descoberta do jazigo de Neves-Corvo — uma das mais importantes descobertas mineiras europeias do século XX.

A tendência da historiografia mais divulgada tem sido atribuir a descoberta a entidades coletivas — Fundo Mineiro, Serviço de Fomento Mineiro, equipas de prospeção ou empresas internacionais que mais tarde participaram no desenvolvimento do projeto. Embora isso seja parcialmente correto, corre-se o risco de apagar o papel determinante dos técnicos portugueses que trabalharam no terreno durante décadas.

O próprio LNEG –Laboratório Nacional de Energia e Geologia, ao assinalar o falecimento de Albertino Adélio Rocha Gomes, reconhece explicitamente a importância do seu trabalho na prospeção mineira da Faixa Piritosa Ibérica e nas descobertas daí resultantes.

A história da mineração portuguesa faz-se também destas figuras discretas: engenheiros, geólogos e geofísicos que, longe dos holofotes, interpretaram sinais ténues no subsolo e abriram caminho a descobertas de enorme impacto económico e científico.

No caso de Neves-Corvo, a anomalia gravimétrica teve um rosto: o do engenheiro Albertino Adélio Rocha Gomes.

A importância económica da Mina de Neves-Corvo para Portugal

A descoberta da Mina de Neves-Corvo representou muito mais do que um êxito geológico. Foi um dos mais importantes acontecimentos económicos do interior português nas últimas décadas.

Quando o jazigo foi identificado, em 1977, Portugal atravessava ainda um período de grande fragilidade económica e tecnológica. A confirmação da existência de enormes reservas de cobre, zinco e estanho colocou o país no mapa mundial da mineração moderna. O jazigo de Neves-Corvo viria a ser considerado um dos mais ricos depósitos de sulfuretos maciços da Europa e um dos mais importantes do mundo em teor de estanho.

A exploração industrial iniciou-se em 1988, através da SOMINCOR, numa parceria inicial entre o Estado português e a Rio Tinto. Desde então, a mina tornou-se um dos maiores polos exportadores nacionais e um dos principais motores económicos do Baixo Alentejo.

O impacto económico foi profundo em vários níveis.

Em primeiro lugar, pelo emprego. Numa região marcada pela desertificação humana e pela escassez de indústria, a mina criou milhares de postos de trabalho diretos e indiretos. Ao longo dos anos, sustentou não apenas mineiros, engenheiros e técnicos especializados, mas também empresas de transportes, metalomecânica, manutenção, restauração e serviços associados. Algumas estimativas apontam para cerca de cinco mil empregos dependentes, direta ou indiretamente, da atividade mineira.

Em segundo lugar, pela riqueza criada localmente. Castro Verde passou a apresentar indicadores de poder de compra invulgares para um concelho do interior alentejano, ultrapassando mesmo várias capitais de distrito. Os salários relativamente elevados do setor mineiro transformaram profundamente a economia local.

Mas a importância de Neves-Corvo ultrapassa largamente a dimensão regional.

A mina tornou-se uma infraestrutura estratégica nacional. O Ramal Ferroviário de Neves-Corvo ligou diretamente a exploração aos portos portugueses, facilitando exportações minerais de elevado valor acrescentado.

Além disso, Neves-Corvo ajudou a preservar em Portugal competências técnicas altamente especializadas nas áreas da geologia, engenharia mineira, geofísica e metalurgia. A exploração exigiu tecnologias modernas de mineração profunda, tratamento mineral e gestão ambiental, contribuindo para a modernização do setor mineiro português.

Também no plano financeiro a mina teve enorme relevância. Ao longo de décadas gerou exportações significativas de cobre e zinco, atraiu investimento estrangeiro de centenas de milhões de euros e reforçou a balança comercial portuguesa. Diversas expansões da mina implicaram investimentos muito elevados destinados a prolongar a sua vida útil e aumentar a produção.

Por fim, Neves-Corvo teve um significado simbólico importante: demonstrou que o interior português podia albergar projetos industriais de dimensão internacional, tecnologicamente sofisticados e economicamente sustentáveis.

Tudo isto começou com uma anomalia gravimétrica identificada por técnicos portugueses do Serviço de Fomento Mineiro — entre eles o engenheiro Albertino Adélio Rocha Gomes — num tempo em que poucos imaginavam a riqueza escondida sob o subsolo alentejano.

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Não existe um valor oficial único sobre quanto o Estado português recebeu da exploração da Mina de Neves-Corvo, porque as receitas resultam de várias fontes: royalties, IRC, derramas, Segurança Social e outras taxas.

Segundo dados divulgados pela Lundin Mining, a mina gerou cerca de 350 milhões de euros em impostos e royalties apenas entre 2007 e 2017. Até 2017, as exportações acumuladas de minério rondavam já os 6 mil milhões de euros.

Tendo em conta a continuação da exploração e as restantes receitas fiscais e económicas associadas, é provável que o benefício acumulado para o Estado português ultrapasse atualmente mil milhões de euros.

3 comentários:

Anónimo disse...

Um artigo, que vale a pena ler, pelos ensinamentos ,que nos deixa acerca deste eminente engenheiro da história das minas de Portugal

capitão disse...

https://www.lneg.pt/falecimento-do-eng-albertino-adelio-rocha-gomes/

Anónimo disse...

Tive o prazer de o receber no hotel de santa luzia acompanhado do seu ilustre filho, médico dr. Fernando Gomes.