segunda-feira, 9 de julho de 2012

Cavatina

STANLEY MYERS (1930 – 1993) Ana Vidović (1980 - ... ) Croácia. Tema do filme "The Deer Hunter" (1978), de Michael Cimino, por John Williams (1941 - ...)Austrália.

sábado, 7 de julho de 2012

Desconfortos

Assim, curto e explicado.
Pena que a solução não esteja no remédio.
Aqui como na política, os remédios ajudam, mas são os hábitos que mais condicionam os desconfortos!

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Trás-os-Montes - 1979

1979. “Para cá do Marão mandam os que cá estão!”
Talvez fosse verdade, porque só a obrigação levava alguém por aquelas terras de estradas de náuseas e escarpas de vertigem, de frios e calores traiçoeiros.

Abril de 1974 abrira-lhe uns postigos por onde fracas brisas se afoitavam, despenteando cabeças e milheirais, sempre no temor de serem engolidas nos vazios da montanha, pouco interessada no bucólico das aldeias ou na pujança agreste das suas gentes.

Trás-os-Montes era terra de passagem. Para a Europa, para um domingo de vinhos e enchidos ou para o funeral de um parente lá esquecido. Não era terra para se ficar. Tinha ritmos diferentes. Havia servos e senhores. Reverências e mordomias e rostos de olhos baixos a revelar uma disponibilidade ancestral para o sofrimento.
Era terra de poucas urgências, mesmo em caso de morte, porque ela era certa e parca a crença em contrariá-la, e todos assim a entendiam, dos doentes ao médico do hospital.

Os nomes estavam lá, escritos para quem os soubesse ler, mas as funções "tinham dias". Umas vezes sim, outras assim-assim, outras a rasar o inacreditável. As instituições viviam dos poucos resistentes que lhe davam sentido, sem,  no entanto, deixarem de sacralizar as refeições, pois o estômago em tempo algum podia ser esquecido.

O Hospital regia-se pela disponibilidade de cada um e por uma “comissão instaladora”, sem médicos ou enfermeiros. Mantinha a porta aberta e uma placa a orientar para um Serviço de Urgência, mesmo que o médico estivesse ausente.
Era o segundo ano do Serviço Médico à Periferia, que para ali atirara uma revoada de jovens cheios de entusiasmo e energia para agarrar a oportunidade de ganhar experiência e conhecer mundo. Uns mais afoitos, outros cheios de timidez, mas todos assumindo o seu papel nos primórdios do SNS, contrariando a normal resistência dos interesses instalados por quem ali era senhor.

Adolfo Miranda Nobre era um inconformado. Habituado aos ritmos da grande cidade, impacientavam-no os empecilhos à sua actividade clínica.
-"Tenha calma!" Aconselhava-o, nesse dia, o enfermeiro no Serviço de Urgência. -"O Dr. Fragoso só vai chegar ao fim da manhã, depois de passar pela Clínica! Está à beira da reforma. Às vezes bebe uns copitos a mais e nem sempre as coisas lhe saem certo. Pode vir tarde, mas vem sempre! Já foi director do Hospital!".
-Está bem! Mas, por favor, avise-me quando ele chegar. É quase meio-dia e eu pedi para o chamarem ainda não eram dez horas, e há aí um homem a precisar de uma cirurgia urgente!".

Lá fora o Inverno ameaçava. Um vento gélido uivava pelo vale, a obrigar os mais pintados a resguardos, no temor de que uma ponta de ar não descambasse em pneumonia, enquanto, no quente do Hospital, o Dr. Adolfo media-se com as doenças, feliz por lhes encontrar soluções.
Tentara ser exemplo, cumprindo horários e mostrando disponibilidade, mas cedo notara que essa cordialidade fora entendida, por alguns, como fraqueza e, logo na sua primeira semana, tivera de pôr fora da sala um maqueiro que entrara a chupar um gelado e sentira má vontade ao recusarem-lhe uma radiografia por não ter o aval de um dos médicos da casa. Também a algazarra no refeitório lhe pareceu estranha, com diárias fanfarronices de novos-ricos, como se o 25 de Abril os tivesse libertado da escravidão num estalar de dedos.
Metido no seu mister, tropeçava amiúde em disfunções. De umas ria-se pelo insólito, com outras preocupava-se.

Eram quase duas da tarde quando a porta da Urgência se abriu e entrou um velho com um pesado sobretudo cinzento. Desapertou o cachecol e, enquanto tirava as luvas, dirigiu-se ao enfermeiro, que solícito assumiu as cortesias. -“Bom dia Dr. Fragoso! Como está?”, disse, recebendo-lhe o chapéu, num gesto quase automático de anos de familiaridade e conivências.

O Dr. Fragoso era um homem magro, que a muita roupa compunha vergando-lhe os joelhos. As mãos cianosadas e o lábio inferior ligeiramente pendente, assinalavam um corpo bem regado pelos sucos das margens penteadas do Douro.
Era de poucas falas, como se muitos dramas lhe tivessem criado uma carapaça à prova de qualquer dor. A terra moldara-o, sobrepondo vinhedos à sua anterior preocupação com a medicina. O seu dia-a-dia era uma rotina. Acordar, tomar o pequeno-almoço, passar os olhos pela contabilidade da Clínica, ir ao Hospital para fazer o que lhe apetecesse, e por fim, passar pela quinta, para garantir que o vinho ombreasse com os demais. Na escala de urgência, estava de dia sim dia não.

– "Bom dia!" Respondeu, esfregando as mãos.
-"Dr. Fragoso! Leu os jornais? Os meus pêsames! Hoje desvalorizaram mais uma vez o escudo!", disse o enfermeiro, ignorando que ele não tinha desses temores. Os contactos em Lisboa, quer directos, quer por intermédio do seu irmão, figura de primeira página dos jornais, davam-lhe a garantia de que o que perdesse hoje, resolveria amanhã com meia dúzia de telefonemas.
-"Dr. ! Isso é que vai ser um rombo na sua conta do banco!", insistiu, desiludido com a indiferença, como a espicaçá-lo.
O velho levantou a cabeça que o frio ainda mantinha nos ombros e, benevolente, respondeu: -"Olhe! Vá ali ao Corgo. Tire-lhe um balde de água. Vê diferença?", e medindo os sorrisos, sentou-se, a folhear um dos processos da secretária.
Ao lado um maqueiro justificava-o: -"Ainda me lembro, de há uns vinte anos, quando o Dr. era médico das minas de Jales. Era um corre-corre de camionetas cheias de mineiros para fazer radiografias na sua Clínica. Aquilo é que era facturar! E quando era cirurgião da CP? Vinha gente de todo o lado para a sua Clínica! Era preciso um saco de boca de larga para não deixar fugir nada!". E a memória do Dr. Fragoso levou-lhe ao rosto o esboço de um sorriso.
Esfregou mais uma vez as mãos, cheirou-as e cruzou os dedos. Depois perguntou para ninguém: -"Parece que há aí um doente para eu ver!".

O Dr. Adolfo, que até aí se mantivera calado, sentiu-lhe a distância, e respondeu: - "Está tudo escrito no processo que tem nas mãos!", mas reconsiderou e continuou: -"Temos aqui um doente de 45 anos com febre e dor abdominal, com 48 horas de evolução. Chegou esta manhã desidratado. Deve ter uma peritonite aguda a necessitar de uma cirurgia urgente!"
O Dr. Fragoso olhou-o de soslaio, como a questionar-lhe as capacidades. Depois levantou-se e dirigiu-se à maca onde o homem tremia, de olhos encovados, expectante. Pôs-lhe as mãos sobre o ventre, sem tirar o cobertor de papa onde o doente se embrulhava, carregou ligeiramente, enquanto lhe olhava para o rosto e ordenou: -"Pode ir para a enfermaria!". Depois, virou-se para o jovem médico, que aguardava, e como quem está habituado a mandar e a ser obedecido disse-lhe, peremptório: -"Tem aí a folha de terapêutica? Então escreva!"

Há alturas na vida em que somos de tal modo surpreendidos, que a inibição nos tolhe e nos faz autómatos nas mãos de quem está acima.
Adolfo quase que recusou a ordem, mas um laivo de bom senso, inibiu-o. Podia ter-lhe dito que a partir desse momento se considerava desligado do doente e que não sendo a terapêutica de sua orientação a não deveria escrever, mas pesou o incómodo do conflito e sentou-se.
Pegou na caneta, puxou a folha de papel e ouviu uma voz rouca ditar-lhe: -"Soro 1000 cm3. Subcutâneo". Depois um pouco mais alto. -"Escreva subcutâneo por extenso, senão os enfermeiros põem-no endovenoso!" E novamente em tom normal. -"Águas com Cerinutrina. Na linha de baixo escreva Garalone de manhã e Rifocina à noite. É tudo!"

Acabou de escrever e parou, sem que o tempo fizesse parar a estupefacção e lhe permitisse um gesto que o não conotasse com o que ali se passava. Sentiu um calor envolvê-lo e um suor frio a escorrer por todo o tronco molhando-lhe a camisa e, sem melhor solução, virou-lhe a página e disse: -"Dr. Fragoso! É melhor ser o Sr. a assinar, não vão as enfermeiras questionar-me por esta terapêutica!"

E ele assinou.

sábado, 30 de junho de 2012

Violência

Das frases que me condicionam, duas vieram-me hoje à memória: “Quem tem mais probabilidade tem de te matar, já tem a chave de tua casa!” e “ A pessoa que maior probabilidade tem de te matar, é o teu médico!”. Não são absolutas, até porque se excluem, mas centram-se em duas facetas do nosso quotidiano, a que importa estar atento: a Violência Doméstica e a Iatrogenia.

Ora andava eu na Internet, por estes caminhos, quando tropecei num artigo sobre "A Verdade àcerca da Violência", de um tal Sam Harris (1967) escritor, filósofo e neurocientista americano.

Primeiro introduz-nos, informando que nos USA a probabilidade de ser roubado, assaltado, violado ou assassinado nos próximos 30 anos (a manter-se constante a actual taxa de criminalidade), é de 1 para 9, pelo que nos devemos preparar para responder à violência de modo racional, pois os nossos instintos, embora bons a reconhecer o perigo, aumentam a probabilidade de sair magoado ou morto quando a ameaça surge. Depois lembra que a Polícia responde ao crime consumado, para (com alguma sorte) apanhar quem o cometeu, que os primeiros momentos em que a vítima se encontra com o predador são cruciais, e que só depois de escapar é que é seguro ligar o 112.

Define três princípios fundamentais.

1) Evitar pessoas e locais perigosos.
Auto-defesa não é vencer combates com gente agressiva que não tem nada a perder. Não ameace o seu oponente. Baixe o nível de agressividade e vá embora.

2) Não defender a sua propriedade.
Defendê-la é um convite à violência e uma oportunidade para morrer ou para ir parar à prisão.
Se alguém lhe aponta uma arma à cabeça e lhe pede a carteira, entregue-a de imediato e fuja. Se vir um grupo a vandalizar-lhe o carro, mantenha-se em casa e avise a Polícia.

3) Se alguém o tentar conter fisicamente, responda imediatamente e fuja.
Faça tudo para evitar o confronto físico, mas se ele se tornar necessário, ataque explosivamente, com o que for necessário, com o intuito de escapar.
Se alguma vez se encontrar em tal situação, deve assumir que o seu oponente tem uma carreira criminosa e que já vitimou outros. Não perca um segundo a argumentar.

Até parece consensual, mas quando ele passa a exemplos sobre o princípio nº 3, é que a coisa se torna diferente.

Imagine: Você transporta as compras da mercearia para o carro e surge um homem ao seu lado com uma arma que lhe diz: “ Entre no carro, e não lhe acontecerá nada!” O seu instinto irá provavelmente funcionar mal. Entrar no carro é a última coisa que deve fazer. “Entre no carro ou estouro-lhe com os miolos!”.
Por muito mau que lhe pareça o momento, obedecer a uma pessoa que está a tentar controlar os seus movimentos, é uma ideia terrível. Uma coisa é tentar controlar a sua propriedade, outra é tentar controlá-lo a si, orientando-o para outro quarto, para um beco, para dentro do carro, prendendo-o, etc ... . Isso indicia que a próxima situação em que se vai encontrar será ainda pior.
Fuja qualquer que seja o risco, pois compensa.
Qualquer que seja a sua capacidade física o seu objectivo é fugir, mesmo que esteja em casa e que tenha armas. Esses segundos lugares serão imensamente mais favoráveis ao(s) atacante(s).
Um ladrão geralmente assegura-se que a casa está vazia antes de entrar. Se alguém entra em sua casa consigo lá dentro, não há assunto a discutir. Deve fazer tudo para escapar. Se alguém aponta uma faca ao pescoço da sua esposa e, com isso, o tenta controlar, você deve fugir imediatamente, pois cooperar com o atacante e esperar a sua benevolência é o maior erro que pode cometer. Se ele tem intenção de a matar, ele vai matá-los aos dois se tiver oportunidade. Se você fugir, pode voltar em condições muito mais favoráveis.

O artigo é escrito por um americano que vive nos USA. Podem dizer que lá o mundo ... é outro, mas, como dizia Bob Dylan “The times they are a-changing”.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Desanimados

-Mamã! Quero ver desanimados! É o que pede depois de um dia de infantário. E a mãe liga-lhe o Canal Panda, enquanto eu, para os ver, ligo o telejornal.

O problema é a Europa ter-se querido unida, sem definir um projecto político sem doutores em "Novas Oportunidades" e "Velhos Oportunismos" que nos fazem tropeçar demasiadas vezes em  ineficiência, incompetência e em chefias que se desresponsabilizam mesmo quando tomam conhecimento de disfunções a raiar o humor negro.

Uma união política e económica na Europa só é possível com garantias de eficácia e, para isso, não chega um ministro das Finanças e outro da Economia a mando de Berlim. Exige-se também um "alemão" na Justiça e outro na Administração Interna, para desmontar a rede de privilégios instalada.

A receita de aumentar Impostos para manter as ineficiências vai-nos atirar para o Norte de África, bem longe da Europa de que falamos.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Sair da Crise

Vasco da Gama descobriu a caminho marítimo para a Índia em 1498, e deu início ao Império Português, que se manteve quase 500 anos. Foi isso que me ensinaram.

Depois soube que essa rota foi a causa do declínio de Veneza, que detinha o comércio das especiarias para a Europa por via terrestre, e que, bem cedo, espanhóis, holandeses, ingleses e franceses se aperceberam dos benefícios da expansão ultramarina e a usaram para formarm outros tantos Impérios.

Mas tinha Vasco da Gama por um “homem de bem”, que “ia pelo comércio”, até conhecer a sua “implacabilidade brutal” e “violência exemplar” para que os outros povos “temessem a nossa grandeza e respeitassem a nossa virtude” e a nova rota ultrapassasse as “naturais resistências”.

Toda a Europa ganhou com o início da globalização e só na última década se iniciou o ciclo inverso com o restabelecimento do Império do Meio que, com outras implacabilidades e violências, irá ditar as suas regras.

... Outros tempos, novos ciclos, outras forças!

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Agualusa

Gostei!
É curioso que o tema seja semelhante ao de "Jesusalém" do Mia Couto: a agorafobia.

Sente-se sangue africano na descrição da instabilidade social no período pós independência, com as soluções ditadas pela necessidade do momento, numa Luanda com o poder disperso e em constante mutação.
Só me pareceu que "o acaso" aproximou os personagens mais do que seria de esperar.


Quando se atribui poder a um palerma que nos fica acima, o melhor é um afastamento tácito. Mas quando a sociedade anda em convulsão e se torna imprevisível, esconder-se, pode ser uma questão de sobrevivência.

domingo, 17 de junho de 2012

Duetos

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Frases

A coleira e um prato de ração, é tudo o que um cão sempre quis!

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Leituras de férias

Não sei se O teu rosto será o último” ficará na história como um grande romance, mas gostei de o ler, principalmente depois de saber que João Ricardo Pedro , 38 anos, engenheiro, vítima de despedimento colectivo, se transformou em escritor, e foi prémio Leya 2011, logo no seu primeiro romance.
Dalton Trevisan, brasileiro da colheira de 1925 e só agora divulgado entre nós ao ser galardoado com o Prémio Camões. Nas livrarias só encontrei  um dos seus primeiros livros - "Cemitério de Elefantes" (1964). 
Pequenos contos, com uma tipologia de escrita que me fez lembrar Torga, por deixar o leitor completar os cenários e o imaginário dos personagens com duas ou três palavras estrategicamente colocadas.
Um bom exercício de leitura, para quem, como eu, gosta de sentir textos expoados de supérfluo.


"Medicina e outras coisas"  de António José de Barros Veloso (Internista, ex-director do Serviço de Medicina Interna do Hospital de Sto António dos Capuchos em Lisboa).
Uma compilação de vários textos sobre medicina e não só, de alguém que viveu a prática médica o suficiente para poder ter opinião.

domingo, 10 de junho de 2012

Eu gosto de ver

A veiga a crescer !!!!

sábado, 9 de junho de 2012

Dívidas do SNS


Chateia-me ter razão quando se trata de desbarato dos dinheiros públicos.

O mal é geral, mas é no SNS que mais sinto as ineficiências e os compadrios para que se mantenham e até promovam expectativas irreais de fornecedores e funcionários.

Quando, na Função Pública, alguém assume uma liderança, e tem no passado tiques de parecer “fino”, é de prever um desastre que, mais tarde ou mais cedo, todos iremos pagar.
Mas o que é óbvio para uns, a maioria duvida e deixa os “vaidosos” tomarem conta do país, enganada pelas suas “evidências” e “metanálises” e outras palavras de significado duvidoso com que conseguem pairar acima dos “mortais”.

Eu, que não sou de modas, estou com o Almada n' “A INVENÇÃO DO DIA CLARO: “Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade”, e exijo a quem se arma em timoneiro um mínimo de “passado” que o credibilize.

Meu caro Paulo Macedo: Tens de ir ao cerne. E o cerne está em quem permite. É lá que tudo começa.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Saudosismos

“O café é água! É só vaidade!”, rouquejava com sentido desprezo, ao passar. Ainda não eram quatro da tarde e já mal se segurava.
Durante um tempo, aquele grito, foi rotina. Depois, como seria de esperar, desapareceu.

O Café era um modo de estar. Uma sala de estudo nas horas mortas, com sons. O de quem entra e o de quem sai, o das chávenas que tilintam, o sussurrar dos pequenos gestos simultâneos à chegada de uns passos femininos e o omnipresente cheiro a café e a tabaco.
Um livro, um café, às vezes meia torrada. As mesas marcadas pela preferência dos poucos clientes daquelas horas. Uns estudavam, os reformados olhavam para a rua e o Sr. Sousa zelava, enquanto lia os jornais desportivos que ia buscar à borla à tabacaria que ficava na entrada.

De longe a longe surgia do nada o sr. Lopes, escanzelado, de fato negro, a sussurrar-nos ao ouvido: “Quer preservativos?”, para depois dizer com voz mais clara, enquanto se endireitava: ”...e …pasta dos dentes?, e …creme da barba? Também temos pensos rápidos e outras pequenas coisas para a higiene diária!”, e abria o expositório da mala, para nos tirar do embaraço inicial.

Depois, mudavam as horas e, surgia outra vida. A rua também era ali. 

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Iatrogenia

É uma palavra difícil, para quem a desconhece e para quem a conhece bem. A uns soa a erudição, a outros a tribunal.
Quando alguma coisa corre mal nos cuidados médicos e se procuraram eventuais erros na cadeia dos envolvidos, de vez em quando, tropeça-se em incapacidades ou em negligência, para além dos acidentes e das reacções adversas.

Quando a promoção dos responsáveis em Saúde é efectuada por critérios de simpatia, de modo a agradar à hierarquia e aos funcionários, é natural que o nível de exigência diminua e aumente o número de erros cometidos.
Hoje é alguém desconhecido, amanhã é um nosso irmão e depois ... nós.


É quase um destino quando se criam as condições para ela aconteça e é bom não esquecer que a arte é complexa e que os médicos usam armas letais.

Para que as suas decisões sejam correctas (à luz da ciência actual) é necessário que estejam presentes “em grau elevado” três varáveis: competência, envolvimento com o problema e boas condições de trabalho no momento da decisão.
Se qualquer destes parâmetros falhar, as soluções poderão não ser as melhores e até agravarem o problema inicial. A isso chama-se iatrogenia.

O Serviço Nacional de Saúde tem vindo a substituir as lideranças por quem se mostra subserviente, com reflexo negativo na qualidade das decisões e consequente  estabelecimento do compadrio.

Não quero crer que haja da parte de quem decide, uma vontade em descredibilizar as instituições públicas, para dar espaço às privadas. Mas eu já vi um porco a andar de bicicleta!

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Ich spreche nicht deutsch

Agora as coisas são diferentes. Há mais gente a fazer-se entender em inglês nos locais turísticos e, com a Internet móvel, muitos dos problemas que então se punham, para quem não dominava a língua, são agora raridades. Quem, pela década de 1970, se aventurasse em países de leste ou até na própria Alemanha, tropeçava a toda a hora em palavras a soar a “asaftasardem iashemorroidesidem” ditas com todos os erres e intensidade, que rapidamente desistia da oralidade como meio de comunicação.

Fazer-se entender num restaurante era como ir à televisão participar no concurso do “O gest´é tudo”, e ter de imitar uma batata estufada com ervilhas, perante alguém que de olhos esbugalhados nos diz repetidas vezes um “esprééémezidoitcht” qualquer, para depois nos pôr no prato uma salsicha em cima de uma fatia de pão barrada com mostarda. A coisa acabava naturalmente noutras soluções onde a mímica se reduzisse ao “Pssct” e ao fingir que se escreve no ar para pagar, de modo a nos poupar ao ridículo dos gestos públicos.

Um colega meu de profissão, numa viagem à Alemanha, depois de ter passado aquela fase dolorosa, decidiu ser minimalista.
Entrou. Sentou-se. Avaliu o cardápio, de uma página, com três secções bem definidas e, sem mais delongas, apontou o primeiro de cada grupo, disposto a jogar a sorte de uma entrada, um prato e uma sobremesa.
… Comeu três sopas.