terça-feira, 22 de março de 2022

Jornais


Na casa da minha avó, onde passei parte da minha infância, havia um quarto de banho na marquise anexa à cozinha. Era um pequeno espaço com uma sanita com tampa de madeira partida e um reservatório de água do autoclismo lá no alto, de onde pendia uma corrente que terminava num punho de madeira áspero pela tinta descascada. Uma pequena janela ao alto assegurava a ventilação.

Eu usava esse espaço e dava por mim a aí permanecer por longos períodos atraída pelo papel de jornal. Nessa casa de banho o papel de jornal, cortado em rectângulos de modo irregular, que pendia de um arame dobrado em forma de anzol, suspenso num prego da parede, destinava-se a ser usado como papel higiénico. 

E eu aí ficava a ler fragmentos de noticias, em que só podia imaginar o início ou o fim, se não conseguisse encontrar o fragmento correspondente.

Deliciava-me com a publicidade ao "Bryllcreem" com imagem de rapazes bonitos e bem penteados, ou à Solarina, em que donas de casa, com aventais com folhos, punham cobres a brilhar ... 

Aliás o papel de jornal era omnipresente em casa e de uma enorme utilidade. Consumidas as notícias do dia, embrulhava o bacalhau, forrava gavetas,  prateleiras e caixotes de lixo. Secava sapatos e não raras vezes servia de palmilha. Para lavar janelas e espelhos uma bola de papel de jornal acrescentava o brilho e polimento sem manchas. Nos dias de pôr os bibelots de cobre, prata ou latão a brilhar,  o papel de jornal não faltava a proteger a roupa e no polimento final. 

E se as paredes pediam pintura, era o papel de jornal que forrava o chão. Se era preciso subir a uma cadeira ou a uma mesa era uma folha de papel de jornal que nos permitia não tirar os sapatos. 

Chegava na ceira do mercado a embrulhar as sardinhas e um elegante cartucho, enrolado na mão, abrigava as quentes e boas castanhas.

Nos dias de sol, um improvisado bivaque feito com um folha bem dobrada protegia da inclemência dos raios solares e, com a mesma técnica, se improvisava um barquinho de papel que competia, na bacia de água, com a cortiça dos supositórios de "Rectofenicol"... 

O meu pai diz que o meu avô o ensinou a ler com as notícias dos jornais diários e eu ganhei destreza no manejo da tesoura a recortar fotografias.

Por tudo isso havia sempre uma pilha de jornais velhos que mais tarde ou mais cedo encontrariam a sua utilidade. Nas casas modernas não há lugar para eles. Os que, apesar das notícias em suporte digital, entram sorrateiramente, acabam no lixo com a mesma velocidade com que as notícias se tornam obsoletas. 

Hoje tinha planeado dedicar o dia às minhas plantas que precisavam de ser replantadas e foi a custo que ainda consegui encontrar um jornal velho. E lá dei por mim a ler noticias de há um ano, inalando o  cheiro sui generis do papel húmido, antes de o estender na mesa da cozinha e espalhar a terra e as raízes. 


História de MHSG

sábado, 19 de março de 2022

A Ucrânia e a "Realpolitik"

A primeira palestra tem seis anos. É uma Crónica de uma Morte Anunciada.

   
O segundo vídeo é o complemento do primeiro, já depois do início da Guerra na Ucrânia.

Realism is one of the dominant schools of thought in international relations theory. Political realism, is a view of international politics that stresses its competitive and conflictual side. It is usually contrasted with idealism or liberalism, which tends to emphasize cooperation. Realists consider the principal actors in the international arena to be states, which are concerned with their own security, act in pursuit of their own national interests, and struggle for power.

The strong do what they will, and the weak suffer what they must!

It has nothing to do with "rights"! When you talk about great power politics, rights in a final analysis, just don't matter. Might makes right!


Adenda a 22 de Março de 2022 (28º dia da Guerra)

segunda-feira, 14 de março de 2022

Karl Popper e os Beatles


"Para compreender o futuro ao ponto de se conseguir prevê-lo, é necessário incorporar elementos do próprio futuro!"

A possibilidade de lutar com palavras, em vez de lutar com armas, constitui o fundamento da nossa civilização.
A tentativa de trazer o céu para a Terra invariavelmente produz o inferno.
Não é possível discutir racionalmente com alguém que prefere matar-nos a ser convencido pelos nossos argumentos.
Se não estivermos preparados para defender uma sociedade tolerante contra os ataques dos intolerantes, o resultado será a destruição dos tolerantes e, com eles, da tolerância.

Karl Popper (1902 – 1994) Um dos filósofos mais influentes do século XX. Nasceu em Viena de Áustria. Por causa da sua ascendência judaica, fugiu antes do início da II Grande Guerra, primeiro para a Nova Zelândia e depois para o Reino Unido. Beatles- 1969 - John Lennon/Paul Mccartney 

 Nunca tinha pensado na letra desta música, que conheço há 50 anos. É sobre a tolerância que a sociedade ocidental tem com os disfuncionais, e que a China, e não só, olha como "Decadência civilizacional".

quinta-feira, 3 de março de 2022

Os russos

 

Eu tenho medo dos russos e não é coisa de agora, nem é por eles serem comunistas e comerem criancinhas ao pequeno almoço. Nada disso! Eu tenho medo deles desde pequeno. 

Talvez a primeira vez que a palavra me alertou, foi quando os meus pais não me levaram a Espanha “por eu ser ruço!”, teria eu não mais que quatro anos, numa altura em que Salazar era rei e se rezava pela conversão da Rússia. Já no Liceu o sofrimento de Roma às mãos das invasões bárbaras vindas do Leste, ficou-me a borbulhar no bestunto como um perigo a que era necessário estar atento, não se fosse repetir e, quando estudei um pouco da mitologia grega e me deparei com as Amazonas que  também desciam desses lados para matar tudo o que era homem, então é que até delas iniciei receios, mesmo quando os seus cabelos louros e feições perfeitas estimulavam a minha líbido de teenager.

Agora, olho para os russos como os descendentes dos Tártaros e tártaro não é uma coisa boa, pelo menos para os nossos dentes. Admiro-os nas artes, sejam elas artes plásticas, música, dança ou literatura, mas não os tenho em consideração no desporto, nem pelos seus feitos bélicos ou aeronáuticos. Aqui, onde eles também são bons, vejo atitudes de confronto, onde vale tudo para cumprir objetivos determinados centralmente por governos que se põem continuamente em bicos de pés, em vez de se preocuparem em percorrer o caminho paulatinamente com mestria e segurança para dar ao seu povo as melhores condições de progresso.

Os seus heróis metem-me medo. Pedro o Grande construiu S. Petersburgo, no início do século XVIII, num pântano, com o trabalho escravo de prisioneiros de guerra suecos e de presos russos onde morreram aos milhares. De Ivan “o Terrível” ficou-me o filme sombrio de Sergei Eisenstein, cheio de intrigas e traições. Rasputin mete medo a qualquer um e os revolucionários de 1917: Lenine, Trotsky, Estaline arrepiam pela desumanidade. 

A “pátria do comunismo” é egocêntrica e pouco eficaz em melhorar as condições das populações. É uma “potência” que pouco contribuiu para o mundo. Electicidade, motores a vapor e de explosão, máquinas de lavar, computadores e robótica pouco lhes devem, e, no campo da saúde, tirando o Pavlov, não trouxeram novidade prática. Os seus cientistas foram preferencialmente aproveitados para as armas e para a engenharia aeroespacial e nuclear, mas mesmo aqui, à custa de cérebros da  Alemanha nazi.

Vejo no imaginário russo, um povo guerreiro, pouco globalizado, com forte espírito nacionalista, disposto a submeter os outros à sua agenda. O colapso da URSS está-lhes entalado. Não aceitam que não foram capazes de gerir esse imenso espaço que foi a União Soviética e agora recorrem à força para fazer valer “os seus direitos” sobre quem já decidiu não querer voltar ao passado.

Hoje é a Ucrânia, já foi a Georgia, já foi a Moldávia. Quem será o país que se segue?

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Aerograma


Por falar em Natal!

Alguém se lembra das mensagens de Natal enviadas pelos soldados que combatiam nas ex-colónias e passavam na RTP, à hora do jantar? Se bem me recordo, começavam em Novembro e prolongavam-se bem para além do Natal e Ano Novo. As famílias entristecidas prostravam-se desarmadas à frente do televisor à espera de ver o seu filho, neto, irmão ou noivo por breves instantes na televisão a preto e branco. Os jovens rapazes (sim, eram só rapazes!) que haviam sido retirados das suas famílias e dos seus lugares, muitos deles analfabetos, apareciam à vez, de camuflado, camisa aberta e boné desalinhado na cabeça, a desejar Boas Festas à família, enumerando pais, avós, irmãos, tios, sobrinhos, noiva, namorada ou mulher, de modo mecânico, repetitivo em fórmula convencional em que os desejos de Próspero Ano Novo era frequentemente enrolado na língua, pela dificuldade deste estranho vocábulo.

Prosperidade era assunto a que eram alheios, tanto mais numa terra estranha onde combatiam sem saber quem ou porquê. Estranho era também estarem estes rapazes, em ambiente de guerra, a desejar Bom Natal... Também nos aconteceu esperar pela mensagem do único de nós que foi para a guerra em Moçambique. Não há Natal que não recorde o semblante sério com que se nos dirigiu, com votos de Bom Natal em oito palavras. Ficámos comovidos e impotentes... Como teríamos desejado que não fosse assim! Algumas das mensagens, quando escutadas, já tinham sido precedidas pelo terrível notícia que ninguém queria ouvir quando um seu ente querido parte para a guerra.... Que sofrimento!

A guerra colonial ainda não foi exorcizada entre nós. Ainda há muita dor por resolver.
Hoje, ao mexer nas gavetas encontrei um aerograma. Era assim que se chamavam umas folhas pré-formatadas em papel amarelo ou verde, isentas de selo, em que se fazia a comunicação com os militares. Um dia este aerograma apareceu na caixa do correio dirigido "à primeira jovem que encontrar na Rua da Constituição". Era o pedido modesto de um rapaz soldado para ter uma madrinha de guerra. Para mim, com 17 anos, era estranho este pedido, mas de alguma forma senti-me na obrigação de responder, não me recordo como, talvez de modo infantil... Na volta do correio (como então se dizia) chegou novo aerograma... Esse não guardei. Recordo apenas que pedia uma fotografia minha de preferência de corpo inteiro e em fato de banho... Assustada não respondi. Se realmente estes últimos Natais têm sido difíceis, não deixemos de pensar que já houve piores e continua a haver dor e sofrimento e que podemos disfrutar do que temos, enquanto temos.

História de M. H. S. G.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

O que eu vou lendo

 

Os perdedores, como os autodidatas, têm sempre conhecimentos mais vastos que os vencedores: se queres ser vencedor tens de saber uma coisa só e não perder tempo a sabê-las todas, o prazer da erudição está reservado aos perdedores. Quantas mais coisas uma pessoa sabe, mais as coisas não lhe correram como deveriam.

“Não se faça de ingénuo. Estamos a falar de finança, não de comércio. Primeiro compras, depois tratarás de que o dinheiro para pagar te chegue.”

 In “Número Zero” de Umberto Eco

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Joshua Lee Turner


Este tipo toca que se farta, canta como um canário e faz "pendant" com muita gente. É um gosto vê-lo e ouvi-lo.
Obrigado por te disponibilizares no Youtube! 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Ciência

 

Eu acredito na Ciência. É uma fé com reservas, que nada tem de religioso. A Ciência é um clube internacional amigável, onde a maioria dos seus membros alimenta a esperança de um futuro melhor. Mas os cientistas são gente como nós, capazes dos maiores vícios e das maiores virtudes e, na sua curiosidade, podem não resistir a questões “éticas” e abrirem portas para o inferno.

Quando olhamos para o futuro numa escala de tempo de cem anos, que é o limite da nossa esperança de vida, devemos definir as causas a que se devem dirigir as nossas lealdades. As lealdades com a família, tribo e instituição estão profundamente enraizadas na nossa natureza e transcendem as nossas vidas individuais. Sem essas causas maiores que nós próprios, não seríamos humanos.

Cem anos é também o limite técnico para a previsibilidade. Qualquer tecnologia, como o carvão, o vapor, a electricidade, o microChip, o ADN recombinante ..., fica dominante, no máximo, durante cem anos, até ser eclipsada pelas suas sucessoras, que não se podem prever, pois basear-se-ão em descobertas ainda não efectuadas.

Há duas espécies de revoluções científicas. As provocadas por novos instrumentos e as que derivam de novos conceitos. O efeito de uma revolução de base conceptual consiste em explicar velhas coisas de novas maneiras (Copérnico, Newton, Darwin, Maxwell, Freud, Max Plank e Einstein). O de uma revolução baseada nos instrumentos é descobrir novas coisas que têm de ser explicadas (Termómetro, Microscópio, Luneta astronómica, Barómetro, …, a Máquina de fiar, Máquina a vapor,… Microscópio electrónico, Computador e Bancos de memória, …)

Mas o "saber" é perigoso, como aprenderam Adão e Eva ao provarem o fruto proibido da árvore do conhecimento. Os deuses não querem que o Homem algum dia se lhes equipare e fazem com que as suas descobertas lhe acarretem cada vez maiores riscos, coisa nem sempre entendida por alguns governantes, pois, na política, arriscar uma má decisão é melhor que ser indeciso, enquanto que na Ciência se ganha respeitabilidade quando se diz “mais vale seguro que arrependido!”

E, no Mundo, quem decide o que se faz e o que não se faz, não são os cientistas!

O problema fundamental para a sociedade humana no século XXI, é o desajustamento entre a tecnologia e as necessidades básicas dos pobres – habitação, saúde, educação. A separação entre tecnologia e necessidades é grande e está a aumentar. Se a tecnologia continua no seu curso actual, ignorando as necessidades dos pobres e inundando os ricos de benefícios, mais tarde ou mais cedo, os pobres revoltar-se-ão contra a tirania da tecnologia e optarão remédios irracionais e violentos. No futuro, como no passado, é provável que a revolta dos pobres empobreça igualmente ricos e pobres.

In “Mundos imaginados” de Freeman Dyson



segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

O Tony Gordo e o Engenheiro John

 


O Tony Gordo é um paisano, de mãos grossas e peludas, a quem a roupa assenta mal. Tem uma personalidade bem-humorada e poucos estudos. Leva uma existência gregária e o excesso de peso é o seu maior problema. Começou como empregado de um banco nos idos anos 80, no departamento de letras de crédito. Mais tarde passou a atribuir empréstimos a pequenas empresas e a perceber o jogo de obter financiamento junto dos grandes bancos - os seus procedimentos burocráticos e aquilo que gostam de ver no papel. Ainda como empregado, começou a comprar às instituições financeiras propriedades em processo de falência. A maior conclusão a que chegou foi a de que os funcionários do banco que vendem as casas que não lhes pertencem, não se preocupam tanto com o negócio como os verdadeiros proprietários. Também aprendeu a comprar e a vender com dinheiro emprestado. 

O Dr. John é um engenheiro a trabalhar como analista numa Companhia de Seguros. Possui um doutoramento em informática e realiza simulações de “gestão de risco”. É magro, diligente, sensato e amável. Usa sempre fato, conduz um carro desportivo e é previsível como um relógio. Antes de entrar no emprego, lê atentamente o jornal e dobra-o muito bem para a continuação ao almoço.

Enquanto Tony enriquece os donos dos restaurantes, que rejubilam quando o veem entrar, John, todas as manhãs, acondiciona meticulosamente a sua sanduiche, fruta e salada num recipiente de plástico.

Vou submetê-los a uma mesma questão.

-Imagine que uma moeda é justa, ou seja, que existe a mesma possibilidade de cair em cara ou coroa quando atirada ao ar. Eu lanço-a noventa e nove vezes e de todas as vezes, a moeda fica com a face  cara virada para cima. Quais são as probabilidades de a moeda cair com a face de coroa para cima, da próxima vez que eu a atirar?

- Dr. John: É uma pergunta simples. 50%.

- Tony Gordo: Eu não diria mais que 1%.
- Mas porquê, Tony Gordo? Dei-lhe na premissa inicial que a moeda era justa!
- Tony Gordo: Ou tem a mania que é esperto ou é completamente "otário". A moeda só pode estar viciada. Não pode ser jogo limpo!
- Mas o Dr. John disse 50%!
- Tony Gordo (sussurrando): Conheço bem estes tipos “marrões”, desde o meu tempo de escola. Pensam demasiado devagar. Dá-se-lhes bem a volta!


Alguma vez se interrogou por que razão tantos alunos brilhantes acabam por não ser ninguém na vida, ao passo que outros, com um passado de reprovações, têm agora sucesso?
Isto poderá estar relacionado com alguma sorte, mas existe uma qualidade estéril e obscurantista, muitas vezes associada ao saber académico, que poderá impedir-nos de perceber o que verdadeiramente se passa na vida real.

Fragmento resumido de página de "O Cisne Negro" de Nassim Nicholas Taleb

domingo, 16 de janeiro de 2022

Era uma vez uma velha que morava numa ilha

Fosse eu o meu tio-avô Rogério, entraria de rompante e, com alta voz, declarava: "Eu é que sei! Assim é que é!. 

O assunto que hoje aqui me traz, tem a ver com o respeito pela tradição oral, porque a História tem de ser lida à época e o "politicamente correcto" raramente nos ajuda, mesmo quando há violência doméstica e gente feita da pele do diabo. É que as histórias têm de ter coerência e "pôr um gato a andar de rabanete", não só não tem lógica, como é pior que "atirar o pau ao gato".

O que tenho na memória, de há mais de meio século, reza assim: 

Era uma vez uma velha que morava numa ilha
E tinha um gato com os olhos cor de ervilha.
Que, por sinal, era muito lambareiro
E de tudo o que era petisco, andava sempre ao cheiro

Certo dia encontrando um chouriço
Meteu ao estreito o patife do enguiço. 
Vindo o dono do chouriço p'ra jantar
Encontrou a mulher a soluçar.

Oh mulher, o que tens, o que foi isso?
Foi o gato que nos comeu um chouriço!
E o homem pegando num cacete
Fez do lombo da mulher um perfeito tamborete.

E a mulher começando a gritar
Acorreu muita gente do lugar.
E aparecendo a Polícia, de repente
Começou a desancar em toda a gente.

Mas a velha que era levada do diabo
Bateu no guarda, no sargento e até no cabo.
E aqui está como se forma um reboliço
Por causa d´um gato roubar um chouriço.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

A minha bisavó Maria


Fevereiro de 1926

A minha bisavó Maria da Conceição Costa (f: 1964) e António Faustino de Andrade em Torres Vedras (onde era tesoureiro da Fazenda Pública). 
Atrás os filhos. Da esquerda para a direita - Alberto, Amílcar, o meu avô António Santos (1895 - 1970) e o filho de ambos Faustino de Andrade, que teria nesta altura 13 ou 14 anos. A senhora em baixo é a minha avó Helena (1901-1987), um mês depois do nascimento de minha mãe.

Foi o seu segundo casamento. Do primeiro com um agricultor de Cotas- Alijó, nasceram três filhos. Não conheci esse meu bisavô. Consta que gostava pouco de trabalhar e que não emparelhava com o espírito desenvencilhado da minha bisavó, o que a fez pegar nos filhos ainda pequenos e casar-se em segundas núpcias com este António Faustino que, reza a história, terá conhecido numa viagem de comboio para o Porto.

Estávamos no princípio do Século XX, com leis e costumes bem diferentes dos de hoje, que levam a perguntas sem resposta. Como é que ela sai daquela aldeia com a prole, deixando para trás o marido, num tempo em que não havia divórcio? Certo é que ela era uma mulher de fibra, incapaz de se acomodar a um homem que não trazia soluções nem pão para casa. 
E o que fazia ela num comboio para o Porto? E o que fez o António Faustino encantar-se por uma  transmontana, com 3 filhos? 

Este homem, ali sentado, de aspecto imponente, provou ser muito boa pessoa ao criar os rapazes como filhos. Empregou o meu avô na tesouraria em Torres Vedras (terra onde onde conheceu a minha avó) e posteriormente deu-lhe casa no Porto. Faleceu em 1947, quinze dias depois do casamento dos meus pais, onde se divertiu e dançou debaixo do véu da noiva. 

A minha bisavó, à sua direita, que até aos últimos dias cuidou de receber as rendas dos inquilinos, faleceu ao telefone depois de combinar um passeio com um dos filhos. Como estava pronta para sair, não a prepararam de novo e foi enterrada com a bolsa de dinheiro que trazia sempre debaixo da saia.

sábado, 11 de dezembro de 2021

Formalidades

Esta semana, deu-me para visitar Platão e, de link em link, cheguei a esta palestra sobre Jane Austen, no YouTube, onde a dra. Lúcia Helena Galvão aproveita dois dos seus livros: Orgulho e Preconceito e Sensibilidade e Bom Senso, para nos falar de civilização.

Não li os livros, só vi os filmes, que entendi como mais umas histórias de "amor", sem qualquer relação com o pensamento que a filósofa Lúcia lhes dá. Segundo ela, Jane Austen apresenta neles as normas civilizacionais que permitiram à Inglaterra tornar-se uma potência mundial, pois a formalidade nas relações humanas é fundamental para que as sociedades progridam.

Na tropa, os símbolos e os códigos de conduta continuaram sempre bem definidos e aceites e o seu incumprimento tem consequências, mas na vida civil, no Ocidente das últimas décadas, a informalidade tem ganho espaço. A queda dos antigos protocolos éticos não foi acompanhada pela criação de novos códigos igualmente eficazes, onde não se questione e desrespeite o que se não conhece profundamente.

A "informalidade" não é um valor civilizacional e o descuido com as “formalidades sociais” pode-nos levar à catástrofe. 

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

How To Speak by Patrick Winston


Patrick Henry Winston (1943 – 2019) was an american computer scientist and professor at the Massachusetts Institute of Technology. Winston was director of the MIT Artificial Intelligence Laboratory from 1972 to 1997.

A palestra é de 2018. Tem legendas em inglês (não são boas, mas ajudam).

We are lucky that we live in an age where we can watch/listen to something like this for free

sábado, 4 de dezembro de 2021

Cabeleireiros

 

 

Arnaldo, Alcino, António, Alfredo…são os nomes dos cabeleireiros que me puseram as mãos na cabeça nos últimos anos…todos começados por A por coincidência…

O resultado é o que se sabe e não os culpo. Não se podem fazer milagres! mas o que me suscita reflexão é o padrão de comportamento.

A delicadeza de trato deixa revelar uma vontade de corte…ou não sejam eles instruídos na tesoura que seguram com mestria entre o polegar e o 2ª dedo com ajuda do 4ª dedo, trinando o seu ruído metálico afiado bem junto dos meus ouvidos.

O “como vai ser hoje?” de cortesia, é comunicado sempre através do espelho, e fica estranho falarmos de frente com alguém que está sempre nas nossas costas…

Não sou de conversas intimistas nem de falatórios sobre as vidas alheias, sejam públicas ou privadas, o que, reconheço, torna a minha visita ao cabeleireiro um enfado para os ditos.

Colocam-me uma revista nas mãos, sempre a última “acabadinha de chegar” que finjo ler pois, sem óculos, apenas vejo as figuras - como quando tinha 5 anos e lia as “Selecções do Reader´s Digest” que existiam lá em casa. Vou percebendo que os que se divorciam este mês são os mesmos que há dois meses tinham o casamento de espavento noticiado nas páginas centrais e que de namoro em namoro, as pessoas que alimentam este negócio, vão sendo fotografadas em casas de luxo que os iludem de riqueza.

E eu, de tinta na cabeça a limitar a testa de modo irregular e de plásticos pretos à volta do pescoço presos por molas de cabelo, olho o espelho e penso, invariavelmente, na eventualidade de ocorrer, naquele preciso momento, um incêndio naquele salão e de me ver a fugir para a rua naquele preparo.

“A água está boa assim? se quiser posso por mais fria…ou mais quente!” - Mas para mim está sempre bem - ou acertam sempre ou a minha sensibilidade capilar é nula; e mesmo este momento de comunicação é breve para logo se voltar ao silêncio comunicacional.

Também o “está prontinha” quer laca? é tão previsível…

O que é novo para mim é que o salão, que frequento agora, tem 3 degraus. E não é que o Sr. Alfredo se apressa a dar-me o braço para que eu não caia….!!!!!!

Só quero pagar e sair para respirar.

Sempre foi assim. Não gosto de ir ao cabeleireiro.

Lembro-me de ter uns 6 anos e de o cabeleireiro ter ido a casa fazer-me caracóis com bigoudis de ferro, pesadíssimos, aquecidos e colocados na minha pobre cabecinha que cabeceava com o peso, enquanto eu gemia com a dor e sensação de carne queimada no meu couro cabeludo. Não foi uma boa experiência e o resultado foi uma carapinha que me conferia o ar angelical necessário para a função que me estava atribuída. Eu seria o anjo, com asas e tudo, que seguraria a tolha da comunhão nas cerimónias de Comunhão Solene do meu colégio. Isto numa família de não crentes!!!

Mais tarde, no cabeleireiro “Mateus” em Costa Cabral, ao ver que todas as senhoras ao saírem metiam dinheiro nos bolsos das empregadas, achei que tinha aí a minha oportunidade de brilhar. Pedi uma moeda à minha mãe que ma deu sem que eu lhe dissesse para que a queria. À saída, garbosa, e de cabeça erguida coloquei a moeda no bolso da casaca do Sr. Mateus – o dono! Senti-me adulta e se não fora o sorriso complacente e a troca de olhares entre ele e a minha mãe não me teria apercebido do caricato da situação.

Ainda hoje, 60 anos depois, me sinto corar quando recordo este episódio.

História de MHSG

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

A 3ª Dose



A terceira dose de vacina não teve história. Lamento.

A fila de 200 pessoas que ordeiramente esperavam pela sua vez, era pontuada muito raramente por um comentário de desagrado, que não interferia com o colectivo e depressa se retomava o silêncio.
Num dia frio de sol, até sabia bem alternar o sol quente do meio dia com as sombras dos robustos plátanos que fazem o contorno do campo de treinos.

Para nos tornar a espera mais agradável, alguns soldados, em perfeito alinhamento, faziam marcha cadenciada de esquerdo, direito, que passava a passo de corrida e a um súbito direita volver. O suficiente para que todas as cabeças se virassem para acompanhar o espectáculo e, ao mesmo tempo, verificar com alívio o comprimento da fila que, entretanto, se formara atrás. Há quem esteja pior! 
Outros soldados faziam exercício junto a uma parede, para nosso deleite. Parecia que estavam a jogar ao "jogo da estátua" ou à “minha mãe dá licença?".
Até música houve, com um solo de corneta bem timbrado.

Pudemos assistir à chegada de uma carrinha frigorífica da "Petit Forrester", carregadinha de vacinas, que arrancou de todos um sorriso de alívio por detrás das máscaras..., que os olhos não mentem.! Tanto mais que à entrada do enorme quartel, o segurança tinha informado que a casa aberta já tinha fechado, aquela hora, por se terem acabado as vacinas.
Nada de especial.

Quando, ao fim de uma hora, foi atravessado o primeiro patamar de espera, esperava-nos uma enorme tenda, daquelas que se usam em casamentos com cadeiras coloridas que emprestavam ar de festa a esta solenidade. Aqui a aproximação física entre os candidatos à vacina foi maior, pois o sistema de encaminhar pessoas em corredor serpenteante, obriga a que nos vejamos pelas costas e pela frente. E isso não é bom! Ao ver as caras enrugadas e o ar de sofrimento tenho sempre a tentação de deixar passar à frente aqueles que parecem mais velhos do que eu... Mas são todos!.... E todos somos da mesma idade!

Não houve lugar a qualquer episódio caricato.
Mesmo a “senhora de idade” que precisou de se sentar no chão para descansar as pernas, vinha prevenida e começou a ler o Público. Ainda assim, houve quem quisesse perturbar esta paz... Quem saía da vacinação, já com esta feita, ia entre risinhos dizendo para a fila que esperara três horas e meia. Outros lançaram um "tenha paciência...." e até alguém aventou que na quarta dose ia ser pior.

Pouca coisa. Não dá história.

A proximidade física não é boa em tempo de Covid, mas a nossa população não desperdiça a oportunidade de entabular uma conversa.
Como não sou capaz de me integrar em grupos de conversação com desconhecidos (embora os meus vizinhos de fila se tivessem esforçado), vi-me entalada entre dois grupos. O grupo de homens à minha frente, falava sobre a sua experiência com vacinas prévias, do mesmo jeito que as mulheres partilham as experiências da gravidez e parto, metendo obviamente bicadas à organização e de como era bom antigamente, em que nem televisão havia, "porque a televisão em Portugal começou em 58!" Atrás de mim, em cima dos meus ouvidos, um grupo de três mulheres contava a sua vida com voz estridente, desde as meias que usam para não ter frieiras até à técnica para ludibriar a filha, para comer as sandes de leitão às escondidas. Esta última, camuflava num par de jeans muito justo a pele sobrante das gorduras de outros tempos. Ainda antes de a ouvir dizer que estava a tremer de fome e que desde que tinha sido operada ao estômago tinha que comer muitas vezes, já eu tinha feito o diagnóstico. Depois, foi só ouvir a conversa que girava a volta do que tinha comido e do que ia comer e de como dissimuladamente o fazia. Ainda ontem tinha comido leitão até lhe chegar com o dedo. Também fiquei a saber que "-Eu sou franca! Moro sozinha! Às sete horas como a sopinha e vou para a cama, ligo a televisão e tento matar os bichinhos no telemóvel. A minha médica proibiu-me de fazer renda e bordar, por causa das artroses. Eu sei que o telemóvel também não faz bem, mas tenho que apanhar estas duas aranhas..."

Pobres médicos de família!

Assim, ao fim de quatro horas, saí do centro de vacinação como de um filme de Manuel de Oliveira. Cansada, sem ter percebido nada, sem história para contar mas com dores nos braços.

Na quarta dose deve ser melhor!

História de MHSG