domingo, 26 de março de 2017

O Ocaso dos Deuses (27) - A day in the life


Pouco passava das nove horas da noite, quando Hipólito se foi deitar. Aquele dia cheio de novidades aguardava que o sono lhe desse alguma arrumação. Quem trabalha com os braços ignora que pensar cansa mais que muitos trabalhos manuais. Pôs o CD dos nocturnos de Chopin, da Maria João Pires, no leitor e esperou que os olhos se fechassem.
Acordou, dez horas depois, no meio de um sonho. Procurava o automóvel num imenso parque onde todos tinham a cor do seu, e clicava repetidas vezes no comando da chave, sem que nenhum piscasse.
-Ufff! Não admira que se morra a dormir!, disse, enquanto se sentava na cama, ainda com o coração acelerado.
Se os sonhos dizem alguma coisa, esse estava em consonância com o seu estar: procurar o particular, naquilo que parece igual.

Apressou-se para chegar a tempo a um lugar do parque de estacionamento do hospital. A cidade atirara a população para a periferia e obrigava, mesmo os mais pobres, ao transporte individual. Aquele era dos poucos locais gratuitos e sem risco de ser multado, pelo que o estacionamento desordenado era a regra. Depois de cheio, um telefonema para o número do papelinho deixado no tablier, era suficiente para fazer alguém correr para aquele espaço tornado possível.
Era dia de Urgência e Hipólito fora avisado da falta de especialidades na Escala o que era frequente nas que tinham quadros mais reduzidos, nos períodos de férias, nas doenças e nos congressos ou outras formações. Nessas alturas, havia de decidir transferências dos doentes que necessitariam de parecer urgente.
Recebeu o turno e abriu o computador. Eram quatro os doentes à espera de Psiquiatria. A médica adoecera e não fora possível a sua substituição.

1:  Estava a receber subsidio de desemprego, mas faltou às apresentações e este foi-lhe cortado. Está a beneficiar de refeições da cantina social.
Não tinha solução para a vida e começou a vender os móveis da senhoria. Diz que teve consciência do que estava a fazer e que sempre pensou que o ia repor, mas ... não conseguiu.
Recebeu ordem de despejo. O pai é o fiador e tem pago todas as despesas.
Nunca ligou muito à escola e não concluiu o curso profissional.
Já trabalhou em inúmeras áreas (vendas, restauração e indústria). Onde trabalhou mais tempo (1 ano) foi no shopping a vender cartões de um Banco. - "Nunca fui estável em nível de empregos... ou por conflitos ou porque me fartava!"
Tem poucas amizades e foi-se distanciado dos familiares. Sempre quis a sua independência!
Presentemente não tem casa. Não parece possível voltar a residir com o pai, por também lhe ter vendido bens. -"Ele é de outra geração e não nos entendemos! Só pensa em dinheiro!".
Gostava de criar uma associação para ajudar pessoas. Quer ajudar o mundo, ter impacto nacional ou mundial. Impacto na televisão! Escrever um livro de auto-ajuda, dar conselhos …, auxiliar na procura de emprego!
2: Solteiro. Vive só. É electricista. Perdeu o controlo dos consumos de álcool há três anos, aquando de separação conjugal. Bebe nove a dez cervejas por dia.
Ontem de manhã, veio ao SU com o intuito de fazer “tratamento de desintoxicação” e foi orientado para o CRI. Depois, bebeu catorze “Macieiras” e à tarde foi resgatado do rio, para onde se atirou.
Ultimamente tem-se sentido mais nervoso e “pensativo". Nega ter planeado o gesto.
Já teve dois internamentos por Síndrome de Dependência Alcoólica. É filho de pais alcoólicos. Fuma um maço de tabaco por dia.
3: Há quatro dias teve uma quezília com a mãe. Saiu de casa e passou a noite na casa de uma tia. No dia seguinte voltou. Sentiu-se criticada e pressionada. Teve uma crise de nervos e desmaiou. Tentou sair de casa, mas foi impedida. Acabou por o conseguir e foi encontrada e tranquilizada por outros familiares, que a trouxeram ao Serviço de Urgência.
Relaciona o seu estado actual com conflitos familiares frequentes, sobretudo com a mãe, que questiona toda a sua vida, lhe lê o diário e a agenda e se intromete nas suas conversas com os amigos e namorado (tem um relacionamento há cerca de um mês). Sente-se invadida na sua privacidade e independência.
No Serviço de Urgência, terá encontrado (diz que por coincidência) um ex-namorado, com quem cruzou olhares e algumas provocações, após o que ficou muito ansiosa. Despiu as calças e as cuecas e ficou apenas com a camisola vestida, ... para o "provocar". Isso deu-lhe "algum gozo!".
Quer equilibrar-se e mostrar à mãe que sofre. Diz necessitar de umas férias!
4: Divorciado. Tem uma filha, que vive longe. Tem a 4ª classe e o 9º ano através das Novas Oportunidades. Esteve emigrado na Suíça. Há quatro anos foi reformado por motivos psiquiátricos.
Nas últimas semanas já recorreu ao SU por três vezes. Na última, psiquiatria reiniciou-lhe terapêutica anti-depressiva, que não cumpriu.
Diz ter descoberto que a companheira, com quem viveu nos dois últimos anos, o tem traído. Desde então não tem apetite e tem dormido muito pouco. Ouve barulhos durante a noite - "móveis a estalar e outros ruídos estranhos!”. Hoje, ao acordar, deparou com a "casa toda aberta, com as janelas escancaradas!”.
A sua intenção actual é comprar uma arma, a um cigano, dar dois tiros em cada perna da companheira e depois, entregar-se à polícia!"

Hipólito encaminhou-os e passou às doenças do corpo que, apesar de poderem ser fatais, são mais fáceis de entender, mesmo quando afectam gente de idade e sem capacidade de se exprimir.
1:  98 anos; trazida por prostração desde ontem. É dependente, mas ajuda no vestir e por vezes trata da sua higiene sozinha. Reconhece os familiares.
TA:148/83mmHg; Temperatura auricular: 34ºC; Saturação de O2: 99%; Frequência Cardíaca: 78 bpm
Responde a questões simples. Diz que tem frio.
2: 83 anos. Acamada. Solteira, Vive com uma sobrinha, que é a cuidadora. Referenciada ao SU por afasia súbita. ...
3: 86 anos. Trazido do Lar por dispneia intensa e febre, com inicio esta manhã.  ...
4: 94 anos. Trazido ao SU por prostração e recusa alimentar ...
5: 33 anos. Obesidade mórbida. Recorre ao SU por dor précordeal ...
n: ...

20:00h. Passou o turno, vestiu-se, pôs o dedo no pontómetro e saiu.
Junto à porta do automóvel notou um pequeno crucifixo, em prata, a brilhar no chão. Olhou em redor e não viu ninguém. Ia metê-lo no bolso quando ouviu uma voz.
- Obrigado! Estou aqui caído há quatro dias! Chamei-te, quando chegaste, mas com a pressa não me ouviste! Estava a ver que ia ser esmagado!".
Hipólito passou o indicador sobre a imagem, como a limpá-la e, no segundo seguinte, viu Jesus sentado a seu lado, no lugar do morto.
- A que devo a tua visita!? perguntou.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Lições de rua


O que a gente aprende nas feiras de Londres

quarta-feira, 22 de março de 2017

quarta-feira, 15 de março de 2017

sábado, 11 de março de 2017

segunda-feira, 6 de março de 2017

Konrad Adenauer


...

Na determinação da jovem Alemanha Ocidental de parecer uma sociedade aberta e democrática, todas as portas estavam abertas ao jovem diplomata curioso. Eu podia ficar sentado todo o dia na galeria dos diplomatas do Bundestag e almoçar com jornalistas e conselheiros parlamentares. Podia bater à porta de ministros, assistir a comícios de protesto e sofisticados seminários ao fim de semana sobre a cultura e a alma alemãs, ao mesmo tempo tentando descobrir, quinze anos depois do colapso do Terceiro Reich, onde terminava a velha Alemanha e começava a nova. Em 1961, não era nada fácil. Ou não para mim.

Um ditado atribuído ao chanceler Konrad Adenauer, cuja alcunha era - "O Velho Homem", que deteve o posto desde a fundação da Alemanha Ocidental em 1949, até 1963, resumia concisamente o problema: " Não se deita fora água suja, enquanto não se tiver água limpa!".
...
in "O túnel dos pombos" de John le Carré


mas o mesmo Adenauer que disse “Temos que aceitar as pessoas como são, porque não existem outras!”, também afirmou que "Um método infalível de entrar em acordo com um tigre, é deixar que ele nos devore!".

...  Temos dito!

domingo, 5 de março de 2017

Animais do meu jardim



Nem só de flores se faz um jardim!

domingo, 26 de fevereiro de 2017

O Ocaso dos Deuses (26)


O Arcanjo riu e perguntou: - Mas porquê o Quixote se ele sofre de Demência Fronto-Temporal?
- Porque eu necessito de alguém, consensual, com um misto de agressividade, impulsividade, inflexibilidade, comportamento inapropriado, ilusões e falsas concepções, que possa proclamar liberdades, questionar costumes e proferir inconveniências, com total inimputabilidade.
Ele tem 400 anos de provas dadas, o que é mais que suficiente. Nada como um louco para apontar o dedo à Justiça.

- Então é ele que queres para me questionar?, pasmou S. Miguel, fazendo subir e descer os pratos da sua balança.
- Exactamente!, respondeu Hipólito. – Não é necessário que um homem conheça as razões que o movem quando opta por um de dois caminhos. Querendo, pode mesmo iludir-se sobre os motivos da escolha, atribuir-se virtudes que não possui, inventar pretextos e invocar imperativos ditados pela boa índole, pela rectidão moral, pela fibra ética, pelos princípios. Pode tentar convencer-se de que é o amor que o move e que é a Justiça que o obriga; reclamar-se guardião dos mais elevados ideais e argumentar que a sua defesa justifica o uso de qualquer meio.
O homem vive de enganos. Inventa deuses, persevera em acreditar neles e cuida para que os demais creiam também com tanto ou maior fervor. Não tem ideais, tem humores. E este é o móbil de todas as suas acções, das boas e das más, dos gestos acertados e dos erros. As disposições humanas, por mais volúveis ou ponderadas, constroem os destinos e todas as coisas, ditam sortes e convocam desgraças.

- Vejo que citas de cor o Manuel Jorge Marmelo no “O homem que julgou morrer de amor”.
- Não te sabia leitor, pelo que ainda mais te admiro! Julgava-te um fundamentalista, mas dou a entender-te como alguém à procura de um equilíbrio dinâmico para a humanidade, que sabe que o homem é, de entre todos os animais, aquele que mais se assemelha ao lobo: se devidamente alimentado e vestido, com um punhado de moedas na mão, chega a parecer dócil e assustado, mas se tem a barriga vazia transforma-se num ser selvagem, capaz de renegar os seus deuses e amaldiçoar as suas crenças, sem pestanejar antes de fazer o que julga necessário para ganhar o direito ao alimento que lhe falta, e até de dar caça ao seu pai, irmão ou mestre, o que inspirará gerações e as ensinará a vencer sem olhar a meios, armado apenas de pragmatismo, da determinação e do ódio que faz dos fracos vencedores.

- Fim de citação!, riu o Arcanjo. Hipólito que, com o ânimo, se tinha levantado, voltou a esparramar-se no cadeirão, simulando um grande cansaço.
- Desculpa a referência. Lembrei-me deste trecho porque, de vez em quando, tropeço em colegas de profissão que evoluem para “testemunhas de Jeová da Medicina”, decididos a impor o seu modo de estar não só na profissão, como também no dia-a-dia. Costumam dizer que a Medicina é um “sacerdócio”, mas se lhes pagam menos do que as suas expectativas, passam à peixeirada e esquecem o tal espírito de missão que habitualmente reivindicam.

S. Miguel deu dois passos até à janela, de onde se via o mar.
-Então o D. Quixote é o nº 2, e ficará a representar quem reclama por Justiça quando é beneficiário de leis que protegem os seus privilégios.
- Isso mesmo! E também daqueles que se julgam “top” e se cegam para tudo o resto, transformando-se em martelos que em todo o lado vêem pregos!

Depois despediram-se e Hipólito ficou longos minutos a olhar para a nuvem por onde o viu entrar, a pensar se algum dos outros Arcanjos teria características que os pudessem eleger para os números seguintes.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A Roulote-Bar



Na sequência das alterações recentes que desviam doentes para as traseiras do hospital, e na impossibilidade de espaço para um Bar coberto, ir-se-à abrir em breve um concurso para uma Roulote-Bar, que tem por fim servir os inúmeros doentes que diariamente para ali são referenciados para colher análises, para tratamentos em Fisiatria e para as consultas para ali deslocalizadas.

Foi decido cativar dois lugares do parque de estacionamento dos funcionários, para que a Roulote-Bar possa suprir esta crescente necessidade. No inverno, será colocada uma mesa encostada ao vidro exterior do corredor onde se situa a porta da Central de Colheitas e, no verão, será permitida uma pequena esplanada nas imediações.
Esta modernidade, juntamente com o "vai-vem" eléctrico, irá, por certo, contribuir para a humanização e eficiência do nosso hospital.

Bem haja quem assim decide!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Arranhador

Giovanni Pico della Mirandola (Florença - 1463 - 1494), morreu aos 31 anos. Era dono de uma memória privilegiada e sabia tudo e mais alguma coisa.

Desde que soube da sua existência que o invejo. Não por saber tudo, mas por saber mais alguma coisa.
Eu, para não sentir a minha arte limitada à profissão, de vez em quando diversifico.


Hoje foi dia de fazer um arranhador para o gato.

Um tronco de loureiro: 0 €
Restos de uma tábua : 0 €
Restos de dois fios eléctricos: 0 €
7 metros de corda: 2 €
1 parafuso grande: 10 centimos
2 tapetes - 1 €
Total: 3,10 €

    + Uma hora e meia de trabalho 


domingo, 12 de fevereiro de 2017

Corruptelas

Corruptela é a deformação de palavras, originada pela má compreensão/audição ou rápida visualização.

A compreensão depende da literacia do ouvinte. Quem nunca ouviu a palavra taquicardia, tende a ouvir ataque cardíaco e se a palavra obriga a voltas com a língua, em vez de apologista, talvez lhe seja mais fácil "apugilista".
Na terra da minha sogra, não havia rododendros. Lá só se davam "redondelos".
E eu, só bem entrado na vida, é que deixei de dizer "catrapácio!!

É no que dá a ciência de ouvido!

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O Transfer


De acordo com as normas europeias para com as pessoas com mobilidade reduzida, estamos em vias de nos equipar com um pequeno "Vai-vem" eléctrico de cinco pessoas, para transportar os muitos doentes crónicos, da Entrada do Hospital para a Central de Colheitas, que recentemente foi colocada no outro extremo do edifício.
Resolve-se assim o problema dos idosos com graves problemas cardiovasculares e neuromusculares que, há cerca de um mês, lutam com a dispneia e as muletas, para chegarem vivos àquele local.  

Esta opção só foi possível devida à excelente prática de contenção de gastos supérfluos em medicamentos e material de uso clínico, para além da contratação de quem, em concursos públicos, mostrou maiores competências, acabando de vez com as políticas de favorecimento por "cunhas" e dos funcionários que tiraram um qualquer curso como trabalhador estudante.

O "Vai-vem" irá funcionar durante toda a manhã. Prevê-se a sua desactivação quando a Central de Colheitas e algumas Consultas Externas forem deslocadas para fora do Hospital, dando cumprimento à norma 3.77 do Memorando da Troika: Mover alguns serviços ambulatórios dos hospitais para as USF. (2T 2012)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Indecisão Clínica


Há profissões em que só é necessário conhecer as fórmulas e aplicá-las, sem muito pensar.
Há outras que exigem soluções individualizadas e que implicam riscos. Nessas, exige-se "estofo”! 

Mário Soares dizia que um político “assume-se”. Mas não são só os políticos que, para o bem e para o mal, devem assumir as suas opções, sem se esconderem atrás das ineficiências dos outros. Todos os indivíduos com curso superior o devem fazer, principalmente quando lidam com “coisas de muito valor”, como são as vidas humanas.

Um local onde a maioria dos doentes é vítima do adiar de soluções, talvez ficasse melhor identificado como "Unidade de Indecisão Política"!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O Ocaso dos Deuses (25)


“Façamos de 2017 um ano de paz”, instava, nas Nações Unidas, o novo secretário-geral, António Guterres, quando Zeus passava sobre Nova York no regresso a casa. Sorriu com benevolência e disse para consigo. – Reza para que não te apareça pela frente um qualquer tiranete a abanar uma bandeira, pois vais ver que ele consegue um batalhão de palermas dispostos a guerrear!, e retomou rapidamente o rumo na direcção do Planeta Gliese 581 c.

Entretanto Hipólito, já em casa, ouvia, no Telejornal, o Papa Jorge Bergoglio a apontar a evolução tecnológica como a causa da ”orfandade espiritual", o que o pôs a divagar sobre o efeito da maior educação das populações sobre a violência, nos “Illuminati” que temiam que o saber caísse em mãos erradas e em Jesus Cristo e Sócrates que nunca escreveram uma linha e se focaram naquela dúzia de discípulos, para garantir que o seu pensamento não fosse adulterado.

Embora reconhecesse as boas vontades do Papa, não acreditava que o seu caminho tivesse futuro, nem que os santos, que tanto tinham ajudado a sua Igreja no passado, pudessem ter qualquer relevância futura, mesmo que ele se apressasse a criar novos em todo o mundo cristão. A solução para a paz, parecia-lhe estar na educação da população, mesmo correndo o risco do “saber” cair nas mãos de quem não o integre em valores humanistas e ecológicos.

Ora estava Hipólito nestes pensamentos, quando lhe apareceu um anjo no ecrã da televisão. Trazia na mão esquerda uma balança e na direita uma espada. A imagem manteve-se fixa durante uns segundos e depois dirigiu-se-lhe.
- Desculpa se te interrompo as notícias! Há meses que te observo e hoje, ao ver-te enleado nesses pensamentos, decidi abordar-te!
O médico reconheceu-o e puxou o sofá mais para frente do aparelho, para dar intimidade à conversa.
- Muito me honra a visita de alguém que ainda está no activo e com múltiplos afazeres. Mas o que é que em mim te despertou curiosidade!?. Eu sou um clínico sem mais pretensões que as de ter alguma qualidade naquilo que faz.
O anjo pousou os apetrechos, abriu e fechou as asas, para se ajeitar, e pôs as pernas fora do ecrã como se estivesse sentado num muro, para também se chegar ao colóquio.
- Desde que Zeus te convocou para dares assistência ao Lar da sua família, que fiquei com uma pulga atrás da orelha. É que tu nem um doutoramento tens!

O médico tentou disfarçar o sangue que lhe subia às faces:
- Vejo que, apesar de ainda usares espada e uma balança de braços, estás muito moderno. A tua conversa está na onda das universidades que, para se sustentarem, promovem doutoramentos que pouco contribuem para melhorar as práticas profissionais e só alimentam vaidades. Como deves saber eu pertenço à Carreira Hospitalar. Podia ter feito a opção pelo ensino e, se calhar, a esta hora até era professor universitário, mas optei pela actividade hospitalar e, na carreira, atingi o último grau.
- Calma!, respondeu o Arcanjo. - Não vejo o porquê de te zangares! Já tens idade para saber que o homem é um bicho oportunista e que a incompetência sempre achou caminhos para se sobrepor a quem anda distraído das modas que se jogam nas altas esferas.
Hipólito concordou e justificou-se:
- Desculpa, se me exaltei! É que agora qualquer um é professor. Tira-se um doutoramento na glândula sebácea do prepúcio do rato e exige-se um título de professor! Mas adiante! Queres tomar qualquer coisa. Um chá de hortelã ou preferes uma bebida alcoólica quente? Tenho ali um whisky que faz um óptimo Irish coffee!

O Arcanjo Miguel riu com a provocação e não resistiu a perguntar:
- Mas isto é assim ou oito ou oitenta?
- Não queria ofender. Não me digas que és abstémio!
- Se tens essa disponibilidade, aceitava um chá de menta! De vez em quando bebo um copo. Principalmente com a chanfana de borrego ou com a "maqluba". Na maior parte das refeições bebo água. Mas a causa de me teres aqui, foi o teu congeminar sobre o Papa e o pensar que os santos não ajudam a actual Igreja Católica a retomar a sua influência.

Hipólito, pediu-lhe um minuto e foi aquecer água, aproveitando esse tempo para organizar o pensamento. Depois, trouxe a chaleira a fumegar e, enquanto o servia, retomou a conversa:
- Há anos, quando a minha sogra era viva, a toda a hora eu ouvia nomes de santos. Ela vivia num ambiente rural, numa casa onde não havia livros. Os aforismos eram o seu guião para as boas práticas e resguardos, pois quem tem os bens ao relento e não tem seguro de colheitas, muito tem de se lembrar do que se passa nos céus. "No dia de S. Matias (14/5) começam as enxertias.”; “Pelo S. João (24/6) a sardinha pinga no pão.” “Pelo S. Tiago (25/7) pinta o bago e cada pinga vale um cruzado.”; “Nevoeiro de S. Pedro (29/6) põe em Julho o vinho a medo.” ; “Quem planta no S. Miguel (29/9), vai à horta quando quer.”; “Pelo S. Martinho (11/11), semeia o teu cebolinho.” ; “Quem colhe azeitona antes do Natal, deixa metade no olival.”. Era assim o ano todo ...
Mas numa época em que a agricultura de subsistência está a dar as últimas e a terra tende a concentrar-se em grandes multinacionais agrícolas, os santos só dão nome aos dias de folga ou de festa e os mitos de que se fala variam com o que Hollywood vai produzindo.

O Arcanjo saiu da borda da TV e foi para junto da janela. Passados uns minutos, respondeu:
- Dois homens, se são Homens, estão condenados a entenderem-se!, li-o numa crónica do António Lobo Antunes! Quando um homem se liberta dos seus instintos primários e consegue ver para além do seu umbigo, habitualmente entende o outro. Eu pertenço às três grandes religiões monoteístas e sou paladino de quem luta contra os embustes e procura virtude na humildade. Não tenho nenhum contrato com a cúria de qualquer dessas religiões, que as mais das vezes são formadas por gente marcada por crenças sem fundamento. Concordo contigo na necessidade de fazer com que a educação consiga uma maioria que não embarque em ilusões e se foque em objectivos exequíveis.

O médico foi a uma das prateleiras onde tinha os livros de ciência e trouxe um de Richard Dawkins – “O gene egoísta”, e questionou-o:
- Mas como dar essa volta, se Deus introduziu no ADN humano, uma memória tribal que tende a avaliar o outro negativamente quando lhe topa alguma diferença?
O arcanjo pegou na espada e apoiou-se nela, enquanto dissertava: - A globalização ajuda a corrigir essa tendência, mas é necessário "proximidade física" e vocês estão a apostar demasiado no virtual, com o que dificilmente vos ireis sentir pertencentes ao mesmo grupo. Nisso o Papa tem muita razão. A solidão é um refúgio e não é possível viver à sombra de um só livro, pois ele torna "infiéis" todos os que o não seguem!

O médico ignorava esta faceta de S. Miguel. Conhecia a sua relação com as colheitas e a luta contra o mal, mas entendia-o como defensor de uma facção. Afinal, ele estava presente nas três principais religiões monoteístas (Islamistas, Protestantes e Católicos) e, depois de o ouvir mais um tempo e se certificar que ele nunca tinha entrado nas Cruzadas, nem ter ajudado os exércitos nas lutas contra os Eixos de Mal que os políticos e religiosos, de várias origens, foram criando, deu-se à liberdade de o abraçar como a um amigo, e dizer-lhe:

- São Tiago, o “mata mouros”, foi invocado na reconquista da península ibérica e nas lutas contra Portugal. O São Jorge, da mitologia nórdica, ajudou-nos em inúmeras batalhas, mas a tua luta sempre foi contra as pessoas negativas, estivessem elas de um lado ou do outro, usando sempre a espada para evitar danos colaterais. Ainda bem que não aderiste às novas tecnologias, como outros deuses que passaram a usar armas de destruição maciça. Eu ando a juntar mitos que possam ter valor universal e gostava de te dar o nº1. Vês algum inconveniente?

- Tenho o maior gosto!, alegrou-se o anjo. - Mas o meu apoio não é incondicional! Espero que não me ponhas a fazer equipe com o Pai Natal, nem com o Batman!?
- Está descansado que eu, sempre que encontrar um mito com características favoráveis a uma universalidade, peço a tua opinião. Por falar nisso: Tens alguma coisa conta o D. Quixote?

sábado, 21 de janeiro de 2017

Uns cachaços



Estava em vias de fechar o SClinico, quando a enfermeira da Manchester, me abordou.
- Dr.! Espere um pouco! Triei agora mesmo um doente para si!
É uma rapariga agradável, que sabe estar mesmo quando a confusão é mais que muita e que nunca me penaliza se eu me "passo". Sem grande convicção, como a resistir-lhe, antes de me sentar de novo, arrisco:
- Oh! Teresa! Eu amanhã tenho de estar no Serviço às oito!

Não vale a pena. Ela sabe que me é impossível dizer-lhe não, e continua.  
- Está acompanhado pela GNR. É só para decidir se vai transferido para Psiquiatria. Dizem que bateu na mãe!
- Para Psiquiatria!? Agora os agressores vêm para o Serviço de Urgência? Não me digam que enviaram a vítima para a Cadeia?, digo, antes de lhe ver os antecedentes.
Depois, dou uma rápida passagem pelo seu historial no computador.
Tem 30 anos. Há seis meses foi trazido para uma observação compulsiva e foi orientado para o CRI (Centro de Respostas Integradas) por dependência alcoólica e tabágica. Última consulta há 4 meses. Faltou à seguinte.

Está acompanhado por um irmão que quer falar antes que o doente entre.
- Faz favor! Então o que é que se passou?
- Foi o meu irmão que bateu na minha mãe. Já não é a primeira vez! Há um ano que anda alterado, bebe e faz desacatos. Ultimamente anda para aí a dizer que a minha mãe e eu lhe ficámos com um prémio que ganhou no Euromilhões. 
- E droga-se?, pergunto, por o ter lido no registo da consulta de Psiquiatria.
- Isso não sei, que eu não vivo perto! Ele esteve três anos emigrado, a trabalhar na construção. Quando veio ficou a viver em casa da minha mãe, mas como não trabalha, os conflitos com ela têm vindo de mal a pior. Ele não está bom da cabeça.
- Ok! Espere um pouco lá fora! Já percebi que você também anda na mira dele!
- É verdade! Ele só não se atira a mim porque tem medo que eu lhe dê forte!

Sai um e entra o outro, acompanhado por um GNR.
- Faz favor de se sentar!
É um homem forte com mãos grossas e botas de trabalho bem gastas. Usa uma sweatshirt cinzenta com capuz e uma jeans azuis já esquecidas do cheiro do sabão.
Olha para trás, para confirmar se o GNR também entrou. Senta-se mole e de olhos baixos. Responde contrafeito.
- Você sabe porque é que o trouxeram aqui, ao Hospital?
- Deve ter sido por bater na minha mãe!
- E você estava bêbado, ou quê?
- Eu só bebi um copo ao jantar!
- E hoje consumiu droga?
- Fumei um charro, mais nada!
- E você acha bem ter batido na sua mãe?
Levanta os olhos, como a rebobinar o filme dessa noite e, depois de alguns segundos em que me olha de soslaio, responde, a desmerecer todo aquele envolvimento despertado pela denuncia do seu acto:
- Eu só lhe dei uns cachaços!

- Ahh!

São 24h. Não tenho condição para lhe avaliar a disfunção. A minha vontade é receitar-lhe uma noite nos calabouços e que venha amanhã para observação por psiquiatria, mas, como não falta para aí gente disposta a criar problemas a quem se preocupa com os gastos públicos, contenho-me e pego no telefone, enquanto lhes peço para aguardarem fora da sala.
- Está!? Sra. Telefonista. Por favor faça-me uma chamada para o Hospital Central.