segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

O Tony Gordo e o Engenheiro John

 


O Tony Gordo é um paisano, de mãos grossas e peludas, a quem a roupa assenta mal. Tem uma personalidade bem-humorada e poucos estudos. Leva uma existência gregária e o excesso de peso é o seu maior problema. Começou como empregado de um banco nos idos anos 80, no departamento de letras de crédito. Mais tarde passou a atribuir empréstimos a pequenas empresas e a perceber o jogo de obter financiamento junto dos grandes bancos - os seus procedimentos burocráticos e aquilo que gostam de ver no papel. Ainda como empregado, começou a comprar às instituições financeiras propriedades em processo de falência. A maior conclusão a que chegou foi a de que os funcionários do banco que vendem as casas que não lhes pertencem, não se preocupam tanto com o negócio como os verdadeiros proprietários. Também aprendeu a comprar e a vender com dinheiro emprestado. 

O Dr. John é um engenheiro a trabalhar como analista numa Companhia de Seguros. Possui um doutoramento em informática e realiza simulações de “gestão de risco”. É magro, diligente, sensato e amável. Usa sempre fato, conduz um carro desportivo e é previsível como um relógio. Antes de entrar no emprego, lê atentamente o jornal e dobra-o muito bem para a continuação ao almoço.

Enquanto Tony enriquece os donos dos restaurantes, que rejubilam quando o veem entrar, John, todas as manhãs, acondiciona meticulosamente a sua sanduiche, fruta e salada num recipiente de plástico.

Vou submetê-los a uma mesma questão.

-Imagine que uma moeda é justa, ou seja, que existe a mesma possibilidade de cair em cara ou coroa quando atirada ao ar. Eu lanço-a noventa e nove vezes e de todas as vezes, a moeda fica com a face  cara virada para cima. Quais são as probabilidades de a moeda cair com a face de coroa para cima, da próxima vez que eu a atirar?

- Dr. John: É uma pergunta simples. 50%.

- Tony Gordo: Eu não diria mais que 1%.
- Mas porquê, Tony Gordo? Dei-lhe na premissa inicial que a moeda era justa!
- Tony Gordo: Ou tem a mania que é esperto ou é completamente "otário". A moeda só pode estar viciada. Não pode ser jogo limpo!
- Mas o Dr. John disse 50%!
- Tony Gordo (sussurrando): Conheço bem estes tipos “marrões”, desde o meu tempo de escola. Pensam demasiado devagar. Dá-se-lhes bem a volta!


Alguma vez se interrogou por que razão tantos alunos brilhantes acabam por não ser ninguém na vida, ao passo que outros, com um passado de reprovações, têm agora sucesso?
Isto poderá estar relacionado com alguma sorte, mas existe uma qualidade estéril e obscurantista, muitas vezes associada ao saber académico, que poderá impedir-nos de perceber o que verdadeiramente se passa na vida real.

Fragmento resumido de página de "O Cisne Negro" de Nassim Nicholas Taleb

domingo, 16 de janeiro de 2022

Era uma vez uma velha que morava numa ilha

Fosse eu o meu tio-avô Rogério, entraria de rompante e, com alta voz, declarava: "Eu é que sei! Assim é que é!. 

O assunto que hoje aqui me traz, tem a ver com o respeito pela tradição oral, porque a História tem de ser lida à época e o "politicamente correcto" raramente nos ajuda, mesmo quando há violência doméstica e gente feita da pele do diabo. É que as histórias têm de ter coerência e "pôr um gato a andar de rabanete", não só não tem lógica, como é pior que "atirar o pau ao gato".

O que tenho na memória, de há mais de meio século, reza assim: 

Era uma vez uma velha que morava numa ilha
E tinha um gato com os olhos cor de ervilha.
Que, por sinal, era muito lambareiro
E de tudo o que era petisco, andava sempre ao cheiro

Certo dia encontrando um chouriço
Meteu ao estreito o patife do enguiço. 
Vindo o dono do chouriço p'ra jantar
Encontrou a mulher a soluçar.

Oh mulher, o que tens, o que foi isso?
Foi o gato que nos comeu um chouriço!
E o homem pegando num cacete
Fez do lombo da mulher um perfeito tamborete.

E a mulher começando a gritar
Acorreu muita gente do lugar.
E aparecendo a Polícia, de repente
Começou a desancar em toda a gente.

Mas a velha que era levada do diabo
Bateu no guarda, no sargento e até no cabo.
E aqui está como se forma um reboliço
Por causa d´um gato roubar um chouriço.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

A minha bisavó Maria


Fevereiro de 1926

A minha bisavó Maria da Conceição Costa (f: 1964) e António Faustino de Andrade em Torres Vedras (onde era tesoureiro da Fazenda Pública). 
Atrás os filhos. Da esquerda para a direita - Alberto, Amílcar, o meu avô António Santos (1895 - 1970) e o filho de ambos Faustino de Andrade, que teria nesta altura 13 ou 14 anos. A senhora em baixo é a minha avó Helena (1901-1987), um mês depois do nascimento de minha mãe.

Foi o seu segundo casamento. Do primeiro com um agricultor de Cotas- Alijó, nasceram três filhos. Não conheci esse meu bisavô. Consta que gostava pouco de trabalhar e que não emparelhava com o espírito desenvencilhado da minha bisavó, o que a fez pegar nos filhos ainda pequenos e casar-se em segundas núpcias com este António Faustino que, reza a história, terá conhecido numa viagem de comboio para o Porto.

Estávamos no princípio do Século XX, com leis e costumes bem diferentes dos de hoje, que levam a perguntas sem resposta. Como é que ela sai daquela aldeia com a prole, deixando para trás o marido, num tempo em que não havia divórcio? Certo é que ela era uma mulher de fibra, incapaz de se acomodar a um homem que não trazia soluções nem pão para casa. 
E o que fazia ela num comboio para o Porto? E o que fez o António Faustino encantar-se por uma  transmontana, com 3 filhos? 

Este homem, ali sentado, de aspecto imponente, provou ser muito boa pessoa ao criar os rapazes como filhos. Empregou o meu avô na tesouraria em Torres Vedras (terra onde onde conheceu a minha avó) e posteriormente deu-lhe casa no Porto. Faleceu em 1947, quinze dias depois do casamento dos meus pais, onde se divertiu e dançou debaixo do véu da noiva. 

A minha bisavó, à sua direita, que até aos últimos dias cuidou de receber as rendas dos inquilinos, faleceu ao telefone depois de combinar um passeio com um dos filhos. Como estava pronta para sair, não a prepararam de novo e foi enterrada com a bolsa de dinheiro que trazia sempre debaixo da saia.

sábado, 11 de dezembro de 2021

Formalidades

Esta semana, deu-me para visitar Platão e, de link em link, cheguei a esta palestra sobre Jane Austen, no YouTube, onde a dra. Lúcia Helena Galvão aproveita dois dos seus livros: Orgulho e Preconceito e Sensibilidade e Bom Senso, para nos falar de civilização.

Não li os livros, só vi os filmes, que entendi como mais umas histórias de "amor", sem qualquer relação com o pensamento que a filósofa Lúcia lhes dá. Segundo ela, Jane Austen apresenta neles as normas civilizacionais que permitiram à Inglaterra tornar-se uma potência mundial, pois a formalidade nas relações humanas é fundamental para que as sociedades progridam.

Na tropa, os símbolos e os códigos de conduta continuaram sempre bem definidos e aceites e o seu incumprimento tem consequências, mas na vida civil, no Ocidente das últimas décadas, a informalidade tem ganho espaço. A queda dos antigos protocolos éticos não foi acompanhada pela criação de novos códigos igualmente eficazes, onde não se questione e desrespeite o que se não conhece profundamente.

A "informalidade" não é um valor civilizacional e o descuido com as “formalidades sociais” pode-nos levar à catástrofe. 

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

How To Speak by Patrick Winston


Patrick Henry Winston (1943 – 2019) was an american computer scientist and professor at the Massachusetts Institute of Technology. Winston was director of the MIT Artificial Intelligence Laboratory from 1972 to 1997.

A palestra é de 2018. Tem legendas em inglês (não são boas, mas ajudam).

We are lucky that we live in an age where we can watch/listen to something like this for free

sábado, 4 de dezembro de 2021

Cabeleireiros

 

 

Arnaldo, Alcino, António, Alfredo…são os nomes dos cabeleireiros que me puseram as mãos na cabeça nos últimos anos…todos começados por A por coincidência…

O resultado é o que se sabe e não os culpo. Não se podem fazer milagres! mas o que me suscita reflexão é o padrão de comportamento.

A delicadeza de trato deixa revelar uma vontade de corte…ou não sejam eles instruídos na tesoura que seguram com mestria entre o polegar e o 2ª dedo com ajuda do 4ª dedo, trinando o seu ruído metálico afiado bem junto dos meus ouvidos.

O “como vai ser hoje?” de cortesia, é comunicado sempre através do espelho, e fica estranho falarmos de frente com alguém que está sempre nas nossas costas…

Não sou de conversas intimistas nem de falatórios sobre as vidas alheias, sejam públicas ou privadas, o que, reconheço, torna a minha visita ao cabeleireiro um enfado para os ditos.

Colocam-me uma revista nas mãos, sempre a última “acabadinha de chegar” que finjo ler pois, sem óculos, apenas vejo as figuras - como quando tinha 5 anos e lia as “Selecções do Reader´s Digest” que existiam lá em casa. Vou percebendo que os que se divorciam este mês são os mesmos que há dois meses tinham o casamento de espavento noticiado nas páginas centrais e que de namoro em namoro, as pessoas que alimentam este negócio, vão sendo fotografadas em casas de luxo que os iludem de riqueza.

E eu, de tinta na cabeça a limitar a testa de modo irregular e de plásticos pretos à volta do pescoço presos por molas de cabelo, olho o espelho e penso, invariavelmente, na eventualidade de ocorrer, naquele preciso momento, um incêndio naquele salão e de me ver a fugir para a rua naquele preparo.

“A água está boa assim? se quiser posso por mais fria…ou mais quente!” - Mas para mim está sempre bem - ou acertam sempre ou a minha sensibilidade capilar é nula; e mesmo este momento de comunicação é breve para logo se voltar ao silêncio comunicacional.

Também o “está prontinha” quer laca? é tão previsível…

O que é novo para mim é que o salão, que frequento agora, tem 3 degraus. E não é que o Sr. Alfredo se apressa a dar-me o braço para que eu não caia….!!!!!!

Só quero pagar e sair para respirar.

Sempre foi assim. Não gosto de ir ao cabeleireiro.

Lembro-me de ter uns 6 anos e de o cabeleireiro ter ido a casa fazer-me caracóis com bigoudis de ferro, pesadíssimos, aquecidos e colocados na minha pobre cabecinha que cabeceava com o peso, enquanto eu gemia com a dor e sensação de carne queimada no meu couro cabeludo. Não foi uma boa experiência e o resultado foi uma carapinha que me conferia o ar angelical necessário para a função que me estava atribuída. Eu seria o anjo, com asas e tudo, que seguraria a tolha da comunhão nas cerimónias de Comunhão Solene do meu colégio. Isto numa família de não crentes!!!

Mais tarde, no cabeleireiro “Mateus” em Costa Cabral, ao ver que todas as senhoras ao saírem metiam dinheiro nos bolsos das empregadas, achei que tinha aí a minha oportunidade de brilhar. Pedi uma moeda à minha mãe que ma deu sem que eu lhe dissesse para que a queria. À saída, garbosa, e de cabeça erguida coloquei a moeda no bolso da casaca do Sr. Mateus – o dono! Senti-me adulta e se não fora o sorriso complacente e a troca de olhares entre ele e a minha mãe não me teria apercebido do caricato da situação.

Ainda hoje, 60 anos depois, me sinto corar quando recordo este episódio.

História de MHSG

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

A 3ª Dose



A terceira dose de vacina não teve história. Lamento.

A fila de 200 pessoas que ordeiramente esperavam pela sua vez, era pontuada muito raramente por um comentário de desagrado, que não interferia com o colectivo e depressa se retomava o silêncio.
Num dia frio de sol, até sabia bem alternar o sol quente do meio dia com as sombras dos robustos plátanos que fazem o contorno do campo de treinos.

Para nos tornar a espera mais agradável, alguns soldados, em perfeito alinhamento, faziam marcha cadenciada de esquerdo, direito, que passava a passo de corrida e a um súbito direita volver. O suficiente para que todas as cabeças se virassem para acompanhar o espectáculo e, ao mesmo tempo, verificar com alívio o comprimento da fila que, entretanto, se formara atrás. Há quem esteja pior! 
Outros soldados faziam exercício junto a uma parede, para nosso deleite. Parecia que estavam a jogar ao "jogo da estátua" ou à “minha mãe dá licença?".
Até música houve, com um solo de corneta bem timbrado.

Pudemos assistir à chegada de uma carrinha frigorífica da "Petit Forrester", carregadinha de vacinas, que arrancou de todos um sorriso de alívio por detrás das máscaras..., que os olhos não mentem.! Tanto mais que à entrada do enorme quartel, o segurança tinha informado que a casa aberta já tinha fechado, aquela hora, por se terem acabado as vacinas.
Nada de especial.

Quando, ao fim de uma hora, foi atravessado o primeiro patamar de espera, esperava-nos uma enorme tenda, daquelas que se usam em casamentos com cadeiras coloridas que emprestavam ar de festa a esta solenidade. Aqui a aproximação física entre os candidatos à vacina foi maior, pois o sistema de encaminhar pessoas em corredor serpenteante, obriga a que nos vejamos pelas costas e pela frente. E isso não é bom! Ao ver as caras enrugadas e o ar de sofrimento tenho sempre a tentação de deixar passar à frente aqueles que parecem mais velhos do que eu... Mas são todos!.... E todos somos da mesma idade!

Não houve lugar a qualquer episódio caricato.
Mesmo a “senhora de idade” que precisou de se sentar no chão para descansar as pernas, vinha prevenida e começou a ler o Público. Ainda assim, houve quem quisesse perturbar esta paz... Quem saía da vacinação, já com esta feita, ia entre risinhos dizendo para a fila que esperara três horas e meia. Outros lançaram um "tenha paciência...." e até alguém aventou que na quarta dose ia ser pior.

Pouca coisa. Não dá história.

A proximidade física não é boa em tempo de Covid, mas a nossa população não desperdiça a oportunidade de entabular uma conversa.
Como não sou capaz de me integrar em grupos de conversação com desconhecidos (embora os meus vizinhos de fila se tivessem esforçado), vi-me entalada entre dois grupos. O grupo de homens à minha frente, falava sobre a sua experiência com vacinas prévias, do mesmo jeito que as mulheres partilham as experiências da gravidez e parto, metendo obviamente bicadas à organização e de como era bom antigamente, em que nem televisão havia, "porque a televisão em Portugal começou em 58!" Atrás de mim, em cima dos meus ouvidos, um grupo de três mulheres contava a sua vida com voz estridente, desde as meias que usam para não ter frieiras até à técnica para ludibriar a filha, para comer as sandes de leitão às escondidas. Esta última, camuflava num par de jeans muito justo a pele sobrante das gorduras de outros tempos. Ainda antes de a ouvir dizer que estava a tremer de fome e que desde que tinha sido operada ao estômago tinha que comer muitas vezes, já eu tinha feito o diagnóstico. Depois, foi só ouvir a conversa que girava a volta do que tinha comido e do que ia comer e de como dissimuladamente o fazia. Ainda ontem tinha comido leitão até lhe chegar com o dedo. Também fiquei a saber que "-Eu sou franca! Moro sozinha! Às sete horas como a sopinha e vou para a cama, ligo a televisão e tento matar os bichinhos no telemóvel. A minha médica proibiu-me de fazer renda e bordar, por causa das artroses. Eu sei que o telemóvel também não faz bem, mas tenho que apanhar estas duas aranhas..."

Pobres médicos de família!

Assim, ao fim de quatro horas, saí do centro de vacinação como de um filme de Manuel de Oliveira. Cansada, sem ter percebido nada, sem história para contar mas com dores nos braços.

Na quarta dose deve ser melhor!

História de MHSG

terça-feira, 23 de novembro de 2021

O meu sapateiro

 


É sabido que não sou uma pessoa muito corajosa. Tenho medos como qualquer um. Medo de perder os meus, medo de morrer,  medo de baratas e osgas, … enfim, o normal.
Mas, o medo mais recente, com que eu não estava a contar, é o ter medo do meu sapateiro! 
Sei que não sou cuidadosa com os sapatos. Raramente os escovo ou engraxo e, quando são confortáveis, uso-os até irem para o lixo e tento comprar outros iguais. Como tenho mais tempo desde que mudei de casa e me ando a tentar disciplinar, decidi rentabilizar o calçado. Foi  por isso que levei as botas cambadas ao sapateiro da esquina.

O homem é careca, grande e musculado como um comando, e com mais ouro nos dentes do que os meus dedos alguma vez podem comportar. UUhhh!! Intimidante do outro lado do balcão.
Pega nas botas, olha para a sola e, em menos de um segundo, precisa:
-Oh menina! Deixa chegar isto a este estado!?!?… Isto vai ficar caro!!!… Tem que ter mais cuidado!!!… Tem que vir antes de chegar aqui!!! … Está a ver??!… Assim, tenho que tirar isto!, e aponta com as unhas negras o ponto crítico. Abana a cabeça e parece crescer quando eu tento um esboço de desculpa. Só me ocorre dizer que são da minha filha, … da minha mãe … ou que mas deram já assim. Mas não me sai nada! Pego no talão e saio rápido, ruborizada e de olhos baixos.

Dias depois, vou buscá-las. Antes de entrar, espreito pela montra. O animal não está lá. Em seu lugar está um homem, também grande, mas jovem. Uff!! Que alívio!! Entro confiante. 
- Oh menina! (outra vez!!). Isto deu muito trabalho!... Era o filho!… Só podia! … e foi perorando enquanto tardava em me dar as botas.
De saca na mão prometo-me nunca mais lá voltar…

...

Passa um ano, e o meu marido pede-me que leve dois pares de sapatos para capas. Acedi. Afinal o que pode um sapateiro fazer-me?…Humilhar-me? Ora! Já nem se lembra de mim e para mais, os sapatos nem são meus!

-Oh menina! ... Como isto está!!! … A pessoa consegue andar??!... Falta aqui quase um centímetro!!!... e só deste lado!. Ui, ui!!, e a sola também está fina!! Já viu a palmilha??… Ressequida, como a palha!. Saca do giz e começa a fazer a adição na sola 26 +20 ….
De repente, pára a conta, volta a pôr os sapatos alinhados sobre o balcão e pergunta, enquanto me olha ameaçador do alto do seu metro e noventa (felizmente atrás do vidro que nos separa): E cordões?? Não acha que é preciso mudar?! Só então me dou conta que cada sapato tem um atacador diferente, de cores distintas e meio desfiados.
Com voz sumida, consigo dizer: Faça o que for preciso!, e saio novamente de olhos baixos como se tivesse reprovado num exame...

Juro-vos… É de vez! Nem que a vaca tussa! Na 6ª feira não vou lá buscá-los!

História de MHSG

terça-feira, 9 de novembro de 2021

O que a vida lhe ensinou

Poema homérico de lírica peculiar, oralidade tradicional e estilo próprio, não estranho à linhagem da família. 

Na sua amplitude, o autor revela, não a aurora que almejava ser, mas o crepúsculo de uma civilização que se extinguia.


O QUE A VIDA ME ENSINOU


O que a vida me ensinou,
Ou, que foi a minha vida?
Será que me agradou?
Será que foi bem vivida?

O que a vida me ensinou,
Ou o que dela aprendi;
Se feliz ainda estou,
E o que foi que consegui!

Se muita coisa aprendi,
Mais ficou por aprender
Mas se melhor não vivi
Não me estou a arrepender

Se na vida tive sorte,
(eu acho que alguma tive), 
Se bem que a um ânimo forte,
Deva muito do que obtive.

Há quem tenha tido mais,
E não esteja satisfeito
Ambição quando é demais,
Tem um muito mau efeito

Fui vivendo o dia-a-dia,
De maneira natural.
Tive horas de alegria,
Também soube o que era o mal

Desde muito tenra idade,
Fiz trabalho com prazer,
Vencendo adversidade,
Que tive que combater.

Infância não conheci,
Muito cedo fui adulto.
Depressa compreendi,
Não dever ficar inculto

Lealdade e honestidade,
Nas relações sociais,
E respeito pela verdade,
Sempre achei fundamentais!

Várias vezes isolado,
Tentei, com grande vigor,
Que fosse bem aplicado,
Com justiça e com rigor,

Bom senso nas decisões,
P’ra benefício geral.
Mas encontrei figurões
A fazerem muito mal

Em país onde é corrente,
Em cargos de direcção,
Haver gente incompetente,
Há conflitos, com razão.

A eles não me furtei,
E suportei invejosos.
Em querelas em que andei,
Gastei tempos preciosos

Mas nunca desanimei,
De lutar com dignidade.
Muitas vezes enfrentei,
A mais cruel falsidade.

Gente que muito ajudei,
Quis-me fazer vida dura.
A esses não perdoei,
Por me trazer tanta agrura.

Nos velhos tempos de outrora,
Em que até uma PIDE havia,
Eu nunca vi como agora,
Tamanha rebaldaria.

Diplomados ignorantes,
Que eu tive que preparar,
Para úteis os tornar,
Importantes se mostraram.

Foi grande a desilusão,
Que eles me provocaram.
Em vez de ter gratidão,
Sem pudor, me atraiçoaram.

De êxitos que conquistei
Alguns se vangloriaram;
Tudo quanto eu lhes dei,
Muito mal utilizaram.

Gastaram muito dinheiro,
Do que ao País pertencia.
Por seu ego estar primeiro,
Só o seu interesse havia.

Que falsos amigos há,
Minha vida revelou.
Mas essa escola foi má,
Pois anjinho ainda sou.

Os mesmos erros cometo,
Confiante nas pessoas.
Mudar-me já não prometo,
Pois ainda há algumas boas.

Isso me apraz registar.
Bons amigos encontrei,
Capazes de acarinhar
Estudos que realizei.

Fizeram-me homenagem,
Quando fui aposentado,
Por ter mantido a coragem
De não me ter desviado.

Da rectidão que tracei,
Como sistema de vida.
Justiça sempre foi lei,
Que procurei ver cumprida.

Na vida familiar
Tive algumas decepções
Que não esperava encontrar
Em difíceis situações.

Mas isso já é passado
Que não gosto de lembrar,
Pois sempre tive a meu lado,
Alguém p’ra me estimular.

Hoje sou um homem feliz,
Sou muito mais tolerante.
Não me importo haver quem diz,
Que até me julgo importante.

Modéstia a mais é defeito.
Eu útil fui ao País.
Mais podia ter eu feito,
Se não houvesse imbecis.

Investidos no poder,
Mas com fraca competência,
Armando tudo saber,
Com enorme inconsciência.

Dispostos a atrapalhar,
Quem quer que se lhes oponha
Tentando pelo bem lutar,
Sem na cara ter vergonha.

Em 3-7-2007


sábado, 16 de outubro de 2021

John Field - Nocturnos

">John Field (1782 – 1837), nasceu em Dublin. Diz-se ter sido o inventor dos Nocturnos.

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Os nossos Talibans


O meu avô paterno, que era um sábio, disse-me, quando eu acreditava na bondade “natural” do ser humano: Foge do homem de um só livro! Mais tarde, em 1974, ouvi Marcelo Caetano dizer que se rendia: “Para que o poder não caísse na rua!” e também não entendi o alcance da frase. Nessa altura, eu tinha por garantido que uma sociedade organizada não se esboroava em meia dúzia de meses.

O PREC (Processo Revolucionário Em Curso) foi a lição, com as milícias populares a fazer barreiras nas estradas, as Reuniões Gerais de Alunos a sanear bons professores, as reuniões de soldados para decidir se cumpriam as ordens dos generais, quando vi chamar fascista a tudo e mais alguma coisa e polícias, magistrados e professores desvalorizados pela turba acossada por uma meia dúzia de patetas que transportavam para a política as paixões clubistas. 
Quando o porta-aviões nuclear norte-americano "Nimitz" ancorou no Tejo  em Maio de 1978, para “descanso da tripulação”, eu entendi que fora Frank Carlucci (embaixador dos EUA em Portugal, entre Dezembro de 1974 e Fevereiro de 1978), que movera os cordelinhos para reorganizar o país fora da esfera da URSS.

Desde então para cá, olho para as manifestações de rua e para o que se escreve, nas redes sociais e na comunicação social, com reservas redobradas, por saber que o poder é hoje mais secreto e subterrâneo que nunca e que incentivar os “talibans” cronicamente descontentes, é coisa fácil. Basta que lhe deem um bode expiatório para despejar o seu ódio.

Quem já viveu mais de três décadas e esteve atento ao mundo, tem obrigação de saber que as más práticas e a corrupção grassam por todo o lado, quer no aparelho do Estado quer na vida civil, e que tudo é uma questão de “grau”, pelo que não se deve ter a vã esperança de algum dia ter estes problemas resolvidos. Há que estar atento e ir solucionando o que se identifica, com cuidado para não enfraquecer as Instituições e com a crença de que a maior parte das pessoas que trabalham (no Estado e na vida civil) não fazem o que querem, mas o que as condicionantes permitem.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Projecto para a nova Casa do Cabo

Tínhamos conhecido o arquitecto Noé Dinis, aquando da compra do nosso primeiro apartamento na Quinta Seca, em Matosinhos. Era um espaço muito agradável, principalmente para quem vem de um T1 com duas crianças pequenas. Simples e amplo, tinha traço de mestre e luz por todo o lado.

Noé Dinis é um homem de histórias e com uma longa história na arquitectura. Um curioso do mundo, conhecedor de várias culturas e dos porquês das construções daqui e dali, com conceitos precisos de como viver uma casa moderna. Mais tarde soubemos que tinha raízes em Afife, onde um dos seus tios foi  estucador. 
Após uma longa visita ao lugar, acordámos em fazer reviver a Casa do Cabo, mantendo o essencial da sua estrutura primitiva: os socalcos, a implantação da casa e dos anexos. Era sua opinião que as memórias deveriam ser visíveis a quem as procurasse, como as linhas dos acrescentos que a primitiva casa tinha sofrido e fez questão em que, durante a construção, ficasse bem patente o que fora  edificado de novo, coisas a que não nos opusemos. 
Noé Dinis passou a ser um amigo. Nos fins de semana seguintes fizemos uma visita a algumas casas por si projectadas e recuperadas, na zona de Guimarães e Braga e, na passagem por Famalicão, percorremos o Parque da Devesa que ele estava a orientar (Filme). Vimos casas que nos pareceram excessivas e outras mais contidas, onde aproveitámos para lhe dar dicas para os materiais a usar, enquanto ele nos forçava na ideia que já tinha para a casa. 
Falámos de tudo. De arquitectura à medicina, passando pela política e pela culinária, tudo veio à baila, para nos conhecermos, de modo a que a casa estivesse em consonância com o nosso estar e, algum tempo depois, sentámo-nos para analisar a sua proposta. 
Aqui vai haver muito sol no verão! A dispensa parece pequena! Onde ponho as máquinas de lavar e de secar? Será que os armários na lavandaria não podem ir até acima. Onde é que se guarda a roupa para lavar? Onde vai ficar o estendal? E que materiais para o isolamento, para o chão, para os quartos de banho? E o jardim? E a garagem? E se vierem visitas, onde põem os carros? ... e mais um sem número de pormenores, até se acordar que se podia andar para a frente e entregar o projecto na Câmara Municipal.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Caça desportiva


Ontem foi o primeiro dia desta época de caça e, das sete às dezassete horas, o meu cão andou com o rabo entre as pernas à procura de local seguro, face à quantidade de tiros que se deram na veiga vizinha. Havia de tudo. Tiros isolados, salvas de dois e até uma arma que disparava cinco ou seis seguidos. Só faltou o som de uma metralhadora. O desequilíbrio de forças é tal que me leva a pensar que qualquer dia há armas a lançar balas com sensores infravermelhos. Depois, é atirar a torto e a direito, que alguma coisa há-de cair, pois o ICNF não tem gente para estar em todo o lado para ver o que cada um apanha ou se anda demasiado perto das habitações. A quantidade de tiros de ontem não me parece estar de acordo com as espécies cinegéticas existentes na veiga, ou então, são necessários quatro tiros para abater um pardal.

Caçar nos tempos de hoje é fácil. Sai-se da cidade num todo-o-terreno topo da gama, com frigorífico para guardar umas bebidas frescas (que o tempo anda quente), veste-se um camuflado e apronta-se uma espingarda de múltiplos tiros e, para compor o cenário, põe-se um atrelado com cães para levantar e apanhar a caça.

Depois, marca-se o almoço, para o tarde, num restaurante típico com a malta do grupo para, no meio dos copos, contar as façanhas da manhã e as das épocas anteriores e volta-se para casa ao fim do dia com o sentimento de ter cumprido “um destino” tão forte como uma ida a Jerusalém nos primórdios das Cruzadas!

Chamam a isto “desporto”. Eu chamo-lhe uma “matança” semelhante à que aconteceu na quinta na Azambuja, a 17 de dezembro do ano passado, e que motivou reacções de quase todos os quadrantes da sociedade.

Nada tenho contra o controle de pragas sejam eles coelhos, javalis ou ratazanas, nem contra a caça em terrenos onde se criam animais propositadamente para esse fim mas, fora destas circunstâncias, só ser proibido caçar os que estão em vias de extinção, parece-me pouco.

Há que controlar este gozo ancestral do bicho Homem em eliminar da face da Terra tudo o que mexe à sua volta! Qualquer dia há mais caçadores que caça. Ponto final!

NOTA: De acordo com as conclusões do projecto de investigação “Violência e Armas ligeiras, um retrato português”, divulgado pelo Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, em Maio de 2010, em Portugal, existiam 25 armas de fogo por cada cem habitantes, isto é: um em cada quatro portugueses tem uma arma de fogo, sendo que quase metade delas são ilegais, num total de 2,6 milhões de armas. A preferência vai para as armas de caça. As armas mais apreendidas pelas autoridades portuguesas foram espingardas (46%), pistolas (31%) e revólveres (5%).

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Limpeza da antiga Casa do Cabo

Tenho grande admiração por quem resolve problemas, sem medo de sujar as mãos. Quando os vejo trabalhar, estou atento aos seus gestos na espectativa de um dia precisar deles para solucionar os pequenos desafios que o dia a dia me põe. Tento respeitar a norma de que só abre um relógio quem tem a certeza de o saber fechar, mas as coisas que me parecem de solução simples, fogem a essa inibição e, não raro, meto-me por caminhos sombrios de roçadoura na mão, a fazer cimento ou a tentar resolver uma fuga de água. Também tenho um gosto especial em prolongar a vida às coisas, principalmente quando a nova alma fica adequada aos novos tempos, mantendo a memória do que já foram e, quando compro novo, o mais comum é deixá-lo à vista uns dias (às vezes semanas), para que me habitue à sua presença, antes de o começar a usar.

Ora foi com este espírito que, no ano de 1998, iniciei a limpeza do terreno da Casa do Cabo. Podia ter chamado uma empresa para o fazer. Podia, mas não era a mesma coisa! É como com os automóveis, quem lhes dá o primeiro banho sou eu.

Enquanto aguardava as licenças e se planeava a arquitectura do lugar, aproveitava os poucos tempos livres para limpar a propriedade.
O destino deu-me por ajuda o sr. Catarino. Um alentejano bondoso, calmo, ex-carpinteiro de carroças e ex-mineiro, com solução para todos os problemas que iam aparecendo, chovesse ou fizesse sol.

Comprei corta-arames, alicates, roçadoura, enxadas, sacho, alvião, picareta, foices, gadanhas, forquilha, ancinho, motosserra, machado, fósforos, acendalhas e, metro a metro, fomos roçando o mato, abatendo os eucaliptos e pinheiros para deixar espaço aos carvalhos e castanheiros que lá haviam crescido. Retiraram-se os arames e puseram-se as pedras sobre os muros, enquanto se limpavam os caminhos confrontantes e, quando, a nascente, as botas se enfiaram num lamaçal escondido num monte de silvas e heras, e se descobriu a Fonte Nova, limpou-se o caminho, a mina e o largo, para se entender que havia uma taça onde se dividiam as águas, para consumo da Casa do Cabo e para os tanques que se lhe seguem. O primeiro para o gado beber, o segundo para lavagem de roupa, indo as sobrantes para um tanque dentro dos muros da propriedade.

Perguntei a história da Fonte Nova e concluí que ela também fora fonte de conflitos, noutros tempos. As lavadeiras nem sempre usavam só o tanque de baixo e os animais não bebiam se a água estivesse conspurcada. Um outro atrito teria sido despertado por um dos donos da Casa do Cabo, ao construir uma campânula sobre a taça inicial onde as águas se dividem, com a intenção de evitar que os animais lá pusessem as patas. A “coisa” não terá caído bem a um “freguês” que, a coberto de uma noite de trovoada, a desmoronou à marretada.


Com este historial, e dias depois de alguém ter escrito em cima da bica com letras vermelhas – FONTE NOVA - PUBLICA - J.F., decidi escrever uma carta ao Presidente da Junta da época, pedindo autorização para encanar as águas sobrantes para dentro da propriedade, de modo a se poder andar por ali com os pés secos e, 
futuramente, usar essa água (que se infiltrava no caminho) para regar o jardim que planeava construir. Para minha surpresa a Fonte Nova que estivera ao abandono mais de 14 anos, foi levada à Assembleia da Junta de Freguesia, alegando-se que eu tinha intenção de me apoderar da fonte.
Avisado, fui assistir à reunião, onde, para meu espanto, no meio de uma linguagem povoada de excelentíssimos e excelências, o presidente não lera a carta que lhe enviara e alimentou uma discussão sem pés nem cabeça, com uns paisanos que se encontravam na assistência. Saí a meio. Falei com o meu advogado, que me disse: “Os direitos não se pedem. Exercem-se!” e reconstruí o antigo caminho da água, desactivando a divisão que ia para o alambique e para consumo da casa, por desnecessária.

Ao fim de alguns meses de trabalho nos fins de semana disponíveis, consegui ver o que se tinha comprado e havia condição para o levantamento topográfico.

Topografia era com o meu pai, engenheiro de minas reformado, na altura com 80 anos, cheios de genica e capacidades, que durante a actividade profissional, levantara quilómetros de Alentejo e Serra de Arga, na prospecção mineira. Podia ter recorrido a uma empresa. Podia, mas não era a mesma coisa! Levantou-se o terreno e a casa e entregou-se o projecto ao arquitecto Noé Dinis.