terça-feira, 3 de setembro de 2013

Paulo Cardoso

Paulo Cardoso nasceu em Lisboa em 1953, oriundo de uma família de músicos e artistas plásticos. Diz ter estudado Química e frequentado o Conservatório Nacional e a Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa.
Considera-se Astrólogo, pintor e ensaísta (publicou pelo menos 30 livros).

Há 12 anos que não dá consultas porque “vivia demasiado o que via nelas”. Agora faz cursos e workshops sobre Astrologia e Tarot. 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Porta dos Fundos

Não é qualquer grupo que faz videos assim, com actualidade, saber e inteligência.
Neste “Líder de Torcida” a caracterização de um indivíduo que sofre de Mania é tão perfeita que custa a crer que não esteja fundamentada num facto real a que Fabio Porchat tenha assistido de modo a compor o personagem.

neste, - "É pau é pedra”, que foca o problema da auto-imagem e o quanto nos podemos sacrificar por ela, lembrou-me uma minha "cliente" de 14 anos, lindíssima, que sofria com umas sardas de fazer inveja a qualquer uma, incapaz de valorizar a sua diferença.

e, … neste outro - “Juiz” salienta não só a atitude louca das claques de apoio, mas também uma possível visão sobre a terceira equipe em jogo da minoria que a defende.



Ou este ainda que toca o misticismo e os videntes que para aí andam a distrair os aflitos das suas aflições. Parabéns por esta lufada de ar fresco no humor em português.

domingo, 18 de agosto de 2013

A verdade


-É verdade! Acredita! Eu não tenho outra mulher! Só te tenho a ti!, esbracejava, tentando acalmar a mulher que, sentada ao lado, soprava inconformada com a notícia que lhe caíra em cima como um punho, a lembrar o empréstimo da casa, o desemprego e os filhos menores.

- Oh homem! Diz-me lá como é que apanhaste isso! Isso apanha-se com as mulheres da vida, ou julgas que eu não sei!
, e olhava-o incrédula, enquanto se ajeitava desconfortável na cadeira.
- Acredites ou não, é a verdade! Não há mais nenhuma mulher! Juro!
– retorquiu, derrotado, e deixou cair os braços de olhos postos no chão.
Era a segunda consulta. Na primeira viera sozinho, sem lhe dizer nada, mas as frequentes idas ao hospital para fazer exames, alertou-a e pôs-lhe uma pulga atrás da orelha. Que raio de doença havia de aparecer ao seu homem aos trinta e cinco anos. A ele que tinha uma saúde de ferro. Ainda por cima sem lhe terem receitado nada e marcado consulta para quinze dias depois. Havia de ser grave. Tinha que ver o que se passava.
- Sifilis! …
, repetia enquanto abanava a cabeça entre as mãos, junto aos joelhos. – Era o que me faltava!
Entretanto a médica escrevia, dando tempo para que a poeira assentasse e se pudessem combinar as novas atitudes.
- Minha senhora. Tenha calma que a doença tem tratamento! - interrompeu, sem sequer se atrever a mencionar o HIV negativo, para não lembrar maleitas de que se livrara. – Ele começa já o tratamento e daqui por um mês já deve estar bem. A senhora vai também fazer análises e vem cá para a semana! Há doenças bem piores! Esta vai-se resolver!
À saída, ele dá-lhe o braço, que ela aceita a contragosto.

...

- Então Sr. Amado, como está? Melhor? – recebe-o na consulta seguinte, entre a porta e a secretária.
Vem cabisbaixo, sentido de um torção de alma. Cumprimenta, senta-se e responde delicadamente.
– Estou bem, obrigado, Sra. Dra.! Já quase não tenho manchas nem caroços. Até já voltei a trabalhar!

-E a sua mulher, continua zangada, ou já fizeram as pazes?
- Ela ainda fala em outra mulher, mas eu sempre lhe fui fiel! Aquilo aconteceu por causa de uns homens. Eu estava muito falho de dinheiro e foi uma solução para pagar umas contas. Foi só durante um tempo. Agora acabou! Eu não quero que ela saiba. Ai de mim. … Matava-me!

terça-feira, 13 de agosto de 2013

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Efeitos colaterais


Tem 83 anos, é viúva e vive com uma empregada que trata de tudo. Teve vida em Lisboa, o que transparece no sotaque, na roupa e nos enfeites. O coração falha-lhe há meia dúzia de anos, e hoje vem à consulta depois de ter sido operada às cataratas que a cegavam. Está feliz com a sua nova visão e, aproveitando uma pequena pausa, enquanto procuro os resultados analíticos, dá largas à sua natural expansibilidade.
- O Sr. Dr. é tão bonito! Eu já o adivinhava na voz. Posso dar-lhe um beijo? ... Sabe, eu tive de parar aquele remédio, o Pradaxa, porque me excitava muito. Só me apetecia fazer amor! ... , e eu sem ter com quem!
- Dona Ana! Vamos de ter de reportar essa reacção adversa do medicamento ao Infarmed, pois deve ser o primeiro caso a ser descrito. Quanto ao beijo …

História de E.T.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Vidas



Com doze anos fui para Lisboa trabalhar, com a ideia de ser sapateiro como o meu pai, mas para cada anúncio de emprego havia mais de 50 candidatos. Só arranjei trabalho nas obras, para os lados do Chiado e o dinheiro que ganhava não dava para as despesas. Um dia, um amigo arranjou-me um lugar de ajudante de cozinha num Hotel e a minha situação melhorou. Ganhava 300 escudos por mês, mas comia de graça. Cheguei a cozinheiro e a vestir o "fato branco". Mas aquilo era uma prisão e eu gostava do putedo, e em 57 tirei a carta e fui para taxista. Voltei em 66 e comprei um taxi na minha terra. Naquela altura havia muita gente emigrada e sem carro, e eu calcorreei essa Europa toda! Tive períodos de ir duas vezes por semana a Paris. Levava 5 de cada vez a mil escudos cada um (o bilhete do comboio custava 700$). Ia buscá-los a casa e punha-os onde eles queriam. Levava-lhes mais malas do que as que eles conseguiam levar no comboio, e isso compensava-os. A grade no tejadilho não podia levar mais. Bons tempos!

domingo, 4 de agosto de 2013

As "cunhas"

Não há volta a dar. A nação sempre contou com o compadrio, pois melhor que um saber tem sido a "cunha".
Depois é seguir o trilho. Cumprir a religião e aderir a um dos partidos maioritários que, com esses cartões, poucas portas se lhe hão-de fechar.
Nos últimos anos, respondeu à expansão do Estado. Lutou por um lugar qualquer num dos seus órgãos e com ofertas e adulações, agachou-se com o pragmatismo calculista dos aflitos, refazendo o discurso às necessidades do momento.
Como a exigência de quem nos governa se tem vindo a degradar, frequentemente só lendo as “Conclusões” e não o “Material e Métodos”, todos os caminhos se tornaram possíveis, porque é o curto prazo que domina e se esqueceu que há princípios que se não forem respeitados invalidam as “Conclusões”.
E, para pôr a cereja no bolo, surgiram os concursos internos para que alguém da casa, depois de um qualquer curso nocturno ou diurno como trabalhador estudante, seja integrado em novas funções na mesma instituição.
O resultado final é andarmos enxameados de gente que ocupa lugares para onde nunca entraria num concurso aberto, onde se tivessem de medir com os seus pares.
Entrar enfermeiro e passar a gestor, entrar "relações públicas" e passar a psicólogo, entrar assistente operacional e passar a enfermeiro ou a advogado, na mesma instituição, sem concurso aberto, é uma bizarria, que o Estado sustenta, e que só afecta a sua eficiência.
Também é por isso que "assim não vamos onde era suposto chegarmos!"

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Siglas

Em serviços oficiais, o uso de siglas tem regras, e não se pode permitir que cada um use as que quer.

As siglas são indiscutivelmente úteis no léxico médico, mas sem uma lista aprovada, ninguém se entende.
Morrer de TP para uns pode ser na consequência de uma "Tuberculose Pulmonar" e para outros uma morte causada por um “Tiro de Pistola”, e BCG (Bacillus Calmette-Guérin) já foi interpretado por um aluno de Medicina, aqui do norte, como a “Bacina Contra a Gripe”.

Nos últimos anos, tenho assistido “à malta nova”, cheia de energias positivas, atirar-se aos textos com uma  "criatividade" sem nexo, perante a passividade e a falta de rigor dos mais velhos.
Surgiram então nos diários e outros registos, os “coc” – consciente, orientado e colaborante, os “2 id” ou “3 id” em vez de “b.i.d.” ou “t.i.d.”, vindos do latim "bis in die" e "ter in die", para significar duas e três vezes por dia, e a incapacidade/recusa em adoptar qd - "quaque die" – uma vez por dia, e o q_h - "quaque_hora” indicando o intervalo entre as administrações da medicação (por exemplo: 2 cápsulas q4h, para dizer 2 cápsulas de 4 em 4 horas) e outros sinais de desrespeito pelos nossos primórdios linguísticos, principalmente quando até os anglo-saxões as usam no seu léxico médico.
Mas são os tempos que correm. Aquilo a que os aventureiros chamam "A nova Era" e que tem resultado em fogachos "para inglês ver" e conseguir uma certificação de qualidade, esquecendo que tudo tem um princípio, um meio e um fim, e que se alguém se eleva, deve respeitar os ombros sobre quem se apoia.

domingo, 28 de julho de 2013

Nicolau Tolentino (1740- 1811)

Poeta, boémio, professor e oficial na Secretaria de Estado dos Negócios do Reino (depois de muitas cunhas), fazia parte da minha “Selecta Literária” do 2º ciclo do Liceu. Chamávamos-lhes o Nicolino Tilintau
Deixou-me neste soneto um gosto por epitáfios, semelhante ao de Machado de Assis, que escreveu:  "Gosto dos epitáfios; eles são, entre a gente civilizada, uma expressão daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar à morte um farrapo ao menos da sombra que passou."

Vai, mísero cavalo lazarento,
Pastar longas campinas livremente;
Não percas tempo, enquanto to consente
De magros cães faminto ajuntamento.

Esta sela, teu único ornamento,

Para sinal da minha dor veemente,
De torto prego ficará pendente,
Despojo inútil do inconstante vento.

Morre em paz, que, em havendo algum dinheiro,
Hei-de mandar, em honra de teu nome,
Abrir em negra pedra este letreiro:

«Aqui piedoso entulho os ossos come
Do mais fiel, mais rápido sendeiro,
Que fora eterno, a não morrer de fome».

Neste soneto, Nicolau não eutanasia o seu fiel cavalo. Manda-o para o campo, na certeza de que ele, doente, acabará comido por cães vadios. Era assim nesse tempo, em Portugal, como atestaram vários estrangeiros que por aqui passaram, reportando matilhas deambulando pelas cidades, que não só comiam o lixo das populações, como se encarregavam de dar destino ao que morria e não era aproveitado para consumo humano.

Agora, são raros os elogios fúnebres e os epitáfios sobre as campas. Morremos e o que fica é um nome e duas datas por baixo dele. 
Há bichos com mais sorte!


domingo, 21 de julho de 2013

Carta a Cavaco


Caro Cavaco:
Estou a escrever-te antes do teu previsível discurso, com mais um dos teus avisos.
Já sabes que não admiro a tua longevidade política, porque sempre vi nela uma preocupação em serenar o povaréu, garantindo uma cortina de “ legalidade” a quem mexe nos cordelinhos, que frequentemente acaba com um dos teus “avisos” quando, por um qualquer acaso, um vento põe tudo a nu.
Tu reflectes este país, sempre à espera que um milagre de última hora nos salve do abismo para que caminhamos anos seguidos. Nunca te vi uma atitude de arrojo, que nos fizesse sair desse rumo. Pelo contrário, estiveste metido nas disfunções do Oliveira e Costa e do Dias Loureiro, e eu não acredito que não tivesses conhecimento de muitas outras, que não vieram a público, e que são agora causa da nossa ruína.
Era aí que esperava que desses o murro na mesa para que não acontecessem. Agora vir avisar do  inevitável é trabalho de qualquer um.
Esta tua proposta de um Governo de Salvação Nacional era, à partida “um bacalhau com asas com sabor a marisco” para encanar a perna à rã e dar tempo para que a Finança nos "ajuste" aos “Mercados”, sob a óptica de uma Alemanha que nos entende como humanóides um pouco civilizados.

Vais ficar na História como um paisano de Boliqueime que um dia, em Lisboa, vestiu um fato e gravata para veneração de quem aguarda milagres, sem perceber que estava a dar cobertura às negociatas de uma elite, que de elite nada tem.
Agora, esgotado, vais a rojo, procurando nas palavras significados tão ambíguos como as do Paulo Portas, sem assumires intervir de peito cheio, porque isso "não faz parte do teu ADN", como dizia o teu amigo prof Marcelo, que te apelidou de “herbívoro”, por não atacares os problemas de frente, no medo de uma eventual morte política. Vais lavar as mãos, mais uma vez, alegando que “avisaste”, “que “tentaste tudo” , que “foram os partidos” e que “só te apetecia mandá-los à m####”, mas que “a Constituição não permite” e que “blá, blá, blá” e que “há que sofrer para que sejamos redimidos”.

Pede à Maria para não aparecer. A sua visibilidade é dolorosa e deixa-me envergonhado, constantemente a relembrar os seus esgares no teu discurso de vitória. Depois podias fazer-lhe companhia. Ias visitar um lugar qualquer “profundo” no nosso Portugal e arredavas-te o tempo que te falta até ao fim do mandato e talvez as coisas melhorassem.
Vai por mim, que eu, sem ser barbeiro, dou conselhos como um taxista e é na boca deles que está a sabedoria do povo e não no fundo das urnas.
Até daqui a bocado

terça-feira, 16 de julho de 2013

Tabaco

Ele fuma. Ela vai fumando. Os amigos estimulam-se no hábito.
Entra-se em casa e o cheiro domina a sala. Ali um cinzeiro com cinza de ontem. Na lareira umas piriscas esperam o próximo outono. O sofá ressua a nicotina das noites de sábado e os morrões nos vasos aguardam a voracidade das plantas.
A um canto, o gato, fumador passivo no apartamento, sufoca com um cancro do pulmão.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Rapação

1 - Acção de usar o rapão, na limpeza das bimbaduras, nas salinas. 
2- RAPação é uma banda de RAP - "mais que por enquanto tamos apenas trabalhando em letras e composições !"
Rapão: Utensílio de salineiro, para cortar o lodo que se prende às armações das salinas
Bimbadura: Fragmento de lodo, aderente aos travessões das salinas.


quarta-feira, 10 de julho de 2013

Pretuguês

- Boa continuação! ... Obrigada!, disse prazenteiro, enquanto se despedia, e deixou-me a pensar no mau domínio do português.

 Há dias num Blog do burgo e no meio de um comentário (Anónimo - 1/7/2013 - 00:39h) que merecia a minha simpatia, deparo-me com estas pérolas:

Na Inglaterra já é assim. Qual é o escanda-lo???,QUE no dia de greve e de FORMA CONBARDE, trocam o dia por CH e QUE NÃO inventão horas ficticias para acrescer ás que tem acumuladas no horário".

Nem queria acreditar, pois o assumi o texto como escrito por quem tem bem mais que o 12º ano.
Depois lembrei-me dos meus "Cadernos de Significados" para as palavras difíceis, das reguadas por cada erro no ditado e do ar de desprezo do "Rapa-Côdeas", meu professor de português no 8º e 9º anos de escolaridade,  quando a ignorância da língua-mãe atingia estes foros.

Nos tempos que correm, escrever mal num computador com um corrector de texto, que nos evita erros de palmatória, embora outros do tipo  "acabava-mos" quando se quer escrever "acabávamos", os não detecte, é sinal de falta de qualidade.

É que não chegam as preocupações com a marca da roupa, do carro ou do discurso sobre o que se consome, se a toda a hora se manifestam incapacidades primárias.
Erros destes retiram valor ao texto, ao seu autor, e à sua classe profissional, pois indiciam que o grau atingido é fruto do facilitismo que se instalou nas escolas, preocupadas com a elevação dos resultados estatísticos.
No caso ... é uma pena.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Irrevogável

 SERÁ QUE o adjectivo Irrevogável também pode ter diferentes graus?

Irrevogável em grau ligeiro, quando se quer dar sinal de vida.
Irrevogável em grau moderado, quando se exige uma influência que é negada.
Irrevogável em grau elevado, quando te apetece "virar-lhes as costas e mandá-los f####"

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Trabalhos de um bisavô


 
- Rita! Deixa o teu bisavô em paz!
- Está quase! Ele não se importa!