segunda-feira, 19 de maio de 2025

segunda-feira, 21 de abril de 2025

A avó demora?

Fim de semana de Páscoa. Pais, médicos, escalados para o Serviço de Urgência. Netos em casa dos avós.
21:30h:
Avó: Meninas são horas de ir para a cama. Vamos lavar os dentes que depois a avó lê uma história! Está bem?
Meninas: Siiiim!!! Pode ser a do “Corre, corre cabacinha!”????
21:45h
Avó: Hoje vão dormir cada uma em sua cama, que o avô está muito cansado e quer deitar-se cedo, que amanhã tem de trabalhar! Está bem!??
Meninas: Estáááá!!!
Avó: Eu leio o texto que está a preto e a Sara lê o texto que está a branco!
Sara: Sim!
Meia hora para ler o livro, mais as explicações para a Luísa.
Avó: Pronto! Agora, vou apagar a luz e é para dormir!
Meninas: Está bem!
Quinze minutos depois de estar a convencê-las a fechar os olhos e a estar quietas e caladas, a avó atreve-se: - Agora, ficam aqui quietinhas, que eu vou lá abaixo estender a roupa e venho já. Está bem?
Meninas: Está!
……
Ruídos variados mais risadas e correrias no corredor durante mais de 15 minutos, após o que descem ao estendal, onde a avó lida com a roupa.
Avó: Então não estão a dormir?
Sara: Avó! Tenho fome!
Luísa: Eu só vim para dar um abracinho!
Fim da refeição e do abracinho, a avó propõe:
- Voltem lá para cima e deitem-se na cama com o avô, sem fazer barulho, para ele não acordar, que eu não demoro!
23:00h
Entram caladas e deitam-se na cama. Empurram-se, riem e sussurram.
Avô: shiuuuuu! Agora não são horas de brincar. Toca a dormir. Fechem os olhinhos e estejam caladas!
Sara: E não posso tossir?
Avô: Não! Não podes tossir!
Sara: Nem fazer qhemmm!
Avô: Não! Nem fazer qhemmm! Está calada e fecha os olhos.
Sara: Então fico com o catarro!?
Avô: Sim! Ficas com o catarro!!
….
Luísa: Eu vou dormir para a minha cama, avô!
Avô: Está bem! Eu vou lá levar-te!
Luísa: Não é preciso, que eu não sou nenhum bebé!
Sai da cama e vai ter com a avó que ainda anda à volta com a roupa.
Luísa: Avó! Estou sozinha na cama, quando subires podes ficar um bocadinho comigo?

23:45h, na cama do avô:
Sara: Avôôôô!?
Avô: Diz???
Sara: A avó demora?
...

sexta-feira, 18 de abril de 2025

Sessão de Desenho de 15/04/2025

É às terças-feiras, de quinze em quinze dias, que me obrigo a pôr o cérebro a trabalhar na sua capacidade máxima. Sento-me num banco, abro o meu Diário Gráfico de Esboço disponho à minha frente vários lápis, de 4B a 9B, uma borracha e, durante quase duas horas, desenho o que me põem à frente dos olhos.

Na sala, embora dos mais regulares, sou dos mais fracos. O Manuel é o nº1, o John Chien Lee é o nº2, mas todos os que lá passam para acertar a mão (a maioria ligada às artes), fazem-me lembrar um poema de Vinicius de Moraes: “ E tu vens cheirando a lilás e com saltos, meu Deus tão altos, que eu fico lá em baixo com ar avacalhado!”

Mas a vida é o que é! Não tenho pretensão a “artista”. Desenho para fazer ginástica ao cérebro e asseguro-vos que saio dali mais cansado que depois de 15km nos passadiços junto à praia.

São poses de 3, 5 e 10 minutos. Raramente desisto de uma delas. Não foi o caso desta sessão.

Em casa avivei os contornos.















 












domingo, 13 de abril de 2025

O Ocaso dos Deuses - 44





Hipólito subia para o quarto, quando sentiu Nossa Senhora a bater no vidro da porta. Correu a abri-la. A mãe de Cristo, sorrindo, afirmou: - Já ia no Monte Farinha, quando me lembrei de ter deixado aqui uma vela! e, à guisa de quem confessa um pecadilho: - Eu tenho um fraquinho por velas de cera de abelha com perfume, como esta. As que me costumam oferecer são de parafina e sem qualquer fragrância. Esta tem um suave aroma a alfazema que me agrada imenso. São difíceis de arranjar. Nem em Fátima há! Lá é ao peso! Quanto maior, mais caro! O povo, em geral, acha que o muito é qualidade e as velas votivas que atira para o fogo são prova disso, quando o sentir é mais importante que a coisa.

Hipólito aproveitou a deixa para lembrar as grandes ofertas que já se fizeram à Santa da Ladeira, à Amelinha de Vilar Chão e a muitos outros locais onde se fez crer existir um posto de contacto com os Céus.
Nossa Senhora respondeu: - Isso são resquícios do paganismo greco-romano, que os cristãos optaram por integrar, para os manter sob controle. O mesmo se passa com alguns dos santos ditos “populares”, como o São Roque.
Quanto à Santa da Ladeira o descabelamento foi tal, que tive de intervir e fazer com que fosse presa. Verdade seja dita que de Torres Novas a Fátima são uns meros 24Km, o que constituía uma ameaça se se viesse a criar aí um novo santuário. Quanto à Amelinha de Vilar Chão não foram precisas medidas tão drásticas. Resolveu-se o problema com “subtilezas”, como em muitos outros lugares onde apareceram videntes. Fátima é um caso especial, mas hoje não dá para falar dele, senão nunca mais saio daqui! E dirigiu-se para a porta dizendo: -Adeus que se faz tarde! Esta noite tenho de dar uma volta pelos meus principais santuários em Portugal. Daqui vou a Santa Luzia, passo pela Senhora da Graça em Mondim de Basto, pela Senhora da Peneda no Gerez e depois, é ir por aí abaixo. Pela madrugada tenho de ter tudo terminado, que amanhã e depois, vou andar por Espanha e França. Adeus! E dito isto, ascendeu ao céu esfumando-se na noite.

Hipólito fechou a porta sentindo-se honrado com a visita de Nossa Senhora e ainda por cima com inversão dos papéis, pois não era ele a “rogar por nós pecadores”, era a mãe de Deus a pedir-lhe uma intervenção, junto de outros humanos, para que a “marca” Nossa Senhora não fosse usada abusivamente. Pegou no Smartphone e pesquizou “aparições marianas”. Havia registo de mais de duas mil desde o ano 40 da E.C., embora a Santa Sé só reconhecesse 16 a 28. A maioria tinha acontecido em Portugal, Espanha e França nos últimos 200 anos, a crianças pobres. Mesmo que Nossa Senhora se desse ao trabalho de uma aparição por ano, ele fora um dos contemplados, no meio de 2,4 biliões de cristãos que hoje há no mundo. Não iria aladroar como fizeram outros videntes, guardaria o segredo para si, também para poder ser mais eficaz em cumprir a vontade da Mãe de Deus, caso fosse necessária qualquer intervenção sua. Como os “Secularistas” não têm liderança, o melhor era manter-se atento ao que se passava na Califórnia e em Shenzhen (o “Silicon Valley” chinês), por ser aí que andam a borbulhar as forças passíveis de definir os novos comportamentos. Mas não só. Iria estar também atento aos “fenómenos populares” não dependentes de qualquer racionalidade, que são frequentemente o núcleo de grandes alterações sociais catalisadas por oportunistas de toda a espécie.
Lembrou-se então do que Nossa Senhora disse: “O mesmo se passa com alguns dos santos ditos “populares”, como o São Roque!”, e planeou rever o assunto no dia seguinte. A noite ia já avançada. Felizmente era sábado e tinha o domingo livre.



terça-feira, 1 de abril de 2025

O Ocaso dos Deuses - 43



Hipólito organizou o pensamento em voz alta, para que Nossa Senhora ouvisse.
Maria era judia e vivia em Nazaré que, na altura, teria entre 200 e 400 habitantes e onde todos se conheciam.
Tinha cerca de 14 anos quando ficou grávida de pai incógnito.
Na lei judaica, o adultério é punível com a pena de morte, conforme indica o livro de Levítico. A Torá prevê que tanto o homem como a mulher que cometerem adultério sejam apedrejados até a morte.
Maria se identificasse o pai seriam os dois lapidados.
José compadeceu-se de Maria.
José era um velho para a época. Teria cerca de 40 anos, era carpinteiro, viúvo e pai de vários filhos. Ser carpinteiro era pertencer à “elite” da aldeia.
As afirmações de José quanto à paternidade, não foram tomadas a sério na sinagoga e a dúvida persistiu.
Quando Maria estava perto do parto, José fugiu com ela de burro, sem levar nenhuma mulher da família para ajudar, quando a mortalidade associada ao parto, à época, era muito grande.
José era um homem avisado, o que faz pensar que a família devia ter cortado relações com Maria ou a premência da fuga.
Ficaram numa caverna nas imediações de Belém, por terem chegado à noite ao caravançarai e este já estar fechado.
De Nazaré a Belém são 14km a pé, cerca de 3 horas com passo estugado.
José ajudou o parto e Jesus nasceu saudável e sem complicações, o que é obra sendo Maria primípara.
Nos dias seguintes, uns amigos de José foram a essa caverna, levar-lhe uns “precisos”, talvez por já saberem desse esconderijo. O leite deve-lhes ter parecido ouro, uns panos, mirra e algo que comer o incenso.
Depois, Jesus foi educado por José que, como bom judeu, o ensinou a ler. Desde a diáspora que o pai tinha obrigação de ensinar os filhos (não às filhas) a ler, para manter o culto vivo.

Nossa Senhora ouviu com atenção o raciocínio de Hipólito, sem que no seu rosto assomasse qualquer ruga de agrado ou contrariedade e, no fim, comentou: - A realidade é demasiado complexa para se resumir numa página! Diferentes observadores narram os mesmos factos de modo diverso, limitados que estão pelas suas capacidades e experiência de vida. Para mais, quando a oralidade é o principal meio de comunicação, as deturpações são inevitáveis. Mas lembre-se que cada história que se conta tem intenção de influenciar o ouvinte/leitor e, se os conceitos que se querem passar são importantes, há que realçá-los.
O senhor já reparou que um manequim estilizado, mede 11 cabeças, quando na realidade as pessoas medem 7 cabeças e meia. Mas se quiser desenhar um herói, deve fazê-lo com 9 cabeças. As “figuras de estilo” são muito importantes para que a história “funcione”.
Como sabe, quando alguém se benze, diz: Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. O feminino está ausente. O culto Mariano foi o tributo mínimo à mulher, numa religião onde o homem é o centro de tudo. 
Essa história que conta não é inspiradora. A outra é melhor! Nossa Senhora é um ícone de mãe, de bondade, de serenidade e porque não … de beleza feminina. A sua “história” põe, de novo, a tónica num ser masculino. Em José. José é o herói ao afirmar-se como pai da criança que Maria trazia no ventre, para assim impedir a sua lapidação. José é o homem importante da aldeia que arrisca a sua posição para defender uma rapariga pobre, caída em desgraça, por suspeita de adultério.
É uma boa regra não deixar que a verdade estrague uma boa história! Guarde essa para si e para os seus amigos e, por favor, faça o que lhe pedi. 
Eu não quero ser mais do que aquilo em que me transformaram e gosto de sentir as pessoas confortadas quando pensam em Nossa Senhora, seja ela da Agonia, da Ajuda, do Alívio, do Amparo, Aparecida, Auxiliadora, da Boa Hora, da Boa Morte, da Cabeça, Desatadora de Nós, da Graça, dos Mares, do Monte, da Pena, da Vitória, de Fátima ou de qualquer outro lado, que títulos não me faltam!

Hipólito beijou-lhe de novo as mãos, prometendo tudo fazer para que os Secularistas não se apoderassem da sua imagem com qualquer intenção política, enquanto a conduzia à porta da casa. Aí Nossa Senhora elevou-se e iniciou nova ascensão ao céu, esfumando-se numa nuvem que entretanto passava.

segunda-feira, 31 de março de 2025

O Ocaso dos Deuses - 42





Nessa noite Hipólito custou a adormecer a pensar no evoluir da guerra na Ucrânia. Estava claro que os Estados Unidos da América, sob a liderança de Donald Trump, queriam manter o poder hegemónico sobre o mundo e qualquer fortalecimento da União Europeia era entendido como uma ameaça, pelo que o melhor era pôr um travão à entrada da Ucrânia no espaço europeu e deixá-la cair nas mãos de Putin que, mesmo que saísse vitorioso daquela guerra, saía coxo e com dívidas, o que o iria afastar de qualquer outra cavalgada na próxima década.

Eram três horas da manhã quando um pequeno ruído no jardim fronteiro à casa o fez acordar sobressaltado. Levantou-se, vestiu o roupão e espreitou por entre as frinchas da persiana. Uma pequena luz tremeluzia por cima de um arbusto. Desceu as escadas temendo por um início de incêndio, abriu a porta da sala e viu um vulto sentado na borda do muro. Aproximou-se e rapidamente identificou Nossa Senhora da Graça, com veste branca e manto azul celeste com uma pequena vela na mão esquerda, que protegia do vento com a direita. Parecia cansada, como se estivesse há muitas horas sem dormir. Hipólito ajudou-a a descer e encaminhou-a para a sala de estar, junto à lareira, onde umas brasas  ainda emitiam algum calor.

-Sente-se aqui neste sofá, que eu vou atiçar um pouco o lume!, convidou o médico, enquanto lhe oferecia um pequeno castiçal para ela pousar a vela.
Depois sentou-se numa banqueta aos seus pés e questionou-a: – O que é que a trás aqui, em finais de Março quando as suas festas são em Agosto? Agora não há emigrantes para movimentarem a aldeia. E ainda por cima à noite, com este frio!

Nossa Senhora que mantinha os olhos baixos, levantou-os, fixando a lareira, onde já passeavam pequenas labaredas, e respondeu calmamente: A quem o diz! Isto de ser humano e ter de viver eternamente não é fácil. Eu devia ter morrido como qualquer mortal, mas foi vontade de Deus que entrasse num estado de dormição e ascendesse em corpo e alma aos Céus. Era melhor que fosse só a alma que ascendesse, porque ter que andar com o corpo pelo céu, é pior que viajar pelo mundo com cinco malas grandes, que essas podem dar-se à guarda de alguém e, por um tempo, esquecê-las. Há dois mil anos não havia grandes problemas. Evitava as tempestades e os Invernos, mudando de hemisfério, ajeita-me em cima de uma nuvem mais fofa e dormia profundamente horas seguidas, mas desde a década de 20 do século passado, com o aumento exponencial de aviões no ar, é uma sorte dormir três horas seguidas. Ainda por cima tenho de ter cuidado para não cair no buraco do ozono!

- Acredito! Disse Hipólito. – Então agora com as Low Cost e a publicidade ao Turismo, não há gato pingado que resista a uma fugida de fim de semana para gastar o que não tem a centenas de quilómetros de distância. Para quem tem residência no Céu deve ser grande incómodo.
Nossa Senhora confirmou. – É como diz! Pudesse eu sair da atmosfera e ir para um lugar sossegado mas, como sou mortal, mesmo neste estado de dormição, preciso de respirar e por isso tenho de me manter próximo da Terra. O manto é polar e mantem-me quente, mesmo quando subo aos quatro mil metros, mas aí o ar já é muito rarefeito e eu dou-me mal nesse ambiente.

Hipólito anuiu salientando que por cada mil metros a temperatura ambiente desce 6,4ºC e, sem Oxigénio suplementar, o mínimo a esperar é uma dor de cabeça "das antigas". Depois, fitou-a nos olhos e relembrou a questão daquela "aparição”.

Nossa Senhora levantou-se para dar volume à voz e ser mais clara na sua determinação.
- Sabe, eu também fui ao Congresso onde o sr. esteve. Podia-me ter visto do outro lado do anfiteatro, bem em frente a si. Fui à sessão sobre “Secularismo” por me terem dito que iria estar na berlinda, o que se veio a verificar, quando a Inteligência Artificial falou. Ora eu vim aqui pedir-lhe ajuda na divulgação da minha total indisponibilidade para encabeçar qualquer movimento por mais pacifista que seja. Conheço os meandros da política e sei muito bem que a falta de consistência é geral. Por isso estive, estou e ficarei sempre de fora. Não gosto de carne assada, odeio gritos e bastam-me as confusões por que já passei!

Hipólito, surpreendido, comentou: - Mas quem sou eu, para divulgar essa missiva?
- Não é ninguém especial, mas está bem relacionado, e isso conta quando há necessidade de pôr coisas a andar. Fale com Zeus, com o Buda, com Mohamed, com quem quiser, mas tire-me desse filme. Não quero ver jornalistas a perscrutar a minha vida e concluírem que há incongruências, como acontece agora com o Montenegro.

Hipólito, aproveitou a deixa e retrucou: - Concordo consigo. O risco não é de desprezar. Até eu estranho como a sua história persiste pouco questionada. É demasiado a “preto e branco” para os conceitos actuais. Há uns anos, surpreendi-me com uma versão da Sua vida que me pareceu mais lógica. Quer ouvi-la?
Nossa Senhora sorriu e respondeu: - A história da minha vida já está escrita. Já houve quem a tentasse reescrever e saiu-se mal. O melhor é deixar tudo como está.

O médico concordou, lembrando o Primeiro Concílio de Niceia presidido pelo Imperador Constantino, em 325, onde se discutiu acerrimamente a questão da natureza divina de Jesus, por ser filho de uma mortal, até o Credo Niceno fixar a “consubstancialidade” do Filho com o Pai e, quem não o aceitou sofreu as consequências de ser considerado herético. Isto nos primórdios da Religião Cristã, porque o que se seguiu, até ao estabelecimento do “cânone”, foi mais do mesmo, até o domínio total das outras religiões do Império Romano.

Hipólito aceitou a incumbência beijando-lhe as mãos. Nossa Senhora agradeceu e dirigia-se para a porta quando parou, se voltou para trás e lhe ciciou: - As mulheres não resistem a saber do que se fala sobre si. Conte lá essa versão que diz ter lido sobre a “realidade” da minha vida. Talvez eu já a conheça!, sorriu condescendente e voltou a sentar-se.

terça-feira, 25 de março de 2025

Os abelhões

Uma das músicas que me ficou dos anos 70, foi a "Rose Garden" cantada por Lynn Anderson.

Oferecer um jardim a alguém é obra, não só pelo custo de o fazer, mas também pela manutenção que exige, pelo que o tal “Rose Garden” me parece mais um elefante branco, do que algo que se queira possuir durante muito tempo, a não ser que se tenha uma costela de "jardineiro".

Fazer a manutenção de um jardim seja ele de rosas ou de árvores e mantê-lo saudável não é fácil. Há as ervas daninhas, as doenças e a bicharada que volta e meia ataca por onde não se prevê e, se não se está atento, há perdas que podem ser irremediáveis.

Hoje, para tentar repor a verdade do lugar, meti-me a construir um abrigo para os abelhões e fi-lo, na tentativa de remediar a falta de abelhas que tenho sentido, desde que o sr. João tirou daqui as colmeias que estavam ameaçadas pelas vespas asiáticas.



Eu via uma ou outra a cirandar por aqui e nunca lhes liguei, mesmo depois de ter visto uma cair sobre uma abelha e a ter devorado em minutos. Só no dia em que tropecei na árvore onde tinham o ninho e uma me ferrou é que levei o assunto a sério, mas nessa data, há muito que as abelhas tinham saído daqui.


Agora namoro os abelhões, criando-lhes tocas para nidificarem. Como é o lá vem um à procura de um buraco jeitoso, com uns tijolos sobrantes e meia dúzia de canas fiz-lhes um abrigo.

Ao que parece também eles estão a sofrer declínio no hemisfério norte, fruto dos químicos usados na agricultura, ao ponto de já haver países a criar abelhões para dispersar por zonas agrícolas na época das polinizações. Como há diferentes variedades em diferentes regiões, há o risco de esses “abelhões de cultura” darem cabo dos nativos, pelo que o melhor é dar condições a estes para não se vir a necessitar daqueles.

Segundo o Sr. Google, são da família das abelhas. São grandes e solitários e trabalham em condições climatéricas adversas. Nidificam escavando galerias em troncos de árvores mortas ou qualquer tecido vegetal, de preferência madeira mole. As fêmeas podem ter quatro a cinco gerações por ano. São bons polinizadores e raramente picam. Produzem mel em pequena quantidade que armazenam em pequenos potes de cera “para consumo próprio”.

sexta-feira, 14 de março de 2025

Frase do Dia

Em Luar-do-Chão, nem há palavra para dizer "pobre". Diz-se "órfão". Essa é a verdadeira miséria: não ter parente.

in "Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra" de Mia Couto

domingo, 9 de março de 2025

O Ocaso dos Deuses - 41

 

Hipólito chegou a casa já o sol se punha.  Zeus, antes de se despedir sugeriu: - Vi que estás muito impressionado com o Donald Trump e, por isso, gostava que esperasses aqui um pouco, que eu vou ao Inferno trazer de lá um arrependido para tu conheceres que é cinco estrelas, e, num ápice, atravessou o chão para mergulhar nas profundezas da terra em direção ao Tártaro. Minutos depois estava de volta trazendo um patrício romano pela mão.

- Oh, meu amigo! Ia trazer-te o Nero, mas achei melhor o Júlio César, pois foi ele que deu cabo da República!, disse, enquanto empurrava ligeiramente o César para a frente. – É que Trump está a tentar imitá-lo como ditador. Mas preferia que o ouvisses!

Júlio César, com as vestes senatoriais ensanguentadas, pediu autorização para se sentar e iniciou a sua narrativa sobre os factos passados, com a humildade de um escravo.
- A República tinha demasiados “Checks and balances”, como agora se diz, que dificultavam a implementação das reformas sociais e políticas que eu preconizava. Foi por isso que impus a Roma a minha vontade. Centralizei o poder e a burocracia, nomeei-me imperador e até aceitei honras divinas. Nos primeiros tempos a coisa até que nem correu mal, mas a oposição política cresceu e, nos Idos de Março de 44 a.C., num dia tido como prazo para quitação de dívidas, um grupo de senadores aristocratas liderados por Marco Júnio Bruto (que até era um dos meus mais protegidos), assassinou-me, precipitando uma nova guerra civil e, como consequência, o governo constitucional republicano nunca mais foi restaurado.
Fui morto aos 56 anos. Tivesse eu sido mais inteligente e não tinha transformado a República num Império. Os benefícios de curto prazo não compensaram o que veio depois. Mais de metade dos Imperadores que me sucederam, morreram como eu, assassinados pelas forças que supostamente lhes eram leais. O poder absoluto não só corrompe como dá um “bode expiatório” fácil de identificar.

Hipólito interrompeu-o. - Não está a sugerir que seja esse o fim mais provável para Donald Trump, pois não?!
- Não deixa de ser uma possibilidade!, respondeu Júlio César. - Foi assim no Império Romano e é-o agora.

Zeus, que até aí se mantivera calado, atalhou: - Nunca faltaram indivíduos cheios de razões, nem razões para o que quer que seja. Trump viu demasiados filmes de Cowboys, onde o herói resolve tudo sozinho e tenta imitar o Lone Ranger acompanhado por um Tonto que, no caso, é o Elon Musk.

Hipólito, sorriu e acrescentou: - Eu já tinha feito uma analogia entre o Elon Musk e o Rasputin. Um a fazer a cabeça do Trump e o outro a fazer a da czarina Alexandra Feodorovna, esposa do czar Nicolau II, da Rússia, mas a sua imagem é melhor. De facto, o filme que passa na cabeça dele é um velho filme do oeste americano, em que o artista entra no bar armado com duas pistolas e depois de matar os maus, volta a montar o cavalo em direcção ao sol poente, com toda a população feliz no “backstage” e o som de uma guitarra a trinar em decrescendo, sobreposta ao trote do corcel.

Estavam todos de acordo, mas Zeus não quis sair dali sem pôr todos os pontos nos iis e lembrou. - No caso presente, quem levou a Ucrânia àquela guerra, foram os USA quando achavam que a Rússia era a sua maior ameaça, mas quando se aperceberam das fragilidades do seu exército nesta guerra e do salto que a China deu, querem virar-se para o Indo-Pacífico e deixar os europeus cuidar da sua Defesa. Enganam-se se pensam que vão manter os mesmos privilégios económicos. O mais provável é que a Nova Rota da Seda venha a ser uma realidade, pois Trump mostrou à saciedade que os USA não são mais fiáveis que os chineses.

Despediram-se. Hipólito subiu as escadas em direcção ao quarto de dormir, quando encontrou a mulher, incomodada por não ter tido notícias dele.
- Deixaste o telemóvel em casa e eu não encontrei, nesse Congresso, um número para te contactar.! Podias ter telefonado!
O médico justificou-se: - Neste Congresso … andei à vontade dos deuses!
- Andamos todos!, replicou a mulher. Hipólito retrucou, para amenizar o ambiente: - Mas olha que nem todos! Muitos maridos andam ao mando das esposas, dando razão ao provérbio galego: “Se a tua mulher te pedir para te atirares da janela abaixo, reza para morares no rés-do-chão!”. 
Abraçaram-se.  Ela disse-lhe ao ouvido: “Hoje o jantar é alheira! Daquelas que tu gostas!” e desceram de mão dada para a sala de jantar, enquanto o médico ainda cogitava: “Os genes sofrem mutações, os indivíduos são selecionados e as espécies evoluem!”, sem ser capaz de vislumbrar qualquer evolução favorável na espécie humana na História dos últimos três mil anos.

sexta-feira, 7 de março de 2025

Frase do Dia


Ser inimigo dos USA é perigoso.

Ser amigo ... é fatal!

Henry Kissinger Secretário de Estado e Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos nos governos dos presidentes Richard Nixon e Gerald Ford.