segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Georgina























A minha avó, que não conheci. Nasceu em Constância.
Faleceu em Macedo de Cavaleiros, com 36 anos, em 11-3-1927.
Teve seis filhos.
A sua morte precoce criou um silêncio em seu redor.
Tão estranho!

Casamento de Isidoro da Silva Gomes com Georgina Ferreira Rocha

Às catorze horas e trinta minutos do dia doze de Dezembro do ano de mil novecentos e doze, na rua Luiz de Camões e casa residência de João Rocha, perante mim, José Vicente Anes d’Oliveira, funcionário do Registo Civil, compareceu o noivo, Isidoro da Silva Gomes, vinte e dois anos de idade, estado de solteiro, natural da freguesia de São Julião, Concelho de Constância, domiciliado e residente na Praça Alexandre Herculano, desta vila de Constância, filho legítimo de Florêncio da Silva Gomes, natural da dita freguesia de São Julião e de Joaquina da Conceição, de profissão doméstica, natural da freguesia e concelho de Proença-a-Nova e residentes com seu filho; e a noiva, Georgina Ferreira Rocha, de vinte anos de idade, de profissão doméstica, no estado de solteira, natural da dita freguesia de São Julião, domiciliada e residente na dita rua Luiz de Camões desta vila de Constância, filha legítima de João Rocha, marítimo, e de Maria Ferreira de profissão doméstica, ambos naturais da dita freguesia de São Julião e residentes com sua filha, se declaram perante mim e as testemunhas adiante nomeadas que, de sua livre vontade, desejavam celebrar, como por este acto celebram, o seu casamento definitivo, segundo o regime de comunhão de bens.

Tendo previamente procedido em tudo conforme determina a lei, cumprindo todas as formalidade do artigo duzentos e vinte do Código do Registo Civil e nada havendo que a isso me impedisse em nome da Lei e da República Portuguesa, declarei os contraentes unidos pelo casamento.

Foram testemunhas presentes a todo este acto, os quais declararam querer ser padrinhos, Florêncio da Silva Gomes, pai do noivo contratante e José Vicente da Silva Rocha, solteiro, maior comerciante morador nesta vila de Constância e testemunhas João Soares Esteves casado, administrador do Concelho de Constância e José Francisco Gameiro Burguete, casado, comerciante e morador nesta vila de Constância.

E para constar, lavrei este registo que vai ser assinado por todos e por mim, José Vicente Anes de Oliveira, ajudante da Repartição do Registo Civil depois de ser perante todos lido e conferido com o seu extracto. Foi dado por escrito a autorização a que se refere o artigo quinto do Decreto de vinte e cinco de Dezembro de mil novecentos e dez.

A importância dos emolumentos é de seis escudos e sessenta centavos, estando neles incluído a quantia de cinco escudos por o casamento ter sido efectuado em casa e a importância dos selos que vão colados no extracto e de um escudo e vinte centavos e cinco milésimas.

Constância, em doze de Dezembro de mil e novecentos e doze.

 Isidoro da Silva Gomes
Georgina Ferreira Rocha
Florêncio da Silva Gomes
José Vicente da Silva Rocha
João Soares Esteves
José Francisco Gameiro Burgete
José Vicente Anes de Oliveira

sábado, 25 de agosto de 2012

Agradecimento

Não há intenção de diminuir quem o escreveu, mas somente registar, para memória futura.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Olhos

Há olhos eternamente baixos ou fixos no horizonte para que nada os perturbe.
Há olhos frinchões para contarem o que imaginaram sem perceber a essência do que viram.
Há olhos que comem e outros que desnalgam de tão vis.  
Há o “galanço” e o "micanço" para constituir família, e o "olhar de megalusa" p'ra tentar fazer tremer o mais pintado.  
E há olhos que se cruzam e que se dão para receber.

sábado, 18 de agosto de 2012

Ladrões



Disse mal dos melros, dos gaios, dos estorninhos e dessa passarada que acorda cedo para, de bico em punho, dar cabo da fruta mal ela começa a pintar. Podei, tratei, limpei, esperei e, quando me preparava para provar, dou com ela no chão, a apodrecer.
Lembrei-me tarde do espantalho.
Lamento-me, e surpreendo-me a ouvir outros roubos aqui por perto. Àquela levaram-lhe as abóboras que cresciam no meio do milho, a outro as couves que tinha na veiga, mais além um campo de batatas numa noite de luar, e isto sem falar nas castanhas e nas nozes que já ninguém contabiliza.
Depois lembro-me de um teixo que me desapareceu, porque "as plantas roubadas pegam melhor!”
Grandes melros que aqui há!

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Escrever


...
Enquanto esperava …, sentiu que podia escrever uma cena como a que se desenrolara junto à fonte, incluindo um observador escondido, como ela própria. … Conseguia ver as frases simples, os símbolos telepáticos a acumularem-se, a jorrarem pelo aparo. Conseguia escrever três vezes a cena, de três pontos de vista diferentes; a sua excitação vinha da perspectiva de liberdade, de ser poupada à penosa luta entre o bem e o mal, entre heróis e vilões. Nenhuma das três versões era má, nem particularmente boa. Não teria de julgar. Não teria de haver ensinamento moral. Apenas teria de mostrar mentes individuais, tão vivas como a sua própria mente, a debaterem-se com a ideia de que havia outras mentes igualmente vivas. Não eram apenas a maldade e as intrigas que faziam as pessoas infelizes: era a confusão e os mal-entendidos. Era, acima de tudo, a incapacidade de entender a simples verdade de que outras pessoas eram tão reais como nós próprios. E só numa história era possível penetrar em tantas mentes diferentes e mostrar como todas elas tinham o mesmo valor. Era esse o único ensinamento moral que tinha de haver numa história.
...
in "Expiação" de Ian McEwan

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Cinco Ciclistas Chineses

Era assim aquela "brincadeira" estúpida. Um fulano estava distraído no recreio e uma mão rápida agarrava-lhe os testículos por entre as pernas, enquanto lhe dizia: “Diz cinco jogadores do Sporting!”, ou qualquer coisa do género. Depois apertava ou desapertava, de acordo com a agilidade mental do visado.
Brincadeiras de mau gosto de crianças, dirão. Mas recorrentemente lá aparecia para gáudio de uns quantos, que acham graça à aflições dos outros.

Lembrei-me disto ao imaginar Pedro Passos Coelho a ter de responder a uma Troika que lhe pede "Sete medidas para ajustar o que gastamos ao que produzimos!".
A mão que aperta são os “mercados” e a pressão com que o faz são os “juros da dívida”. As dores sentimo-las nós.
- Diz sete medidas!. E o homem a procurar as que estão mais à mão:
- Aumentar impostos, vender a TAP, … acabar com metade das Fundações, … vender parte do SNS a privados, … aumentar impostos!
-Essa já disseste, não vale!
- … Diminuir todos os salários em sete por cento!
-Lindo menino! Faltam duas!
-… Fechar 20% das autarquias, escolas e postos de saúde!
- Vá lá, só falta uma! E mais um aperto nos guizos para lembrar que o tempo urge.
- …Vender os submarinos e os F16!
- …Não isso não vale! Que ninguém os quer! Diz outra!
- …Pôr três corruptos em tribunal!
- Serve, mas vais ter que te mexer. Olha que daqui a uns meses a gente volta e, dessa vez, vais-te sentir como se te estivessem a perguntar o nome de cinco ciclistas chineses.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Suspicazes

Suspicaz: desconfiado, receoso, suspeitoso, cabreiro, acautelado, apreensivo, arisco, cismado, escabreado, escaldado, intrigado, peludo, escuso, suspeito, duvidoso …

Ontem veio por mau humor, num descontrole incontrolável (sic), possuído (sic), com ideias deliróides persecutórias de automutilação e suicídio não estruturadas. Suspicaz.
Tem diagnóstico de "transtorno de personalidade". Aceita internamento e, no caminho, nos poucos minutos em que é deixado só, toma uma mão cheia de comprimidos que tinha numa sacola.
De imediato surgem os porquês e as justificações:
Ele estava calmo quando o deixámos ali sentado. Quem estava com ele foi tratar das burocracias da admissão. Deixaram-no ficar com a sacola para não o irritar. Talvez não tomasse tantos quantos disse, já que não tinha água com ele. Quando lhe lavaram-lhe o estomago, não saíram mais que dois ou três. "Oh Sr. Dr.! Ele aqui é mais um no meio dos outros!"
...............
-Uhhhh! Ainnnn!... Aiiiiinnnn!
-Que foi? Dona Maria do Céu? Que choro é esse?
-Uhhhh! Ainnnn!... Aiiiiinnnn! É a depressão! O meu psiquiatra foi de férias e tem o telefone desligado. Só ele é que sabe da minha doença! Uhhhh! Ainnnn!... Aiiiiinnnn!
Há 4 anos que anda bem. Diz a mãe que é a primeira recaída.
-Tenha calma que eu arranjo-lhe outro!
-Ainnnn!... Aiiiiinnnn! Ainnnn!... Aiiiiinnnn! Ainnnn!... Aiiiiinnnn! ..., e olha-me de soslaio, ... suspicaz.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Civilização – O Ocidente e os Outros


"Civilização – O Ocidente e os Outros" de Niall Ferguson, 2011.

Aquilo que estamos a viver agora é o fim de 500 anos de predomínio ocidental.

As civilizações comportam-se como todos os sistemas adaptativos complexos. Funcionam em aparente equilíbrio durante um período que não é predeterminável e depois de forma completamente abrupta, entram em colapso.

Uma civilização real para os seus habitantes, não são os esplêndidos edifícios, nem sequer o funcionamento impecável das suas instituições. No seu âmago, uma civilização são os textos que se ensinam nas escolas, que são aprendidos pelos seus estudantes e recordados em alturas de tribulação.

As provas mais inequívocas de que a deslocação do Ocidente para o Oriente é real, residem na Educação. Em 2005, num estudo sobre o desempenho académico de alunos com idades entre os vinte e cinco e os trinta e quatro anos, a OCDE encontrou uma diferença espantosa entre os países do topo – a Coreia do Sul e o Japão, e os do fundo da tabela- a Grã-Bretanha e a Itália. Verifica-se um fosso semelhante nos testes normalizados de aptidão matemática entre os alunos com catorze anos de idade, com os de Singapura a baterem de longe os da Escócia, situando-se os primeiros 19% acima da média internacional e os segundos 3% abaixo.

São algumas das conclusões finais. 
Mas o melhor é ler o livro, sublinhar as partes mais relevantes para depois voltar lá repetidas vezes para perceber bem.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A Religião e a Troika

Andamos envoltos numa nuvem de conceitos que nos orienta e dá limites. Uma nuvem dinâmica com muitos elementos indefinidos, mas onde é possível adivinhar os que lhe dão densidade e força.

A filosofia que engrossa as suas partículas, foi (e é) fortemente influenciada por conceitos religiosos onde os políticos se tentam encaixar. Como o sobrenatural tende a impor-se às criações humanas, é necessário que Deus ajude na procura e implementação de soluções para o bem comum e não ande a tratar da vidinha daqueles que "o conhecem melhor".

Quando, em 5 de Dezembro de 1496, Dom Manuel assinou o decreto de expulsão dos judeus, iniciámos não só a transferência das suas empresas e "know how" para o norte da Europa, como também nos distanciámos do movimento reformista de Martinho Lutero (1517).

Os povos (sul da Europa e América do Sul), que se mantiveram fiéis ao Vaticano, continuaram a suportar um clero (interposto entre cada indivíduo e Deus e em conluio permanente com os Estados), que os orienta para um limbo de inseguranças, para que os “padres-guias" os possam liderar.

Os protestantes ao estabelecerem uma relação “directa” com Deus, sem o clero como intermediário, “obrigaram” os crentes a ler a Bíblia, e promoveram assim a literacia e o caminho para o conhecimento.

Os povos dos países onde o catolicismo prevaleceu, mantiveram altos níveis de analfabetismo, e ficaram “a ouvir” o que se lhes achavam conveniente dizer, frequentemente em latim, para mais os confundir.

Esta “nuvem” católica, promoveu a irrelevância, obstruiu a imaginação, penalizou as dissidências, e impediu novas soluções no seu seio, obrigando os povos à “compra” do progresso criado sob outras “nuvens” por judeus, protestantes e ateus.

As “absolvições” a troco de favores, o “olha para o que eu digo e não olhes para o que eu faço”, as “cunhas” vestidas de preocupações sociais, que tanto a caracterizam, foram e são impedimentos à progressão por mérito. O celibato dos padres, as directivas sobre o preservativo e as promessas de felicidade celeste, são exemplos da conversa que distrai dos verdadeiros problemas.

A ética protestante, mais rigorosa e tolerante, premiou o mérito e facilitou o desenvolvimento da ciência, e da consequente revolução industrial e tecnológica, de que os católicos têm vindo a beneficiar.

Agora a “nuvem” protestante e judia avança, exigindo à “nuvem” católica “ajustamentos”, que mais não são que uma mudança de ética e, nesta circunstância, … ou Deus nos ajuda … ou estamos tramados!

sábado, 28 de julho de 2012

Acidentes

-Então foi pescado?
-Não! Estava a fazer uma armadilha para um texugo. Prendeu-se o anzol numa espiga e quando o puxei, veio desembestado e espetou-se-me no nariz! Por sorte não veio ao olho!
-E o que é que você tem contra o texugo? O mais certo é ele andar-lhe a controlar os ratos e outra bicharada junto à casa!
-É que ele gosta mais de galinha que eu.
-Devia ter feito uma gaiola/armadilha em vez de um desses iscos. Deixava o bicho vivo e são, e você ainda se entretinha.  Depois, entregava-o ao SEPNA da GNR, para eles lhes darem o melhor destino.
Agora vamos tirar-lhe isso. Primeiro anestesiamo-lhe a ponta do nariz, depois empurramos o anzol até aparecer a ponta e corta-mo-la com um alicate de aço. Assim é fácil retirá-lo.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Desesperos

-Sr. Dr.! Nós somos de Cuide de Vila Verde. Fui com a minha mãe ao Centro de Saúde de Ponte da Barca por causa dos olhos, e a doutora mandou-me para o Hospital de Viana. Agora dizem-me que tenho de ir com ela para Braga, porque não há Oftalmologia nesta Urgência!?
Eu não tenho dinheiro para andar de um lado para o outro. Ainda por cima trouxe o meu pai, para o não o deixar sozinho em casa, e ele tem que tomar os remédios a horas.

É uma mulher bonita e cuidada, embora as mãos denotem intenso trabalho manual. Deve andar pelos quarenta e cinco anos. Os óculos modernos valorizam-lhe o sorriso, logo cortado pelas lágrimas de desespero, quando retoma a conversa. Diz que o pai foi construtor civil e que têm vindo a perder o pouco desafogo que já tiveram.

-Não casei para tomar conta dos meus pais. Agora, estou sozinha e com eles doentes. O meu pai teve alta há um mês, depois de uma operação ao pâncreas. Ainda por cima tiraram-lhe a isenção. Não deve ter sido por ter casa própria, porque isso não conta e os dois juntos pouco mais têm que 500 Euros de reforma, e eu, só posso trabalhar meio tempo, porque tenho de cuidar deles. A gente até desanima de andar no mundo!
Não me mande para Braga por favor! Eu volto segunda–feira. Ela aguenta. … Aguentas, não aguentas, mãe?
...

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Judeus

O papel dos judeus na vida intelectual ocidental no século XX, em especial nos Estados Unidos, foi efectivamente desproporcionado, indiciando uma vantagem de ordem cultural e genética. Representando cerca de 0,2% da população mundial e 2% da população americana, os judeus ganharam 22% dos Prémios Nobel, 20% da Medalhas Fields de Matemática e 67% das Medalhas John Clarke Bates para economistas com menos de quarenta anos de idade. Os judeus venceram 38% dos Óscares para Melhor Realização, 20% dos Prémios Pulitzer de não ficção e 13% dos Grammy de Carreira.

No pé da página 277 do livro "Civilização - O Ocidente e os Outros" de Niall Ferguson

... do mesmo livro, no pé da página 210:

Na realidade, os judeus ultrapassaram os protestantes em desempenho nos últimos cem anos, com rendimentos e taxas de auto emprego significativamente mais elevados. Dos chief officers das 100 maiores empresas da revista Fortune em 2003, pelo menos 10% eram judeus, como judeus representavam também 23% dos CEOs da Forbes 400. Além de serem desproporcionadamente bem-sucedidos a lançar firmas financeiras, os judeus também fundaram ou co-fundaram algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo, por exemplo, a Dell, a Google, a Intel e a Oracle.

Nota: Os judeus são ~13,2 milhões, dos quais ~5,5 milhões vivem em Israel e na Palestina e ~5,1 milhões nos EUA .

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Receita para um fim de dia

Chegue-se a casa, depois de um dia de trabalho, com um pouco de sede e a camisa colada às costas. Faça uma festa ao cão, cumprimente quem por lá se encontre, e suba ao quarto.

Retire a roupa da rua, lave a cara, os braços e passe-se-lhes uma toalha, sem se secar completamente. De seguida vista uma T-shirt, uns calções curtos e uns chinelos, tudo bem usado, para que o corpo os reconheça.

Depois desça sentindo o ar despentear os pelos das pernas e a entrar pelas frinchas dos chinelos. Passe pela cozinha e fatie fininho um pedacito de queijo Manchego e coloque-o numa tábua ao lado de um naco de pão alentejano.
Enquanto estes "comes" lhe estimulam os sucos, com a agilidade possível prepare o Mojito.
Num almofariz, deite o sumo de um limão, 10 folhas de hortelã e 1 colher de chá de açúcar. Esmague e verta para um copo bem grande, sem deixar ir as folhas. Associe 4cl de Rum, gelo moído e Água das Pedras bem fresca qb. Mexa suavemente. Decore com um raminho de hortelã e ponha-lhe uma palhinha.

Depois, pegue no copo e nos "comes" e sente-se no local mais confortável que por aí encontre, entremeando a bebida com o queijo e o pão, enquanto tenta identificar os sons que lhe andam por perto.
Quando acabar, espreguice-se, arrote e vai ver que mesmo que sejam seis da tarde, o dia começa de novo.

Em seguida, dê uma volta pelo lugar e com nova passagem pela cozinha, pois pode haver novidade para o jantar, principalmente se tiver filhas jovens que andem a ouvir atentamente o Jamie Oliver na TV.
Se tiver sorte pode participar na preparação de uma Tarte de Espinafres e queijo indo à horta buscar um molho de espinafres, enquanto a deixa entretida na sua preparação.

Ingredientes: massa filo, 300g espinafres, 4 ovos, 1 dL leite, 100g de miolo de camarão, 150g de queijo feta, salsa, tomilho, malagueta

Pega-se numa folha de papel vegetal, amassa-se e molha-se. Estende-se na banca e por cima coloca-se 1 folha da massa filo. Tempera-se com tomilho, pimenta e azeite. Espalha-se bem e coloca-se outra folha de massa por cima e assim sucessivamente, temperando cada folha individualmente. No final forra-se uma forma de tarte.
À parte salteia-se o miolo de camarão num refogado com azeite, 4 dentes de alho esmagados e 2 malaguetas. Quando cozinhados retira-se o miolo de camarão e salteiam-se as folhas dos espinafres no mesmo refogado durante cerca de 2 minutos.
À parte batem-se os 4 ovos, junta-se o leite e o queijo feta partido aos cubos e um raminho de salsa picada.
Junta-se tudo e coloca-se na forma previamente forrada com a massa. Cobre-se o recheio com as pontas da massa e leva-se ao forno a 180º durante cerca de 20 minutos.

Entretanto ponha a mesa e procure na garrafeira um vinho tinto que não o deixe ficar mal. Pode ser um Douro que liga bem, mas um bom Cabernet-Sauvignon não fica lhe fica nada atrás.
Volte à cozinha para saber novidades da sobremesa, para escolher os talheres.

Gelado
Pica-se muito bem 100g de chocolate de culinária, 2 mãos de grãos de café e uma mão de avelãs. Envolvem-se bolas de gelado de nata nesta mistura e leva-se ao congelador antes de servir.

Esqueça a crise!

sábado, 14 de julho de 2012

Urgências

-Sr. Serafim. Então você queria suicidar-se?
-Eu??!! Sr. Dr.!!? Não!!! ... Quem é que disse isso?
-Foram os Bombeiros que o encontraram na beira da linha do comboio!
-Não Sr. Dr.! Eu estava ali a descansar, quando apareceu aquele Sr. que me tirou uma fotografia e me acordou!

Tem 45 anos, veste umas jeans surradas e a camisola da selecção. É magro, escuro de cabelo grisalho e seco. Quando fala, assomam-lhe à boca os dois caninos superiores e a língua tropeça perdida naquele excesso de espaço.

-Ele disse que era fotógrafo, para eu não me preocupar. Deve ter sido ele que chamou a ambulância!
-Olhe lá! Aqui na ficha diz que você é de Ermesinde! O que é que anda a fazer por aqui?
- Foi para espalhar. ... Por causa dos problemas. ... É só problemas e um homem, às vezes, ... tem de ir p’ra longe!

Ontem meteu-se no primeiro comboio que passou e acabou aqui. Diz que comeu umas iscas e um copo de vinho e que dormiu debaixo da ponte, sem mais roupa que a que traz vestida. Nem um caixote de cartão encontrou. Quando o dia surgiu, subiu ao tabuleiro da ponte e deitou-se ao sol para aquecer.

-Oh Sr. Serafim! Você, ontem, não bebeu só um copo! E agora? Como é que vai para casa?
-Vou de comboio outra vez.
-E você tem dinheiro?
-Tenho, sim senhor!
-Quanto?
-OooHhhh!, olha-me desconfiado. 

Diz que foi casado, e que deixou a mulher porque ela era uma bêbada.
-Às vezes, eu fazia um risquinho no garrafão e depois era vê-lo a ir sempre “ó p’ra baixo! Um homem assim não pode viver! ... Carago!
Está desempregado e vive em casa da mãe. Tem o Rendimento Social de Inserção. Roubaram-lhe o telemóvel, mas sabe o nº de telefone da casa. Telefono.

- Está?! Aqui é do Hospital! É de casa da mãe do Sr. Serafim? É para informar que ele está aqui no Serviço de Urgência, por causa de um pouco de vinho a mais, mas está bem! Querem vir cá buscá-lo?
- O quê? ... Como é que ele foi aí parar!
- Diz que veio de comboio!
- Ah foi? ... Então que se arranje! ... Ele vai dar cabo de todos nós. ... Tenho-o aqui em casa por favor, e todos os dias arranja problemas! … Pois é! ... Ele foi levantar ontem o dinheiro do RSI! … Ele que se arranje! ... Oh meu senhor! Ele que se arranje! ... Esse meu filho é a minha desgraça!
- Então eu vou chamar a Polícia para o meter no comboio e a Sra. fala com alguém para ir lá buscá-lo. Está bem!?

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O estado da Nação

Todos nós temos fragilidades, dúvidas e inseguranças, a nível pessoal e a nível profissional, facilmente captadas nos desabafos e nos pequenos gestos do dia a dia.

As Instituições não deveriam ter este problema, por estarem acima dos indivíduos, vivendo de saberes acumulados dos muitos que para elas contribuíram, ao mesmo tempo que lhes tamponavam as deficiências.

É assim nos países civilizados, onde as mais prestigiadas Universidades, cumprem normas de longas décadas, para não se perderem por um qualquer erro de um dos seus elementos, por mais notável que ele seja.
Isto para dizer que nenhuma, com um mínimo de responsabilidade, poria na mão de dois ou três dirigentes, dar benefícios de ocasião a políticos ou criaria cursos sem saída profissional para obter vantagens económicas.

Nós portugueses, que há quase 40 anos andamos a dizer que queremos ser uma democracia moderna, nunca cuidámos das nossas Instituições. Deixámos que elas fossem tomadas pelos políticos, como se isso fosse uma coisa normal, e agora queixamo-nos da sua falta de credibilidade.

Até as carreiras médicas, que davam alguma garantia de independência, foram lenta e progressivamente descaracterizadas, até pelos próprios médicos quando lhe acenaram com algumas benesses cheias de racionalizações.

Nos Hospitais foram colocadas administrações de nomeação política, que por sua vez tratam de nomear direcções de serviço "a seu jeito", deitando mão de qualquer razão que o momento lhes torna premente. A incompetência e o voluntarismo tomam o poder, os políticos e o grupo de oportunistas, que habitualmente os acompanha, trata do seu benefício, e estranha-se quando surgem as disfunções.

É este o estado da Nação.
Temos demasiados Varas, Relvas, presidentes de nomeação política, e elegemos demasiados populistas sem seriedade.
Faltam-nos Instituições responsáveis, independentes e com democracia interna e não geridas por um qualquer que se sente um excêntrico do Euromilhões, por ter sido nomeado pelo político de serviço.