Todas as semanas dou um passeio a pé pelo monte. O mais comum e curto, é subir ao estradão que une Carreço a Afife, descer até ao Casino, comprar o jornal, tomar um abatanado, e voltar pela recente estrada paralela à linha do comboio.
Qualquer modo de ver a realidade é necessariamente limitado. Estas são algumas das histórias que definem o meu olhar.
Há uns meses ouvi no YouTube, uma entrevista com Stephen Fry, actor, escritor e grande comunicador inglês, em que ele falava dos comentários ao que publicava nas redes sociais.
Dizia ele: “Você posta
algo e embora 99% das pessoas, pelo menos, sejam simpáticas mesmo que discordem
de você, há 1% que é desagradável, rude e ameaçador…. Eu acho que é um pouco
como uma piscina. Se 99% da água da piscina é limpa, é bom, mas se houver um
pedacinho de cocó flutuando nela, eu não vou nadar nessa piscina. Não sou esse
tipo de pessoa que não liga ao que as pessoas pensam ...”
Eu faço o esforço de estar nas
redes sociais, mesmo sabendo que nela há todo o tipo de gente.
Há os velhos teimosos, intolerantes, resmungões e
auto-indulgentes que, de punho erguido aproveitam o pobre incauto que cruzou o
seu caminho, para tentar converter a aldeia num asilo exclusivo para eles. Há gente que se sente corajosa por se manifestar
politicamente incorrecta e tresmalhada do rebanho, muitas vezes a coberto do
anonimato. Há os patetas com piadas jocosas (como se o humor fosse uma coisa fácil) cujo teor é o que se encontra nas
tabernas entre os bem bebidos. Há os que “acham” isto e aquilo, sem o mínimo de
humildade nem esforço de estudar ou pensar sobre o que se atrevem a dar opinião.
Há os do “bota abaixo” de olhar enviesado, que veem em tudo o que lhes cheira a
mudança, um prejuízo irreparável. Há os que dividem, não recusando o “bulling”, se o acharem útil e os que vestem a pele de um Canário de terceira e se põem a "espicaçar”
quem não conhecem, na esperança de uma resposta que satisfaça o “ai,olariloléla”
em que se sentem confortáveis.
A estes eu não respondo.
Eu uso as Redes Sociais na procura de alguma coisa
interessante: um humor com pés e cabeça, uma história pitoresca, uma observação
de um angulo diferente, um ensinamento, um negócio …
As brejeirices e outras “inconveniências”, guardo-as para
dentro de portas, para que possam entrar por um ouvido e sair pelo outro sem
deixar registo que nos comprometa e, mesmo assim, com cuidado, porque uma
palavra fora da boca é como a pasta de dentes que é impossível de voltar a
meter dentro do tubo.

Gosto da palavra inexoravelmente. Nunca a usei, mas gosto! Li-a uma vez num texto apocalíptico (também gosto desta), onde o autor escreveu: “Caminhamos inexoravelmente para a solidão!”, e fique fã.
David era o mais novo de 8 irmãos. Era pastor e passava o dia a cuidar do rebanho, enquanto alguns dos seus irmãos se preparavam, no exército israelita, para uma guerra com os filisteus, que possuíam um dos exércitos mais fortes da região.
Todos as manhãs, um enorme soldado filisteu, com mais de 2
metros de altura, armado até aos dentes, saía das hostes inimigas para
desafiar num combate singular o melhor lutador israelita. Ao fim de quarenta
dias, como ninguém tinha aceite o desafio, David foi ter com o rei Saul e prontificou-se para a luta, unicamente armado com a funda e cinco
pedras, como quando protegia o rebanho dos lobos e
leões.
A uma distância segura, lançou a pedra com tal pontaria, que a encaixou entre os
olhos de Golias, deixando-o no chão inanimado. De seguida, retirou-lhe a espada e
cortou-lhe a cabeça.
Segundo o Velho Testamento, o pequeno David, que nem soldado
era, venceu o gigante Golias porque o Deus dos Judeus o ajudou. É bom que se
diga que, ainda agora, os Judeus se consideram o Povo de Deus. Os outros são gentios,
o que, basicamente significa selvagens, gentalha, pagãos, idólatras, hereges, infiéis e por
aí fora.
Mas esta história, que glorifica os Judeus e o seu Deus, tem
uma versão actual que me seduz por ser mais lógica.
Quem a conta é Malcolm Gladwell.
Texto de M.H.S.Gomes
Mais tarde associei esta história a uma outra em que, nalgumas comunidades com grande mortalidade infantil, as crianças só recebem o nome com vários meses de vida, como se fosse ele a dar-lhes direito a cidadania e não o nascimento. Por fim, dei por mim a magicar em que se não conseguirmos nomear as coisas, sejam elas animadas ou inanimadas, não as respeitamos.
Se olharmos em volta e só virmos “pardais”, então, tudo é
“praga”, como aconteceu com Mao Zedong quando, em 1958, ordenou que se matassem
todos eles, por comerem "demasiados grãos", o que causou um dos maiores
desastres ecológicos da História. A população mobilizou-se, destrui ninhos e
fez barulho continuado para os assustar e os impedir de pousar, até morrerem de exaustão. Nos três anos seguintes morreram 45 milhões de
chineses de fome, devido aos erros económicos, ao desastre ambiental e ao estado
de terror. É que passarinhos há muitos. Os que comem grãos, os que comem
insectos e os que nos livram do que por aí morre, impedindo que as verdadeiras pragas
se estabeleçam. A “inteligência” da nomenclatura comunista chinesa ao “cortar a
direito” esqueceu-se que é na diversidade que se encontram soluções e não na
monotonia do “faz como te digo e dá ao diabo o que pensas!”
Mas para ter opinião válida é preciso estudar. Não chega o que se aprende
na “Universidade da Vida”. Se o berço for bom, talvez nos faça gente educada e
respeitadora de valores, mas instrução (conhecimento, ciência, erudição, …), há
que ir buscá-la onde houver o “saber”: às escolas, aos
livros, às palestras, na Net, porque não?, mas nada como ter um bom professor
que nos oriente e nos abra os olhos para o que está à nossa frente e não conseguimos
ver, porque não o conseguimos nomear.
Amén