sexta-feira, 25 de junho de 2021

Caminhos do monte

 



Todas as semanas dou um passeio a pé pelo monte. O mais comum e curto, é subir ao estradão que une Carreço a Afife, descer até ao Casino, comprar o jornal, tomar um abatanado, e voltar pela recente estrada paralela à linha do comboio.
Uma vez por outra cruzo-me com madeireiros, raramente com pedestres, ciclistas ou motociclistas em recreio, nesta pequena floresta onde imperam eucaliptos e pinheiros.
Quando me meto a explorar uma lateral, passados umas dezenas de metros, esbarro em muros, árvores ou num troço do caminho atulhado por ramos secos e pedras derreadas dos muros, a obrigar-me a voltar para trás.
Sou um “urbanita” que não entende uma floresta sem caminhos identificados, sejam eles de servidão, pertença de dois ou três, ou rurais e florestais, que os há concerteza, que os madeireiros contornam, porque há muito estão entregues ao abandono.
Um amigo meu, do Porto, vendeu recentemente uma moradia onde viveu até há uns 20 anos. Tinha cave, rés-do-chão e primeiro andar, garagem para dois carros na traseira e um pequeno jardim em frente. Dois meses depois o comprador interpelou-o por não conseguir meter os carros na garagem e quando se foi analisar o corredor de acesso, chegaram à conclusão que os automóveis actuais têm uma distância entre rodas significativamente superior aos daquela data.
Com os caminhos rurais e florestais deve ter acontecido a mesma coisa. Estão desadaptados às novas exigências, mas eles são fundamentais por fazerem parte dos perímetros florestais e proporcionarem a circulação de animais, máquinas e viaturas florestais, para além da importância acrescida para a proteção civil e de facultarem as ligações a áreas com considerável valor ecológico, paisagístico e ambiental.
Daí a necessidade de as manter limpas e em bom estado de conservação, regularizando o piso, desmatando a vegetação no caminho e nas bermas de modo a evitar ignições e a propagação do fogo.
Junto a minha casa havia dois destes caminhos, que ao longo destes anos em que aqui vivo, tentei manter livre de árvores. Há uns anos, ainda eram percursos de motards e ciclistas de BTT. Num deles alguém colocou no seu início um volumoso bloco de pedra para, anos depois, construir uma moradia, agora embargada. O outro, depois do incêndio de maio de 2019, foi parcialmente tomado por acácias e fetos e, embora ainda se passe, é aconselhável levar uma catana.
Estou em crer que a floresta de Carreço já teve melhores vias, pese embora a actual maquinaria permita, em meia dúzia de horas, abrir e regularizar estes caminhos para os benefícios referidos.
Hoje, um madeireiro abriu um novo caminho no monte, em terreno particular, para conseguir retirar a madeira abatida.
Não foram necessárias muitas horas, nem planos de engenharia. Imperou a necessidade.
Daniel Fontainhas, Francisco Cruz e outras 17 pessoas

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Segunda dose da vacina para o Covid

Enquanto aguardava a minha vez para a segunda dose da vacina, observava os que saíam da sala da inoculação e atravessavam o longo corredor ladeado de cadeiras, em direcção ao recobro. Vinham invariavelmente em atitude de recolhimento, olhos postos no chão e mãos junto ao peito, o que me fez lembrar os tempos em que fui introduzida nos rituais católicos, quando, aos 6 anos, passei a frequentar um colégio de orientação cristã.

Ensinaram-me então que tinha que confessar os meus pecados a um homem velho, vestido de preto dentro de uma cabina escura. Como era pequena e não chegava aos buraquinhos do confessionário, o padre saiu e a confissão ocorreu frente a frente, comigo muito humildemente ajoelhada, num grande esforço para inventar pecados para não o defraudar, pois não era suposto chegar lá sem nenhuma falta.

Como é que aos 6 anos se tem noção de pecado? Diziam-me que se pecava por pensamentos, palavras, obras e omissões e eu punha-me à procura dentro da cabeça de quais de todos eles podiam merecer essa classificação.

No fim, o meu nível de pecadora era quantificado pelo número de Avés Marias ou Salve-Rainhas que me receitavam como penalização e que comparava com as minhas colegas, tal como as notas nos exercícios de ditado ou redacção.

Ensinaram-me ainda que, depois deste passo doloroso, estaria pronta para comungar. Ainda na fila para a comunhão já eu punha a língua de fora para receber aquela fatia fina e seca de pão sem fermento, para depois sofrer o tormento de ter a hóstia colada ao céu da boca e ser proibido tocar-lhe com os dedos, quando os movimentos de língua não eram suficientemente eficazes para a descolar, e me punha a revirar os olhos com ar de recolhimento, tentando pensar em coisas "edificantes", com a agravante de ser proibido sair da igreja ainda com a hóstia na boca sob pena de passar a vergonha de ver dois sacristãos atrás de mim, com tochas acesas.

Para progredir nesses patamares fiz a primeira comunhão. Vestiram-me de anjinho e, para compor a imagem, a minha mãe chamou a cabeleireira a casa e transformou os meus cabelos, normalmente lisos, em densos caracóis por meio de uma "mise" executada com ferros quentes, que além de me queimarem o couro cabeludo me faziam cair a cabeça pelo seu peso excessivo para a minha idade.

Cumpri a minha missão segurando a toalha da comunhão, de joelhos, ostentando nas costas um longo par de asas, por um tempo que me pareceu infinito. Os fotógrafos que se posicionaram por trás de mim, encarregaram-se de entortar as ditas asas, tornando a meu equilíbrio ainda mais penoso.

Tudo excessivo, muito intenso e pouco útil!

Já a comunhão solene se revelou a ostentação de uma vaidade familiar bacoca. Nos meus 10 anos ainda reclamei, tentando que me deixassem envergar um fato de freira mais adequado à solenidade da minha profissão de fé. Não me deixaram. Era sobrinha da directora, Tinha de ser a mais "bonita" e... vestiram-me de noiva!

Tudo acabou aqui. Resta o lamento do tempo rouhbado às sãs brincadeiras despreocupadas como devem ser as das crianças e os medos que perduraram anos, até se perderem.

Felizmente que as novas gerações não são obrigadas a passar por isto.

História de H G 

quarta-feira, 16 de junho de 2021

terça-feira, 8 de junho de 2021

Eu e as Redes sociais

 


Há uns meses ouvi no YouTube, uma entrevista com Stephen Fry, actor, escritor e grande comunicador inglês, em que ele falava dos comentários ao que publicava nas redes sociais.

Dizia ele: “Você posta algo e embora 99% das pessoas, pelo menos, sejam simpáticas mesmo que discordem de você, há 1% que é desagradável, rude e ameaçador…. Eu acho que é um pouco como uma piscina. Se 99% da água da piscina é limpa, é bom, mas se houver um pedacinho de cocó flutuando nela, eu não vou nadar nessa piscina. Não sou esse tipo de pessoa que não liga ao que as pessoas pensam ...”

Eu faço o esforço de estar nas redes sociais, mesmo sabendo que nela há todo o tipo de gente.

Há os velhos teimosos, intolerantes, resmungões e auto-indulgentes que, de punho erguido aproveitam o pobre incauto que cruzou o seu caminho, para tentar converter a aldeia num asilo exclusivo para eles. Há gente que se sente corajosa por se manifestar politicamente incorrecta e tresmalhada do rebanho, muitas vezes a coberto do anonimato. Há os patetas com piadas jocosas (como se o humor fosse uma coisa fácil) cujo teor é o que se encontra nas tabernas entre os bem bebidos. Há os que “acham” isto e aquilo, sem o mínimo de humildade nem esforço de estudar ou pensar sobre o que se atrevem a dar opinião. Há os do “bota abaixo” de olhar enviesado, que veem em tudo o que lhes cheira a mudança, um prejuízo irreparável. Há os que dividem, não recusando o “bulling”, se o acharem útil e os que vestem a pele de um Canário de terceira e se põem a "espicaçar” quem não conhecem, na esperança de uma resposta que satisfaça o “ai,olariloléla” em que se sentem confortáveis.

A estes eu não respondo.

Eu uso as Redes Sociais na procura de alguma coisa interessante: um humor com pés e cabeça, uma história pitoresca, uma observação de um angulo diferente, um ensinamento, um negócio …

As brejeirices e outras “inconveniências”, guardo-as para dentro de portas, para que possam entrar por um ouvido e sair pelo outro sem deixar registo que nos comprometa e, mesmo assim, com cuidado, porque uma palavra fora da boca é como a pasta de dentes que é impossível de voltar a meter dentro do tubo.

 

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Medalha de Mérito

É tradição que os congressos da Ordem dos Médicos terminem com a entrega das medalhas de mérito atribuídas a profissionais que, em qualquer especialidade da medicina, se distinguiram ao longo da sua carreira. Este ano não foi exceção. Eis a lista dos médicos agraciados:Agostinho de Almeida Santos (a título póstumo), Alexandre Castela, António Sarmento, Jaime Azedo, Eduardo Barroso, Fausto Pinto, Fernando Araújo, Isabel Cássio, Joaquim Falcão (a título póstumo), José Manuel Tereso, José Manuel Costa, Amélia Marques, Maria do Carmo Caldeira, Maria Inácia Rosa, Mário Jorge Neves, Regina Rodrigues, Rui César e Rui Victorino.




Foi ontem, no Convento de São Francisco,  em Coimbra, com a presença do Secretário de Estado da Saúde, Dr. Lacerda Sales.
Sabe bem ser reconhecido pelos pares. 
Imagens do Facebook

terça-feira, 18 de maio de 2021

Inexoravelmente

 

Gosto da palavra inexoravelmente. Nunca a usei, mas gosto! Li-a uma vez num texto apocalíptico (também gosto desta), onde o autor escreveu: “Caminhamos inexoravelmente para a solidão!”, e fique fã.

Por outro lado, não gosto da palavra “nomeadamente”, talvez por a ter ouvido demasiadas vezes na boca dos policiais chamados a comentar na TV. Cá em casa, quando há acidente, crime ou qualquer embrulhada em que vá aparecer um policial no écran, fazem-se apostas de quantas vezes ele irá dizer “nomeadamente”, e quem apostar no duas, o mais certo é ganhar, “nomeadamente” se entrevista durar mais de trinta segundos.

Com “inexoravelmente” é diferente. É daquelas palavras que espera que um letrado a atire para a ribalta, para reviver. É como com as memórias colectivas que só o são quando se batalha para o serem.

Hoje fui à feira comprar curgetes para plantar. Atendeu-me uma jovem campesina, bonita, despachada e de sorriso fácil.
- Donde é que vocês são?, pergunto, enquanto ela revolve a bolsa à procura do troco.
- Somos de Belinho!
- Ah! Da terra do poeta António Corrêa de Oliveira! Conhece?
- Não! Nunca ouvi falar!, responde intrigada.
- Então, se a menina é de Belinho, já deve ter passado pela sua estátua à entrada da freguesia e deve ter frequentado alguma das escolas do Agrupamento de Escolas António Correia de Oliveira!?

Não viu, nem ouviu falar. E a mãe que se aproxima também não conhece. “Não é do seu tempo!”. E continuam a arrumar os tabuleiros com alfaces, pimentos, pepinos e o que mais por ali anda, para dentro do camião, na azáfama do fim de dia.
Vivem em Belinho e não conhecem um dos bardos do salazarismo que habitava a Selecta Literária de Português dos meus primeiros anos do Liceu.

Não perdem nada, mas c’um raio, a freguesia continua a dar-lhe honras. Por favor, … um mínimo de curiosidade.
Aquela quinta murada da família Cunha Sottomayor, com historial desde o século XVI, acolheu o “poeta” e foi centro de intensa actividade social e política. Há benefícios no povoado com o seu nome e forneceu um ministro (José Gonçalo da Cunha Sottomayor d' Abreu Gouveia Corrêa d' Oliveira – 1921-1976) ao Estado Novo (Ministro de Estado Adjunto do Presidente do Conselho, entre 1961 e 1965, e Ministro da Economia de 1965 até 1968)! É certo que se suicidou em Paris, lançando-se do 10º andar do hotel onde vivia, sabe-se lá porquê, talvez por ter sido acusado de envolvimento no escândalo do Ballet Rose, …talvez por causa do 25 de Abril, mas ... foi um filho da terra que chegou a nº2 do país.

Do poeta ficou uma rocha com um bocado de bronze em cima, em forma de cara humana e uns dizeres por baixo que ninguém lê, umas Escolas e umas ruas com o seu nome que ninguém relaciona com a sua fraca obra. Do ministro, nem isso.

Caminhamos “inexoravelmente” para o esquecimento. Quiçá o Ronaldo se safe, “nomeadamente”.

 

domingo, 16 de maio de 2021

O Auto da Compadecida "filme completo"



O Auto da Compadecida é um filme brasileiro. Uma comédia dramática lançada em 2000, baseada na peça teatral Auto da Compadecida de 1955 de Ariano Suassuna
Um monumento cultural do nordeste do Brasil!! 
  

sexta-feira, 7 de maio de 2021

David e Golias

David era o mais novo de 8 irmãos. Era pastor e passava o dia a cuidar do rebanho, enquanto alguns dos seus irmãos se preparavam, no exército israelita, para uma guerra com os filisteus, que possuíam um dos exércitos mais fortes da região.

Todos as manhãs, um enorme soldado filisteu, com mais de 2 metros de altura, armado até aos dentes, saía das hostes inimigas para desafiar num combate singular o melhor lutador israelita. Ao fim de quarenta dias, como ninguém tinha aceite o desafio, David foi ter com o rei Saul e prontificou-se para a luta, unicamente armado com a funda e cinco pedras, como quando protegia o rebanho dos lobos e leões.

A uma distância segura, lançou a pedra com tal pontaria, que a encaixou entre os olhos de Golias, deixando-o no chão inanimado. De seguida, retirou-lhe a espada e cortou-lhe a cabeça.

Segundo o Velho Testamento, o pequeno David, que nem soldado era, venceu o gigante Golias porque o Deus dos Judeus o ajudou. É bom que se diga que, ainda agora, os Judeus se consideram o Povo de Deus. Os outros são gentios, o que, basicamente significa selvagens, gentalha, pagãos, idólatras, hereges, infiéis e por aí fora.

Mas esta história, que glorifica os Judeus e o seu Deus, tem uma versão actual que me seduz por ser mais lógica.

Quem a conta é Malcolm Gladwell.

Tem legendas em português se clicar no ícon.


quinta-feira, 6 de maio de 2021

A tirania da mérito


Estes são tempos perigosos para a democracia. Vivemos numa era de vencedores e perdedores, onde as chances favorecem os que já têm sorte. A mobilidade social paralisada e a desigualdade arraigada desmentem a promessa de que "você consegue, se tentar". E a consequência é uma mistura de raiva e frustração que alimentou protestos populistas, com o triunfo de Brexit e a eleição de Donald Trump.

Michael J. Sandel argumenta que, para superar a política polarizada de nosso tempo, devemos repensar as atitudes em relação ao sucesso e ao fracasso que acompanharam a globalização e o aumento da desigualdade. Sandel destaca a arrogância que uma meritocracia gera entre os vencedores e o julgamento severo que impõe aos que ficaram para trás. Ele oferece uma maneira alternativa de pensar sobre o sucesso - mais atento ao papel da sorte nos assuntos humanos, mais conducente a uma ética da humildade e mais hospitaleira a uma política do bem comum.

Michael Sandel é professor de filosofia política da Universidade Harvard.

terça-feira, 4 de maio de 2021

Vacinação Covid 19


Tive 2 convocatórias para a mesma hora, em centros diferentes de vacinação. Ordeiramente, fui pela última.
A vigilância estava garantida pela idosa que, imóvel, no seu roupão branco até aos pés, espreitava pela fresta da varanda do 3º andar, com vista para o centro de vacinação do Cerco do Porto.
Já a segurança estaria a cargo do “segurança” que, de pernas abertas, limitava a entrada dos candidatos à vacina, não fora este estar só ali a substituir um colega e não ter nada a ver com aquilo, porque ... ele nem era dali…
Por isso, quando lhe perguntei como devia proceder, limitou-se a dizer que só abria às 8.30.

Mas não havia problema porque a dúzia de pessoas que já estava à porta, cofiando os seus telemóveis e escrutinando por cima dos óculos quem ia chegando, foi logo dando ordens, em tom bem alto e de modo a não deixar margem para dúvidas: - Oh menina! Tem que saber quem é o ultimo!
Ainda arrisquei dizer que todos teríamos hora marcada, mas o ambiente não era propício a ser perturbado por qualquer argumento lógico. Mesmo assim, estava lançado o mote para discursos sobre a falta de organização e os problemas a que cada um tinha assistido em anteriores idas ao centro de vacinação, suponho eu, para espiar, pois íamos todos à primeira dose. Destacava-se, pelo vozeirão, um homem de casaco acetinado preto que, prudentemente, se havia munido de um banquinho desdobrável, não fosse o tempo de espera, em pé, ultrapassar a resistência das suas robustas pernas.

Atrás de mim dois homens mediam-se mutuamente, não já pelos atributos da natureza, performances de caracter sexual ou pela extensão da calvície, como seria de esperar, mas pela comparação da idade e da hora da marcação da vacina:
- O senhor tem prá i 70 anos!? 
- Nãaaao! Tenho 67. E sem doenças! Podia ter doenças, mas não tenho!
- Eu vou fazer 71 e estou para as 8.33!
- Que raio de hora…

Após a abertura dos portões exteriores a acumulação passou para a porta do centro onde as vozes se começaram a elevar…
-Eu estou para as 9h e já aviso que ninguém passa à minha frente…
-Olhem para aquilo …que pouca vergonha…
E o tal segurança não tinha mesmo nada a ver com o que ali se passava e só queria ir para casa.

Quando me apresentei com a minha convocatória à recepcionista, ouvi um “esta não está na lista” e, quando lhe mostrei o telemóvel com a mensagem, disse bem alto que sabia ler e que eu tinha que ir embora.
Até fiquei aliviada. Fui para o outro centro de vacinação para onde tinha sido convocada antes e tudo decorreu com a normalidade que é de esperar, quando não se vai predisposto ao conflito.

Vacina tomada apanho o táxi à porta e o taxista entabula a conversa com um – “Então já tomou a vacina?”
- É verdade…tem que ser…chegou a minha vez…
É então que, despudoradamente, pergunta:
- A senhora quantos anos tem?
- Tenho 68.
- Ahh!, disse ele, num suspiro contido e quase desiludido. - Eu tenho 66! Deve estar a chegar a minha vez…

Os que desconfiam do sistema mantêm-se vigilantes! Onde é que alguma vez um taxista perguntou a idade a uma cliente!!!!

Texto de M.H.S.Gomes

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Sereias



Gosto de estórias filtradas pelos olhos de um bom observador. “A história da Sereia” de Gonzalo Torrente Ballester, foi a última que li. Tem por base relatos antigos da família Mariño de Vilaxoan, nas margens da Ria de Arousa, na Galiza. Uma "racionalização" das populações de marinheiros, pescadores e das zonas ribeirinhas, para justificar os afogamentos frequentes.

Transcrevo um pouco do seu início:

“E esta história é, nada mais nada menos que a seguinte, quer o meu amigo acredite, quer não acredite nela: por volta do ano mil, segundo a tradição ou certos cálculos, um cavaleiro com esse nome de Mariño caminhava ao pé do mar, quando uma inesperada escorregadela ou outra causa qualquer o precipitou nas agitadas ondas, de que não teria podido livrar-se, armado como ia e lerdo na natação (que não no pelejar, como é óbvio), se não estivesse por acaso à coca por aquelas paragens a Sereia de Finisterra, a tão sinistramente reputada, que acorreu rápida em seu socorro e que, tendo visto de perto o belo rosto e o bem trabalhado corpo do desmaiado náufrago, concebeu por ele uns amores tão súbitos que o levou para o seu antro e o conservou como amante durante bastantes anos; e aí teria morrido o cavaleiro, de pura velhice, não fora os filhos havidos desse vínculo, que eram quatro, excelentes embora nas artes natatórias e piscatórias, ignorarem tudo da cavalaria e da espada, pelo que o pai pediu à Sereia que os deixasse levar a terra levando-os consigo para lhes dar educação cabal, ao que ela respondeu que sim, que estava bem, que os levasse e fizesse cavaleiros, mas com o compromisso de que, a cada geração, levaria um descendente para as suas necessidades particulares, e que esse destino singular se reconheceria pela cor azul dos olhos ou pelas escamas de peixe que o destinado haveria de ter nas coxas. E sucedeu, desde então, que todos os Mariños da costa, azuis dos olhos ou escamados das pernas, desapareceram no mar.

terça-feira, 27 de abril de 2021

Infernos

 


A filha de uma amiga minha, de três anos, diz que tem pena do Diabo porque ninguém gosta dele. Condói-se com aquela segregação, enquanto eu, que sei que ele não é um, mas legião, quero é vê-los a milhas.
A gente morre e fica à mercê do local onde está. Se somos acometidos por uma morte súbita, com um pecado mortal e sem tempo para um arrependimento, lá se vai uma vida de grande dignidade. Se estivermos em meio protestante, aí é a balança do deve e haver que conta, mas o castigo é sempre "eterno", o que é um grande problema, pois, quando à alma só é dada uma vida, o Inferno é o poiso para a maioria da população.
O nosso Inferno (que é o de Dante) fica no interior da terra e tem nove círculos. O mais periférico é o limbo e está reservado para as crianças não baptizadas e para os pagãos virtuosos. O próximo é para os adúlteros, depois veem os glutões, a seguir os avarentos, os coléricos, o sexto é para os heréticos, o sétimo para os assassinos, suicidas e sodomitas, o oitavo para os corruptos e o nono para os traidores.

O Inferno no Alcorão é mais pequeno. Tem sete níveis, cada um para um grupo específico de pecadores. Também é à base de fogo ardente e água fervente, mas está vazio. Os mortos estão todos a aguardar o dia do Juízo Final, quando serão ressuscitados e reunidos perante Alá, onde testemunharão contra e a favor de si próprios e, só então, aqueles que tiverem obrado melhor, irão para o Paraíso e os que tiverem obrado pior ou simplesmente descreram ou renegaram Alá, serão conduzidos ao Inferno onde queimarão vivos para sempre.

Os gregos de há 3.000 anos eram mais modernos. Acreditavam na "reciclagem" das almas. Uma alma tinha muitas vidas. Morria-se e ia-se para o Hades “descansar” e, na altura própria, atravessava-se o rio do esquecimento (rio Lethes) e voltava-se à terra para outra vida. As almas não se lembravam do que sabiam, embora se alguém se esforçasse numa introspecção de grande intensidade a que chamavam “anamnesis”, podia acontecer que se recordasse do que a sua alma já tinha vivido noutras vidas e ficasse sábio

Os Hindus, também reciclam. Se um paisano nasceu numa família de criminosos ou de párias é porque na vida anterior foi um canalha e agora tem de se esforçar para que na próxima lhe caiba em sorte qualquer coisa de melhor, mas para se chegar a “brahman”, no topo da sociedade das castas, são precisas várias vidas de grande honestidade e ciência. Embora recicladas, as almas enviadas de regresso à Terra também estão sujeitas à lotaria de soluções dependentes dos humores dos seus inúmeros deuses que nem sempre são justos, sem que haja tribunal de segunda instância a quem recorrer.

E eu, que me preocupo com o sofrimento das almas, não acredito que nenhum destes Infernos corresponda à realidade. Aquele que me parece mais credível é o que junta o Inferno no Além com os tormentos passados por cá, como tão bem descreve Gustavo Pacheco no livro “Alguns humanos”, num episódio passado num Inferno chinês.

"Contam os sábios tibetanos que o Inferno é dividido em 18 departamentos, dos quais oito insuportavelmente frios e dez insuportavelmente quentes. Esta história começa num dos departamentos menos quente, onde dois condenados puxam uma carroça cheia de blocos de pedra. Um tinha sido um salteador que assaltava caravanas nas estepes de Changtang, e era forte como um touro. O outro, magro e esquálido, tinha sido monge no mosteiro de Takpu, em Naksho Driru, e foi parar ao Inferno porque se esmerava em exigir dos outros o comportamento que ele mesmo nunca conseguira ter.
Os dois infelizes esforçam-se para fazer avançar a carroça, mas a coisa vai mal. A todo instante o monge tropeça e cai, exausto, e o seu companheiro é obrigado a parar para ajudá-lo, interrompendo o trabalho. As pedras são usadas para construir novos alojamentos para os recém-chegados ao Inferno, que nos últimos tempos tem recebido cada vez mais gente. Não há moradias para todos e o Rei Sinje, o Senhor dos Mortos, ordenou que os condenados trabalhassem a dobrar para reduzir o défice habitacional. Os capatazes estalam os seus chicotes de fogo nas costas do monge, urram e gritam, mas ele mal se consegue mexer, coberto de sangue e poeira.
Atormentado com tanto ver o seu companheiro sofrer, o ladrão deixa de puxar a carroça e fica em silêncio, inerte. O capataz com cabeça de cachorro, aproxima-se e ameaça-o com um porrete cheio de pregos. O ladrão diz que só voltará a trabalhar se soltarem as correntes que prendem o seu companheiro à carroça, pois assim ele poderá puxá-la sozinho e tudo andará mais rápido. O capataz, enfurecido, grita que não recebe ordens de condenados, e esmaga o crânio do ladrão com o porrete.
Como se sabe, no Inferno tibetano a danação não é eterna. Lá, é possível morrer e renascer noutro lugar. E é exactamente o que acontece com o ladrão, cuja compaixão faz com que ele reencarne com o nome de Li Xun, numa pequena aldeia no sul da província chinesa de Quinghai.
Como ele ainda tem muitos crimes para purgar, o destino se encarrega de que ele se torne um burocrata e leve uma vida enfadonha e repetitiva."
… … …

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Não é fácil!

 


“Não é fácil! Parece fácil, mas não é fácil!” diz com ar apatetado, quando é apanhado a espreitar o trabalho dos enfermeiros e dos fisioterapeutas nas enfermarias.

É um dos muitos casos em que, depois de resolvida a doença aguda que o levou a uma Urgência, permanecem nos hospitais e nas Unidades de Cuidados Continuados, à espera de uma solução que os tire do trilho de décadas de más escolhas. Sem ascendentes vivos ou descendentes, só lhe resta uma irmã cansada de lhe tentar dar rumo à vida. Aguarda “vaga de emergência social” numa ERPI (Estrutura Residencial para Pessoas Idosas), a nova nomenclatura para designar o que anteriormente denominávamos Lar de Terceira Idade, embora tenha bem menos de sessenta anos. Entretanto deambula pelas enfermarias e pela sala da televisão e, se tem oportunidade, deita a mão ao que julga ter alguma utilidade futura.

Se Educação é aquilo que aprendemos com os nossos pais, quando eles não nos estão a ensinar nada, ele parece educado. Isto é, habitualmente não é agressivo, está atento ao que se lhe diz, pede por favor e agradece o que se lhe dá, sem, no entanto, ser capaz de uma conversa com princípio, meio e fim, refugiando-se sistematicamente na primeira resposta jocosa que lhe vier à cabeça. Noutro tempo e noutras circunstâncias, talvez fosse menos reverente e fizesse coro com aqueles que, nas redes sociais, põem em causa tudo e todos, lembrando o aforismo do “Quanto mais longe te vejo, mais franco te falo!”, que é o que mais se lê nos comentários, mas, como hoje não sabe nem pode, fica-se pela oralidade contida, sem qualquer preocupação com os “likes”.

Tem uma demência dependente do álcool e das várias quedas que foi dando ao longo dos anos. O vinho arruinou-o e desfez-lhe os laços sociais. Ainda lembra os parceiros dos copos com quem partilhou mesa, festas e histórias, e alardeia os excessos e as picardias, no meio de um discurso confuso e confabulatório.

Está à espera que a Segurança Social se lembre dele e lhe dê um lar definitivo.
Parece fácil, mas não é fácil!, digo eu também, a pensar no trabalho que dá quem está longe da realidade e sempre à espera de voltar onde “já foi feliz!”.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Árvores Classificadas


Vai para lá de trinta anos, quando os meus filhos eram pequenos e tínhamos de fazer longas viagens, um dos jogos que servia para os entreter, era identificar uma marca de automóvel com os que nos cruzávamos. - Vamos ver quem vê mais Volkswagens!, e tínhamos distração para uma boa meia hora, longe das quezílias que um pequeno espaço sempre desperta.

Mais tarde, com eles mais crescidos, alterámos e jogo e passámos a identificar árvores. – Vamos ver quem vê mais araucárias, daqui até casa!. Podiam ser tílias, plátanos, palmeiras, choupos ou outra qualquer, dependendo do percurso. Comprei um livrinho que permitia identificá-las pelo aspecto geral, pelas folhas e pelo tronco e pu-lo no carro para as dúvidas e, muitas vezes, nas minhas andanças a pé por Viana do Castelo, levava-o para reconhecer o que por lá havia no espaço público e dentro dos jardins.
A princípio eles chamavam a tudo plátano ou cedro, mas aos poucos começaram a nomear cupressus, tuias, bétulas, lódãos, os diferentes tipos de carvalho, salgueiros, amoreiras… e por aí afora, e ao fim de alguns meses já me perguntavam se eu sabia onde é que havia esta ou aquela descoberta que haviam feito. Desde então conhecem os seus diferentes ciclos de vida e respeitam-nos e se sabem que há uma centenária nas imediações correm a vê-la.
No outro dia, alguém que conhece este meu gosto por árvores, perguntou-me se conhecia, em Carreço, alguma que merecesse referência pelo seu porte ou longevidade. Alguma que pudesse ter honras de ser “classificada” como já o foram a magnólia do mosteiro de Cabanas ou o cupressus da igreja de Afife.
Dei várias voltas pela aldeia a espreitar o que por cá havia. Vi uns pinheiros mansos com algum porte a indiciar umas décadas bem puxadas, mas fiquei-me por aí. Tudo o resto me pareceram árvores com menos de 50 anos. Depois fui espreitar aos jardins da aldeia do lado, onde há muitos residentes e segundas casas de estrangeiros e, no que é possível identificar da rua sugere outra sensibilidade ou outro desafogo que não obriga a olhar só o imediato.

domingo, 18 de abril de 2021

A Universidade da Vida


Quando me contaram que ela punha nomes de pessoa às galinhas e que depois as não conseguia matar, sorri, pois também eu não me imaginava a comer um ser com direito a nome próprio e a um histórico. Só lhe aproveitava os ovos e deixava-as morrer de velhas, incapaz de petiscar a Madalena, a Alice ou a Etelvina. 

Mais tarde associei esta história a uma outra em que, nalgumas comunidades com grande mortalidade infantil, as crianças só recebem o nome com vários meses de vida, como se fosse ele a dar-lhes direito a cidadania e não o nascimento. Por fim, dei por mim a magicar em que se não conseguirmos nomear as coisas, sejam elas animadas ou inanimadas, não as respeitamos.

Se olharmos em volta e só virmos “pardais”, então, tudo é “praga”, como aconteceu com Mao Zedong quando, em 1958, ordenou que se matassem todos eles, por comerem "demasiados grãos", o que causou um dos maiores desastres ecológicos da História. A população mobilizou-se, destrui ninhos e fez barulho continuado para os assustar e os impedir de pousar, até morrerem de exaustão. Nos três anos seguintes morreram 45 milhões de chineses de fome, devido aos erros económicos, ao desastre ambiental e ao estado de terror. É que passarinhos há muitos. Os que comem grãos, os que comem insectos e os que nos livram do que por aí morre, impedindo que as verdadeiras pragas se estabeleçam. A “inteligência” da nomenclatura comunista chinesa ao “cortar a direito” esqueceu-se que é na diversidade que se encontram soluções e não na monotonia do “faz como te digo e dá ao diabo o que pensas!”

Mas para ter opinião válida é preciso estudar. Não chega o que se aprende na “Universidade da Vida”. Se o berço for bom, talvez nos faça gente educada e respeitadora de valores, mas instrução (conhecimento, ciência, erudição, …), há que ir buscá-la onde houver o “saber”: às escolas, aos livros, às palestras, na Net, porque não?, mas nada como ter um bom professor que nos oriente e nos abra os olhos para o que está à nossa frente e não conseguimos ver, porque não o conseguimos nomear.

Amén