quarta-feira, 19 de abril de 2023

Futurologia


Achei esta pérola no espólio do meu pai.

Quando era miúdo ao coscuvilhar nos arrumos da casa dos meus avós, já tinha tropeçado numa figura de um Almanaque Bertrand de 1900, onde também se fazia um futurismo risível: numa página tinha desenhado uma casa ao estilo das antigas casas ainda existentes na Avenida Brasil no Porto com o subtítulo - Uma casa moderna com a sua cocheira, e na página ao lado "Uma casa do futuro, com o seu angar". 
As casas pouco diferiam. O que diferia era o espaço que antes servia para os cavalos e caleches que era agora muito mais alto e albergava um balão. 

 

sexta-feira, 7 de abril de 2023

Montedor



Esta coisa da aguarela tem que se lhe diga. Há a teoria e a prática, só que a prática para além da qualidade do executante é condicionada pelo material que ele usa e, do mesmo modo que se deve usar um bom vinho para os temperos, quando se quer fazer figura com o cozinhado, no caso presente exigi do papel mais do que o que ele podia e logo que lhe meti água em cima começou a dar de si e o desenho ficou condicionado. 
O que começa mal, tarde ou nunca se endireita. É assim com a aguarela e é assim com a vida. E dito isto, dou-o por acabado para que não fique ainda mais “overworked”, que é um erro que os peritos dizem e repetem que é sempre de evitar – “mais é menos!”. Fica a servir de aviso para não repetir erro igual.

É curioso como estas coisas me lembram outros erros que cometi na vida corrente, quando também esperei um bom resultado apenas porque do lado de lá vinha um grande sorriso ou por não ter respeitado o tempo de parar, mesmo quando já tinha presente a regra de manter simples o que faço ou escrevo (“kiss” - Keep it simple, stupid), sem derivas em relação ao importante. 

É esse passo que afasta o artesão do artista, seja ele pintor, médico, engenheiro ou lá o que quer que ele queira ser, e eu estou longe desse engenho de achar soluções elegantes perante as pequenas ou grandes dificuldades que surjam durante a pintura. Para essa mestria teria de investir horas a estudar, pensar e fazer, e eu não sei a disposição mo irá permitir, pois como dizia o Eusébio: “Não basta querer! É preciso querer querer!

Esta casa de Montedor, Carreço, seduz-me desde os primeiros dias que a vi, por ter todo um mar pela frente e me lembrar “A um deus desconhecido” de John Steinbeck. A luz é a de um poente de dia quente de Abril.


2ª tentativa.
3° tentativa

4°tentativa





sexta-feira, 31 de março de 2023

Caos Calmo


Nasci sob a influência da cultura francesa mas cedo a cultura anglo-saxónica passou a liderar o meu pensamento. Primeiro na música e depois no modo de encarar o mundo. Nessa altura tinha pressa e os franceses demoravam a dizer o que os anglo-saxões diziam na primeira linha. Passei então a procurar o traço que definia a coisa, a palavra que definia o lugar, o tiro único que acertava no alvo, fosse ele doença, situação social ou desejo.
Puxei os técnicos para a minha área e afastei os romancistas para que eles não influenciassem o poeta russo que vivia e vive dentro de mim e, entre sucessos e insucessos, fui-me refugiando no pragmatismo.

A aposentação deu-me oportunidades e, à linha estreita do lápis, juntei a mancha da aguarela e ao caroço da coisa juntei a nuvem que lhe dá sentido e voltei aos romances e a deleitar-me com quem é capaz de escrever dez páginas para definir um momento e quatrocentas para rever dois meses de uma vida.

Sandro Veronesi nasceu em Florença em 1959. É considerado um dos mais importantes romancistas italianos dos últimos trinta anos.

quinta-feira, 30 de março de 2023

Convento de Cabanas


Convento de São João de Cabanas.

Segundo a tradição, antes da fundação do mosteiro existia no local uma ermida, com algumas cabanas, covas ou grutas na serra ao redor, onde viviam os frades que S. Martinho de Dume congregou.
A sua construção remonta ao ano de 564. Em 746 foi destruído pelos árabes e logo reedificado. Durante séculos o mosteiro prosperou economicamente, conseguindo uma importante área circundante, com limites definidos por D. Sancho I.
Em 1382 o mosteiro passou para a Ordem de São Bento, tornando-se numa casa de convalescença e repouso de doentes.
No século XVII sofreu uma grande reformulação chegando à configuração atual.
Em 1834, com a extinção das Ordens Religiosas, o conjunto - convento e propriedades, foi vendido em hasta pública pela Fazenda Nacional, sendo o General Luís Rego o primeiro proprietário, seguindo-lhe vários outros.
Já no século XX foi propriedade do poeta Pedro Homem de Mello e após a sua morte foi comprado pelo Cônsul de Espanha no Porto, que lhe fez grandes obras de conservação e restauro, impedindo que ele acabasse numa ruína, como acontece com Convento de S. Francisco do Monte no lugar da Abelheira - em Viana do Castelo.


Em Março de 2019, Nathalie D'Ornano, cantora lírica, natural da Suíça, comprou-o e iniciou obras de remodelação para o abrir ao público como “guesthouse” e espaço para festas, eventos e iniciativas artísticas e culturais, num projecto com o traço do arquitecto Fernando Cerqueira Barros.

Está classificado pelo IPPAR, em 1997, como Imóvel de Interesse Público.

O caminho de Santiago pela costa, passa-lhe à porta. No ano passado, numa construção fronteira ao seu portão, abriu o “Café de Cabanas” que, para além de revigorar os muitos caminhantes que por ali passam, permite usufruir daquele recanto numa quebrada da encosta, junto à margem direita do Rio Afife, dominado por uma velha magnólia de largas tradições. Prevê-se a abertura do convento para as suas novas funções, em Julho 2023.

terça-feira, 28 de março de 2023

Marguerite Yourcenar

 


Nunca me agarrei fixamente a uma ideia, por temer a confusão em que, sem ela, poderia vir a cair. Nunca temperei um facto verdadeiro com o molho da mentira, para me facilitar a digestão. Nunca deformei os pontos de vista do adversário para mais facilmente ter razão.

in "Obra ao Negro"

segunda-feira, 27 de março de 2023

Sketchbook



Então é assim. Dois pontos.
Era assim que começavam as intervenções do meu tio Elviro, quando era o seu tempo de falar e batia duas vezes com as duas mãos no tampo da mesa. 

Eu estou igual. Então é assim:  Vou começar o meu "Loose Urban Sketchbook". Este é só a primeira tentativa, num papel que não aceita bem a água.
Como sofro do "síndrome do papel vazio" isto é: custa-me gastar tempo e material mais caro e sair uma porcaria, utilizei um papel vulgar de desenho de 110g, em vez de um para aguarela de 300g, rico em fibras de  algodão.

O resultado não me parece longe do que queria, embora a cor não lhe tenha dado o volume pretendido. Para a próxima vou arriscar e iniciar um caderno adequado.

... a ver vamos... como diz o cego!



sexta-feira, 24 de março de 2023

Sunset em Viana do Castelo


 Esta é uma primeira tentativa, como autodidacta. Não está do meu agrado e só a ponho aqui para mais tarde recordar.

Baseado numa Fotografia da Né que foi para o monte de Santa Luzia fotografar o pôr do sol de Vila Franca a Geraz do Lima.  

segunda-feira, 20 de março de 2023

A reforma artística

Lápis de cor aguarelável. 

 

sábado, 11 de março de 2023

Padres

É recíproco. Eu não simpatizo com eles nem eles comigo. 

Tudo começou quando me levaram a confessar pecados que não tinha e que a minha mente de menino já catalogava como mortais e veniais, mas foram as reguadas nas aulas de “Religião e Moral”, de Português e de Francês, para me acertaram com os programas, que foram definitivas para o meu afastamento. Já adulto, quando me pus a analisar a sua linguagem corporal e o seu discurso, concluí que as competências na teatralização e na retórica, eram utilizadas para iludir quem os aceita assim só porque lhes disseram para assim os aceitarem.

Houve tempo em que a Igreja foi fonte de saber, mas o Vaticano há muito que abandonou a ciência e facilita a vida aos que se especializaram no comércio da “Esperança”.

Mas, como tão bem dizia Camões, “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser e muda-se a confiança, neste mundo composto de mudança … e, afora este mudar-se cada dia, outra mudança faz de mor espanto: Que não se muda já como soía”, e a Igreja Católica não esteve atenta a este último verso e perdeu o comboio da modernidade.

Hoje fala-se do abuso sexual sobre menores e desprotegidos confiados à sua guarda, que emerge de uma nuvem de oportunismos,  negociatas de sacristia e outros tipos de abuso, que o “sigilo eclesiástico” facilita aos padres “fura-vidas”, quando há décadas que o Vaticano se devia ter livrado desse cartel, obsoleto e cheio de vícios, que desmerece quem não se dispõe a beijar-lhes o anel.

Estamos num tempo em que se exigem práticas que melhorem a vida na Terra. Já poucos vão em olhares languidos para o céu ou em palavras ambíguas e são raros os que partilham a “filosofia sexual” da Igreja Católica. A Biblia não ajuda na luta contra a discriminação de género nem contra o despotismo. São histórias pouco saudáveis quando se leem com sentido crítico e, embora o bicho Homem seja o mesmo, o mundo de hoje é outro. A grandiosidade das igrejas já não nos eleva para o divino como o fez na Idade Média e o que lá se diz raramente é relevante. Muitos dos que ainda lá vão, fazem-no para que o cartel os veja e não lhe ponha barreiras no caminho.

O Ocidente "individualista" necessita de um “upgrade” de valores. Um upgrade sem lamechices, que estimule o trabalho de grupo e minimize a solidão.

A actual Igreja Católica, embora dona de uma logística invejável, tem o clero mais virado para si próprio que para o que diz ser alvo da sua acção. Necessita  de um novo tipo de “Santos inspiradores” que tirem os padres da sua comodidade de interpretes do divino e os estimule a ir para a rua tentar soluções para os problemas dos mais frágeis, sem palcos de 4 milhões, nem parangonas na comunicação social.

sábado, 4 de março de 2023

De mal com a vida



Aguarela sobre papel "inart" para aguarela 250g/m2..

 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Manipuladores













O abuso psicológico pode ser silencioso e devastador. A baixa autoestima que causa na vítima, acaba por levar a problemas sérios como ansiedade e depressão 

Mas como são os agressores? Que características apresentam?

1. São intolerantes: Não respeitam as opiniões, atitudes ou comportamentos dos outros. Vivem cheios de preconceitos, reagem agressivamente, de forma ressentida ou pouco educada, porque acreditam que não há nenhuma razão para impedir que a sua vontade prevaleça. Muitas vezes são sexistas.

2. São encantadores nas fases iniciais da relação, mas ofendem-se com facilidade se algo não se encaixa na sua verdade e mudam de humor em segundos, passando de um estado agradável ao de fúria em questão de segundos.

3. São amantes da ordem, com base no seu critério pessoal. Autoritários e intransigentes, perseguem uma única verdade, a deles. Se não lhes obedecem, ficam furiosos.

4. São rígidos e têm pensamento dicotómico - tudo está certo ou tudo está errado, sem meios termos. Não conversam na busca de um consenso. Geralmente, os agressores cresceram em famílias que os trataram assim.

5. São chantagistas – Provocam medo nas vítimas, culpando-as por coisas que não fizeram ou de coisas que fizeram, mas que não são graves.

6.  Não aceitam a crítica como algo construtivo e reagem a elas como a um ataque pessoal, procurando defeitos nos outros para os esmagar e submeter. São especialistas em procurar interpretações arrevesadas da realidade.

7. Desconectam as vítimas dos seus familiares e amigos, causando-lhes medo de falar com outras pessoas.

8. Têm baixa empatia (não reconhecem as emoções dos outros), o que lhes permite fazer a vítima sofrer sem qualquer ressentimento. São cruéis e não se arrependem, mesmo quando pedem desculpa. Na próxima, agirão do mesmo modo.

9. São controladoras - Têm necessidade de se sentir superiores, mas no fundo são inseguros. 

10.  Reagem  impulsivamente, sem ponderar as consequências, sem controle emocional. Os fins justificam-lhes os meios. São capazes de agir discretamente em lugares públicos, o que torna a vida da vítima uma verdadeira provação.

11. Vitimizam-se, tentando culpar outros para justificar as suas ações.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Manel


 Aguarela sobre papel "inart" para aguarela 250g/m2.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

No corte


Aguarela Winson&Newton sobre papel para aguarela "inart" 250g/m2.

 

 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Heróis

 


Quando adolescente, fui impregnado pelos filmes que corriam na TV e no cinema, a maioria oriunda dos Estados Unidos. Era o Zorro e o seu amigo Tonto a perseguirem assaltantes de diligências, o Mandrake com sua hipnose instantânea a derrotar o crime urbano, os cowboys que vinham do nada e caminhavam em direcção ao sol poente depois de terem resolvido injustiças que tardavam nas cidades do farwest, era o Clark Kent transformado em Super-homem a voar por entre os arranha céus de Nova York, eram os detetives vestidos de informalidades a dar conta dos casos mais intrincados. Todos eles no centro de tudo, sem se sentir o peso de qualquer organização ou instituição que lhes estivesse a facilitar as acções. Eram indivíduos a fazer a História, a solo.

O que a vida me ensinou é que são as organizações e instituições que criam os heróis e quem manda no mundo é quem as lidera e que raramente (ou nunca) surge na linha da frente (o que não é desprimor).

Os heróis são "hot spots" de estruturas organizacionais, constituídas por pessoas competentes, unidas por projectos liderados por dirigentes de qualidade. Não há espaço para os "lonely cowboys without familly or friends " neste mundo cada vez mais complexo, onde o trabalho em grupo é fundamental. 

Os "heróis" são figuras destinadas a morrer heroicamente ou, se continuarem vivos depois do “feito”, tendem a ser "minorados" quando o tempo de divulgar as suas fragilidades chegar e se "descobrir" que "afinal" não são deuses. Sejam eles políticos, cientistas, "influencers" ou "salvadores da humanidade" vão necessitar de alguém que os reabilite, se necessário, acrescentando pontos ao conto, para que o “público em geral” os tire do inevitável esquecimento. 

Cristo teria sido apagado da história, não fora Paulo de Tarso ter cidadania romana e competências sociais para juntar pessoas debaixo da bandeira da igualdade entre os homens. Maomé não foi de intrigas e conquistou pelas armas a máquina para divulgação do seu pensar. Os Judeus construíram uma rede de malha bem fechada, onde só se entra muito bem escrutinado. Os Maçónicos copiaram-nos com 1500 anos de atraso, razão pela qual os judeus, que representam cerca de 0,2% da população mundial, ganharam 22% dos Prémios Nobel, 20% da Medalhas Fields de Matemática, 67% das Medalhas John Clarke Bates para economistas com menos de quarenta anos de idade e 38% dos Óscares para Melhor Realização Cinematográfica e dos Maçónicos não se fala.

Hoje, quem hoje tiver veleidades de “herói” tem de cuidar das suas competências sociais para poder criar ou poder integrar um grupo capaz de construir um bom projecto, que financiadores não lhe irão faltar.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Sónia

Grafite sobre papel