quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Saudades do Ti António – 2


A Montaria
Era o padre Rafael Gonçalves Roque, natural de Sistelo, e pároco no Soajo, que organizava as montarias, para os “apaixonados” soajeiros e das freguesias vizinhas. Era também ele que comandava os tiros dos “réfes” de carregar pela boca, com que se davam as ordens aos batedores.
A primeira descarga era feita na fraga da Mó, para o avanço do povo vizinho, até ao Outeiro Maior onde terminava a batida.
Quando todos os batedores chegavam ao Alto da Pedrada, já cansados e cheios de apetite, iam buscar o farnel e descansavam, atentos aos tiros dentro das chãs da Seida, onde os atiradores tinham sido previamente colocados, entre os quais estava o saudoso padre Rafael. De vez em quando ouvia-se um “tau”, e o povo em silêncio, tentava vislumbrar qualquer movimento do lobo na direcção do fojo, ou se o topava a fugir noutra direcção evitando os tiros dos caçadores.

Terminada a batida, tudo regressava à branda da Cova onde se queimavam os últimos cartuxos, fazendo tiro ao alvo a um calhau posto em cima de uma rocha, no meio de grande animação centrada no almocreve, com as meias canadas (1,5l) e os quartilhos (0,5l) de bom vinho, levado em odres de pele de cabra.

O calhau do Alto da Cova
Deve estar cheio de dores
Está marcado de mil balas
Pelos bons atiradores

E depois todos voltavam a casa, ouvindo o chocalhos dos animais a pastar nas brandas – branda de Cova, e do Alto do Guidão, branda da Urzeira e a do Poulo do Aguilhão, tudo brandas soajeiras dos tempos que já lá vão.

Texto fundamentado, nas memórias manuscritas do Sr. António Carvalho (1931- … )

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