sábado, 16 de outubro de 2021
John Field - Nocturnos
sexta-feira, 1 de outubro de 2021
Os nossos Talibans
O meu avô paterno, que era um sábio, disse-me, quando eu acreditava na bondade “natural” do ser humano: Foge do homem de um só livro! Mais tarde, em 1974, ouvi Marcelo Caetano dizer que se rendia: “Para que o poder não caísse na rua!” e também não entendi o alcance da frase. Nessa altura, eu tinha por garantido que uma sociedade organizada não se esboroava em meia dúzia de meses.
O PREC (Processo Revolucionário Em Curso) foi a lição, com as milícias populares a fazer barreiras nas estradas, as Reuniões Gerais de Alunos a sanear bons professores, as reuniões de soldados para decidir se cumpriam as ordens dos generais, quando vi chamar fascista a tudo e mais alguma coisa e polícias, magistrados e professores desvalorizados pela turba acossada por uma meia dúzia de patetas que transportavam para a política as paixões clubistas.Desde então para cá, olho para as manifestações de rua e para o que se escreve, nas redes sociais e na comunicação social, com reservas redobradas, por saber que o poder é hoje mais secreto e subterrâneo que nunca e que incentivar os “talibans” cronicamente descontentes, é coisa fácil. Basta que lhe deem um bode expiatório para despejar o seu ódio.
Quem já viveu mais de três décadas e esteve atento ao mundo, tem obrigação de saber que as más práticas e a corrupção grassam por todo o lado, quer no aparelho do Estado quer na vida civil, e que tudo é uma questão de “grau”, pelo que não se deve ter a vã esperança de algum dia ter estes problemas resolvidos. Há que estar atento e ir solucionando o que se identifica, com cuidado para não enfraquecer as Instituições e com a crença de que a maior parte das pessoas que trabalham (no Estado e na vida civil) não fazem o que querem, mas o que as condicionantes permitem.
sexta-feira, 27 de agosto de 2021
Projecto para a nova Casa do Cabo
Noé Dinis é um homem de histórias e com uma longa história na arquitectura. Um curioso do mundo, conhecedor de várias culturas e dos porquês das construções daqui e dali, com conceitos precisos de como viver uma casa moderna. Mais tarde soubemos que tinha raízes em Afife, onde um dos seus tios foi estucador.
terça-feira, 17 de agosto de 2021
segunda-feira, 16 de agosto de 2021
Caça desportiva
Ontem foi o primeiro dia desta época de caça e, das sete às dezassete horas, o meu cão andou com o rabo entre as pernas à procura de local seguro, face à quantidade de tiros que se deram na veiga vizinha. Havia de tudo. Tiros isolados, salvas de dois e até uma arma que disparava cinco ou seis seguidos. Só faltou o som de uma metralhadora. O desequilíbrio de forças é tal que me leva a pensar que qualquer dia há armas a lançar balas com sensores infravermelhos. Depois, é atirar a torto e a direito, que alguma coisa há-de cair, pois o ICNF não tem gente para estar em todo o lado para ver o que cada um apanha ou se anda demasiado perto das habitações. A quantidade de tiros de ontem não me parece estar de acordo com as espécies cinegéticas existentes na veiga, ou então, são necessários quatro tiros para abater um pardal.
Caçar nos tempos de hoje é fácil. Sai-se da cidade num todo-o-terreno topo da gama, com frigorífico para guardar umas bebidas frescas (que o tempo anda quente), veste-se um camuflado e apronta-se uma espingarda de múltiplos tiros e, para compor o cenário, põe-se um atrelado com cães para levantar e apanhar a caça.Depois, marca-se o almoço, para o tarde, num restaurante típico com a malta do grupo para, no meio dos copos, contar as façanhas da manhã e as das épocas anteriores e volta-se para casa ao fim do dia com o sentimento de ter cumprido “um destino” tão forte como uma ida a Jerusalém nos primórdios das Cruzadas!
Chamam a isto “desporto”. Eu chamo-lhe uma “matança” semelhante à que aconteceu na quinta na Azambuja, a 17 de dezembro do ano passado, e que motivou reacções de quase todos os quadrantes da sociedade.
Nada tenho contra o controle de pragas sejam eles coelhos, javalis ou ratazanas, nem contra a caça em terrenos onde se criam animais propositadamente para esse fim mas, fora destas circunstâncias, só ser proibido caçar os que estão em vias de extinção, parece-me pouco.
Há que controlar este gozo ancestral do bicho Homem em eliminar da face da Terra tudo o que mexe à sua volta! Qualquer dia há mais caçadores que caça. Ponto final!
quinta-feira, 12 de agosto de 2021
Limpeza da antiga Casa do Cabo
Tenho grande admiração por quem resolve problemas, sem medo de sujar as mãos. Quando os vejo trabalhar, estou atento aos seus gestos na espectativa de um dia precisar deles para solucionar os pequenos desafios que o dia a dia me põe. Tento respeitar a norma de que só abre um relógio quem tem a certeza de o saber fechar, mas as coisas que me parecem de solução simples, fogem a essa inibição e, não raro, meto-me por caminhos sombrios de roçadoura na mão, a fazer cimento ou a tentar resolver uma fuga de água. Também tenho um gosto especial em prolongar a vida às coisas, principalmente quando a nova alma fica adequada aos novos tempos, mantendo a memória do que já foram e, quando compro novo, o mais comum é deixá-lo à vista uns dias (às vezes semanas), para que me habitue à sua presença, antes de o começar a usar.
Ora foi com este espírito que, no ano de 1998, iniciei a limpeza do terreno da Casa do Cabo. Podia ter chamado uma empresa para o fazer. Podia, mas não era a mesma coisa! É como com os automóveis, quem lhes dá o primeiro banho sou eu.Enquanto aguardava as licenças e se planeava a arquitectura do lugar, aproveitava os poucos tempos livres para limpar a propriedade.
O destino deu-me por ajuda o sr. Catarino. Um alentejano bondoso, calmo, ex-carpinteiro de carroças e ex-mineiro, com solução para todos os problemas que iam aparecendo, chovesse ou fizesse sol.
Comprei corta-arames, alicates, roçadoura, enxadas, sacho, alvião, picareta, foices, gadanhas, forquilha, ancinho, motosserra, machado, fósforos, acendalhas e, metro a metro, fomos roçando o mato, abatendo os eucaliptos e pinheiros para deixar espaço aos carvalhos e castanheiros que lá haviam crescido. Retiraram-se os arames e puseram-se as pedras sobre os muros, enquanto se limpavam os caminhos confrontantes e, quando, a nascente, as botas se enfiaram num lamaçal escondido num monte de silvas e heras, e se descobriu a Fonte Nova, limpou-se o caminho, a mina e o largo, para se entender que havia uma taça onde se dividiam as águas, para consumo da Casa do Cabo e para os tanques que se lhe seguem. O primeiro para o gado beber, o segundo para lavagem de roupa, indo as sobrantes para um tanque dentro dos muros da propriedade.
Perguntei a história da Fonte Nova e concluí que ela também fora fonte de conflitos, noutros tempos. As lavadeiras nem sempre usavam só o tanque de baixo e os animais não bebiam se a água estivesse conspurcada. Um outro atrito teria sido despertado por um dos donos da Casa do Cabo, ao construir uma campânula sobre a taça inicial onde as águas se dividem, com a intenção de evitar que os animais lá pusessem as patas. A “coisa” não terá caído bem a um “freguês” que, a coberto de uma noite de trovoada, a desmoronou à marretada.

Com este historial, e dias depois de alguém ter escrito em cima da bica com letras vermelhas – FONTE NOVA - PUBLICA - J.F., decidi escrever uma carta ao Presidente da Junta da época, pedindo autorização para encanar as águas sobrantes para dentro da propriedade, de modo a se poder andar por ali com os pés secos e, futuramente, usar essa água (que se infiltrava no caminho) para regar o jardim que planeava construir. Para minha surpresa a Fonte Nova que estivera ao abandono mais de 14 anos, foi levada à Assembleia da Junta de Freguesia, alegando-se que eu tinha intenção de me apoderar da fonte.
Avisado, fui assistir à reunião, onde, para meu espanto, no meio de uma linguagem povoada de excelentíssimos e excelências, o presidente não lera a carta que lhe enviara e alimentou uma discussão sem pés nem cabeça, com uns paisanos que se encontravam na assistência. Saí a meio. Falei com o meu advogado, que me disse: “Os direitos não se pedem. Exercem-se!” e reconstruí o antigo caminho da água, desactivando a divisão que ia para o alambique e para consumo da casa, por desnecessária.
Ao fim de alguns meses de trabalho nos fins de semana disponíveis, consegui ver o que se tinha comprado e havia condição para o levantamento topográfico.
Topografia era com o meu pai, engenheiro de minas reformado, na altura com 80 anos, cheios de genica e capacidades, que durante a actividade profissional, levantara quilómetros de Alentejo e Serra de Arga, na prospecção mineira. Podia ter recorrido a uma empresa. Podia, mas não era a mesma coisa! Levantou-se o terreno e a casa e entregou-se o projecto ao arquitecto Noé Dinis.
domingo, 25 de julho de 2021
Casamento
Filhos de Casamento
As crianças que crescem num casamento sólido são cada vez mais uma minoria - a minoria privilegiada. Seja ela negra, hispânica, asiática ou branca, uma criança faz parte da minoria privilegiada se viver numa casa sem divórcio. Não é o género, não é a raça, não é a orientação sexual, nem sequer é a classe social. É o casamento. Quando se analisam as possibilidades de sucesso de uma criança, é claro que o factor fundamental é a classe social, e não o género ou a raça. No entanto, se crescer numa família sólida, a criança pobre tem mais hipóteses de ascender pelo estudo.
Tudo se torna mais difícil no contexto do divórcio e sobretudo no contexto de uma marca social do Ocidente do século XXI: a fuga do pai. Os homens, sobretudo negros, brancos e hispânicos, tendem a fugir das suas responsabilidades – o exacto oposto do homem asiático (indiano, coreano, chinês), que permanece ancorado à família e à paternidade. Não é por acaso que as crianças asiáticas estão a superar em todos os níveis as crianças negras e também as brancas pobres.
Para mais informação comparativa, leiam, por favor, na “Spectator”, uma peça de Edward Davies, “Forget race or class, marriage is the big social divide”. Aqui quero apenas salientar que este assunto, apesar de ser vital, é um tabu. Não se pode falar de casamento, porque é visto como um assunto “reaccionário”. Não se pode falar de casamento, porque a agenda “cool” exige que se fale apenas de questões identitárias e de racismo e de machismo. Esses pontos são legítimos, sim, mas não são o nó górdio. Antes de ter a tez escura e de ser do sexo feminino, uma rapariga negra é, antes de tudo, pobre. E a sua pobreza é reforçada porque vive apenas com a mãe. Cerca de 70% das crianças negras nos EUA crescem sem o pai. É o inverso da miúda asiática que tem de lidar com o mesmo contexto social: também é de uma minoria étnica, também é pobre. Só que esta rapariga tem algo que a rapariga negra não tem: uma cultura familiar e, sim, conservadora, que mantém o pai preso ao casamento e à estabilidade que permite a ascensão dos filhos.
O colapso da família é pior que o desemprego. O emprego vai e vem. A família é a estrutura que suporta uma pessoa nos momentos de desemprego, dando-lhe uma sensação de segurança e, por arrasto, uma mente mais racional e calma. Portanto, tenhamos coragem para ver a evidência: antes de qualquer outro factor, o que atrasa a vida de uma rapariga negra não é o racismo ou o machismo, é o colapso do casamento, o divórcio, a fuga do pai às suas responsabilidades. E – repito – encontramos o mesmo fenómeno nos brancos pobres.
….
A eterna adolescência dos homens é o grande problema da sociedade ocidental. É a causa da nossa decadência. “É só meninos”, como dizia o meu velho.
Forget race or class, marriage is the big social divide
The latest spark to ignite the culture wars is a report from the parliamentary education committee on the underachievement of working-class white boys. But this isn’t about race. The boys don’t underachieve because they are white. Their skin colour is merely a marker by which we can see that a certain cohort is doing worse than another.
And despite
received wisdom, it’s not just about poverty, school funding or investment.
Children of other ethnicities who are equally poor, and even potentially at the
same school, will likely do considerably better.
It’s not
even about class, which seems to be the latest factor on which the fickle
finger of blame is falling. I couldn’t even tell you what working-class means
anymore but by most definitions the link becomes pretty tenuous and not a
little pejorative.
But there is
a 40-year trend that perfectly maps onto almost every aspect of this problem.
It’s not much admired in modern society, but then data doesn’t really care for
middle-class sensibilities. Children tell us it’s important while adults seem
ever more squeamish about it. It’s marriage rates.
If we care about kids,
we should care about marriage. Alarm bells should be ringing, and ringing hard.
They’ve been
steadily collapsing since the 1970s. Not just declining but falling off a
cliff. Even at the height of the second world war, one of its previous lowest
points, the male marriage rate was almost triple what it is today. We claim to
value our families but imagine the response if something we truly cared about,
like employment rates, were doing the same.
People tell
me that talk of marriage is moralising and uncomfortable and revert to the
importance of ‘stability’ to children instead. But let’s call a spade a spade.
There is no other form of relationship that offers anywhere near the same level
of stability in any thriving culture in the whole of human history. If we care
about kids, we should care about marriage. Alarmed wedding bells should be
ringing and ringing hard.
This decline
is not universal and points to the very problem discussed by the education
committee this week.
New analysis
of the Family Resources Survey, carried out this week by the Centre for Social
Justice, has found that the disparity in marriage between rich and poor white
families in the UK is very, very stark.
In the
wealthiest fifth of white families by income, 84 per cent are married and
reaping the benefits of that stability, with a further 12 per cent co-habiting.
In the poorest fifth just 19 per cent are married with a further 9 per cent
co-habiting — there is a pretty straight line through the income groups in
between. It means if you are born into a wealthier family, you have a 96 per
cent chance of having two parents. In our poorest communities, your chances are
just 28 per cent and falling.
In real and
stark terms it means this: if you’re white and rich you get a dad, and if you’re
white and poor you probably don’t. Teachers, mentors, youth clubs, and
investment are all great, but the ultimate privilege in life is now a present
father.
It tells you
everything you need to know about how seriously we take this problem that we
have to harvest the statistics from around the edges of obscure national
resource surveys. We don’t even collect enough information for there to be
meaningful data on smaller ethnic groups than white British.
But we do
collect overall family structure rates once a decade in the Census, and it is
little surprise that the marriage rates of each ethnic group map almost
perfectly onto the school achievements of their children.
Poor Indian
and Chinese children, two communities with very high marriage rates, don’t just
do better than other poor children in their GCSEs — they do better than most
middle-income children too. While black Caribbean children join poor white
children at the bottom of the class for both marriage rates and school
attainment.
Critics will
rightly say that these data are mere correlations and that poverty itself
causes family instability. And they’re right to a degree. But the reverse is
also true, that family instability causes poverty and the varying outcomes in
the different ethnic groups simply underline this fact — social capital matters
as much as financial capital to children’s futures.
But lastly,
and perhaps most perniciously, is not just how little data we collect on this
but our unwillingness to talk about it at all. If a drug showed the sort of
effects as marriage, correlation or not, it would be in our children’s systems
faster than you can say Oxford-AstraZeneca. Let’s not pretend then that we have
abandoned marriage for the benefit of children. We have done it solely for the
freedom of adults.
terça-feira, 20 de julho de 2021
A antiga Casa do Cabo
A julgar por umas pedras lascadas no sopé do Monte da Gandra, onde actualmente impera o Farol de Montedor, já anda gente por Carreço desde o Paleolítico e há uma Anta, uma Mamoa e gravuras em pedras que sugerem que cedo o sapiens se fixou nestas paragens. A citânia de Santa Luzia dista menos de sete quilómetros da aldeia e data dos inícios da nossa Era.
Nos primórdios da nacionalidade, a paróquia de Carreço não era reguenga, isto é, não pertencia ao rei. Era domínio dos Mosteiros de Cabanas, de Tibães, de S. Romão do Neiva, de Freixieiro e de S. Romão da Torre, a quem os “casais” pagavam tributo. Aos poucos os casais foram-se apropriando das terras e os reis metendo a mão no que aqui se produzia, sem que a Igreja deixasse a sua influência e de cobrar o seu quinhão.
Paçô deve o nome a ter sido a zona onde um dos senhores teria o seu pequeno palácio e sua reserva.
A Casa do Cabo aparece nos livros de rol dos irmãos das Confrarias, nos princípios do século XVII. Então, era pertença de João do Cabo. Nas suas redondezas, a Casa do Cigano, a Casa de Agostinho, a Casa do Vale e a Casa do Neiva, que também aí se referem, ainda cá estão. Na época era-se mais sábio que na actualidade e construía-se na meia encosta, deixando a veiga para a agricultura, talvez por saberem (o que agora se tende a ignorar) que o terreno fértil não anda por aí aos pontapés.
Era uma “casa de lavoura”. Numa das pedras centrais da eira está gravada a data de 1818. Tinha espigueiro de madeira, de que persistem as pedras de apoio, cabana da eira, um alambique, um lagar, galinheiro, pocilga e currais para vacas. Recebia num tanque os sobrantes da Fonte Nova e tinha canalização da mesma fonte para água de consumo doméstico. Pelo que ainda se percebe no desenho das pedras, a casa sofreu acrescentos sucessivos, o que sugere épocas de prosperidade.
Embora não fosse sempre pertença da mesma família, manteve terrenos na veiga e bouças no monte. “Consta” que a avó da última habitante da casa, de nome Rosa Ennes da Silva, teria ido grávida de pai incógnito, para a Casa do Cabo, vinda da Casa do Cigano, tomar conta de três irmãos já velhotes (2 mulheres e 1 homem) que, por não terem descendência, a fizeram herdeira, não só da Casa, como de terrenos da veiga e bouças no monte. A sua filha Miquelina Enes da Silva, nasce a 22/07/1876, casará com José Alves de Sá, estucador e, aos 38 anos, terá uma filha - Ema Enes de Sá.
A dona Ema, que foi a última habitante desta casa, irá falecer subitamente em 15/07/1985, aos 70 anos, uns dois anos depois de ter sido assaltada e barbaramente agredida em sua casa, numa noite de julho. Apesar da idade e de viver sozinha, após um mês de internamento hospitalar e de um período de recuperação na residência de familiares, voltou à casa para produzir vinho, batatas e galinhas, com a ajuda dos parentes próximos, até aos seus últimos dias.
segunda-feira, 5 de julho de 2021
Arrogância e Ressentimento
Nem tudo é sorte, mas sem ela, pouco ou nada é possível.
É preciso Sorte em nascer saudável, com bons genes, dentro de uma família coesa, responsável e influente. Sorte em ter bons professores e amigos que nos ajudem a definir e a progredir nos sonhos. Sorte em encontrar a feliz coincidência entre as nossas capacidades e as necessidades do mercado. E sorte em manter a saúde necessária ao esforço e empenhamento que o sucesso exige.
Só os ignorantes atribuem os altos rendimentos a mérito e os baixos a falta dele. A fraca relação entre mérito e sucesso não “legitima” a arrogância dos vencedores, nem deve desmoralizar quem não conseguiu subir na escala social.
Nas últimas décadas, Portugal entrou na onda (muito “americana”) de entender o valor de uma pessoa pela sua riqueza patrimonial e vai de dar medalhas de mérito a gente cujo sucesso deriva de alguma agilidade em lidar com o dinheiro, frequentemente o dos outros.
São difíceis de entender os altos vencimentos dos banqueiros, e os grandes lucros da gente que vive de negócio de oportunidade lembram-me uma história (ignoro a veracidade) de um cirurgião que sai do Bloco Operatório de mãos no ar e luvas ensanguentadas, para dizer ao marido que, ansioso, aguarda: “Surgiu uma complicação! Vamos ter que tirar o apêndice! São mais 200 euros! Que diz?”
Um vizinho meu conta-me, de olhos arregalados, que “fulano” está podre de rico a vender material que vai buscar França por dez e vende em Portugal por cinquenta. Ele não admira quem estudou ou se envolveu socialmente. Ele admira quem aproveitou a oportunidade.
Não nego valor a quem está atento ao “mercado”. Não lhe dou é especial mérito. Estas “oportunidades” de comprar num lado e vender noutro, geralmente associadas a nichos de mercado em expansão, dão origem a novos ricos que raramente investem em educação ou em estruturas socialmente úteis. O mais comum é gastarem em automóveis topo de gama e grandes almoçaradas.
Portugal deve ser o país da Europa onde há mais “Armandos Vara”, “Duartes Lima” e Loureiros de toda a espécie, uns a Dias, outros Valentões que, vindos do nada, usam empréstimos dos Bancos Públicos e Privados, para a “grande trafulhice” que lhes permite acarretar somas avultadas, não declaradas, e por isso, livre de impostos. São gente que anda atrás das “oportunidades” nas margens da legalidade, habitualmente “aconselhados” por Bancos, advogados e contactos conseguidos na “política”, enquanto o Portugal dos pequeninos se entretém a trabalhar e a pagar os impostos para que as estradas, os Hospitais e as outras funções do Estado lhes garanta as condições para o saque.
Nestes últimos anos tem sido difícil dar credibilidade ao nosso Estado. Tivemos um Primeiro Ministro a receber dinheiro em envelopes, um grande Banco privado a enganar depositantes, o Banco de Portugal a fingir que não via, um Joe Berardo de mil milhões de dívidas e o seu arrogante “Ah, Ah, Ah!” e todos esperamos o novo escândalo de amanhã.
Mas também é difícil acreditar numa população cujo imaginário é dominado pelo negócio de oportunidade, seja ele vender uma bouça no meio do nada a um árabe, para um palácio, ou gastar o que lhe faz falta em raspadinhas, na esperança que a Segurança Social lhe garanta o que lhe falta viver, maldizendo a sua pouca sorte e com ressentimento de quem se esforçou para ter uma vida melhor.
segunda-feira, 28 de junho de 2021
Pinheiros secos
sexta-feira, 25 de junho de 2021
Caminhos do monte
Todas as semanas dou um passeio a pé pelo monte. O mais comum e curto, é subir ao estradão que une Carreço a Afife, descer até ao Casino, comprar o jornal, tomar um abatanado, e voltar pela recente estrada paralela à linha do comboio.
quinta-feira, 17 de junho de 2021
Segunda dose da vacina para o Covid
Ensinaram-me então que tinha que confessar os meus pecados a um homem velho, vestido de preto dentro de uma cabina escura. Como era pequena e não chegava aos buraquinhos do confessionário, o padre saiu e a confissão ocorreu frente a frente, comigo muito humildemente ajoelhada, num grande esforço para inventar pecados para não o defraudar, pois não era suposto chegar lá sem nenhuma falta.
Como é que aos 6 anos se tem noção de pecado? Diziam-me que se pecava por pensamentos, palavras, obras e omissões e eu punha-me à procura dentro da cabeça de quais de todos eles podiam merecer essa classificação.
No fim, o meu nível de pecadora era quantificado pelo número de Avés Marias ou Salve-Rainhas que me receitavam como penalização e que comparava com as minhas colegas, tal como as notas nos exercícios de ditado ou redacção.
Ensinaram-me ainda que, depois deste passo doloroso, estaria pronta para comungar. Ainda na fila para a comunhão já eu punha a língua de fora para receber aquela fatia fina e seca de pão sem fermento, para depois sofrer o tormento de ter a hóstia colada ao céu da boca e ser proibido tocar-lhe com os dedos, quando os movimentos de língua não eram suficientemente eficazes para a descolar, e me punha a revirar os olhos com ar de recolhimento, tentando pensar em coisas "edificantes", com a agravante de ser proibido sair da igreja ainda com a hóstia na boca sob pena de passar a vergonha de ver dois sacristãos atrás de mim, com tochas acesas.
Para progredir nesses patamares fiz a primeira comunhão. Vestiram-me de anjinho e, para compor a imagem, a minha mãe chamou a cabeleireira a casa e transformou os meus cabelos, normalmente lisos, em densos caracóis por meio de uma "mise" executada com ferros quentes, que além de me queimarem o couro cabeludo me faziam cair a cabeça pelo seu peso excessivo para a minha idade.
Cumpri a minha missão segurando a toalha da comunhão, de joelhos, ostentando nas costas um longo par de asas, por um tempo que me pareceu infinito. Os fotógrafos que se posicionaram por trás de mim, encarregaram-se de entortar as ditas asas, tornando a meu equilíbrio ainda mais penoso.
Tudo excessivo, muito intenso e pouco útil!
Já a comunhão solene se revelou a ostentação de uma vaidade familiar bacoca. Nos meus 10 anos ainda reclamei, tentando que me deixassem envergar um fato de freira mais adequado à solenidade da minha profissão de fé. Não me deixaram. Era sobrinha da directora, Tinha de ser a mais "bonita" e... vestiram-me de noiva!
Tudo acabou aqui. Resta o lamento do tempo rouhbado às sãs brincadeiras despreocupadas como devem ser as das crianças e os medos que perduraram anos, até se perderem.
Felizmente que as novas gerações não são obrigadas a passar por isto.
quarta-feira, 16 de junho de 2021
terça-feira, 8 de junho de 2021
Eu e as Redes sociais
Há uns meses ouvi no YouTube, uma entrevista com Stephen Fry, actor, escritor e grande comunicador inglês, em que ele falava dos comentários ao que publicava nas redes sociais.
Dizia ele: “Você posta
algo e embora 99% das pessoas, pelo menos, sejam simpáticas mesmo que discordem
de você, há 1% que é desagradável, rude e ameaçador…. Eu acho que é um pouco
como uma piscina. Se 99% da água da piscina é limpa, é bom, mas se houver um
pedacinho de cocó flutuando nela, eu não vou nadar nessa piscina. Não sou esse
tipo de pessoa que não liga ao que as pessoas pensam ...”
Eu faço o esforço de estar nas
redes sociais, mesmo sabendo que nela há todo o tipo de gente.
Há os velhos teimosos, intolerantes, resmungões e
auto-indulgentes que, de punho erguido aproveitam o pobre incauto que cruzou o
seu caminho, para tentar converter a aldeia num asilo exclusivo para eles. Há gente que se sente corajosa por se manifestar
politicamente incorrecta e tresmalhada do rebanho, muitas vezes a coberto do
anonimato. Há os patetas com piadas jocosas (como se o humor fosse uma coisa fácil) cujo teor é o que se encontra nas
tabernas entre os bem bebidos. Há os que “acham” isto e aquilo, sem o mínimo de
humildade nem esforço de estudar ou pensar sobre o que se atrevem a dar opinião.
Há os do “bota abaixo” de olhar enviesado, que veem em tudo o que lhes cheira a
mudança, um prejuízo irreparável. Há os que dividem, não recusando o “bulling”, se o acharem útil e os que vestem a pele de um Canário de terceira e se põem a "espicaçar”
quem não conhecem, na esperança de uma resposta que satisfaça o “ai,olariloléla”
em que se sentem confortáveis.
A estes eu não respondo.
Eu uso as Redes Sociais na procura de alguma coisa
interessante: um humor com pés e cabeça, uma história pitoresca, uma observação
de um angulo diferente, um ensinamento, um negócio …
As brejeirices e outras “inconveniências”, guardo-as para
dentro de portas, para que possam entrar por um ouvido e sair pelo outro sem
deixar registo que nos comprometa e, mesmo assim, com cuidado, porque uma
palavra fora da boca é como a pasta de dentes que é impossível de voltar a
meter dentro do tubo.
sexta-feira, 4 de junho de 2021
Medalha de Mérito



































