
Nessa noite Hipólito custou a adormecer a pensar no evoluir da guerra na Ucrânia. Estava claro que os Estados Unidos da América, sob a liderança de Donald Trump, queriam manter o poder hegemónico sobre o mundo e qualquer fortalecimento da União Europeia era entendido como uma ameaça, pelo que o melhor era pôr um travão à entrada da Ucrânia no espaço europeu e deixá-la cair nas mãos de Putin que, mesmo que saísse vitorioso daquela guerra, saía coxo e com dívidas, o que o iria afastar de qualquer outra cavalgada na próxima década.
Eram três horas da manhã quando um pequeno ruído no jardim fronteiro à casa o fez acordar sobressaltado. Levantou-se, vestiu o roupão e espreitou por entre as frinchas da persiana. Uma pequena luz tremeluzia por cima de um arbusto. Desceu as escadas temendo por um início de incêndio, abriu a porta da sala e viu um vulto sentado na borda do muro. Aproximou-se e rapidamente identificou Nossa Senhora da Graça, com veste branca e manto azul celeste com uma pequena vela na mão esquerda, que protegia do vento com a direita. Parecia cansada, como se estivesse há muitas horas sem dormir. Hipólito ajudou-a a descer e encaminhou-a para a sala de estar, junto à lareira, onde umas brasas ainda emitiam algum calor.
-Sente-se aqui neste sofá, que eu vou atiçar um pouco o lume!, convidou o médico, enquanto lhe oferecia um pequeno castiçal para ela pousar a vela.
Depois sentou-se numa banqueta aos seus pés e questionou-a: – O que é que a trás aqui, em finais de Março quando as suas festas são em Agosto? Agora não há emigrantes para movimentarem a aldeia. E ainda por cima à noite, com este frio!
Nossa Senhora que mantinha os olhos baixos, levantou-os, fixando a lareira, onde já passeavam pequenas labaredas, e respondeu calmamente: A quem o diz! Isto de ser humano e ter de viver eternamente não é fácil. Eu devia ter morrido como qualquer mortal, mas foi vontade de Deus que entrasse num estado de dormição e ascendesse em corpo e alma aos Céus. Era melhor que fosse só a alma que ascendesse, porque ter que andar com o corpo pelo céu, é pior que viajar pelo mundo com cinco malas grandes, que essas podem dar-se à guarda de alguém e, por um tempo, esquecê-las. Há dois mil anos não havia grandes problemas. Evitava as tempestades e os Invernos, mudando de hemisfério, ajeita-me em cima de uma nuvem mais fofa e dormia profundamente horas seguidas, mas desde a década de 20 do século passado, com o aumento exponencial de aviões no ar, é uma sorte dormir três horas seguidas. Ainda por cima tenho de ter cuidado para não cair no buraco do ozono!
- Acredito! Disse Hipólito. – Então agora com as Low Cost e a publicidade ao Turismo, não há gato pingado que resista a uma fugida de fim de semana para gastar o que não tem a centenas de quilómetros de distância. Para quem tem residência no Céu deve ser grande incómodo.
Nossa Senhora confirmou. – É como diz! Pudesse eu sair da atmosfera e ir para um lugar sossegado mas, como sou mortal, mesmo neste estado de dormição, preciso de respirar e por isso tenho de me manter próximo da Terra. O manto é polar e mantem-me quente, mesmo quando subo aos quatro mil metros, mas aí o ar já é muito rarefeito e eu dou-me mal nesse ambiente.
Hipólito anuiu salientando que por cada mil metros a temperatura ambiente desce 6,4ºC e, sem Oxigénio suplementar, o mínimo a esperar é uma dor de cabeça "das antigas". Depois, fitou-a nos olhos e relembrou a questão daquela "aparição”.
Nossa Senhora levantou-se para dar volume à voz e ser mais clara na sua determinação.
- Sabe, eu também fui ao Congresso onde o sr. esteve. Podia-me ter visto do outro lado do anfiteatro, bem em frente a si. Fui à sessão sobre “Secularismo” por me terem dito que iria estar na berlinda, o que se veio a verificar, quando a Inteligência Artificial falou. Ora eu vim aqui pedir-lhe ajuda na divulgação da minha total indisponibilidade para encabeçar qualquer movimento por mais pacifista que seja. Conheço os meandros da política e sei muito bem que a falta de consistência é geral. Por isso estive, estou e ficarei sempre de fora. Não gosto de carne assada, odeio gritos e bastam-me as confusões por que já passei!
Hipólito, surpreendido, comentou: - Mas quem sou eu, para divulgar essa missiva?
- Não é ninguém especial, mas está bem relacionado, e isso conta quando há necessidade de pôr coisas a andar. Fale com Zeus, com o Buda, com Mohamed, com quem quiser, mas tire-me desse filme. Não quero ver jornalistas a perscrutar a minha vida e concluírem que há incongruências, como acontece agora com o Montenegro.
Hipólito, aproveitou a deixa e retrucou: - Concordo consigo. O risco não é de desprezar. Até eu estranho como a sua história persiste pouco questionada. É demasiado a “preto e branco” para os conceitos actuais. Há uns anos, surpreendi-me com uma versão da Sua vida que me pareceu mais lógica. Quer ouvi-la?
Nossa Senhora sorriu e respondeu: - A história da minha vida já está escrita. Já houve quem a tentasse reescrever e saiu-se mal. O melhor é deixar tudo como está.
O médico concordou, lembrando o Primeiro Concílio de Niceia presidido pelo Imperador Constantino, em 325, onde se discutiu acerrimamente a questão da natureza divina de Jesus, por ser filho de uma mortal, até o Credo Niceno fixar a “consubstancialidade” do Filho com o Pai e, quem não o aceitou sofreu as consequências de ser considerado herético. Isto nos primórdios da Religião Cristã, porque o que se seguiu, até ao estabelecimento do “cânone”, foi mais do mesmo, até o domínio total das outras religiões do Império Romano.
Hipólito aceitou a incumbência beijando-lhe as mãos. Nossa Senhora agradeceu e dirigia-se para a porta quando parou, se voltou para trás e lhe ciciou: - As mulheres não resistem a saber do que se fala sobre si. Conte lá essa versão que diz ter lido sobre a “realidade” da minha vida. Talvez eu já a conheça!, sorriu condescendente e voltou a sentar-se.