terça-feira, 1 de abril de 2025

Lembranças do Olimpo - 43



Hipólito organizou o pensamento em voz alta, para que Nossa Senhora ouvisse.
Maria era judia e vivia em Nazaré que, na altura, teria entre 200 e 400 habitantes e onde todos se conheciam.
Tinha cerca de 14 anos quando ficou grávida de pai incógnito.
Na lei judaica, o adultério é punível com a pena de morte, conforme indica o livro de Levítico. A Torá prevê que tanto o homem como a mulher que cometerem adultério sejam apedrejados até a morte.
Maria se identificasse o pai seriam os dois lapidados.
José compadeceu-se de Maria.
José era um velho para a época. Teria cerca de 40 anos, era carpinteiro, viúvo e pai de vários filhos. Ser carpinteiro era pertencer à “elite” da aldeia.
As afirmações de José quanto à paternidade, não foram tomadas a sério na sinagoga e a dúvida persistiu.
Quando Maria estava perto do parto, José fugiu com ela de burro, sem levar nenhuma mulher da família para ajudar, quando a mortalidade associada ao parto, à época, era muito grande.
José era um homem avisado, o que faz pensar que a família devia ter cortado relações com Maria ou a premência da fuga.
Ficaram numa caverna nas imediações de Belém, por terem chegado à noite ao caravançarai e este já estar fechado.
De Nazaré a Belém são 14km a pé, cerca de 3 horas com passo estugado.
José ajudou o parto e Jesus nasceu saudável e sem complicações, o que é obra sendo Maria primípara.
Nos dias seguintes, uns amigos de José foram a essa caverna, levar-lhe uns “precisos”, talvez por já saberem desse esconderijo. O leite deve-lhes ter parecido ouro, uns panos, mirra e algo que comer o incenso.
Depois, Jesus foi educado por José que, como bom judeu, o ensinou a ler. Desde a diáspora que o pai tinha obrigação de ensinar os filhos (não às filhas) a ler, para manter o culto vivo.

Nossa Senhora ouviu com atenção o raciocínio de Hipólito, sem que no seu rosto assomasse qualquer ruga de agrado ou contrariedade e, no fim, comentou: - A realidade é demasiado complexa para se resumir numa página! Diferentes observadores narram os mesmos factos de modo diverso, limitados que estão pelas suas capacidades e experiência de vida. Para mais, quando a oralidade é o principal meio de comunicação, as deturpações são inevitáveis. Mas lembre-se que cada história que se conta tem intenção de influenciar o ouvinte/leitor e, se os conceitos que se querem passar são importantes, há que realçá-los.
O senhor já reparou que um manequim estilizado, mede 11 cabeças, quando na realidade as pessoas medem 7 cabeças e meia. Mas se quiser desenhar um herói, deve fazê-lo com 9 cabeças. As “figuras de estilo” são muito importantes para que a história “funcione”.
Como sabe, quando alguém se benze, diz: Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. O feminino está ausente. O culto Mariano foi o tributo mínimo à mulher, numa religião onde o homem é o centro de tudo. 
Essa história que conta não é inspiradora. A outra é melhor! Nossa Senhora é um ícone de mãe, de bondade, de serenidade e porque não … de beleza feminina. A sua “história” põe, de novo, a tónica num ser masculino. Em José. José é o herói ao afirmar-se como pai da criança que Maria trazia no ventre, para assim impedir a sua lapidação. José é o homem importante da aldeia que arrisca a sua posição para defender uma rapariga pobre, caída em desgraça, por suspeita de adultério.
É uma boa regra não deixar que a verdade estrague uma boa história! Guarde essa para si e para os seus amigos e, por favor, faça o que lhe pedi. 
Eu não quero ser mais do que aquilo em que me transformaram e gosto de sentir as pessoas confortadas quando pensam em Nossa Senhora, seja ela da Agonia, da Ajuda, do Alívio, do Amparo, Aparecida, Auxiliadora, da Boa Hora, da Boa Morte, da Cabeça, Desatadora de Nós, da Graça, dos Mares, do Monte, da Pena, da Vitória, de Fátima ou de qualquer outro lado, que títulos não me faltam!

Hipólito beijou-lhe de novo as mãos, prometendo tudo fazer para que os Secularistas não se apoderassem da sua imagem com qualquer intenção política, enquanto a conduzia à porta da casa. Aí Nossa Senhora elevou-se e iniciou nova ascensão ao céu, esfumando-se numa nuvem que entretanto passava.