sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Ryszard Kapuscinski


... Convencidos de que uma pessoa comunica connosco só através da palavra, falada ou escrita, nem reflectimos que esses são só um dos possíveis meios de transmissão de muitos que, na realidade, existem. De facto, dizem-nos muito a expressão facial, o olhar, os gestos das mãos, os movimentos do corpo, as ondas que ele emite, a roupa que se usa e a maneira como se está vestido e, ainda dezenas de outros emissores, transmissores, reforços e filtros que constituem o ser humano e a sua "química", como dizem os ingleses.
A tecnologia, limitando o contacto interpessoal a um sinal electrónico, empobrece e apaga aquela panóplia extraverbal que utilizamos no contacto directo, na proximidade, muitas vezes sem nos darmos conta. Ainda para mais, a comunicação não verbal da expressão facial e dos gestos mais subtis, é muito mais sincera e verídica que a língua oral ou escrita, e torna mais difícil mentir ou esconder a falsidade ou o embuste. Por isso mesmo, a cultura chinesa, pretendendo salvaguardar o pensamento do indivíduo, elaborou a arte da cara imóvel, uma máscara impenetrável e de olhar vazio, porque só assim, só atrás desse biombo, alguém podia, realmente, esconder-se.
...

Ryszard Kapuscinski in "Andanças com Heródoto"

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O Feliz



Pensei em pôr-te no lixo ao lado dos candeeiros partidos, mas lembrei-me dos anos que partilhaste comigo, sempre disponível e sem um resmungo, fosse sábado ou domingo, e … hesitei.
Era só mais um furo, até abrir a roda e ver o estado lastimável do pneu, coçado e quase transparente nalguns pontos. Nem no OLX davam 1 Euro por ti.

Entrei na loja do Bricolage à procura de um sapato para te calçar.
Passei a zona da jardinagem, das lâmpadas e das canalizações e, bem ao fundo, já depois dos cimentos, lá estava a tua família meia suspensa do tecto. Uns amarelos, outros verdes, todos cintilantes, como a dizer “leva-me, leva-me!”. Um deles, mais afoito, com um papel colado "em promoção!” para me tentar! E, logo abaixo, em frente aos olhos, aquela roda completa, com um pneu anti-furo, para eu nunca mais pensar onde pus a caixa dos remendos ou a bomba do ar. Coisa de chegar a casa, desatarraxar dois parafusos e dar-te corda aos chinelos.

Levaste cimento, terra, pedras, lixo, plantas e até com o pneu furado aguentaste em cima da jante, quando eu não tinha tempo ou paciência para pôr o remendo na câmara de ar.
Por isso não olhei ao preço. Peguei, rodei e meti-a na cesta!

Por mais vinte euros, comprava um carrinho de mão novo, que destoaria a meu lado. Assim, um pouco desajeitado, fazes “pendant” comigo e lá terás de te aguentar, até Deus, Nosso Senhor, entender que chegaram ao fim os teus dias.
Já não te é exigido tanto como noutros tempos, em que qualquer um pegava em ti e te dava tratos de polé. Agora é trabalhos moderados ao fim-de-semana e o resto a descansar encostado às paredes da arrecadação, junto às enxadas, que sempre é melhor que ir para a China, ser reciclado em vergalhões, e acabar na armadura metálica de uma barragem ou de qualquer outra construção humana.

Tiveste sorte!

domingo, 14 de agosto de 2016

Cidades Compactas



Há duas décadas, pelo menos, que alguns urbanistas sustentam a tese de que é inútil, nas metrópoles congestionadas por veículos, abrir novas pistas, viadutos, etc, pois qualquer destas soluções não terá outro efeito senão “mudar o lugar dos congestionamentos” uma vez que, atraídos pela ilusória facilidade de escoamento, os motoristas acorreriam em massa para essas novas vias, provocando outros engarrafamentos.

“As cidades sustentáveis são compactas”, sustenta Richard Rogers, autor do projecto do Centro Pompidou, em Paris. Para ele, o automóvel é o inimigo, porque “mina a estrutura social coesiva da cidade, destrói a qualidade dos espaços sociais e estimula a expansão urbana”.

Nas  cidades compactas, a população concentra-se em torno das estações de transporte de massa, de modo a reduzir as emissões de poluentes e o tráfego. Na sua visão, a predominância de pedestres torna os espaços públicos mais seguros e estimula o maior convívio entre os moradores. Além disso, a compactação permite uma forte redução no consumo de energia. Para ele, a distinção essencial, é “entre a cidade baseada nos veículos e a cidade baseada nas pessoas”.

Urbanistas mais radicais propõem caminhos inovadores para a questão das concentrações populacionais, sugerindo o retorno a um planeamento que privilegie aglomerados humanos de poucos milhares de habitantes, questionando o privilégio sem limites conferido ao transporte individual e defendendo a tese provocante de fechar vias ao trânsito automóvel.
Para eles as "Cidades-Jardim" são um conceito ultrapassado e insustentável, que não são mais que um eufemismo de "subúrbios", que facilitou lucros ao lobby da construção civil e impediu a criação de "novas cidades" no interior das existentes, antes que se ocupasse a sua zona verde circundante, que um dia mais tarde lhe fará falta.

Uma cidade compacta dá resposta aos desafios funcionais que hoje lhe colocamos e permite a optimização do respectivo desempenho energético-ambiental.

sábado, 13 de agosto de 2016

A minha floresta


Palavra de honra! Houve tempo em que tive a fantasia de ser dono de uma floresta. Não de uma bouça no monte. De uma floresta com nunca menos de 500 hectares, com estradões largos que suportassem transito de máquinas pesadas, para remover o mato e as árvores destinadas à comercialização e para a manter saudável, mesmo em condições adversas.

O objectivo não era "uma floresta natural", até porque não conheço nada mais agressivo que a Natureza, sempre disposta em enfiar caruncho ou as mais diversas pragas em tudo o que o que é ser vivo, numa competição desenfreada para seleccionar os melhores e os que têm mais sorte.
Eu preocupar-me-ia em ter árvores saudáveis. Umas para pagar a manutenção, outras para passar às gerações vindouras, porque há muito que sei que para ter um carvalho com 5 séculos é necessário esperar 500 anos.

Procuraria o apoio técnico de uma Universidade para a gerir, quer na flora, quer na fauna, e candidatava-me a "fundos" internacionais, que garantissem parte dos custos.

Esta "minha floresta", estaria afastada mais de 250 metros de qualquer habitação e teria regras para quem a frequentasse, fosse trabalhador ou visita e, como nos países civilizados, teria proibição de entrada durante a "época de incêndio". Daria emprego a várias aldeias, quer para a sua manutenção quer com a utilização da sua madeira.

Com estas características, nunca se poderia situar em Portugal, porque aqui os "direitos" e "as conquistas de Abril", que andam na cabeça de meia dúzia de incultos que pensam que as benesses caem do céu, iriam imediatamente questionar o não poder lá ir fazer o pique-nique e levar o garrafão quando muito bem entendesse, o não poder deitar o lixo onde quisesse, porque ... Portugal "é do povo e não do Pires Veloso!" e ... " o povo é quem mais ordena", mesmo que não saiba nada do assunto e haja pareceres técnicos a indicar o contrário, pois é nesse nicho que crescem os "políticos de pacotilha", num "faça-se a ponte, que o rio logo aparece!" de promessas que sugiram um aliado com força e capacidade.

O norte da Europa ou o Canadá eram as opções e eucaliptos e austrálias, nunca! Teria Guardas Florestais "com a cabeça em cima dos ombros" e formação, para entenderem que o tempo das árvores é diferente do nosso e que elas nos olham e sentem as agressões com a tristeza de quem dá o seu melhor e acaba incompreendido e maltratado, só porque um Deus disse ao homem ocidental, que o fez à sua imagem e semelhança, lhe ordenou "crescei e multiplicai-vos!" e o incentivou a dominar sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre o gado, sobre toda a terra e sobre todo o réptil que se move sobre ela. Gênesis 1:26

terça-feira, 9 de agosto de 2016

IMI



Há anos que me meti a fazer a grande parte da manutenção das pequenas coisas da minha casa, por puro gozo, mas também porque seria incomportável não o fazer. Faço de canalizador, de pedreiro, de serralheiro, de pintor ... e, sempre que uma máquina avaria, tento dar com o "gato", antes de a pôr na mão dos profissionais.
Aos poucos fui aprendendo a "alma" daquilo em que mexo. Se tenho livro de instruções, melhor.
Ontem foi dia do indicador de nível do gasóleo de aquecimento. Quase uma hora para perceber que o parafuso do lado direito do mostrador não era de suporte, mas para o rodar e adaptar ao tipo de depósito (coisa que quem lá o pôs, não fez). Depois, outra hora para arranjar uma cadeira, que em 5 minutos se fixava, se a tivesse observado atentamente.

Quando nos confrontamos pela primeira vez com um problema sem lhe entendermos a "alma",  corremos o risco de o deixar sem concerto.
Um amador, mesmo "perspicaz", não deve deve abrir um "relógio" sem um perito nas imediações. E quem diz relógios, diz barrigas e outras coisas de ... valor.

É assim que está a nossa política, cheia de gente voluntariosa que, ao tentar resolver o imediato, compromete o futuro.

A alteração ao IMI, para taxar mais as casas com "melhores" características, é um "ir buscar dinheiro" sem qualquer pejo, para financiar as autarquias, a braços com excesso de pessoal causado pelo abrandamento da construção civil no país. Impossibilitadas de um "reajustamento colectivo" obrigam-nas a espreitar para os quintais na procura do que ali possa haver que possa ser taxado.

Hoje é a exposição solar e as "vistas". Amanhã será a exposição ao vento, depois a água do subsolo, a maior ou menor quantidade de moscas ou mosquitos, a tipologia do solo. ... Vale tudo!!!
O património visível, está tramado. Melhor é gastar as poupanças em turismo e comida.

As pessoas que compraram as casas para nelas viverem, não o fizeram com a intenção de as vender. Escolheram-nas porque, em determinada altura das suas vidas, podiam comprá-las e mantê-las. Alguns foram para a periferia das cidades para poder ter uma casa melhor, sem contarem com as portagens que entretanto surgiram nas estradas gratuitas, nem com um IMI que depende da boa disposição de um funcionário.
Quem construiu e se privou de muita vida mundana, é mais uma vez chamado a pagar os desmandos dos Bancos e da classe política que nos tem desgovernado. Qualquer dia entram mesmo nas casas e taxam o ar condicionado, o aquário, o gato ou cão, a instalação sonora, o LCD e o sofá, se tiverem qualidade acima do básico.
Tudo servirá para se poder afirmar que se está a viver acima das suas possibilidades.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Maçon



- Dr.! Isso é trabalho para três homens em quatro dias. A 10 Euros a hora, conte com 1000 Euros, mais o material e o IVA. Se quiser sem IVA, tem de me dar em dinheiro!
- Sr. Luís! Você sabe quanto se ganha no Serviço Nacional de Saúde?
- Não!
- Por exemplo: Uma médica de família, com um contrato de trabalho de 35 horas/semana, tem um vencimento bruto de 1996€ e recebe líquido 1282€ e um enfermeiro tem um vencimento base de 1.200€ por 35 horas semanais.
Faça as contas. Um enfermeiro, antes de impostos, ganha pouco mais de 8€ e um médico 14. Você pede 10 Euros a hora e limpos. Acha isso normal?
- É o mercado a funcionar!  Limitar vencimentos por classes profissionais é simplesmente desvirtuar o mercado da oferta e da procura! Deixe-os continuar a formar em barda, tipo linha de montagem, economistas, gestores, advogados, professores, enfermeiros, médicos, etc ... e vai ver o que acontece aos seus vencimentos!
Não foi à toa que a Merkel disse que Portugal tinha licenciados a mais! ... Até dá pena ver os "miúdos" irem ao engano para o ensino superior!
- Tem toda a razão! Este país não é para licenciados!

sexta-feira, 29 de julho de 2016

A Ucrânia a passar por aqui



Hi Fernando,
This is Simone. You hosted me and a girl Nadya at the beginning of May this year.
We promised to send you a photo in one of social networks here:
I've uploaded them and send you a file.

Our trip was very good and we liked Portugal a lot. Even more than Spanish part of Camino de Santiago.
Thanks again/ Obrigado/Дякую/Спасибо
You're welcomed if you be in Kyiv
With Regards
Simeone&Nadia


domingo, 24 de julho de 2016

Erdogan


No que respeita a massas, não sou romano. Não atravesso a rua por Farfalle, Gnocchi, Rigatonni, Fusilli, Fricelli, Tortellini, Bucatini, Linguine, Capellini, Fettuccine, Pappardelle ou por Spaghetti.
Não são "a minha praia". Como trigo, no pão, do pequeno almoço mas, às refeições, prefiro batata ou arroz, como fonte de hidratos de carbono. Massas é duas vezes por mês e ... basta!

Esta minha postura, deve ter a ver com o arrepio que sinto quando me deparo com outro tipo de massas. As “massas humanas”. Dessas fujo a sete pés, estejam elas num recinto de futebol, a assistir a um comício, num 13 de Maio ou num desses festivais de verão que acontecem onde menos se espera.
A realidade desses espaços é demasiado dicotómica para meu gosto. O que vejo é um denominador comum "básico" a alienar uma multidão e raramente sinto sair dali qualquer coisa de inspirador.

Para me proteger, procuro espaços onde o “Maria vai com as outras” é mais difícil e, se ocorrer, o movimento tem consequências limitadas.

Associo as multidões aos totalitarismos, onde grandes encenações, bem planeadas, fazem perder a identidade e dar vivas ao que se desconhece ou se não antevê as consequências remotas.
Raramente se ouve um motivador "Ich bin ein Berliner". O mais são desesperados a gritar um “Para Angola, rapidamente e em força! ou grandes castigos para os oponentes políticos. 
Por isso, a minha atitude para com esses movimentos é do estilo “ou mato ou morro!”. Se eles vêm do mato, eu fujo para o morro e vice-versa. Odeio-lhes a irracionalidade e mais quem os usa, mesmo que tenha a melhor das intenções, pois atrás de uma ideia (que até pode nem ser má), a grande onda que se forma, vai necessariamente arrastar muito entulho, que rapidamente desvirtua as intenções iniciais.
Prefiro as pequenas ondas consistentes que em pequenos passos racionais, nos levam onde queremos, sem lixo a embaraçar-nos.

A epilepsia era chamada, no tempo dos romanos, de "mal comicial", atribuindo-a, em certa medida, à excitação que esses ajuntamentos podiam causar e eu, quando ouço a populaça a responder irracionalmente a palavras de ordem que nem ouve, temendo um "treco" ...ponho-me a milhas!

Caro Erdogan: queria dizer-te que acredito que se o Golpe de Estado na tua Turquia tivesse tido sucesso, estaríamos agora a assistir a uma instabilidade social pior que aquela que aconteceu no Egipto, com milhares de mortos a pagar a factura.
Mas isso não te dá o direito de fazer essa onda com a massa (52%) que te elegeu, “afogando” os 48% que te são críticos.
Não te esqueças que:
1) Quem com ferro mata, com ferro morre! quer a sua alimentação seja à base de batatas, arroz, trigo, couscous ou kebab!,
2) Que a globalização está para ficar!
3) Que não é com nacionalismos pategos ou com Religiões de Estado, que se acham soluções com futuro.
4) Que o Cristianismo conquistou Roma com a premissa: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus", estabelecendo uma relação de não interferência com a autoridade secular e a base para o Estado Laico moderno.

-Será que não aprendes??

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Madonna del Ghisallo

Na Europa, mil e quinhentos anos depois do que sobra do Império Romano, a sua cultura persiste.
Os Romanos eram politeístas e abertos a outras religiões. Não tentavam impôr a sua matriz religiosa aos territórios conquistados. Antes perguntavam quais as suas divindades e procuravam as correspondências com os deuses romanos. 
Aconteceu com os Gregos, que os ajudaram a estruturar a sua própria religião, Zeus – Júpiter, Juno – Hera, Poseidon – Neptuno, Ares – Marte, Hermes – Mercúrio. … e por aí fora, e com os Egípcios, Horus – Júpiter, Ísis – Juno, Osíris – Vulcano … .
Mas se não havia correspondência com nenhum dos conhecidos, não havia problema e integravam-no com a função que lhe era atribuída.

Quando o Imperador Constantino, no início do século IV legalizou e apoiou fortemente a cristandade, não tornou o “paganismo” ilegal, pelo que as duas religiões coexistiram durante séculos, com os seus templos e cultos.
O Deus único dos cristãos poderia ser equiparado a Zeus, mas os outros não tinham correspondência, pois os santos eram poucos e sem poderes especiais universalmente reconhecidos e Nossa Senhora ainda não se dispusera às aparições.

Só quando, mais tarde, os santos e Nossa Senhora ganharam funções semelhantes às dos antigos deuses greco-romanos, é que os venceram definitivamente. O S. Roque, para as Epidemias, o S. Brás, para as aflições das gargantas, o S. Albino para as cólicas renais, a Santa Otília para as doenças dos olhos, S. Fiacre para as hemorroides, …  e a Madonna del Ghisallopadroeira dos viajantes desde a Idade Média, sub-especializou-se em ciclismo, em 1949, pela mão do Papa Pio XII.  Desde então na sua capela, acolhe fotos, bicicletas, camisolas e outros objectos que foram pertença de muitas das figuras míticas do ciclismo europeu, de Marco Pantani (o Pirata) a Eddy Merckx.




-Allez! Allez! Allez!!!!!!!!

quarta-feira, 13 de julho de 2016

GANHÁMOS!!!!!!!!!


Há uma esquizofrenia presente na população de Portugal.  Os portugueses conseguem abrigar dois sentimentos diametralmente opostos, e, mesmo assim, ... "funcionar".  Esta é a definição de artista de Scott Fitzgerald.  Talvez sejamos (quase) todos artistas, e essa seja a razão para os altos níveis de ansiedade nacional.
Por um lado, há um sentimento de inferioridade colectivo derivado do facto inegável de que o país tem estado, só para falar nos últimos 100 anos, na cauda dos países da Europa.  Portugal não só tem sido incapaz de sair dessa situação como, apesar dos progressos feitos, esta situação até se tem agravado, e as diferenças para os países do norte da Europa têm aumentado.  Portugal está até a ser ultrapassado por países que estiveram debaixo do jugo da URSS durante mais de 50 anos. Isto devia ser motivo de preocupação e objecto de um esforço de introspecção colectiva.  Mas não é. 

Por outro lado, como para compensar, deixamo-nos possuir, ocasionalmente, por um sentimento de superioridade, em que passamos de bestas a bestiais, num fechar de olhos.  Isto acontece em geral quando a selecção nacional de futebol (ou um clube qualquer) ganha qualquer taça lá fora, e então lembramo-nos que temos um clima privilegiado, o fado, uma orla costeira linda, bom peixe, bom vinho, etc., e que houve, e há, alguns portugueses extraordinários.  Esquecemo-nos que eles são extraordinários apesar de serem portugueses, e não porque são portugueses, o que lhes dá um mérito acrescido.  São extraordinários apesar das dificuldades que tiveram de superar para chegar ao topo, causadas principalmente pela inveja nacional, e muitos só foram reconhecidos em Portugal depois de terem tido sucesso no estrangeiro.

Parece, no entanto, que Portugal encontrou no futebol uma fórmula para o sucesso. Através da meritocracia foi capaz de escolher os melhores, com provas dadas de competência - lideres e jogadores - para vencer um campeonato de futebol.
Se sabemos qual a solução para o sucesso, porque é que continuamos a escolher para nos governar gente sem curriculum, sem história de vida relevante para funções governativas, e não aplicamos esta fórmula - meritocracia - para escolher os nossos governantes?

A resposta é que todos aceitamos que um treinador ou jogador de futebol seja despedido se não produzir os resultados esperados, mas não aceitamos que esse critério se aplique nas nossas vidas. Não aceitamos que a incompetência seja justa causa para despedimento e isto faz com que não haja incentivo para dar o melhor.  Se fosse, muitos dos incompetentes de hoje, seriam competentes amanhã, e haveria um salto qualitativo imediato.

Elegemos governantes medíocres, porque só esses prometem o que a maioria quer ouvir, mesmo que todos saibamos que estão a mentir.
São poucos os melhores portugueses que se metem nesses ninhos de ratos que têm sido os partidos políticos. 

Ainda à cerca de futebol.
Os portugueses esquecem-se que é apenas um jogo para nos entreter e equacionam a selecção nacional de futebol como parte das forças armadas, lutando para vencer um "inimigo".  Cantar os hinos nacionais antes dos jogos só pode exacerbar esta convicção. 

Não é só em Portugal que se faz essa relação. Pela reacção dos franceses à derrota da sua selecção frente a Portugal, ficou mais do que óbvio que o orgulho nacional francês ficou gravemente ferido.  
São estas e outras, manifestações de nacionalismo barato e de orgulho nacional mal dirigido (patrioteirismo), que se pode extrapolar para outros aspectos do dia a dia, e que impede a formação de uma União Europeia.  

Os dirigentes políticos alimentam este sentimento como ferramenta de manipulação das massas.  A formula dos 3 Fs continua válida.  
Com a vitoria da selecção nada mudou em Portugal, mas durante 15 minutos os portugueses sentem-se os melhores da Europa.  ... Ganhámos!

(Texto de alguém que se quer Anónimo)

terça-feira, 12 de julho de 2016

domingo, 10 de julho de 2016

sexta-feira, 24 de junho de 2016

No comments



Nunca falta um chinelo velho a um pé manco.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Há sempre um testo para uma panela


Era feia como uma noite de trovoada. Tinha pelos nas pernas grossos como um capacho do Cairo e dentes podres a assustar os meus tímidos onze anos.
Chamávamos-lhe "O Cancelão" e mudávamos de passeio se a víamos caminhar na nossa direcção.
Ajudava na frutaria que nascera onde o Sr. Alberto, sapateiro, colocava meias solas e protectores nas minhas botas vitimadas pelo futebol, e que desapareceu deste mundo, cansado de uma vida sentado à frente da sovela.
Um dia, o Cancelão, apareceu no braço de um companheiro. Era pequeno, coxo e vesgo e a minha tia Aurora, que era sabida em coisas do Além, sentenciou, do alto da sua cátedra, que há sempre um testo para uma panela.
...
Há duas semanas houve rito de "homenagem" a quem nada fez para o merecer, nem como profissional, nem como pessoa, pois sempre desprezou os aflitos que o acaso (e não só) pôs sob sua alçada.
Também aqui houve quem cobrisse. Uns, só pela festa, "smilling and waving", feitos pinguins de Madagáscar,  e, um ou dois cúmplices no estimular da asneira, que foi a grande parte da sua vida.

Razão tinha a tia Aurora: Não há panela sem testo, nem penico sem tampa!

domingo, 19 de junho de 2016

De Chesnokov a Janis Joplin




Pavel Grigorievich Chesnokov (Moscovo - Russia -1877-1944)
Janis Joplin (Texas - USA, 1943-1970)