sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Takotsubo


- Que tens Madalena?
- Não é nada! É só um soluço que aqui tenho entalado!, respondia, quando a encontravam de mãos postas debaixo do queixo, como se estivesse a desatarraxar um frasco cheio de vácuo.
Era assim nas duas últimas semanas, a preocupar a família, com aquela dor no peito, "como uma colher a rapar o fundo do coração", que passava depois de um longo suspiro.

Nunca tivera saúde. Em criança, foram as tosses e as bronquites que a atormentaram, depois, a retinite na adolescência limitara-lhe os voos e, ao passar a quinta década, as artroses fixaram-na ainda mais a casa, onde só saía para o médico e pouco mais.
Apesar de todas as maleitas, mantinha a voz clara da juventude, onde não faltava um tom de fresca inocência, cultivada pelos pais e pela irmã, que não casara prevendo as necessidades crescentes do seu grupo.

- Madalena! Não nos aflijas! Tu já fizeste tantas análises e exames! Queres consultar outro médico?
Já ia no terceiro e todos lhe diziam o mesmo, que tudo não passava de ansiedade.
- Queres um copo de água?, e enterravam-na docemente no primeiro sofá, enquanto aguardavam que o suspiro surgisse.
Nem quando cegara lhe ouviram tão profundos ais. Estranhamente, as queixas pareciam desaparecer depois do jantar, quando se recolhia ao quarto para fazer da rádio a sua companhia daquelas horas.

Há muito que conhecia as músicas, as histórias, os jogos e os locutores de todas as estações, mas, ultimamente, uma voz, num programa em directo, fazia-a pôr a mão no telefone. Era uma voz generosa que lhe despertava eflúvios cósmicos e, se a oportunidade surgia, a obrigava a ligar célere para uma conversa mais ou menos longa, que a deixava a pairar numa estratosfera de querubins e nuvens de oiro, em devaneios de jovem de vinte anos. Depois, adormecia sonhando borboletas e campos de flores, até o comboio do meio-dia a acordar e lhe chamar de novo a agonia de ter aquela paixão.

A dor daquele segredo, derrotou-a num domingo de sol, e atirou-a para uma cama de um hospital onde Deus se comiserou dela e a levou. Então, os homens pegaram naquele corpo inerte e, antes de o devolverem à terra, associaram-lhe uma causa da morte, que poucos compreenderam por ter o nome japonês de um pote de pesca para capturar polvo.
Com algum esforço entenderiam que a causa não fora uma colher a escavar-lhe o fundo do coração, mas os muitos braços que o apertavam.


domingo, 1 de janeiro de 2017

- Vossa Excelência dá licença?


- Vossa Excelência dá licença?, diz a cabeça que assoma à porta do gabinete onde me encontro a fazer registos.
Ficaram no corredor, da noite, trinta e três doentes e, desde as oito horas, já assumi sete novos "laranjas".
- Diga, se faz favor!.
Dá dois passos dentro da sala e, cheio de mesuras, responde:
- É para saber do doente da maca Z!

Olho aquele vulto grisalho, todo vestido de negro. Não observei nenhum doente da sua etnia, e dá-me vontade de lhe perguntar a razão desse seu interesse, mas tenho muito que fazer e opto por uma resposta fácil:
- Está a aguardar resultados de análises! Ainda é cedo para conclusões!
- Obrigado! Sr. Dr.!, e sai do gabinete às arrecuas, como se tivesse estado na presença da Rainha de Inglaterra.

São onze horas da manhã. Os doentes continuam a entrar. Já não há macas, nem lugar para as pôr. O corredor está "atafulhado" de doentes, de bombeiros (que os trazem e os levam), de familiares acompanhantes e de profissionais. Só a custo sei quem é quem.
Planeio. Este, sobe quando houver vagas no internamento. Este, se as análises não estiverem muito alteradas, terá alta. Este outro, se tiver as enzimas elevadas, é para ser visto por cardiologia . Aquele ...

É assim a vida num Serviço de Urgência, em Portugal, onde mais de trinta anos de políticas hospitalocêntricas, levaram a que aqui se trabalhe em situação de catástrofe crónica, como se tudo exigisse um diagnóstico célere, que, cada vez mais, a população exige.
- "Sr. Dr.! Se não tem Cardiologia no Serviço de Urgência, chame já uma ambulância para levar a minha mãe para o Porto!. Foi o que disse o seu cardiologista!", assim ... em tom de exigência, até antes de efectuar a Triagem de Manchester. ... Tudo e já!
O espírito VMER levado ao extremo. Ambulâncias aos gritos de um lado para o outro a transportar idosos, sem vida de relação, na vã esperança de mais umas horas a respirar ou, quiçá, para livrar de responsabilidades quem os envia. Ambulâncias a transportar gratuitamente para o Serviço de Urgência gente que, após a alta, não sabe como regressar a casa, por lhe ter sido levantada uma qualquer hipótese diagnóstica, mais ou menos descabelada, e não ter na proximidade da sua residência um travão a essa deslocação. Gente que abusa do facto de ser "isenta" e, por fim, este e outros como este, que passam por aqui para atrapalhar a geringonça em que os Serviços de Urgência se foram transformando.

Por fim lá chegam o exames do doente em questão. Arrisco uma alta sob medicação, orientado para o médico de família. Outros deixá-lo-iam no corredor, para uma "vigilância" que eu acho mais eficiente no domicílio.
Chamo a família para definirmos, em conjunto, os cuidados a ter e a eventual necessidade de um regresso, caso surjam alterações na evolução prevista. São de perto e põem-se cá em menos de trinta minutos. E, para satisfazer a minha curiosidade, questiono a filha se tem alguma relação de proximidade com o chefe dos ciganos, que perguntou pelo pai.
Não. Mas conhece-o. Há uns quinze dias bateu à sua porta para lhe tentar vender uns casacos de couro. Reconheceu-a na sala de espera e perguntou se tinha familiar "lá dentro" e disse que tinha "passe livre" para entrar.

- E que lhe disse da minha resposta?
- Nada. Só disse que estava muito bem entregue! Que o médico era muito bom!

Ao menos isso, ...

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Lembranças do Olimpo (24)


Há duas semanas que Hipólito não tinha qualquer contacto com o sobrenatural e isso deixava-o inquieto. O que se passava em redor tresandava a terreno. Os dias rotineiros faziam parceria com as notícias que enchiam os meios de comunicação, nacionais e internacionais, onde pontuava a vida mundana de Hollywood, do futebol ou da moda. Quem casava, quem se divorciava ou morria, sem qualquer toque daqueles que os deuses põem nas coisas banais para as transformar em guias para os mortais. Até os doentes morriam previsivelmente de doenças crónicas e tinha-se por garantida a presença diária do presidente da república, na televisão, à procura de “consensos”, ao mais pequeno desequilíbrio social. O Natal enchia as lojas de gente e o “All I want for Christmas is you!” tocava repetidas vezes em todas as ruas.

Hipólito afastou-se do bulício da cidade. Foi até à margem do rio admirar a elegância das taínhas a lutar contra a força da maré, a pensar se esta acalmia não seria aquela que precede os estranhos fenómenos ou as espetaculares intervenções divinas que alteram o curso da História do Homem na Terra, quando Zeus se sentou a seu lado. O médico levantou-se, agradado com a sua presença.
- Oh! Que bom é ver-te! Pensava que te tinhas esquecido de nós!
Zeus, pousou o raio e abraçou-o. -Também folgo em saber que estás bem! Tinha planeado só vir no verão, por causa da gripe, mas o Papa Francisco convidou-me para um Concílio de Deuses e eu não tive coragem de lhe dar uma nega!

- Então, estás a planear um regresso!, sorriu Hipólito, manifestamente feliz.
- Não!, respondeu o deus. – Vim só para não dizerem que sou um ressabiado e que não colaboro, quando é já evidente que a humanidade estar a dar cabo do planeta. O Tema também era apelativo: “Princípios Básicos para as Religiões que formatam o estar da Humanidade - Um novo paradigma”, e achei que a minha experiência podia servir aos deuses mais novos.
- E que tal está a correr esse Congresso, digo ... Concílio?, emendou Hipólito. Zeus não considerou a gafe e continuou:
- Nada bem! Logo nas primeiras sessões começaram as dissidências. O assunto era a "individualidade” e quando alguém defendeu que o homem deveria ser visto como uma abelha de um enxame, com um comportamento essencialmente determinado pelo grupo a que pertence, foi uma salgalhada das antigas!
Depois, como era Natal, o Papa Francisco, mostrou um presépio como símbolo da família. Havias de ver o sururu que se levantou. Que o presépio era só um pedacito da família, que deviam estar ali os irmãos, os tios, os avós, os antepassados e até os vizinhos próximos. O Francisco ainda tentou uma deriva dizendo que ele retratava o fruto do amor entre duas pessoas e que isso era a coisa mais linda que havia, mas já ninguém o ouviu.
À tarde, depois de umas generalidades, decidiu-se que o melhor era entrevistar os CEO das mais importantes instituições da Humanidade e começar pela cultura Ocidental. Ir ao Japão para falar com o Akihito, a Nova York falar com o Guterres e com o Trump, a Londres com a Rainha Elisabeth, a Berlim com a Angela Merkel, à Califórnia com o Bill Gates e a Moscovo com o Putin.
Mas quando se tentou distribuir estas tarefas pelos presentes, um grupo barulhento, desatou a gritar: “O Allahu é que vai!, O Allahu é que vai!”. Estás a ver! Quem queria ir começou a ficar irritado por só falarem naquele. Aos poucos, os deuses, foram saindo “à formiga”, até que o Francisco adiou a sessão alegando que tinha de ir comprar sapatos!

Hipólito estava surpreendido. Sabia que grande parte dos conflitos humanos tinham origem nos deuses, mas nunca pensara que as diferentes interpretações sobre o que é um homem poderia levar à sua exaltação. Zeus cingira a túnica ao corpo como a proteger-se do nevoeiro que entretanto se instalara e Hipólito sugeriu que fossem tomar um chocolate quente a um café que não tinha clientes, àquela hora. - Vais ver como te passa o frio num instante!, e, para estimular a conversa perguntou: - Tu achas que todos os deuses estão a par da evolução tecnológica da Humanidade?
Zeus sorriu. - Claro que estão! O problema não é esse. O problema está na estrutura que têm no terreno. Os Cristãos aceitaram reduzir o número de mosteiros e a passagem de algumas das suas funções para o poder temporal, mas o Islão não quer passar essa influência para um Estado Laico. As madrassas estão instaladas e asseguram emprego a milhares de pessoas. Eles não têm possibilidade de lhes fazer um "upgrade" e torná-los professores de Liceu ou de Universidades. Ia haver muita instabilidade social.

- Mas hás-de convir que, no mundo actual, as histórias dos heróis já não são veiculadas pelo clero. Quem agora dá referências aos miúdos, são os desenhos animados, o cinema e a TV. Soubeste que o Darth Vader foi a figura escolhida para representar o Mal numa das gárgulas da Washington National Cathedral, nos States? Não foi o Diabo! E isso só significa que a catequese foi vencida por Hollywood, pelo menos no Ocidente!
- É um facto!, concordou Zeus. Os personagens religiosos, para uma criança, são menos carismáticos que o Homem-Aranha ou o Skywalker e poucos se interessam pela vida do S. Vicente de Saragoça, mesmo sendo ele o padroeiro de Lisboa. Isto para falar da religião dominante no teu país. Daí que haja quem resista à globalização. Nós gregos, preocupávamo-nos em estimular a imaginação do nosso povo até ao limite. Mas há para aí religiões que funcionam em direcção oposta, porque lidam com populações com muito fraco desenvolvimento intelectual.

- Não tinha pensado nisso!, disse Hipólito, enquanto escorropichava o fundo da taça. - Mas se os fundamentalistas acreditam que conseguem fugir à globalização, estão muito enganados! Ela está para ficar! O melhor é colaborarem no estabelecimento de novas regras, com benefício para todo o planeta e não só para o Homem! Mas mudemos de assunto., sugeriu o médico. - a tua mulher dá-se bem, lá por onde vocês andam?

Zeus sorriu, ajeitou-se na cadeira e chegou-se mais próximo do médico para lhe confidenciar: - Deixou de tomar a pílula! Agora quer engravidar! Adaptou-se completamente àquele estar. Os 14 protões do silício ajudam mais os seres vivos daquele planeta que os 6 de carbono que a vida na Terra usa. Torna-os menos conflituais e sabes como são as mulheres, olham em primeiro lugar para a estabilidade. E por falar nisso!, deitou a mão à cabeça, a lembrar-se de um compromisso. - Fiquei de ir com ela visitar um rio de azoto líquido que existe nas montanhas. E já estou atrasado. Desculpa ter de ir assim tão de repente. Um abraço! , disse e, no mesmo instante, esfumou-se no nevoeiro que assumiu um leve tom azulado.

À porta do Café o empregado perguntou. - Você não estava acompanhado?. Hipólito pagou e respondeu: -Nunca estamos sós. Mesmo que os não vejamos, os deuses estão sempre connosco!.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Diagnóstico de Diabetes Gestacional



SP: Quem inventou esta Prova de Tolerância à Glicose, devia ser decapitado!
HG: É à base de quê, essa Prova? Se for sob a forma de mousse de chocolate, eu ganho!
SP: Basicamente, bebes açúcar puro, em jejum, e ficas duas horas a ver se não cais para o lado!
HG: Estão a testar-te para o Natal! Podias propor ao colégio da Especialidade de Endocrinologia uma Prova Modificada e mais divertida, à base de tarte de chocolate e natas, pudim Abade de Priscos, fatias douradas, baba de camelo ... . Assim se avaliaria a capacidade das pessoas enfrentarem a vida!
SP: Concordo! E ficávamos duas horas a comer e não a esperar!
HG: Entretanto, como só nos lembrámos disto agora, vais mesmo que terminar essa prova em difíceis condições. Lembra-te que a tua família confia nas tuas capacidades lambonas!
SP: Põe difícil nisso! Neste momento só tento não vomitar para não ter de começar tudo de novo! Obrigada pelo incentivo! No Natal quero prioridade!
HG: Não dá para pedires uma fatia de pão de ló, para molhares na calda?
SP: Não me tortures! O que eu dava agora por qualquer coisa para comer!
HG: Diz à senhora enfermeira: Isto parece o Natal dos Pobres! Trazem a calda e esquecem-se do pão de ló! Mas tens de dizer bem alto, como quem está a falar com alguém que está no fundo da sala!. Em que hospital é que estás? Tanto médico na família e não arranjas uma cunha para te darem um pão?
SP: Estou num Laboratório!!!! Ninguém me safa! Já só falta uma hora e ainda estou de pé!
HG: Força! Não desanimes! Se fosse no Hospital Veterinário, de certeza, que já tinhas uma tigela de ração! Eu trabalhei num e nunca vi tais ofensas aos direitos humanos!

Conversa roubada de um whatsapp

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Lembranças do Olimpo (23)



Uma lareira, um sofá aconchegante, um bom livro e um copo de vinho tinto “para senhoras”, faziam-lhe as delícias nas noites de inverno. Este mais parecia um Outono adocicado pelos ventos de África mas, à noite, bem dentro de Dezembro, manda a tradição que haja recolhimento e que as práticas divirjam das de outras estações.

Hipólito lia um livro de História que lhe apresentava os factos sob uma nova perspectiva e, surpreendia-se por não se ter apercebido de outras narrativas possíveis. A História deve ser lida à luz dos valores e conhecimentos da época, mas sendo ela sempre escrita pelos vencedores, há que manter distância, evitando embarcar na deificação dos lideres, que lhes omite os erros, lhes empola as virtudes e lhes fixa os objectivos em função dos resultados obtidos, a que o Acaso nunca é estranho.

Olhou para o copo. Aquela garrafa de Carbernet Sauvignon da Casa Ermelinda Freitas valia bem os nove Euros.
Pôs uma acha na lareira e voltou ao sofá. De repente, lembrou-se que tinha agendado uma consulta com Jó, para essa noite.
Olhou o relógio. Estava quase na hora. Fechou o livro e aguardou.

Minutos depois, a campainha tocou. Era Jó. Vinha diferente. A túnica nova e a barba aparada, tiravam-lhe o ar miserável do primeiro encontro. A pele já não tinha crostas embora se notassem múltiplas manchas cicatriciais descoradas. Nos pés trazia umas sandálias de couro, amarradas em torno do tornozelo.

- Entra, entra! Que não estás vestido para uma noite como esta. Nem umas meias calçaste!, preocupou-se o médico ao vê-lo naqueles preparos, como se estivesse em pleno verão, nas margens do Eufrates.

-Não te preocupes!, respondeu Jó. - Estou habituado ao sofrimento. O Purgatório é uma provação diária!. O frio é o menos. O pior é a humidade! Então quando há nevoeiro …, entranha-se-me nos ossos e fico tolhidinho de todo!
Hipólito conhecia de cor essas histórias do reumatismo e ainda se tentou a explicar-lhe que um ambiente saturado de água dificulta o aquecimento, mas lembrou-se que Jó não possuía conhecimentos básicos de física e conteve-se. Foi ao móvel onde tinha os copos e trouxe-lhe um que encheu de vinho, enquanto o empurrava em direcção à lareira.
- Aquece-te aqui um pouco, que estás com as mãos geladas! Depois diz-me como tens passado!. convidou o médico.
- Melhorzinho!, respondeu Jó. - Principalmente da pele. Ainda futuro muito, mas nada como dantes! Mas o ambiente também não tem ajudado à minha recuperação psicológica!
- Como assim?, perguntou o médico.

Jó olhou-o suspenso na indecisão de contar histórias do Purgatório a um mortal, ainda vivo, e, por fim, desabafou:
- É que há umas três semanas, mudaram-se para o pé de mim os três pastorinhos! Como deves calcular não são a melhor vizinhança. O Francisco e a Jacinta, ainda se suportam. São crianças e fora o barulho que fazem, pouco chateiam! Agora a irmã Lúcia!... , abanou no ar, repetidas vezes, os dedos da mão direita. - É um cromo de alto lá com ele!. … Anda cheia de vaidades a dizer "Eu é que sou santa! Eu é que faço milagres! Eu é que ponho o sol a dar voltas!"... É um espancamento!!!!!. Passa a vida a dizer que, se não fosse ela, o centro do país só era conhecido pela pêra rocha!
O médico confirmou. - Lá isso é verdade! Ela é figura central no turismo religioso! Mas não contava com ela no Purgatório!? Isso é possível??, pasmou Hipólito.

Jó, meteu a mão cabelos adentro e respondeu com enfado: - O Purgatório está cheio de santos. Muitos deles, se aparecessem hoje, eram rapidamente encaminhados para hospitais psiquiátricos. Olha o S. Simeão "estilita"! Esse também anda por lá meio ganzado!
- Dizes que há santos no Purgatório!, insistiu o médico, a tentar tirar nabos da púcara.
- Ui!, respondeu Jó. – São “paletes” deles! Sempre houve muitas pressões sobre o Vaticano para a atribuição do grau de santo a um paisano excêntrico que, por uma qualquer razão, mais ou menos lógica, conseguiu chamar a atenção da populaça e gerar um movimento tal, que a Cúria não tem alternativa senão a de cavalgar a onda, antes que outros o façam. Uns estão identificados como “santos populares”, como o S. Roque, mas nem sempre assim é. A mitologia cristã é muito complexa. Eu sou de outro campeonato. Pertenço ao Velho Testamento. Infelizmente, a minha história de vida foi alterada, para se tornar exemplo de fidelidade, quando, de facto, ela é exemplo do que se não deve fazer quando nos deparamos com dificuldades, que é entrar em pânico e desatar a implorar a ajuda divina. Os árabes têm um ditado que diz “Deus ajuda quem se ajuda!” e os brasileiros dizem que “Pão de pobre quando cai, é com a manteiga para baixo!”. Naquele tempo não se dizia nada disto! Implorava-se a Deus na desgraça. E foi nesse barco que embarquei!

-Vejo que fizeste um esforço para interpretar os erros da tua vida!, confirmou Hipólito. – Apesar de tudo, tiveste sorte, porque Deus deu-te novo gado e novos filhos! Mas, já que me abriste a curiosidade, ao falares do Purgatório, eu gostava de saber se viste lá santos portugueses? O S. Teotónio? O D. Nuno Alvares Pereira? E os mártires de Viana do Castelo – a Revocata, o Teófilo e o Saturnino?
Jó deixou a cadeira e sentou-se no tapete. Hipólito acompanhou-o.
- Temos este hábito de nos sentarmos no chão!, justificou-se. E depois, enquanto passava a mão pelo tecido, anotou. - Belo tapete! É bem macio! É português?
- Sim! respondeu o médico. – É de Beiriz. Cem por cento lã. Em Portugal só se fazem tapetes em dois locais. Em Beiriz e Portalegre. Embora chamem tapete ao que se faz em Arraiolos, aquilo, na verdadeira acepção da palavra, é um “bordado”.

- É engraçado como as palavras perdem significância, quando se divulgam para fora das camadas mais eruditas da população. Um tapete tem uma urdidura muito diferente da de um bordado. Mas, respondendo à tua pergunta sobre os santos portugueses, também aqui as palavras ganharam diferente significância e a população começou a chamar santo a todos os que, de algum modo, se identificaram com o seu sofrimento, sem qualquer aval da cúria romana. É assim que aparecem os “santos” mártires, os “santos” bispos (também chamados doutores da igreja), e santos como o Nuno Álvares Pereira, que de “estratega e génio militar”, aos 64 anos, depois de enviuvar e ter perdido os filhos, se tornou “humilde monge”, no imponente Convento do Carmo, por si mandado construir, em 1389. Só foi reconhecido beato em 1918 e santo em 2009, depois da sua suposta intervenção na recuperação «milagrosa» de uma úlcera de córnea provocada por óleo de fritar, que deveria ter demorado um ano a sarar e que sarou em apenas três meses.

- Como é que sabes isso tudo?, inquiriu Hipólito. – Podes ser de outro campeonato, mas estás bem actualizado!
Jó sorriu. – Foi um acaso!, explicou. – Como a Lúcia, no meio das suas vaidades se comparou com o Santo Condestável, dizendo que ele quase não tinha devotos, eu fui ver quem era o personagem. Depois, como tu vives em Viana do Castelo, procurei os santos dessa região e só encontrei o São Teotónio. Quanto aos mártires por que perguntaste, devem ser uma invenção. Uma coisa como as antigas relíquias.

Agora era a vez de Hipólito sorrir. – Fiquemos por aqui, senão ainda acabamos a falar dos 14 prepúcios de Jesus que circulavam pela Europa na Idade Média! Se estás melhor, vais manter o tratamento e aguardar a consulta de psiquiatria, que eu agendei para o início do ano!
Levantaram-se. Hipólito foi à cozinha e trouxe um pequeno embrulho que lhe meteu entre as mãos. – Tens aqui uns sidónios, da Confeitaria Flôr, para a viagem de regresso. Vais ver que são dos melhores que aqui se fazem! Não comas tudo de uma vez, que eles também são bons no dia seguinte.
Jó agradeceu. – Deixas-me sem jeito! Não pago a consulta e ainda por cima, me dás prendas!
- Quando ficares bom, se te lembrares de passar por cá, traz umas costeletas de carneiro, para degustarmos em conjunto e fazermos as honras a uma pomada que eu ali tenho para as circunstâncias especiais.

Abraçaram-se. A noite estava fria e aceleraram as despedidas.
- Até uma próxima!, respondeu Jó, desfazendo-se em fumo.
- Vai com calma, que o mundo não acaba amanhã!, disse Hipólito, enquanto pensava: A eternidade é uma chatice!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Certidões de Óbito Electrónicas


Todos gostamos de ser bem tratados.
No local de trabalho, onde passamos mais de metade dos nossos dias, tal adquire grande significado.

Para a minha actividade profissional, no Hospital, abro diariamente o SClínico e sou recebido com indiferença!

Só quando me ligo à capital, para passar uma Certidão de Óbito, é que me dão as boas-vindas!
Obrigado Lisboa!

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

domingo, 4 de dezembro de 2016

Lembranças do Olimpo (22)


Acendeu a televisão. Anunciava-se a morte de Fidel de Castro e o médico anotou o corropio de comentadores e as frases de circunstância - que só a História o julgará, que era uma figura controversa, singular, que tinha um sonho, que … . Desligou ao quinto, sem esperar pela análise de Marcelo que, a julgar pelas fotos da sua visita, um mês antes, o deve ter surpreendido com uma qualquer “bavaroise”.
Pegou no smartphone e ligou para a mulher. Que não demorava! Que adiantasse o jantar! Que havia sopa no frigorífico, mas que fizesse um arroz e uma omeleta ou então que fosse à churrascaria buscar qualquer coisa já confeccionada!
Foi à cozinha, pegou numa tábua de queijos, numa garrafa de vinho e num pão tradicional do Alentejo. Foi para a sala, pôs a tocar, no leitor, o Álbum de Chopin de Lang Lang e sentou-se a petiscar.

Foi nessa altura que tocaram à porta. Um homem escanzelado, com múltiplas crostas na face, apareceu no intercomunicador.
Hipólito, perguntou: - Quem és, e o que pretendes?
-Tem calma! Eu necessito de ajuda! Já deves ter ouvido falar de mim. Sou Jó!
- Jó????, exclamou o médico. - O da Bíblia?
- Sim! Esse mesmo!

Foi à porta. Olhou-o de alto a baixo. A tez escura, a longa barba, a túnica rota, por onde saíam dois braços com inúmeras pústulas, o sotaque e a linguagem corporal, davam coerência à sua afirmação e Hipólito não hesitou e convidou-o a entrar.
- Tens uma história de vida do mais bizarro que há!, disse-lhe enquanto empurrava a porta. - Em que te posso ajudar? Pensei que estavas na maior e não nesse estado lastimoso. Ao fim e ao cabo voltaste a ter património, família e saúde, depois de Deus te ter tirado tudo, naquela aposta descabelada com o Diabo!

Jó, fez-lhe um salamaleque e entrou, enquanto explicava:
- O que se escreveu sobre mim não corresponde ao que se passou. Já nessa altura os narradores confabulavam para tornarem as histórias apelativas. A verdade é que foi quando adoeci que tudo começou a correr mal.

O médico, ofereceu-lhe uma cadeira em frente à sua e foi à cozinha buscar outro copo, na esperança de que aquele Quinta da Bacalhoa fosse fermento para pormenores que dessem maior credibilidade às suas afirmações. 
- Estás então a dizer que foi a doença que levou a tua casa à desgraça?
- É a pura verdade! Já rebobinei o filme da minha vida vezes sem conta e, depois de ter lido muita coisa, cheguei à conclusão de que sofro de uma Perturbação da Ansiedade Generalizada!, respondeu Jó, contristado. Depois, bebeu dois goles de vinho, deu um estalo com a língua em sinal de aprovação, e continuou: - Como sabes, nasci numa família rica, na terra de Uz, que hoje faz parte da Jordânia. Herdei um património enorme e, nos primeiros tempos, até o acrescentei! suspirou, fez uma pausa como a relembrar o sofrimento passado, e continuou: - Grande nau, grande tormenta! Todos os dias havia problemas! A certa altura, dei por mim a "empreender" neles, sem lhes achar solução e a passar noites em claro. Em desespero, virei-me para Deus a pedir piedade, na esperança de uma ajuda, mas quanto mais orava, mais desgraças atraía e, em pouco tempo, eu, que era um dos homens mais ricos do oriente, perdi o gado, a gente que estava ao meu serviço e até os filhos. Por fim surgiu-me a doença da pele e fiquei com este aspecto desgraçado.

Hipólito mediu o pobre homem. Aquela história bíblica, por mais que as exegetas se esforçassem por lhe dar um significado actual, não tinha pés nem cabeça. Um Deus a apostar com um Diabo a fidelidade de um crente, a ponto de permitir que este lhe desse cabo da vida, era mau demais para um ser misericordioso. A interpretação que Jó dava, a de um homem atormentado por crises de pânico, que o tornam num farrapo, era uma explicação muito mais razoável para aquela situação.

- Jó!, interrompeu o médico, quando lhe chegava a cesta do pão. - Então não são “inverdades”, como agora se diz, as tuas constantes preces a Deus e a tua exemplar fidelidade?!
- Foi o desespero! Nessa altura, eu acreditava no poder da oração e que, se eu apelasse a Deus, ele realizaria maravilhas e ajudar-me-ia a superar todas aquelas dificuldades. Só mais tarde é que entendi que elas não eram reais, mas resultantes do meu problema de saúde.
- Mas uma vez que já morreste, o teu tormento devia ter acabado. No Céu é suposto haver um gozo pleno e eterno, ouvindo música celestial e bebendo o leite e o mel da contemplação divina.
- Não, Hipólito!, respondeu célere Jó. - Eu vivo no Purgatório! Ali, é como na Terra. Mesmo quando lá estamos há séculos, como eu, e temos direito a recreios prolongados e licenças precárias, há tribulações frequentes!

- É curioso! Eu pensei que o Papa João Paulo II tinha fechado o Purgatório em 1999!, lembrou o médico.
- Como é que podia!, exclamou Jó, com alguma impaciência. - São biliões de almas que lá estão! Para lhes arranjar um outro destino, é preciso tempo. Há muita burocracia a cumprir. Lembras-te quando surgiram os movimentos que criticavam o atendimento dispensado nos Hospitais Psiquiátricos, acusando-os de promoverem isolamento, reclusão, abandono, estigmatização e tratamentos inadequados? Já analisaste os resultados do que se fez para que esses doentes passassem para o ambulatório? Lá ia ser pior! Uma coisa são as intenções e outra é pôr a obra no terreno!

Hipólito pasmou com a actualização de Jó.
- Vejo que estás a par do que se passa na psiquiatria portuguesa. Mas conta que a demografia e a crise também não nos têm ajudado. As famílias estão cada vez mais pulverizadas e sem capacidade para tratar dependentes.
- Entendo! Respondeu Jó. – Mas apesar de tudo há respostas! No Purgatório só há produtos “naturais” e não há apoios sociais.!
- E permitem entrada de medicamentos, vindos do exterior?, sondou Hipólito.
- Quanto a isso, não há problema! Até droga se pode levar! Na admissão há quem anote, para o "deve e haver" do Juízo Final! Mas não há limites!


Jó ajeitou-se na cadeira, puxou de um caco de louça e começou a raspar uma das crostas do antebraço.
- Está quieto e não agraves essas lesões!, levantou-se o médico, para lhe retirar o fragmento da mão. - Tens uma neurodermite infectada e ainda te pões para aí a escarafunchar!? Confirmo o teu diagnóstico. Vou ver se tens alguma outra doença concomitante, mas depois vou ter de te orientar para psiquiatria! e, a talho de foice, ainda intrigado com aquela aparição, perguntou: - Quem é que te aconselhou a vir ter comigo?

- Foi o Hércules. Encontrei-o em Petra, numa das minhas saídas precárias. Procurava dois cavalos que se tinham tresmalhado. Ficámos um tempo à conversa e ele falou que andava muito melhor desde que tu lhe mudaste a medicação. Então, dispus-me a vir até aqui na expectativa de me ver livre desta dor existencial que me faz amaldiçoar o dia em que nasci!
- Ainda bem que não entraste em depressão e mantiveste essa Fé, senão a coisa ainda era pior. A filha do Onassis também tinha tudo, como tu, e suicidou-se aos 37 anos!
- Ouvi falar!, respondeu Jó. – Talvez por temor a Deus, sei lá, recusei sempre o suicídio, mesmo quando a minha mulher me incentivava a fazê-lo. Mas cheguei a pedir a Deus que soltasse a sua mão protectora e me eliminasse.
- Ok!, já percebi as tuas angústias! Acaba o vinho e vamos ali para baixo, para eu te fazer o exame físico, não vá teres hipertensão ou outra qualquer maleita, que possa interferir com a medicação que te quero propor!

Hipólito deu-lhe a mão para que não tropeçasse nos dois degraus, que distavam da sala de estar. Depois, mediu-lhe os sinais vitais, viu-lhe a orofaringe, auscultou-o, palpou-lhe as cadeias ganglionares, deitou-o para uma palpação abdominal e fez-lhe um toque rectal. No fim concluiu. -Vais ter de fazer umas análises, uma radiografia ao tórax e um electrocardiograma. Entretanto inicias um antidepressivo em doses baixas associado a um ansiolítico, mais um antibiótico para essa estafilococia que tens na pele. Quero ver-te daqui por uma semana e, nessa altura, espero já ter um agendamento para um psiquiatra! Queres outro copo de vinho ou preferes que te faça uma sandes para a viagem?

Jó recusou ambos. Estava feliz na expectativa de tão bons resultados como aqueles que Hércules obtivera, e isso era um bom augúrio, constatou Hipólito.
Despediram-se. Jó deu três passos e um salto e, qual coruja, desapareceu na noite como um fumo, sem um ruído, quando, ao longe surgiam os dois faróis do automóvel da mulher. - Já não era sem tempo!, exclamou.  

sábado, 19 de novembro de 2016

Conversa de enfermaria


- Bom dia, Sr. Dr.! Está muito ocupado?
- Bom dia! Dona Maria! Esteja à vontade. Em que lhe posso ser útil?
- É que eu precisava de uma vassoura!
- Uma vassoura? Para quê?
- Para varrer umas coisas ali ao fundo. A parede ganhou salitre e aquele pó cai para o chão e suja tudo! Mas não queria uma vassoura de cabo partido. Queria uma vassoura com ele inteiro.
- Está bem! Eu vou ver o que se pode arranjar!

A dona Maria tem setenta anos e um tumor cerebral. Embora tenha melhorado, tem frequentes períodos de confusão.

- E a dona Maria tem passado bem?, pergunto, para avaliar alguma necessidade mais urgente.
- Esta noite dormi muito mal. A minha mãe veio dormir comigo. Apareceu sem dizer nada e meteu-se na minha cama. Pensei “olha, veio!”, e ... lá ficámos. A meio da noite acordei e ela não estava ao meu lado. E pensei: “é porque foi ao quarto de banho fazer xixi!”. Como não vinha, puxei aquela coisa que põe a luzinha acesa e fui à procura dela. Dei uma volta sem a encontrar e pensei: “já deve ter ido para a cama!”, mas quando lá cheguei, os lençóis estavam todos emaranhados e ela não estava. Então, fui assim, com a mão … a ver, e veio-me uma cara com um nariz muito grande e uns pelos grossos e feios. Era aquele que anda ali, que se foi meter na minha cama! (e apontou para a enfermaria, na direcção de um idoso pouco sociável que, de vez em quando, é preciso sedar para não bater nos outros), e continuou: - Como não me ia meter na cama com ele, fui por ali adiante, à procura de uma cama vazia. Quando encontrei uma, deitei-me. Mas dormi mal! A cama era muito alta e eu não consegui metê-la para baixo. Tive de puxar uma cadeira para subir.

- Dona Maria! Venha comigo, que eu levo-a ao seu quarto e ensino-lhe a baixar a cama. Pelo caminho, vamos ver se encontramos alguém que lhe possa dar um pouco de atenção!
...

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Lobo Antunes

video
João Lobo Antunes (1944-2016), médico, neurocirurgião, humanista. Um homem que atingiu o topo, sem deixar de ter os pés na terra. Alguém que nos fez sentir desconfortáveis com as suas inquietações. 

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Sermão da Montanha


Felizes os pobres de espírito, porque confiam no que lhes dizem;
Felizes os mansos, porque se conformam com qualquer coisa;
Felizes os crentes, porque a ilusão os cega da realidade;
Felizes os que trabalham das nove às cinco, porque não têm tempo para pensar;
Felizes os que têm SportTV, porque se podem alienar com o futebol.

Bem-aventurados os que vivem no mercado negro, porque os impostos não lhes pesam;
Bem-aventurados os que têm dinheiro em offshores, porque podem ser reis nos países pobres;
Bem-aventurados os que vivem das heranças, porque têm tempo fora do trabalho;
Bem-aventurados os robustos, porque secundarizam os custos da Saúde.

Regozijai-vos e exultai, porque grande é o vosso galardão!


Mas ai de vós, que sois pobres! Porque pouca será a vossa consolação;
Ai de vós, os famintos! porque vos estarão reservadas as sobras deste mundo;
Ai de vós os que choram! porque haveis sempre a lamentar não terdes tido infância;
Ai de vós, os aflitos! porque nunca sereis consolados;
Ai de vós, os perseguidos! porque nunca alcançareis misericórdia;
Aí de vós, os que têm problemas ecológicos! porque ireis assistir à derrocada do pouco que conquistastes;
Aí de vós, os que amam a paz! porque ireis ouvir mais trombetas a soar.

Digo, porém, a vós que me ouvis:

Vigiai os vossos inimigos e atentai aos que vos maldizem e, se algum vos bater numa face, dai-lhe um pontapé; e ao que te rouba a capa, atira-lhe um paralelo;
Não empresteis a quem não esperais receber; e ao que vos pede, mandai-o trabalhar;
Não temais ser julgados, porque há sempre um hiato na lei a explorar;
Anotai com pormenor o argueiro no olho de vizinho, pois pode ser esse o argumento para o vencer.

E ... como não se colhem figos dos espinheiros, nem dos abrolhos se vindimam uvas, estai atentos a todos os pomares, e convencei-vos que toda a grande transgressão será perdoada e o pecado coberto, porque só os ímpios prosperam neste mundo.

Ámen

domingo, 6 de novembro de 2016

Lembranças do Olimpo (21)


Hipólito regressou a casa tentando identificar as árvores por que passava. Carvalhos, castanheiros, faias, salgueiros, cedros, medronheiros, bétulas, eram fáceis. Outras obrigavam-no a parar. Pena não ter trazido o livrinho das autóctones, pensava, embora, mesmo com ele, algumas, por serem de outras regiões ou lhe faltarem elementos distintivos, como frutos, flores e até folhas, ficassem para outras alturas.
Desde pequeno que a natureza lhe despertava curiosidade, fossem seres animados ou rochas. Lembrava-se ainda do espanto com que vira, pela primeira vez, os rifts do fundo do mar que estão na origem da tectónica das placas e também de um livrinho sobre Darwin que o tirara das limitações das crenças religiosas, mas fora o funcionamento do corpo humano, na saúde e na doença, que acabou por vencer e orientá-lo para a profissão.
Embora a teoria lhe interessasse, era pela prática que se media, sem se impressionar com quem recitava de cor as mais recentes “guidelines” e fugia da proximidade dos doentes, nem com quem entendia os actos médicos, como actos de piedade, e escondia a incompetência debaixo de um discurso pseudo-ético-religioso, parasita do trabalho dos pares. Admirava, acima de tudo, um diagnóstico difícil, principalmente se feito com recursos limitados, a que se seguia uma terapêutica eficaz. Era aí que punha a tónica da profissão, embora nunca descurasse o respeito por quem sofre o infortúnio de uma doença.

Chegou a casa cansado. Procurou no frigorífico uns restos que pudessem servir para um almoço tardio, aqueceu-os e acompanhou-os com uma cerveja gelada. Depois estendeu-se na sua Lounge Chair, e adormeceu. Foi nessa precisa altura que Zeus lhe apareceu.

- Que é feito de si, meu amigo!?, perguntou Hipólito, satisfeito, enquanto se endireitava na cadeira e lhe oferecia o "ottoman". – Há meses que não sei nada de vós! Como é que se dão pelo vosso novo planeta?
Zeus sorriu. Já não se vestia à antiga, com o quiton branco. Agora usava calças e uma jaqueta em couro duro, azul-cobalto de tons iridescentes, qual exosqueleto de um insecto, que em nada lhe limitava os movimentos. Na mão mantinha o raio azul e na cabeça os longos cabelos e a barba não escondiam quem ele era.
- Estamos todos bem e activos!, respondeu. –Deixámos de ser deuses de uma só espécie e agora somos deuses de todos os seres vivos daquele planeta. É curioso como aquilo que parecia ser uma carga de trabalhos, nos deu tranquilidade. Já não temos só a forma humana. Agora, ao aproximarmo-nos das diferentes formas de vida, assumimos as suas configurações e tentamos entender-lhes as angústias e expectativas, para as ajudar a aceitar limitações e assim não serem vítimas dos seus desejos. Olhe! O Dionísio, que era Deus do vinho e da vegetação, agora virou entomologista e passa a vida à volta das abelhas e das formigas. Qualquer dia até se esquece do que são uvas. O Eros, de Deus do Amor e do Desejo, agora, interessa-se por harmonizar os movimentos dos asteróides para que as colisões não sejam só obra do Acaso, e o Ares deixou as guerras e agora dedica-se ao jornalismo. Está entusiasmadíssimo com a capacidade de criar movimentos populacionais com as notícias, sejam elas verdadeiras ou falsas. Diverte-se imenso. No outro dia noticiou lá o “Calcitrin MD Rapid” como um medicamento “muito bom para os ossos”, esquecendo-se que aqueles seres têm por base o silício e não o carbono. Muito nos rimos! … Está um “bem-disposto”! Mas a maior parte das notícias que cria, são mais dirigidas a fabricar futuros que a registar o passado. Tem tido imenso sucesso! Agora anda a dedicar-se à necrologia. Sempre que morre um ser vivo, ele inventa-lhe um passado cheio de dignidades, que possa servir de inspiração aos outros seres da sua espécie, para estimular vidas consonantes com os outros seres daquele planeta. Qualquer dia perdem a angústia com a morte e deixam de se virar para nós!, sorriu, enquanto dava um jeito aos cabelos que lhe caíam para a frente dos olhos.

- Pelo que contas, não vejo que estejam a perspectivar um regresso à Terra!, perguntou, como quem afirma, o médico.
Zeus levantou-se, passeou um pouco pela sala, como a admirar os bibelots que repousavam sobre os móveis e continuou, ignorando a interrupção.
- Até a minha mulher está diferente. Ela tinha obsessão por tudo o que se relacionava com sexo. Se eu saísse para fora do seu olhar, ficava inquieta. Tinha uns ciúmes de morte! Naquele planeta fomos obrigados a rever o nosso conceito de “individualidade”, pois o seu sistema combate os extremos, impedindo, em todas as espécies, os muito ricos e os muito pobres, sem contudo impedir que cada um se possa realizar de acordo com as suas potencialidades. Até as grandes árvores têm de deixar passar a luz para que as mais pequenas possam crescer e, se já forem muitas a ocupar um espaço escasso, têm de aceitar não produzir mais sementes.
O Acaso é o único que pode fazer o que quiser, porque é de “outro campeonato”! Naquele planeta é ele o responsável pelos acidentes, dos domésticos aos provocados pela actividade tectónica (tsunamis, terramotos e vulcões). O Hefesto teve de se conformar e, agora, dedica-se à microbiologia. O seu maior trabalho é convencer as bactérias mais patogénicas a só atacarem quando os seres vivos morrem, por velhice ou por obra do Acaso.

- Interessante!, confirmou o médico. – Sinto no teu falar grande satisfação com o que ali encontraste. Parece ser tudo muito “cool”! Mas está-me aqui a parecer que, se a coisa se passar sempre como descreves, daqui a uns anos, vais achar esse planeta muito parado e vais ter saudades da Terra onde estão sempre a acontecer coisas novas. A não ser que o Acaso não durma e faça a vida negra a todos os seres vivos!
- Para já está a ser bom! É como nos Hotéis “cinco estrelas”. O horário de trabalho é de vinte horas por semana e mesmo assim o maior problema é o desemprego. É necessário inventar muitos factos para os manter entretidos a conversar uns com os outros, mas nisso o Ares tem-se mostrado um Às!
Olha, Hipólito! Vou ter que voltar. O Dionísio não está a conseguir fazer com que a lagarta mineira deixe de atacar os citrinos, e ele não frequentou o curso de aplicação de produtos fitofarmacêuticos. Vou ter de o ajudar. Fica bem!
- Até uma próxima!, respondeu o médico. – E volta sempre! Dá os meus cumprimentos a toda essa malta olímpica e um abraço especial à tua mulher, que é uma santa, que mais não seja por te aturar!

E, dito isto, Hipólito acordou com a sensação de estar envolto numa nuvem com um leve cheiro a enxofre. Esfregou os olhos e olhou para o relógio. Eram quase sete da tarde e a mulher ainda não tinha chegado.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Mário Viegas - "Os ais"



"A cantiga dos ais" de Armindo Mendes de Carvalho - (1927-1988),

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Humm Hamm


-Olha lá! Hás-de ver aquilo ali da cara da tua mãe. Tenho posto muito creme, mas está cada vez pior!
-OUTRA VEZ!?
Confesso que reagi assim. Volta meia volta lá vem a conversa da lesão da face. Hoje tem, amanhã não é importante…, afinal tem, afinal não era nada e já está melhor…
Eu sempre fui olhando e o aspecto nunca me impressionou. Mas desta vez saquei do telefone e logo ali agendei uma consulta de Dermatologia para 5ª feira, no hospital privado. Afinal tem que se pôr a render a ADSE. Não fico a dever favores a ninguém. poupo uma ida ao Hospital público e acabo com esta cena de uma vez por todas.
-Humm, Hamm, Humm! Achas mesmo que é necessário?
- Agora vai. Queiras ou não!

Dois dias antes da consulta:
-Olha lá! Afinal não é necessário levares a tua mãe à consulta de Dermatologia. Tenho posto bastante creme e já quase não se nota.
-Agora vai!, respondi, seca como só eu sei ser.
-Humm, Hamm, Humm, Hamm! É que ouvi um programa na televisão sobre infecção hospitalar. Não sei se sabes mas morrem mais pessoas de infecção com bactérias hospitalares do que de acidentes de automóvel e eu não quero ir ao hospital e vir de lá mais doente porque os profissionais não lavam as mãos e não mudam de roupa. Isto nos hospitais está muito mal! Eu ouvi e acho uma pouca vergonha, ...blá, blá…
Vesti-me de paciência e dissertei sobre infecção hospitalar…
- Hummm,…Hammm,…Hummm! Bem, vamos lá… se tu dizes!.

Chegado o dia e, bem antes da hora marcada, chegamos ao hospital para termos tempo de procurar o local e ultrapassar todos os obstáculos previsíveis, desde o estacionamento até as burocracias inerentes ao registo.
Sentados na sala de espera tentei a minha sorte:
- Entro eu ou entras tu com a mãe?
- Humm, Hammm, Humm! Porquê? Não podemos entrar os dois? Hummm, Hammm, Humm! Está bem vai tu! Mas eu quero saber tudo!
Estratégia definida e já em castelhano sonoro se ouvia: Maria Antonieta

A dita levantou-se pesarosa como se fosse para o cadafalso. Ombros tombados, sobrancelhas caídas a acompanhar o arco descendente das comissuras labiais A carteira pendia do braço prestes a despenhar-se. Olhos em alvo, como só ela sabe fazer, mal cumprimentou o médico que, no seu melhor castelhano, a mandou sentar.
-Entonces de que se queixa?, perguntou, falando muito alto e com a boca aberta, tal como nós fazemos quando falamos castelhano.
Sem falar, apontou com a unha do indicador, impecavelmente rubra, a lesão da face… O olhar mantinha a gravidade no acto…olhos em alvo.
De um pulo o Doutor saca da lupa e assesta-a na lesão e, de imediato, grita:
-No tem problema! Es benigno. No es maligno, nem nunca va a ser! No tem problema! Pode descansar! Se quiera podemos sacar, mas fica una mancha! Es igual!
Agora já os olhos da paciente retomam a linha do horizonte e ainda de lábios cerrados, levanta os dedos unidos que abre e fecha à face do doutor.
-Tienes medo!? No tengas! No es nem va a ser malo!.
Nestes 3 segundos estava concluída a consulta mas ainda consegui pedir ao doutor para repetir ao meu pai as boas notícias. Que sim, mas fez-me sentir que teria de ser rápido.

Lá o trouxe até ao consultório e quase consegui que não se sentasse. Repetiu então o médico a boa frase, no mesmo tom de voz, como se fossemos todos portugueses a falar espanhol com a boca aberta.
-Humm, hamm, hummm, hamm! Eu tenho posto bastante creme…
-Vamos lá que está tudo bem!, disse eu enquanto o levantava para o empurrar porta fora.
-Hummm, hammm! O sr. dr. não é português?
-No! Espanhol!
E já com o corpo fora do consultório – Hummm, Hammm! Então quer dizer que não é psoríase?? ... Ainda bem!


Texto de Helena Gomes (
my sister)

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Piloto



O Piloto apareceu na minha pensão em Aveiro. Entrou a cavalo e passeou-se pelos corredores com a cabeça baixa, para não ser reconhecido, como se um tipo com ar de caubói (até lenço no pescoço trazia) pudesse passar despercebido. Chegou ao fim do corredor (eu estava no piso de cima, consegui ver tudo com clareza), olhou cabisbaixo para os lados, deu meia volta, atravessou novamente o corredor vagarosamente e saiu pela porta por onde 3 minutos antes havia entrado. Não houve azáfama, toda a gente o viu e todos continuaram seu ritmo lento de se mover pelo espaço.
Enquanto me dirigo para o quarto (é capaz de ser boa ideia antes que isto dê para o torto) constato que estou a ser preconceituosa. É que eu devo ser a única portuguesa que não sabe a cara do piloto (estou fora do país e sou mais de ouvir as notícias) e em Portugal os 'most wanted' não aparecem nos pacotes de leite. Estou claramente a fazer a generalização piloto, caubói, Malboro man, é tudo a mesma coisa - nunca fiar!
Quando chego ao quarto, reparo que infelizmente este não tem paredes, mas antes umas grades baixas, estilo coreto, e que tem até a forma arredondada. Reparo também que, como é costume, é um quarto partilhado e assim, a grosso modo, estamos lá cerca de 15 e um cão. Surpreendentemente, não há camas. As única peças de mobiliário são uns bancos espalhados, aleatoriamente, pelo espaço vazio. Desvio com jeitinho o cão, e sento-me ao lado do velho que deve ser seu dono. Olho à volta. Está tudo como eu, à espera que aconteça alguma coisa, à excepção do cão que, depois do meu empurrão, já encontrou novo espaço e está novamente enrolado a dormir. É então que vemos o caubói subir as escadas. Desta vez sem cavalo, mas exactamente ao mesmo ritmo pesaroso. Esta coisa de não haver paredes dá para os dois lados - se por um é óptimo, porque o vemos mal ele chega ao primeiro piso, por outro ele também está de olho em nós mal põe o pé no último degrau das escadas. Obviamente, ou não fosse eu uma tipa cheia de sorte, ele dirige-se para o meu quarto. As pessoas começam encostar-se umas às outras. Uma mãe abraça uma criança pequena. Eu encosto-me um pouco mais ao cão que apenas levanta a orelha e a pálpebra direitas e me olha de soslaio como quem diz não sei o que se está a passar, mas já estás a abusar. Olho para o velho - olha para os sapatos rotos sem vontade nenhuma de daí tirar os olhos. Tento elaborar, sem levantar sobrolho, um discreto plano de fuga, mas este é sempre mais difícil em áreas pi ao quadrado, sem esquinas obscuras ou cantos refundidos, e, ainda antes ainda de me imaginar a fazer uma pirueta e um mortal à retaguarda por cima das grades do quarto, ouço uma voz metálica a chamar baixinho, com sotaque estranho 'Helêna'. Pára-se-me o coração. Já fui! É sempre a mesma coisa! Olho para o caubói e reparo que também ele está com um ar perdido, à procura da origem da voz. Não me mexo, pode ser que ninguém saiba que me chamo Helena ou que haja outra 'Helêna' na sala. Entretanto, o 'Helêna' ouve-se outra vez, mais forte, e, desta vez, toda a gente olha para mim.
Fecho os olhos com força e torno-me religiosa por uns segundos a pedir a dEUS que não me mate já. Abro os olhos e, felizmente, acordo.
A senhora R chama outra vez o meu nome pelo intercomunicador. Salto da cama e corro para a lhe dar o braço. São 6 da manhã na Inglaterra. Tudo certo. dEUS existe e safou-me desta.



Texto de Helena Ferreira Gomes (
my daughter)