sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Razões


 ... mas há razões. Se as procurarmos encontramo-las sempre. Razões para explicar qualquer coisa nunca faltaram, mesmo não sendo as certas. São os tempos que mudam, são os velhos que em cada hora envelhecem um dia, é o trabalho que deixou de ser o que havia sido, e nós que só podemos ser o que fomos, de repente percebemos que já não somos necessários no mundo, se é que alguma vez o tínhamos sido antes, mas acreditar que o éramos parecia bastante, parecia suficiente, e era de certa maneira eterno pelo tempo que a vida durasse, que é isso a eternidade, nada mais que isso.

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in "A Caverna" de José Saramago

sábado, 9 de janeiro de 2021

Trump (epílogo)

Adenda de 20/01/2021


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terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Carta aberta aos Reis Magos

Caríssimos: 

Não sou dado a postais de Boas Festas, mas como ainda escrevo cartas e, há uns anos, escrevi uma ao S. José, não queria que pensassem que não vos tenho na devida consideração.
Neste mundo onde o individualismo impera, o vosso exemplo é de louvar. Andar 160km em busca de José e de Maria foi obra, principalmente vendo-vos como vos vejo e não como a tradição da religião cristã vos relata.

Tenho-vos como amigos de longa data de José que suspeitaram que só um grande perigo os faria ausentarem-se assim de casa. Consigo imaginar-vos a conversar fraternalmente na sinagoga num sábado de manhã, unidos por aqueles laços que nascem na juventude e, vai-se lá saber porquê, nos acompanham até à morte, mais fortes que todas as outras que vão aparecendo na vida. Um Baltazar ex-aprendiz da carpintaria de José, já estabelecido do outro lado da aldeia, um Belchior negociante de tecidos e um Gaspar dono de um grande rebanho de carneiros e camelos, embora nada que o comparasse a um Job.

Vejo-vos a aconselhar José, quando ele decidiu dar um rumo decente ao drama de Maria, grávida sem pai conhecido. Primeiro a tentar demovê-lo para evitar as críticas dos essénios e fariseus que obrigavam a que a "adúltera fosse lapidada e o filho do pecado morresse com ela", depois a aceitar a sua decisão e a empenharem-se em minorar os riscos de ele ser considerado apóstata e ter o mesmo destino. Mas a vida é como é, e cada um sabe de si e Deus de nós todos e, para vosso espanto, José deixou a casa a meio da noite e meteu-se ao caminho com Maria em cima do burro, pouco mais levando que a roupa do corpo e um taleigo de pão, sem dar satisfações aos filhos e às mulheres da casa num “é agora ou nunca!” para os não comprometer como cúmplices.

Imagino-vos, nos primeiros dias, à espera de um regresso, depois a discutir o que fazer face à ausência prolongada, sem poder contar com as autoridades para uma busca mais eficiente e, por fim, a decidir meter pernas ao caminho, sabendo unicamente que ele era para sul. Depois, a carregar os camelos com roupa limpa, alimentos para a viagem e para o casal, uns apetrechos para cozinhar e as fundamentais “essências” para uma eventual maleita, que nas provações de um parto, há que purificar o ar para afastar miasmas e demónios. Depois os dias pelos caminhos da Galileia e da Samaria a perguntar a este e àquele se viram ou ouviram falar de um velho, de uma rapariga e de um burro, até ao chão da Judeia, onde, no caravançarai de Belém, alguém vos fala desse casal estranho que por ali tinha passado e seguido para a montanha.

Vendo o sol pintar de vermelho o azul do céu, apressastes o passo, quando ao longe a chama de uma pequena fogueira foi a estrela que vos fez chegar um pouco antes de José se recostar naquele buraco na rocha de não mais de dez côvados.
-José! José!, chamastes, à uma, repetidas vezes e fostes recebidos com o sorriso de uma frágil Maria segurando um pequeno embrulho onde faiscavam uns olhitos assustados com os gritos eufóricos de José.
-Abençoados sejam! Disse, com as lágrimas nos olhos. - Como é que deram connosco? E porque é que se incomodaram? Obrigado, mil vezes, que isto aqui tem sido duro! Primeiro o trabalho de parto, que foi longo. Valeu-me a experiência dos meus outros filhos, senão não conseguia levar o barco a bom porto. A Maria é uma valente! Maria, junto à fogueira, tentando aquecer Jesus de todos os lados, levantou os olhos em agradecimento, também eles marejados de lágrimas. – Depois esta gruta sem nada, a obrigar-me a andar acima e abaixo a trazer água, paus para a fogueira e alguma comida, que isto são terras onde nem os cardos crescem!

Abraçaram-se longamente e José, temeroso, perguntou: - Os fariseus comentaram a nossa saída da aldeia? Foi alguém lá a casa fazer perguntas?, e foi Belchior que o descansou antes de dar os panos a Maria, que Jesus não via roupa limpa fazia mais de uma semana. - Está descansado José! Não foi lá ninguém, nem se falou mais mal de vós que o costume. Mas ainda bem que o parto não aconteceu lá, senão ao constatarem que a criança nasceu perfeita demais para as menos luas, punham-se de novo a especular. Amanhã levamos-te para Belém, para a Maria recuperar e, na próxima lua cheia voltas a casa que ninguém te vai perguntar a idade da criança.
Gaspar descarregou os camelos e, apesar da noite já ir alta, Baltazar cozinhou lentilhas e disponibilizou figos, pinhões e leite de camela enquanto Belchior embalava Jesus, dando àquela mãe um pouco de descanso.

Foi o ouro da amizade a grande prenda que levastes àquela família. Uma amizade sem porquês, daquela que se mete ao caminho sem ser preciso pedir nada e que aceita as nossas imprudências e infortúnios, sem atender aos radicalismos da época.
Por tudo isso, estou convosco, esperando que vivam no Céu bem por cima de Portugal, para quando chegar a minha vez de subir, vos dar um abraço de partir costela e ficar a cheirar a camelo, que vocês merecem.

Até lá!

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

O prazer de matar

Dezasseis caçadores mataram 540 animais durante uma montaria organizada por uma empresa espanhola, numa quinta na Azambuja, no dia 17 de dezembro - quase 34 animais mortos por caçador. A carne já tinha destino – Áustria e Alemanha, onde é apreciada e bem paga. 
Na zona está prevista a construção de uma “Mega Central Fotovoltaica” com mais de 750 hectares. As empresas que ganharam o concurso já refutaram qualquer participação ou responsabilidade na gestão cinegética da reserva de caça privada abrangida pela Herdade da Torre Bela. Caçadores “internacionais”, vieram dar azo à “ânsia de matar” a um país onde o cumprimento das leis é mal vigiado e onde os crimes ambientais têm fraca penalização. 

 O caso veio a público e todos se indignaram, mas quantos acontecem todos os anos em Portugal, onde não é possível colocar um guarda atrás de cada caçador movido pela mesma “ânsia”?? . 
O Governo classificou o acto como “vil e ignóbil”. O ICNF ordenou a abertura de um inquérito. A Federação Nacional de Caçadores e a Federação Portuguesa de Caça falam em incumprimento da “ética” da caça. 

“O mundo mudou!”, disse José Sócrates, em 2010, para justificar mais um aumento de impostos. Essa é a regra, já o dizia Camões: “Todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades”. O que se faz numa época, pode ser altamente inconveniente e até proibido noutra. A pedofilia não era crime na Grécia antiga. A desflorestação da América do Norte não foi entendida como crime ambiental, nem a limpeza étnica dos índios como um genocídio … e por aí fora. 

No século XXI, a ciência alerta para a necessidade de rever os comportamentos ambientais. Atitudes sobre a fauna e sobre a flora que afectem a biodiversidade têm de ser analisadas sob uma óptica global e não local, seja o abate de florestas tropicais, a pesca excessiva ou a poluição do ar, dos rios e do mar. 

A caça tem de ser entendida de um modo diferente daquele que era há uns anos atrás. Já lá vai o tempo do "Atirei o pau ao gato" e do “Lá vai uma, lá vão duas, três pombinhas a voar, uma é minha, outra é tua, outra é de quem a apanhar”. As pegas rabudas que viviam em Montedor, as rolas e os melros que poisavam no meu quintal, não são de quem as apanhou! Eram de todos nós! 

Aos caçadores só deve ser permitido o abate de “pragas” em terrenos agrícolas. Não é lícito a caça de um animal até à sua quase extinção e só então ser proibido o seu abate, nem o gozo de matar só por matar! Ponto final!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Ihor Homenyuk e o SEF



Ex. mo Sr. Presidente do Sindicato da Carreira de Investigação e Fiscalização do SEF.

Fui médico hospitalar e, em contexto de Serviço de Urgência, fui muitas vezes chamado a resolver problemas associados a grande agitação de doentes que se encontravam naquele espaço e também nas enfermarias onde tinham sido internados pelas mais diversas doenças.

Frequentemente a agitação deveu-se a abstinência alcoólica, o que acarretava grande dificuldade em resolver, pois implicava não só conseguir acesso ao doente para lhe poder dar medicação, como também o uso de doses elevadas de sedativos, com risco de lhe provocar sedação excessiva e necessidade de suporte ventilatório. A actividade alucinatória é um componente que impede uma comunicação minimante eficiente.

Pela descrição que ouvi sobre o que se passou no SEF em Março de 2020, tudo me leva a supor que Ihor Homenyuk, ao segundo dia de estar retido nas instalações do aeroporto, desenvolveu um quadro de Abstinência Alcoólica. A crise epiléptica descrita pertence ao quadro. A gíria chama-lhe “rum fit” e é frequente no início da síndrome. Ihor Homenyuk esteve num Serviço de Urgência e teve alta sem lhe terem diagnosticado Abstinência. Essas “crises epilépticas não se tratam com antiepilépticos, mas com sedativos para a abstinência. Uma abstinência alcoólica não tratada pode, só por si, levar à morte, mas a contenção "sem mais nada", agrava a evolução, porque a agitação associada ao grande esforço muscular para se libertar, é equivalente ao que aconteceu aos recrutas Dylan da Silva e Hugo Abreu em 2016 - um grande esforço associado a desidratação, leva a alterações metabólicas graves com falência multi-orgânica.

Eu não quero crer que o pessoal do SEF o tenha agredido. Acredito que não soube lidar com um indivíduo agitado e que o manteve imobilizado "demasiado tempo" na esperança infundada de "ele acalmar”.

Os médicos chamados a dar opinião, não o fizeram dentro da “melhor arte”, talvez por não terem acesso a informação suficiente.
1: quem o observou no SU, não diagnosticou Abstinência Alcoólica e deu-lhe alta.
2: o médico do INEM, encontrou-o em "paragem cardio-respiratória", isto é - morto. Não é dito o que escreveu na Certidão de Óbito.
3: o médico de Medicina Legal escreveu que as lesões que causaram a morte foram causadas por “agressão”, não especificando se desencadeadas por “auto-agressão” ou por manobras de contenção demasiado prolongadas.

Ihor Homenyuk pode ter caído, ter batido com a cabeça em qualquer lado com sequentes lesões cerebrais, pode ter fracturado costelas ou outros ossos nessas quedas, pode apresentar múltiplas equimoses sem que elas signifiquem violência intencional, mas decorrentes das quedas ou das manobras de contenção, e pode ter falecido em consequência dessas lesões ou das alterações metabólicas que referi.

Parece-me imprudente que o Presidente da República, Ministros e Líderes Partidários (da Esquerda à Direita), venham a terreiro falar em “HOMICÍDIO”, antes das alegações da Defesa e de um Juiz se pronunciar, como que a arranjar um “bode expiatório” para acalmar a população.

Eu não isento de culpas os elementos do SEF presentes nos dias dos factos. Era sua obrigação ter assumido que aquele nível de contenção não se devia prolongar e ter tido o discernimento de contactar uma chefia mais esclarecida ou referenciá-lo a um hospital.

Recuso a teoria do “mataram-no à pancada!” Era mau demais!

Para mais esclarecimentos, ficarei ao vosso dispor.

Cumprimentos

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

O meu pai

 
O Pai do meu pai (o meu avô Isidoro): Nasceu em Constância, em 29/12/1889, filho do 2º casamento do Sr. Florêncio, comerciante da região, que defendia que “até com cascas de alho se pode negociar”.
Com a 4ªclasse, sem jeito para o negócio e detentor de uma caligrafia invejável, cedo o encaminharam para os papéis e, num passo, era amanuense da Câmara Municipal. Em 1915 casou. Georgina irá dar-lhe 6 filhos. Na procura de maiores proventos aceita o lugar de Tesoureiro da Fazenda Pública em S. Vicente na Ilha da Madeira, mas aquele desterro, longe da família, sufoca-o e volta à terra poucos meses depois, para espanto de todos. O facto pendeu para a tolerância e, em 1924, é colocado em Macedo de Cavaleiros, terra que não conhecia e onde não tinha laços familiares. Desta vez leva a família. A esposa morre em 1927, na 7ª gravidez. Casa segunda vez e terá outra filha. Em 1935 ruma a Vila Verde. Mais tarde irá para Ponte de Lima e por fim para Vila do Conde onde se reforma e virá a falecer. Coloca os filhos num colégio do Porto (1929-1940). Cinco irão tirar curso superior e dois seguir-lhe as pisadas (Tesoureiros da Fazenda Pública).

O meu Pai: Nasce em Constância. Aos 4 anos vai com a família para Macedo de Cavaleiros. Aos 7 fica órfão. Aos 9 vem estudar para o Porto, juntamente com os irmãos. Fica num “Colégio”. Faz o secundário no Liceu Alexandre Herculano. Tira o curso de Engenharia de Minas, na Universidade do Porto, com uma passagem de dois anos por Coimbra, onde vive numa República. Foi sempre muito bom aluno. Não fez serviço militar “por falta de peso”! Ingressa no Serviço de Fomento Mineiro e é destacado para a mina de S. Domingos. Casa no Porto e quando lhe é entregue a chefia da Brigada de Prospeção Mineira do Sul, muda a família para Beja. Cedo teve a sorte do contacto com engenheiros e geólogos de vários países, de companhias mineiras aí sediadas, que lhe abriram horizontes. Caracteriza a Faixa Piritosa do Alentejo e identifica várias “anomalias” gravimétricas, entre as quais a que dará origem à descoberta da Mina de Neves-Corvo. Em 1962 é destacado para o Porto, mantendo a direção da Brigada do Sul de prospeção mineira até 1974, e inicia prospecção na região de Caminha. Teve muita esperança com o 25 de Abril, mas a realidade da política defraudou-lhe os projectos. Foi professor convidado na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto durante 20 anos e também leccionou na Universidade do Minho. Reformou-se por limite de idade aos 70 anos, procurando manter-se atento à evolução da ciência e do mundo. Já com 80 anos, inscreveu-se numa escola de informática “The Future Kids” para aprender a usar o PC. Escreveu o Blog “Vivências Mineiras” entre 2008 e 2018, onde assinala a importância do seu trabalho e os erros que se cometeram e que “muito prejudicaram economicamente o país”. Não tem escrito mais, porque “não tem tido tempo”. Agora, tudo é mais lento. O vestir, o comer, os exercícios físicos a que se obriga diariamente, a necessidade de mais repouso, os comprimidos, as consultas médicas, os fadinhos no YouTube, as fotografias a passar continuamente no écran e a escrita do diário no PC. Vive com a esposa (96 anos) num T2 com o apoio diário (4 horas) de uma empregada. Fala de tudo e mais alguma coisa. Lembra-se dos professores e dos colegas que teve no Liceu e na Universidade e também dos autores de muitos dos livros técnicos por onde estudou. Sabe alguma coisa de Latim, porque “não era possível não aprender com aquele professor que teve no Liceu”. 

Quando tenho dúvidas sobre ciência telefono-lhe. É sempre uma conversa interessante e bem-disposta.
Sempre foi vaidoso, não pela aparência ou pela posse, mas pelo “saber”. Desde que foi entrevistado anda “num sino”! É assim o meu pai, com 100 anos e 4 meses.
Obrigado Helder Reis


sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Música Sertaneja

Farto da música anglo-saxónica, é bom dar uma volta pelo Brasil e ouvir os matutos e os caipiras.

domingo, 15 de novembro de 2020

Pensamento do dia

Não se pode esperar que as pessoas que foram excluídas da História a respeitem. A História tem de ser escrita a várias mãos, com diferentes versões. A versão dos vencidos deve estar tão presente como a dos vencedores. É um erro apagar diferentes memórias. Não se pode purificar o passado.

 

sábado, 14 de novembro de 2020

Trump














 

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Mitos



Sou, por educação e formação, secularista. Defendo uma rigorosa separação entre as instituições religiosas e as governamentais. Um Estado onde as religiões pertençam ao espaço privado.

Tal não me impede de validar muitos dos conceitos que elas trazem para o quotidiano, sem me prender àqueles que perderam utilidade por não acompanharem o conhecimento que se foi adquirindo ao longo dos séculos.

As religiões florescem quando incentivam comportamentos que melhoraram a vida comunitária e definham quando deixam de dar boas respostas aos problemas com que as sociedades se debatem.

Das diferentes mitologias pelas quais a humanidade passou e passa, eu gosto particularmente da grega. As suas histórias, hoje narradas para juventude em banda desenhada e ficção histórica, continuam a dar os valores de dignidade, solidariedade e coragem que defendo, para além de reconhecerem a importância do “Acaso”, personificado nos deuses com humores e a cometer erros, o que nos leva a aceitar as contrariedades da vida.

Há cerca de 1 mês que é minha companhia de cabeceira - “Mythos” de Stephen Fry. Estou a lê-lo em inglês por ignorar que, desde Agosto/2020, havia já uma tradução portuguesa. Demora-se mais, mas aprendem-se novas palavras… É a vida!.

A páginas 77, Zeus, casa com Hera e para a boda, é pedido aos convidados para confeccionarem as melhores iguarias, com a promessa de que o autor da mais perfeita, poder fazer-lhe um pedido. 

Desta competição culinária saiu vendedora a Abelha que ofereceu uma pequena ânfora cheia de mel que deliciou o divino casal.

A abelha voou para o pódio e discursou em frente a Zeus: - “Senhor! Fico muito feliz por teres eleito o meu mel como a melhor das iguarias, mas devo-te dizer o quão difícil ele é de preparar. Tenho de andar de flor em flor a colher o néctar e só consigo levar para casa, um pouquinho de cada vez, num trabalho de sol a sol. Às vezes tendo de percorrer grandes distâncias em cada viagem, para ao fim do dia recolher umas poucas gotas. Essa pequena ânfora que te ofereci, são quatro semanas e meia de árduo trabalho. O seu aroma é tão intenso que se torna irresistível para quem passa junto ao meu ninho e há muitos que, com grande impunidade, mo roubam, sem que eu o possa defender. Por isso, o meu desejo é que me dês uma arma, como deste ao escorpião e à cobra, para com uma picada eu possa matar quem ouse roubar o meu precioso stock.

Zeus franziu o sobrolho. – “Como te atreves a fazer um pedido tão monstruoso? Um talento como o teu é para ser partilhado e não para ser guardado de modo tão avarento, por isso recuso a tua súplica!

A abelha retorquiu: “Mas tu deste a tua palavra!”

Zeus replicou, zangado: “Eu disse que o vencedor podia fazer um pedido qualquer. Não prometi que o iria conceder! Contudo, uma vez que o teu trabalho é penoso, vou tornar-to mais fácil. Tu serás a rainha de uma colónia de indivíduos produtivos. Além disso, também te darei uma picada dolorosa e fatal, mas tu e os da tua espécie quando picarem, morrerão também.

A abelha sentiu de imediato uma sensação estranha ao fundo do abdómen quando viu nascer um ferrão com farpas que uma vez usado arrastaria parte das suas vísceras quando fugisse.

As vespas, muito menos úteis e diligentes, não têm essas farpas e podem picar várias vezes sem risco da própria vida. Mas as vespas nunca se mostraram egoístas nem arrogantes perante os deuses.

Esta é uma das muitas histórias que este livro contém, escritas com muito mais elegância e humor que este pequeno texto.


segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Crazy - Patsy Cline Cover (feat. Allison Young)

 Joshua Lee Turner (n: 1992) , Allison Young (n: 1997) 

Patsy Cline (1932 – 1963) ainda tem o melhor registo desta música de Willie Nelson, mas esta versão, a dois, tem muito mérito, principalmente pelo trabalho na guitarra.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Não pode ser!




Há uns seis meses, alguém me contou uma história em que não acreditei. - Não pode ser!, disse, sem o conhecimento sobre a matéria que me permitisse categorizar sobre o meu interlocutor, pois sobre assuntos relacionados com a Bolsa sou um zero. Sei que as acções sobem e descem, que por vezes acontecem “crashs” com grandes perdas dos accionistas e também sei que só se ganha quando se vendem e não quando elas estão em alta na nossa mão. Fico-me por aí. Mas admitir que um presidente dos Estados Unidos da América, homem com um grande passado de negócios em várias frentes, possa fazer afirmações para provocar desconfiança dos “mercados” com consequente queda do valor das acções, comprá-las quando elas estiverem em baixa e, dias depois, fazer outras afirmações que dão confiança aos investidores, para as vender quando elas retomarem um valor “aceitável”, isso está para lá dos meus limites.

Não acreditei. Não pode ser! Mas… hoje o JN trouxe-me aquela conversa à baila e deu-me para pensar que numa sociedade onde os lucros de quem tem muito dinheiro andam “escondidos” em “fundos”, em “paraísos” ou de modo a que o simples paisano nem sonha, sim … é possível. E se o investimento for significativo, pode-se até ganhar uma grande fortuna.

Queira Deus Nosso Senhor e todos os Santos, que a pequenina notícia da página 30 do JN de 09/09/2020, ali meio escondida, seja só coincidência e tudo não passe de mais uma “teoria da conspiração”.


terça-feira, 15 de setembro de 2020

Stephen Fry

 

Ruth: Would you consider to be our next Prime Minister? 
Stephen Fry:
I´m very touch by your idea that I’m capable of being Prime Minister! I’m many things, but above all I’m a moral coward and a social coward, and I don’t think I could take the hatred and the dislike of those who disagree with what I said. It’s bad enough on Twitter. You post something and although 99% of people, at least, are nice even if they desagree with you, that 1% unpleasant, unkind and threatening … . I always think it’s a bit like a swimming pool. If 99% of the swimmingpool water is beautiful, it’s nice, but if there is a little piece a poo floating in it, I’m not gonna swim in the pool. I’m not that sort of people that don’t care what people think … 

“One of the painful things about our time is that those who feel certainty are stupid, and those with any imagination and understanding are filled with doubt and indecision.” Bertrand Russell

Stephen John Fry (n 1957) é um actor e um escritor inglês. 

Como eu o entendo! 


sábado, 8 de agosto de 2020

O Azoto (Nitrogénio)

Agora que os Noticiários estão cheios de Nitrato de Amónio e, depois de aqui ter escrito sobre o Nitrato do Chile e dos benefícios e problemas dos Nitratos, deu-me hoje para versar o Azoto (Nitrogénio), cujo símbolo químico é N. 
O azoto é o principal componente do ar atmosférico (78%), seguido do Oxigénio (21%) ficando 1% para os restantes gases (CO2, Hélio, Argon, …) e, apesar disso as plantas não o conseguem utilizar para o seu crescimento, pois necessitam que ele esteja na terra para as suas raízes o absorverem. É por isso que os adubos com azoto são muito importantes. As leguminosas são capazes de desenvolver simbiose com certas bactérias do solo que absorvem o azoto directamente do ar e, por isso, os terrenos em pousio devem ser semeados com estas culturas fixadoras de azoto (ervilha, ervilhaca, serradela, trevos, fava, tremoço, tremocilha, soja, grão de bico, feijão, luzerna, amendoim). 

Para além dos fertilizantes e do fabrico de explosivos, o Nitrogénio, por ser um gás inerte, isto é, que não se liga facilmente a outros compostos, é amplamente usado como conservante de alimentos, se se injectar para deslocar o Oxigénio e a humidade do ar dos seus reservatórios, impede a oxidação e aumenta-lhes o prazo de validade. 

Nas bebidas usa-se mais o Dióxido de Carbono (CO2) como gás inerte, que também as gaseifica.  Algumas águas gaseificadas são naturais, com o CO2 incluído por processos geológicos naturais, mas os refrigerantes usam CO2 artificialmente dissolvido sob pressão. Nos vinhos frisantes e espumantes, o CO2 das “bolinhas” é produzido aquando da sua fermentação na garrafa. Na maioria das cervejas o CO2 é também injectado sob pressão, embora algumas ditas “tradicionais” o façam recorrendo a uma dupla fermentação na garrafa. Só a Guiness usa Azoto (75%) e CO2 (25%), o que torna a "gravata" e o efeito de “picância na língua” diferente. 

A gravata na Guiness serve-me como exemplo para explicar o “Mal dos caixões”, doença assim chamada por afectar os trabalhadores que labutavam dentro dos contentores colocados a grandes profundidades nas construções subaquáticas, como os alicerces de pilares de pontes. Nesses locais, as pressões muito elevadas dissolvem o azoto do ar no sangue e nos tecidos, e o que sucede no copo da cerveja Guiness, quando se diminui a pressão, acontece também no nosso corpo, formando bolhas de azoto nos vasos sanguíneos e nos próprios tecidos, lesionando os órgãos, tudo dependendo do tempo e profundidade a que se esteve. 

Hoje é o nitrato de amónio que está nas notícias, amanhã, se a “modernidade” nos levar para o fundo dos mares, vai ser o azoto a encher os ecrãs das televisões.

terça-feira, 28 de julho de 2020

Ineptocracia


Ineptocracia: é um sistema de governo onde os menos capazes para liderar são eleitos pelos menos capazes de produzir, e onde os membros da sociedade menos capazes de se sustentarem ou de ter sucesso, são recompensados com bens e serviços pagos pela riqueza confiscada de um número progressivamente menor dos que produzem.