quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A Roulote-Bar



Na sequência das alterações recentes que desviam doentes para as traseiras do hospital, e na impossibilidade de espaço para um Bar coberto, ir-se-à abrir em breve um concurso para uma Roulote-Bar, que tem por fim servir os inúmeros doentes que diariamente para ali são referenciados para colher análises, para tratamentos em Fisiatria e para as consultas para ali deslocalizadas.

Foi decido cativar dois lugares do parque de estacionamento dos funcionários, para que a Roulote-Bar possa suprir esta crescente necessidade. No inverno, será colocada uma mesa encostada ao vidro exterior do corredor onde se situa a porta da Central de Colheitas e, no verão, será permitida uma pequena esplanada nas imediações.
Esta modernidade, juntamente com o "vai-vem" eléctrico, irá, por certo, contribuir para a humanização e eficiência do nosso hospital.

Bem haja quem assim decide!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Arranhador

Giovanni Pico della Mirandola (Florença - 1463 - 1494), morreu aos 31 anos. Era dono de uma memória privilegiada e sabia tudo e mais alguma coisa.

Desde que soube da sua existência que o invejo. Não por saber tudo, mas por saber mais alguma coisa.
Eu, para não sentir a minha arte limitada à profissão, de vez em quando diversifico.


Hoje foi dia de fazer um arranhador para o gato.

Um tronco de loureiro: 0 €
Restos de uma tábua : 0 €
Restos de dois fios eléctricos: 0 €
7 metros de corda: 2 €
1 parafuso grande: 10 centimos
2 tapetes - 1 €
Total: 3,10 €

    + Uma hora e meia de trabalho 


domingo, 12 de fevereiro de 2017

Corruptelas

Corruptela é a deformação de palavras, originada pela má compreensão/audição ou rápida visualização.

A compreensão depende da literacia do ouvinte. Quem nunca ouviu a palavra taquicardia, tende a ouvir ataque cardíaco e se a palavra obriga a voltas com a língua, em vez de apologista, talvez lhe seja mais fácil "apugilista".
Na terra da minha sogra, não havia rododendros. Lá só se davam "redondelos".
E eu, só bem entrado na vida, é que deixei de dizer "catrapácio!!

É no que dá a ciência de ouvido!

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O Transfer


De acordo com as normas europeias para com as pessoas com mobilidade reduzida, estamos em vias de nos equipar com um pequeno "Vai-vem" eléctrico de cinco pessoas, para transportar os muitos doentes crónicos, da Entrada do Hospital para a Central de Colheitas, que recentemente foi colocada no outro extremo do edifício.
Resolve-se assim o problema dos idosos com graves problemas cardiovasculares e neuromusculares que, há cerca de um mês, lutam com a dispneia e as muletas, para chegarem vivos àquele local.  

Esta opção só foi possível devida à excelente prática de contenção de gastos supérfluos em medicamentos e material de uso clínico, para além da contratação de quem, em concursos públicos, mostrou maiores competências, acabando de vez com as políticas de favorecimento por "cunhas" e dos funcionários que tiraram um qualquer curso como trabalhador estudante.

O "Vai-vem" irá funcionar durante toda a manhã. Prevê-se a sua desactivação quando a Central de Colheitas e algumas Consultas Externas forem deslocadas para fora do Hospital, dando cumprimento à norma 3.77 do Memorando da Troika: Mover alguns serviços ambulatórios dos hospitais para as USF. (2T 2012)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Indecisão Clínica


Há profissões em que só é necessário conhecer as fórmulas e aplicá-las, sem muito pensar.
Há outras que exigem soluções individualizadas e que implicam riscos. Nessas, exige-se "estofo”! 

Mário Soares dizia que um político “assume-se”. Mas não são só os políticos que, para o bem e para o mal, devem assumir as suas opções, sem se esconderem atrás das ineficiências dos outros. Todos os indivíduos com curso superior o devem fazer, principalmente quando lidam com “coisas de muito valor”, como é a vida humana.

Um local onde a maioria dos doentes é vítima do adiar de soluções, talvez ficasse melhor identificado como "Unidade de Indecisão Política"!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Lembranças do Olimpo (25)


“Façamos de 2017 um ano de paz”, instava, nas Nações Unidas, o novo secretário-geral, António Guterres, quando Zeus passava sobre Nova York no regresso a casa. Sorriu com benevolência e disse para consigo. – Reza para que não te apareça pela frente um qualquer tiranete a abanar uma bandeira, pois vais ver que ele consegue um batalhão de palermas dispostos a guerrear!, e retomou rapidamente o rumo na direcção do Planeta Gliese 581 c.

Entretanto Hipólito, já em casa, ouvia, no Telejornal, o Papa Jorge Bergoglio a apontar a evolução tecnológica como a causa da ”orfandade espiritual", o que o pôs a divagar sobre o efeito da maior educação das populações sobre a violência, nos “Illuminati” que temiam que o saber caísse em mãos erradas e em Jesus Cristo e Sócrates que nunca escreveram uma linha e se focaram naquela dúzia de discípulos, para garantir que o seu pensamento não fosse adulterado.

Embora reconhecesse as boas vontades do Papa, não acreditava que o seu caminho tivesse futuro, nem que os santos, que tanto tinham ajudado a sua Igreja no passado, pudessem ter qualquer relevância futura, mesmo que ele se apressasse a criar novos em todo o mundo cristão. A solução para a paz, parecia-lhe estar na educação da população, mesmo correndo o risco do “saber” cair nas mãos de quem não o integre em valores humanistas e ecológicos.

Ora estava Hipólito nestes pensamentos, quando lhe apareceu um anjo no ecrã da televisão. Trazia na mão esquerda uma balança e na direita uma espada. A imagem manteve-se fixa durante uns segundos e depois dirigiu-se-lhe.
- Desculpa se te interrompo as notícias! Há meses que te observo e hoje, ao ver-te enleado nesses pensamentos, decidi abordar-te!
O médico reconheceu-o e puxou o sofá mais para frente do aparelho, para dar intimidade à conversa.
- Muito me honra a visita de alguém que ainda está no activo e com múltiplos afazeres. Mas o que é que em mim te despertou curiosidade!?. Eu sou um clínico sem mais pretensões que as de ter alguma qualidade naquilo que faz.
O anjo pousou os apetrechos, abriu e fechou as asas, para se ajeitar, e pôs as pernas fora do ecrã como se estivesse sentado num muro, para também se chegar ao colóquio.
- Desde que Zeus te convocou para dares assistência ao Lar da sua família, que fiquei com uma pulga atrás da orelha. É que tu nem um doutoramento tens!

O médico tentou disfarçar o sangue que lhe subia às faces:
- Vejo que, apesar de ainda usares espada e uma balança de braços, estás muito moderno. A tua conversa está na onda das universidades que, para se sustentarem, promovem doutoramentos que pouco contribuem para melhorar as práticas profissionais e só alimentam vaidades. Como deves saber eu pertenço à Carreira Hospitalar. Podia ter feito a opção pelo ensino e, se calhar, a esta hora até era professor universitário, mas optei pela actividade hospitalar e, na carreira, atingi o último grau.
- Calma!, respondeu o Arcanjo. - Não vejo o porquê de te zangares! Já tens idade para saber que o homem é um bicho oportunista e que a incompetência sempre achou caminhos para se sobrepor a quem anda distraído das modas que se jogam nas altas esferas.
Hipólito concordou e justificou-se:
- Desculpa, se me exaltei! É que agora qualquer um é professor. Tira-se um doutoramento na glândula sebácea do prepúcio do rato e exige-se um título de professor! Mas adiante! Queres tomar qualquer coisa. Um chá de hortelã ou preferes uma bebida alcoólica quente? Tenho ali um whisky que faz um óptimo Irish coffee!

O Arcanjo Miguel riu com a provocação e não resistiu a perguntar:
- Mas isto é assim ou oito ou oitenta?
- Não queria ofender. Não me digas que és abstémio!
- Se tens essa disponibilidade, aceitava um chá de menta! De vez em quando bebo um copo. Principalmente com a chanfana de borrego ou com a "maqluba". Na maior parte das refeições bebo água. Mas a causa de me teres aqui, foi o teu congeminar sobre o Papa e o pensar que os santos não ajudam a actual Igreja Católica a retomar a sua influência.

Hipólito, pediu-lhe um minuto e foi aquecer água, aproveitando esse tempo para organizar o pensamento. Depois, trouxe a chaleira a fumegar e, enquanto o servia, retomou a conversa:
- Há anos, quando a minha sogra era viva, a toda a hora eu ouvia nomes de santos. Ela vivia num ambiente rural, numa casa onde não havia livros. Os aforismos eram o seu guião para as boas práticas e resguardos, pois quem tem os bens ao relento e não tem seguro de colheitas, muito tem de se lembrar do que se passa nos céus. "No dia de S. Matias (14/5) começam as enxertias.”; “Pelo S. João (24/6) a sardinha pinga no pão.” “Pelo S. Tiago (25/7) pinta o bago e cada pinga vale um cruzado.”; “Nevoeiro de S. Pedro (29/6) põe em Julho o vinho a medo.” ; “Quem planta no S. Miguel (29/9), vai à horta quando quer.”; “Pelo S. Martinho (11/11), semeia o teu cebolinho.” ; “Quem colhe azeitona antes do Natal, deixa metade no olival.”. Era assim o ano todo ...
Mas numa época em que a agricultura de subsistência está a dar as últimas e a terra tende a concentrar-se em grandes multinacionais agrícolas, os santos só dão nome aos dias de folga ou de festa e os mitos de que se fala variam com o que Hollywood vai produzindo.

O Arcanjo saiu da borda da TV e foi para junto da janela. Passados uns minutos, respondeu:
- Dois homens, se são Homens, estão condenados a entenderem-se!, li-o numa crónica do António Lobo Antunes! Quando um homem se liberta dos seus instintos primários e consegue ver para além do seu umbigo, habitualmente entende o outro. Eu pertenço às três grandes religiões monoteístas e sou paladino de quem luta contra os embustes e procura virtude na humildade. Não tenho nenhum contrato com a cúria de qualquer dessas religiões, que as mais das vezes são formadas por gente marcada por crenças sem fundamento. Concordo contigo na necessidade de fazer com que a educação consiga uma maioria que não embarque em ilusões e se foque em objectivos exequíveis.

O médico foi a uma das prateleiras onde tinha os livros de ciência e trouxe um de Richard Dawkins – “O gene egoísta”, e questionou-o:
- Mas como dar essa volta, se Deus introduziu no ADN humano, uma memória tribal que tende a avaliar o outro negativamente quando lhe topa alguma diferença?
O arcanjo pegou na espada e apoiou-se nela, enquanto dissertava: - A globalização ajuda a corrigir essa tendência, mas é necessário "proximidade física" e vocês estão a apostar demasiado no virtual, com o que dificilmente vos ireis sentir pertencentes ao mesmo grupo. Nisso o Papa tem muita razão. A solidão é um refúgio e não é possível viver à sombra de um só livro, pois ele torna "infiéis" todos os que o não seguem!

O médico ignorava esta faceta de S. Miguel. Conhecia a sua relação com as colheitas e a luta contra o mal, mas entendia-o como defensor de uma facção. Afinal, ele estava presente nas três principais religiões monoteístas (Islamistas, Protestantes e Católicos) e, depois de o ouvir mais um tempo e se certificar que ele nunca tinha entrado nas Cruzadas, nem ter ajudado os exércitos nas lutas contra os Eixos de Mal que os políticos e religiosos, de várias origens, foram criando, deu-se à liberdade de o abraçar como a um amigo, e dizer-lhe:

- São Tiago, o “mata mouros”, foi invocado na reconquista da península ibérica e nas lutas contra Portugal. O São Jorge, da mitologia nórdica, ajudou-nos em inúmeras batalhas, mas a tua luta sempre foi contra as pessoas negativas, estivessem elas de um lado ou do outro, usando sempre a espada para evitar danos colaterais. Ainda bem que não aderiste às novas tecnologias, como outros deuses que passaram a usar armas de destruição maciça. Eu ando a juntar mitos que possam ter valor universal e gostava de te dar o nº1. Vês algum inconveniente?

- Tenho o maior gosto!, alegrou-se o anjo. - Mas o meu apoio não é incondicional! Espero que não me ponhas a fazer equipe com o Pai Natal, nem com o Batman!?
- Está descansado que eu, sempre que encontrar um mito com características favoráveis a uma universalidade, peço a tua opinião. Por falar nisso: Tens alguma coisa conta o D. Quixote?

sábado, 21 de janeiro de 2017

Uns cachaços



Estava em vias de fechar o SClinico, quando a enfermeira da Manchester, me abordou.
- Dr.! Espere um pouco! Triei agora mesmo um doente para si!
É uma rapariga agradável, que sabe estar mesmo quando a confusão é mais que muita e que nunca me penaliza se eu me "passo". Sem grande convicção, como a resistir-lhe, antes de me sentar de novo, arrisco:
- Oh! Teresa! Eu amanhã tenho de estar no Serviço às oito!

Não vale a pena. Ela sabe que me é impossível dizer-lhe não, e continua.  
- Está acompanhado pela GNR. É só para decidir se vai transferido para Psiquiatria. Dizem que bateu na mãe!
- Para Psiquiatria!? Agora os agressores vêm para o Serviço de Urgência? Não me digam que enviaram a vítima para a Cadeia?, digo, antes de lhe ver os antecedentes.
Depois, dou uma rápida passagem pelo seu historial no computador.
Tem 30 anos. Há seis meses foi trazido para uma observação compulsiva e foi orientado para o CRI (Centro de Respostas Integradas) por dependência alcoólica e tabágica. Última consulta há 4 meses. Faltou à seguinte.

Está acompanhado por um irmão que quer falar antes que o doente entre.
- Faz favor! Então o que é que se passou?
- Foi o meu irmão que bateu na minha mãe. Já não é a primeira vez! Há uma ano que anda alterado, bebe e faz desacatos. Ultimamente anda para aí a dizer que a minha mãe e eu lhe ficámos com um prémio que ganhou no Euromilhões. 
- E droga-se?, pergunto, por o ter lido no registo da consulta de Psiquiatria.
- Isso não sei, que eu não vivo perto! Ele esteve três anos emigrado, a trabalhar na construção. Quando veio ficou a viver em casa da minha mãe, mas como não trabalha, os conflitos com ela têm vindo de mal a pior. Ele não está bom da cabeça.
- Ok! Espere um pouco lá fora! Já percebi que você também anda na mira dele!
- É verdade! Ele só não se atira a mim porque tem medo que eu lhe dê forte!

Sai um e entra o outro, acompanhado por um GNR.
- Faz favor de se sentar!
É um homem forte com mãos grossas e botas de trabalho bem gastas. Usa uma sweatshirt cinzenta com capuz e uma jeans azuis já esquecidas do cheiro do sabão.
Olha para trás, para confirmar se o GNR também entrou. Senta-se mole e de olhos baixos, responde contrafeito.
- Você sabe porque é que o trouxeram aqui ao Hospital?
- Deve ter sido por bater na minha mãe.
- E você estava bêbado, ou quê?
- Eu só bebi um copo ao jantar!
- E hoje consumiu droga?
- Fumei um charro, mais nada!
- E você acha bem ter batido na sua mãe?
Levanta os olhos, como a rebobinar o filme dessa noite e, depois de alguns segundos em que me olha de soslaio, responde, a desmerecer todo aquele envolvimento despertado pela denuncia do seu acto:
- Eu só lhe dei uns cachaços!

- Ahh!

São 24h. Não tenho condição para lhe avaliar a disfunção. A minha vontade é receitar-lhe uma noite nos calabouços e que venha amanhã para observação por psiquiatria, mas, como não falta para aí gente disposta a criar problemas a quem se preocupa com os gastos públicos, contenho-me e pego no telefone, enquanto lhes peço para aguardarem fora da sala.
- Está!? Sra. Telefonista. Por favor faça-me uma chamada para o Hospital Central.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Prioridades



Manobras evasivas devem ser aquelas em que um doente manhoso, utiliza engenhosamente artifícios ambíguos, para, de modo dúbio, se esquivar, subtilmente, aos últimos lugares da fila.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

2016 - Odisseia no Serviço de Urgência


- E este aqui, vai ficar para amanhã fazer uma endoscopia alta. Diz que engoliu a prótese dentária. Não se vê nada de especial nas radiografias, mas não vá o homem ter uma laceração do esófago e entrar por aí com uma mediastinite ou coisa pior!
Foi assim que se passou o último doente do corredor do Serviço de Urgência, pouco passava das 24:00h.

O Sr. Manuel é viúvo. Tem oitenta anos, uma boa reforma e uma companheira de cinquenta, que os filhos abominam.
Aos setenta e cinco anos, saiu da cidade onde sempre viveu e juntou os trapinhos aos dela. Ele dá o combustível. Ela a força de trabalho. Uma parceria com mútua vantagem, e, mesmo que a diferença de literacia seja evidente, na circunstância de um regresso ao básico, pouco importa.

Hoje, é o medo de ser operado, que lhe ocupa a mente. Estava a comer um pão com queijo e entalou-se e, quando deitou a mão à boca, notou que a prótese móvel com três molares não estava lá.
Já conseguiu beber um pouco de água sem problemas, mas o médico que o observou, teve recentemente um caso de laceração do esófago por um osso de frango, que terminou mal, e não quer correr riscos.
O Sr. Manuel compreende. Os seus cem quilos vão ficar a soro até ao exame, mesmo que aquele corpo não esteja habituado só a água e cloreto de sódio.

Dormiu mal. Na manhã seguinte, está desesperado. Vê passar os tabuleiros com pão e leite a fumegar e um doce aroma a cevada que, para além de aliviar os cheiros nocturnos da urina das fraldas, misturados com os gases e os hálitos matinais, lhe causa dolorosas contracções do estômago.

Vem outro médico que repete as perguntas.
- Dói?
- Um bocadinho aí em cima!
Não sabe se é da fome ou se é a placa dos dentes a fazer avarias.
-Têm passado gases?
- Alguns!
Estivesse em casa estourava até com gosto. Mas ali, tem-se contido por respeito pelos parceiros do corredor. Dói-lhe é a cabeça. Se calhar é da fome!

Dizem-lhe que o exame só será feito de tarde, porque o médico está todo o dia em intervenções programadas, e que vai ter de aguentar mais umas horitas. Não se lembra de alguma vez, ter estado tanto tempo sem comer.
São 18 horas quando o levam. A Maria já o foi visitar e descompô-lo por ainda não ter resolvido o problema da placa, que tinha partido um dos apoios.
- Ó mulher! Eu ia lá adivinhar que aquilo podia ir com a comida!.

São 20 horas quando o exame acaba. Tudo normal.
-Ó homem! Você sentiu mesmo que estava a engolir a placa?
- Eu sei que me entalai com o pão e que, quando deitei a mão à boca, não tinha lá os dentes!.
- E agora está bem?
- Estou cheio de fome!
- Ok! Vai ter de esperar que o maqueiro o venha buscar para ir de novo para a Urgência!

Quando o vêm buscar à Unidade de Gastrenterologia, são quase 21 horas. O médico que o seguiu já saiu e não há jantar para si. Dão-lhe um chá com bolachas depois de muito insistência junto de um enfermeiro.
Pergunta se não vem outro médico. Dizem-lhe que o que entrou não tem mãos a medir com os doentes que estão continuamente a chegar, mas que não tarda.
Por fim, à uma hora da manhã, o médico aproxima-se e diz que lhe vai dar alta e para comer muitos espargos, mas alguém o chama para uma emergência e larga a conversa e afasta-se rapidamente.

Adormece.
Às 08:00h, acorda e fica à espera.
Às 09:00h dão-lhe uma carta e uma receita e sugerem-lhe que vigie as fezes para ver se a prótese foi expulsa e que contacte de novo o Hospital caso surja alguma alteração suspeita.
Telefona à mulher para o vir buscar, veste-se e fica a aguardá-la.
Às 10:30hm ela chega. Metem-se no carro em direcção a casa, mas antes, passam por um café onde toma duas meias de leite e come três croissants.

Às 12:00h entra no apartamento e vai, com uma leve suspeita, à mesinha de cabeceira. Abre a gaveta e vê um lenço amarfanhado. Abre-o.
Encontra a placa.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Takotsubo


- Que tens Madalena?
- Não é nada! É só um soluço que aqui tenho entalado!, respondia, quando a encontravam de mãos postas debaixo do queixo, como se estivesse a desatarraxar um frasco cheio de vácuo.
Era assim nas duas últimas semanas, a preocupar a família, com aquela dor no peito, "como uma colher a rapar o fundo do coração", que passava depois de um longo suspiro.

Nunca tivera saúde. Em criança, foram as tosses e as bronquites que a atormentaram, depois, a retinite na adolescência limitara-lhe os voos e, ao passar a quinta década, as artroses fixaram-na ainda mais a casa, onde só saía para o médico e pouco mais.
Apesar de todas as maleitas, mantinha a voz clara da juventude, onde não faltava um tom de fresca inocência, cultivada pelos pais e pela irmã, que não casara prevendo as necessidades crescentes do seu grupo.

- Madalena! Não nos aflijas! Tu já fizeste tantas análises e exames! Queres consultar outro médico?
Já ia no terceiro e todos lhe diziam o mesmo, que tudo não passava de ansiedade.
- Queres um copo de água?, e enterravam-na docemente no primeiro sofá, enquanto aguardavam que o suspiro surgisse.
Nem quando cegara lhe ouviram tão profundos ais. Estranhamente, as queixas pareciam desaparecer depois do jantar, quando se recolhia ao quarto para fazer da rádio a sua companhia daquelas horas.

Há muito que conhecia as músicas, as histórias, os jogos e os locutores de todas as estações, mas, ultimamente, uma voz, num programa em directo, fazia-a pôr a mão no telefone. Era uma voz generosa que lhe despertava eflúvios cósmicos e, se a oportunidade surgia, a obrigava a ligar célere para uma conversa mais ou menos longa, que a deixava a pairar numa estratosfera de querubins e nuvens de oiro, em devaneios de jovem de vinte anos. Depois, adormecia sonhando borboletas e campos de flores, até o comboio do meio-dia a acordar e lhe chamar de novo a agonia de ter aquela paixão.

A dor daquele segredo, derrotou-a num domingo de sol, e atirou-a para uma cama de um hospital onde Deus se comiserou dela e a levou. Então, os homens pegaram naquele corpo inerte e, antes de o devolverem à terra, associaram-lhe uma causa da morte, que poucos compreenderam por ter o nome japonês de um pote de pesca para capturar polvo.
Com algum esforço entenderiam que a causa não fora uma colher a escavar-lhe o fundo do coração, mas os muitos braços que o apertavam.


domingo, 1 de janeiro de 2017

- Vossa Excelência dá licença?


- Vossa Excelência dá licença?, diz a cabeça que assoma à porta do gabinete onde me encontro a fazer registos.
Ficaram no corredor, da noite, trinta e três doentes e, desde as oito horas, já assumi sete novos "laranjas".
- Diga, se faz favor!.
Dá dois passos dentro da sala e, cheio de mesuras, responde:
- É para saber do doente da maca Z!

Olho aquele vulto grisalho, todo vestido de negro. Não observei nenhum doente da sua etnia, e dá-me vontade de lhe perguntar a razão desse seu interesse, mas tenho muito que fazer e opto por uma resposta fácil:
- Está a aguardar resultados de análises! Ainda é cedo para conclusões!
- Obrigado! Sr. Dr.!, e sai do gabinete às arrecuas, como se tivesse estado na presença da Rainha de Inglaterra.

São onze horas da manhã. Os doentes continuam a entrar. Já não há macas, nem lugar para as pôr. O corredor está "atafulhado" de doentes, de bombeiros (que os trazem e os levam), de familiares acompanhantes e de profissionais. Só a custo sei quem é quem.
Planeio. Este, sobe quando houver vagas no internamento. Este, se as análises não estiverem muito alteradas, terá alta. Este outro, se tiver as enzimas elevadas, é para ser visto por cardiologia . Aquele ...

É assim a vida num Serviço de Urgência, em Portugal, onde mais de trinta anos de políticas hospitalocêntricas, levaram a que aqui se trabalhe em situação de catástrofe crónica, como se tudo exigisse um diagnóstico célere, que, cada vez mais, a população exige.
- "Sr. Dr.! Se não tem Cardiologia no Serviço de Urgência, chame já uma ambulância para levar a minha mãe para o Porto!. Foi o que disse o seu cardiologista!", assim ... em tom de exigência, até antes de efectuar a Triagem de Manchester. ... Tudo e já!
O espírito VMER levado ao extremo. Ambulâncias aos gritos de um lado para o outro a transportar idosos, sem vida de relação, na vã esperança de mais umas horas a respirar ou, quiçá, para livrar de responsabilidades quem os envia. Ambulâncias a transportar gratuitamente para o Serviço de Urgência gente que, após a alta, não sabe como regressar a casa, por lhe ter sido levantada uma qualquer hipótese diagnóstica, mais ou menos descabelada, e não ter na proximidade da sua residência um travão a essa deslocação. Gente que abusa do facto de ser "isenta" e, por fim, este e outros como este, que passam por aqui para atrapalhar a geringonça em que os Serviços de Urgência se foram transformando.

Por fim lá chegam o exames do doente em questão. Arrisco uma alta sob medicação, orientado para o médico de família. Outros deixá-lo-iam no corredor, para uma "vigilância" que eu acho mais eficiente no domicílio.
Chamo a família para definirmos, em conjunto, os cuidados a ter e a eventual necessidade de um regresso, caso surjam alterações na evolução prevista. São de perto e põem-se cá em menos de trinta minutos. E, para satisfazer a minha curiosidade, questiono a filha se tem alguma relação de proximidade com o chefe dos ciganos, que perguntou pelo pai.
Não. Mas conhece-o. Há uns quinze dias bateu à sua porta para lhe tentar vender uns casacos de couro. Reconheceu-a na sala de espera e perguntou se tinha familiar "lá dentro" e disse que tinha "passe livre" para entrar.

- E que lhe disse da minha resposta?
- Nada. Só disse que estava muito bem entregue! Que o médico era muito bom!

Ao menos isso, ...

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Lembranças do Olimpo (24)


Há duas semanas que Hipólito não tinha qualquer contacto com o sobrenatural e isso deixava-o inquieto. O que se passava em redor tresandava a terreno. Os dias rotineiros faziam parceria com as notícias que enchiam os meios de comunicação, nacionais e internacionais, onde pontuava a vida mundana de Hollywood, do futebol ou da moda. Quem casava, quem se divorciava ou morria, sem qualquer toque daqueles que os deuses põem nas coisas banais para as transformar em guias para os mortais. Até os doentes morriam previsivelmente de doenças crónicas e tinha-se por garantida a presença diária do presidente da república, na televisão, à procura de “consensos”, ao mais pequeno desequilíbrio social. O Natal enchia as lojas de gente e o “All I want for Christmas is you!” tocava repetidas vezes em todas as ruas.

Hipólito afastou-se do bulício da cidade. Foi até à margem do rio admirar a elegância das taínhas a lutar contra a força da maré, a pensar se esta acalmia não seria aquela que precede os estranhos fenómenos ou as espetaculares intervenções divinas que alteram o curso da História do Homem na Terra, quando Zeus se sentou a seu lado. O médico levantou-se, agradado com a sua presença.
- Oh! Que bom é ver-te! Pensava que te tinhas esquecido de nós!
Zeus, pousou o raio e abraçou-o. -Também folgo em saber que estás bem! Tinha planeado só vir no verão, por causa da gripe, mas o Papa Francisco convidou-me para um Concílio de Deuses e eu não tive coragem de lhe dar uma nega!

- Então, estás a planear um regresso!, sorriu Hipólito, manifestamente feliz.
- Não!, respondeu o deus. – Vim só para não dizerem que sou um ressabiado e que não colaboro, quando é já evidente que a humanidade estar a dar cabo do planeta. O Tema também era apelativo: “Princípios Básicos para as Religiões que formatam o estar da Humanidade - Um novo paradigma”, e achei que a minha experiência podia servir aos deuses mais novos.
- E que tal está a correr esse Congresso, digo ... Concílio?, emendou Hipólito. Zeus não considerou a gafe e continuou:
- Nada bem! Logo nas primeiras sessões começaram as dissidências. O assunto era a "individualidade” e quando alguém defendeu que o homem deveria ser visto como uma abelha de um enxame, com um comportamento essencialmente determinado pelo grupo a que pertence, foi uma salgalhada das antigas!
Depois, como era Natal, o Papa Francisco, mostrou um presépio como símbolo da família. Havias de ver o sururu que se levantou. Que o presépio era só um pedacito da família, que deviam estar ali os irmãos, os tios, os avós, os antepassados e até os vizinhos próximos. O Francisco ainda tentou uma deriva dizendo que ele retratava o fruto do amor entre duas pessoas e que isso era a coisa mais linda que havia, mas já ninguém o ouviu.
À tarde, depois de umas generalidades, decidiu-se que o melhor era entrevistar os CEO das mais importantes instituições da Humanidade e começar pela cultura Ocidental. Ir ao Japão para falar com o Akihito, a Nova York falar com o Guterres e com o Trump, a Londres com a Rainha Elisabeth, a Berlim com a Angela Merkel, à Califórnia com o Bill Gates e a Moscovo com o Putin.
Mas quando se tentou distribuir estas tarefas pelos presentes, um grupo barulhento, desatou a gritar: “O Allahu é que vai!, O Allahu é que vai!”. Estás a ver! Quem queria ir começou a ficar irritado por só falarem naquele. Aos poucos, os deuses, foram saindo “à formiga”, até que o Francisco adiou a sessão alegando que tinha de ir comprar sapatos!

Hipólito estava surpreendido. Sabia que grande parte dos conflitos humanos tinham origem nos deuses, mas nunca pensara que as diferentes interpretações sobre o que é um homem poderia levar à sua exaltação. Zeus cingira a túnica ao corpo como a proteger-se do nevoeiro que entretanto se instalara e Hipólito sugeriu que fossem tomar um chocolate quente a um café que não tinha clientes, àquela hora. - Vais ver como te passa o frio num instante!, e, para estimular a conversa perguntou: - Tu achas que todos os deuses estão a par da evolução tecnológica da Humanidade?
Zeus sorriu. - Claro que estão! O problema não é esse. O problema está na estrutura que têm no terreno. Os Cristãos aceitaram reduzir o número de mosteiros e a passagem de algumas das suas funções para o poder temporal, mas o Islão não quer passar essa influência para um Estado Laico. As madrassas estão instaladas e asseguram emprego a milhares de pessoas. Eles não têm possibilidade de lhes fazer um "upgrade" e torná-los professores de Liceu ou de Universidades. Ia haver muita instabilidade social.

- Mas hás-de convir que, no mundo actual, as histórias dos heróis já não são veiculadas pelo clero. Quem agora dá referências aos miúdos, são os desenhos animados, o cinema e a TV. Soubeste que o Darth Vader foi a figura escolhida para representar o Mal numa das gárgulas da Washington National Cathedral, nos States? Não foi o Diabo! E isso só significa que a catequese foi vencida por Hollywood, pelo menos no Ocidente!
- É um facto!, concordou Zeus. Os personagens religiosos, para uma criança, são menos carismáticos que o Homem-Aranha ou o Skywalker e poucos se interessam pela vida do S. Vicente de Saragoça, mesmo sendo ele o padroeiro de Lisboa. Isto para falar da religião dominante no teu país. Daí que haja quem resista à globalização. Nós gregos, preocupávamo-nos em estimular a imaginação do nosso povo até ao limite. Mas há para aí religiões que funcionam em direcção oposta, porque lidam com populações com muito fraco desenvolvimento intelectual.

- Não tinha pensado nisso!, disse Hipólito, enquanto escorropichava o fundo da taça. - Mas se os fundamentalistas acreditam que conseguem fugir à globalização, estão muito enganados! Ela está para ficar! O melhor é colaborarem no estabelecimento de novas regras, com benefício para todo o planeta e não só para o Homem! Mas mudemos de assunto., sugeriu o médico. - a tua mulher dá-se bem, lá por onde vocês andam?

Zeus sorriu, ajeitou-se na cadeira e chegou-se mais próximo do médico para lhe confidenciar: - Deixou de tomar a pílula! Agora quer engravidar! Adaptou-se completamente àquele estar. Os 14 protões do silício ajudam mais os seres vivos daquele planeta que os 6 de carbono que a vida na Terra usa. Torna-os menos conflituais e sabes como são as mulheres, olham em primeiro lugar para a estabilidade. E por falar nisso!, deitou a mão à cabeça, a lembrar-se de um compromisso. - Fiquei de ir com ela visitar um rio de azoto líquido que existe nas montanhas. E já estou atrasado. Desculpa ter de ir assim tão de repente. Um abraço! , disse e, no mesmo instante, esfumou-se no nevoeiro que assumiu um leve tom azulado.

À porta do Café o empregado perguntou. - Você não estava acompanhado?. Hipólito pagou e respondeu: -Nunca estamos sós. Mesmo que os não vejamos, os deuses estão sempre connosco!.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Diagnóstico de Diabetes Gestacional



SP: Quem inventou esta Prova de Tolerância à Glicose, devia ser decapitado!
HG: É à base de quê, essa Prova? Se for sob a forma de mousse de chocolate, eu ganho!
SP: Basicamente, bebes açúcar puro, em jejum, e ficas duas horas a ver se não cais para o lado!
HG: Estão a testar-te para o Natal! Podias propor ao colégio da Especialidade de Endocrinologia uma Prova Modificada e mais divertida, à base de tarte de chocolate e natas, pudim Abade de Priscos, fatias douradas, baba de camelo ... . Assim se avaliaria a capacidade das pessoas enfrentarem a vida!
SP: Concordo! E ficávamos duas horas a comer e não a esperar!
HG: Entretanto, como só nos lembrámos disto agora, vais mesmo que terminar essa prova em difíceis condições. Lembra-te que a tua família confia nas tuas capacidades lambonas!
SP: Põe difícil nisso! Neste momento só tento não vomitar para não ter de começar tudo de novo! Obrigada pelo incentivo! No Natal quero prioridade!
HG: Não dá para pedires uma fatia de pão de ló, para molhares na calda?
SP: Não me tortures! O que eu dava agora por qualquer coisa para comer!
HG: Diz à senhora enfermeira: Isto parece o Natal dos Pobres! Trazem a calda e esquecem-se do pão de ló! Mas tens de dizer bem alto, como quem está a falar com alguém que está no fundo da sala!. Em que hospital é que estás? Tanto médico na família e não arranjas uma cunha para te darem um pão?
SP: Estou num Laboratório!!!! Ninguém me safa! Já só falta uma hora e ainda estou de pé!
HG: Força! Não desanimes! Se fosse no Hospital Veterinário, de certeza, que já tinhas uma tigela de ração! Eu trabalhei num e nunca vi tais ofensas aos direitos humanos!

Conversa roubada de um whatsapp

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Lembranças do Olimpo (23)



Uma lareira, um sofá aconchegante, um bom livro e um copo de vinho tinto “para senhoras”, faziam-lhe as delícias nas noites de inverno. Este mais parecia um Outono adocicado pelos ventos de África mas, à noite, bem dentro de Dezembro, manda a tradição que haja recolhimento e que as práticas divirjam das de outras estações.

Hipólito lia um livro de História que lhe apresentava os factos sob uma nova perspectiva e, surpreendia-se por não se ter apercebido de outras narrativas possíveis. A História deve ser lida à luz dos valores e conhecimentos da época, mas sendo ela sempre escrita pelos vencedores, há que manter distância, evitando embarcar na deificação dos lideres, que lhes omite os erros, lhes empola as virtudes e lhes fixa os objectivos em função dos resultados obtidos, a que o Acaso nunca é estranho.

Olhou para o copo. Aquela garrafa de Carbernet Sauvignon da Casa Ermelinda Freitas valia bem os nove Euros.
Pôs uma acha na lareira e voltou ao sofá. De repente, lembrou-se que tinha agendado uma consulta com Jó, para essa noite.
Olhou o relógio. Estava quase na hora. Fechou o livro e aguardou.

Minutos depois, a campainha tocou. Era Jó. Vinha diferente. A túnica nova e a barba aparada, tiravam-lhe o ar miserável do primeiro encontro. A pele já não tinha crostas embora se notassem múltiplas manchas cicatriciais descoradas. Nos pés trazia umas sandálias de couro, amarradas em torno do tornozelo.

- Entra, entra! Que não estás vestido para uma noite como esta. Nem umas meias calçaste!, preocupou-se o médico ao vê-lo naqueles preparos, como se estivesse em pleno verão, nas margens do Eufrates.

-Não te preocupes!, respondeu Jó. - Estou habituado ao sofrimento. O Purgatório é uma provação diária!. O frio é o menos. O pior é a humidade! Então quando há nevoeiro …, entranha-se-me nos ossos e fico tolhidinho de todo!
Hipólito conhecia de cor essas histórias do reumatismo e ainda se tentou a explicar-lhe que um ambiente saturado de água dificulta o aquecimento, mas lembrou-se que Jó não possuía conhecimentos básicos de física e conteve-se. Foi ao móvel onde tinha os copos e trouxe-lhe um que encheu de vinho, enquanto o empurrava em direcção à lareira.
- Aquece-te aqui um pouco, que estás com as mãos geladas! Depois diz-me como tens passado!. convidou o médico.
- Melhorzinho!, respondeu Jó. - Principalmente da pele. Ainda futuro muito, mas nada como dantes! Mas o ambiente também não tem ajudado à minha recuperação psicológica!
- Como assim?, perguntou o médico.

Jó olhou-o suspenso na indecisão de contar histórias do Purgatório a um mortal, ainda vivo, e, por fim, desabafou:
- É que há umas três semanas, mudaram-se para o pé de mim os três pastorinhos! Como deves calcular não são a melhor vizinhança. O Francisco e a Jacinta, ainda se suportam. São crianças e fora o barulho que fazem, pouco chateiam! Agora a irmã Lúcia!... , abanou no ar, repetidas vezes, os dedos da mão direita. - É um cromo de alto lá com ele!. … Anda cheia de vaidades a dizer "Eu é que sou santa! Eu é que faço milagres! Eu é que ponho o sol a dar voltas!"... É um espancamento!!!!!. Passa a vida a dizer que, se não fosse ela, o centro do país só era conhecido pela pêra rocha!
O médico confirmou. - Lá isso é verdade! Ela é figura central no turismo religioso! Mas não contava com ela no Purgatório!? Isso é possível??, pasmou Hipólito.

Jó, meteu a mão cabelos adentro e respondeu com enfado: - O Purgatório está cheio de santos. Muitos deles, se aparecessem hoje, eram rapidamente encaminhados para hospitais psiquiátricos. Olha o S. Simeão "estilita"! Esse também anda por lá meio ganzado!
- Dizes que há santos no Purgatório!, insistiu o médico, a tentar tirar nabos da púcara.
- Ui!, respondeu Jó. – São “paletes” deles! Sempre houve muitas pressões sobre o Vaticano para a atribuição do grau de santo a um paisano excêntrico que, por uma qualquer razão, mais ou menos lógica, conseguiu chamar a atenção da populaça e gerar um movimento tal, que a Cúria não tem alternativa senão a de cavalgar a onda, antes que outros o façam. Uns estão identificados como “santos populares”, como o S. Roque, mas nem sempre assim é. A mitologia cristã é muito complexa. Eu sou de outro campeonato. Pertenço ao Velho Testamento. Infelizmente, a minha história de vida foi alterada, para se tornar exemplo de fidelidade, quando, de facto, ela é exemplo do que se não deve fazer quando nos deparamos com dificuldades, que é entrar em pânico e desatar a implorar a ajuda divina. Os árabes têm um ditado que diz “Deus ajuda quem se ajuda!” e os brasileiros dizem que “Pão de pobre quando cai, é com a manteiga para baixo!”. Naquele tempo não se dizia nada disto! Implorava-se a Deus na desgraça. E foi nesse barco que embarquei!

-Vejo que fizeste um esforço para interpretar os erros da tua vida!, confirmou Hipólito. – Apesar de tudo, tiveste sorte, porque Deus deu-te novo gado e novos filhos! Mas, já que me abriste a curiosidade, ao falares do Purgatório, eu gostava de saber se viste lá santos portugueses? O S. Teotónio? O D. Nuno Alvares Pereira? E os mártires de Viana do Castelo – a Revocata, o Teófilo e o Saturnino?
Jó deixou a cadeira e sentou-se no tapete. Hipólito acompanhou-o.
- Temos este hábito de nos sentarmos no chão!, justificou-se. E depois, enquanto passava a mão pelo tecido, anotou. - Belo tapete! É bem macio! É português?
- Sim! respondeu o médico. – É de Beiriz. Cem por cento lã. Em Portugal só se fazem tapetes em dois locais. Em Beiriz e Portalegre. Embora chamem tapete ao que se faz em Arraiolos, aquilo, na verdadeira acepção da palavra, é um “bordado”.

- É engraçado como as palavras perdem significância, quando se divulgam para fora das camadas mais eruditas da população. Um tapete tem uma urdidura muito diferente da de um bordado. Mas, respondendo à tua pergunta sobre os santos portugueses, também aqui as palavras ganharam diferente significância e a população começou a chamar santo a todos os que, de algum modo, se identificaram com o seu sofrimento, sem qualquer aval da cúria romana. É assim que aparecem os “santos” mártires, os “santos” bispos (também chamados doutores da igreja), e santos como o Nuno Álvares Pereira, que de “estratega e génio militar”, aos 64 anos, depois de enviuvar e ter perdido os filhos, se tornou “humilde monge”, no imponente Convento do Carmo, por si mandado construir, em 1389. Só foi reconhecido beato em 1918 e santo em 2009, depois da sua suposta intervenção na recuperação «milagrosa» de uma úlcera de córnea provocada por óleo de fritar, que deveria ter demorado um ano a sarar e que sarou em apenas três meses.

- Como é que sabes isso tudo?, inquiriu Hipólito. – Podes ser de outro campeonato, mas estás bem actualizado!
Jó sorriu. – Foi um acaso!, explicou. – Como a Lúcia, no meio das suas vaidades se comparou com o Santo Condestável, dizendo que ele quase não tinha devotos, eu fui ver quem era o personagem. Depois, como tu vives em Viana do Castelo, procurei os santos dessa região e só encontrei o São Teotónio. Quanto aos mártires por que perguntaste, devem ser uma invenção. Uma coisa como as antigas relíquias.

Agora era a vez de Hipólito sorrir. – Fiquemos por aqui, senão ainda acabamos a falar dos 14 prepúcios de Jesus que circulavam pela Europa na Idade Média! Se estás melhor, vais manter o tratamento e aguardar a consulta de psiquiatria, que eu agendei para o início do ano!
Levantaram-se. Hipólito foi à cozinha e trouxe um pequeno embrulho que lhe meteu entre as mãos. – Tens aqui uns sidónios, da Confeitaria Flôr, para a viagem de regresso. Vais ver que são dos melhores que aqui se fazem! Não comas tudo de uma vez, que eles também são bons no dia seguinte.
Jó agradeceu. – Deixas-me sem jeito! Não pago a consulta e ainda por cima, me dás prendas!
- Quando ficares bom, se te lembrares de passar por cá, traz umas costeletas de carneiro, para degustarmos em conjunto e fazermos as honras a uma pomada que eu ali tenho para as circunstâncias especiais.

Abraçaram-se. A noite estava fria e aceleraram as despedidas.
- Até uma próxima!, respondeu Jó, desfazendo-se em fumo.
- Vai com calma, que o mundo não acaba amanhã!, disse Hipólito, enquanto pensava: A eternidade é uma chatice!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Certidões de Óbito Electrónicas


Todos gostamos de ser bem tratados.
No local de trabalho, onde passamos mais de metade dos nossos dias, tal adquire grande significado.

Para a minha actividade profissional, no Hospital, abro diariamente o SClínico e sou recebido com indiferença!

Só quando me ligo à capital, para passar uma Certidão de Óbito, é que me dão as boas-vindas!
Obrigado Lisboa!