terça-feira, 22 de maio de 2018

Skin in the game



To have "skin in the game" is to have incurred risk (monetary or otherwise) by being involved in achieving a goal. The aphorism is particularly common in business, finance, and gambling, and is also used in politics.

Basicamente: se queres que honestamente te sigam, põe a “tua pele em jogo” no projecto que defendes.: “Put your mouth where your money is!” ou ”Don’t tell me what you “think”, just tell me what’s in your potfolio!”  ou "Those who talk should do, and only those who do, should talk!".

Vão estas frases em inglês, por serem da cultura anglo-saxónica. Quem não as entende, também não se há-de demorar a ler um texto com mais de três linhas, principalmente se pertence ao grupo dos que opinam sobre o que desconhecem ou sobre o que não os afecta.

Se um decisor tem os benefícios de um projecto, tem de partilhar os riscos, para não serem só os outros a pagar o preço dos seus erros. Se dá uma opinião e alguém a segue, fica moralmente obrigado às suas consequências.

A política está cheia de quem nunca teve de pagar pelas consequências das suas opções. Gente que mergulha em elaborados discursos de chavões, com pensamentos pouco abrangentes e estáticos, que só considera as acções e não têm em conta as “interacções”.
Num sistema centralizado, a Burocracia separa-os “convenientemente” das consequências. Só a descentralização, distribuindo a responsabilidade, fará com que se encontre, "naturalmente", mais gente a pôr a  “pele em jogo”.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Alimentação hospitalar



A gastronomia hospitalar é reconhecida como um importante recurso terapêutico.
Antigamente, as refeições eram chamadas de dietas: com pouco sal, sem gordura e tempero. Esta imagem negativa da área de nutrição hospitalar está a tornar-se cada vez menos frequente. Não existe mais aquela restrição do paciente comer canja de galinha todos os dias. Os cardápios são variados, para que o cliente saia satisfeito com o tratamento e atendimento. 
Está-se a incorporar o conceito de hotelaria na área hospitalar, o que faz com que aquela ideia de ambiente com cheiro de remédio e comida sem gosto, seja completamente distorcida.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Leilão de velhos




O corredor de paredes azul-acinzentado (ou cinzento-azulado) tem uma iluminação alta e fria, como é usual nos hospitais. No chão, sobressai uma linha negra a todo o comprimento e a dois terços da largura, que curva à direita e indica o caminho do “raio x”.
Para que chamem sala de espera a este corredor, colocaram 2 filas de cinco cadeiras de um lado e, do outro, um ecrã de televisão sintonizado na SIC, sem som, onde de madrugada, se sucedem repetições de televendas destinadas a publico insone.
Debaixo do ecrã, outras três cadeiras não podem disfrutar da TV. Ao seu lado, duas máquinas de venda automática ronronam pela noite fora e gemem cuspindo comida e bebida sempre alguém lhes dá moedas.
De pulseira roxa no pulso, ali permanecem os acompanhantes daqueles a quem a saúde faltou, de modo suficientemente severo para serem rotulados de “laranja” … São maioritariamente mulheres! … será que lá dentro são maioritariamente homens?
Entre o olhar perdido no ecrã da televisão ou do telemóvel, fazendo escorregar o polegar em suaves carícias desperdiçadas, o tempo não passa.
De cada vez que a porta da área laranja se abre, os olhares convergem na esperança de vislumbrar o que se passa lá dentro com o seu familiar, ou com qualquer outro, que a curiosidade não se perde, mesmo em circunstâncias adversas.
Do que vislumbro, os profissionais enfrentam os computadores que dominam o centro da sala e impõem a sua luz azul. Falam, circulam, sentam-se, levantam-se de olhos sombrios, assoberbados com a intensidade e volume das tarefas – hoje foi mesmo o pior dia para vir à Urgência – desabafou comigo um médico em jeito de desculpa.
O movimento do corredor é intenso. Sendo um dos acessos ao serviço de Urgência, médicos, enfermeiros, auxiliares e administrativos, todos o percorrem garbosos nas suas fardas novas, assexuadas, de cores distintas por classe profissional, mas sem que haja uma legenda em que possa descortinar a ligação da cor à função. A atenta observação da execução das tarefas lá me deixou interiorizar o código cromático.
Parece estipulada uma cadência de movimentação e todos se deslocam à mesma velocidade – nem demasiado rápido, nem demasiado lento.
Os fragmentos de conversas atiçam a imaginação de quem fica pendurado na frase e a tenta completar…
Passam-se as horas neste limbo e é então que me apercebo que, a espaços regulares, sai da área laranja um auxiliar que empurra ora uma maca, ora uma cadeira de rodas. Invariavelmente transporta um idoso na tal cadência certa, mas gerindo com destreza o rodado que se aproxima dos pés dos que ostentam a pulseira roxa e se mantêm sentados nas incrivelmente desconfortáveis cadeiras.
E ao passar apregoam: “familiar da Sr.ª Antónia”, familiar do Sr. José”, “familiar do Sr. Manuel” … em voz alta e monocórdica, sem olhar para o lado, sem atrasar o passo…
Despojados do seu nome de família e exibidos pelo exíguo corredor em jeito de leilão, estes idosos, de olhar perdido, são transportados para as salas de exames ou para o internamento. Para muitos, não houve ninguém que se levantasse da cadeira para o acompanhar.
Eu tive a felicidade de acompanhar o meu.

Texto de M.Helena S. Gomes

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Consulta de Oftalmologia Abril 2018


- Eu vou receitar-lhe uma gotas novas para colocar nos olhos. Não sei se lhe vão fazer mal ao coração! ... Mas veja! … Se se sentir mal, não tome!…
Terá sido assim que acabou a última consulta no Hospital que, em nome de especialista de renome, foi efectuada por jovem interna, inexperiente com as expectativas sobre a visão, terapêutica ou efeitos laterais desta, de um jovem de 97 anos.
O facto é que colocou uma gota nos olhos e logo o coração se contorceu em espasmos e arritmias e gritos aflitivos, mais do que esperados…

As queixas têm sido recorrentes: - Vejo cada vez pior!, O teu pai não vê nada!, O avô não percebe nada da consulta!, Não presta atenção às indicações médicas!…
Lá vou ouvindo também com a convicção de que realmente não há muito mais a fazer, e que será tempo de nos conformarmos com as maleitas que a idade nos vai oferecendo, para nos tornar gratos por cada dia que desfrutamos da vida.

Mas o bichinho fica a roer por dentro: …e se, afinal, há algo mais que se possa fazer?
Aí vou eu marcar mais uma consulta na privada (como um bom português), para tirar a limpo.

Lá vamos os três para a sala de espera, que estava a abarrotar, onde o paciente encontrou publico para tentar cantar uma cantiguinha - Os teus olhos verdes” - alto, muito alto, que a consulta de ORL, para tirar a cera, ainda tarda….
Enquanto esperamos, faço as recomendações do costume – Vê lá o que dizes!, ... Responde objectivamente às perguntas!, ... Não entres em conversas que não têm nada a ver com os olhos!…

Com algum atraso, lá somos chamados para a porta da Doutora, depois de passar pelo crivo das tensões oculares.
Continua a falar alto e a voz ecoa agora pelo corredor silencioso dos gabinetes de consulta. Embaraçoso q.b.
Quando atendidos, preocupo-me em que a doutora entenda o motivo da consulta e confesso que quase o não deixei falar, para que a conversa não se enviesasse e se perdesse o foco.

-Muito bem! Ora vamos lá ver primeiro o olho direito. Senhor Engenheiro diga lá o que vê (a 5 metros)
P N T U V X H
-E agora estas
X K L P O C R
-Muito bem e estas, atreve-se?
A D Z não sei bem talvez N …não. É   H, P L S
-E a última linha? Também com uma pequena hesitação e está perfeito!
Mesma cena com o olho esquerdo.
-Em visão binocular tem 80%! Aos 97 anos! Pode ter campos restritos, mas a visão está lá. Tensão normal. Cristalino operado e transparente humor aquoso com algumas floculações próprias da idade. Uma sinéquia pós-operatória sem grande significado… Mácula sem escavação, alguma palidez provavelmente de eventos vasculares, mas globalmente muito bem.
Portanto, Sr. Engenheiro, pode continuar com a medicação de base e manter uma boa lubrificação do olho!

- Pois, Sr.ªDra.! Eu passo muito tempo ao computador.
- Claro! Não se esqueça de piscar e lubrificar os olhos.
- É a escrever o meu blog - Vivências Mineiras ponto blogspot ponto com, mas a minha filha não quer que eu fale disso! Aliás, eu vinha cá na esperança que me fizesse um transplante de células estaminais, na retina, para recuperar a visão.
- Como sabe isso?
- É da revista "Nature", conhece?
- Sim! Mas sabe, esse tratamento não é para si! Isso é para tratar a doença dos velhos, coisa que o Sr. Eng. não tem.
...
E foi preciso empurra-lo porta fora.

Escrito pela filha M.H.S.G., 

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Consulta de Urologia



A história ouvia-a, no refeitório, da boca de um Urologista, no meio de historietas desinteressantes e fotos do Whatsapp.
Um seu par, tentava dar resposta à consulta sobre-lotada, convocando dois doentes de cada vez -  um para a consulta e outro para uma cadeira junto à porta, para entrar logo que o anterior saísse.
O primeiro de uma das séries, era um homem de meia idade, com um volumoso hidrocelo que lhe sobressaía nas calças.
Perguntou-lhe se trazia exames já efectuados.
- Deixe-os lá fora, com a minha mulher!
- Oh homem, vá lá buscá-los!

O doente saiu e entrou acompanhado.
- A senhora sente-se aí nessa cadeira!, ofereceu o médico. - E o senhor, por favor, baixe as calças e deite-se ali na marquesa!
Espantado com o aspecto e dimensões do escroto, exclamou: - Ui! Como isto está! E dirigindo-se para a acompanhante: - Venha cá minha senhora!
A mulher aproximou-se, espreitou, e o médico continuou, admoestando-a, enquanto apontava para as partes vergonhosas e pudenguentas do doente: -  Isto não interferia com a vossa vida conjugal? A senhora não o aconselhou a procurar o médico mais cedo!?

Aí a pobre mulher virou-se para o médico e respondeu: - Sr. Dr. ! Eu não conheço este senhor! Eu entrei quando ele saiu, como o senhor Dr. mandou, quando me indicou a cadeira ao pé da porta!

terça-feira, 17 de abril de 2018

Abate de árvores no jardim D. Fernando




Exmo Senhor Presidente da Câmara de Viana do Castelo,
     Exmo Senhor Vereador do Ambiente e Biodiversidade,
     Exmo Senhor Vereador do Planeamento e Gestão Urbanística

Sou moradora na Praça General Barbosa há 9 anos. Comprámos uma casa antiga e restauramo-la porque sempre quisemos morar em frente a este jardim.
Quando soube que iam fazer uma remodelação no Jardim D. Fernando, confesso que fiquei preocupada. Achei que devia ir ver o projecto à Câmara mas o dia-a-dia meteu-se no meio, o tempo foi passando, e as obras começaram.
Sábado passado, dia 14 de Abril, quando saí de casa para o trabalho, pude assistir ao corte de um carvalho. Quando voltei, tinham sido cortadas e transformadas em toros mais quatro tílias e um carvalho. Um triste espectáculo com vários transeuntes a assistir.
Na minha opinião, uma vergonha. E uma tristeza gigante.
Eram árvores muito bonitas, saudáveis, com dezenas de anos, de espécies autóctones.
Quem já passeou pelo nosso monte de Sta Luzia consegue ver a infestação que por lá vai. Eucaliptos, mimosas e austrálias. Raramente se consegue ver mais alguma coisa. Uma bouça com alguns carvalhos é uma festa para os olhos.
E vocês abatem 4 tílias e 2 carvalhos?
No jardim do Marquês, no Porto, aquando das obras para fazer a estação de Metro, a autarquia viu-se obrigada, devido à pressão da sociedade civil, a transplantar para a praça Velasquez os plátanos que planeavam cortar. Ainda hoje lá estão.
Não teria sido possível fazer o mesmo? E alegrar um canto do monte de Santa Luzia, por exemplo?
Imagino que seja uma solução um bocado mais cara, mas acho que há acções que não têm preço. E além de salvar as árvores, este transplante teria uma vantagem ainda maior. Daria o exemplo aos nossos filhos de que as árvores são seres vivos que temos de proteger e respeitar. A consciência ambiental não se adquire apenas nas visitas escolares ao CMIA…
Numa altura em que falamos tanto da reflorestação e da importância da floresta autóctone, este abate foi um acto de uma incongruência que entristece. Porque significa que as coisas ainda estão muito no plano das ideias e das palavras. Andamos em acções de sensibilização a plantar carvalhos, mas se algum deles com 20, ou 30 ou 40 anos se mete no nosso caminho, puxamos da moto-serra e num instante temos o caminho desimpedido. Problema resolvido.
Esta carta tem como objectivo expiar um pouco a culpa que sinto por não ter ido ver o projecto a tempo. E por não ter falado na hora certa.
Espero que sirva também como alerta, para que, numa próxima ocasião, não se opte pela solução mais fácil. Para uma autarquia que se preza em ter uma postura diferente, esta foi uma oportunidade perdida.
Obrigada pelo tempo que me dispensaram.

A.G.

sábado, 7 de abril de 2018

Maus cheiros



Em matéria de maus cheiros, sou "Pró"! Tenho currículo de invejar, pois fui introduzido cedo no “cheiro a humanidade”.

Da escola primária, não tenho dessas memórias. No Liceu, o “Texugo”, pouco dado a banhos e a mudanças de indumentária, tinha fama de trazer um cão morto dentro das calças. Ele e um amigo, que nunca se responsabilizou por uma pestilência, no meio de forte tempestade, em Pardilhó, na carlinga de um Vauxhall de 1939, foram os únicos a deixar marca no meu sistema límbico, por todos os outros terem dado oportunidade de fuga ou terem tido curta duração.
Aos 15 anos, tive a minha primeira prova de fogo. Levado pelo que o cio me obrigava, inalei sovaco retardado e halitose de todo o tipo, entremeado com perfume barato misturado com vinagre, do cabelo das garotas mais espigadas dos bairros sociais do Porto, quando me iniciei nos bailes de S. João.

Para efeitos oficiais, estas experiências iniciáticas, pouco mais fizeram que dar estabilidade à minha pituitária, preparando-a para o que a vida me havia reservado e evitar que o choque olfativo do meu primeiro estágio, na década de 70, nas enfermarias do Hospital de S. João, me encurtasse os dias.

Por uma questão de comodidade, entrava por uma das portas laterais do jardim e estacionava o meu R5 no lado poente do edifício. Infiltrava-me pela porta da ala vizinha, subia ao 4º piso, e atravessava as enfermarias de Neurologia, Ginecologia e de Medicina, até chegar ao cacifo onde guardava a bata.
Só a Ginecologia não tinha doentes no corredor e, às vezes, cheirava a café. Nos outros, as enfermarias (de 9 e mais camas) transbordavam.

Nos primeiros tempos, parava, trinta segundos, no primeiro patamar, fazia três inspirações fundas, e atravessava os primeiros cinquenta metros de corredor sustendo a respiração até ao átrio antes do Serviço seguinte. Entre hiperventilações e apneias chegava ao meu destino. Depois, vestia a bata, pegava nos processos e corria para a biblioteca do serviço. Aí, revia os registos e aguardava o fim das higienes nas enfermarias.

Este sol, foi de pouca dura. Ao fim das primeiras semanas a ver doentes em todos os serviços do hospital, estava apto a identificar o piso e o serviço, se lá me colocassem de olhos fechados (desde que tal acontecesse às primeiras horas do dia) e, ao fim de um ano, tinha até adquirido a capacidade de diferenciar algumas das patologias lá internadas, como abcessos pulmonares por anaeróbios ou pseudomonas, insuficientes renais crónicos, doentes em coma hepático ou com melenas ... a uma distância mínima de dez metros (curvas incluídas).

Foi o auge da minha carreira olfativa pois, de lá para cá, foi um progressivo "ó p'ra baixo", de tal modo que, em meia dúzia de anos, passei a ignorar a maioria dos maus cheiros, salvo o do sovaco requentado, em fim de dia de verão, que ainda me faz arder os olhos.

Mas eu que julgava ter já experimentado os "créme de la créme" da agressão olfativa, fui recentemente surpreendido com uma nuvem de pestilência, saída de uma sala, onde dormiram vinte doentes de ambos os sexos.
Um bafo viscoso espessava o ar e, qual onda de maré, espraiou-se ao longo de toda a minha árvore traqueo-brônquica.
Olhei as duas enfermeiras na secretária em frente. Pareciam náufragos protegendo-se atrás dos écrans dos computadores. Estavam verdes como as fardas que vestiam.
A medo exclamei: - Pelas barbas do profeta! Estais vivas?

Uma delas levantou os olhos congestinados e rouquejou com voz sumida. : - Senhor Jesus! Deus do Céu! Estamos aqui há oito longas horas, sem dar vazão aos traques, arrotos, vómitos, suores, fezes e fraldas ensopadas, sem vento que nos proteja, nem ar condicionado que nos alivie, que ele bufa para cima das macas e os que estão melhorzinho queixam-se. Que Teutatis nos ajude, já que os deuses da nossa terra tardam em ouvir as nossas preces!

O ar que entrara na sala comigo, acordou o doente mais próximo. Da sua boca saiu um bocejo de múmia e uma longa farpa quente de febre, troou como a derrocada de um talude.
Estanquei. O instinto de sobrevivência exigia uma fuga e o de solidariedade, que mais não fosse, umas palavras de conforto àquelas duas vítimas. Mas impunha-se uma continuidade ao serviço e, cobardemente, virei costas, deixando as pobres ao seu destino.

No dia seguinte perguntei por elas. Estavam vivas. Haviam regressado a casa pelo próprio pé e recuperado a cor.
- Graças a Deus!, respondi, aliviado. - Felizmente que o teor de ácido sulfídrico não estava em níveis letais e que a tolerância tem Dia Internacional a 16 de Novembro.

domingo, 1 de abril de 2018

Domingo de Páscoa




Filme baseado na Ópera rock de Andrew Lloyd Webber, com libreto de Tim Rice. Apresentado em 1970.

Uma versão baseada no provável pensamento de Judas (apresentado como o braço direito de Jesus), que sente que o projecto a que aderiu se desvirtuou e pôs em risco todo o grupo, quando Jesus aceitou que lhe chamem "rei dos judeus" e ter uma relação preferencial com Deus.

História (possível) com algum rigor histórico:

Jesus nasceu aproximadamente no ano 4 a.e.c. (antes da era comum), por volta da morte de Herodes Magno.
Passou a infância e os primeiros anos de adulto, em Nazaré, uma aldeia da Galileia.
Foi um judeu praticante, que leu as Escrituras.
Aos 30 anos foi baptizado por João Baptista, o que lhe mudou a vida. (João Baptita foi mandado executar por ter criticado o casamento de Antipas com a mulher do seu irmão, o que fez que se tornasse referência com muitos seguidores, que poderiam dar início a uma revolta).
Reuniu discípulos à sua volta. Ensinou em pequenas povoações e na região rural da Galileia (nunca nas grandes cidades) e anunciou a eminente vinda do “Reino de Deus” à Terra.

Por volta do ano 30, foi a Jerusalém, para a festa da Pessach. Entrou de burro na cidade, como a cumprir a previsão do profeta Zacarias: “Estai atentos! O vosso rei virá até vós, triunfante, montado num burro!”
Quando foi ao Templo agrediu os cambistas e os vendedores de pombas e insultou-os de ladrões, interferindo nos negócios de compra e venda que eram necessários para a manutenção do serviço do Templo, o que deve ter causado escândalo.
Depois, deve-se ter considerado um “homem marcado”. Foi para o Monte das Oliveiras, tomou uma última refeição com os discípulos e aguardou a intervenção de Deus.

Um dos seus discípulos denunciou-o. Foi preso e, num processo adequado a um caso sem grande importância, o sumo sacerdote Caifás, ouvidos os conselheiros, fez uma recomendação de execução ao prefeito romano (Pôncio Pilatos), que agiu em conformidade.

Os seus discípulos fugiram e criaram uma comunidade para aguardar o seu regresso, juntamente com o "Reino de Deus", e procuraram persuadir outros a acreditar nele como Messias enviado por Deus. Este movimentou difundiu-se muito mais rapidamente entre os gentios que entre os judeus.

Geopolítica da época:

Quando Herodes Magno morreu, o Imperador romano Augusto, analisou os seus testamentos (eram dois) e decidiu dividir o reino entre os três filhos. Arquelau foi nomeado governador da Judeia, Samaria e Idumeia, Antipas herdou a Galileia e a Pereia e Filipe recebeu as regiões mais remotas do reino de Herodes.

Antipas revelou-se um vassalo fiel e governou a Galileia durante 43 anos. Arquelau teve menos sorte. Os seus súbditos protestaram contra algumas das suas medidas e Roma deu-lhes razão. Destitui-o, exilou-o, e nomeou um funcionário romano para o substituir.

Os judeus reagiam com muita sensibilidade ao que acontecia em Jerusalém. Além disso, as grandes concentrações que ali ocorriam, por ocasião das festas religiosas, criavam condições favoráveis à eclusão de distúrbios.

O prefeito, no tempo de Jesus, vivia em Cesareia, na costa do Mediterrâneo, num dos luxuosos palácios de Herodes Magno. Dispunha de tropas de 3.000 homens, o que não era suficiente para resolver problemas graves. Havia uma pequena guarnição na fortaleza Antónia em Jerusalém, bem como outros fortes na Judeia, mas Roma não governava a Judeia no dia-a-dia. As cidades e as aldeias eram governadas, como sempre o tinham sido, por um pequeno grupo de anciãos, entre os quais, um ou vários, serviam de magistrados. Quando havia dificuldades que pudessem levar ao derramamento de sangue, os cidadãos mais importantes mandavam uma mensagem ao prefeito. Os distúrbios mais significativos exigiam a intervenção do legado da Síria, que era superior ao prefeito da Judeia e dispunha de grandes contingentes militares (quatro legiões, no total de aproximadamente 20.000 homens de infantaria e de uma cavalaria de 5.000 homens).

Durante as festas mais importantes, o prefeito romano vinha para Jerusalém e o contingente de tropas era reforçado, para garantir que as multidões não se descontrolassem.
Só o prefeito tinha o direito de condenar à morte, com uma excepção: Roma permitia aos sacerdotes afixar avisos em grego e latim, no Templo, proibindo os prosélitos a entrada num determinado sector do Templo. Quem infringisse essa proibição, mesmo que fosse cidadão romano, era executado imediatamente, sem que fosse enviado ao prefeito. Exceptuando este caso, o direito a condenar à morte não só era exclusivo, como absoluto – ele podia mandar executar até um cidadão romano, sem precisar de formular uma acusação que fosse apresentada perante um tribunal romano.

Jerusalém fica na Judeia que, ao contrário da Galileia, era uma província romana.
Jerusalém, era governada pelo sumo sacerdote dos judeus (José Caifás), que estava subordinado ao prefeito romano (Pôncio Pilatos).
A Galileia era governada por Herodes Antipas, filho de Herodes Magno.

Os Judeus acreditavam que Deus controlava a História e decidia o resultado de todos os acontecimentos importantes. Alguns acreditavam que Deus estabeleceria o Seu Reino na terra num futuro próximo. Muitos Judeus desejavam a libertação do domínio romano e pensavam que isso só podia ser alcançado com a ajuda de Deus.

Também acreditavam (e acreditam) que Deus fez uma aliança com o seu povo, que os obriga a obedecer-Lhe, assim como obriga Deus a guiá-los e protegê-los. Também acreditam que Deus lhe deu a terra da Palestina e que lhes falou através dos profetas.


Páscoa Judaica:

É uma das três festas de peregrinação ao Templo, do ano litúrgico judaico. Começa a 15 do mês de Nissan e dura sete dias em Israel e oito dias na Diáspora. Celebra a libertação de Israel da servidão no Egipto em 14 de Nissan do ano de 1446 a.e.c.

Deus enviou as Dez pragas sobre o povo egípcio. Antes da décima, o profeta Moisés foi instruído a pedir a cada família hebreia que sacrificasse um cordeiro e molhasse os umbrais das portas com o sangue do cordeiro, para que não fossem acometidos pela morte de seus primogénitos.

Chegada a noite, os hebreus comeram a carne do cordeiro, acompanhada de pão ázimo e ervas amargas. À meia-noite, um anjo enviado por Deus feriu de morte todos os primogénitos egípcios, desde os primogénitos dos animais até mesmo os primogénitos da casa do Faraó. Então o Faraó, temendo a ira divina, aceitou liberar o povo de Israel, o que levou ao Êxodo.

Como recordação dessa libertação e do castigo de Deus sobre o Faraó, foi instituído para todas as gerações o sacrifício da Páscoa (Pessach).

sexta-feira, 30 de março de 2018

Páscoa



My time is almost through
Little left to do
After all I've tried for three years
Seems like thirty, seems like thirty

Lepers:
See my eyes, I can hardly see
See me stand, I can hardly walk
I believe you can make me whole
See my tongue, I can hardly talk
See my skin, I'm a mass of blood
See my legs, I can hardly stand
I believe you can make me well
See my purse, I'm a poor, poor man

Will you touch, will you mend me Christ
Won't you touch, will you heal me Christ
Will you kiss, you can cure me Christ
Won't you kiss, won't you pay me Christ
...

There's too many of you

Don't push me!
There's too little of me
Don't crowd me!
Leave me alone!





Tradução: 

O meu tempo está a chegar ao fim
pouco mais tenho que fazer
depois do que tentei nestes 44 anos
(Pareceram 4)

Clientes: 
Sr. Dr., Ai que falta de ar
Sr. Dr., Ai que dor aqui
Sr. Dr., Eu vou abafar
Sr. Dr., Eu quase morri!
Sr. Dr.! Tem que me ajudar!
Sr. Dr.! Tem que me assistir!
Sr. Dr.! Não lhe vão pagar!
Sr. Dr.! Não pode sair!

Faça um esforço e prolongue o turno!
Espere um pouco a ver no que dá!
Mostre os dentes, não fique soturno!
Blá, blá, blá! Blá, blá, blá! Blá, blá! 

São cada vez mais as exigências.
Não empurrem!
Que eu não sou o Marcelo!
Dei-xem-me sos-se-gar!

quarta-feira, 21 de março de 2018

Constrangimentos


A Prudência é uma virtude e saber que nem todas as palavras são para todos os ouvidos, é mandamento para a sã convivência, até porque quem diz o que quer, arrisca-se a ouvir o que não quer!
Mas ... "quem sai aos seus, não é de Genebra!" e, na minha família, provocar o insólito para uma boa gargalhada, é um "must". São histórias contadas sem desprimor para as vítimas inocentes, para que estejamos atentos às rasteiras e, se há hesitações, o mais certo é o do lado as exagerar, até atingirem a dimensão do "muito impossível", para que o óbvio apareça e tudo se esclareça.


Mas o que funciona dentro de portas, tem constrangimentos no exterior, e nem sempre a coisa corre bem.

A primeira história é do meu pai.
Estávamos na década de 50, quando as deslocações eram raras e se construía o Metropolitano de Lisboa. Daí que, uma ida à capital do Império, obrigava a notícias, e as obras do Metro não podiam ser descuradas.
Na altura, ele chefiava a Brigada do Sul do Serviço de Fomento Mineiro, sediada em Beja. Num "briefing" do regresso de uma dessas viagens, um dos engenheiros mais novos, perguntou-lhe se vira obras no Terreiro do Paço, ao que o meu pai, alheado do assunto, respondeu a primeira patranha que lhe passou pela cabeça, na esperança que uma risada de incredulidade, que “elevasse o moral das tropas” para o início de um dia de trabalho: "- Nem queira saber o que por lá anda! Olhe que vão abrir uma passagem do Metro na barriga do cavalo do D. José!".
O homem acreditou e indignou-se. "Que não era possível destruir um monumento com quase 300 anos! … A primeira estátua equestre de Portugal! ...", e por aí fora …, até lhe ser dito que era uma graça, e ele ficar amuado para a vida, com o estigma daquela chacota!

A segunda história é minha:
Eu era ainda novo no local de trabalho. O gelo inicial tinha já sido quebrado e conseguira a condescendência de muitos dos profissionais do serviço para algumas das minhas “particularidades”, pelo que não resistia a subir um patamar na escala da tolerância, na procura do “absoluto”, frequentemente sem olhar ao histórico do interlocutor.
Nesse dia, fui abordado por uma enfermeira (das mais sérias) que me pediu para lhe observar um ouvido. Tinha uma otalgia com horas de evolução. 
Fomos para a sala de trabalho. Com o otoscópio, conclui não ter otite. Voltei ao ouvido doloroso e disse-lhe: - Parece-me estar tudo bem, mas vai ter de tapar o outro ouvido, porque está a entrar muita luz desse lado!
Disse-o, sem ter pensado que tal significava que ela não teria nada dentro da cabeça e na esperança de que ela o não fizesse. Mas ela fê-lo, deixando-me na difícil posição de ter de dar um passo que revertesse aquele constrangimento. À boa maneira “lá de casa”, em que a fuga é para a frente, fui ao outro lado repetir a cena, e ela voltou a tapar o ouvido contralateral.
Em desespero, chamei-a à razão. Felizmente só estávamos os dois, mas só voltei a conquistar-lhe a confiança um bom par de anos depois.

terça-feira, 13 de março de 2018

Um marido preocupado

Era um casal "diferente". Ambos na casa dos setenta. Vinham à consulta como quem ia à Ópera. Ela de tacão alto, roupa vistosa e perfume de encher pavilhão. Ele aprumado, sapato a espelhar e capachinho. -Doutor! Não se nota, pois não?! ... É Eurocave!!, à minha primeira olhadela para o seu cabelo.
Ajeita-lhe a cadeira antes de se sentar.
- Então dona Beatriz, como vai?, pergunto.
Ela tenta responder, mas é ele que se chega à frente para relatar um rol interminável de queixas. Ela faz ligeiras inclinações de cabeça e pisca os olhos, para anuir.
Reparo que ele tem uma cábula na mão, para se não perder. Escreveu-a na máquina de escrever do filho, no dia anterior, para não se esquecer de NADA! Mudou a tinta para o vermelho, para chamar a atenção aos pontos principais, mas esqueceu pormenores e rasurou à mão por cima.
- Posso ficar com essas notas? É mais fácil ser eu a lê-las!
- Oh, Dr.! Fique com elas! Escrevi-as de propósito para si!
- Obrigado!
... ...

(Dada a fraca qualidade das fotos, sugere-se: 
1: clique nas imagens.
2: clique no botão direito do rato e abra-as num novo separador.
3- no novo separador, clique nas imagens para as aumentar)

segunda-feira, 12 de março de 2018

domingo, 11 de março de 2018

Polimedicação


Estávamos no tempo da “Caixa de Previdência” – seis doentes por hora, duas horas por dia, cinco dias na semana. Na prática - duas horas e meia – quinze doentes por tarde, para compensar o dia em que se faltava, por se estar no Serviço de Urgência.
Nesse dia distante de 1981, eu, para além dos meus quinze, tinha os quinze de uma colega que adoecera, e me pedira para a substituir.
Nunca fui de “despachar” doentes, pacientes, clientes ou utentes (como se lhes quiserem chamar), pois é a queixa que define o sentido da consulta e não quem a traz, embora muitas vezes seja mais importante saber que doente tem a doença, que a doença que o doente tem.
Raramente acabava no tempo previsto, situação que se complicava quando o número de utentes aumentava. O cansaço dos trinta dessa tarde de Setembro, deve-me ter levado a algumas críticas ao que entendia como ... “disfuncionalidades”. 
Lembro-me de ter comentado o grande número de medicamentos que uma doente me disse estar a tomar, de ter desistido de lhe retirar os que me pareceram desnecessários, e escrever na ficha, para minha colega se dar a esse trabalho: “Ena! Tanto comprimido!!!”

A carta que me foi entregue, dias depois, é um puxão de orelhas, que guardei, para me lembrar que há muitas realidades.
 
(Clique na imagem para a aumentar)



domingo, 4 de março de 2018

Gestão da floresta portuguesa




Avisos não faltam: 
“Os proprietários têm até 15 de Março para limpar as áreas envolventes às casas isoladas, aldeias e estradas, e, caso não o façam, ficam sujeitos a processos de contra-ordenação, com coimas que variam entre 280 e 120 mil euros”.
No que respeita a casas isoladas há que fazer a gestão de combustível numa faixa de 50 metros, mas quando se trate de “conglomerados urbanos” essa gestão, estende-se a uma largura não inferior a 100 metros.

Ligo a Televisão e ouço os deputados. Os do PS a defender o cumprimento da lei, mesmo quando se levantam vozes a alertar para as dificuldades da sua implementação no terreno, e ouço os da “oposição” preocupados com os problemas sociais dos proprietários de terrenos que se encontram nessas zonas. Ambos cheios de razões, mas nenhum com a coragem suficiente para dizer as palavras verdadeiras que lhes estão na mente e que são: “que o minifúndio na floresta não tem viabilidade e que os proprietários, ou vendem a quem tenha capacidade de gerir floresta ou se associam para a ganharem!

Mas isto é uma mudança radical para os nossos mini-proprietários, a grande maioria herdeiros já bem entrados nos anos e com a vida arrumada ao jeito de que foram capazes, e a quem as poucas centenas de Euros a que conseguirão vender as suas parcelas (à volta de 3 euros/m2) lhes não altera o viver, e manter limpos os eucaliptais, só lhes dá despesa.
Uns, nem lhes sabem os limites. Outros, ainda não fizeram partilhas mas sentem-se donos de um quinhão de uns três mil metros de mato onde predominam acácias e outras infestantes, mas que "um dia poderá ser urbanizado". Outros, perderam-lhes acesso, porque os caminhos estão atulhados pelos galhos que os madeireiros não levaram.

Dizer a essa gente que "tem de vender" porque senão o Estado os vai multar, é coisa que nenhum político ousa fazer, porque sabe que, no dia seguinte, a comunicação social vai esquecer os benefícios da gestão da floresta e passar a falar nos proprietários pobres, na sua reforma de miséria e das bouças como um complemento para alguma dignidade.

Portugal pertence a uma Europa que aposta no crescimento económico e na competitividade e que quer modernizar a exploração da sua floresta.  Ora ela só pode ser feita se deixar de estar na mão de sexagenários conformados e passar a ser gerida por quem quer fazer dela o seu futuro.

É isso que os políticos evitam dizer abertamente. Protegem-se, fazendo-o pela calada e tentam gerir o problema à medida que ele for aparecendo!