sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Família de médicos


-Oh avô, tu és médico de quê?
-De doenças do tubo digestivo!
-Estou a ver: esófago, estômago, intestino ...
-É isso! Às vezes tenho que meter um tubo para ver o intestino por dentro.
-E já encontraste cocó? ... Que nojo! ... E tu avó ... eras médica de quê?
-De doenças infecciosas!
-E que é isso?
-São doenças provocadas por bactérias, ... por vírus! ...
-Então, tu tratavas computadores??!!
-😌😌😌😌!😖😖😖😖😖😖😖!!!!!

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Sobrinho Simões

Era deste modo que o meu tio Elviro, interrompia as conversas, para lhes pôr ordem:  -Batia duas vezes com as duas mãos no tampo da mesa, e dizia: Então é assim! Dois pontos! E foi o que me apeteceu fazer depois de ler o pequenino livro do Professor Manuel Sobrinho Simões: “Os portugueses”.

Conheci-o na baliza adversária de um jogo de futebol de salão, dos “juniores” contra os “séniores” do Café, quando o seu andar de pato e o historial de bom aluno, faziam prever goleada. Ganhou a modéstia que o havia de transformar num dos “profetas” que o deus da Ciência mandou à Terra para orientar quem sofre de curiosidade pelas coisas da vida.
E foi esse mesmo deus que me fez tropeçar no último livro do Mia Couto “O universo num grão de areia” para me dar as palavras que servem perfeitamente para o definir.

Um homem bom.
...  Não existe escola maior que conhecer pessoas boas, fazedoras do bem. Conhecer uma pessoa boa é bem mais importante que todos os anos acumulados de experiência política ou profissional. As pessoas boas (querendo dizer pessoas integras, generosas, solidárias e disponíveis) deviam ser protegidas como um património da humanidade. Um património cada vez mais raro, cada vez mais em risco. Uma pessoa boa, ensina mais que todos os compêndios. Agora, que pouco restou das utopias políticas e dos valores morais que as suportavam, agora, mais que nunca, carecemos desta gente como o barco carece de um farol. Basta que tenha havido um homem como o Professor Sobrinho Simões para que acreditemos que valeu a pena. E que ainda vale a pena.

Ponto final.

Vem apresentar o livro à Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, na noite de 22 de Novembro. 

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Theo Jansen



Theo Jansen ( n: 1948) é um artista holandês que faz esculturas cinéticas em PVC

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Cleptocracias


O que deve fazer uma elite para conquistar o apoio popular?
Ao longo do tempo, os cleptocratas recorreram a uma combinação de quatro soluções:
1: Desarmar a população e armar a elite.
2: Satisfazer as massas, redistribuindo de uma forma popular uma parte do tributo recebido.
3: Utilizar o monopólio da força para promover a ordem pública e refrear a violência.
4: Elaborar uma ideologia ou uma religião que justifique a cleptocracia.

In “Armas, Germes e Aço” de Gared Diamond.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Erik Satie Trois Gymnopedies



Erik Satie (1866 – 1925), nasceu em Honfleur - Normandia - França.
As Gymnopédies, foram escritas de 1888 ..., em Paris

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Gossip


Há coisas sobre os outros que preferíamos não saber, mas quando elas vêm ter connosco, é difícil resistir a descobrir todos os porquês, principalmente quando o que está em causa é a fraqueza das Instituições.
Diz Yuval Harari que o “gossip” (a fofoca, o mexerico) é uma das principais razões para o progresso da humanidade, pois é no “diz que diz” que se fundamenta a sobrevivência da nossa espécie, ajudando na formação de amizades e hierarquias que, por sua vez, contribuem para o estabelecimento de uma ordem social.

Ora era numa dessas conversas de Café, onde uma situação lembra outra, que dois amigos juntavam razões para entender o “mau tempo” que alguém tinha dado àquela comunidade, perguntando-se   como é que a incompetência e o mau carácter podem andar por aí à solta, sem travão. Juntavam as “narrativas” que compunham o puzzle da credibilidade.
- Eu sei, de fonte segura que, em 1974, ele era cabo nos GEs, no norte de Moçambique.
- GEs? O que é isso?
- GE- Grupos Especiais. Os Grupos Especiais foram pequenas unidades de assalto, constituídas por voluntários locais, a partir de 1966, pelo Comando-Chefe das Forças Armadas Portuguesas, para actuarem na Guerra do Ultramar. Apesar de serem treinados e de operarem sob comando do Exército Português (e Força Aérea Portuguesa no caso dos GEP – Grupos Especiais Paraquedistas), os GE eram forças paramilitares, irregulares, enquadrados por graduados metropolitanos.
- Eram locais com treino de comandos!?
- Sim! Após o 25 de Abril, os GEs e demais colaboradores do Exército Português, foram perseguidos pelos movimentos de libertação e a maioria acabou fuzilada. Ele safou-se, porque se fez passar por civil e fugiu para o continente, provavelmente, com apoio de alguém da hierarquia militar.

- Mas, se ele era cabo, era suposto ter a quarta classe! Como é que se formou em Medicina?
- Essa é a questão! Se estivéssemos em presença de um indivíduo inteligente e trabalhador, tal deveria ser considerado, mas o panorama não é esse! O que consta são oportunismos e comportamentos marginais, o que torna essa hipótese pouco verosímil. Ele deve ter conseguido integração nas Forças Armadas e ajudas para poder continuar os estudos até ao canudo. E não me espanta que até tenha abichado benefícios fiscais e sociais de Deficiente das Forças Armadas. Estávamos no PREC, com os militares na mó de cima, a mexer os cordelinhos sem contenção. Foi só aproveitar as circunstâncias. Já antes do 25 de Abril, um tropa podia propor-se a exame para obter graus académicos sucessivos e houve quem completasse o Secundário em três anos e, como na Universidade podiam fazer uma cadeira por mês, houve quem se licenciasse em pouco mais de 2 anos! Pretendia-se dar oportunidade a recomeçar os estudos a quem fora obrigado a interrompê-los para ir para guerra nas colónias, mas por essa porta também entrou o “chico-esperto”. Com as Instituições fragilizadas e num clima em que por tudo e por nada se levava com o rótulo de fascista poucos se atreviam a chumbar um tropa, e o resultado foi uma chusma de doutores incompetentes, a tomar decisões irrelevantes ou erradas durante décadas.
Ainda agora muitos dos nossos governantes andam enredados com os números e descuram a qualidade, o que ficou patente quando o Sócrates apareceu com a trafulhice das “Novas Oportunidades” a dar diplomas a quem se chegou à frente, sem contar com o efeito maléfico dos impreparados na ética de qualquer profissão!

Depois, lembraram as histórias dos jogos ilícitos daquele ex-militar a “safar” mancebos da tropa a troco de milhares, as frequentes queixas de assédio sexual sobre doentes e familiares, os cambalachos com receitas falsas e um sem número de pequenas vigarices a raiar o inverosímil. De todas as tramoias, embora chamuscado, havia escapado, coisa que nem sempre acontecera a quem se viu embrulhado nos seus esquemas. Mas era a sua incompetência técnica o que mais os chocava. Vagueara por todo o sítio onde havia carências, sempre a recibo verde, e pelo tempo necessário até se descobrir o espécime que ele era, sem que uma chefia se dispusesse a questionar a sua aptidão para o exercício da função. Preferiram sempre mandá-lo à vida, mesmo sabendo que ele ia fazer miséria para outro lado.
- São os eternos problemas do país. O medo de represálias e a pouca confiança na Justiça fazem com que poucos se disponibilizem para se meter em mais sarilhos que aqueles que já têm. Temos pouca consciência de grupo. Ainda estamos na fase do “cada um por si e Deus por nós todos!” ou, quando muito, com uma mentalidade tribal, limitada às cinquenta pessoas com quem habitualmente se contacta. O outro é mais um “couto de caça” do que gente com quem se deve cooperar, e deixamos a qualidade das nossas Instituições ao cuidado de um D. Sebastião e de Nossa Senhora de Fátima.
- Razão tinha o Einstein, quando disse: The world is a dangerous place to live; not because of the people who are evil, but because of the people who don't do anything about it.

Tomaram o café e despediram-se. Estavam reformados mas tinham que fazer.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Reformado a pôr-se à prova



Pois é, Trovão! Um dia de trabalho depois, já não foges quando eu entrar na garagem, deixando-me horas a rezar para que não vás para a linha do comboio ou para a estrada, provocar um acidente. Ainda pensei chamar um carpinteiro, mas ... disse cá para mim: "Não és homem, nem és nada....!".
Ficou ... "maravilha"!


 ... Adorava frases feitas, as quais, pela sua natureza banal e vulgar, pela falta de gosto e pelo vazio que a moda lhes imputara, enervavam o jovem Hans Castorp até à medula. Dizia, por exemplo, "É o cúmulo!" ou "Não fazes a mínima!" e como, durante muito tempo, a palavra "deslumbrante" estivera nos píncaros da moda em substituição de "formidável" ou "fabuloso", se revelava agora completamente gasta, desvirtuada, prostituída e portanto antiquada, ela lançou mão do último grito, a palavra "devastador", começando a achar tudo, em tom sério ou irónico, "devastador: devastadora era a pista de trenó, a sobremesa e a temperatura do seu próprio corpo, ...
in "A Montanha Mágica" de Thomas Mann
...
eu, ... digo ... "Maravilha!"

domingo, 15 de setembro de 2019

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Girassóis

Os girassóis de Van Gogh apareceram na veiga de Carreço.

domingo, 18 de agosto de 2019

18 de mau gosto



Pum! Pum! … Pum! Pum!
- Que horas são?
- São seis e meia da manhã!
- E que dia é hoje?
- É domingo, 18 de Agosto!
- Então isto são tiros! Raça de “desporto” este de andar a matar o que resta de alguma vida independente do homem e que não lhe faz mal nenhum! Devem andar aos tiros às rolas ou às pegas, já que não vejo por aqui outra ave com algum porte. Dá vontade de ir à veiga dar-lhes um puxão de orelhas. Ainda por cima temos um Ministério do “Ambiente” que secundariza este problema.
Gosto de ver rolas, patos, galeirões, galinhas de água, pombos, codornizes, narcejas, tarambolas, galinholas, tordos, estorninhos, pegas, gralhas, faisões e perdizes. Fico feliz quando o acaso me põe um à frente, coisa que é cada vez mais rara, e dói-me saber que há uns caramelos que se atiram ao património de todos nós e os banem do nosso campo visual.
A extinção das espécies está em processo acelerado. Já foram os grandes animais, agora é o tempo dos mais pequenos e ainda por cima sem qualquer controle.
Ouve! … Outra vez! … Pum! Pum! Este já deve ter exterminado a população de rolas daqui da zona. Lembras-te daquela comunidade de pegas que havia na veiga, quem vai para a praia de Carreço? Se ainda não foi, deve estar na calha! Dá vontade de telefonar aos GIPS da GNR para ver quanta e que bicharada ele já abateu.
- Fala-se das touradas, onde o bicho é criado para aquele propósito, mas pouco se fala dos caçadores. Raio de “desporto”!

sábado, 17 de agosto de 2019

Game of Thrones



- O amor é mais poderoso que a razão.
- O amor é a morte do dever!
- Às vezes, o dever é a morte do amor!
...
O que une as pessoas? Exércitos? Ouro? Bandeiras?  Não! … Histórias! Não há nada mais poderoso no mundo que uma boa história! Ninguém a pode parar. Nenhum inimigo a pode derrotar.
...

In Game of Thrones (2011) S08E06

Uma série de muitas horas e de muitos conceitos úteis, principalmente veiculados pelo meu personagem preferido -  o "wimp" Tyrion Lannister (Peter Hayden Dinklage)

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Terapêutica genética





O princípio de uma revolução.

domingo, 28 de julho de 2019

Atahualpa




O momento mais dramático entre europeus e nativos americanos, foi o primeiro encontro entre o imperador inca Atahualpa e o conquistador espanhol Francisco Pizarro, na cidade de Cajamarca, nas montanhas peruanas, a 16 de novembro de 1532.

Atauhalpa era o líder absoluto da maior e mais avançada sociedade do Novo Mundo, enquanto Pizarro representava o sacro-imperador romano Carlos V (Carlos I em Espanha), monarca do mais poderoso estado europeu.

À frente de um exército de cento e setenta e oito soldados espanhóis, Pizarro encontrava-se num território desconhecido e nada sabia sobre os habitantes locais. … Atahualpa estava no seu império de milhões de súbitos, com um exército de oitenta mil soldados. Mesmo assim Pizarro capturou Atahualpa poucos minutos depois de os dois líderes se terem entreolhado.
Pizarro manteve o seu prisioneiro cativo durante oito meses e exigiu o maior resgate de sempre em troca da garantia de libertação. Após o resgate – ouro suficiente para encher um compartimento de sete metros de comprimento por cinco de largura e dois e meio de altura – lhe ter sido entregue, Pizarro ignorou a promessa e executou Atahualpa.


Segundo os relatos escritos por companheiros de Pizarro, entre eles os irmãos Pedro e Hernandez, testemunhas em primeira mão:

Pizarro queria obter informações de alguns índios e por isso mandou-os torturar. Eles confessaram ter sabido que Atahualpa os esperava em Cajamarca.

No dia seguinte chegou-nos um mensageiro de Atahualpa e Pizarro indicou-lhe: “Diz ao teu senhor que venha quando e como lhe aprouver e que, venha como vier, o receberei como amigo e meu irmão. Rezo para que venha depressa, pois desejo vê-lo. Nenhum mal ou injúria lhe serão dirigidos”.
...
Pizarro escondeu as tropas à volta da praça de Cajamarca. Dividiu a cavalaria em duas partes e entregou o comando de uma ao seu irmão Hernando e da outra a Hernandez de Soto. Dividiu também a infantaria, ficando ele com uma parte e entregou a outra ao irmão Juan Pizarro. Ordenou ainda a Pedro de Candia e a dois ou três soldados de infantaria que fossem com clarins para uma pequena fortificação na praça, onde deveriam ficar com uma pequena peça de artilharia.

Ao meio-dia, Atahualpa aproximou-se com os seus soldados. A quantidade de objectos de ouro e prata que traziam era imensa. Atahualpa, vinha numa liteira magnífica, carregada aos ombros por oitenta homens, envergando riquíssimas indumentárias azuis.


Entretanto, nós esperávamos, prontos a agir, ocultos num pátio, cheios de receio.

Pizarro enviou então Frei Vicente de Valverde para falar com Atahualpa, para lhe pedir, em nome de Deus e do rei de Espanha, que se submetesse à lei de Nosso Senhor Jesus Cristo e ao serviço de Sua Majestade, o rei de Espanha. Avançando com um cruz na mão e a Bíblia na outra, passando entre os soldados índios até onde se encontrava Atahualpa, o frade dirigiu-se-lhe assim: “ Sou um sacerdote de Deus Nosso Senhor e ensino aos cristãos as coisas do Senhor, e isso mesmo te venho ensinar a ti. O que eu ensino é aquilo que Deus nos diz neste Livro. Portanto, da parte de Deus e dos cristãos, rogo-te que sejas Seu amigo, pois tal é a vontade de Deus e será para teu bem!”

Atahualpa pediu o livro, para o poder examinar, ao que o frade lho entregou fechado. Atahualpa não sabia abrir o Livro e o frade estendeu o braço para o fazer, quando Atahualpa, lhe deu uma pancada no braço, não querendo que o Livro fosse por ele aberto. Depois abriu-o ele mesmo e, sem qualquer espanto perante as letras e o papel, atirou-o a uma distância de cinco ou seis passos.

O frade voltou-se para Pizarro, gritando: “Venham! venham, cristãos! Venham contra estes cães que rejeitam as coisas de Deus. Este tirano atirou o meu livro da Lei Sagrada ao chão! Não viram o que fez? Para quê ser educado e servil com este cão sarnento? Avancem contra ele, pois eu vos absolvo!”

Então Pizarro fez sinal a Candia que começou a disparar as armas. Ao mesmo tempo fizeram-se ouvir os clarins e as tropas espanholas nas suas armaduras, tanto a cavalaria como a infantaria, saíram dos seus esconderijos a caminho da massa de índios desarmados que se apinhavam na praça, bradando o grito de guerra espanhol “Santiago!”. Tínhamos prendido guizos aos cavalos para atemorizar os índios. O troar das bocas de fogo, a estridência dos clarins e os chocalhos dos cavalos lançaram os índios numa confusão de pânico. Os espanhóis caíram sobre eles e começaram a esquartejá-los. Os índios estavam tão apavorados que se pisotearam uns aos outros, sufocando-se mutuamente. Como estavam desarmados, puderam ser atacados sem risco para qualquer cristão. A cavalaria derrubou-os com as montadas, matando-os, ferindo-os e caçando-os. A infantaria levou a um ataque tão violento sobre os que ficaram que rapidamente a maior parte foi passada a fio de espada.

Pizarro com a ajuda de sete ou oito espanhóis montados, chegou à liteira de Atahualpa e agarrou-o com toda a coragem, capturaram-no e mataram todos os índios que o escoltavam.

Depois Pizarro disse a Atahualpa: “Não vejas como um insulto o facto de teres sido derrotado e feito prisioneiro. Foi o rei de Espanha que nos mandou conquistar esta terra para que todos possam ter conhecimento de Deus e da Sua Sagrada Fé Católica; e por causa da nossa boa missão, Deus Nosso Senhor, Criador do céu e da terra e de todas as coisas que nela existem, permite que assim seja, para que tu O possas conhecer e deixes a vida selvagem e demoníaca que tens levado. Quando vires os erros com os quais tens vivido, compreenderás o bem que te fizemos ao virmos para a tua terra, por ordem de Sua Majestade, o rei de Espanha. O Nosso Senhor permitiu que o teu orgulho fosse esmagado e fez com que nenhum índio pudesse vir a ofender um cristão.”

in "Armas, Germes e Aço" de Jared Diamond

quinta-feira, 25 de julho de 2019

O porteiro


Desta vez foi a Cristina. A Ferreira. A que grita. Era ela que ocupava o ecrã, sintonizado na SIC. Apesar do som baixo, sobressaía a estridência da voz que, no entanto, se mantinha indiscernível, enquanto em rodapé se salientavam as desditas das entrevistadas que tinham tido cancro do colo do útero e expunham a sua vida à curiosidade dos espectadores ociosos da manhã ou, como eu, presos nas malhas das idas ao hospital, por acidentais quedas alheias.
Tirando isto, o ambiente era o mesmo. As mesmas cadeiras incrivelmente desconfortáveis, o ronronar da máquina da comida, o passo cadenciado dos profissionais, as suas conversas fragmentadas.
Para conseguir a minha pulseira roxa, já tinha estado 20 minutos na fila admissão ao Serviço de Urgência, juntamente com aqueles que aí iam por um motivo de saúde. Dava para ver que a sala de espera estava repleta, com grande parte lugares ocupados por membros de uma mesma família. Eram seis mulheres que vestiam calças justas, coloridas, até meio da canela e que deixavam bem patente a distribuição do excesso de gordura corporal.  À volta delas gravitavam quatro crianças entre 1 e 10 anos manobrando um triciclo de plástico entre pernas de cadeiras e pernas de pessoas, algumas de chupeta na boca, uma de chaves ao pescoço. Mas tudo em boa ordem e em silêncio.
O tempo de espera é …tempo de espera… e quando sabemos que as situações estão controladas. é mais fácil.

O que achei interessante de verificar foi a competência e simpatia do pessoal médico, de enfermagem e auxiliar com que me cruzei, em contraste com a postura de distância e sobranceria dos agentes da empresa de segurança, contratada pelo hospital, que delimitam os espaços com as suas pernas abertas, braços cruzados de bíceps bem delineados, três bolas vermelhas bordadas na camisa cinzenta e olhar sobranceiro de olhos semicerrados, que se salienta quando lhes peço uma informação. Não são informadores…e remetem-me para uma fila qualquer. Quando lhes digo, em jeito de pedido, que vou precisar de ajuda para tirar o meu pai da cadeira de rodas, respondem-me com um subtil, quase imperceptível, levantar de uma comissura labial, que talvez se encontrar um auxiliar por aí, ele me possa ajudar.
A figura do porteiro que conhecia o pessoal, que sabia dar informações, que dizia bom dia, boa tarde e até amanhã, que tomava conta de um recado se alguém precisasse, que guardava uma encomenda para levantar à saída, que dava uma mãozinha para subir o degrau,… desapareceu.
É sabido que tinham imensos defeitos e, como todos os porteiros, partilhavam informações da forma que entendiam e talvez alguns com isso lucrassem. Envelheciam nos lugares e, enquanto perdiam capacidades físicas, tornavam-se mais manhosos e alguns mais sábios.
Mas não são os nossos defeitos que nos humanizam?
Esta imagem musculada de “segurança”, treinada para ser fria, anónima, indiferente, impessoal, rotativa para não criar laços, será necessária?

Quando comecei a trabalhar havia um hospital com médicos, enfermeiros, auxiliares e administrativos… agora é uma empresa com colaboradores;
Tratávamos doentes e passámos a trabalhar com utentes;
Tínhamos uma agenda e passámos a ter um “sistema” que, quando fica “em baixo”, deixa todos de braços cruzados a aguardar que o informático resolva.
Assinávamos o ponto na sala do Enfermeiro Chefe, a quem dávamos um bom dia e uma frase de circunstância antes de tomar o pulso à jornada e passámos a “pôr o dedo”;
O horário passou a contar-se em horas de trabalho efectivo e em horas de bolsa, que podem ser generosamente geridas pelos directores, atribuindo-lhes valor temporal ou material;
Escrevíamos os diários, fazíamos resumos e revisões terapêuticas e passámos a fazer “copy paste”, quantas vezes de modo despudorado, repetindo erros não verificados;
Líamos as notas de enfermagem que traduziam o sentir de quem cuidou e vigiou na nossa ausência, e passámos a ter check lists ilegíveis;
Tínhamos gráficos de temperatura e passámos a ter listas de temperaturas sem o impacto visual de uma imagem;
Telefonávamos ao colega para expor um caso ou colocar uma dúvida, e passámos a enviar um mail;
As horas a que os registos foram efectuados passaram a ser mais importantes que os próprios registos e ganharam a dimensão de provas de defesa em tribunal, na certeza de que mais tarde ou mais cedo a todos vai acontecer;
Muitas coisas melhoraram: a eficiência, a gestão de recursos, o controlo do desperdício, supostamente a transparência dos actos… Mas pagamos um preço elevado que tanto afecta profissionais como doentes e seus familiares. Quando entramos num hospital, seja em trabalho ou na doença, não deixamos de ser nós próprios com os nossos medos, inseguranças, alegrias e frustrações. O sentir que são pessoas a trabalhar com pessoas, que a compaixão pelo sofrimento não se deve perder, apesar da frieza dos écrans de computadores que se interpõe na comunicação e dos braços cruzados de seguranças altivos.

Disse.

Texto de M.H.S.G.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Campeões do Mundo


De um jogo que se joga em Portugal, em duas províncias de Espanha, em meia dúzia de vilas de dois outros países e nuns bairros de outros tantos.

Seja como for:
PARABÉNS!!!!!