sábado, 19 de novembro de 2016

Conversa de enfermaria


- Bom dia, Sr. Dr.! Está muito ocupado?
- Bom dia! Dona Maria! Esteja à vontade. Em que lhe posso ser útil?
- É que eu precisava de uma vassoura!
- Uma vassoura? Para quê?
- Para varrer umas coisas ali ao fundo. A parede ganhou salitre e aquele pó cai para o chão e suja tudo! Mas não queria uma vassoura de cabo partido. Queria uma vassoura com ele inteiro.
- Está bem! Eu vou ver o que se pode arranjar!

A dona Maria tem setenta anos e um tumor cerebral. Embora tenha melhorado, tem frequentes períodos de confusão.

- E a dona Maria tem passado bem?, pergunto, para avaliar alguma necessidade mais urgente.
- Esta noite dormi muito mal. A minha mãe veio dormir comigo. Apareceu sem dizer nada e meteu-se na minha cama. Pensei “olha, veio!”, e ... lá ficámos. A meio da noite acordei e ela não estava ao meu lado. E pensei: “é porque foi ao quarto de banho fazer xixi!”. Como não vinha, puxei aquela coisa que põe a luzinha acesa e fui à procura dela. Dei uma volta sem a encontrar e pensei: “já deve ter ido para a cama!”, mas quando lá cheguei, os lençóis estavam todos emaranhados e ela não estava. Então, fui assim, com a mão … a ver, e veio-me uma cara com um nariz muito grande e uns pelos grossos e feios. Era aquele que anda ali, que se foi meter na minha cama! (e apontou para a enfermaria, na direcção de um idoso pouco sociável que, de vez em quando, é preciso sedar para não bater nos outros), e continuou: - Como não me ia meter na cama com ele, fui por ali adiante, à procura de uma cama vazia. Quando encontrei uma, deitei-me. Mas dormi mal! A cama era muito alta e eu não consegui metê-la para baixo. Tive de puxar uma cadeira para subir.

- Dona Maria! Venha comigo, que eu levo-a ao seu quarto e ensino-lhe a baixar a cama. Pelo caminho, vamos ver se encontramos alguém que lhe possa dar um pouco de atenção!
...

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Lobo Antunes

video
João Lobo Antunes (1944-2016), médico, neurocirurgião, humanista. Um homem que atingiu o topo, sem deixar de ter os pés na terra. Alguém que nos fez sentir desconfortáveis com as suas inquietações. 

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Sermão da Montanha


Felizes os pobres de espírito, porque confiam no que lhes dizem;
Felizes os mansos, porque se conformam com qualquer coisa;
Felizes os crentes, porque a ilusão os cega da realidade;
Felizes os que trabalham das nove às cinco, porque não têm tempo para pensar;
Felizes os que têm SportTV, porque se podem alienar com o futebol.

Bem-aventurados os que vivem no mercado negro, porque os impostos não lhes pesam;
Bem-aventurados os que têm dinheiro em offshores, porque podem ser reis nos países pobres;
Bem-aventurados os que vivem das heranças, porque têm tempo fora do trabalho;
Bem-aventurados os robustos, porque secundarizam os custos da Saúde.

Regozijai-vos e exultai, porque grande é o vosso galardão!


Mas ai de vós, que sois pobres! Porque pouca será a vossa consolação;
Ai de vós, os famintos! porque vos estarão reservadas as sobras deste mundo;
Ai de vós os que choram! porque haveis sempre a lamentar não terdes tido infância;
Ai de vós, os aflitos! porque nunca sereis consolados;
Ai de vós, os perseguidos! porque nunca alcançareis misericórdia;
Aí de vós, os que têm problemas ecológicos! porque ireis assistir à derrocada do pouco que conquistastes;
Aí de vós, os que amam a paz! porque ireis ouvir mais trombetas a soar.

Digo, porém, a vós que me ouvis:

Vigiai os vossos inimigos e atentai aos que vos maldizem e, se algum vos bater numa face, dai-lhe um pontapé; e ao que te rouba a capa, atira-lhe um paralelo;
Não empresteis a quem não esperais receber; e ao que vos pede, mandai-o trabalhar;
Não temais ser julgados, porque há sempre um hiato na lei a explorar;
Anotai com pormenor o argueiro no olho de vizinho, pois pode ser esse o argumento para o vencer.

E ... como não se colhem figos dos espinheiros, nem dos abrolhos se vindimam uvas, estai atentos a todos os pomares, e convencei-vos que toda a grande transgressão será perdoada e o pecado coberto, porque só os ímpios prosperam neste mundo.

Ámen

domingo, 6 de novembro de 2016

Lembranças do Olimpo (21)


Hipólito regressou a casa tentando identificar as árvores por que passava. Carvalhos, castanheiros, faias, salgueiros, cedros, medronheiros, bétulas, eram fáceis. Outras obrigavam-no a parar. Pena não ter trazido o livrinho das autóctones, pensava, embora, mesmo com ele, algumas, por serem de outras regiões ou lhe faltarem elementos distintivos, como frutos, flores e até folhas, ficassem para outras alturas.
Desde pequeno que a natureza lhe despertava curiosidade, fossem seres animados ou rochas. Lembrava-se ainda do espanto com que vira, pela primeira vez, os rifts do fundo do mar que estão na origem da tectónica das placas e também de um livrinho sobre Darwin que o tirara das limitações das crenças religiosas, mas fora o funcionamento do corpo humano, na saúde e na doença, que acabou por vencer e orientá-lo para a profissão.
Embora a teoria lhe interessasse, era pela prática que se media, sem se impressionar com quem recitava de cor as mais recentes “guidelines” e fugia da proximidade dos doentes, nem com quem entendia os actos médicos, como actos de piedade, e escondia a incompetência debaixo de um discurso pseudo-ético-religioso, parasita do trabalho dos pares. Admirava, acima de tudo, um diagnóstico difícil, principalmente se feito com recursos limitados, a que se seguia uma terapêutica eficaz. Era aí que punha a tónica da profissão, embora nunca descurasse o respeito por quem sofre o infortúnio de uma doença.

Chegou a casa cansado. Procurou no frigorífico uns restos que pudessem servir para um almoço tardio, aqueceu-os e acompanhou-os com uma cerveja gelada. Depois estendeu-se na sua Lounge Chair, e adormeceu. Foi nessa precisa altura que Zeus lhe apareceu.

- Que é feito de si, meu amigo!?, perguntou Hipólito, satisfeito, enquanto se endireitava na cadeira e lhe oferecia o "ottoman". – Há meses que não sei nada de vós! Como é que se dão pelo vosso novo planeta?
Zeus sorriu. Já não se vestia à antiga, com o quiton branco. Agora usava calças e uma jaqueta em couro duro, azul-cobalto de tons iridescentes, qual exosqueleto de um insecto, que em nada lhe limitava os movimentos. Na mão mantinha o raio azul e na cabeça os longos cabelos e a barba não escondiam quem ele era.
- Estamos todos bem e activos!, respondeu. –Deixámos de ser deuses de uma só espécie e agora somos deuses de todos os seres vivos daquele planeta. É curioso como aquilo que parecia ser uma carga de trabalhos, nos deu tranquilidade. Já não temos só a forma humana. Agora, ao aproximarmo-nos das diferentes formas de vida, assumimos as suas configurações e tentamos entender-lhes as angústias e expectativas, para as ajudar a aceitar limitações e assim não serem vítimas dos seus desejos. Olhe! O Dionísio, que era Deus do vinho e da vegetação, agora virou entomologista e passa a vida à volta das abelhas e das formigas. Qualquer dia até se esquece do que são uvas. O Eros, de Deus do Amor e do Desejo, agora, interessa-se por harmonizar os movimentos dos asteróides para que as colisões não sejam só obra do Acaso, e o Ares deixou as guerras e agora dedica-se ao jornalismo. Está entusiasmadíssimo com a capacidade de criar movimentos populacionais com as notícias, sejam elas verdadeiras ou falsas. Diverte-se imenso. No outro dia noticiou lá o “Calcitrin MD Rapid” como um medicamento “muito bom para os ossos”, esquecendo-se que aqueles seres têm por base o silício e não o carbono. Muito nos rimos! … Está um “bem-disposto”! Mas a maior parte das notícias que cria, são mais dirigidas a fabricar futuros que a registar o passado. Tem tido imenso sucesso! Agora anda a dedicar-se à necrologia. Sempre que morre um ser vivo, ele inventa-lhe um passado cheio de dignidades, que possa servir de inspiração aos outros seres da sua espécie, para estimular vidas consonantes com os outros seres daquele planeta. Qualquer dia perdem a angústia com a morte e deixam de se virar para nós!, sorriu, enquanto dava um jeito aos cabelos que lhe caíam para a frente dos olhos.

- Pelo que contas, não vejo que estejam a perspectivar um regresso à Terra!, perguntou, como quem afirma, o médico.
Zeus levantou-se, passeou um pouco pela sala, como a admirar os bibelots que repousavam sobre os móveis e continuou, ignorando a interrupção.
- Até a minha mulher está diferente. Ela tinha obsessão por tudo o que se relacionava com sexo. Se eu saísse para fora do seu olhar, ficava inquieta. Tinha uns ciúmes de morte! Naquele planeta fomos obrigados a rever o nosso conceito de “individualidade”, pois o seu sistema combate os extremos, impedindo, em todas as espécies, os muito ricos e os muito pobres, sem contudo impedir que cada um se possa realizar de acordo com as suas potencialidades. Até as grandes árvores têm de deixar passar a luz para que as mais pequenas possam crescer e, se já forem muitas a ocupar um espaço escasso, têm de aceitar não produzir mais sementes.
O Acaso é o único que pode fazer o que quiser, porque é de “outro campeonato”! Naquele planeta é ele o responsável pelos acidentes, dos domésticos aos provocados pela actividade tectónica (tsunamis, terramotos e vulcões). O Hefesto teve de se conformar e, agora, dedica-se à microbiologia. O seu maior trabalho é convencer as bactérias mais patogénicas a só atacarem quando os seres vivos morrem, por velhice ou por obra do Acaso.

- Interessante!, confirmou o médico. – Sinto no teu falar grande satisfação com o que ali encontraste. Parece ser tudo muito “cool”! Mas está-me aqui a parecer que, se a coisa se passar sempre como descreves, daqui a uns anos, vais achar esse planeta muito parado e vais ter saudades da Terra onde estão sempre a acontecer coisas novas. A não ser que o Acaso não durma e faça a vida negra a todos os seres vivos!
- Para já está a ser bom! É como nos Hotéis “cinco estrelas”. O horário de trabalho é de vinte horas por semana e mesmo assim o maior problema é o desemprego. É necessário inventar muitos factos para os manter entretidos a conversar uns com os outros, mas nisso o Ares tem-se mostrado um Às!
Olha, Hipólito! Vou ter que voltar. O Dionísio não está a conseguir fazer com que a lagarta mineira deixe de atacar os citrinos, e ele não frequentou o curso de aplicação de produtos fitofarmacêuticos. Vou ter de o ajudar. Fica bem!
- Até uma próxima!, respondeu o médico. – E volta sempre! Dá os meus cumprimentos a toda essa malta olímpica e um abraço especial à tua mulher, que é uma santa, que mais não seja por te aturar!

E, dito isto, Hipólito acordou com a sensação de estar envolto numa nuvem com um leve cheiro a enxofre. Esfregou os olhos e olhou para o relógio. Eram quase sete da tarde e a mulher ainda não tinha chegado.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Mário Viegas - "Os ais"



"A cantiga dos ais" de Armindo Mendes de Carvalho - (1927-1988),

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Humm Hamm


-Olha lá! Hás-de ver aquilo ali da cara da tua mãe. Tenho posto muito creme, mas está cada vez pior!
-OUTRA VEZ!?
Confesso que reagi assim. Volta meia volta lá vem a conversa da lesão da face. Hoje tem, amanhã não é importante…, afinal tem, afinal não era nada e já está melhor…
Eu sempre fui olhando e o aspecto nunca me impressionou. Mas desta vez saquei do telefone e logo ali agendei uma consulta de Dermatologia para 5ª feira, no hospital privado. Afinal tem que se pôr a render a ADSE. Não fico a dever favores a ninguém. poupo uma ida ao Hospital público e acabo com esta cena de uma vez por todas.
-Humm, Hamm, Humm! Achas mesmo que é necessário?
- Agora vai. Queiras ou não!

Dois dias antes da consulta:
-Olha lá! Afinal não é necessário levares a tua mãe à consulta de Dermatologia. Tenho posto bastante creme e já quase não se nota.
-Agora vai!, respondi, seca como só eu sei ser.
-Humm, Hamm, Humm, Hamm! É que ouvi um programa na televisão sobre infecção hospitalar. Não sei se sabes mas morrem mais pessoas de infecção com bactérias hospitalares do que de acidentes de automóvel e eu não quero ir ao hospital e vir de lá mais doente porque os profissionais não lavam as mãos e não mudam de roupa. Isto nos hospitais está muito mal! Eu ouvi e acho uma pouca vergonha, ...blá, blá…
Vesti-me de paciência e dissertei sobre infecção hospitalar…
- Hummm,…Hammm,…Hummm! Bem, vamos lá… se tu dizes!.

Chegado o dia e, bem antes da hora marcada, chegamos ao hospital para termos tempo de procurar o local e ultrapassar todos os obstáculos previsíveis, desde o estacionamento até as burocracias inerentes ao registo.
Sentados na sala de espera tentei a minha sorte:
- Entro eu ou entras tu com a mãe?
- Humm, Hammm, Humm! Porquê? Não podemos entrar os dois? Hummm, Hammm, Humm! Está bem vai tu! Mas eu quero saber tudo!
Estratégia definida e já em castelhano sonoro se ouvia: Maria Antonieta

A dita levantou-se pesarosa como se fosse para o cadafalso. Ombros tombados, sobrancelhas caídas a acompanhar o arco descendente das comissuras labiais A carteira pendia do braço prestes a despenhar-se. Olhos em alvo, como só ela sabe fazer, mal cumprimentou o médico que, no seu melhor castelhano, a mandou sentar.
-Entonces de que se queixa?, perguntou, falando muito alto e com a boca aberta, tal como nós fazemos quando falamos castelhano.
Sem falar, apontou com a unha do indicador, impecavelmente rubra, a lesão da face… O olhar mantinha a gravidade no acto…olhos em alvo.
De um pulo o Doutor saca da lupa e assesta-a na lesão e, de imediato, grita:
-No tem problema! Es benigno. No es maligno, nem nunca va a ser! No tem problema! Pode descansar! Se quiera podemos sacar, mas fica una mancha! Es igual!
Agora já os olhos da paciente retomam a linha do horizonte e ainda de lábios cerrados, levanta os dedos unidos que abre e fecha à face do doutor.
-Tienes medo!? No tengas! No es nem va a ser malo!.
Nestes 3 segundos estava concluída a consulta mas ainda consegui pedir ao doutor para repetir ao meu pai as boas notícias. Que sim, mas fez-me sentir que teria de ser rápido.

Lá o trouxe até ao consultório e quase consegui que não se sentasse. Repetiu então o médico a boa frase, no mesmo tom de voz, como se fossemos todos portugueses a falar espanhol com a boca aberta.
-Humm, hamm, hummm, hamm! Eu tenho posto bastante creme…
-Vamos lá que está tudo bem!, disse eu enquanto o levantava para o empurrar porta fora.
-Hummm, hammm! O sr. dr. não é português?
-No! Espanhol!
E já com o corpo fora do consultório – Hummm, Hammm! Então quer dizer que não é psoríase?? ... Ainda bem!


Texto de Helena Gomes (
my sister)

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Piloto



O Piloto apareceu na minha pensão em Aveiro. Entrou a cavalo e passeou-se pelos corredores com a cabeça baixa, para não ser reconhecido, como se um tipo com ar de caubói (até lenço no pescoço trazia) pudesse passar despercebido. Chegou ao fim do corredor (eu estava no piso de cima, consegui ver tudo com clareza), olhou cabisbaixo para os lados, deu meia volta, atravessou novamente o corredor vagarosamente e saiu pela porta por onde 3 minutos antes havia entrado. Não houve azáfama, toda a gente o viu e todos continuaram seu ritmo lento de se mover pelo espaço.
Enquanto me dirigo para o quarto (é capaz de ser boa ideia antes que isto dê para o torto) constato que estou a ser preconceituosa. É que eu devo ser a única portuguesa que não sabe a cara do piloto (estou fora do país e sou mais de ouvir as notícias) e em Portugal os 'most wanted' não aparecem nos pacotes de leite. Estou claramente a fazer a generalização piloto, caubói, Malboro man, é tudo a mesma coisa - nunca fiar!
Quando chego ao quarto, reparo que infelizmente este não tem paredes, mas antes umas grades baixas, estilo coreto, e que tem até a forma arredondada. Reparo também que, como é costume, é um quarto partilhado e assim, a grosso modo, estamos lá cerca de 15 e um cão. Surpreendentemente, não há camas. As única peças de mobiliário são uns bancos espalhados, aleatoriamente, pelo espaço vazio. Desvio com jeitinho o cão, e sento-me ao lado do velho que deve ser seu dono. Olho à volta. Está tudo como eu, à espera que aconteça alguma coisa, à excepção do cão que, depois do meu empurrão, já encontrou novo espaço e está novamente enrolado a dormir. É então que vemos o caubói subir as escadas. Desta vez sem cavalo, mas exactamente ao mesmo ritmo pesaroso. Esta coisa de não haver paredes dá para os dois lados - se por um é óptimo, porque o vemos mal ele chega ao primeiro piso, por outro ele também está de olho em nós mal põe o pé no último degrau das escadas. Obviamente, ou não fosse eu uma tipa cheia de sorte, ele dirige-se para o meu quarto. As pessoas começam encostar-se umas às outras. Uma mãe abraça uma criança pequena. Eu encosto-me um pouco mais ao cão que apenas levanta a orelha e a pálpebra direitas e me olha de soslaio como quem diz não sei o que se está a passar, mas já estás a abusar. Olho para o velho - olha para os sapatos rotos sem vontade nenhuma de daí tirar os olhos. Tento elaborar, sem levantar sobrolho, um discreto plano de fuga, mas este é sempre mais difícil em áreas pi ao quadrado, sem esquinas obscuras ou cantos refundidos, e, ainda antes ainda de me imaginar a fazer uma pirueta e um mortal à retaguarda por cima das grades do quarto, ouço uma voz metálica a chamar baixinho, com sotaque estranho 'Helêna'. Pára-se-me o coração. Já fui! É sempre a mesma coisa! Olho para o caubói e reparo que também ele está com um ar perdido, à procura da origem da voz. Não me mexo, pode ser que ninguém saiba que me chamo Helena ou que haja outra 'Helêna' na sala. Entretanto, o 'Helêna' ouve-se outra vez, mais forte, e, desta vez, toda a gente olha para mim.
Fecho os olhos com força e torno-me religiosa por uns segundos a pedir a dEUS que não me mate já. Abro os olhos e, felizmente, acordo.
A senhora R chama outra vez o meu nome pelo intercomunicador. Salto da cama e corro para a lhe dar o braço. São 6 da manhã na Inglaterra. Tudo certo. dEUS existe e safou-me desta.



Texto de Helena Ferreira Gomes (
my daughter)

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Aplicações de Telemóvel



- Dr.! Está um “verde” na Sala de Espera, a aguardar Medicina, que está muito ansioso. É melhor ver o que se passa. Já começou a disparatar e eu temo que vá causar mais confusão do que aquela que já temos, se não for atendido rapidamente.
- Há três laranjas em lista de espera para Medicina Interna, mas mande lá entrar o homem, não vá haver razões para tanto nervoso!
Olho para o écran e procuro um “verde”. É uma transferência. Já foi observado pela Triagem Geral. Registou-se à uma da madrugada, e foi encaminhado para Medicina pouco antes das oito, depois de ter efectuado análises.

A Triagem de Manchester tem destas coisas. Se estiverem a entrar “vermelhos” ou “laranjas” com regularidade, os tempos de espera dos doentes a quem foram atribuídas outras cores começam a ser ultrapassados, e como os “verdes” são “pouco urgentes”, são frequentemente entendidos como “azuis” - “nada urgentes” e só são observados quando já não há outras prioridades.

São nove horas, quando o chamo.
Entra um jovem na casa dos 20 anos. Cabelo rapado dos lados e um tufo no cocuruto. Camisa branca desabotoada a partir do meio, manga dobrada, jeans que deixam ver os tornozelos, sapatos de matar a barata no canto em couro castanho claro e uma pequena sacola a tiracolo de sarja amarela.
- Faz favor de se sentar! O que se passa?
Recusa sentar-se de imediato, para se queixar do tempo de espera. É brasileiro e está em Portugal há uma semana. Veio ao Serviço de Urgência porque teve uma relação com um parceiro HIV-positivo e, no final, rompeu o preservativo. Está zangado, porque ainda não foi medicado e sabe que há uma janela temporal para que esse tratamento possa ser eficaz, em caso de contágio.

- Já percebi o seu problema, mas entenda que, durante a noite, há funcionalidades que se perdem num Serviço de Urgência e, no seu caso concreto, a eficácia da profilaxia pós-exposição mantém-se durante 72h. Por isso, temos tempo para avaliar correctamente a situação, antes de iniciar qualquer atitude.
Já mais calmo, o homem senta-se.
- Então vamos lá ver. O senhor disse que o seu parceiro era VIH-positivo!?
- Sim! Foi ele que o disse, quando rompeu o preservativo. Eu antes não o sabia. Se eu o soubesse não me tinha metido com ele!
- E como é que ele se chama?, pergunto na esperança de conseguir ver no S.Clínico alguma informação sobre o estadio da doença e da carga vírica do parceiro.
- Não sei!, responde. – Sei só que se chama Manuel! Mais nada!, e depois virando para mim o écran do smartphone. – Também posso lhe mostrar a cara! É este!
- Oh! Homem! Vire isso para lá, não vá eu até reconhecê-lo! Mas o senhor mete-se numa aventura destas e não sabe o nome dele?
- Não! Eu pus três aplicações no telefone e apareceu ele! Só sei o primeiro nome e sei a cara dele! Quando ele disse que o preservativo rompeu, fiquei em pânico e fui à Farmácia pedir o tratamento. E sabe o que o farmacêutico me deu??? ... Sabe!? … A pílula do dia seguinte, para não engravidar! … Você acredita!!!!, e gesticulava virando as palmas das mãos e os olhos para o céu. - Deus do Céu!! A pílula! Eu sou HOMEM! Santo Deus!, e repetia os gestos, incrédulo, para depois se recostar na cadeira, simulando exaustão.
- Tenha calma, que o farmacêutico não deve ter percebido que você estava numa relação homossexual e talvez tivesse entendido que estava preocupado com o risco de a gravidez indesejada de uma sua parceira!, respondo, para amenizar uma eventual provocação, e continuo. - Vou pedir ao laboratório para completar as suas análises e marcar-lhe uma Consulta para daqui a um mês. Quanto ao tratamento, vai ter que aguardar mais um pouco porque temos de o pedir à Farmácia do Hospital. Espere um pouco naquela salinha, ali ao fundo, que quando estiver tudo pronto, vou ter consigo! OK!

….

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Mulheres



Há as "bem boas" de Ermesinde
e as foleiras do Bolhão!
Há as das Antas, as da Linha
As de Faro e de Monção!

Há as malvadas, complexadas,
que não perdoam nem esquecem.
Há as que “falam senão rebentam!”
E as que fingem que obedecem!

Há as que se matam para agradar
e se condenam de antemão.
Há as desprevenidas, que não reagem
A quem é fácil dizer não!

Há as de suspiros vulneráveis
a caprichar no visual.
E há infantas guerreiras
Neste nosso Portugal!

Há inteligentes e poderosas
e outras que se reinventam.
Há as que têm muita fé
E que com pouco se contentam!

Há mulheres fatais perversas
que abusam da indiferença.
Há as feiticeiras sensuais
à espera do Amor, a recompensa!

Há as belas, as amarelas,
as puras e as inseguras.
As que posam p'rá a Play Boy
E as que causam desventuras!

E … por fim, hás ... tu, ...
que lês isto e que m'aturas!!

Bem Hajas!

sábado, 15 de outubro de 2016

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Sapiens




Yuval Noah Harari é historiador, investigador e professor de História na Universidade Hebraica de Jerusalém. É Doutorado em História pela Universidade de Oxford.

Este livro é um relato electrizante sobre a aventura da nossa espécie – de primatas insignificantes a senhores do mundo, que nos faz questionar a história do homem, as suas conquistas, religiões, filosofias e progresso tecnológico. Um livro imperdível para quem gosta de pensar, que impressiona pela quantidade de informação, oferecida em linguagem acessível e espirituosa.

Sapiens foi lançado, em 2011, em Israel. É um best-seller internacional. Está publicado em quase quarenta países...

sábado, 8 de outubro de 2016

Lembranças do Olimpo (20)


Hipólito andou ao longo da orla do mar, subiu as dunas, depois uns rochedos e meteu-se pela veiga até à povoação mais próxima. Uma boa hora e meia com passo estugado.
Levara na cabeça um Panamá fino, que o protegia daquele forte sol de Setembro, mas esquecera a água e, no fim do caminho, a sede obstinava-o para uma qualquer fonte ou Café onde a pudesse satisfazer.
A terriola parecia deserta e, não fora o ruído de um prato a partir-se, passaria pela tasca sem reparar que estava aberta.

Entrou na semi-obscuridade da sala. A mobília de madeira maciça lembrava os anos cinquenta do século passado. Não havia moscas e o ar era fresco e isso reconfortou-o. Atrás do balcão o tasqueiro vociferava enquanto apanhava os cacos do chão.
- Bons dias!, disse o médico. - Está aberto?
- Bons dias!, respondeu o homem, ainda de pá na mão. – Pode entrar! Desculpe este meu praguejar. mas de há um mês para cá acontecem coisas estranhas nesta casa! Lamentou-se enquanto despejava o lixo no caixote. - Olhe que hoje já me caíram da parede três pratos, e sem ninguém lhes tocar, nem passar uma corrente de ar! Ontem dei com a torneira da cerveja de pressão aberta e foi-se um barril que tinha aberto momentos antes!
Hipólito sorriu e tentou amenizar-lhe a irritação. -Tenha calma que há dias assim! Andamos preocupados com qualquer coisa e nem reparamos no que fazemos! Se ainda há cerveja que tenha sobrado, podia arranjar-me uma caneca, por favor!, pediu o médico. - Está um calor que lembra Julho! Se não encontrava aqui este oásis, creio que caía na próxima valeta!, exagerou.

O vendeiro acercou-se do balcão, serviu-lhe um pratinho de tremoços e a bebida, que médico despachou de um trago.
- Está um calor infernal! Qualquer dia o deserto do Sahara entra pela península ibérica e vamos ter de andar de camelo e beber chá de menta!, gracejou.
Depois de um Ahh reconfortante, Hipólito pediu outra caneca, pegou num tremoço e anotou: - Vejo que aqui se mantêm os hábitos antigos de adivinhar a vontade do cliente!
- É regra desta casa pôr sempre um petisco para picar, quando se serve uma bebida. Uma orelha de porco de coentrada, um polvo à galega, umas favas com chouriço, umas fatias de queijo ... qualquer coisa bem apurada, mas, neste último mês, como lhe disse, temos andado às voltas com uma série de acidentes, e só temos tido tempo para tremoços, azeitonas e favas secas! A minha mulher até diz que temos a casa assombrada!

Hipólito dispôs-se à conversa e o taberneiro prosseguiu:
- Ele são ruídos estranhos à noite, ferramentas que desaparecem de um local para aparecerem dias depois onde menos se espera, portas que batem sem ninguém estar por perto e tudo isto desde que a minha irmã, que ficou viúva, veio morar connosco. A gente até brinca com ela, mas lá que coincidiu, isso ninguém pode negar!
- E no meio dessas contrariedades, aconteceu alguma que fosse um grande mal?, insistiu o médico, que de repente assumira o caso como se fosse um detective.
- Coisa grave, … que me lembre, não aconteceu. Mas têm sido tantas fora do normal, que até parece bruxedo!, respondeu o homem, com uma vaga esperança numa solução.

O médico levantou-se para se certificar que os pratos pendurados na parede estavam bem fixados e que os que tinham caído tinham o mesmo tipo de suporte. Depois, voltou ao balcão, bebeu dois goles de cerveja e atreveu-se a mais uma pergunta. - Desculpe a minha curiosidade, mas sinto que talvez possa ajudar a descobrir o que o atormenta. Onde residia a sua irmã antes de vir para cá?
O tasqueiro, levantou o olhar, surpreendido: - Vivia em Vimioso, em Trás-os-Montes! O que é que pensa que poderá estar por detrás disto?
O médico, pegou-lhe no braço e convidou-o a sentar-se na mesa mais próxima, não fosse a estranheza da notícia causar-lhe uma sulipampa. Depois, pôs o seu melhor ar de entendido e disse-lhe, do mesmo modo como daria a notícia de uma doença não fatal, mas a merecer grandes cuidados.
- Tudo aparenta de que se trate de um trasgo que tenha seguido a sua irmã. Não se preocupe que não vai passar disto, desde que não dê sinal de estar irritado. Se o tolerar, passado um tempo, ele vai para outra casa, provocar outro.

- É capaz de ser isso!, confirmou o pobre homem. - A minha mulher numa destas noites de lua cheia, quando veio cá abaixo ao estabelecimento, por causa de um ruído, pareceu-lhe ter visto qualquer coisa, como um rato vermelho, a esconder-se por detrás do balcão!
- Então é quase certo! Eles vestem-se de vermelho e usam um gorro de bico na cabeça. Se o tivesse visto coxear da perna direita, tínhamos a confirmação. Eles vivem mais para o interior do país, mas muitas vezes seguem as pessoas de lá, nas suas deslocações. Só querem divertir-se!
Há uns anos tive um lá em casa. Escondia as chaves do carro, fazia desaparecer uma meia de cada par, comia as sobras dos bolos do frigorífico e punha nódoas na roupa lavada. Deve-me ter perseguido num dia em fui com o meu neto ver um arco-íris. Como deve saber, eles fabricam uma substância parecida com o ouro, que colocam no pote que está no fim do arco e que desaparece quando a gente se aproxima. Ficou uns dois meses connosco, mas como a minha casa tem muita luz e eles preferem sótãos e adegas, foi-se embora!
No seu caso, como o seu estabelecimento é pouco iluminado, se quiser ver-se livre dele mais depressa, tem de o desafiar a fazer uma tarefa impossível, como trazer uma cesta de água do mar, clarear uma ovelha negra ou outra coisa do género. Como ele acha que sabe fazer tudo, vai ficar exausto a tentá-lo. Então fica com o orgulho ferido, sai e não volta. 

- Obrigado pela informação! Bendita a hora em que entrou na minha casa! Já me tinha esquecido da existência desses seres. Quer mais um fino ou prefere uma sande de presunto?. O taberneiro estava visivelmente satisfeito. Pelo menos já sabia que se não tinha que se preocupar e que se mostrasse irritação a coisa iria de mal a pior.

O médico agradeceu, aceitou uma garrafa de água para o regresso e despediu-se. Depois, meteu-se pela estrada, a pensar se não haveria zanganitos destes na política. Aquela candidatura de última hora de Kristina Georgieva a Secretário-Geral das Nações Unidas e a de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, tinham características que lembravam as suas traquinices …

sábado, 1 de outubro de 2016

Lembranças do Olimpo (19)


Hipólito teve uma noite descansada e acordou já o sol ia alto. Nada como ser domingo e não ter preocupações com missas ou qualquer outro evento social a cumprir, pensou. Gostava da comunidade onde residia, mas encontrá-la numa missa era um preço demasiado alto. O padre era um sujeito imbuído de uma mentalidade tacanha, um crente em que as sociedades só têm um modo de se organizar, o seu, incapaz de qualquer gesto de humor em público, daqueles que repete à exaustão "Graças a Deus muitas, Graças com Deus nenhumas!".
Tivera a má experiência de o ouvir em três funerais a repetir "ad nauseam" a mesma fórmula, sem anotar a mínima particularidade daqueles seres que definitivamente nos deixavam, e saiu revoltado.
Não entendia que alguém pudesse subir a um púlpito sem ser capaz de um elogio fúnebre. Da primeira vez ouvira-o na missa de corpo presente da mãe de um amigo seu. Uma analfabeta que ficara viúva ainda jovem e que conseguira dar um curso superior aos três filhos. Da segunda, vira-o chegar atrasado e "despachar" o morto em menos de três penadas e da terceira, agrupara numa cerimónia, missas por um montão de falecidos e um baptizado.
Também as histórias que contava, dos martírios dos Santos primordiais pareciam-lhe ficções da Marvel e, lembravam-lhe as dos fanáticos religiosos do Islão actual, à espera que uma qualquer surata lhes dê acesso a um Paraíso do tipo “Club Med”.

Depois deste pensamentos, foi ao quarto de banho e olhou-se ao espelho.
- Estás a ficar sábio de mais!, disse à sua imagem. - Já não consegues achar graça à incoerência humana!
Depois, lavou cara e reconsiderou: - Deixa-te dessas merdas, que "p´rá frente é que é o caminho!", mesmo que duvides do lado para que estás virado!
Ajeitou o pijama, preparou os sucos para o pequeno-almoço e quando passou pelo Nkisi e lhe deu os bons-dias, lembrou-se da pergunta que ficara pendente da noite anterior.

O Nkisi, que devia estar já à sua espera, respondeu prontamente.
- Bom dia! Gostava de te ajudar, mas sou um espírito que anda com os pés na terra. Ainda por cima, sempre por África. São os meus anos que me dão vantagem, por já ter visto muita injustiça e montes de boa gente a morrer por más causas. Os meus poderes são limitados. Ajudo com conselhos, mas sem aquela magia dos milagres, com que todo o ser humano parece estar a contar!

- Obrigado!, respondeu o médico. - Hoje a minha mulher foi trabalhar e estou sozinho em casa. Era uma óptima oportunidade para vires comigo e falarmos. Eu ando a ler umas coisas sobre a expansão do Homo sapiens por este planeta, e gostava de tirar umas dúvidas contigo. Como foi em África que ele nasceu, tu, por certo, sabes histórias da sua actividade primordial.

O Nkisi, como que ganhou um brilho diferente. Há anos que ninguém se dispunha a ouvi-lo sobre um assunto tão vasto e, o facto do médico se dispor a dar-lhe ouvidos, envaidecia-o.
- Como tens tempo, vou explicar-te. Não sei se sabes, mas os primatas raramente formam grupos com mais de 50 elementos e os primeiros humanos a que vocês chamam de Homo erectus, neanderthalensis, habilis, … estavam limitados a grupos em que todos se conheciam e, nessa circunstância não conseguiam ultrapassar os 150. Foi com o aparecimento dos mitos religiosos que foi possível ao Homo sapiens fazer com que cada vez mais indivíduos colaborassem no mesmo objectivo e começassem a dizimar as outras espécies.
Como todas as religiões colocaram o Homem como figura central, deram-lhe a oportunidade de ser vítima dos seus desejos.

- É um facto!, retorquiu o médico. – O homem convenceu-se de que era o único ser vivo portador de alma, mesmo que pareça que anda muito desalmado por aí!
O Nkisi concordou. - E não é por se ser rico ou ter um curso universitário!, continuou. - Há que ter respeito pelas outras formas de vida, pelas pedras, pelos rios e pelos mares. São os desalmados que há 30.000 anos andam a dar cabo da Terra. Antes de se ter inventado a roda já eles tinham acabado com mais de metade dos mamíferos terrestres com mais de 50 quilos.
Temo que os deuses tenham decidido pôr cobro aos seus desmandos!

Hipólito, sentiu a ameaça como real e perguntou assustado. - Mas se o executarem, vai tudo a eito, como fizeram os cruzados à população de Béziers em 1209, ou os que têm alma ficam para ocupar o espaço que sempre lhes foi devido?
- Lá isso, não sei! O mais provável é haver quem se safe!, respondeu o espírito.
– E será que eles esperam por 2030, para dar tempo a que a NASA chegue a Marte, ou achas que catorze anos é muito tempo!, insistiu Hipólito. – E se alguém influente no Vaticano, no Islão na administração Obama, na China, na Índia ou na Rússia, der uns passos no caminho certo e a Economia deixar de necessitar do crescimento que os actuais economistas desejam? Será que eles suspendem essa reprimenda?

- Não estou a par da política mundial para te responder!, admitiu o Nkisi. - Mas nestas coisas, um bater de asas de uma borboleta é muito importante!. E depois para lhe amenizar o dia, continuou: -Mas vejo que já acabaste a refeição. O melhor é arrumares-te e ires dar uma volta que, se não deixas de pensar nisso, ainda dás em doido! Para mais, depois de teres passado uma semana sem apanhares sol na moleirinha! O que for, se verá! E não é por muito madrugar, que amanhece mais cedo! Vês como também sei uns provérbios!

Hipólito, subiu com a estatueta, colocou-a no seu sítio e obedeceu-lhe. Minutos depois estava na praia a dar pontapés nas algas, que também é para isso que todas as semanas há domingos .

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Lembranças do Olimpo (18)



Hipólito saíra da Urgência às 20:00h, quando o céu do fim da tarde se tingia de vermelho e o sol se apagava no mar. Rumou em direcção à praia e estacionou virado para a linha do horizonte, enquanto pensava nos porquês daquela cor.
Partículas em suspensão no ar? A última cor visível do espectro da luz? Ou sangue subindo aos céus proveniente de algum ritual pagão nos confins da Terra?

Confabulava. Tivesse pensado que o céu estava tingido de encarnado e a associação de ideias, por certo, seria diferente (em Lisboa, os nobres do Império dizem encarnado e a plebe diz vermelho, e vermelhos são os comunistas e encarnados os adeptos do Benfica).

Encarnado trar-lhe-ia à mente, não sangue, mas carne e o mais provável seria o tê-la associado a um qualquer acidente explosivo que esfacelasse completamente um indivíduo, como os homens-bomba no Próximo Oriente ou um choque de lixo espacial à deriva com o corpo de um cosmonauta em passeio fora da sua Estação Espacial ou quiçá, com um deus “encarnado” em humano.
Na Grécia antiga não havia restos de satélite na órbita do nosso planeta e os seus deuses não tinham problemas desta índole, bem como Nossa Senhora ou Jesus que subiram aos Céus em corpo, talvez para evitarem as profanações. Agora, se passarem perto da Terra, têm de ter cuidado. Talvez por causa disso “sepultaram” o Bin Laden no mar Arábico em vez de o enviar para a estratosfera. Ficou mais barato e evitaram-se colisões.

Depois, lembrou-se que conhecera um José da Encarnação na Escola Primária, que fora colega de turma de uma Maria da Encarnação no 3º ano do Liceu, e que, no Norte do país, nunca encontrara Encarnações, onde as mulheres antigas são Agonias e Dores ou quando muito Ascenções.

Aquele "vermelho de sangue", embora só prenunciasse um dia seguinte quente e sem nuvens, permitia-lhe conjurar que podia haver quem o julgasse resultante de um ritual religioso, daqueles em que se tira a vida a um ser para agradecer ou pedir um favor pois, desde tempos imemoriais, que o sangue das vítimas agrada aos deuses, seja o de um bode expiatório, de um inimigo ou o de um qualquer paisano que o acaso pôs no caminho de um sacerdote disposto a redimir os erros de um grupo, com a vida alheia.
À cota onde o sol se estava a pôr, podia ser um Maya fundamentalista, de Cancun ou de Kukulcán, a tentar aplacar algum dos novos deuses dos “Mercados” ou do FMI. Vá-se lá saber o que anda na cabeça de quem crê que o Além influencia o que se passa neste Mundo!

Estes pensamentos distraíam-no. Fizera-se noite e o estômago pedia um regresso a casa. No caminho estranhou que os Gregos não tivessem inventado um Deus para o dinheiro com atributos que obrigassem os crentes a resguardar-se do seu poder. Se o tivessem feito, talvez o caminho da História fosse diferente e os sacrifícios não fossem com sangue dos outros, mas com a riqueza do próprio e então, o pôr-do-sol seria dourado, prateado ou esverdeado se lhe abundassem as notas de 100 Euros.

Chegara a casa. O cão fez-lhe a festa do costume, o gato enrolou-se-lhe nos pés e a companheira estranhou o atraso. Nas notícias da TV viu os destroços de casas e gente a correr com crianças nos braços. Os gritos de Allahu Akbar lembraram-lhe as guerras entre portugueses e castelhanos, uns gritando por S. Jorge e outros por Santiago, enquanto se atiravam encarniçadamente uns sobre os outros. Nessa altura o Deus cristão devia estar tão baralhado como Allah está nos tempos que correm.

Jantou automaticamente sem notar que o cozinhado tinha cuidados “gourmet” e subiu ao quarto para lavar os dentes, quando, ao passar pelo Nkisi lhe decidiu perguntar se na terra dos Bakongos, também faziam distinção entre vermelho e encarnado.

A imagem respondeu-lhe, no mesmo tom ciciado, que não tinham grandes diferenciações das cores, mas que tinha ouvido, há minutos, que os pretos não querem que lhes chamem negros e não percebia o porquê.

Hipólito pasmou com a rapidez com que o Nkisi se tinha apercebido das nuances que o racismo pode ter na linguagem, e aproveitou para o pôr a par.
- Sabes a palavra “negro”, no mundo ocidental tem uma conotação desgraçada. É que negro também quer dizer infeliz, maldito. É a ovelha negra, o dia negro, a lista negra, o mercado negro, a peste negra, o buraco negro, a fome negra, o humor negro, o passado negro, futuro negro e por aí fora. Tudo o que é negro está relacionado com coisas negativas. Quando se quer valorizar não se diz negro. Diz-se preto. Come-se feijão preto, compra-se um carro preto, toma-se café preto e quando se ganha a lotaria ganha-se uma nota preta. Percebes?

- Percebo!, respondeu o espírito. - Podem ser mensagens subliminares, mas por certo que são eficazes. Depois é o medo que o “outro” possa trazer valores que ponham em causa os nossos, muitas vezes sem ter feito o mínimo esforço para o conhecer. É curioso como o homem confia tanto nos seus olhos!
- É um facto!, respondeu o médico. - Desde o século XVI que a Europa trata a África muito mal. Não só escravizou grande parte da sua população, como também destruiu a sua História e coesão social.

O Nkisi permaneceu calado. O médico pensou que ele estava a integrar estas informações e afastou-se sem lhe falar das quarenta e nove tonalidades de vermelho e das cinquenta de preto que a indústria das tintas cataloga. Despediu-se com um “Boa Noite!” e só depois se lembrou de que lhe queria perguntar se ele seria capaz de contactar com os deuses do Olimpo que se tinham deslocalizado. 
Mas não voltou atrás. Disse para consigo: "O que se não faz no dia de Santa Luzia, faz-se noutro dia!", e continuou. ... "Para alguma coisa hão-de servir os provérbios!".

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Lembranças do Olimpo (17)


Fora em Março que os deuses gregos lhe deram o último sinal de presença. Desde então passara duas ou três vezes pelo Lar, à procura de um qualquer movimento que o levasse a bater à porta, mas encontrara-a sempre fechada, as persianas corridas, nada de fumo na chaminé e o mato a tomar conta do jardim.
Malgrado a sua não fiabilidade, sentia saudades deles. Ainda que andassem desmotivados, mantinham-se dinâmicos. Um levava diariamente o carro do Sol através do imenso espaço, outro activava vulcões, outro tempestades e acorriam prontos onde acontecesse desgraça, na procura de almas para reciclar no Hades. De vez em quando, se queriam pôr à prova a soberba de alguém, vestiam-se de andrajos e pediam-lhe uma esmola ou então, se havia necessidade de ajudar na natalidade, engravidavam mulheres para que dessem à luz futuros heróis. Eram origem para os centos de histórias que estimulavam as mentes dos crentes a perseguir objectivos que os pudessem transcender e, nesse acto, desenvolviam as sociedades que os acolhiam.

Hipólito andava numa fase má, céptico da política nacional e internacional, com o sentimento de que muitas lideranças estavam entregues a atrevidos que utilizavam o Estado como trampolim para lugares de topo nos grandes negócios internacionais. Depois também não via solução para os conflitos, de ontem, de hoje e para os que se perspectivavam, por mais que os comentadores os tentassem explicar e os religiosos os lamentassem, porque as crenças no seu cerne, têm séculos, sem nada mais as valide que uma “Fé” construída em cima de “verdades irreais”, que só aquele grupo aceita, sejam elas a “Santíssima Trindade”, a revelação da “última palavra” de Alá a Maomé, ou as actividades do sem número de espíritos que pululam no Hinduísmo.

Para ele, a coexistência pacífica de várias religiões no mesmo espaço, era uma utopia, principalmente quando elas reclamam normas jurídicas e governativas. Os católicos tinham a vantagem da experiência da Inquisição e, pelo menos em teoria, entregavam a César o que é de César.

Nessa tarde fora ao Porto ver a ruína da casa onde nascera e o andamento da reabilitação do Centro Histórico da cidade. Estacionou o carro no Silo-Auto, foi pela Rua de Santa Catarina até à Batalha, desceu a Rua de Santo António, bebeu um fino na Cervejaria Sá Reis e subia a Rua do Almada quando, quase ao chegar à Praça da República, uma montra com arte africana o fez parar. Há anos que pensava numa peça para pôr em cima de um aparador, ao pé de uma pequena caixa de pau preto que um tio lhe dera de prenda de casamento e uma máscara daquelas, talvez desse continuidade ao quadro que lhe estava próximo, e que ele entendia como uma representação do Santo Graal.
No amontoado de figuras que cobria o chão, não encontrou o que procurava e foi quase à saída que o gerente, natural do Mali, na perspectiva de um não negócio, foi ao fundo de um baú retirar uma estatueta que o encantou. Era de uma madeira escura e não teria mais que trinta centímetros de altura. Representava um homem com os pés assentes numa tartaruga e um comprido gorro de tecido canelado a cobrir-lhe a crânio. Tinha às costas um grande cesto de vime, onde uns pequenos objectos chocalhavam. Mordia um pau, que segurava com ambas as mãos.
Era aquilo. Perguntou o que representava e ouviu a resposta num português “macarrónico” que ele continha o espírito de um poderoso falecido, que poderia ser usado pelos vivos para combater doenças ou pessoas que nos querem mal.
- Ora nem mais! É disto mesmo que eu preciso!, disse ao pagar, desvalorizando-lhe os supostos atributos. Desejou sorte para o negócio, paz para o Mali e despediu-se do Keita, que insistia em lhe vender um bronze do Benim.

Chegado a casa, com a mulher, reorganizou o recanto. Parecia que a estatueta fora feita para ali. Depois, jantou, leu um artigo médico numa das revistas que regularmente lhe chegavam a casa e, quando ia para o quarto descansar, junto ao aparador, ouviu um sussurro que lhe pareceu um “obrigado”. Incrédulo, pegou na imagem, como a medi-la, quando uma voz do seu interior lhe disse: - Fica calmo! Já vi que não sabes quem eu sou!
Hipólito, deu um passo atrás, e desceu as escadas em direcção à garagem, para que a conversa pudesse continuar sem interferências, enquanto lhe ciciava: - Espera um pouco. A minha mulher não vai gostar de saber que tu falas! Se queres ficar connosco, é melhor resguardares-te!
Chegados, o médico sentou-se ao volante do automóvel, pousou a estatueta em cima do tablier e, após um suspiro, continuou: - Agora podes falar! Mas sê breve que, se me demoro, ela desce a procurar-me!
A imagem fez com que a sua voz saísse pelos altifalantes do rádio:
- Antes de mais, queria reforçar o meu agradecimento por me teres tirado daquele lugar. Estive embrulhado montes de tempo e já estava a recear nunca mais ver um ser humano. Sou um Nkisi e, se assim o entenderes, posso cuidar do teu equilíbrio físico, energético e emocional. Estou ao teu inteiro dispor!

- Um Nkisi? Perguntou o médico. – Eu conheço o Nkisi Nkondi, mas tu não és nada parecido com ele. Ele tem o corpo coberto de pregos e lâminas.
- Esse é um primo meu, que é doutorado. Para onde vai, leva o currículo. Cada prego ou lâmina corresponde à resolução de uma disputa ou de uma vingança. Eu dedico-me a doenças mentais e a problemas sociais. Sou um Nkisi Luganbe.
- E não achas que os teus poderes estão circunscritos à África ... “profunda”?
- Nunca experimentei aqui na Europa, com os autóctones, mas creio conseguir contactar com os teus antepassados. Para além disso, transporto no cesto, garras de águia capazes de darem castigo aos malfeitores e de tratar doenças malignas.
- Ok! Retorquiu Hipólito. – No fundo, o que me estás a propor, é seres o meu Anjo da Guarda?
- Não sei bem o que fazem esses anjos, mas eu posso defender-te de quem te quiser fazer mal e pôr-te no caminho dos teus antepassados.

O médico não o queria desconsiderar. O espírito estava manifestamente desactualizado. Devia ter passado mais de cinquenta anos no fundo do baú. Pegou na imagem, colocou-a com bonomia sobre os joelhos e disse-lhe: - Não deves estar a par do salto exponencial que a ciência deu nos últimos tempos. Aqui no Ocidente, o modo como se vive alterou-se muito. A globalização levou à formação de grandes Multinacionais em todas as áreas, na indústria, no comércio, nos serviços e na religião. E a tendência é para aumentarem. Actualmente, em Portugal, estão a tomar conta do Serviço Nacional de Saúde, mas há muito que os Hipermercados rebentaram com os merceeiros e que o Vaticano domina o pensamento religioso.
O vosso Animismo ao imaginar forças divinas na natureza, numa árvore, numa gruta ou num qualquer recanto, não cumpre os objectivos do "Mercado". A Economia precisa que se façam muitos edifícios e de grande valor, que o diga o pai do Bin Laden que se tornou o segundo homem mais rico da Arábia Saudita, a construir mesquitas. Isto sem falar das peregrinações e do turismo religioso que estão em alta. O vosso mundo de agora está no folclore e nos museus etnográficos.

O espírito, após uma pausa, respondeu ressentido: - Pelos vistos dispensas os meus favores. Mas não te esqueças que é o passado que determina o futuro e que sem o apoio dos ancestrais, ele perde sentido.
- Oh meu caro Nkisi! , respondeu paternalmente o médico. - O passado, não existe! O que existe são versões sobre factos passados. E Ponto Final. O local onde se coloca o observador é determinante para a história que irá contar. Se está do lado de um vencedor escreverá o “passado oficial”, se estiver do lado dos perdedores, o mais certo é ser esquecido ou lembrado como infiel, herético ou takfir ou com qualquer outro epíteto que o desclassifique. Tu começaste a perder no dia em que os primeiros missionários portugueses pisaram o teu território. Depois foi a máquina da globalização a triturar o que não gera riqueza.
- Como tenho estado embrulhado, não tenho essa noção. Pelo que dizes, o mundo está muito mudado, mas “o espírito” de cada um, será que se transformou assim tanto? Será que alguém pode viver bem, onde quer que seja, sem equilíbrio físico, energético e emocional. Ora é isso que eu te propus ... a custo zero!

Hipólito, coçou a cabeça. Aquele espírito era resiliente. Não exigia templos e procurava mostrar a essência espiritual na natureza, para manter um percurso de vida sem sobressaltos. Iniciou o regresso ao quarto com a imagem, com uma proposta: - Não me importo que vivas connosco, mas só deves falar comigo e sem interferir com a actividade desta casa. Se um dia eu precisar de um anjo-da-guarda digo-te! Ok? Até lá observa! Sabes, há quem diga que a vida é um eterno retorno e que o que já foi, voltará na mesma ordem e sequência. Então pode ser que possas ter alguma vantagem. Mas o facto é que te comprei pelo teu aspecto exótico, sem considerar os teus eventuais poderes e gostava que a coisa ficasse por aí.

O Nkisi resignado, respondeu que ficava a aguardar novas ordens. Hipólito pousou-o delicadamente no seu local e despediu-se, pois no dia seguinte esperavam-no dezasseis horas de trabalho no Serviço de Urgência e, apesar de já haver menos turistas na cidade, a afluência mantinha-se acima da média.