segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Lembranças do Olimpo (18)



Hipólito saíra da Urgência às 20:00h, quando o céu do fim da tarde se tingia de vermelho e o sol se apagava no mar. Rumou em direcção à praia e estacionou virado para a linha do horizonte, enquanto pensava nos porquês daquela cor.
Partículas em suspensão no ar? A última cor visível do espectro da luz? Ou sangue subindo aos céus proveniente de algum ritual pagão nos confins da Terra?

Confabulava. Tivesse pensado que o céu estava tingido de encarnado e a associação de ideias, por certo, seria diferente (em Lisboa, os nobres do Império dizem encarnado e a plebe diz vermelho, e vermelhos são os comunistas e encarnados os adeptos do Benfica).

Encarnado trar-lhe-ia à mente, não sangue, mas carne e o mais provável seria o tê-la associado a um qualquer acidente explosivo que esfacelasse completamente um indivíduo, como os homens-bomba no Próximo Oriente ou um choque de lixo espacial à deriva com o corpo de um cosmonauta em passeio fora da sua Estação Espacial ou quiçá, com um deus “encarnado” em humano.
Na Grécia antiga não havia restos de satélite na órbita do nosso planeta e os seus deuses não tinham problemas desta índole, bem como Nossa Senhora ou Jesus que subiram aos Céus em corpo, talvez para evitarem as profanações. Agora, se passarem perto da Terra, têm de ter cuidado. Talvez por causa disso “sepultaram” o Bin Laden no mar Arábico em vez de o enviar para a estratosfera. Ficou mais barato e evitaram-se colisões.

Depois, lembrou-se que conhecera um José da Encarnação na Escola Primária, que fora colega de turma de uma Maria da Encarnação no 3º ano do Liceu, e que, no Norte do país, nunca encontrara Encarnações, onde as mulheres antigas são Agonias e Dores ou quando muito Ascenções.

Aquele "vermelho de sangue", embora só prenunciasse um dia seguinte quente e sem nuvens, permitia-lhe conjurar que podia haver quem o julgasse resultante de um ritual religioso, daqueles em que se tira a vida a um ser para agradecer ou pedir um favor pois, desde tempos imemoriais, que o sangue das vítimas agrada aos deuses, seja o de um bode expiatório, de um inimigo ou o de um qualquer paisano que o acaso pôs no caminho de um sacerdote disposto a redimir os erros de um grupo, com a vida alheia.
À cota onde o sol se estava a pôr, podia ser um Maya fundamentalista, de Cancun ou de Kukulcán, a tentar aplacar algum dos novos deuses dos “Mercados” ou do FMI. Vá-se lá saber o que anda na cabeça de quem crê que o Além influencia o que se passa neste Mundo!

Estes pensamentos distraíam-no. Fizera-se noite e o estômago pedia um regresso a casa. No caminho estranhou que os Gregos não tivessem inventado um Deus para o dinheiro com atributos que obrigassem os crentes a resguardar-se do seu poder. Se o tivessem feito, talvez o caminho da História fosse diferente e os sacrifícios não fossem com sangue dos outros, mas com a riqueza do próprio e então, o pôr-do-sol seria dourado, prateado ou esverdeado se lhe abundassem as notas de 100 Euros.

Chegara a casa. O cão fez-lhe a festa do costume, o gato enrolou-se-lhe nos pés e a companheira estranhou o atraso. Nas notícias da TV viu os destroços de casas e gente a correr com crianças nos braços. Os gritos de Allahu Akbar lembraram-lhe as guerras entre portugueses e castelhanos, uns gritando por S. Jorge e outros por Santiago, enquanto se atiravam encarniçadamente uns sobre os outros. Nessa altura o Deus cristão devia estar tão baralhado como Allah está nos tempos que correm.

Jantou automaticamente sem notar que o cozinhado tinha cuidados “gourmet” e subiu ao quarto para lavar os dentes, quando, ao passar pelo Nkisi lhe decidiu perguntar se na terra dos Bakongos, também faziam distinção entre vermelho e encarnado.

A imagem respondeu-lhe, no mesmo tom ciciado, que não tinham grandes diferenciações das cores, mas que tinha ouvido, há minutos, que os pretos não querem que lhes chamem negros e não percebia o porquê.

Hipólito pasmou com a rapidez com que o Nkisi se tinha apercebido das nuances que o racismo pode ter na linguagem, e aproveitou para o pôr a par.
- Sabes a palavra “negro”, no mundo ocidental tem uma conotação desgraçada. É que negro também quer dizer infeliz, maldito. É a ovelha negra, o dia negro, a lista negra, o mercado negro, a peste negra, o buraco negro, a fome negra, o humor negro, o passado negro, futuro negro e por aí fora. Tudo o que é negro está relacionado com coisas negativas. Quando se quer valorizar não se diz negro. Diz-se preto. Come-se feijão preto, compra-se um carro preto, toma-se café preto e quando se ganha a lotaria ganha-se uma nota preta. Percebes?

- Percebo!, respondeu o espírito. - Podem ser mensagens subliminares, mas por certo que são eficazes. Depois é o medo que o “outro” possa trazer valores que ponham em causa os nossos, muitas vezes sem ter feito o mínimo esforço para o conhecer. É curioso como o homem confia tanto nos seus olhos!
- É um facto!, respondeu o médico. - Desde o século XVI que a Europa trata a África muito mal. Não só escravizou grande parte da sua população, como também destruiu a sua História e coesão social.

O Nkisi permaneceu calado. O médico pensou que ele estava a integrar estas informações e afastou-se sem lhe falar das quarenta e nove tonalidades de vermelho e das cinquenta de preto que a indústria das tintas cataloga. Despediu-se com um “Boa Noite!” e só depois se lembrou de que lhe queria perguntar se ele seria capaz de contactar com os deuses do Olimpo que se tinham deslocalizado. 
Mas não voltou atrás. Disse para consigo: "O que se não faz no dia de Santa Luzia, faz-se noutro dia!", e continuou. ... "Para alguma coisa hão-de servir os provérbios!".

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Lembranças do Olimpo (17)


Fora em Março que os deuses gregos lhe deram o último sinal de presença. Desde então passara duas ou três vezes pelo Lar, à procura de um qualquer movimento que o levasse a bater à porta, mas encontrara-a sempre fechada, as persianas corridas, nada de fumo na chaminé e o mato a tomar conta do jardim.
Malgrado a sua não fiabilidade, sentia saudades deles. Ainda que andassem desmotivados, mantinham-se dinâmicos. Um levava diariamente o carro do Sol através do imenso espaço, outro activava vulcões, outro tempestades e acorriam prontos onde acontecesse desgraça, na procura de almas para reciclar no Hades. De vez em quando, se queriam pôr à prova a soberba de alguém, vestiam-se de andrajos e pediam-lhe uma esmola ou então, se havia necessidade de ajudar na natalidade, engravidavam mulheres para que dessem à luz futuros heróis. Eram origem para os centos de histórias que estimulavam as mentes dos crentes a perseguir objectivos que os pudessem transcender e, nesse acto, desenvolviam as sociedades que os acolhiam.

Hipólito andava numa fase má, céptico da política nacional e internacional, com o sentimento de que muitas lideranças estavam entregues a atrevidos que utilizavam o Estado como trampolim para lugares de topo nos grandes negócios internacionais. Depois também não via solução para os conflitos, de ontem, de hoje e para os que se perspectivavam, por mais que os comentadores os tentassem explicar e os religiosos os lamentassem, porque as crenças no seu cerne, têm séculos, sem nada mais as valide que uma “Fé” construída em cima de “verdades irreais”, que só aquele grupo aceita, sejam elas a “Santíssima Trindade”, a revelação da “última palavra” de Alá a Maomé, ou as actividades do sem número de espíritos que pululam no Hinduísmo.

Para ele, a coexistência pacífica de várias religiões no mesmo espaço, era uma utopia, principalmente quando elas reclamam normas jurídicas e governativas. Os católicos tinham a vantagem da experiência da Inquisição e, pelo menos em teoria, entregavam a César o que é de César.

Nessa tarde fora ao Porto ver a ruína da casa onde nascera e o andamento da reabilitação do Centro Histórico da cidade. Estacionou o carro no Silo-Auto, foi pela Rua de Santa Catarina até à Batalha, desceu a Rua de Santo António, bebeu um fino na Cervejaria Sá Reis e subia a Rua do Almada quando, quase ao chegar à Praça da República, uma montra com arte africana o fez parar. Há anos que pensava numa peça para pôr em cima de um aparador, ao pé de uma pequena caixa de pau preto que um tio lhe dera de prenda de casamento e uma máscara daquelas, talvez desse continuidade ao quadro que lhe estava próximo, e que ele entendia como uma representação do Santo Graal.
No amontoado de figuras que cobria o chão, não encontrou o que procurava e foi quase à saída que o gerente, natural do Mali, na perspectiva de um não negócio, foi ao fundo de um baú retirar uma estatueta que o encantou. Era de uma madeira escura e não teria mais que trinta centímetros de altura. Representava um homem com os pés assentes numa tartaruga e um comprido gorro de tecido canelado a cobrir-lhe a crânio. Tinha às costas um grande cesto de vime, onde uns pequenos objectos chocalhavam. Mordia um pau, que segurava com ambas as mãos.
Era aquilo. Perguntou o que representava e ouviu a resposta num português “macarrónico” que ele continha o espírito de um poderoso falecido, que poderia ser usado pelos vivos para combater doenças ou pessoas que nos querem mal.
- Ora nem mais! É disto mesmo que eu preciso!, disse ao pagar, desvalorizando-lhe os supostos atributos. Desejou sorte para o negócio, paz para o Mali e despediu-se do Keita, que insistia em lhe vender um bronze do Benim.

Chegado a casa, com a mulher, reorganizou o recanto. Parecia que a estatueta fora feita para ali. Depois, jantou, leu um artigo médico numa das revistas que regularmente lhe chegavam a casa e, quando ia para o quarto descansar, junto ao aparador, ouviu um sussurro que lhe pareceu um “obrigado”. Incrédulo, pegou na imagem, como a medi-la, quando uma voz do seu interior lhe disse: - Fica calmo! Já vi que não sabes quem eu sou!
Hipólito, deu um passo atrás, e desceu as escadas em direcção à garagem, para que a conversa pudesse continuar sem interferências, enquanto lhe ciciava: - Espera um pouco. A minha mulher não vai gostar de saber que tu falas! Se queres ficar connosco, é melhor resguardares-te!
Chegados, o médico sentou-se ao volante do automóvel, pousou a estatueta em cima do tablier e, após um suspiro, continuou: - Agora podes falar! Mas sê breve que, se me demoro, ela desce a procurar-me!
A imagem fez com que a sua voz saísse pelos altifalantes do rádio:
- Antes de mais, queria reforçar o meu agradecimento por me teres tirado daquele lugar. Estive embrulhado montes de tempo e já estava a recear nunca mais ver um ser humano. Sou um Nkisi e, se assim o entenderes, posso cuidar do teu equilíbrio físico, energético e emocional. Estou ao teu inteiro dispor!

- Um Nkisi? Perguntou o médico. – Eu conheço o Nkisi Nkondi, mas tu não és nada parecido com ele. Ele tem o corpo coberto de pregos e lâminas.
- Esse é um primo meu, que é doutorado. Para onde vai, leva o currículo. Cada prego ou lâmina corresponde à resolução de uma disputa ou de uma vingança. Eu dedico-me a doenças mentais e a problemas sociais.
- E não achas que os teus poderes estão circunscritos à África ... “profunda”?
- Nunca experimentei aqui na Europa, com os autóctones, mas creio conseguir contactar com os teus antepassados. Para além disso, transporto no cesto, garras de águia capazes de darem castigo aos malfeitores e de tratar doenças malignas.
- Ok! Retorquiu Hipólito. – No fundo, o que me estás a propor, é seres o meu Anjo da Guarda?
- Não sei bem o que fazem esses anjos, mas eu posso defender-te de quem te quiser fazer mal e pôr-te no caminho dos teus antepassados.

O médico não o queria desconsiderar. O espírito estava manifestamente desactualizado. Devia ter passado mais de cinquenta anos no fundo do baú. Pegou na imagem, colocou-a com bonomia sobre os joelhos e disse-lhe: - Não deves estar a par do salto exponencial que a ciência deu nos últimos tempos. Aqui no Ocidente, o modo como se vive alterou-se muito. A globalização levou à formação de grandes Multinacionais em todas as áreas, na indústria, no comércio, nos serviços e na religião. E a tendência é para aumentarem. Actualmente, em Portugal, estão a tomar conta do Serviço Nacional de Saúde, mas há muito que os Hipermercados rebentaram com os merceeiros e que o Vaticano domina o pensamento religioso.
O vosso Animismo ao imaginar forças divinas na natureza, numa árvore, numa gruta ou num qualquer recanto, não cumpre os objectivos do "Mercado". A Economia precisa que se façam muitos edifícios e de grande valor, que o diga o pai do Bin Laden que se tornou o segundo homem mais rico da Arábia Saudita, a construir mesquitas. Isto sem falar das peregrinações e do turismo religioso que estão em alta. O vosso mundo de agora está no folclore e nos museus etnográficos.

O espírito, após uma pausa, respondeu ressentido: - Pelos vistos dispensas os meus favores. Mas não te esqueças que é o passado que determina o futuro e que sem o apoio dos ancestrais, ele perde sentido.
- Oh meu caro Nkisi! , respondeu paternalmente o médico. - O passado, não existe! O que existe são versões sobre factos passados. E Ponto Final. O local onde se coloca o observador é determinante para a história que irá contar. Se está do lado de um vencedor escreverá o “passado oficial”, se estiver do lado dos perdedores, o mais certo é ser esquecido ou lembrado como infiel, herético ou takfir ou com qualquer outro epíteto que o desclassifique. Tu começaste a perder no dia em que os primeiros missionários portugueses pisaram o teu território. Depois foi a máquina da globalização a triturar o que não gera riqueza.
- Como tenho estado embrulhado, não tenho essa noção. Pelo que dizes, o mundo está muito mudado, mas “o espírito” de cada um, será que se transformou assim tanto? Será que alguém pode viver bem, onde quer que seja, sem equilíbrio físico, energético e emocional. Ora é isso que eu te propus ... a custo zero!

Hipólito, coçou a cabeça. Aquele espírito era resiliente. Não exigia templos e procurava mostrar a essência espiritual na natureza, para manter um percurso de vida sem sobressaltos. Iniciou o regresso ao quarto com a imagem, com uma proposta: - Não me importo que vivas connosco, mas só deves falar comigo e sem interferir com a actividade desta casa. Se um dia eu precisar de um anjo-da-guarda digo-te! Ok? Até lá observa! Sabes, há quem diga que a vida é um eterno retorno e que o que já foi, voltará na mesma ordem e sequência. Então pode ser que possas ter alguma vantagem. Mas o facto é que te comprei pelo teu aspecto exótico, sem considerar os teus eventuais poderes e gostava que a coisa ficasse por aí.

O Nkisi resignado, respondeu que ficava a aguardar novas ordens. Hipólito pousou-o delicadamente no seu local e despediu-se, pois no dia seguinte esperavam-no dezasseis horas de trabalho no Serviço de Urgência e, apesar de já haver menos turistas na cidade, a afluência mantinha-se acima da média.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Bicho pau



Pois é, meu caro! Estás habituado a comer coisas tenras, à socapa, mas ao apareceres sem aviso, devias contar com as “contingências” do momento.

Como sabes, todos temos problemas e só somos felizes quando os vamos resolvendo. E o tempo é importante pois, mesmo que as dificuldades sejam pequenas, se elas se arrastam, desgastam-nos. Ainda por cima, o dinheiro não resolve todas, que o diga a filha do Onassis que se suicidou aos 37 anos.

Mas adiante, que ontem era dia de dar conta da lagarta mineira. Coisa sem importância, que estava a aguardar disponibilidade para ir à Casa do Lavrador, com o Diploma de “Aplicador de Produtos Fitofarmacêuticos” e comprar uma carteira de Actara 25 WG,  para pulverizar as laranjeiras.

Como é que ia saber que tu lá estavas. Só pensei nas abelhas e, como os citrinos não estão com flor, fui por ali adiante, à confiança.
Assim, considero-te um “dano colateral”. Uma "vítima de fogo amigo"!
“É a vida!”, como diria o Guterres. E de nada te vale essa cara de pau. Agora, é andar para frente e ver se a dose que te calhou não chega a mortal.

Pensando bem, até hoje, tiveste uma boa vida, sempre de costas ao alto, a fingir-te ocupado em pensamentos profundos, sem nada decidir, safando-te dos lagartos e dos pássaros que, se te vissem, chamavam-te um figo pois, para bicho pau, estás bem nutrido.
Ainda por cima, tiveste sorte em ter dado comigo. Levei-te para longe do laranjal, para um recobro bem disfarçado no meio de uns gravetos, e nem um obrigado disseste. Mantiveste a cara de pau como se fosse eu o culpado. 

És um safado! Sei bem que quem bate não lembra e quem apanha não esquece, mas se vieres a recuperar, volta em paz e no tempo das abelhas, que eu finjo que não entendo o teu ressentimento e ficamos à conversa até ver nesses teus olhos o esboço de um sorriso.
Põe-te fino, mas não demais, senão desapareces! Tem cuidado com os químicos das hortas e com o fogo nas florestas, que tu para fugir nem asas de jeito tens!

Pensando bem, o melhor é emigrares. Arranjas um “casaco” quente, agarras-te a um licenciado recém-formado e vais ver que em menos de meio ano até alemão falas.

Até à próxima!

P.S.: Não te esqueças de respirar!!!

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Ryszard Kapuscinski


... Convencidos de que uma pessoa comunica connosco só através da palavra, falada ou escrita, nem reflectimos que esses são só um dos possíveis meios de transmissão de muitos que, na realidade, existem. De facto, dizem-nos muito a expressão facial, o olhar, os gestos das mãos, os movimentos do corpo, as ondas que ele emite, a roupa que se usa e a maneira como se está vestido e, ainda dezenas de outros emissores, transmissores, reforços e filtros que constituem o ser humano e a sua "química", como dizem os ingleses.
A tecnologia, limitando o contacto interpessoal a um sinal electrónico, empobrece e apaga aquela panóplia extraverbal que utilizamos no contacto directo, na proximidade, muitas vezes sem nos darmos conta. Ainda para mais, a comunicação não verbal da expressão facial e dos gestos mais subtis, é muito mais sincera e verídica que a língua oral ou escrita, e torna mais difícil mentir ou esconder a falsidade ou o embuste. Por isso mesmo, a cultura chinesa, pretendendo salvaguardar o pensamento do indivíduo, elaborou a arte da cara imóvel, uma máscara impenetrável e de olhar vazio, porque só assim, só atrás desse biombo, alguém podia, realmente, esconder-se.
...

Ryszard Kapuscinski in "Andanças com Heródoto"

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O Feliz



Pensei em pôr-te no lixo ao lado dos candeeiros partidos, mas lembrei-me dos anos que partilhaste comigo, sempre disponível e sem um resmungo, fosse sábado ou domingo, e … hesitei.
Era só mais um furo, até abrir a roda e ver o estado lastimável do pneu, coçado e quase transparente nalguns pontos. Nem no OLX davam 1 Euro por ti.

Entrei na loja do Bricolage à procura de um sapato para te calçar.
Passei a zona da jardinagem, das lâmpadas e das canalizações e, bem ao fundo, já depois dos cimentos, lá estava a tua família meia suspensa do tecto. Uns amarelos, outros verdes, todos cintilantes, como a dizer “leva-me, leva-me!”. Um deles, mais afoito, com um papel colado "em promoção!” para me tentar! E, logo abaixo, em frente aos olhos, aquela roda completa, com um pneu anti-furo, para eu nunca mais pensar onde pus a caixa dos remendos ou a bomba do ar. Coisa de chegar a casa, desatarraxar dois parafusos e dar-te corda aos chinelos.

Levaste cimento, terra, pedras, lixo, plantas e até com o pneu furado aguentaste em cima da jante, quando eu não tinha tempo ou paciência para pôr o remendo na câmara de ar.
Por isso não olhei ao preço. Peguei, rodei e meti-a na cesta!

Por mais vinte euros, comprava um carrinho de mão novo, que destoaria a meu lado. Assim, um pouco desajeitado, fazes “pendant” comigo e lá terás de te aguentar, até Deus, Nosso Senhor, entender que chegaram ao fim os teus dias.
Já não te é exigido tanto como noutros tempos, em que qualquer um pegava em ti e te dava tratos de polé. Agora é trabalhos moderados ao fim-de-semana e o resto a descansar encostado às paredes da arrecadação, junto às enxadas, que sempre é melhor que ir para a China, ser reciclado em vergalhões, e acabar na armadura metálica de uma barragem ou de qualquer outra construção humana.

Tiveste sorte!

domingo, 14 de agosto de 2016

Cidades Compactas



Há duas décadas, pelo menos, que alguns urbanistas sustentam a tese de que é inútil, nas metrópoles congestionadas por veículos, abrir novas pistas, viadutos, etc, pois qualquer destas soluções não terá outro efeito senão “mudar o lugar dos congestionamentos” uma vez que, atraídos pela ilusória facilidade de escoamento, os motoristas acorreriam em massa para essas novas vias, provocando outros engarrafamentos.

“As cidades sustentáveis são compactas”, sustenta Richard Rogers, autor do projecto do Centro Pompidou, em Paris. Para ele, o automóvel é o inimigo, porque “mina a estrutura social coesiva da cidade, destrói a qualidade dos espaços sociais e estimula a expansão urbana”.

Nas  cidades compactas, a população concentra-se em torno das estações de transporte de massa, de modo a reduzir as emissões de poluentes e o tráfego. Na sua visão, a predominância de pedestres torna os espaços públicos mais seguros e estimula o maior convívio entre os moradores. Além disso, a compactação permite uma forte redução no consumo de energia. Para ele, a distinção essencial, é “entre a cidade baseada nos veículos e a cidade baseada nas pessoas”.

Urbanistas mais radicais propõem caminhos inovadores para a questão das concentrações populacionais, sugerindo o retorno a um planeamento que privilegie aglomerados humanos de poucos milhares de habitantes, questionando o privilégio sem limites conferido ao transporte individual e defendendo a tese provocante de fechar vias ao trânsito automóvel.
Para eles as "Cidades-Jardim" são um conceito ultrapassado e insustentável, que não são mais que um eufemismo de "subúrbios", que facilitou lucros ao lobby da construção civil e impediu a criação de "novas cidades" no interior das existentes, antes que se ocupasse a sua zona verde circundante, que um dia mais tarde lhe fará falta.

Uma cidade compacta dá resposta aos desafios funcionais que hoje lhe colocamos e permite a optimização do respectivo desempenho energético-ambiental.

sábado, 13 de agosto de 2016

A minha floresta


Palavra de honra! Houve tempo em que tive a fantasia de ser dono de uma floresta. Não de uma bouça no monte. De uma floresta com nunca menos de 500 hectares, com estradões largos que suportassem transito de máquinas pesadas, para remover o mato e as árvores destinadas à comercialização e para a manter saudável, mesmo em condições adversas.

O objectivo não era "uma floresta natural", até porque não conheço nada mais agressivo que a Natureza, sempre disposta em enfiar caruncho ou as mais diversas pragas em tudo o que o que é ser vivo, numa competição desenfreada para seleccionar os melhores e os que têm mais sorte.
Eu preocupar-me-ia em ter árvores saudáveis. Umas para pagar a manutenção, outras para passar às gerações vindouras, porque há muito que sei que para ter um carvalho com 5 séculos é necessário esperar 500 anos.

Procuraria o apoio técnico de uma Universidade para a gerir, quer na flora, quer na fauna, e candidatava-me a "fundos" internacionais, que garantissem parte dos custos.

Esta "minha floresta", estaria afastada mais de 250 metros de qualquer habitação e teria regras para quem a frequentasse, fosse trabalhador ou visita e, como nos países civilizados, teria proibição de entrada durante a "época de incêndio". Daria emprego a várias aldeias, quer para a sua manutenção quer com a utilização da sua madeira.

Com estas características, nunca se poderia situar em Portugal, porque aqui os "direitos" e "as conquistas de Abril", que andam na cabeça de meia dúzia de incultos que pensam que as benesses caem do céu, iriam imediatamente questionar o não poder lá ir fazer o pique-nique e levar o garrafão quando muito bem entendesse, o não poder deitar o lixo onde quisesse, porque ... Portugal "é do povo e não do Pires Veloso!" e ... " o povo é quem mais ordena", mesmo que não saiba nada do assunto e haja pareceres técnicos a indicar o contrário, pois é nesse nicho que crescem os "políticos de pacotilha", num "faça-se a ponte, que o rio logo aparece!" de promessas que sugiram um aliado com força e capacidade.

O norte da Europa ou o Canadá eram as opções e eucaliptos e austrálias, nunca! Teria Guardas Florestais "com a cabeça em cima dos ombros" e formação, para entenderem que o tempo das árvores é diferente do nosso e que elas nos olham e sentem as agressões com a tristeza de quem dá o seu melhor e acaba incompreendido e maltratado, só porque um Deus disse ao homem ocidental, que o fez à sua imagem e semelhança, lhe ordenou "crescei e multiplicai-vos!" e o incentivou a dominar sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre o gado, sobre toda a terra e sobre todo o réptil que se move sobre ela. Gênesis 1:26

terça-feira, 9 de agosto de 2016

IMI



Há anos que me meti a fazer a grande parte da manutenção das pequenas coisas da minha casa, por puro gozo, mas também porque seria incomportável não o fazer. Faço de canalizador, de pedreiro, de serralheiro, de pintor ... e, sempre que uma máquina avaria, tento dar com o "gato", antes de a pôr na mão dos profissionais.
Aos poucos fui aprendendo a "alma" daquilo em que mexo. Se tenho livro de instruções, melhor.
Ontem foi dia do indicador de nível do gasóleo de aquecimento. Quase uma hora para perceber que o parafuso do lado direito do mostrador não era de suporte, mas para o rodar e adaptar ao tipo de depósito (coisa que quem lá o pôs, não fez). Depois, outra hora para arranjar uma cadeira, que em 5 minutos se fixava, se a tivesse observado atentamente.

Quando nos confrontamos pela primeira vez com um problema sem lhe entendermos a "alma",  corremos o risco de o deixar sem concerto.
Um amador, mesmo "perspicaz", não deve deve abrir um "relógio" sem um perito nas imediações. E quem diz relógios, diz barrigas e outras coisas de ... valor.

É assim que está a nossa política, cheia de gente voluntariosa que, ao tentar resolver o imediato, compromete o futuro.

A alteração ao IMI, para taxar mais as casas com "melhores" características, é um "ir buscar dinheiro" sem qualquer pejo, para financiar as autarquias, a braços com excesso de pessoal causado pelo abrandamento da construção civil no país. Impossibilitadas de um "reajustamento colectivo" obrigam-nas a espreitar para os quintais na procura do que ali possa haver que possa ser taxado.

Hoje é a exposição solar e as "vistas". Amanhã será a exposição ao vento, depois a água do subsolo, a maior ou menor quantidade de moscas ou mosquitos, a tipologia do solo. ... Vale tudo!!!
O património visível, está tramado. Melhor é gastar as poupanças em turismo e comida.

As pessoas que compraram as casas para nelas viverem, não o fizeram com a intenção de as vender. Escolheram-nas porque, em determinada altura das suas vidas, podiam comprá-las e mantê-las. Alguns foram para a periferia das cidades para poder ter uma casa melhor, sem contarem com as portagens que entretanto surgiram nas estradas gratuitas, nem com um IMI que depende da boa disposição de um funcionário.
Quem construiu e se privou de muita vida mundana, é mais uma vez chamado a pagar os desmandos dos Bancos e da classe política que nos tem desgovernado. Qualquer dia entram mesmo nas casas e taxam o ar condicionado, o aquário, o gato ou cão, a instalação sonora, o LCD e o sofá, se tiverem qualidade acima do básico.
Tudo servirá para se poder afirmar que se está a viver acima das suas possibilidades.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Maçon



- Dr.! Isso é trabalho para três homens em quatro dias. A 10 Euros a hora, conte com 1000 Euros, mais o material e o IVA. Se quiser sem IVA, tem de me dar em dinheiro!
- Sr. Luís! Você sabe quanto se ganha no Serviço Nacional de Saúde?
- Não!
- Por exemplo: Uma médica de família, com um contrato de trabalho de 35 horas/semana, tem um vencimento bruto de 1996€ e recebe líquido 1282€ e um enfermeiro tem um vencimento base de 1.200€ por 35 horas semanais.
Faça as contas. Um enfermeiro, antes de impostos, ganha pouco mais de 8€ e um médico 14. Você pede 10 Euros a hora e limpos. Acha isso normal?
- É o mercado a funcionar!  Limitar vencimentos por classes profissionais é simplesmente desvirtuar o mercado da oferta e da procura! Deixe-os continuar a formar em barda, tipo linha de montagem, economistas, gestores, advogados, professores, enfermeiros, médicos, etc ... e vai ver o que acontece aos seus vencimentos!
Não foi à toa que a Merkel disse que Portugal tinha licenciados a mais! ... Até dá pena ver os "miúdos" irem ao engano para o ensino superior!
- Tem toda a razão! Este país não é para licenciados!

sexta-feira, 29 de julho de 2016

A Ucrânia a passar por aqui



Hi Fernando,
This is Simone. You hosted me and a girl Nadya at the beginning of May this year.
We promised to send you a photo in one of social networks here:
I've uploaded them and send you a file.

Our trip was very good and we liked Portugal a lot. Even more than Spanish part of Camino de Santiago.
Thanks again/ Obrigado/Дякую/Спасибо
You're welcomed if you be in Kyiv
With Regards
Simeone&Nadia


domingo, 24 de julho de 2016

Erdogan


No que respeita a massas, não sou romano. Não atravesso a rua por Farfalle, Gnocchi, Rigatonni, Fusilli, Fricelli, Tortellini, Bucatini, Linguine, Capellini, Fettuccine, Pappardelle ou por Spaghetti.
Não são "a minha praia". Como trigo, no pão, do pequeno almoço mas, às refeições, prefiro batata ou arroz, como fonte de hidratos de carbono. Massas é duas vezes por mês e ... basta!

Esta minha postura, deve ter a ver com o arrepio que sinto quando me deparo com outro tipo de massas. As “massas humanas”. Dessas fujo a sete pés, estejam elas num recinto de futebol, a assistir a um comício, num 13 de Maio ou num desses festivais de verão que acontecem onde menos se espera.
A realidade desses espaços é demasiado dicotómica para meu gosto. O que vejo é um denominador comum "básico" a alienar uma multidão e raramente sinto sair dali qualquer coisa de inspirador.

Para me proteger, procuro espaços onde o “Maria vai com as outras” é mais difícil e, se ocorrer, o movimento tem consequências limitadas.

Associo as multidões aos totalitarismos, onde grandes encenações, bem planeadas, fazem perder a identidade e dar vivas ao que se desconhece ou se não antevê as consequências remotas.
Raramente se ouve um motivador "Ich bin ein Berliner". O mais são desesperados a gritar um “Para Angola, rapidamente e em força! ou grandes castigos para os oponentes políticos. 
Por isso, a minha atitude para com esses movimentos é do estilo “ou mato ou morro!”. Se eles vêm do mato, eu fujo para o morro e vice-versa. Odeio-lhes a irracionalidade e mais quem os usa, mesmo que tenha a melhor das intenções, pois atrás de uma ideia (que até pode nem ser má), a grande onda que se forma, vai necessariamente arrastar muito entulho, que rapidamente desvirtua as intenções iniciais.
Prefiro as pequenas ondas consistentes que em pequenos passos racionais, nos levam onde queremos, sem lixo a embaraçar-nos.

A epilepsia era chamada, no tempo dos romanos, de "mal comicial", atribuindo-a, em certa medida, à excitação que esses ajuntamentos podiam causar e eu, quando ouço a populaça a responder irracionalmente a palavras de ordem que nem ouve, temendo um "treco" ...ponho-me a milhas!

Caro Erdogan: queria dizer-te que acredito que se o Golpe de Estado na tua Turquia tivesse tido sucesso, estaríamos agora a assistir a uma instabilidade social pior que aquela que aconteceu no Egipto, com milhares de mortos a pagar a factura.
Mas isso não te dá o direito de fazer essa onda com a massa (52%) que te elegeu, “afogando” os 48% que te são críticos.
Não te esqueças que:
1) Quem com ferro mata, com ferro morre! quer a sua alimentação seja à base de batatas, arroz, trigo, couscous ou kebab!,
2) Que a globalização está para ficar!
3) Que não é com nacionalismos pategos ou com Religiões de Estado, que se acham soluções com futuro.
4) Que o Cristianismo conquistou Roma com a premissa: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus", estabelecendo uma relação de não interferência com a autoridade secular e a base para o Estado Laico moderno.

-Será que não aprendes??

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Madonna del Ghisallo

Na Europa, mil e quinhentos anos depois do que sobra do Império Romano, a sua cultura persiste.
Os Romanos eram politeístas e abertos a outras religiões. Não tentavam impôr a sua matriz religiosa aos territórios conquistados. Antes perguntavam quais as suas divindades e procuravam as correspondências com os deuses romanos. 
Aconteceu com os Gregos, que os ajudaram a estruturar a sua própria religião, Zeus – Júpiter, Juno – Hera, Poseidon – Neptuno, Ares – Marte, Hermes – Mercúrio. … e por aí fora, e com os Egípcios, Horus – Júpiter, Ísis – Juno, Osíris – Vulcano … .
Mas se não havia correspondência com nenhum dos conhecidos, não havia problema e integravam-no com a função que lhe era atribuída.

Quando o Imperador Constantino, no início do século IV legalizou e apoiou fortemente a cristandade, não tornou o “paganismo” ilegal, pelo que as duas religiões coexistiram durante séculos, com os seus templos e cultos.
O Deus único dos cristãos poderia ser equiparado a Zeus, mas os outros não tinham correspondência, pois os santos eram poucos e sem poderes especiais universalmente reconhecidos e Nossa Senhora ainda não se dispusera às aparições.

Só quando, mais tarde, os santos e Nossa Senhora ganharam funções semelhantes às dos antigos deuses greco-romanos, é que os venceram definitivamente. O S. Roque, para as Epidemias, o S. Brás, para as aflições das gargantas, o S. Albino para as cólicas renais, a Santa Otília para as doenças dos olhos, S. Fiacre para as hemorroides, …  e a Madonna del Ghisallopadroeira dos viajantes desde a Idade Média, sub-especializou-se em ciclismo, em 1949, pela mão do Papa Pio XII.  Desde então na sua capela, acolhe fotos, bicicletas, camisolas e outros objectos que foram pertença de muitas das figuras míticas do ciclismo europeu, de Marco Pantani (o Pirata) a Eddy Merckx.




-Allez! Allez! Allez!!!!!!!!

quarta-feira, 13 de julho de 2016

GANHÁMOS!!!!!!!!!


Há uma esquizofrenia presente na população de Portugal.  Os portugueses conseguem abrigar dois sentimentos diametralmente opostos, e, mesmo assim, ... "funcionar".  Esta é a definição de artista de Scott Fitzgerald.  Talvez sejamos (quase) todos artistas, e essa seja a razão para os altos níveis de ansiedade nacional.
Por um lado, há um sentimento de inferioridade colectivo derivado do facto inegável de que o país tem estado, só para falar nos últimos 100 anos, na cauda dos países da Europa.  Portugal não só tem sido incapaz de sair dessa situação como, apesar dos progressos feitos, esta situação até se tem agravado, e as diferenças para os países do norte da Europa têm aumentado.  Portugal está até a ser ultrapassado por países que estiveram debaixo do jugo da URSS durante mais de 50 anos. Isto devia ser motivo de preocupação e objecto de um esforço de introspecção colectiva.  Mas não é. 

Por outro lado, como para compensar, deixamo-nos possuir, ocasionalmente, por um sentimento de superioridade, em que passamos de bestas a bestiais, num fechar de olhos.  Isto acontece em geral quando a selecção nacional de futebol (ou um clube qualquer) ganha qualquer taça lá fora, e então lembramo-nos que temos um clima privilegiado, o fado, uma orla costeira linda, bom peixe, bom vinho, etc., e que houve, e há, alguns portugueses extraordinários.  Esquecemo-nos que eles são extraordinários apesar de serem portugueses, e não porque são portugueses, o que lhes dá um mérito acrescido.  São extraordinários apesar das dificuldades que tiveram de superar para chegar ao topo, causadas principalmente pela inveja nacional, e muitos só foram reconhecidos em Portugal depois de terem tido sucesso no estrangeiro.

Parece, no entanto, que Portugal encontrou no futebol uma fórmula para o sucesso. Através da meritocracia foi capaz de escolher os melhores, com provas dadas de competência - lideres e jogadores - para vencer um campeonato de futebol.
Se sabemos qual a solução para o sucesso, porque é que continuamos a escolher para nos governar gente sem curriculum, sem história de vida relevante para funções governativas, e não aplicamos esta fórmula - meritocracia - para escolher os nossos governantes?

A resposta é que todos aceitamos que um treinador ou jogador de futebol seja despedido se não produzir os resultados esperados, mas não aceitamos que esse critério se aplique nas nossas vidas. Não aceitamos que a incompetência seja justa causa para despedimento e isto faz com que não haja incentivo para dar o melhor.  Se fosse, muitos dos incompetentes de hoje, seriam competentes amanhã, e haveria um salto qualitativo imediato.

Elegemos governantes medíocres, porque só esses prometem o que a maioria quer ouvir, mesmo que todos saibamos que estão a mentir.
São poucos os melhores portugueses que se metem nesses ninhos de ratos que têm sido os partidos políticos. 

Ainda à cerca de futebol.
Os portugueses esquecem-se que é apenas um jogo para nos entreter e equacionam a selecção nacional de futebol como parte das forças armadas, lutando para vencer um "inimigo".  Cantar os hinos nacionais antes dos jogos só pode exacerbar esta convicção. 

Não é só em Portugal que se faz essa relação. Pela reacção dos franceses à derrota da sua selecção frente a Portugal, ficou mais do que óbvio que o orgulho nacional francês ficou gravemente ferido.  
São estas e outras, manifestações de nacionalismo barato e de orgulho nacional mal dirigido (patrioteirismo), que se pode extrapolar para outros aspectos do dia a dia, e que impede a formação de uma União Europeia.  

Os dirigentes políticos alimentam este sentimento como ferramenta de manipulação das massas.  A formula dos 3 Fs continua válida.  
Com a vitoria da selecção nada mudou em Portugal, mas durante 15 minutos os portugueses sentem-se os melhores da Europa.  ... Ganhámos!

(Texto de alguém que se quer Anónimo)

terça-feira, 12 de julho de 2016

domingo, 10 de julho de 2016