quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

O nosso "anti-racismo"




Os europeus tornaram-se multiculturais, tanto nos factos como por princípio. As comunidades imigrantes, muitas vezes pesadamente muçulmanas, crescem nos países europeus em resposta à carência de mão de obra de princípio do pós Segunda Guerra Mundial. Nos primeiros tempos, os activistas destas comunidades lutaram por direitos iguais para os imigrantes e seus filhos, mas viram -se frustrados por continuas barreiras à mobilidade ascendente e à integração social. Inspirados tanto pela Revolução Iraniana de 1979 como pelo apoio saudita às mesquitas e madrassas salafistas, começaram a aparecer na Europa grupos islamitas que defendiam que os muçulmanos não deviam procurar integrar-se , mas sim manter instituições culturais separadas. Muitas pessoas da esquerda europeia abraçaram esta tendência, considerando os islamitas como os autênticos porta-vozes dos muçulmanos, mais marginalizados do que integrados, que tinham optado por se integrarem no sistema social. Em França, os muçulmanos tornaram-se o novo proletariado, com parte da esquerda a abandonar o seu secularismo tradicional em nome do pluralismo cultural. As criticas de que os islamitas eram ele próprios intolerantes e iliberais era muitas vezes minimizadas sob a bandeira do antirracismo de contrariar a islamofobia.

In Identidades, Francis Fukuyama

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Carta aberta a Nicolás Maduro




Caro Maduro:
Para governar um país é necessário ter mundo e jogo de cintura para não se refugiar numa solução que até pode ter sido boa, mas que a mudança das circunstâncias provou “ad nauseam” que já não é. A pouca razão que possas ter tido, não te irá servir para nada. A geografia e as enormes reservas de petróleo contam mais que a ideologia. Quiseste continuar a política à Robin dos Bosques, sem entenderes que a América do Sul é pertença do “Ocidente”, que é como quem diz está dependente da política internacional dos Estados Unidos. Esqueceste-te que Cuba não tinha petróleo e optaste pelo caminho do Saddam, e o mais certo é teres o mesmo fim. A Venezuela é demasiado importante para que a deixem ser um protectorado da Rússia ou da China.
Paraste no tempo. A globalização criou problemas que exigem mentalidades abertas a soluções integradas com o sentir das outras nações. Deves ter pensado que estar sentado sobre o petróleo te dava o direito de fazer uma “Arábia Saudita” à Venezuelana, quando devias ir à missa e procurar o apoio internacional que foste perdendo.  
Se arrastares o país para a guerra civil, vais ficar na História como mais um Vilão. Ouve o que te digo: marca as eleições que te pedem, mas faz por perder! Depois, foges para a Rússia, voltas aos camiões (aquela terra tem extensões que nunca mais acabam) e acabas de criar os filhos. Daqui a uns anos, escreves um livro a contar as mágoas e vais ver que não te vão faltar compradores. Com sorte, até te fazem santo, quando morreres!
Vai por mim que, mesmo não sendo taxista, sou mais velho e já vi o porco a andar de bicicleta.

Passa bem!

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Gripe Masculina



Aos homens constipados

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

Poema de António Lobo Antunes, In 'Sátira aos Homens quando estão com Gripe'

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

O futuro do SNS



Estou fora, mas mantenho as cicatrizes do tempo em que lutei por um SNS com custos sustentáveis e revolta-me ouvir quem defende resolver o problema atirando-lhe dinheiro para cima.
Senti as dificuldades de todos os graus da carreira médica e assisti ao crescimento da “medicina defensiva”, ao abuso de Meios Complementares de Diagnóstico, à incapacidade em conter os profissionais “disfuncionais”, ao papel nocivo do amiguismo politico-religioso e à inaptidão dos sucessivos ministérios da Saúde em dar credibilidade aos Centros de Saúde.
Como se estas ineficiências não lhe chegassem, quando os Hospitais Privados entraram e o Serviço Nacional de Saúde passou a “Sistema”, o descontrole agravou-se, pois os que dizem que o Estado é mau pagador, ocultam que ele paga muito bem as ineficiências e os oportunismos, e que raramente protesta.
Para cúmulo, a comunicação social, ao anotar essencialmente as falências do SNS, induz na população um sentimento de insegurança, que a leva a quase exigir TACs, análises e muitas opiniões, esquecendo que o funcionamento das instituições é monitorizado diariamente pelos pares, sejam eles Auxiliares, Enfermeiros ou Médicos.
As últimas intervenções dos políticos vão na direcção de entregar aos grandes grupos económicos ligados à Saúde, “as técnicas que dão dinheiro” e deixar para o SNS o que “não é rentável”, o que irá agravar o fosso salarial entre os profissionais dos dois lados, com a consequente “desnatação” dos quadros do Estado.

O futuro do SNS não depende de “mais dinheiro”. Depende da capacidade técnica e organizativa de que for capaz, e isso não é compatível com o “deixa andar”, com compadrios, com “faz-de-conta” para que os “números” dêem certo, quando se recusa a quem está “por dentro” e é responsável, capacidade de corrigir o que está mal.
É aqui que se ganha o SNS. Claro que o dinheiro tem de ser adequado às funções, mas sem uma responsabilização clara do modo como ele é gasto, só se irá agravar o problema e dar razão aos privados que se dizem capazes de melhor gestão. O SNS exige, acima de tudo, gente competente. 
Infelizmente, também aqui há “Estradas de Borba” (fruto de compadrios e da excessiva indulgência para com os “amigos”), a aguardar que uma chuvada mais forte as faça ruir e, mesmo que haja auto-estradas e muitas outras vias com bom funcionamento, vão ser elas que lhe irão dar a imagem, para desviar o dinheiro dos Impostos para o Sector Privado, e o transformar num Serviço  para os “pobres”.


sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Inclusão




Não desprezo os homens. Se o fizesse, não teria direito algum, nem razão alguma, para tentar governá-los. Sei que são vãos, ignorantes, ávidos, inquietos, capazes de quase tudo para triunfar, para se fazer valer, mesmo aos seus próprios olhos, ou simplesmente para evitar o sofrimento. Sei muito bem. Sou como eles, pelo menos momentaneamente, ou poderia tê-lo sido. Entre outrem e eu, as diferenças que distingo são demasiado insignificantes para que a minha atitude se afaste tanto da fria superioridade do filósofo como da arrogância de César. Os mais opacos dos homens também têm os seus clarões: este assassino toca correctamente flauta; este contramestre que dilacera o dorso dos escravos com chicotadas é talvez um bom filho; este idiota partilharia comigo o seu último bocado de pão. Há poucos a quem não possa ensinar-se convenientemente alguma coisa. O nosso grande erro é querer encontrar em cada um, as virtudes que ele não tem e desinteressarmo-nos de cultivar as que ele possui.

In “Memórias de Adriano” de Marguerite Yourcenar

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Natal


Natal, e não Dezembro
Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

David Mourão-Ferreira (
1927-1996), in 'Cancioneiro de Natal' 

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Pimentos picantes

Recentement o WhatsApp deu-me acesso a este pequeno vídeo, onde um paisano arrisca a comer o mais picante dos pimentos. O filme não mostra a totalidade dos seus efeitos, que se podem prolongar por dias e que incluem cefaleias intensas na dependência do Sindrome de Vasoconstrição Cerebral Reversível. 
Na minha prática clínica, encontrei uma vez uma jovem médica com anestesia da mão, por ter manuseado este pimento. 


A capsaicina é o responsável pelo picante dos pimentos. É um composto químico capaz de estimular os receptores térmicos e dolorosos da pele e especialmente das mucosas. Algumas variedades de pimentos podem apresentar variações importantes na sua concentração (como os pimentos de Padrón, que “uns picam e outros não")



A capsaicina é muito irritante para os mamíferos, o que evita que os seus frutos sejam comidos pelos herbívoros. As sementes, onde se concentra o composto, são dispersas predominantemente pelo pássaros, que são imunes ao químico.

O homem praticamente não metaboliza a capsaicina, pelo que os seus efeitos também se fazem sentir no outro extremo do tubo digestivo.
Aplicada directamente sobre a pele, pode saturar os receptores da dor, pelo que já foi usada como analgésico tópico.

O Carolina Reaper, foi considerado em 2012, pelo Guinness World Records, o pimento mais picante.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Cogumelos Mágicos


Chegaram cheinhos de cor. Tão bonitos! Tão vistosos, a dar cor ao parque infantil! Vou ficar atento, pois eles devem ser o prenúncio de ali morarem gnomos, fadas ou, quem sabe, se algum trasgo fugido da Galiza ali se instalou, antes de se aventurar na minha casa.  

Amanita muscaria


Embora sejam considerados venenosos, raramente a sua ingestão é causa de morte (a fervura enfraquece a sua toxicidade).
O Amanita muscaria é conhecido pelas suas propriedades halucinogénicas. Os seus constituintes psicoativos são os Ácido Iboténico e o Muscinol. A dose activa para um adulto é aproximadamente 6 mg de Muscimol ou 30 a 60 mg de Ácido Iboténico, o que é possível encontrar numa cápsula de um destes cogumelos - embora a concentração varie de cogumelo para cogumelo e também com as estações do ano (na primavera e no verão tendem a ter concentrações dez vezes superiores).

Os constituintes activos são solúveis em água, pelo que a fervura e a sequente rejeição da água, diminui-lhes a toxicidade. Por outro lado, a secagem aumenta-lhes a potência, por facilitar a conversão do Ácido Iboténico no mais potente Muscimol.

A Muscarina, que em tempos foi responsabilizada pelos efeitos halucinogénicos do A. muscaria é um constituinte minor, sem concentrações suficientes para provocar sintomas. O Ácido Iboténico e o Muscimol têm estruturas relacionadas com dois neurotransmissores do Sistema Nervoso Central: o Ácido Glutâmico e o GABA (Ácido Gama-Amino- Butírico) respectivamente, e actuam como esses neurotransmissores.


terça-feira, 13 de novembro de 2018

Desafio




Estam máscara pertenceu a um médico.
?? Com que fim a usava??

domingo, 11 de novembro de 2018

A ciência do Mal



Ocorre Empatia quando suspendemos o nosso foco no “Eu” e adoptamos uma postura dupla, em que nos preocupamos simultaneamente com o pensamento do outro, para responder aos seus sentimentos com uma emoção apropriada. Se estudarmos o Grau de Empatia (Quociente de Empatia) de um grupo humano, ele distribui-se de acordo com uma curva de Gauss, onde os “não empáticos” estão no fim da assintota à esquerda e os muito empáticos, que se negligenciam para cuidar dos outros, no outro extremo. A ideia base é que todos ficamos em algum ponto desse espectro..

Quando a nossa empatia se desliga e passamos para o modo “Eu”, passamos ao modo Zero e passamos a relacionarmo-nos com as pessoas como se elas fossem meros objectos. A “Erosão Empática pode resultar de um ressentimento amargo, um desejo de vingança, um ódio cego ou de um intenso desejo de protecção. Quando alguém só está focado em perseguir os seus interesses, tem todo o potencial para se tornar “não empático”, mesmo que o seu projecto possa ter um foco positivo: por exemplo: ajudar pessoas. Em teoria a erosão empática é reversível.

Enquanto uns têm episódios em que desligam o “sistema empático”, há pessoas que estão permanentemente no ponto Zero de empatia. O Grau 0 de Empatia significa que se não tem percepção do outro, de como interagir com o outro ou de antecipar os seus sentimentos ou reacções.
Neste estado o indivíduo vive centrado em si próprio, acreditando 100% na justeza das sua ideias e crenças, e julgando quem não o segue como errado ou estúpido. O grau 0 de empatia leva a uma existência de solidão, a uma vida "incompreendida", condenada ao egoísmo. Significa não ter travões no comportamento, ficando livre para perseguir qualquer objectivo ou desejo, ou para exprimir o que lhe passa pela cabeça, sem considerar o impacto das suas acções ou palavras na outra pessoa. Em casos extremos esta falta de empatia pode levar ao homicídio ou à violação, e em casos menos extremos, a linguagem abusiva e a actos de crueldade menos graves.

Se estudarmos por Ressonância Magnética Funcional, os cérebros de indivíduos que sofrem destas situações, iremos encontrar alterações nas áreas dos seus circuitos cerebrais de empatia no córtex pré-frontal ventro-medial, no córtex médio do hipocampo e nas áreas temporais e amígdala.

Há três graus tipos de “Empatia 0” permanente: O Psicopata, o Narcisista e a Perturbação de Personalidade “Borderline” (Borderline porque, segundo Adolf Stern -1938, estaria entre a neurose e a psicose) que se atribuem ao não desenvolvimento dos circuitos neuronais de empatia provocados por intensos traumas na infância ou na adolescência.  Mas não é só o ambiente que pode levar a empatia 0. Há alterações genéticas, endócrinas e lesionais (p.ex: isquemia peri-parto) que podem afectar estes circuitos, condicionando o reconhecimento emocional do outro ou o controle executivo que nos impede de fazer o que pode levar a punições.

As características da personalidade “Borderline” são uma impulsividade auto-destrutiva, raiva e alteração súbita do humor, o pensamento a “preto e branco”, pelo que as pessoas são ou “muito boas” ou “muito más”, o que as faz atraídas pelos cultos. São também muito manipuladores – fingindo ser fracos e uns desgraçados, ou usando sedução sexual ou fingindo suicídio para chamar a atenção. Na base do não estabelecimento dos seus circuitos cerebrais da empatia, provavelmente de modo irreversível, encontra-se frequentemente a negligência dos pais, o abandono, o abuso sexual, o excesso de protecção e a indiferença

O Psicopata partilha com o “Borderline” a mesma total preocupação consigo próprio, mas este apresenta uma forte vontade de satisfazer os seus desejos a qualquer preço, que pode tomar a forma de uma reacção violenta a uma pequena contrariedade ou de uma crueldade calculada e fria - Antissocial personality disorder. A inconsistente disciplina parental, o alcoolismo dos pais, a falta de supervisão, o abuso emocional, físico ou sexual ou o abandono completo, bem como uma ligação insegura com o adulto de referência, leva-os à tendência para interpretar situações ambíguas como intenções hostis e a não “aprenderem” a ter medo das punições. Os psicopatas têm um problema estrutural nos lobos frontais, que impede o controle sobre as acções que podem levar a punições, como tão bem descreveu António Damásio no seu livro “O erro de Descartes”, lembrando o caso de Phineas Gage.

Os Narcisistas têm uma total ausência de humildade. Pensam que são muito melhores que os outros e queixam-se de tudo e de todos, mas não cometem actos cruéis. Como os outros que têm empatia 0, não reconhecem a importância das relações interpessoais e tendem a relacionar-se com os outros de acordo com a sua “utilidade” e, nesse sentido, a usá-los como objectos pessoais.


Os indivíduos com Síndrome de Asperger também têm empatia 0. Têm uma atenção extrema a alguns detalhes e uma forte sistematização que lhes permite identificar “padrões sequenciais” estáveis e predizer, por exemplo, a evolução dos preços nos mercados internacionais. Fixam-se na avaliação de um único padrão de cada vez e tudo o que lhes surge inesperadamente, como alguém entrar-lhes no quarto e abrir-lhes as cortinas, mudar-lhes uma rotina de terça para quarta-feira, é considerado tóxico. Exigem um ambiente totalmente controlado, com elementos e regras bem precisas, sem entender o mundo das emoções, mas enquanto os psicopatas têm consciência de que estão a magoar alguém, o autista clássico não tem capacidade de tal reconhecimento. Evitam os outros porque não entendem o mundo social que lhes parece não ter regras, mas não são levados a efectuar actos tidos como cruéis.

...

O facto da Ressonância Magnética Funcional dos cérebros de indivíduos que sofrem de Empatia 0, permitir identificar alterações dos seus circuitos cerebrais de "Empatia", lembra Cesare Lombroso (1835 – 1909), o médico e criminologista italiano que tentou identificar um criminoso pela definição de múltiplas anomalias físicas, como a inclinação da testa, o tamanho das orelhas, a assimetria da face, o prognatismo, a desproporção excessiva dos braços, a assimetria do crâneo, criando até a imagem do “criminoso nato”.



sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Carta aberta ao ex-Ministro da Saúde




Caro Adalberto:

Ando há semanas às voltas com esta carta de despedida, mas metem-se sempre umas coisas menores pela frente e obrigo-te a esperar.
Fui apoiante das tuas boas intenções, mas penalizo-te por não teres analisado devidamente os lobbies da saúde e por não teres estabelecido regras ab inicio que promovessem eficiência.
Em meu entender devias ter suspenso alguns programas informáticos até que o sistema garantisse fluidez. O actual sistema de registos dos diários de enfermagem é de difícil consulta médica. Está desenhado para responder a necessidades criminais e não às assistências. Um texto com três linhas, mais uma tabela de sinais vitais, é o suficiente para a maioria dos doentes. Obrigar os enfermeiros a preencher quadros em diferentes páginas, que não são lidos pelos médicos, não é proveitoso. Um registo em papel era mais rápido e funcionante. Também devias rever algumas das suas funções indiferenciadas, como o são a maior parte das higienes a que se obrigam, transferindo-as para auxiliares de acção médica. O que poupavas em informática e em mão de obra, podias usá-lo para lhes aumentar o vencimento. Claro que aí tinhas comprado outras guerras.
Quanto aos médicos, os registos dos diários nas enfermarias deviam ter continuado em papel e só os Relatórios finais (como as Notas de Alta) deveriam ser informatizados.
Não é possível trabalhar com computadores, quando eles são lentos, vão abaixo frequentemente e são em número insuficiente para os profissionais. São horas de trabalho médico desperdiçado. Esperavas até se poder garantir um PC ou Tablet a cada médico, revias os programas informáticos, e então a coisa podia ser rentável. Deixaste que os SPMS andassem com o carro à frente dos bois sem qualquer auditoria, e o tempo que se gasta em registos onera significativamente o sistema.
Mas, acima de tudo, havia de responsabilizar as direcções pelos gastos e pela produção. Responsabilizar e dar poder. Pedir resultados e dar condições para corrigir o que estivesse errado. O dinheiro que poupavas em MCDT, na iatrogenia e no Controle Biométrico dava-te uma folga, que até podias começar a pagar a formação do pessoal de saúde nos mais altos standards.
Claro que terias de ter força para te opores ao negócio da saúde. Mas não eram só os "privados que fornecem serviços ao Estado" e a Indústria Farmacêutica que tinhas de "frenar". Tinhas de negociar com os lobbies dos médicos e dos enfermeiros para que a sua progressiva diferenciação fosse acompanhada do abandono de funções menos diferenciadas em favor de outros grupos profissionais. Devias também ter posto em sentido aquela gente que, em Lisboa, decide, compra e implementa sistemas informáticos que, frequentemente não melhoram em nada a assistência e que dificultam a análise de quem se preocupa com a qualidade e quantidade do que se faz e não com quem chega tarde ou sai cedo.
Quem vem a seguir ti, se não se dispuser a “puxar pelos galões”, vai manter as responsabilidades difusas, sem que se corrijam as ineficiências e os custos crescentes da saúde.

Eu, por agora, estou noutra, mas custa-me saber que uma parte significativa dos meus impostos está a servir para cobrir ineficiências, substituindo uma palavra acertada (que pode ser tudo o necessário para tratar adequadamente um doente) por uma lista interminável de remédios e de intervenções para esconder a incompetência, a falta de esperança ou a sustentabilidade dos "privados".

Espero que tenhas agora algum descanso, pois considero que depois de teres sido o "saco de boxe" onde todos foram dar o seu murro para mostrar que também "são", te dá o direito a um bom ano sabático antes de reapareceres de novo. 
Fica bem! Bom fim-de-semana e não te esqueças do guarda-chuva!
Abraço.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Frase do Dia


Quem não está na mesa de negociações, está na ementa!

domingo, 21 de outubro de 2018

Remo



Sexta-feira. Jantar de amigos na margem esquerda do Douro, marcado para as 20:00 horas. Um transito de fim-de semana a dificultar o acesso. Um dia de Outubro de sol forte a dar início a uma noite de verão.

Caminho pela margem do rio, agora interdita ao transito, em direcção à Presuntaria Transmontana. O sol já se escondeu e a noite está quase, quase aí. O espelho do rio duplica as luzes da cidade em frente.

Num pequeno cais duas jovens preparam-se para sair num Double scull. Os turistas fotografam o rio e a cidade e elas demoram-se para se eternizarem nas fotos e partem piscando umas pequeninas luzes a meio de cada remo. Mais uma chega ao cais num outro skiff e parte mais lestra. Agora é mesmo noite. Só as luzes das margens iluminam o rio quando as vejo desaparecer debaixo da ponte. Vou ao hangar do outro lado da rua. Horário: Segundas, Terças, Quintas e Sextas: das 8:30h às 12:30h e das 16:00h às 21:00h. Quartas – das 17:00h às 21:00h. Sábados: das 8:30h às 13:00h (e, por vezes, das 15:00 às 18:00). Domingos e Feriados: das 8:30h às 13:00h.

Três jovens no meio do rio ... à noite, vestidas de preto, a fazer nascer em mim um quê de inveja.
Como o mundo muda! 

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Chuva


Razão tinha a senhora da padaria: Ninguém rega como Deus Nosso Senhor!

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

O peru




Imagine um peru de criação. Cada vez que lhe é dada comida há um contributo para a crença, por parte do animal, de que é uma regra geral da vida ser-se alimentado todos os dias por membros amigáveis da raça humana que, como diria um político, "cuidam dos seus melhores interesses”. Mas na véspera do Natal, pela tarde, algo de inesperado lhe irá acontecer!
Como poderemos imaginar o futuro, recebendo o conhecimento do passado, ou, mais genericamente, como podemos calcular as propriedades do desconhecido baseados no que é conhecido? Que pode um peru aprender acerca do que lhe está reservado, a partir dos acontecimentos de ontem? Muito, talvez, mas certamente um pouco menos do que pensa e é justamente esse “um pouco menos” que irá fazer toda a diferença.
O peru aprendeu através da observação. A sua confiança aumentou com o crescente número de vezes em que foi alimentado por gente amigável e sentiu-se cada vez mais seguro, apesar da sua morte estar cada vez mais eminente. O sentimento de segurança atingiu o valor máximo quando o risco era mais elevado!

O problema está relacionado com a natureza do conhecimento empírico. Algo que funcionou bem no passado, inesperadamente, deixa de funcionar, e o que aprendemos revela-se, na melhor das hipóteses, irrelevante ou falso e, na pior das hipóteses, perversamente enganador.

Confundir uma observação ingénua do passado como algo definitivo ou representativo do futuro impede-nos de contar com o improvável.
Na perspectiva do peru, o facto de não ter sido alimentado por volta do dia 200 é um “choque”! Para o talhante, não!
Surpresas destas, podem ser eliminadas pela ciência (se se for capaz disso) ou mantendo a mente aberta!

In “O Cisne Negro” de Nassim Nicholas Taleb