segunda-feira, 16 de julho de 2018

Alguns humanos



A EMANAÇÃO

Contam os sábios tibetanos que o Inferno é dividido em 18 departamentos, dos quais oito insuportavelmente frios e dez insuportavelmente quentes. Esta história começa num dos departamentos menos quentes, onde dois condenados puxam uma carroça cheia de blocos de pedra. Um tinha sido um salteador que assaltava caravanas nas estepes de Changtang, e era forte como um touro. O outro, magro e esquálido, tinha sido monge no mosteiro de Takpu, em Naksho Driru, e foi parar ao Inferno porque se esmerava em exigir dos outros o comportamento que ele mesmo nunca conseguira ter.

Os dois infelizes esforçam-se para fazer avançar a carroça, mas a coisa vai mal. A todo instante o monge tropeça e cai, exausto, e o seu companheiro é obrigado a parar para ajudá-lo, interrompendo o trabalho. As pedras são usadas para construir novos alojamentos para os recém-chegados ao Inferno, que nos últimos tempos tem recebido cada vez mais gente. Não há moradias para todos e o Rei Sinje, o Senhor dos Mortos, ordenou que os condenados trabalhassem a dobrar para reduzir o défice habitacional. Os capatazes estalam os seus chicotes de fogo nas costas do monge, urram e gritam, mas ele mal se consegue mexer, coberto de sangue e poeira.
Atormentado com tanto ver o seu companheiro sofrer, o ladrão deixa de puxar a carroça e fica em silêncio, inerte. O capataz com cabeça de cachorro, aproxima-se e ameaça-o com um porrete cheio de pregos. O ladrão diz que só voltará a trabalhar se soltarem as correntes que prendem o seu companheiro à carroça, pois assim ele poderá puxá-la sozinho e tudo andará mais rápido. O capataz, enfurecido, grita que não recebe ordens de condenados, e esmaga o crânio do ladrão com o porrete.

Como se sabe, no Inferno tibetano a danação não é eterna. Lá, é possível morrer e renascer noutro lugar. E é exactamente o que acontece com o ladrão, cuja compaixão faz com que ele reencarne com o nome de Li Xun, numa pequena aldeia no sul da província chinesa de Quinghai.
Como ele ainda tem muitos crimes para purgar, o destino se encarrega de que ele se torne um burocrata e leve uma vida enfadonha e repetitiva.
… … …

É assim que começa o sexto conto, deste livro de contos, todos eles sublimes.

domingo, 15 de julho de 2018

A dominância dos teimosos


Há uns meses, um amigo aconselhou-me o livro “Skin in the Game”. O segundo capítulo – O mais intolerante vence: A dominância da minoria dos teimosos”, deu-me luz sobre como se propagaram (e propagam) muitas das teorias que regem o Mundo.

A principal ideia por detrás de um sistema complexo é que o conjunto se comporta de modo não previsível pelos seus componentes e que as interacções são mais importantes que a natureza das suas unidades.
Estudar individualmente o comportamento de uma formiga, nunca nos irá dar uma clara indicação do como o formigueiro funciona. É necessário olhar para uma colónia de formigas como uma colónia de formigas e não como um conjunto delas. A isto chama-se uma propriedade “emergente” do todo, na qual as partes e o todo diferem, porque o que interessa são as interacções entre as partes.

Uma das suas regras é a "Regra da Minoria": Se um certo tipo de minoria intransigente – com significativo “skin in the game” (ou, melhor, “soul in the game”) - atingir um pequena percentagem da população - 3 a 4%, pode fazer com que toda a restante se submeta às suas preferências.

Um exemplo desta complexidade atingiu o autor, quando ajudava um barbecue em Nova York.
Estavam os anfitriões a desempacotar as bebidas, quando um amigo que só consome alimentos “kosher”, se aproximou para o cumprimentar. O autor ofereceu-lhe uma limonada, na certeza de que ele a iria rejeitar. Mas, para seu espanto, ele bebeu o líquido, enquanto outra pessoa comentou: “Aqui, todas as bebidas são kosher!”. Olhou para o rótulo da garrafa e, no fundo, tinha um pequeno símbolo – um U envolto num círculo, indicando que era kosher. O símbolo só é detectado por aqueles que necessitam de o saber, e fê-lo ganhar consciência de que bebia regularmente líquidos kosher sem o saber.

A população kosher representa menos de 0.3% dos residentes nos Estados Unidos (cerca de 9% dos noviorquinos são judeus) e estava-lhe a parecer que todas as bebidas eram kosher. Porquê? Simplesmente porque se forem kosher, os produtores, os revendedores e os restaurantes, não têm de fazer distinções entre kosher e não kosher para os líquidos, com marcações especiais, áreas e inventários separados.

A regra simples que altera o total é a seguinte: Um kosher (ou halal) nunca irá comer alimentos não kosher (ou não halal), mas um não kosher não está proibido de comer alimentos kosher.

Alguém com alergia ao amendoim, não irá comer produtos que o possam conter, mas uma pessoa sem alergia poderá comê-los. O que explica o porquê de ser tão difícil de encontrar amendoins nos aviões dos Estados Unidos e porque as escolas são “peanuts-free”.

Chamemos a estas minorias um grupo intransigente e à vasta maioria um grupo flexível.

Dois pormenores. Primeiro, o modo como estão implantados no terreno, é importante. Se a minoria dos intransigentes vive em guetos, com uma economia pequena e separada, então esta regra não se aplica. Mas quando a população tem uma distribuição espacial uniforme, isto é, quando a percentagem da minoria na vizinhança é a mesma que na cidade inteira, que a da cidade a do país, então a maioria flexível ir-se-á submeter à regra da minoria. Segundo, o custo também interessa. No exemplo da nossa limonada kosher o aumento de preço não é significativo.

Os muçulmanos também têm leis do tipo “kosher”, que se aplicam à carne, regras de abate herdadas de práticas sacrificiais antigas dos cultos Grego Oriental e do Levante. Tudo o que é kosher é “halal”, para a maior parte dos Sunitas (ou era assim nos séculos passados), mas o reverso não é verdade.

No Reino Unido, onde a população muçulmana praticante é de 3 a 4%, uma grande proporção de carne que se encontra nos talhos é halal. Cerca de 70% do anho importado da Nova Zelândia é halal. Perto de 10% da restauração do metropolitano vende “Halal-only meat”.

Mas nos países de matriz cristã, halal não é suficientemente neutro. Há ainda muitos cristãos que entendem os valores sagrados dos outros como uma violação dos seus. Lembremos que, no século VII e anteriores, muitos mártires cristãos foram torturados por se recusarem a comer carne sacrificial e assumiram a postura heroica de morrer à fome por considerarem um sacrilégio aquela comida impura.

Se o objectivo é vencer e não vencer um argumento, pôr o foco unicamente nas palavras coloca-nos num declive perigoso. É necessário fazer preceder as palavras de actos significativos. Só a realidade consegue convencer alguém de que está errado.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Carta de despedida a um amor antigo



Minha querida:

A nossa relação acabou!

Ao fim destes muitos anos em que me acompanhaste dentro do hospital, sempre atenta a qualquer ignição mais apaixonada, é forçoso que te deixe e prescinda da garantia de que nada mais acalorado se passará sem o teu conhecimento.

Pena que só nos dessemos a conhecer em fevereiro de 2012, quando os meus olhos tropeçaram no jeito meigo dos teus. Foi então que tudo começou e, animado pela tua timidez de menina, eternamente protegida atrás de uma vidraça, mantive-te informada do que se passava no meu peito.

Tens agora o cabelo encanecido pelas muitas confidências que escutaste. Ouviste familiares falarem mal dos médicos, médicos a queixarem-se dos seus pares, enfermeiros dos horários de trabalho, auxiliares da precariedade da sua vida. Ouviste falar do desperdício de quem tem pressa e fica incapaz de pensar antes de se meter a “fazer”, da gestão que não controla os custos e que diariamente põe em causa a sustentabilidade do SNS, do nivelamento por baixo dos profissionais desta casa, dos fracos vencimentos pagos pelo Estado, da procura desnecessária dos serviços hospitalares, … . Tantos a queixarem-se do que os outros não fazem bem, sem cuidar de melhorar o que podiam na sua área … .

De mim muito deves ter ouvido, porque pertenci ao grupo que lutou pela melhoria da qualidade assistencial a custos aceitáveis, sem aquela “flores” que são os “luxos” de quem se esquece que mais tarde os irá pagar, sob a forma de impostos ou da desvalorização do seu dinheiro. Percebeste as minhas mágoas quando falava dos meios auxiliares de diagnóstico e de terapêuticas desnecessárias, dos gastos com controles biométricos com médicos em vez de responsabilizar os directores dos serviços pelo qualidade e quantidade de trabalho produzidos, da promiscuidade entre o público e o privado, da necessidade de uma fiscalização eficiente ao favorecimento (nepotismo e compadrio - político / religioso / institucional) na escolha dos profissionais das organizações dos Estado, nesta "terra de primos que passam a vida a fazer jeitos uns aos outros”.
Obrigado pela tua paciência!

Em breve, só quando as saudades me trouxerem para os locais onde fui feliz, te encontrarei de novo. Talvez te escondas num novo penteado e me deixes inquieto por te ter deixado assim, de um dia para o outro, e me recrimines por, apesar da idade, ainda te manteres no teu posto assumindo as funções nessa missão de estar sempre disponível para entrar em acção a todo o tempo.

Eu sei que esta separação me irá custar mais a mim que a ti, pois não acredito que deixes que uma lágrima assome ao teu rosto, nem te vejo a alterar a rotina de tantos anos, já que tens quem te garanta a subsistência.
Eu tenho de programar o meu novo estar. Para já vou-me manter por perto e a todo o tempo te poderei visitar, queiram os deuses que sempre de sorriso estampado, mas, se o acaso me levar a ti na horizontal, que o nosso encontro seja breve e que a memória ajude a dar dignidade a quem por aí andou sem se preocupar com serviços mínimos.

Fica bem, meu romance tardio

Fernando

sábado, 30 de junho de 2018

Farewell




Oh it's fare thee well my darlin' true,
I'm leavin' in the first hour of the morn.
I'm bound off for the bay of Mexico
Or maybe the coast of Californ.

Oh the weather is against me and the wind blows hard
And the rain she's a-turnin' into hail.
I still might strike it lucky on a highway goin' west,
Though I'm travelin' on a path beaten trail.

I will write you a letter from time to time,
As I'm ramblin' you can travel with me too.
With my head, my heart and my hands, my love,
I will send what I learn back home to you.

I will tell you of the laughter and of troubles,
Be them somebody else's or my own.
With my hands in my pockets and my coat collar high,
I will travel unnoticed and unknown.

I've heard tell of a town where I might as well be bound,
It's down around the old Mexican plains.
They say that the people are all friendly there
And all they ask of you is your name.

So it's fare thee well my own true love,
We'll meet another day, another time.
It ain't the leavin'
That's a-grievin' me
But my true love who's bound to stay behind.


terça-feira, 26 de junho de 2018

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Vidas difíceis


1:
Trazida pela GNR com carta de um responsável do Centro de Saúde, onde se refere comportamento agressivo, verbal e físico com a vizinhança, a solicitar intervenção das autoridades.
Tem 78 anos. Vive com marido. Tem dois filhos emigrados.
Diz sentir "um enxame à volta da cabeça” que não a deixa dormir. Que a filha fala com ela, mas que não a vê. Desde o nascimento da filha que ouve a zumbar lá em cima, e ela já tem 40 anos!”. Ultimamente, o enxame chama pela mãe, comenta e pede coisas. É pior à noite. "Uma voz de homem, a rir-se!..."

Os familiares notam agravamento nos últimos três anos, com delírios persecutórios, agressividade verbal e isolamento social. 
Diz que lhe querem envenenar a comida e que os vizinhos lhe roubam os animais, o que o marido nega. Tem andado na via pública com milhares de euros, por medo que lhe roubem o dinheiro em casa.
Está com contenção física, verborreica, má higiene e péssimo cuidado físico. Fala em tom alto e ameaçante, sem crítica para a doença, nem da necessidade de tratamento.

2:
51 anos. Casada. Mãe de uma filha.
Tem acompanhamento psiquiátrico e vários internamentos por "depressão neurótica". No último, por alterações comportamentais marcadas, teve alta com diagnostico de Histeria.
Tem identificado problema conjugal associada a consumos alcoólicos do marido e está em luto prolongado pela morte do filho.
Hoje teve novo episódio de agitação psicomotora. De acordo com o marido, que a acompanha, de madrugada e sem qualquer motivo aparente, ficou muito agitada, saiu de casa e vagueou sem destino, com comportamento desorganizado e agressivo, no que destruiu vários bens da sua habitação.

Apresenta-se com agitação psicomotora. Agarra vários objectos e atira-os ao chão. Disfere murros e pontapés. Discurso espontâneo, mas incoerente, com respostas inadequadas. Humor disfórico. Sem evidencia de actividade heteróloga.
O marido recusa levá-la para casa.

3:
57 anos. Casado. Vive com a mulher. Tem um filho de trinta e três anos.
Reformado há um ano por problemas físicos. Foi marteleiro. Frequentou a 4ª classe (2 reprovações).
É seguido em Psiquiatria por quadro depressivo após a morte da mãe. Não tem internamentos. Nega consumo de álcool, tabaco ou de drogas ilícitas

Refere que há três semanas não está bem em lado nenhum, não tem apetite e que até o cheiro da comida o enjoa. Diz ter perdido 8Kg. Tem ideias de morte - "já me lembrei de me meter debaixo de um comboio ou de um carro!”, mas que nunca chegou ao ponto em que agora está – “Nunca estive assim! Os medicamentos já não fazem nada!"

Queixa-se de insónia, anedonia e tristeza. Nega contactos sociais. Diz passar o dia entre a sala e a cama. A esposa conta que se terá atirado de um segundo andar no passado mês, já com intuito auto-lesivo e que não terá sido avaliado, nessa altura, por Psiquiatria.
Entretanto, quadro tem-se vindo a agravar, com verbalização repetida de ideias de morte.

Está consciente, deambula com auxiliar de marcha. Atenção captável e mantida. Olhar dirigido inferiormente. Discurso espontâneo, de ritmo aumentado. Verborreico. Apelativo. Labilidade emocional quando abordada a limitação funcional. Chora com cabeça pousada sobre a mesa.
Sem alteração do conteúdo do pensamento nem da sensopercepção. Com critica para a situação.

4:
36 anos. Solteiro. Vive com companheira. Trabalha como técnico comercial.
Há 1 ano, com queixas ansioso-depressivas que associa a problemas laborais. Encontra-se há dois meses de baixa.  Centrado nos problemas económicos. Sente-se muito revoltado por "injustiças da vida". Admite comportamentos agressivos para com terceiros. Tem havido envolvimento policial. 
Ontem, em contexto de conflito conjugal, ter-se-á auto-agredido – fez cortes superficiais no antebraço direito. Nega ideação suicida prévia. Diz não ter coragem de se magoar.

Orientado. Aspecto e vestuário cuidados. Colaborante. Postura adequada. Discurso espontâneo e coerente, centrado nas queixas. Humor lábil e superficial. Sem atividade heteróloga. Sem ideação suicida estruturada.

5:
87 anos. Viúva há 9 anos. Sem filhos biológicos. Tem uma filha adoptiva com 28 anos. Foi família de acolhimento.
Vive com a filha adoptiva, companheiro e 2 filhos até há 2 meses, mas não se sente bem com eles porque terão problemas de abuso de álcool. Nega maus tratos, mas acusa-os de terem desviado dinheiro da sua conta.

Ontem queria ir para a sua casa, mas o companheiro da filha não deixou e disse-lhe que a fechava, pelo que ameaçou atirar-se da janela. Em seguida, os familiares abriram-lhe a porta e foi encaminhada para o SU. Hoje diz que não se atiraria por ser muito alto e não ter intenção de morrer.

Refere diminuição do apetite de há uma semana. Apesar de afirmar que não fez o luto do marido, começa a chorar durante a entrevista. Nega tristeza. Refere ansiedade. Sem alterações do padrão
do sono.

Conta vários episódios de quedas. Negados estados confusionais. Afirma que não se perde em casa ou na rua e que não deixa luzes, água ou gaz ligado. Faz as actividades da vida diária sozinha. Por vezes nota dificuldade em recordar o nome das pessoas.

A sobrinha admite que a referência ao hospital teve a intenção de a institucionalizar e confirma que a senhora tem posses suficientes para estar em sua casa com apoio e que, até ser contratado alguém, se disponibiliza a fornecer a medicação e refeições.

Está colaborante e orientada. Postura adequada. Cuidados de higiene mantidos. Humor eutímico, com períodos de labilidade emocional quando fala do marido. Discurso lógico e coerente, sem alterações do conteúdo do pensamento. Sem ideação suicida estruturada.


6:
62 anos. Tem acompanhamento em Psiquiatria de longa data e vários internamentos, com diagnóstico de histeria.

Recentemente, tem vindo múltiplas vezes ao hospital na expectativa de ser internada. Ontem veio mais uma vez, com a mesma intenção e foi necessária a intervenção da equipa de segurança para a conter.
Está consciente, gradualmente mais agitada, repetindo que exige ser internada e que recusa sair do hospital. Sem disponibilidade para qualquer tipo de intervenção psicoterapêutica. Não se evidencia atividade heteróloga. 
Durante a entrevista, ausenta-se do gabinete, pelo que se torna novamente necessário a intervenção da equipa de segurança. Quando é novamente trazida, mantém estado de agitação, com tremor generalizado, mais acentuado na mandibula e com hiperventilação.

7:
23 anos. Solteiro. Sem filhos. Vive com os pais, dois irmãos mais novos e a avó materna.
Tem oligofrenia sequelar a sofrimento fetal. Esteve integrado na APPACDM e fez curso de serralharia.

Segundo a mãe tem períodos quase diários de heteroagressividade, dirigida aos irmãos e vizinhos, que alterna com fases depressivas.
Marcada impulsividade. Mãe chamou a GNR. Diz que anda sempre implicativo e "chato"

Apresenta-se de braços cruzados, imóvel, em mutismo. Humor neutro. Evidentes dificuldades cognitivas. Discurso escasso, mas globalmente coerente, com pobreza de conteúdos. Não se detecta actividade delirante ou alucinatória.

8:
18 anos. Solteira. Sem filhos. Vive com o pai. Frequenta o 12º ano .
Foi já seguida em Psicologia. Faltou à última consulta. Os pais divorciaram-se recentemente e foi viver com o pai, porque a mãe tinha dificuldade em sustentar as duas. Desde então a mãe "quase não lhe fala!"
Desistiu de ir a escola porque tinha muitos módulos em atraso e sentia que não ia conseguir fazer o projecto final.
Há alguns dias com comportamentos auto-mutilatórios no punho, antebraço e face . cortes muito superficiais. Sem ideação suicida associada - "queria aliviar o sofrimento de alguma forma".
Ontem, após uma discussão com o pai e o namorado, por causa das auto-agressões, terá tido episódio de ansiedade.

Humor depressivo e ansioso, reactivo a situação de vida. Tem sono regular, apetite diminuído. Anedonia. 

domingo, 17 de junho de 2018

Serviço de Urgência - Precária



Laranja por alterações neurológicas agudas.

Chamo-o pelo intercomunicador. Duas vezes. Face à demora, vou ao corredor, disposta a procura-lo nalguma das macas, quando uma jovem a apoiar a marcha cambaleante de um homem de meia idade, me responde:
- É o meu tio!
- Fazem o favor de se sentarem. Então que se passa?

- O meu tio saiu ontem da prisão de Bragança. Veio de precária, como já acontece de há uns meses para cá. Fomos buscá-lo a Braga, como combinado com o táxi que o trouxe junto com mais três. Mas quando começámos a falar com ele, vimos logo que não estava bem. Dizia que lhe doía a cabeça e que queria ir ao Hospital. Levámo-lo às Urgências a Braga. Esteve lá umas horas e deram-lhe alta, com uma receita para a dor de cabeça.
- Então, após a alta, o que se passou para voltar hoje aqui?, pergunto, a pensar nas doenças que se manifestam insidiosamente e que numa primeira observação podem passar despercebidas.
- Sra. Dra.! Quando o metemos no carro para o trazer para casa, ele continuou a dizer que não estava bem e, na passagem por Vila Verde, levámo-lo ao Hospital Particular. Aí esteve a soro mais de três horas e, ao fim do dia, disseram que já estava bem e deram-lhe alta.
Levámo-lo para casa e foi uma noite de S. João. Levantava-se, saía do quarto e não dizia coisa com coisa! Ninguém dormiu! Foi por isso que o trouxemos aqui.

Alterações neurológicas agudas em doente de um estabelecimento prisional, pôs-me logo a pensar em SIDA e em infecção do sistema nervoso central. Fui ao computador ver no “PDS” (Plataforma de Dados da Saúde) se havia registos. No Hospital de Bragança, tinha uma entrada no Serviço de Urgência por dores anais, que foram interpretadas como dependentes de uma fissura e no Hospital de Braga tinha a entrada do dia anterior. Fora observado por Neurologia e Psiquiatria. Referia-se tentativa de contacto com o Estabelecimento Prisional de Bragança, sem sucesso e, ao fim de umas horas, teve alta, sem que fosse anotada qualquer alteração orgânica. O PDS não me dá acesso aos meios auxiliares de diagnóstico.

A sobrinha é uma rapariga de pouco mais de vinte anos. Está bem vestida e tem um discurso que denota alguma formação. Ele, embora ande nos quarenta, tem fortes rugas a marcarem-lhe o rosto magro, e uns os olhos mortiços que vagueiam ora pela sala, ora pelo chão, raramente em mim. Não responde ao que se lhe pergunta. É a sobrinha que dá todas as explicações:  Que está preso por furto, que não lhe conhece consumo de drogas, nem de qualquer doença e que sempre o considerou “um homem normal”. Entretanto ele tira, inapropriadamente, as coisas mais variadas dos bolsos das calças. Papel higiénico enrolado, uma esferográfica, um fio que parece um atacador de sapatos, um plástico transparente com uns papéis lá dentro, que deixa escorregar para o chão. A sobrinha tenta ajudá-lo a recuperar os pertences, mas ele, lesto, adianta-se.
Espanto-me com a certeza do gesto, para quem há minutos vacilava, mas nesta coisa de saúde há alertas que se não devem ignorar e apesar de um exame físico sem alterações, decido excluir SIDA e algumas das suas complicações neurológicas, e peço TAC crânio-encefálico, análises e faço-lhe uma punção lombar. Tudo normal. Face à negatividade do estudo, decido pedir drogas de abuso na urina: Positivas para cocaína!!

Naquele táxi vieram três reclusos em “precária” para serem recolhidos pelas famílias a mais de 200Km de distância. As drogas foram, certamente, consumidas durante a viagem.
Como é que me não ocorreu logo isso, antes de ter considerado todas as doenças?
As Leis de Murphy são uma realidade - “as coisas perdidas estão sempre no último lugar onde as procuramos!”

História de A. S.

domingo, 10 de junho de 2018

A Chegada das Trevas

Catherine Nixey licenciou-se em Estudos Clássicos pela Universidade de Cambridge

A Chegada das Trevas é a história largamente desconhecida – e profundamente chocante – de como uma religião militante pôs deliberadamente fim aos ensinamentos do mundo clássico, abrindo caminho a séculos de adesão inquestionável à “única e verdadeira fé”.
O Império Romano foi generoso na aceitação e assimilação de novas crenças. Mas com a chegada do Cristianismo tudo mudou. Esta nova fé, apesar de pregar a paz, era violenta e intolerante. Assim que se tornou a religião do império, os zelosos cristãos deram início ao extermínio dos deuses antigos – os altares foram destruídos, os templos demolidos, as estátuas despedaçadas e os sacerdotes assassinados. Os livros, incluindo grandes obras de Filosofia e de Ciência, foram queimados na pira. Foi a aniquilação.
Levando os leitores ao longo do Mediterrâneo – de Roma a Alexandria, da Bitínia, no norte da Turquia, a Alexandria, e pelos desertos da Síria até Atenas –, A Chegada das Trevas é um relato vívido e profundamente detalhado de séculos de destruição.

Ia de férias quando ele me chamou do escaparate de uma livraria. Calmamente, digeri-o ao longo dos dias, vendo nele muito do que está a acontecer nos nossos dias.
É um olhar diferente. Talvez incompleto, mas que tem em consideração factos que foram intencionalmente encobertos pela História escrita pelos vencedores - os bispos cristãos!

The clash between the classical order and Christianity is a tale of murder and vandalism wrought by religious zealotry, evoking modern-day parallels.
"The Guardian"

Duas pessoas podem estar a usar a mesma palavra para significar coisas diferentes e mesmo assim alimentarem uma conversação, o que não é mau para uma cavaqueira de café, mas é péssimo quando se têm de tomar decisões que afectam a vida dos outros.

Religião raramente significa o mesmo para povos diferentes. Para os primeiros Judeus, para os primeiros Cristãos e para os Muçulmanos, religião é Lei. Para os Judeus é lei tribal, para os outros - universal.
Para os Romanos, religião era eventos, rituais e festivais.

Dois mil anos depois, a Cristandade "vitoriosa", adoptou os hábitos romanos. Apoderou-se dos eventos, dos rituais e dos festivais, aceita uma Lei separada das suas crenças e o seu Deus único vive como Zeus, acompanhado de Santos, que mais não são que deuses de segunda ordem

sexta-feira, 25 de maio de 2018

terça-feira, 22 de maio de 2018

Skin in the game



To have "skin in the game" is to have incurred risk (monetary or otherwise) by being involved in achieving a goal. The aphorism is particularly common in business, finance, and gambling, and is also used in politics.

Basicamente: se queres que honestamente te sigam, põe a “tua pele em jogo” no projecto que defendes.: “Put your mouth where your money is!” ou ”Don’t tell me what you “think”, just tell me what’s in your potfolio!”  ou "Those who talk should do, and only those who do, should talk!".

Vão estas frases em inglês, por serem da cultura anglo-saxónica. Quem não as entende, também não se há-de demorar a ler um texto com mais de três linhas, principalmente se pertence ao grupo dos que opinam sobre o que desconhecem ou sobre o que não os afecta.

Se um decisor tem os benefícios de um projecto, tem de partilhar os riscos, para não serem só os outros a pagar o preço dos seus erros. Se dá uma opinião e alguém a segue, fica moralmente obrigado às suas consequências.

A política está cheia de quem nunca teve de pagar pelas consequências das suas opções. Gente que mergulha em elaborados discursos de chavões, com pensamentos pouco abrangentes e estáticos, que só considera as acções e não têm em conta as “interacções”.
Num sistema centralizado, a Burocracia separa-os “convenientemente” das consequências. Só a descentralização, distribuindo a responsabilidade, fará com que se encontre, "naturalmente", mais gente a pôr a  “pele em jogo”.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Alimentação hospitalar



A gastronomia hospitalar é reconhecida como um importante recurso terapêutico.
Antigamente, as refeições eram chamadas de dietas: com pouco sal, sem gordura e tempero. Esta imagem negativa da área de nutrição hospitalar está a tornar-se cada vez menos frequente. Não existe mais aquela restrição do paciente comer canja de galinha todos os dias. Os cardápios são variados, para que o cliente saia satisfeito com o tratamento e atendimento. 
Está-se a incorporar o conceito de hotelaria na área hospitalar, o que faz com que aquela ideia de ambiente com cheiro de remédio e comida sem gosto, seja completamente distorcida.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Leilão de velhos




O corredor de paredes azul-acinzentado (ou cinzento-azulado) tem uma iluminação alta e fria, como é usual nos hospitais. No chão, sobressai uma linha negra a todo o comprimento e a dois terços da largura, que curva à direita e indica o caminho do “raio x”.
Para que chamem sala de espera a este corredor, colocaram 2 filas de cinco cadeiras de um lado e, do outro, um ecrã de televisão sintonizado na SIC, sem som, onde de madrugada, se sucedem repetições de televendas destinadas a publico insone.
Debaixo do ecrã, outras três cadeiras não podem disfrutar da TV. Ao seu lado, duas máquinas de venda automática ronronam pela noite fora e gemem cuspindo comida e bebida sempre alguém lhes dá moedas.
De pulseira roxa no pulso, ali permanecem os acompanhantes daqueles a quem a saúde faltou, de modo suficientemente severo para serem rotulados de “laranja” … São maioritariamente mulheres! … será que lá dentro são maioritariamente homens?
Entre o olhar perdido no ecrã da televisão ou do telemóvel, fazendo escorregar o polegar em suaves carícias desperdiçadas, o tempo não passa.
De cada vez que a porta da área laranja se abre, os olhares convergem na esperança de vislumbrar o que se passa lá dentro com o seu familiar, ou com qualquer outro, que a curiosidade não se perde, mesmo em circunstâncias adversas.
Do que vislumbro, os profissionais enfrentam os computadores que dominam o centro da sala e impõem a sua luz azul. Falam, circulam, sentam-se, levantam-se de olhos sombrios, assoberbados com a intensidade e volume das tarefas – hoje foi mesmo o pior dia para vir à Urgência – desabafou comigo um médico em jeito de desculpa.
O movimento do corredor é intenso. Sendo um dos acessos ao serviço de Urgência, médicos, enfermeiros, auxiliares e administrativos, todos o percorrem garbosos nas suas fardas novas, assexuadas, de cores distintas por classe profissional, mas sem que haja uma legenda em que possa descortinar a ligação da cor à função. A atenta observação da execução das tarefas lá me deixou interiorizar o código cromático.
Parece estipulada uma cadência de movimentação e todos se deslocam à mesma velocidade – nem demasiado rápido, nem demasiado lento.
Os fragmentos de conversas atiçam a imaginação de quem fica pendurado na frase e a tenta completar…
Passam-se as horas neste limbo e é então que me apercebo que, a espaços regulares, sai da área laranja um auxiliar que empurra ora uma maca, ora uma cadeira de rodas. Invariavelmente transporta um idoso na tal cadência certa, mas gerindo com destreza o rodado que se aproxima dos pés dos que ostentam a pulseira roxa e se mantêm sentados nas incrivelmente desconfortáveis cadeiras.
E ao passar apregoam: “familiar da Sr.ª Antónia”, familiar do Sr. José”, “familiar do Sr. Manuel” … em voz alta e monocórdica, sem olhar para o lado, sem atrasar o passo…
Despojados do seu nome de família e exibidos pelo exíguo corredor em jeito de leilão, estes idosos, de olhar perdido, são transportados para as salas de exames ou para o internamento. Para muitos, não houve ninguém que se levantasse da cadeira para o acompanhar.
Eu tive a felicidade de acompanhar o meu.

Texto de M.Helena S. Gomes

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Consulta de Oftalmologia Abril 2018


- Eu vou receitar-lhe uma gotas novas para colocar nos olhos. Não sei se lhe vão fazer mal ao coração! ... Mas veja! … Se se sentir mal, não tome!…
Terá sido assim que acabou a última consulta no Hospital que, em nome de especialista de renome, foi efectuada por jovem interna, inexperiente com as expectativas sobre a visão, terapêutica ou efeitos laterais desta, de um jovem de 97 anos.
O facto é que colocou uma gota nos olhos e logo o coração se contorceu em espasmos e arritmias e gritos aflitivos, mais do que esperados…

As queixas têm sido recorrentes: - Vejo cada vez pior!, O teu pai não vê nada!, O avô não percebe nada da consulta!, Não presta atenção às indicações médicas!…
Lá vou ouvindo também com a convicção de que realmente não há muito mais a fazer, e que será tempo de nos conformarmos com as maleitas que a idade nos vai oferecendo, para nos tornar gratos por cada dia que desfrutamos da vida.

Mas o bichinho fica a roer por dentro: …e se, afinal, há algo mais que se possa fazer?
Aí vou eu marcar mais uma consulta na privada (como um bom português), para tirar a limpo.

Lá vamos os três para a sala de espera, que estava a abarrotar, onde o paciente encontrou publico para tentar cantar uma cantiguinha - Os teus olhos verdes” - alto, muito alto, que a consulta de ORL, para tirar a cera, ainda tarda….
Enquanto esperamos, faço as recomendações do costume – Vê lá o que dizes!, ... Responde objectivamente às perguntas!, ... Não entres em conversas que não têm nada a ver com os olhos!…

Com algum atraso, lá somos chamados para a porta da Doutora, depois de passar pelo crivo das tensões oculares.
Continua a falar alto e a voz ecoa agora pelo corredor silencioso dos gabinetes de consulta. Embaraçoso q.b.
Quando atendidos, preocupo-me em que a doutora entenda o motivo da consulta e confesso que quase o não deixei falar, para que a conversa não se enviesasse e se perdesse o foco.

-Muito bem! Ora vamos lá ver primeiro o olho direito. Senhor Engenheiro diga lá o que vê (a 5 metros)
P N T U V X H
-E agora estas
X K L P O C R
-Muito bem e estas, atreve-se?
A D Z não sei bem talvez N …não. É   H, P L S
-E a última linha? Também com uma pequena hesitação e está perfeito!
Mesma cena com o olho esquerdo.
-Em visão binocular tem 80%! Aos 97 anos! Pode ter campos restritos, mas a visão está lá. Tensão normal. Cristalino operado e transparente humor aquoso com algumas floculações próprias da idade. Uma sinéquia pós-operatória sem grande significado… Mácula sem escavação, alguma palidez provavelmente de eventos vasculares, mas globalmente muito bem.
Portanto, Sr. Engenheiro, pode continuar com a medicação de base e manter uma boa lubrificação do olho!

- Pois, Sr.ªDra.! Eu passo muito tempo ao computador.
- Claro! Não se esqueça de piscar e lubrificar os olhos.
- É a escrever o meu blog - Vivências Mineiras ponto blogspot ponto com, mas a minha filha não quer que eu fale disso! Aliás, eu vinha cá na esperança que me fizesse um transplante de células estaminais, na retina, para recuperar a visão.
- Como sabe isso?
- É da revista "Nature", conhece?
- Sim! Mas sabe, esse tratamento não é para si! Isso é para tratar a doença dos velhos, coisa que o Sr. Eng. não tem.
...
E foi preciso empurra-lo porta fora.

Escrito pela filha M.H.S.G., 

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Consulta de Urologia



A história ouvia-a, no refeitório, da boca de um Urologista, no meio de historietas desinteressantes e fotos do Whatsapp.
Um seu par, tentava dar resposta à consulta sobre-lotada, convocando dois doentes de cada vez -  um para a consulta e outro para uma cadeira junto à porta, para entrar logo que o anterior saísse.
O primeiro de uma das séries, era um homem de meia idade, com um volumoso hidrocelo que lhe sobressaía nas calças.
Perguntou-lhe se trazia exames já efectuados.
- Deixe-os lá fora, com a minha mulher!
- Oh homem, vá lá buscá-los!

O doente saiu e entrou acompanhado.
- A senhora sente-se aí nessa cadeira!, ofereceu o médico. - E o senhor, por favor, baixe as calças e deite-se ali na marquesa!
Espantado com o aspecto e dimensões do escroto, exclamou: - Ui! Como isto está! E dirigindo-se para a acompanhante: - Venha cá minha senhora!
A mulher aproximou-se, espreitou, e o médico continuou, admoestando-a, enquanto apontava para as partes vergonhosas e pudenguentas do doente: -  Isto não interferia com a vossa vida conjugal? A senhora não o aconselhou a procurar o médico mais cedo!?

Aí a pobre mulher virou-se para o médico e respondeu: - Sr. Dr. ! Eu não conheço este senhor! Eu entrei quando ele saiu, como o senhor Dr. mandou, quando me indicou a cadeira ao pé da porta!