sexta-feira, 23 de junho de 2017

Tartaruga



- Tartaruga! Tartaruga! Tartaruga! Vem cá!



- Tchop!



- Ah! Estás aí! Vem até aqui, à borda do tanque! Então! Como passaste a noite?



- Tchop!



- Sabes uma coisa? No meu emprego andam à cata de quem queira mandar!



- Tchop?!?!



- Verdade! Espera! Não mergulhes já!

quinta-feira, 15 de junho de 2017

A motinha






- E como é que ele vai para casa, após a alta?
- Vai de mota!
- De mota?
- Sim! Quando ele veio para o Hospital trouxe a moto na ambulância e pediu para a gente a guardar na arrecadação do serviço! Há quase um mês que lá está! É uma scooter eléctrica para quem tem mobilidade reduzida. Ele leva-a para todo o lado! Se for preciso, de ambulância! Diz que tem autonomia para 70Km. Embora não possa andar na estrada, ele pôs-lhe uma matrícula e anda por todo o lado na aldeia onde mora.
- E não só! Este, está anos à frente do nosso Hospital, que obriga doentes e funcionários a grandes caminhadas, muitas vezes em situações nada fáceis!

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Lembranças do Olimpo (29) - Jeová




Hipólito regressou a casa a matutar no sucesso da história de Jesus. Aquela profecia “maluca” da eminente vinda do Reino de Deus e que Ele iria impor a sua vontade “tanto na Terra como no Céu”, fora capaz de agregar as vontades que visavam igualizar os homens, numa altura em que Reis, Imperadores e Sacerdotes alegavam estreita familiaridade com os deuses, de quem emanava o seu poder. Era ainda esse movimento que, depois de 2.000 anos de voltas e cambalhotas, fundamentava o Humanismo actual. Até à revolução tecnológica do último século, a Igreja Católica estivera na crista da onda do conhecimento, mas desde então passara a andar a reboque, a reagir às novidades, em vez de ser ela a criá-las, sem nunca abraçar os movimentos de igualdade de género ou da defesa dos animais e só muito recentemente, com o Papa Bergoglio, é que parece ter acordado para os grandes problemas ecológicos do Mundo.

Ora estava o médico nestas conjecturas, quando um clarão apareceu por entre as nuvens do fim do dia. Exactamente como vira na banda desenhada dos catecismos. Um céu de fim de dia, com um corredor de luz a espreitar pelas alvas nuvens, por onde um enorme bando de pombas brancas descia, precedendo uma alva figura humana cintilante, com um báculo na mão e uma mitra bordada a ouro, cravejada de esmeraldas. A sua barba branca dava continuidade ao longo cabelo esvoaçante. Ao vê-lo descer na sua direcção, Hipólito abriu as janelas e o deus instalou-se na poltrona do fundo da sala que, de imediato, se transformou num trono recoberto por um baldaquino, muito semelhante ao do Papa no Vaticano.

- Boa noite!, disse-lhe o médico. – Calculo que sejas Jeová! Sê bem-vindo a esta humilde casa!
- Boa noite!, respondeu o deus. – Era para ter vindo mais cedo, mas tenho tido tantos afazeres por esse Universo fora, que o tempo não me chega para nada. Já me arrependi de ter criado o Big-Bang! Quando estava tudo concentrado no mesmo ponto, era mais fácil, agora com o Universo em expansão, o ter de andar do mais infinito para o menos infinito, para lhe dar alguma ordem, é uma canseira das antigas.
- Calculo!, disse o médico. – Mas com tantos afazeres, o que é que te trás até este grão de areia do deserto?
- Nem sei! Ouvi a tua conversa com Jesus e não resisti a propor que me entrevistasses. Como deves calcular, eu tenho muito trabalho organizativo, mas, de vez em quando, gosto de fazer trabalho de campo e ouvir o que a criação a quem atribui livre arbítrio, pensa.

Hipólito embora pouco impressionado, com aquela entrada apoteótica, sentiu-se lisonjeado. Puxou uma cadeira, pediu autorização e sentou-se.
- Antes de mais, quero-Te dizer que é um privilégio receber a Tua visita. Mas era escusado teres investido tanto na encenação da tua entrada. As técnicas de multimédia actual conseguem uma realidade virtual multi-sensorial semelhante. Quanto ao baldaquino, espero que ele seja virtual e não como o da Basílica de S. Pedro, feito com os antigos bronzes do Panteão de Roma que o Papa Urbano VIII mandou derreter.
- Ok!. Disse Jeová. E de imediato toda aquela parafernália desapareceu, para dar lugar a um idoso, bem-humorado, com um cajado na mão, sentado no seu sofá. – Esta tipologia de aparição, está programada desde que entreguei as Tábuas do Dez Mandamentos a Moisés. Como tem funcionado, deixei de me preocupar com a sua actualização. Mas agora, que chamaste a atenção, acho que está na hora de um upgrade! Vou pensar nisso.

Mas vamos à entrevista, que é o que me traz cá. Podes fazer três perguntas, senão eu fico aqui uma eternidade e há coisas que ficam por fazer. Aqui na Terra, o que se não faz no dia de Santa Luzia, faz-se noutro dia, mas no Céu, não há a mesma relação com o tempo e é melhor não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje.
Hipólito sorriu ao vê-lo citar, ironicamente, os ditados populares. Depois, endireitou-se na cadeira e fez a primeira pergunta:
- Já que te disponibilizas, gostava de saber a Tua opinião sobre a Cúria, sediada em Roma?
Jeová, deitou a mão à cabeça. – É um grande problema! Cada vez é mais difícil inspirá-los em soluções que lhes dêem credibilidade! Então agora com o Papa Francisco a querer aumentar a componente social da Igreja e o Bento XVI a minar-lhe, sorrateiramente, o projecto defendendo um forte poder central, baseado em abstracções teológicas que consigam unir cada vez mais os fiéis, a coisa está mais difícil.
- Mas Tu não consegues impor uma norma que os convença?
- Não posso, por imperativo organizacional. Decidi que na Terra, o Homem tem livre arbítrio e que Eu só trato dos ambientes, criando dificuldades ou facilidades para ele superar, mas, pelo caminho que estou a ver as coisas irem, ele vai mesmo dar cabo do planeta!.
- E Tu não te importas, tendo-o feito a Tua imagem e semelhança?
- Não! O Jorge Sampaio disse “Há mais vida para além do Orçamento!” e eu digo “Há mais vida para além da existente na Terra!”. Esta forma de vida aqui existente, com base no Carbono, é comum no Universo, embora menos frequente que aquela que tem por base o Silício.
- Já ouvi Zeus falar nessa! Diz que esses seres são mais dóceis e previsíveis que os da Terra. Até se transferiu para um desses planetas!
- Ah! O Zeus! Esteve cá?
- Sim! Desistiu dos projectos na Terra. Agora anda feliz num planeta da Galáxia Adrómeda. Só cá vem arejar o escritório e pouco mais. Mas voltemos aos teus Papas vivos. Apoias algum em especial?
Jeová corrigiu-o. – Não te esqueças que também sou Deus dos Judeus, dos Ortodoxos, dos Protestantes e de muitas outras seitas. Mas como tu estás mais interessado nos Católicos e no que se passa no Vaticano, informo-te que não apoio nenhum deles. Ambos têm razão. O Francisco é mais terra-a-terra, mas a ficção sempre foi mais importante que a realidade e o Ratzinger luta por uma narrativa motivadora, e isso pode ser mais decisivo que resolver pontualmente alguns dos problemas das comunidades onde o clero tem influência.
É esse equilíbrio entre a componente vertical e a horizontal das religiões que é necessário gerir.

- Queres dizer que uma pequena alteração na liturgia católica podia trazer mais benefícios para a Humanidade, que colaborar com os políticos na resolução dos problemas do dia-a-dia dos fiéis?
- Sim! Eu construí o Homem para viver na “Esperança” de … “um dia” as coisas irem melhorar, mesmo que esse dia seja depois da sua morte. E essa narrativa pode não ter nada a ver com a realidade. Só tem de ser motivadora, capaz de se replicar e de agregar as novas inovações tecnológicas. O Francisco quer ser exemplo de humanidade e preocupa-se em estabelecer pontes entre a heterogeneidade do pensar dos povos e das suas religiões, mas esse passo só tem eficácia duradoura se for apoiado numa boa história.
- Entendo! Respondeu Hipólito. – E Fátima? Estás a par com o que se passa?? Como é que o entendes?
- O culto de Nossa Senhora como elemento no movimento para a igualdade de género é muito positivo, mas esta vinda do Francisco a Fátima foi um sapo que ele teve de engolir para dinamizar o turismo religioso. Foi como a recepção ao Trump. Devia ter-se posto em cima dele, para não ficar com aquela cara de “looser” na fotografia. Também esta coisa de canonizar a torto e a direito, não lhe vai ser favorável. Então a canonização dos pastorinhos, não lembra ao demónio.
- Tens de concordar que aquela Cúria, que ele herdou, não o ajuda. Interrompeu Hipólito, que tinha um fraco por Francisco.
- Aquela Cúria é um saco de gatos! Não ajuda nem um nem outro. O Banco do Vaticano também não! Um Banco faz o jogo do dinheiro e esse jogo nem sempre é limpo. Um Banco pode ir à falência por uma desatenção ou passar de uma situação de aperto para uma de desafogo por causa das tais “fake news”, de que fala o Trump. Lembras-te do Horta e Osório ter sido convidado, em Março de 2011, pelo governo inglês, para dirigir o Lloyds Bank, que fora apanhado dois anos antes, nas malhas da crise do “subprime”? Mal tinha assumido funções, meteu baixa por dois meses, por … “exaustão”!!!! Logo que a notícia se espalhou, os mercados “reagiram” e venderam-se muitas acções a baixo preço!
- Queres dizer que aquela notícia foi “fabricada”, com esse propósito?
- Não estou muito dentro dos factos que tornam os mercados “nervosos”, como dizem os vossos políticos de direita, mas são notícias destas que estimulam os especuladores e fazem alterar os preços. O Horta e Osório sabia-o bem e, nesse jogo do compra e vende, um Banco pode ganhar milhões!

- Já vi que te não queres comprometer! Achas então que a solução para a crise do Cristianismo, nas culturas mais avançadas, passa pela construção de uma história integradora da imensa variedade de descobertas tecnológicas, num sistema politico global que promova bem-estar?
- Sim! É essa história que é necessário inventar para dar Esperança, pois é ela que alimenta o cérebro humano. Depois, é bom que haja alguma protecção para o corpo, contra o tempo, as doenças e alguma comida. Haja a tal história e tudo se suporta! Os bens materiais podem esperar!
- Então vamos à última pergunta. Disse o médico. – Achas que os exegetas ainda conseguem extrair dos Evangelhos essa tal história que os torne, de novo, actuais?

Deus sorriu. Pousou o cajado no chão, levantou-se e depois de dar três passos pela sala, virou-se para a janela e respondeu. – Estou em crer que tal não é possível. Talvez nos livros apócrifos haja histórias virgens das milhares de interpretações a que os Evangelhos canónicos já foram submetidos e que dêem a possibilidade de uma leitura que altere os discursos teológicos. Se não houver, os profetas de Silicon Valley vão dominar a filosofia do mundo moderno e dar início a uma nova religião baseada em fluxogramas - o Dataísmo.

Deu meia volta e dirigiu-se ao médico que também se tinha levantado.
- Acabaram as perguntas! Vou ter que ir! Qualquer dia apareço-te, de novo. Fica prometida uma outra encenação.
E dito isto, saudou Hipólito e dissolveu-se no ar, deixando na sala um leve aroma a lírios do campo. O médico esfregou os olhos. Mal tinha almoçado e já sentia um rato no estômago.

domingo, 28 de maio de 2017

Elton John w/Billy Joel - Goodbye Yellow Brick Road (Live-HQ)



When are you gonna come down
When are you going to land
I should have stayed on the farm
I should have listened to my old man

You know you can't hold me forever
I didn't sign up with you
I'm not a present for your friends to open
This boy's too young to be singing the blues

So goodbye yellow brick road
Where the dogs of society howl
You can't plant me in your penthouse
I'm going back to my plough

Back to the howling old owl in the woods
Hunting the horny back toad
Oh I've finally decided my future lies
Beyond the yellow brick road

What do you think you'll do then
I bet that'll shoot down your plane
It'll take you a couple of vodka and tonics
To set you on your feet again

Maybe you'll get a replacement
There's plenty like me to be found
Mongrels who ain't got a penny
Sniffing for tidbits like you on the ground

So goodbye yellow brick road
Where the dogs of society howl
You can't plant me in your penthouse
I'm going back to my plough

Back to the howling old owl in the woods
Hunting the horny back toad
Oh I've finally decided my future lies
Beyond the yellow brick road

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Depressões


1
32 anos. Tem o 9º ano (3 reprovações). Separado há 1 ano, após 12 anos de união de facto. Vive com os pais. Tem um filho.
Está acompanhado pela mãe que descreve tristeza, irritabillidade, choro fácil e pensamentos obsessivos em relação à separação. Fez ameaças à ex-companheira e tem queixas na polícia.
Já foi medicado, mas suspendeu o tratamento, por iniciativa própria. Tem mantido a actividade profissional. Refere ingestão de "muitas” cervejas no final do trabalho. Fuma 1 maço e meio por dia. Nega consumo de outros tóxicos.
Inicialmente muito defensivo, progressivamente mais colaborante, até choro profuso. Por fim, calmo, assume necessitar de ajuda. Humor depressivo. Afectos congruentes. Reconhece, por momentos, a existência de pensamentos suicidas e homicidas. Sem actividade delirante ou alucinatória. Sono fragmentado. Apetite e Insight preservados.

2:
65 anos. Divorciado. Seis filhos. Apenas mantém relação com um deles. Reformado por invalidez. Só sabe escrever o nome. Frequenta Centro de Dia. Tem défice cognitivo e síndrome de dependência do álcool. Foi já seguido em Psiquiatria. Fez tentativa de suicídio em 2014 – atirou-se de um muro de três metros de altura, de que resultou hemorragia fractura da base do craneo e da clavícula esquerda. Mantém consumos. Ontem chegou ao Centro alcoolizado.
Quando etilizado torna-se agressivo e, muitas vezes, precipita-se contra os automóveis.
Está colaborante e parcialmente orientado (não sabe o ano). Atenção e concentração mantidas. Humor eutimico. Sem sinais de ansiedade ou comportamento agressivo. Discurso dificultado pela paralisia das cordas vocais e hipoacusia. Focado nas queixas de "querer comer e só lhe darem comida passada". Sem alterações da percepção ou do conteúdo do pensamento. Nega ideias de morte ou ideação suicida estruturada.

3:
54 anos. Casada. Reside com o marido, filha e genro. Reformada por invalidez. Tem a 4º classe.
É seguida em Psiquiatria por Depressão Major recorrente e ansiedade. Faltou a última a consulta e reduziu a terapêutica por moto próprio.
Refere vários problemas de saúde nos familiares próximos e estar muito preocupada com eles, insónia de há 1 mês, agravamento das cefaleias e anedonia: "Faço porque tenho de fazer! Se os outros não fazem, faço com raiva!".
Tem tido pensamentos de morte, mas sem ideação suicida: . "Acho que ninguém me vai aturar! Sou muito chata!"
Está colaborante e orientada. Aspecto cuidado. Sem labilidade emocional. Ansiosa. Sem alterações da percepção ou do conteúdo do pensamento.

4:
22 anos. Solteira. Reside com os pais e avós. Está desempregada, há 2 semanas - foi despedida, porque “esteve de atestado!”.
Sente-se mal e muito deprimida, após ruptura de relação amorosa, que durava há 1 ano. Ficou em casa. Só chorava e a mãe insistiu para vir ao médico.
Foi já acompanhada por Psiquiatria e tem diagnóstico de Debilidade Intelectual.
Está orientada e colaborante. Bom estado geral. Discurso fluente, pobre em conteúdos, mas lógico e coerente. Humor lábil, congruente à situação vivencial. Sem actividade delirante ou alucinatória.

5:
36 anos.  Tem o 4º ano de escolaridade com reprovações e referência a dificuldades de aprendizagem.Vive em união de facto. Não tem filhos. Trabalha aos fins-de-semana num restaurante. Mãe e irmã com problemas ligados ao álcool. Pai já faleceu.
Está a ser acompanhada em Psiquiatria após episódio de ingestão medicamentosa voluntária. Há dias que se sente mais cansada, o que atribui a sobrecarga profissional.
Ontem, ingeriu dez comprimidos de um ansiolítico “porque queria descansar!”. Depois, sentiu-se muito sonolenta, ficou preocupada, e alertou uma colega. Na admissão tinha alcoolemia de 1.41 g/l. Depois de confrontada com a análise, refere ter ingerido uma garrafa de vinho do Porto. Admite ainda abuso crónico de bebidas alcoólicas, afirmando que não bebe mais, porque o companheiro a controla.
Neste momento, sente-se bem. Verbaliza arrependimento para o seu gesto, embora de forma pouco consistente. Está orientada. Aspecto cuidado. Moderadamente colaborante, com postura defensiva. Contacto pueril. Discurso lógico e coerente, com acentuada pobreza de conteúdos. Humor deprimido, com labilidade emocional. Embora negue ideação suicida, parece ambivalente neste aspecto.
O companheiro descreve consumos regulares de bebidas alcoólicos que são a causa da conflituosidade conjugal. Faz ainda referência a relacionamentos extra-conjugais por parte da doente. Diz que o relacionamento está terminado e que não a aceita em sua casa.

6:
Há dois dias faltou-lhe a medicação e sentiu vontade de beber. Diz ter bebido 3 copos de bagaço. Depois, não se lembra de mais nada.
Segundo a irmã, quando bebe, torna-se verbalmente agressiva com a mãe, o namorado e ela própria.
Aparenta estar etilizada e desinibida. Tem discurso fluente, coerente e lógico. Juízo crítico preservado. Repetiu alcoolemia. Tem 1,33 g/L. A pesquisa de drogas na urina é positiva para canabinóides e benzodiazepinas.

7:
Trazido pela GNR com mandado de condução.
É casado e tem uma filha a estudar. Faz biscates. Tem história de depressão. É grande fumador e nega consumos abusivos de álcool.
Há uma semana teve discussão com esposa por causa de dinheiro que desapareceu em casa. Há dois dias, ela ameaçou abandonar o domicílio e houve ameaças de ambas as partes.
Assume que partiu a chave de casa para a impedir de sair, por ainda lhe manter afecto. Está convencido que ela irá pedir o divórcio.
Refere dificuldades económicas. É o único que trabalha. A esposa aufere subsídio por doença profissional e tem doença oncológica. Nega ideação suicida ou homicida. Diz andar mais nervoso, … mas ela também.
Está colaborante e orientado. Parcos cuidados de higiene, mas com apresentação minimamente cuidada - estava deitado quando o foram buscar a casa. Tem discurso organizado e coerente. Humor ansioso. Sem actividade delirante. Juízo crítico presente.

8:
Solteiro, sem filhos. Trabalha numa fábrica. Tem o 12º ano incompleto. Ex-consumidor de canabinóides. Vem acompanhado pelo pai.
Diz que tem dormido mal e ter suores frios. Anda irritado, o que relaciona com a meteorologia. - "Quando está sol, estou melhor!". Quer ir trabalhar, mas custa-lhe. Sente-se “dentro de uma gaiola”. Foi já seguido em Psiquiatria por Psicose Afectiva. Não tem ido às consultas. Diz ter feito o desmame da medicação sozinho.
- "Fui viciado em drogas! Não ia, agora, ser viciado em medicamentos!". Hoje só quer "medicação para dormir".
Está colaborante e orientado. Aspecto investido. Humor irritável. Discurso coerente e lógico, sem alteração do timbre ou ritmo. Sem actividade heteróloga. Sem pensamentos de morte ou ideação suicida. Crítica mantida.

9:
64 anos. Casado. Dois filhos. Reformado por invalidez. Esteve emigrado. Está em Portugal desde 2001. Foi seguido por Psiquiatria por depressão. Há quatro anos, abandonou a consulta, mas manteve a medicação prescrita. Refere agravamentos sobretudo quando muda a estação do ano. Há duas semanas sem vontade de sair da cama. Nega alteração do apetite. Bom aspecto geral. Discurso coerente, lógico, sem alteração do ritmo ou timbre. Sem pensamentos de morte. Crítica mantida.

10:
68 anos. Casada. Seis filhos. Vive com o marido. Reformada. Escolaridade: 4ª classe.
Tem diagnóstico de "depressão neurótica". Sente-se mais triste e com menos apetite. Com maus pensamentos. "Esta medicação que estou a fazer, há muitos anos, já não está a fazer nada!" ..."Esta doença, é uma doença muito má!".
Aspecto cuidado. Discurso fluente coerente e lógico. Humor deprimido com pensamentos ambivalentes relativamente a morte. Juízo critico conservado.

11:
49 anos. Analfabeta. Vive só.
Vem com carta a referir "alteração do comportamento, abuso crónico de álcool, alucinações visuais e auditivas. Terá invadido a casa de um vizinho com o intuito de "retirar alguém de dentro que estaria fechado!"
Aspecto humilde. Vestida totalmente de preto. Idade aparente superior a real. Discurso pobre, embora lógico e coerente. Humor eutímico. Sem alterações da forma e conteúdo do pensamento. Sono e apetite regulado.
Recusa qualquer tipo de intervenção. Assina termo de responsabilidade.

12:
52 anos. Casada. Vive só. Reformada. Cuida da casa, sem outras actividades.Teve oito filhos (5 vivos). Três emigrados, dois na região Centro.  Marido preso por tráfico de droga.
HIV+. Foi acompanhada em Psiquiatria por perturbação de personalidade. Faltou às consultas.
Nas últimas semanas tem-se sentido muito em baixo, preocupada com o marido e com o seu estado de saúde. Não lhe apetece arranjar-se. Diminuição do apetite.
Colaborante e orientada. Discurso coerente e lógico, sem alteração do ritmo ou timbre. Pensamentos de morte passivos. Crítica mantida.

13:
55 anos. Casada. Dois filhos. Vive com marido e um filho. Funcionaria pública. Completou 12º ano. Esteve já longos períodos de baixa médica.
Diz depressão reactiva a problema laboral. Nas últimas semanas, marcada obsessão pela possibilidade de regresso ao trabalho. Aparente quadro histeriforme. Grita, insónia, inquietação. Sente que a perseguem. Acha que andam carrinhas atrás de si! Chorosa por momentos.
Humor lábil. Verbaliza pensamentos passivos de morte. Sem planos de concretização. Sem alterações da percepção. Sem aparente ideação delirante, quanto muito ideias sobrevalorizadas e discreta auto-referência.


quarta-feira, 10 de maio de 2017

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Yuval Noah Harari









Yuval Noah Harari (Haifa, 1976) é professor de História e lecciona no departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Diz que não é um Profeta, mas eu elege-o como tal. "I don't think he is as widely recognized as he deserves to be, but, in my opinion, Yuval Harari will become one of the most influential thinkers of the XXI century".

O Youtube tem muitas aulas suas disponíveis e os dois livros que recentemente escreveu - "Sapiens: Uma breve História da humanidade" (2014) e "Homo Deus: Uma breve história do amanhã" (2016), são uma verdadeira Bíblia, que toda a gente que se preocupa com o evoluir da Humanidade tem obrigação de ler.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

A Empada Mágica


A pressão evolutiva habituou os humanos a ver o mundo como uma empada estática. Se alguém retira uma fatia maior, alguém inevitavelmente ficará com uma menor. Nessa perspectiva, as religiões tradicionais como o Cristianismo e o Islamismo procuraram modo de resolver os problemas da humanidade quer com a ajuda dos recursos existentes, ou prometendo um pedaço de empada no céu.

Nos tempos modernos, em contraste, há uma firme crença que o crescimento económico não só é possível, como absolutamente essencial. As orações, as boas vontades e a meditação podem ser reconfortantes e inspiradoras, mas problemas como a fome, as doenças e a guerra só poderão ser resolvidas através do crescimento económico. Este dogma fundamental pode ser sumariado numa ideia simples "Se tens um problema, vais provavelmente precisar de mais dinheiro e para teres mais dinheiro, tens de produzir mais!".
Os políticos e os economistas modernos insistem em que o crescimento é vital por três ordens de razão. Primeiro porque quando se produz mais, se consome mais e se melhora o estilo de vida e alegadamente se vive uma vida mais feliz. Segundo porque à medida que a humanidade aumenta é necessário crescimento económico só para se ficar onde se está. E terceiro se a economia não cresce e a empada permanece do mesmo tamanho só é possível dar mais aos pobres retirando aos ricos, o que obriga a opções difíceis, que muito provavelmente irão causar ressentimentos e até violência.

Se pretendemos evitar soluções duras, ressentimentos e violência, há que aumentar ao tamanho da empada.

in Homo Deus - A brief history of tomorrow, de Yuval Noah Harari

domingo, 30 de abril de 2017

O amado


As paixões não têm idade. Aquilo que acontece a uma pessoa, acontece a muitas mais. Embora gostemos de o pensar, as nossas vidas não são assim tão diferentes, já o dizia a Dee Dee do Bukowski, que sabia uma ou outra coisa da vida. O Bukowski também, mas talvez menos, já que estava tão convencido da sua excepcionalidade.

A minha velhinha está apaixonada. Tem 91 anos, enviuvou há mais de 30 de um POW da Segunda Grande Guerra, e está perdidamente apaixonada. Para complicar a situação, está apaixonada por um holandês de 66 anos. Sim! Outro cliché! Não só as paixões atacam a qualquer idade, como a partir de determinada altura, os anos de vida já não contam para nada. Somos todos adultos, é ou não é?

Todos os dias, por volta das 8 da manhã, vou até ao quarto da Mrs. R. e abro as cortinas às flores, pesadas e rotas pelo sol e pelo pó. Ela abre os olhos remelosos pela querato-conjuntivite seca e pergunta-me se já tem de se levantar. É que não lhe apetece nada. Está tão bem ali. Pergunto-lhe se não quer tomar o pequeno-almoço e ela, com um ar entre o preguiçoso e o covarde (como na música do Chico), diz que tem muito sono de manhã e pede mais 10 minutos, com o rádio ligado na estação da música clássica. Todos os dias ela faz tudo sempre igual e não se sacode da cama de forma nenhuma. Lá lhe dou os 10 minutos, que na verdade são vários 10 minutos (cerca de 4) e ela lá se dispõe ao pequeno-almoço. E sussurra 'Está-se tão bem aqui!... Será que eu podia, hoje, tomar o pequeno-almoço na cama?'. Há dois anos que Mrs. R. toma o pequeno-almoço na cama, todos os dias, depois de ter tropeçado escadas abaixo - exactamente quando ia preparar o pequeno-almoço - e, na queda, partir o pescoço. Como conseguiu chegar ao telefone, de pescoço partido e do alto dos seus já 89 anos, para chamar a ambulância, é mistério que eu não sei explicar. Caríssimos, eu só falo do que sei e só estou aqui há 1 semana. Isto contaram-me! E quem sou eu para duvidar!

Depois do pequeno-almoço, partilhado com a pequena Lulu Bell, a caniche preta (Oh! angel child!, suspira a Mrs. R.), e de mais uns valentes 10-40 minutos de ronha, são horas de sair da cama. O sonho de Mrs. R. é não ter de sair da cama. Nunca. No outro dia, depois de 3 espirros, perguntou-me se se desse o caso de estar com uma constipação, podia ficar na cama o dia inteiro. Não! Não é opção! As manhãs, ou o que sobra delas, são passadas na drawing room (sala onde nunca vi um lápis de cor, um caderno de desenho ou um pincel), mas onde nos sentamos à frente da lareira e da televisão o resto do dia, entre o "Downtown Abbey" e os numerosos assassinatos que acontecem todos os dias na Inglaterra e respectivos super-detectives - minha nossa, tanta gente morre, todos os dias, nestas terras!!! Felizmente há o Frost, o Morse, o Sherlock, a Vera, o Poirot, a Miss Marple e mais uns tantos inspectores, policias e até a jardineiras do Rosemary and Thyme para prender essa escumalha!. Entre isso, rainhas, Reis e príncipes encantados, há uma presença obrigatória, e é logo o primeiro a abrir a sessão - André Rieu, o amado!
 Mal a encaminho para o sofá, Mrs. R. pergunta - Será que podemos ver o André Rieu? E lá abrimos o youtube e ficamos com as valsas do Mr. Rieu até à hora de almoço, às vezes a tarde toda, às vezes até à hora de ir dormir. André Rieu em Viena, André Rieu em Maastrich, André Rieu no cruzeiro do amor, na Escócia, na Ópera de Sydney. "Isn´t he wonderful, Helêna? don´t you think he´s wonderful?"

André Rieu, para os meus leitores ignorantes, é a super-estrela da música clássica. É a Beyonce do violino, o Bieber da Valsa, o Jagger das Orquestras! É uma estrela! Há-de ser o primeiro a tocar uma valsa na Lua, promete a cada entrevista a partir do seu Chateau em Maastritch, que em tempos pertenceu ao Charles de Batz-Castelmore D´Artagnan, aquele em que o Dumas se inspirou para os famosos mosqueteiros. E oh! She loves him! São horas a sorrir para a televisão, a sonhar com uma valsa nos braços do senhor. "Isn´t he beautiful? Gorgeous!" diz ela.

A minha avó, em tempos, também se apaixonou por uma estrela. Estávamos em 1945 e ela andava de beicinho pelo Francisco José. Reza a história que tinha posters e t-shirts assinadas e que ía a todos os concertos, mas nisto eu acredito pouco - a minha família é muito mentirosa e tem como lema porquê estragar uma boa história com a verdade... foi assim que me contaram e eu juro que prometo que até nem acrescentei um ponto ou outro... Diz que o meu avô, na altura jovem marido ciumento, teve de intervir, e, com uma sacudidela valente, arrancou "o chora" (assim lhe chamava e chama o meu avô, quando esta história vem à baila) lá de casa!

Ora, Mrs. R. já não tem o seu marido para se enciumar e quem me conhece sabe que, sendo membro número um e co-fundadora do Sindicato das Cartas, mesmo estando demissionária há algum tempo (não tendo ninguém se apresentado para o posto), não poderia deixar esta história de amor passar em branco. Vai daí, disse "Oh Mrs. R.! Olhe lá! Isto de ficarmos aqui a babar para o moço, não tem jeito nenhum! Acho que bem, bem, era mandar-lhe uma carta de amor!" Oh a cara dela! "Can we?" Claro que podemos Mrs. R.! Não só podemos, como temos! É proibido, pelos estatutos do Sindicato das Cartas, não enviar as cartas de amor! "E nós sabemos a morada dele?" Saber, não sabemos, Mrs. R.! Mas perguntamos ao google! E vai daí, sai carta de amor para a Holanda.

Reza a história que a Mrs. R. nem sempre foi um amor de mulher. Senhora e dona de uma Manor magnífica e dos 54 hectares em volta, sempre foi de arregaçar as mangas e conduzir o tractor terreno afora e ser ela a primeira a pegar na moto-serra para cortar as árvores abanadas pelos temporais. A Manor, por si só, já lhe daria direitos feudais (isto para não falar dos casacos de peles e dos colares de pérolas e o fino gosto de preferir comer a sopa de lata com colher de prata e não com a de estanho que, por acidente (qual acidente, ignorância! lhe levei no tabuleiro do almoço) mas agora, ali meio abandonada, sem família ou criados por perto, sem ninguém para lhe ouvir as ordens ou clamar as jóias, já não se preocupa com coisas maiores do que a selecção diária de programas de televisão. "Às vezes, esqueço-me de quão próxima sou da família real!", diz-me, quando aparece o príncipe Carlos, de bochechas vermelho reluzente, na televisão. "Está com um ar acabado, o príncipe, não está? Eu sou prima de um barão! Ele era boa pessoa e eu gostava muito dele, mas às vezes ficava louco e a minha avó trancava-o no quarto ao lado do nosso quarto de crianças. Mas ele era realeza e era meu primo!." Agora, raramente se lembra disso e ainda bem, porque às páginas tantas, a minha vida era muito mais complicada e não podíamos mandar cartas de amor ao Rieu, mesmo ele vivendo num castelo na Holanda.

História de  H. G.

domingo, 23 de abril de 2017

O Fim da Lei da Selva


Desde a Idade da Pedra até à Época do Vapor, e do Árctico ao Sahara, todos sabiam que, de um momento para o outro, um vizinho poderia invadir o seu território, derrotar o seu exército, chacinar a sua população e ocupar a sua terra.
Durante a segunda metade do século XX, esta Lei da Selva, foi finalmente quebrada, ou melhor, revogada e, na maior parte do mundo, as guerras nunca foram tão raras.
Enquanto nas sociedades agrícolas antigas a violência era a causa de 15% de todas as mortes, durante o século XX, apesar das duas guerras mundiais, a violência causou 5% das mortes, e no início do século XXI é responsável por 1% da mortalidade global.
Em 2012, morreram cerca de 56 milhões de pessoas do mundo; 620.000 das quais de morte violenta – a guerra matou 120.000 e o crime 500.000.
Por sua vez 800.000 pessoas cometeram suicídio e 1,5 milhões morreram de Diabetes. O açúcar é, actualmente, mais perigoso que a pólvora.


In “Homo deus” de Yuval Noah Harari

quarta-feira, 19 de abril de 2017

A espera


Tem 99 anos e está à espera do fim. Não tem doença “de maior”, mas todas as limitações do mundo. É cega, mal se aguenta nas pernas, ouve mal e, recentemente, o Clínico Geral que a segue há vários anos, diagnosticou-lhe “demência”, coisa que eu duvido. Ou melhor, às vezes sim, outras, não! A verdade é que a fúria facilmente se confunde com loucura e a raiva que ela tem, por não ser capaz de dar dois passos, seguir uma conversa ou de apreciar uma belo prato de comida (o paladar também já se foi), tolda-lhe o pensamento. Está zangada com o mundo e, como tal, grita. Se pudesse, batia no mundo. No mundo todo! De preferência com um pau.

Foi uma grande mulher, daquelas de mangas arregaçadas e para a frente é que é o caminho. Casou cedo e, dois dias antes do nascimento da sua primeira filha, já era viúva. O telegrama de guerra, sobre a morte do seu marido, chegou quando ainda estava deitada na cama do hospital a amamentar pela primeira vez. Casou, anos mais tarde, com o pediatra da filha e nunca mais falou do homem que perdeu na guerra. O novo não gostava e ... para a frente é que era o caminho. Teve mais três filhos de quem foi mãe implacável. Fez de raiz as roupas das crianças, cozinhou para seis, todos os almoços e jantares e bolo para o lanche, trabalhou com assistente do novo marido, fez voluntariado, correu o mundo de auto-caravana e a Europa, à boleia, com a filha mais velha. Não deve ter parado um segundo. Fortíssima, esta mulher!

Quando a conheci, mais ou menos, há um ano, já estava bastante fraca. Acabava de regressar de três meses no Canadá, onde tem dois dos filhos emigrados. Teve um enfarte no dia anterior à viagem de volta e contou-me, a rir-se da confusão que criou, como teve de ser evacuada de helicóptero da ilha de Galliano. Comia com prazer e queria saber tudo sobre tudo. Passávamos os dias, já lentos, é claro, a ouvir a radio BBC-4 e a discutir os direitos das mulheres ou o sentido da vida, a guerra na Síria ou os atletas russos banidos por doping dos jogos olímpicos. Também vimos os jogos olímpicos - ela sentada na sua poltrona com o olho azul pregado no tecto e eu, ao lado, a fazer o relato das acrobacias dos ginastas da team GB. Ela ria e batia palmas.

Agora grita, quando a pontada lhe atinge as costas, 'Turn it off!!!! Turn it off!!! Please! Turn it off!!!' e eu fico sem saber se ela está a falar da dor ou da vida. Quando a pontada lhe atinge as costas (está amansada pelos analgésicos), suspira profunda e sonoramente, como se fosse um pirata 'Aarrrggg!!!!' e depois diz baixinho ' I can't take this anymore!', eu sei que ela está a falar com Deus. Ela que sempre foi ateia, … a falar com Deus!
Os dias, agora, são passados em silêncio, que é a forma mais correcta de se estar numa sala de espera. De vez em quando, há uma impaciência e um grito, um atirar a mesa para o fundo da cozinha. Qualquer interrupção do silêncio, por mais de dois minutos, leva com um 'Aarrrggg!' e … ficamos assim.
Os netos, antes, telefonavam amiúde e ela perguntava sem pudor 'Como vai a vida amorosa?' e, depois do telefonema, perguntava-me o mesmo a mim. E ria-se. Ou franzia a testa, quando era caso disso. Ou resmungava comigo, que assim não ia lá. Agora, os netos já raramente telefonam e ela também já não tem conversa para eles. O telefone incomoda e quase não se percebe o que dizem do outro lado pelo que ela opta por perguntar apenas 'como vão as coisas contigo' sem se importar com a resposta e despede-se 'All good for the next adventures!', que é uma coisa que vai bem com tudo.
De vez em quando pergunta-me 'And what's next?' e a seguir, que vamos fazer? e eu nem sei como responder. A resposta correcta seria esperamos um pouco mais. Depois, almoçamos. E depois, … esperamos. Às cinco, tomamos o chá que já não te sabe a nada. Darás uma golada e dirás 'Obrigada! Não sabe a nada! Não quero mais!' e será mais um pacote de Twinings pela banca abaixo. Depois, … esperamos. À noite recusarás o jantar depois da segunda garfada. 'Muito obrigada! Estava delicioso! Não quero mais!' ou, se estiveres de mau humor, como é frequente no final do dia, dirás 'it's discusting' e empurrarás o prato para longe. Depois, iremos para cima outra vez num ballet difícil, com berros e tropeções, mão esquerda, mão direita, elevador a apitar escadas acima enquanto gritas 'quero sair' e finalmente havemos de ir para a cama e amanhã repetimos tudo outra vez e … esperamos. Mas não posso responder assim, embora ambas saibamos que é verdade. Digo que a filha deve estar a telefonar, ou desconverso perguntando se não quer usar o quarto de banho ou dizendo que hoje falei com a minha mãe e que ela lhe mandou um abraço. Desconverso um pouco até ela se esquecer da pergunta e me mandar um 'Aarrrrggg!', que significa apenas 'Cala-te! Fico melhor no silêncio!' e voltamos a esperar.

A morte é chata. Nunca mais chega, e a minha amiga, incapaz de se deslocar até à linha de comboio que vemos passar da janela, já não aguenta mais a espera.
Tem uma família maravilhosa. Na mesma aldeia, vive um dos filhos que, religiosamente, a visita pelo menos duas horas por dia. A mais velha, no Canadá, liga todos os dias às sete e veio de propósito, a semana passada, à Inglaterra, para visitá-la durante uma semana. A outra filha liga-lhe três vezes por semana e os telefonemas nunca duram menos de vinte minutos. O mais novo, liga ao domingo no final da tarde. Os vizinhos, malta de quarenta anos, trazem bolo para o chá de domingo. Mas ela já não consegue ouvir ninguém. É muita confusão. O cérebro mete-se no meio e grita 'Aarrrggg!'.
'Turn it off! Turn it off! Please turn it off! You should know how to turn it off! If not call your boss, he certainly knows! Turn it off, please! I can't take this anymore!'.
A vida não é isto. A vida nunca foi isto! A vida é ainda, para ela, uma casa cheia de filhos a brincar no jardim e é injusto que lhe tenham roubado isso. Isso sim, era a vida! Todos a correr à volta dela. Ela a estender a roupa no fundo do jardim e o telefone a tocar - havia um telefone no fundo da casa, para ela poder atender as chamadas do consultório do marido, mesmo quando estava a estender a roupa no fundo do jardim e a correr atrás dos filhos - preciso disto, tenho fome, é uma urgência. Fazer o bolo, alimentar as galinhas, apanhar a fruta das árvores, esquecer o primeiro marido que ela adorava mas de quem nunca mais pôde falar, remendar os joelhos das calças dos miúdos, tratar do marido, que era médico acima de qualquer outra coisa, e ela entendia. Isso era vida. Não isto. Correr, fazer, coser, assar, ouvir, correr, atender o telefone, ajudar nos deveres, correr, estender a roupa, rir, ir ao Canadá, ajudar a construir a casa de férias da filha mais velha, com as próprias mãos, até ser levada para o hospital de helicóptero. Ser importante, ser essencial, ser o centro. Isso era vida! Não isto! Isto, é que não!

Hoje, enquanto a guiava para a cama, agarrou-me as mãos com força - ainda tem muita força, foram muitos anos a ter muita força - cravando as unhas nos meus dedos, como faz quando quer bater no mundo com um pau, mas sabe que não pode. Disse-lhe 'Jean, larga as minhas mãos' e ela apertou ainda com mais força, com o olho azul, muito cego, a olhar para mim cheio de raiva. E eu disse ' Jean! Tenho de coçar o nariz! Se não largas as minhas mãos, vou coçar o nariz na tua cabeça!' e cocei o nariz no ombro dela, com força e ela desmanchou-se a rir e largou as mãos, mais relaxada, feliz por um segundo. Depois, deitou-se e gemeu 'Porquê a mim? Explica-me! Porque é que me roubaram tudo? Os olhos, as pernas, o marido que eu amava quando tinha 22 anos, os filhos, o jardim? O que é que eu fiz para merecer isto? Porquê eu? EXPLICA-ME! Se é assim, prefiro morrer!'


Texto de H.G.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Psiquiatria


*
Após ruptura afectiva com a namorada, há um ano e meio, retomou os consumos alcoólicos e de cannabis. Há dois meses intensificou-os depois de ler um post no Facebook dela, que interpretou como uma mensagem que lhe era dirigida.
Então, começou a ter insónias e a ouvir vozes. "- Ouço a mãe dela a dizer para a matar!"
Abandonou o trabalho e veio para Portugal com esse objectivo. Comprou um bidão de gasolina para pegar fogo "a ela, ao seu novo companheiro e à família dele!".
Continua a ouvir a voz da falecida, como "um eco na cabeça", a dizer para matar a filha.
"-Ela já teve um acidente de viação! Eu rezei e o acidente aconteceu! Até me senti melhor! Só depois soube que não morreram!"
Considera-se capaz de influenciar, com o pensamento, o destino de outras pessoas. Assegura que já anteriormente as suas ideias se concretizaram: "Eu dei uma semana à mãe dela, e ela morreu na semana a seguir!".
Nas últimas noites tem tido insónia total.
Está orientado, calmo e colaborante. Atenção captável e concentração mantida. Aspecto e vestuário cuidados. Discurso espontâneo e coerente, centrado na ruptura do relacionamento amoroso. Humor disfórico. Mantém ideação homicida. Nega outro tipo de actividade alucinatória.

*
32 anos. "Solteiro e descomprometido!". Vive com os pais. Sempre praticou desportos. Define-se como "muito inquieto, distraído e de extremos". Tem curso profissional. Há algum tempo, trata de cavalos. -"Sempre fui muito sensível. Os cavalos até se põem-se de pé para brincar comigo!”
Relata pensamentos confusos. Não sabia nada e começou a ler livros sobre o poder da mente “positiva” e teve um despertar espiritual. -“Coisas que me interessam, sou capaz de ler!”.
Começou a perceber cheiros e sinais, e a ter capacidade para interpretar os animais. Já há dez anos, ao passar por Fátima, sentiu uma espiritualidade muito forte.
Namorou e traiu a namorada várias vezes. Agora não, porque teme um castigo de Deus.
Tem um padre amigo, a quem está mais ligado. Gosta de passear pelas Igrejas, para ver como as põem para os fregueses.
Diz que se emociona com facilidade. Ontem “foi o pior dia da sua vida!”, por causa do falecimento de um gato. Di-lo cabisbaixo e até choroso.
Mantém consumo de cannabis, embora receie que o fumo possa atrair o mal. Não o quer suspender porque lhe causa elevação do espírito e porque um naturopata lhe disse que havia uma pessoa perto que ficava com todo mal que ele fizesse.

*
Casado. Tem 2 filhos. Trabalhou na construção civil. Desempregado há 4 anos.
Comprou uma mota pesada há uma semana e, desde de então, está em conflito com a esposa. Diz que ela o culpa de não ajudar com as despesas de casa e de ter gasto todo o dinheiro com a mota. Além disso, a esposa terá comentado a situação com um vizinho, o que lhe desagradou.
Ontem, depois de mais uma discussão, deu "um golpe em cada pulso" e tomou os medicamentos dela.
Sente-se "péssimo"... porque as coisas, em casa, não funcionam bem! A esposa não lhe fala, bloqueou-lhe as contas e hoje enviou-lhe uma mensagem a dizer que quer a separação. Refere não ter intenção de vender a mota, porque ... "não é pessoa de se rebaixar!"
Está colaborante e orientado. Tem aspecto cuidado, postura defensiva, contacto ocular escasso. Fácies triste. Humor depressivo. Discurso escasso e pobre, embora coerente. Timbre baixo. Sono e apetite regulado. Juízo critico mantido.
Já foi seguido em consulta de psiquiatria por perturbação de personalidade.

*
Trazido, algemado, pela GNR, por agressividade.
Há dois dias que está descontrolado. Ameaça matar os pais.
É já seguido em Psiquiatria. Tem consumos regulares de haxixe e má adesão a terapêutica. A mãe diz que recusa ou finge tomar a medicação.
Está verborreico e com discurso incoerente.
Acha que o mundo é uma luta entre as boas e as más energias, onde, às vezes, ganham as más.
Refere que foi uma “pequena confusão”. Sentiu coisas muito desagradáveis. Que os pais estavam possuídos. A mãe, pelo dono da TMN, que controla as linhas de telefone e o pai pelo dono da Google.
Tinha chegado a casa contente, com a cabeça cheia de pensamentos muito bonitos... de rir, de amor, de comédia. Foi para o quarto fumar e soube-lhe tão mal, que achou que podia ser algum veneno...

domingo, 9 de abril de 2017

Lembranças do Olimpo (28) - Jesus



Jesus, não apresentava qualquer sinal de tortura. Vestia uma túnica impecavelmente branca que contrastava com a tez bronzeada, de uma vida exposta ao tempo. Esboçou um sorriso afectuoso e respondeu:
- Ia a caminho do Vaticano, quando encontrei o Arcanjo Miguel, que me disse que tu andavas a identificar mitos que possam ser úteis a uma Religião futura. Como quero participar nela, apressei-me a vir ter contigo. Parece que já tens dois – ele e o Quixote. Será que eu podia ficar com o nº 3?
Hipólito surpreendeu-se e, para não dar parte de fraco, aumentou a parada.
- Meu caro Jesus! A tua história é muito imprecisa. O que consta nos Evangelhos, foi escrito mais de sessenta anos após a tua morte e por quem terá ouvido o que os apóstolos disseram de ti. É muito diz-que-disse, de pessoas com interesse em te glorificar. Não há fontes históricas romanas, porque o teu impacto imediato foi “demasiado insignificante”.
- Eu sei! Respondeu Jesus. – Mas pergunta o que quiseres que eu, se ainda me lembrar, respondo-te!. E, dito isto, reclinou-se na cadeira, simulando estar numa sessão de psicanálise.

- Então, antes de começarmos, diz-me se aquilo que eu penso saber de ti, é verdade! Nasceste em Nazaré. Eras um judeu praticante, que leu as Escrituras. Foste baptizado por João Baptista. Fizeste um ministério, de cerca de dois anos, nas aldeias rurais da Galileia e, nas duas últimas semanas, na Judeia, mais precisamente, nas festas da Páscoa, em Jerusalém, onde entraste montado num burro, copiando o profeta Zacarias. Alguns dos teus seguidores aclamaram-te como “Messias” e “Filho de David”. Foste ao Templo e viraste as mesas dos vendedores de pombas sacrificiais e dos cambistas, enquanto os insultavas de ladrões. Depois escondeste-te, e Judas denunciou-te. Foste preso e julgado por blasfémia, pelo sacerdote Caifás, que era a autoridade máxima dos judeus, que depois te enviou a Pilatos, por ser só ele que podia decretar a pena de morte, e que deu seguimento ao seu pedido.
- Confirmo, respondeu Jesus e Hipólito questionou:

- Desculpa a minha ousadia, mas gostava de saber se, com a tua pregação, pretendias, mesmo, dar início a uma nova religião?
- Se queres uma resposta simples, ela só pode ser: Não! Já ouviste falar no “efeito borboleta”? A minha profecia de que estaria próximo o Reino de Deus na Terra, foi capaz de mobilizar muitos dos descontentes. Inicialmente foram só os judeus que se sentiram ultrajados com a execução de João Baptista, mas, depois da minha morte, com o trabalho do Paulo junto dos gentios, o mito do Reino do Deus foi muito mais agregador de boas vontades que a da miríade de deuses pagãos que os romanos apoiavam.
- Mas se o Reino de Deus, que tu profetizaste, nunca chegou, como é que ele se transformou numa religião?
- É o tal efeito borboleta, onde um pequeno facto (no caso uma ideia) consegue incorporar outros e outros, até atingir uma grande dimensão. O Velho Testamento continuou activo, mas, agora, não só para os judeus. Para incluir os gentios, teve de rever algumas das leis mais “fundamentalistas”, como a que impedia o trabalho ao sábado, o consumo de carne de porco e outros alimentos considerados impuros e a obrigatoriedade da circuncisão. Depois, aos poucos, foi integrando os valores individualistas da cultura ocidental, até ao actual “American way of life”! Não sei se sabes, mas muitas culturas, ainda agora, secundarizam o indivíduo à sociedade, coisa que o cristianismo não promove.

Hipólito estava surpreendido. Sem querer perder a oportunidade, arriscou: - Queres então dizer que, no teu ministério, induziste pessoas a acreditar em coisas que se não verificaram!
Jesus não se importunou e respondeu, calmamente. – Sim! De facto, eu profetizei que estava eminente a vinda do Reino de Deus e que Ele iria impôr a sua vontade “tanto na Terra como no Céu”. Estava convencido que o ia fazer, que eu era o Seu último enviado, e que me dera autoridade para falar e agir em Seu nome. Só depois de estar umas horas na cruz é que caí em mim. Foi então que Lhe perguntei “Pai! Porque me abandonaste!”. Mas a mensagem que passou para a posteridade não foi essa. Foi que Deus ama cada individuo, independentemente das suas imperfeições e que deseja o regresso mesmo do pior de todos. Foi esta “inversão de valores”, onde “os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros”, que deu mote para que os poderosos se pusessem ao serviço de todos, com compaixão e sem grandes juízos.

- E para fazer valer a tua, era mesmo necessário teres morrido na cruz?
- Não estava nos meus planos. Eu, era um homem marcado na Galileia, onde o Herodes Antipas me chegou a considerar uma reencarnação do João Baptista. Quando entrei em Jerusalém já o Caifás estava de sobreaviso, de modo que, quando soube que os meus seguidores me saudaram com “Hosanas!”, me chamaram explicitamente “Filho de David” e aclamaram o “Reino” que estava a chegar, embora a manifestação fosse modesta, as forças de segurança passaram de alerta amarelo a laranja, que passou a “vermelho” quando entrei no Templo e derrubei as mesas dos cambistas e os bancos dos vendedores de pombas e comentei: “A minha casa será chamada casa de oração, … mas vós fizestes dela um covil de ladrões!”.

O médico ia de surpresa em surpresa. Ainda sem compreender a lógica de todo aquele processo, perguntou, como quem afirma: - Então, depois de uma afronta destas ao Templo sagrado de um povo, que tinha por Lei princípios ditados por Deus a Moisés, no dia em que celebravam em comunidade a Pessach - a "Festa da Libertação" dos hebreus da escravidão no Egipto em 1440 (a.C), que era a sua principal festa, a que todos os indivíduos do sexo masculino deviam participar, o que é que tu esperavas?
- Já te disse. Esperava que Deus surgisse do Céu, com os seus anjos, com grande poder e glória, e impusesse o seu Reino na Terra.

Hipólito, não resistiu e comentou: - Basicamente eras um escatologista radical que esperava que Deus interviesse na História, à semelhança do que dizia o Velho Testamento, onde Ele abrira o mar Vermelho, produzira maná no deserto e derrubara os muros de Jericó!
Jesus calou-se. “Escatologista radical” era um termo para pensar. Já lhe tinham chamado “exorcista” e “milagreiro”, mas “Escatologista radical” … . Endireitou a cadeira e sugeriu: - Se me vais aceitar com esse epíteto, prefiro o de “catalisador de efeito borboleta”, pois creio que foi o Deus que ajudei a criar que permitiu o desenvolvimento tecnológico do Ocidente, fundamental para que no mundo actual a Humanidade possa viver com algum bem-estar.

O médico concordou. – Ficas com o nº3.
Depois, saiu do automóvel, para se despedir.
- Essa coisa de procurar "fora da caixa", às vezes resulta, mas raramente beneficia o primeiro a fazê-lo.!, disse-lhe Hipólito. -Se encontrares o S. Paulo diz-lhe que eu admiro a sua coragem em levar a tua história a Roma. Aquilo é que foi meter uma lança em África.
Jesus, deu-lhe a bênção e subiu, ao som de trombetas, por um raio de sol que passava por entre as nuvens que, lentamente, se desvaneceram no ar.

Hipólito regressou a casa. Tinha que dormir sobre aquela conversa, para a conseguir integrar no que sempre lhe fora dito. Era muita informação para um só dia.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Milagres


Desde sempre que as pessoas esperam milagres em caso de doença ou outros azares.

São três as alternativas:

1: Pedir directamente a Deus, ou a um dos muitos deuses do mundo pagão.
É muito barato e, aqueles que rezam com regularidade, verificam que, de vez em quando, a oração é eficaz, pois algumas doenças curam espontaneamente e "não há mal que sempre dure! ...".
A ajuda divina pode ser pedida em privado ou em público. O deus grego, Asclépio/Esculápio, que se especializara em curas, tinha santuários em todo o mundo mediterrânico.

O bastão de Esculápio

2: Pedir a um indivíduo particularmente piedoso ou dotado, habitualmente designado como “carismático”, com capacidade especial para influenciar Deus.
Há pessoas que se especializaram em exorcismos e dedicam-se às doenças do comportamento que entendem como possessão demoníaca. Outros dedicam-se ao controle do ambiente. Honi, o desenhador de círculos, que viveu no 1º século AC, na Palestina, era conhecido pelas orações bem sucedidas a pedir chuva, o que, numa região sujeita à seca, levava muita gente a orações e a jejuns colectivos, que, algumas vezes, resultavam. Mas Honi era particularmente eficaz. Uma vez desenhou um círculo, colocou-se dentro dele e rezou: “Senhor do universo, os Teus filhos voltaram as suas face para mim, porque, aos Teus olhos, sou como um filho da casa. Juro sobre o Teu grande nome que não me vou mexer deste lugar enquanto não tiveres compaixão dos Teus filhos!”, e começou a chuviscar. Mas Honi não ficou satisfeito: “Não rezei por uma chuva destas, mas por uma chuva de boa vontade, de bênção e de graça!”. Então começou a chover com mais intensidade e durante tanto tempo que alguns habitantes de Jerusalém foram para o monte do Templo, que estava no ponto mais alto. O fariseu que era chefe naquele dia, teve uma posição ambígua em relação a Honi e ao seu feito: “Se não fosses Honi, declarava-te anátema! Mas o que hei-de fazer contigo? Importunas Deus e Ele faz o que tu queres, tal como um filho importuna o pai e ele faz-lhe a vontade!” – Honi tinha um relacionamento íntimo com Deus.

3: Pedir a um Mágico. Os mágicos não fazem milagres devido à sua relação especial com um deus. A magia baseia-se na aplicação particular de uma cosmogonia, segundo a qual existe uma Grande Cadeia de Seres na qual tudo está ligado e que a manipulação de determinados elementos comuns, influenciam os seres imediatamente acima e assim sucessivamente, até à divindade.
É possível alugar um mágico e fazer com que a divindade cumpra os nossos desejos.
Quando a magia tem por fim prejudicar alguém, tem o nome de “Magia Negra”, quando visa a cura de doenças ou outros males, tem o nome de “Magia Branca”                                                  


sábado, 1 de abril de 2017

S. Pedro de Verona


Pedro Mártir - Verona (1205-1252). Era filho de uma família cátara. Entrou para a Ordem dos Dominicanos e, de 1230 em diante, pregou contra a heresia, especialmente contra o Catarismo.

Em 1234, o Papa Gregório IX nomeou-o Inquisidor Geral para o norte da Itália, onde ganhou fama de "Zeloso Demolidor das Heresias".

Como tal, deve ter participado na Cruzada contra os Albigenses (1209-1244) que se caracterizou por grande violência contra aquelas comunidades pacíficas, que viviam no norte da Itália, no reino de Aragão, no condado de Barcelona e na região do Languedoque, a sul da actual França, onde morreram milhares às mãos do Santo Ofício, muitos deles queimados em "autos de fé", unicamente por professarem uma crença diferente da sua.

Quando um grupo de cátaros o matou, numa emboscada, com um machado na cabeça, caiu de joelhos, molhou o dedo no seu sangue e escreveu no chão: "Credo".



Pedro foi canonizado pelo Papa Inocêncio IV em 9 de março de 1253, a mais rápida canonização feita por um papa.


domingo, 26 de março de 2017

Lembranças do Olimpo (27) - A day in the life


Pouco passava das nove horas da noite, quando Hipólito se foi deitar. Aquele dia cheio de novidades aguardava que o sono lhe desse alguma arrumação. Quem trabalha com os braços ignora que pensar cansa mais que muitos trabalhos manuais. Pôs o CD dos nocturnos de Chopin, da Maria João Pires, no leitor e esperou que os olhos se fechassem.
Acordou, dez horas depois, no meio de um sonho. Procurava o automóvel num imenso parque onde todos tinham a cor do seu, e clicava repetidas vezes no comando da chave, sem que nenhum piscasse.
-Ufff! Não admira que se morra a dormir!, disse, enquanto se sentava na cama, ainda com o coração acelerado.
Se os sonhos dizem alguma coisa, esse estava em consonância com o seu estar: procurar o particular, naquilo que parece igual.

Apressou-se para chegar a tempo a um lugar do parque de estacionamento do hospital. A cidade atirara a população para a periferia e obrigava, mesmo os mais pobres, ao transporte individual. Aquele era dos poucos locais gratuitos e sem risco de ser multado, pelo que o estacionamento desordenado era a regra. Depois de cheio, um telefonema para o número do papelinho deixado no tablier, era suficiente para fazer alguém correr para aquele espaço tornado possível.
Era dia de Urgência e Hipólito fora avisado da falta de especialidades na Escala o que era frequente nas que tinham quadros mais reduzidos, nos períodos de férias, nas doenças e nos congressos ou outras formações. Nessas alturas, havia de decidir transferências dos doentes que necessitariam de parecer urgente.
Recebeu o turno e abriu o computador. Eram quatro os doentes à espera de Psiquiatria. A médica adoecera e não fora possível a sua substituição.

1:  Estava a receber subsidio de desemprego, mas faltou às apresentações e este foi-lhe cortado. Está a beneficiar de refeições da cantina social.
Não tinha solução para a vida e começou a vender os móveis da senhoria. Diz que teve consciência do que estava a fazer e que sempre pensou que o ia repor, mas ... não conseguiu.
Recebeu ordem de despejo. O pai é o fiador e tem pago todas as despesas.
Nunca ligou muito à escola e não concluiu o curso profissional.
Já trabalhou em inúmeras áreas (vendas, restauração e indústria). Onde trabalhou mais tempo (1 ano) foi no shopping a vender cartões de um Banco. - "Nunca fui estável em nível de empregos... ou por conflitos ou porque me fartava!"
Tem poucas amizades e foi-se distanciado dos familiares. Sempre quis a sua independência!
Presentemente não tem casa. Não parece possível voltar a residir com o pai, por também lhe ter vendido bens. -"Ele é de outra geração e não nos entendemos! Só pensa em dinheiro!".
Gostava de criar uma associação para ajudar pessoas. Quer ajudar o mundo, ter impacto nacional ou mundial. Impacto na televisão! Escrever um livro de auto-ajuda, dar conselhos …, auxiliar na procura de emprego!
2: Solteiro. Vive só. É electricista. Perdeu o controlo dos consumos de álcool há três anos, aquando de separação conjugal. Bebe nove a dez cervejas por dia.
Ontem de manhã, veio ao SU com o intuito de fazer “tratamento de desintoxicação” e foi orientado para o CRI. Depois, bebeu catorze “Macieiras” e à tarde foi resgatado do rio, para onde se atirou.
Ultimamente tem-se sentido mais nervoso e “pensativo". Nega ter planeado o gesto.
Já teve dois internamentos por Síndrome de Dependência Alcoólica. É filho de pais alcoólicos. Fuma um maço de tabaco por dia.
3: Há quatro dias teve uma quezília com a mãe. Saiu de casa e passou a noite na casa de uma tia. No dia seguinte voltou. Sentiu-se criticada e pressionada. Teve uma crise de nervos e desmaiou. Tentou sair de casa, mas foi impedida. Acabou por o conseguir e foi encontrada e tranquilizada por outros familiares, que a trouxeram ao Serviço de Urgência.
Relaciona o seu estado actual com conflitos familiares frequentes, sobretudo com a mãe, que questiona toda a sua vida, lhe lê o diário e a agenda e se intromete nas suas conversas com os amigos e namorado (tem um relacionamento há cerca de um mês). Sente-se invadida na sua privacidade e independência.
No Serviço de Urgência, terá encontrado (diz que por coincidência) um ex-namorado, com quem cruzou olhares e algumas provocações, após o que ficou muito ansiosa. Despiu as calças e as cuecas e ficou apenas com a camisola vestida, ... para o "provocar". Isso deu-lhe "algum gozo!".
Quer equilibrar-se e mostrar à mãe que sofre. Diz necessitar de umas férias!
4: Divorciado. Tem uma filha, que vive longe. Tem a 4ª classe e o 9º ano através das Novas Oportunidades. Esteve emigrado na Suíça. Há quatro anos foi reformado por motivos psiquiátricos.
Nas últimas semanas já recorreu ao SU por três vezes. Na última, psiquiatria reiniciou-lhe terapêutica anti-depressiva, que não cumpriu.
Diz ter descoberto que a companheira, com quem viveu nos dois últimos anos, o tem traído. Desde então não tem apetite e tem dormido muito pouco. Ouve barulhos durante a noite - "móveis a estalar e outros ruídos estranhos!”. Hoje, ao acordar, deparou com a "casa toda aberta, com as janelas escancaradas!”.
A sua intenção actual é comprar uma arma, a um cigano, dar dois tiros em cada perna da companheira e depois, entregar-se à polícia!"

Hipólito encaminhou-os e passou às doenças do corpo que, apesar de poderem ser fatais, são mais fáceis de entender, mesmo quando afectam gente de idade e sem capacidade de se exprimir.
1:  98 anos; trazida por prostração desde ontem. É dependente, mas ajuda no vestir e por vezes trata da sua higiene sozinha. Reconhece os familiares.
TA:148/83mmHg; Temperatura auricular: 34ºC; Saturação de O2: 99%; Frequência Cardíaca: 78 bpm
Responde a questões simples. Diz que tem frio.
2: 83 anos. Acamada. Solteira, Vive com uma sobrinha, que é a cuidadora. Referenciada ao SU por afasia súbita. ...
3: 86 anos. Trazido do Lar por dispneia intensa e febre, com inicio esta manhã.  ...
4: 94 anos. Trazido ao SU por prostração e recusa alimentar ...
5: 33 anos. Obesidade mórbida. Recorre ao SU por dor précordeal ...
n: ...

20:00h. Passou o turno, vestiu-se, pôs o dedo no pontómetro e saiu.
Junto à porta do automóvel notou um pequeno crucifixo, em prata, a brilhar no chão. Olhou em redor e não viu ninguém. Ia metê-lo no bolso quando ouviu uma voz.
- Obrigado! Estou aqui caído há quatro dias! Chamei-te, quando chegaste, mas com a pressa não me ouviste! Estava a ver que ia ser esmagado!".
Hipólito passou o indicador sobre a imagem, como a limpá-la e, no segundo seguinte, viu Jesus sentado a seu lado, no lugar do morto.
- A que devo a tua visita!? perguntou.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Lições de rua


O que a gente aprende nas feiras de Londres

quarta-feira, 22 de março de 2017

quarta-feira, 15 de março de 2017

sábado, 11 de março de 2017

segunda-feira, 6 de março de 2017

Konrad Adenauer


...

Na determinação da jovem Alemanha Ocidental de parecer uma sociedade aberta e democrática, todas as portas estavam abertas ao jovem diplomata curioso. Eu podia ficar sentado todo o dia na galeria dos diplomatas do Bundestag e almoçar com jornalistas e conselheiros parlamentares. Podia bater à porta de ministros, assistir a comícios de protesto e sofisticados seminários ao fim de semana sobre a cultura e a alma alemãs, ao mesmo tempo tentando descobrir, quinze anos depois do colapso do Terceiro Reich, onde terminava a velha Alemanha e começava a nova. Em 1961, não era nada fácil. Ou não para mim.

Um ditado atribuído ao chanceler Konrad Adenauer, cuja alcunha era - "O Velho Homem", que deteve o posto desde a fundação da Alemanha Ocidental em 1949, até 1963, resumia concisamente o problema: " Não se deita fora água suja, enquanto não se tiver água limpa!".
...
in "O túnel dos pombos" de John le Carré


mas o mesmo Adenauer que disse “Temos que aceitar as pessoas como são, porque não existem outras!”, também afirmou que "Um método infalível de entrar em acordo com um tigre, é deixar que ele nos devore!".

...  Temos dito!

domingo, 5 de março de 2017

Animais do meu jardim



Nem só de flores se faz um jardim!

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Lembranças do Olimpo (26)


O Arcanjo riu e perguntou: - Mas porquê o Quixote se ele sofre de Demência Fronto-Temporal?
- Porque eu necessito de alguém, consensual, com um misto de agressividade, impulsividade, inflexibilidade, comportamento inapropriado, ilusões e falsas concepções, que possa proclamar liberdades, questionar costumes e proferir inconveniências, com total inimputabilidade.
Ele tem 400 anos de provas dadas, o que é mais que suficiente. Nada como um louco para apontar o dedo à Justiça.

- Então é ele que queres para me questionar?, pasmou S. Miguel, fazendo subir e descer os pratos da sua balança.
- Exactamente!, respondeu Hipólito. – Não é necessário que um homem conheça as razões que o movem quando opta por um de dois caminhos. Querendo, pode mesmo iludir-se sobre os motivos da escolha, atribuir-se virtudes que não possui, inventar pretextos e invocar imperativos ditados pela boa índole, pela rectidão moral, pela fibra ética, pelos princípios. Pode tentar convencer-se de que é o amor que o move e que é a Justiça que o obriga; reclamar-se guardião dos mais elevados ideais e argumentar que a sua defesa justifica o uso de qualquer meio.
O homem vive de enganos. Inventa deuses, persevera em acreditar neles e cuida para que os demais creiam também com tanto ou maior fervor. Não tem ideais, tem humores. E este é o móbil de todas as suas acções, das boas e das más, dos gestos acertados e dos erros. As disposições humanas, por mais volúveis ou ponderadas, constroem os destinos e todas as coisas, ditam sortes e convocam desgraças.

- Vejo que citas de cor o Manuel Jorge Marmelo no “O homem que julgou morrer de amor”.
- Não te sabia leitor, pelo que ainda mais te admiro! Julgava-te um fundamentalista, mas dou a entender-te como alguém à procura de um equilíbrio dinâmico para a humanidade, que sabe que o homem é, de entre todos os animais, aquele que mais se assemelha ao lobo: se devidamente alimentado e vestido, com um punhado de moedas na mão, chega a parecer dócil e assustado, mas se tem a barriga vazia transforma-se num ser selvagem, capaz de renegar os seus deuses e amaldiçoar as suas crenças, sem pestanejar antes de fazer o que julga necessário para ganhar o direito ao alimento que lhe falta, e até de dar caça ao seu pai, irmão ou mestre, o que inspirará gerações e as ensinará a vencer sem olhar a meios, armado apenas de pragmatismo, da determinação e do ódio que faz dos fracos vencedores.

- Fim de citação!, riu o Arcanjo. Hipólito que, com o ânimo, se tinha levantado, voltou a esparramar-se no cadeirão, simulando um grande cansaço.
- Desculpa a referência. Lembrei-me deste trecho porque, de vez em quando, tropeço em colegas de profissão que evoluem para “testemunhas de Jeová da Medicina”, decididos a impor o seu modo de estar não só na profissão, como também no dia-a-dia. Costumam dizer que a Medicina é um “sacerdócio”, mas se lhes pagam menos do que as suas expectativas, passam à peixeirada e esquecem o tal espírito de missão que habitualmente reivindicam.

S. Miguel deu dois passos até à janela, de onde se via o mar.
-Então o D. Quixote é o nº 2, e ficará a representar quem reclama por Justiça quando é beneficiário de leis que protegem os seus privilégios.
- Isso mesmo! E também daqueles que se julgam “top” e se cegam para tudo o resto, transformando-se em martelos que em todo o lado vêem pregos!

Depois despediram-se e Hipólito ficou longos minutos a olhar para a nuvem por onde o viu entrar, a pensar se algum dos outros Arcanjos teria características que os pudessem eleger para os números seguintes.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A Roulote-Bar



Na sequência das alterações recentes que desviam doentes para as traseiras do hospital, e na impossibilidade de espaço para um Bar coberto, ir-se-à abrir em breve um concurso para uma Roulote-Bar, que tem por fim servir os inúmeros doentes que diariamente para ali são referenciados para colher análises, para tratamentos em Fisiatria e para as consultas para ali deslocalizadas.

Foi decido cativar dois lugares do parque de estacionamento dos funcionários, para que a Roulote-Bar possa suprir esta crescente necessidade. No inverno, será colocada uma mesa encostada ao vidro exterior do corredor onde se situa a porta da Central de Colheitas e, no verão, será permitida uma pequena esplanada nas imediações.
Esta modernidade, juntamente com o "vai-vem" eléctrico, irá, por certo, contribuir para a humanização e eficiência do nosso hospital.

Bem haja quem assim decide!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Arranhador

Giovanni Pico della Mirandola (Florença - 1463 - 1494), morreu aos 31 anos. Era dono de uma memória privilegiada e sabia tudo e mais alguma coisa.

Desde que soube da sua existência que o invejo. Não por saber tudo, mas por saber mais alguma coisa.
Eu, para não sentir a minha arte limitada à profissão, de vez em quando diversifico.


Hoje foi dia de fazer um arranhador para o gato.

Um tronco de loureiro: 0 €
Restos de uma tábua : 0 €
Restos de dois fios eléctricos: 0 €
7 metros de corda: 2 €
1 parafuso grande: 10 centimos
2 tapetes - 1 €
Total: 3,10 €

    + Uma hora e meia de trabalho 


domingo, 12 de fevereiro de 2017

Corruptelas

Corruptela é a deformação de palavras, originada pela má compreensão/audição ou rápida visualização.

A compreensão depende da literacia do ouvinte. Quem nunca ouviu a palavra taquicardia, tende a ouvir ataque cardíaco e se a palavra obriga a voltas com a língua, em vez de apologista, talvez lhe seja mais fácil "apugilista".
Na terra da minha sogra, não havia rododendros. Lá só se davam "redondelos".
E eu, só bem entrado na vida, é que deixei de dizer "catrapácio!!

É no que dá a ciência de ouvido!

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O Transfer


De acordo com as normas europeias para com as pessoas com mobilidade reduzida, estamos em vias de nos equipar com um pequeno "Vai-vem" eléctrico de cinco pessoas, para transportar os muitos doentes crónicos, da Entrada do Hospital para a Central de Colheitas, que recentemente foi colocada no outro extremo do edifício.
Resolve-se assim o problema dos idosos com graves problemas cardiovasculares e neuromusculares que, há cerca de um mês, lutam com a dispneia e as muletas, para chegarem vivos àquele local.  

Esta opção só foi possível devida à excelente prática de contenção de gastos supérfluos em medicamentos e material de uso clínico, para além da contratação de quem, em concursos públicos, mostrou maiores competências, acabando de vez com as políticas de favorecimento por "cunhas" e dos funcionários que tiraram um qualquer curso como trabalhador estudante.

O "Vai-vem" irá funcionar durante toda a manhã. Prevê-se a sua desactivação quando a Central de Colheitas e algumas Consultas Externas forem deslocadas para fora do Hospital, dando cumprimento à norma 3.77 do Memorando da Troika: Mover alguns serviços ambulatórios dos hospitais para as USF. (2T 2012)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Indecisão Clínica


Há profissões em que só é necessário conhecer as fórmulas e aplicá-las, sem muito pensar.
Há outras que exigem soluções individualizadas e que implicam riscos. Nessas, exige-se "estofo”! 

Mário Soares dizia que um político “assume-se”. Mas não são só os políticos que, para o bem e para o mal, devem assumir as suas opções, sem se esconderem atrás das ineficiências dos outros. Todos os indivíduos com curso superior o devem fazer, principalmente quando lidam com “coisas de muito valor”, como são as vidas humanas.

Um local onde a maioria dos doentes é vítima do adiar de soluções, talvez ficasse melhor identificado como "Unidade de Indecisão Política"!