quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O sono de Deus


Tinha já passado uma eternidade quando Deus se dispôs a uma nova etapa na sua já longa vida. Não que estivesse cansado de dar ordem ao Universo, mas por considerar ter já conseguido alguma estabilidade nos sistemas construídos, e que a contínua expansão do espaço teria como natural consequência um risco diminuto de colisões entre a matéria.


Há muito tempo que pretendia experimentar o sono, os sonhos e vivenciar um acordar como se tivesse estado noutra dimensão, por considerar que eles o poderiam ajudar a entender a loucura dos seres que concebera, e que persistiam em perseguir objectivos que não lembram ao Diabo, sabendo Ele, como ninguém, que o Diabo é capaz de tudo e mais alguma coisa, e até daquilo que ainda não foi feito.

A oportunidade chegara imperiosa, e, sem delongas, que um Deus, não necessita de ponderar as decisões, chamou o Acaso e a Esperança e comunicou-lhes:
- Chegou o tempo de experimentar o sono e o sonhar! Até agora, tenho-me ocupado de tudo o que tem acontecido neste Infinito que gerei. Vocês são novos e estão frescos, peço-vos, que é como quem diz - ordeno-vos, que tomem conta do Universo, até eu acordar!

E, como um imenso urso imaterial a responder a premência de um sono secular, arredou-se para um canto do Universo, embrulhou-se num punhado de galáxias e expandiu-se, desaparecendo numa imensa nuvem de antimatéria..

Esta vontade de Deus, surgindo assim do Nada e sem qualquer envolvência prévia, deixou-os perplexos. Sempre O tinham visto activo, um "Workaholic" circundado de estrelas, galáxias, átomos, partículas e buracos negros, constantemente a transmutar matéria em energia ou a comprimir ou a expandir o Tempo, e nunca lhes passou pela cabeça que alguma vez Ele se iria afastar do controle dos ventos, das marés e de todo o movimento das ondas com que tinha povoado o Cosmos.

Sabiam serem insondáveis os Seus desígnios, mas aquela responsabilidade dada assim de chofre, sem uma formação, sem normas, procedimentos ou paradigmas, que lhes servissem de Guião, e ainda por cima para um tempo de sono indefinido, pareceu-lhes uma insensatez divina. Mas manda quem pode e obedece quem deve, e Ordens de Deus não se discutem. Bem vistas as coisas, eles estariam na graça do Senhor, e com um pouco de espírito positivo tudo se havia de arranjar.

O Acaso, apesar de ter sido, até então, pouco determinante no evoluir dos factos, tinha mundo e muita prática. Poderia pensar-se que lhe seria difícil manter um rumo ou dar sequência a uma ideia, mas tal nem lhe assomou à cabeça, para orientar os seus planos. Faria o seu melhor, que é como quem diz, faria tudo ao acaso, com toda a seriedade, pois não era seu apanágio folgar em serviço. Também não sabia o que era dormir pelo que lhe era fácil estar presente em todos os fenómenos do Universo, o que era, só por si, uma inegável mais-valia. Quando Deus acordasse iria ver diferenças. Um desarranjo aqui, outro acolá, mas também havia de ver coisas a acrescentar à sua infinita obra. Por si, ficaria satisfeito se na balança do Deve e do Haver, após tudo somado, o fiel não pendesse para nenhum lado.

A Esperança, estava menos convicta em assumir aquela realidade. Nunca tinha trabalhado. Desde que fora criada, passara o tempo a embelezar-se com grinaldas e tiaras e a experimentar uns panos esvoaçantes a colar-se ao corpo quando se expunha aos ventos cósmicos e, de vez em quando, a riscar uns caminhos luminosos, uns corações entrelaçados, umas pombas esvoaçantes, uma luzes no escuro, algumas ao fundo de longos túneis, sem nunca os expor ou sequer tirado das gavetas onde, qual poeta, timidamente as guardava temerosa dos olhares mordazes.

Os seus passos titubeantes não pareciam adequados a tão ciclópica tarefa. Aparentava uma menina no primeiro dia de aulas, com o Livro do Destino nas mãos, mas quem estivesse atento, poderia vislumbrar-lhe um laivo de altivez, daquela que impregna os que se presumem predestinados, só por terem sido chamados a funções que julgam grandiosas.

De facto, a peça haveria de se afirmar melhor que a amostra, ao optar, logo de início, por ignorar o mundo inanimado e dedicar-se exclusivamente aos seres vivos, e dentro destes, de modo muito especial, ao Homem.

Digamos que o Acaso passou a ser omnipresente em toda a construção divina e que a Esperança só pontualmente aparecia a dar cor à ordem natural das coisas, sempre que um animal em aflição a invocava, na expectativa de que ela pudesse influenciar o Acaso, ou no mínimo, ajudá-lo a manter um rumo mesmo que pejado de escolhos e contrariedades.

O Acaso, mais activo, mostrou-se perito em pôr à prova os mais inteligentes, enquanto a Esperança, foi nos desfavorecidos que formou o coro de seguidores. Embora ricos e pobres a invocassem, foram estes últimos que mais beberam das suas irrealidades maviosas e dos prazeres perpétuos, de aquém e além-túmulo com que beatificamente os mimoseava.

O Acaso fez de tudo. Jogou com o Espaço, com o Tempo, com a Matéria e a Energia, interpenetrando uns nos outros para que nenhuma lei fosse universal, e criou tempestades capazes de eriçarem os cabelos dos Einsteins enquanto o comum dos mortais o ignorava, como a um cheiro que, por persistir, se deixa de identificar. Deleitava-se com o ser capaz de, com o bater de asas de uma borboleta no Iucatão provocar uma tempestade no mar da China, ou em provocar um “el niño” de pasmaceira numa galáxia ou num buraco negro com um punhado de neutrões atirados para cima de um horizonte de eventos.

A Esperança, queria uma vida menos complicada. Cedo compreendeu que o tempo estava do seu lado e que não teria prazo para dar respostas loucas, à multitude de solicitações que a toda a hora lhe apareciam vindas do Cosmos, com uma especial predilecção por um pequeníssimo ponto da Via Láctea a que chamavam Terra. As que dali saíam eram tantas e tão variadas, que a teriam rapidamente saturado, não fora a sua pronta decisão em montar naquele planeta duas secções para gerir a população de uns seres erectos chamados Homens, que arengavam ter sido feitos à imagem e semelhança de Deus. Idealizou uma para a gestão das coisas terrenas e outra para as confabulações sobre uma vida para além daquela que estava a ser vivida.
Os seus longos períodos de ausência no espaço interestelar, não lhe permitiam meter “as botas no terreno” e implementá-la, para que se evitassem abusos e, quase de imediato, para além das naturais disfunções associadas ao início de uma qualquer actividade, surgiram os oportunistas que acumularam os dois pelouros.

Uma meia dúzia, mas os suficientes para lhe dar um mau começo. Ao aperceberem-se que o sucesso lhes poderia advir só do facto de distrair os aflitos das suas aflições, passaram a bombardeá-los com um imaginário de irrealidades até lhes aturdir os frágeis espíritos para que passassem a quase desejar que uma morte libertadora lhes desse acesso a uma vida infinita de luz suave e prazeres comedidos, a troco de uma Fé cega e do cumprimento das suas regras, enquanto identificavam todo a restante humanidade como Infiel e merecedora de uma morte eterna de dor e sadismo inimagináveis.

Mas nem todos aproveitaram a pouca vigilância da Esperança para desgraçar os seus conterrâneos. Felizmente que alguns, a par da atenção às súplicas dos seus fiéis, mantiveram um olho no que o Acaso lhes punha no caminho, conseguindo assim abrir as pistas da evolução humana e o conforto dos infelizes. Têm nome na Ciência, na Religião, na Política, nas Artes e em todas as actividades humanas, mas há que procurá-los com atenção, porque raramente ocupam os pedestais, por não lhes terem dado acesso aos papéis onde se escreve a História.

...

Muito tempo passara e Deus ainda dormia, num sono feliz, povoado de sons, imagens e sensações divinas a que os mortais nem pela imaginação têm acesso, quando o Acaso, no meio das suas elucubrações, lhe fez passar uma estrela cadente pelo interior de um sonho, como se um mosquito zunisse à orelha de um mortal.
Instintivamente, Deus afastou suavemente a Via Láctea e, enquanto se ajeitava, teve um vislumbre do planeta Terra, mais precisamente num pedaço de terra em forma de bota no meio de um pequeno mar.
Ainda ensonado reparou que num minúsculo ponto, sensivelmente a meio, numa cidade a que chamavam Vaticano, havia um mar de gente, que ele não conhecia de lado nenhum, a falar dele como se o conhecessem há milhares de anos.
Ainda se tentou a aconchegar na galáxia Andrómeda e retomar aquele sono reparador, mas, como se uma pulga lhe tivesse picado atrás da orelha, prestou atenção ao que ali se dizia.
De um lado uma cúria gorda discutia o sexo aos anjos e pouco mais, do outro, um punhado de gente tentava falar dos deserdados deste mundo.

Sentou-se, coçou os longos cabelos, chamou a Esperança e rouquejou: - Que é que tu andaste a fazer? Será que também estiveste a dormir? Depois reconsiderou. Fora Ele que fizera frágeis os seres vivos, como se quisesse testar se a teoria de Darwin levaria algum dia o Homem até si, e também a Esperança, que sem nenhum poder, nada poderia fazer para alterar o rumo à ordem natural das coisas.

Esticou o manto de estrelas onde se estirara, chamou o Acaso e ordenou: -Põe ali uma meia dúzia de oportunidades, só para ver no que dá!

E dito isto, arrancou do fundo da alma um enorme bocejo, e desapareceu pelo canto mais longínquo de uma Singularidade.

Era 13 de Março de 2013.


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

GPS


O meu GPS, de há 35 anos, para fazer domicílios no Porto em associação a este pequeno mapa.

domingo, 27 de setembro de 2015

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Futurologia.


Era eu pequenino quando um "Almanaque", do início do século XX, que estava na arrecadação da casa da minha avó, me caiu nas mãos. Dele, ficaram-me dois desenhos. Um com a "casa do presente" com a sua cocheira, o outro com a "casa do futuro" com um hangar para um "dirigível", como lhe chamavam. As habitações eram semelhantes e lembravam as casas antigas da avenida do Brasil, na foz do Douro.

Há uns dias, deu-me para futurar que as casas do final deste século teriam uma plataforma para um drone de transporte, guiado por GPS, a que se acoplaria uma cabine. Teriam um programa que imitaria o comportamento dos peixes num cardume ou o dos estorninhos nos bandos, para não colidirem, e não exigiriam aprendizagem para serem manobrados, para além da programação dos destinos.
Teriam autonomia para 50 Km e funcionariam como Táxis aéreos.


domingo, 13 de setembro de 2015

O Cerne e o Alburno



Sou absolutamente contra a AUSTERIDADE  e desesperadamente a favor do RIGOR.
E dito isto, passemos ao cerne.

O fundamental para qualquer animal é a alimentação que lhe permita crescer e manter-se saudável, um abrigo onde possa descansar em segurança e a possibilidade de se poder reproduzir, para se  perpetuar depois da morte.
Estas três condições constituem o ambiente favorável que qualquer progenitor deve garantir.

Numa sociedade humana moderna, a maioria da população, conta também com o Estado para lhe assegurar estas condições e centra-se essencialmente na sua valorização dentro do grupo, e olha para a fome e para insegurança como perigos longínquos. Quanto à reprodução ... "temos tempo!".

Para conseguir lugar de destaque e obter índices que lhe permitam o reconhecimento dos outros, há que se meter por um dos caminhos já existentes ou arriscar abrir outros não trilhados e ser o primeiro, nem que seja a dar a volta ao mundo em cima de um skate. São opções individuais com toda a legitimidade, desde que não interfira com o bem-estar do próximo, pois o que fizer só irá  "animar a economia".

Outra coisa é quando se gasta o dinheiro dos outros, seja ele dos contribuintes, depositado em Bancos Privados ou de um patrão desatento. Aí não pode haver desperdício e as contas têm de estar certas com o acordado. Os luxos, se os houver, devem estar previamente estabelecidos, porque a norma é a eficácia e não a vaidade.
No Estado, viaturas oficiais "topo de gama" e luxo nos gabinetes oficiais, só para a Presidência da República e Primeiro Ministro, mas com despesas de representação muito bem justificadas. Ponto Final.

Por isso pasmo quando ouço falar de Austeridade na Administração Pública, onde eu esperava ouvir Rigor e responsabilização de todos os que, por incompetência ou desleixo, malbaratam os recursos que lhes estão disponíveis.
Por exemplo: gostava de ver auditorias sobre a ADSE, ADMG e outros subsistemas de Saúde que, actualmente, sustentam as múltiplas clínicas que proliferaram a empolar tratamentos e exames auxiliares de diagnóstico para compensar (e não só) o fraco preço da consulta.
Isso seria Rigor e não Austeridade.

Gostava de sentir um Rigoroso controle dos gastos dos Ministérios, Autarquias e Empresas Públicas, que as impedissem de fazer obras desnecessárias ou impossíveis de manter.
Mas acima de tudo gostava que se tivesse aprendido alguma coisa com o nosso passado e se tivesse identificado quem nos propôs e facilitou os desmandos que nos levaram a ficar reféns de uma dívida impagável, para poder decidir um caminho mais saudável.

Não é com austeridade que nos resolvemos. É com Rigor e Responsabilização.
É esse o cerne! A Austeridade é ... o carnaz!

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Eleições


Um número significativo dos nossos governantes não são pessoas do povo, ou académicos a puxar pela nação, mas políticos profissionais determinados em ganhar eleições e a ensinar a emputescer (corrigido) cordeiramente.