sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Porta dos Fundos

Não é qualquer grupo que faz videos assim, com actualidade, saber e inteligência.
Neste “Líder de Torcida” a caracterização de um indivíduo que sofre de Mania é tão perfeita que custa a crer que não esteja fundamentada num facto real a que Fabio Porchat tenha assistido de modo a compor o personagem.

neste, - "É pau é pedra”, que foca o problema da auto-imagem e o quanto nos podemos sacrificar por ela, lembrou-me uma minha "cliente" de 14 anos, lindíssima, que sofria com umas sardas de fazer inveja a qualquer uma, incapaz de valorizar a sua diferença.

e, … neste outro - “Juiz” salienta não só a atitude louca das claques de apoio, mas também uma possível visão sobre a terceira equipe em jogo da minoria que a defende.



Ou este ainda que toca o misticismo e os videntes que para aí andam a distrair os aflitos das suas aflições. Parabéns por esta lufada de ar fresco no humor em português.

domingo, 18 de agosto de 2013

A verdade


-É verdade! Acredita! Eu não tenho outra mulher! Só te tenho a ti!, esbracejava, tentando acalmar a mulher que, sentada ao lado, soprava inconformada com a notícia que lhe caíra em cima como um punho, a lembrar o empréstimo da casa, o desemprego e os filhos menores.

- Oh homem! Diz-me lá como é que apanhaste isso! Isso apanha-se com as mulheres da vida, ou julgas que eu não sei!
, e olhava-o incrédula, enquanto se ajeitava desconfortável na cadeira.
- Acredites ou não, é a verdade! Não há mais nenhuma mulher! Juro!
– retorquiu, derrotado, e deixou cair os braços de olhos postos no chão.
Era a segunda consulta. Na primeira viera sozinho, sem lhe dizer nada, mas as frequentes idas ao hospital para fazer exames, alertou-a e pôs-lhe uma pulga atrás da orelha. Que raio de doença havia de aparecer ao seu homem aos trinta e cinco anos. A ele que tinha uma saúde de ferro. Ainda por cima sem lhe terem receitado nada e marcado consulta para quinze dias depois. Havia de ser grave. Tinha que ver o que se passava.
- Sifilis! …
, repetia enquanto abanava a cabeça entre as mãos, junto aos joelhos. – Era o que me faltava!
Entretanto a médica escrevia, dando tempo para que a poeira assentasse e se pudessem combinar as novas atitudes.
- Minha senhora. Tenha calma que a doença tem tratamento! - interrompeu, sem sequer se atrever a mencionar o HIV negativo, para não lembrar maleitas de que se livrara. – Ele começa já o tratamento e daqui por um mês já deve estar bem. A senhora vai também fazer análises e vem cá para a semana! Há doenças bem piores! Esta vai-se resolver!
À saída, ele dá-lhe o braço, que ela aceita a contragosto.

...

- Então Sr. Amado, como está? Melhor? – recebe-o na consulta seguinte, entre a porta e a secretária.
Vem cabisbaixo, sentido de um torção de alma. Cumprimenta, senta-se e responde delicadamente.
– Estou bem, obrigado, Sra. Dra.! Já quase não tenho manchas nem caroços. Até já voltei a trabalhar!

-E a sua mulher, continua zangada, ou já fizeram as pazes?
- Ela ainda fala em outra mulher, mas eu sempre lhe fui fiel! Aquilo aconteceu por causa de uns homens. Eu estava muito falho de dinheiro e foi uma solução para pagar umas contas. Foi só durante um tempo. Agora acabou! Eu não quero que ela saiba. Ai de mim. … Matava-me!

terça-feira, 13 de agosto de 2013

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Efeitos colaterais


Tem 83 anos, é viúva e vive com uma empregada que trata de tudo. Teve vida em Lisboa, o que transparece no sotaque, na roupa e nos enfeites. O coração falha-lhe há meia dúzia de anos, e hoje vem à consulta depois de ter sido operada às cataratas que a cegavam. Está feliz com a sua nova visão e, aproveitando uma pequena pausa, enquanto procuro os resultados analíticos, dá largas à sua natural expansibilidade.
- O Sr. Dr. é tão bonito! Eu já o adivinhava na voz. Posso dar-lhe um beijo? ... Sabe, eu tive de parar aquele remédio, o Pradaxa, porque me excitava muito. Só me apetecia fazer amor! ... , e eu sem ter com quem!
- Dona Ana! Vamos de ter de reportar essa reacção adversa do medicamento ao Infarmed, pois deve ser o primeiro caso a ser descrito. Quanto ao beijo …

História de E.T.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Vidas

Com doze anos fui para Lisboa trabalhar, com a ideia de ser sapateiro como o meu pai, mas para cada anúncio de emprego havia mais de 50 candidatos. Só arranjei trabalho nas obras, para os lados do Chiado e o dinheiro que ganhava não dava para as despesas. Um dia, um amigo arranjou-me um lugar de ajudante de cozinha num Hotel e a minha situação melhorou. Ganhava 300 escudos por mês, mas comia de graça. Cheguei a cozinheiro e a vestir o "fato branco". Mas aquilo era uma prisão e eu gostava do putedo, e em 57 tirei a carta e fui para taxista. Voltei em 66 e comprei um taxi na minha terra. Naquela altura havia muita gente emigrada e sem carro, e eu calcorreei essa Europa toda! Tive períodos de ir duas vezes por semana a Paris. Levava 5 de cada vez a mil escudos cada um (o bilhete do comboio custava 700$). Ia buscá-los a casa e punha-os onde eles queriam. Levava-lhes mais malas do que as que eles conseguiam levar no comboio, e isso compensava-os. A grade no tejadilho não podia levar mais. Bons tempos!

domingo, 4 de agosto de 2013

As "cunhas"

Não há volta a dar. A nação sempre contou com o compadrio, pois melhor que um saber tem sido a "cunha".
Depois é seguir o trilho. Cumprir a religião e aderir a um dos partidos maioritários que, com esses cartões, poucas portas se lhe hão-de fechar.
Nos últimos anos, respondeu à expansão do Estado. Lutou por um lugar qualquer num dos seus órgãos e com ofertas e adulações, agachou-se com o pragmatismo calculista dos aflitos, refazendo o discurso às necessidades do momento.
Como a exigência de quem nos governa se tem vindo a degradar, frequentemente só lendo as “Conclusões” e não o “Material e Métodos”, todos os caminhos se tornaram possíveis, porque é o curto prazo que domina e se esqueceu que há princípios que se não forem respeitados invalidam as “Conclusões”.
E, para pôr a cereja no bolo, surgiram os concursos internos para que alguém da casa, depois de um qualquer curso nocturno ou diurno como trabalhador estudante, seja integrado em novas funções na mesma instituição.
O resultado final é andarmos enxameados de gente que ocupa lugares para onde nunca entraria num concurso aberto, onde se tivessem de medir com os seus pares.
Entrar enfermeiro e passar a gestor, entrar "relações públicas" e passar a psicólogo, entrar assistente operacional e passar a enfermeiro ou a advogado, na mesma instituição, sem concurso aberto, é uma bizarria, que o Estado sustenta, e que só afecta a sua eficiência.
Também é por isso que "assim não vamos onde era suposto chegarmos!"