quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Carta a um ex-amor



Carla, ou Crisálida, como queiras:
Sinto na tua carta, o fel que me fez fugir, uma mágoa pelo tanto que te quis, nesses três anos em que pensei que o amor tudo podia e que o tempo estava todo ao nosso lado.
Seduziste-me, fingindo-te perdida num requebro de menina, quando o acaso nos cruzou. Vi-te, adolescente, à espera de uma revelação e, vaidoso, julguei-me eleito para tão delicada tarefa. Dei-te o que tinha de melhor - atenções, amor, livros, espaços, eventos, para acalmar o torvelinho que julgava ser a tua graça e lhe dar o sentido do meu sentir, mas só tarde te vi narcísica e egocêntrica, incapaz de ouvir o bater de um coração.
Dizes que te encandeaste no meu cabelo e na barba por fazer, mas não falas do calor das minhas mãos, nos silêncios que te dei, nem nas frases para ti inventadas, que eram pontes, barcos e naves por onde podíamos ter voado eternamente. O mais que conseguiste foi sentires-te segura da desimportância do meu gostar, até me levares às margens da exaustão.
Aquelas luzes fátuas que viste no caminho, quando te apercebeste da minha decisão a aguardar gesto, não eram alucinações, eram fragmentos da tristeza que eu deixava no meu rasto. E tu não as apanhaste para lhes dar remédio. Deixaste-as apagar sem um sopro que as atiçasse.
À perplexidade do teu fim, segue-se agora a notícia de que me pediste perdão do muito que te ajudei a teres a graça do céu por entre nós. A morte pode ser um alívio e talvez aí consigas a paz que a tua passagem por aqui negou. Encheste os olhos de quem te viu, mas deixaste feridas impossíveis de sarar.
Por favor, não me guardes lugar na tua nuvem
Adeus!
Até Nunca!


Fernando

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Natal

Dia da Família e dos amigos do coração.
O símbolo é o presépio. Uma família minimalista. Um átomo de Deutério. Um protão, um neutrão e um electrão a girar em seu redor. Não há irmãos, primos, avós, nem burro, nem vaca. Uma estilização, com um S. José jovem, belo e enamorado, espoado de qualquer drama.

Este presépio encerra os conceitos modernos de uma família ocidental, numa sociedade competitiva, obrigada a investir na educação dos filhos, para os tornar capazes de conquistar um lugar ao sol.
Mas se a história fosse contada de outro modo, talvez não houvesse tanta crise nos valores.
Por isso, eu gosto mais do modo como Erri de Luca, põe a tónica em S. José, para que se dê espaço a motivações significativamente diferentes.

José vem do verbo hebraico “yasaf”, que quer dizer acrescentar. “Yosef”, à letra, é aquele que acrescenta, e eu gosto de o pensar a fazer jus ao nome e a contrapôr-se àquela sociedade que punia o adultério com a lapidação e a impedir que Maria fosse ostracizada por estar grávida de pai desconhecido.

São um par estranho. Maria adolescente e José, um velho viúvo. Sinto-o cansado de injustiças e a ver naquela miúda a gota de água, depois de muitas mortes por razões iníquas, a decidir ser aquela a altura de um sinal público contra essa Lei Judia, aceitando todas as contrariedades sociais, para se olhar serenamente e poder morrer com a dignidade dos justos.

Afirmou-se pai da criança e, ao desposar Maria, anulou a suspeita de adultério, mas criou um sururu em Nazareth. Um “idoso” notável noivo de uma jovem que a turba marginalizara.
Consigo imaginá-lo a dirimir razões, a negar dúvidas, a argumentar contra as desconfianças da cidade, a arrastar o problema até ao risco eminente e aí, sem hesitações, pegar no burro e na rapariga e fazer-se à estrada, sem tempo para armar uma carroça.
Só assim justifico aquela viagem de 80Km de burro, pois ninguém no seu perfeito juízo se mete a caminho com uma primípera de termo naquelas circunstâncias.
Bethlehem era o acolhimento procurado, junto da sua família original, pois a de Maria estava destroçada e impedida de lhe prestar apoio.
Com as mãos de carpinteiro, habituadas a resolver obra com inteligência e saber, fez-lhe o parto e garantiu todos os necessários para um final feliz.

É assim que eu gosto da história, sem "recenseamentos" ou "fugas a Herodes" que não fazem sentido, e nada acrescentam à figura de José.
Por fim a adopção de Jesus por inteiro. Um trabalho responsável com uma criança saudável, feliz e de fácil aprendizagem, a ensinar-lhe o que sabe, com  amor, e a planear-lhe o futuro.
Com um significativo pecúlio, os outros filhos criados e o conhecimento de que outras culturas, não muitos distantes, se impunham, não só pela força das armas, mas também pela força das suas soluções, como bom judeu, apostou na educação e reuniu condições para que Jesus estudasse em Alexandria, a cuna da ciência da época, e ganhasse asas, com os gregos e todas as filosofias que ainda agora nos orientam.

Não se voltará a falar de José. Ele ir-se-á projectar no percurso do filho que lhe dá continuidade lutando por uma nova ordem que pusesse o poder ao serviço da população, onde a esperança fosse a luz desse difícil caminho, a individualidade se contivesse pelo interesse colectivo, e o erro entendido como parte da natureza.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O meu amante de domingo



Cara Alexandra:

Gostei! Li-o duas vezes. A primeira de um fôlego, a segunda porque agora ando atento a “Escrita Criativa” e pareceu-me um bom livro para lhe analisar o esqueleto.
O tema é claramente do meu agrado. Há que acabar com essa gente que se encosta em amizades, para depois, impunemente, roubar ideias e trabalho de muitas horas, para o expôr, com desfaçatez, como se fosse seu.
Morte a esses “filhos da puta!” ... Pim! ... como diria o Almada.
Quem se veste de sensatez e de sucessos imerecidos, devia sucumbir sob os cinco dedos da pata de um elefante da Índia, a tal que difere dos de África, que só têm quatro. ... Pim!
Estou contigo também, no que respeita a mecânicos a dizer “póssamos” ou “vareia”, a que junto empregadinhas do shopping a escrever “debe daber” ou “eu vou ir ser o que eu era”.
Quanto aos Nosferatu’s que por aí andam à caça de quem se lhes põe a jeito, nada a acrescentar. Nem sempre a vítima é inocente.

Confesso que é o quarto livro teu que leio e me surpreende. Este mais que os outros. Pela ousadia da linguagem e das situações. Assim sem meias palavras. Que eu não sou do Canidelo, mas nasci no Alto da Fontinha!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Sexta-feira


IIIiiiiii  ... uma boa sexta-feira!
IIIIiiiii .... Nossa Senhora de Fátima nos ajude!
IIIIiiiii ...  a Senhora da Agonia! ....

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Assédio


Assédio, assédio! Assim com letra grande, … nunca. Nunca senti esse tipo de cobiça por detrás de um olhar de uma mulher. Sou homem. Não é suposto ser alvo, principalmente quando se anda com arco, flechas e um chapéu com uma pena. 

Viro-me para o lado e pergunto. E tu? E ouço-lhe a história de uma vez, em que a sorte lhe levou quem não preenchia requisitos.

Primeiro foi uma vez, e uma vez é nunca, como dizem os alemães e eu concordo. Depois, porque ser vítima de uma "madame" vinte anos mais velha, pletórica, de cabelo empastado e hipertensa é filme de terror, que não deve ser automaticamente incluído nesta categoria. 

Conta ele uma novela de seis visitas, de roupas às cores e rendas dos anos trinta, de cheiros a naftalina e adereços rebuscados do fundo de baú. Um cio tardio de solidão. O último uivo de uma alma reprimida, de uma vida iniciada com fogos de artifício. Casa de brasão. Nome de seis apelidos. Sons de Marinha e de Exército. Anos a aprender as coisas de mulher. Orações, confessos e recato. Uma prenda esquecida no canto do salão, até o desespero lhe propor jogar o ás de copas, naquele dia tão lindo sem uma nuvem no ar.

Era Abril. A mãe junto a Deus, o pai em viagem, a irmã nas lides domésticas. Duas horas mortais.
A igreja a três passos. A lembrança da homilia. Uma rosa no cabelo.
-Sr. Padre!

Depois, o hall de entrada e ele ali à mão. O rubor a subir, o corpo a tremer, as palavras mil vezes languidamente pensadas ditas de uma vez.
De repente, uma outra porta que se abre. A irmã!.

- Carlota! Foi o sr. Padre que me chamou!
-  Lucinda! Foste tu que me seguiste! 

O resto da vida marcada pelo ferrete daqueles instantes. Os meses a agravar a desavença. A solidão partilhada naquele casarão a degradar-se. Os anos num triste fio de rotinas, até medir a tensão e lhe dizerem que estava alta.

Uma consulta, duas consultas, … seis consultas. A história a repetir-se.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

4ª Carta a Sócrates

Caro Sócrates:
Esta é a quarta carta que te escrevo. A primeira vai para 5 anos, a segunda há 4 e a terceira, em Maio de 2011, quando já estavas a escorregar para a mó de baixo.
Como deves saber eu agora estou noutra. Já paguei para o peditório dos jogos de poder. Depois fartei-me dos duques de paus, e decidi-me por outra gente. É o bem de quem não liga à potência dos automóveis, às luzes de acender e apagar, e de quem desconfia do bacalhau a pataco. Até me arrepio só de me lembrar de que houve tempos em que via a malta que se senta à mesa do dinheiro com um mínimo de preocupação social.
Adeus inocência. Agora olho de esguelha para as Instituições, para o partido em que sempre votei, para a qualidade dos profissionais da nação e para a sua população que cheguei a acreditar honesta, competente e temente das consequências dos seus erros, mas depois de ver aquele magote de badamecos a alcandorar-se a lugares de responsabilidade, a mando, a interferir com o bem-estar do grosso da população, "escrementei-me!".
Não me peças para me pôr do teu lado, mesmo que não tenhas gamado a massa de que te acusam, que eu agora faço como o da musiquinha e “só vou gostar de quem gosta de mim”.
Agravaste o pragmatismo provinciano em que vivemos, enquanto brincavas de arauto dos princípios do teu caderno de encargos. Quiseste pôr uns “na ordem” enquanto fazias vista grossa à malta da construção civil e agora, nem os que andaram com as “malas de dinheiro” e os amigos que enriqueceram, te perdoam. Tens essa sarna para te coçar e ainda ninguém questionou as contas dos partidos.
Eu sei que é com dinheiro que se compram os melões e as outras coisas. Mas há uns que gostam demais dele e, quem joga em várias mesas, como tu fizeste, havia de ter muito cuidado, pois na mesa do poder as regras são diferentes das do jogo do dinheiro, mesmo que o dinheiro sujo possa ajudar a resolver muito problema social. Depois ... há os batoteiros sempre atentos a quem se ausenta.
Tu, que andaste metido nas novas tecnologias, a dar meios ao fisco para o transformar na maior empresa portuguesa financiadora de tudo o que é maluco, devias saber que é fácil fazer o "tracking" da massa, e que era arriscado usá-lo para deixar obra para a posteridade.
Essa malta que se punha em segundo plano nos écrans da TV quando aparecias a legitimar-lhes os gastos, devia fazer uma excursão a Évora. Iam de manhã, davam uma volta pela cidade, passavam pela Capela dos Ossos, liam a inscrição da entrada, almoçavam no Fialho, e depois de te ver, iam pôr uma velinha para não te fazer companhia prolongada.
Eu digo isto daqui deste meu púlpito, porque me afirmo a favor da criminalização dos políticos. Uma gestão tão má que até uma dona de casa se arrepia, não pode ficar impune. Por isso te acho muito desacompanhado. Não que vos queira presos, que isso só dá despesa. Queria ver-vos a pagar até só vos restar o salário mínimo, para que quem se mete nessas guerras saiba que há consequências e não acabasse tudo nuns "privados" que ninguém controla, a gerir os Hospitais, a água, a electricidade, os transportes e qualquer dia as Câmaras, as Juntas de Freguesia e quem sabe … os Tribunais.
É por isso que não me dói esse teu calvário. Deixaste fazer merda que chegasse nos três últimos anos da tua governação e para isso, ou tinhas uma justificação que encalacrava alguém dessa Europa que nos faltou, ou então, andaste a dar passos maiores que as pernas e isso tem um nome - "irresponsabilidade".

Passa bem!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Contratualizações


A palavra e um aperto de mão. Capacidade técnica e cidadania para assumir um contrato com as suas contrariedades. Confiança.
Noutro tempo era assim e quando a coisa corria mal havia justiça por mão própria, já que tribunais eram uma "comedoria” a que só os ricos se atreviam.
Aceitavam-se encomendas possíveis e não se falava em “derrapagens”, nem se jogava um preço, para ganhar a obra, para depois inventar necessidades para duplicar custos e alocá-los ao cliente.

Aos poucos diminuiu a confiança e multiplicaram-se os advogados e os contractos cheios de páginas que se assinam sem ler, com termos técnicos que a população ignora.

No Futebol os treinadores falam do "objectivo"! Um ganhar dito com convicção, mesmo do último contra o primeiro, que há que ter dimensão espiritual e um “práfrentex” de rato vestido de leão não fica mal no meio dos fracos e … quanto mais longe de ti, mais franco te falo. .

Agora contrato, chama-se “contratualização” e definem-se números que urge cumprir, e é esta fixação em objectivos "numéricos" nas instituições que distorcem as práticas e lhes desvirtuam as funções.
No Sistema Nacional de Saúde (eu já não ouso falar em SNS) as “contratualizações” com Hospitais e Unidades de Saúde Familiares levaram médicos a deixar de ter como objectivo primeiro a melhoria dos seus doentes, para passarem a praticar uma Medicina Baseada nos Indicadores, porque o seu incumprimento pode levar a desclassificação, não progressão ou despromoção, com penalizações remuneratórias.


A malta “apugilista” do “sistema”, evita a responsabilização das direcções, para assim poder nomear “boys” cujo único "know how" é o de vigia de números, ignorando que quem verdadeiramente controla as boas práticas de profissões técnicas são os oficiais do mesmo ofício, se lhes derem essa possibilidade.