sábado, 30 de maio de 2009

O que "vende" um médico?



















"Vende" um raciocínio.

É a qualidade e clareza do raciocíneo que melhor definem a sua excelência como profissional. E para pensar bem são necessários conhecimentos científicos, capacidade para colher os dados necessários e oportunidade na decisão.
Vender uma técnica, seja ela de diagnóstico ou de tratamento, não é a essência da profissão.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Verão 42



Música de Michel Legrand.

Filme de 1971, que relata as férias de verão de três rapazes numa ilha ao largo dos USA no ano de 1942, e onde revi muita da minha adolescência.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Chavela Vargas


A voz áspera da ternura. Nasceu na Costa Rica, em 1919, e emigrou para o México para lhe elevar a música.
Deu cor ao som de Pedro Almodóvar. O último disco é de 2007.


Nesta música, não ficas mal acompanhada pela Luz Casal (n-1958)

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Quercus Palustris (Carvalho Americano)




- "A,B,C,D,E,F,G,H,I,J,K,L,M …. marido,... é isso… , o meu marido não tem paciência nenhuma! Nunca teve. E agora como está … A,B,C,D … doente também, ficamos para ali os dois, assim …

- “zangados?” Pergunto, completando a frase.

-“Isso! Ele não entende que eu troco ... assim, as coisas, por causa daquilo que tive!”

-"Oh dona Madalena! Olhe que poucos têm a sua vontade. A Sra. é uma heroína! Lembre-se que esteve sem conseguir falar e com o lado direito paralisado, duas ou três semanas e agora quem a vê andar na rua, nem o imagina. Só se nota um pouquinho na fala."

Mas, passados estes seis anos, ainda não se conformou. Era uma mulher activa, estudiosa e atenta, com ânsia de chegar rápido a tudo. Agora tropeça nos problemas da vida, nos dela e naqueles que os filhos lhe trazem porta adentro pela mão dos netos.

- Dr! Eu queria ... A,B,C,D,E,F,G,H,I,J,K,L,M,N,O,P,Q,R,S,T,U,V,X,Z ... ai meu Deus, como se diz? Eu queria ... espere aí, ... tenho aqui na carteira ... neste livrinho onde escrevo as mais difíceis ..., ah! está aqui! ... Prenda de Natal! Oh! Dr.!, eu queria dar-lhe ... uma prenda no Natal, ... é isso! Mas não sei o quê!", acaba por fim por dizer, com ar de necessidade.

- Oh! Dona Madalena, não seja por isso! Diga à sua filha, que eu passo no Horto e levo um carvalho americano (Quercus Palustris) em seu nome.

Vive agora no fim do jardim, a dar sombra ao Verão e cor ao Outono

terça-feira, 26 de maio de 2009

O 5º Apóstolo - David Sloan Wilson















David Sloan Wilson, autor do Livro "A Evolução para Todos - Como a teoria de Darwin pode mudar a nossa forma de pensar na vida"
Mais um Apóstolo da nova Religião : "O Darwinismo", que anda a pregar pelo Mundo, para nos tornar crentes de outra crença.

Destes eu gosto, porque falam com a convicção de quem vive dentro da estrutura que aos poucos se vai montando.
Por certo, mais tarde, virão outros interpretar, do alto dos seus tronos, as suas palavras, para definir a verdade conveniente à realidade da História.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Preparação das Férias


“Matem-nos a todos, que Deus conhecerá os seus!” foi assim que em 22 de Julho de 1209, Arnoldo Amaurino, legado do Papa Inocêncio III, e comandante da Cruzada Albigense, na impossibilidade de distinguir entre crentes católicos e hereges cátaros, deu ordem aos cruzados para matar, indiscriminadamente, toda a população (homens, mulheres e crianças) da cidade mercantil mediterrânica de Béziers, que então teria cerca de 20 mil pessoas.

A Cruzada que durou de 1209 a 1229, foi a resposta brutal à dissidência dos Cátaros, e provocou a destruição do Languedoc, um vasto território que se estendia dos Pirinéus até à Provença, abrangendo as cidades de Toulouse, Albi, Carcassone, Narbonne, Béziers e Montpellier, e permitiu a Luís VIII, a anexação deste território à coroa de França.
Por essa altura a Inquisição, guiada desde a sua fundação em 1233 pelos acerados intelectos da Ordem Dominicana, tinha já desenvolvido as técnicas que iriam atormentar a Europa e a América latina católica durante séculos, fornecendo o modelo para o controle totalitário da consciência individual na era moderna.

A doutrina cátara fora muito bem recebida nesta região onde conquistou discípulos em todos os quadrantes da sociedade. Quando a sua pequena classe clerical foi atacada, mobilizou uma multidão de protectores entre a sua ampla rede de parentes, convertidos e simpatizantes.

Para os cátaros, mundo não era obra de um Deus bondoso, mas antes a criação de uma força das trevas, imanente em todas as coisas. A matéria era corrupta e, consequentemente, irrelevante para a salvação. A autoridade terrena era uma fraude e a autoridade terrena baseada em alguma sanção divina, como a Igreja proclamava, era uma perfeita hipocrisia. O aparato eclesiástico de riqueza e poderio servia apenas para demonstrar que ela pertencia ao reino material.
O Deus merecedor da adoração dos cátaros era um deus de luz, que regia o domínio do espiritual. Competia ao indivíduo decidir se estaria disposto a renunciar ao material em troca de uma vida de abnegação. Não sendo assim, continuaria a regressar a este mundo – ou seja a ser reencarnado – até se encontrar apto a abraçar uma vida suficientemente impecável que lhe permitisse o acesso, no momento da morte, ao paraíso. Ser danado era ser condenado a viver repetidamente nesta terra corrupta. O Inferno era aqui.
Não admitiam distinção entre sexos, permitindo portanto, que mulheres celebrassem os ritos religiosos. Os mentores espirituais -Perfeitos ou "bons homens", eram celibatários e excelentes oradores. Os Crentes praticavam a virtude e a humildade.

domingo, 24 de maio de 2009

Choupo























Só tens tamanho, pá! Com pouco mais de 15 anos, já és a árvore mais alta do jardim.

Quando chegaste, eras um pau sem folhas com 4 metros de altura, e agora, deves ir nos 15 ou coisa que o valha. Não fui eu que te trouxe para aqui, porque já sabia que tinhas sede de diabético, mas havia gente nesta casa que te queria, e fui obrigado a aceitar-te, mais aos teus 3 irmãos. Felizmente que o vento os levou, quando ainda estavam mal agarrados ao chão, porque senão, lá tinha eu, mais uma vez, de fazer de mau. Mas apesar disto, tenho sido teu amigo, e trato-te igual às demais.
Mas confesso que te tenho medo. Essa tua mania de crescer depressa ainda vai acabar mal, se dás cabo da rede ou rebentas com o muro. E não penses que vais para cabo de vassoura, fósforos, colher de pau ou contraplacado. Vais directo para a lareira, que é um mimo!

Olha! Desculpa ser tão directo, mas eu não acredito que chegues a velho! Cuida-te, e vive um dia de cada vez!

Populus nigra 'Italica'. Selecionado na Lombardia (Itália) no século XVII e por isso também chamado – Choupo da Lombardia.
Outro nome para os Choupos: Álamos

sábado, 23 de maio de 2009

Acer










Acer palmatum disectum purpurea
És um vaidoso!
Quando para aqui vieste não eras nada, e sabes bem, que se estás assim, forte e saudável, muito mo deves, pois com o ar com que chegaste, não aguentavas dois Invernos.
Agora apareces majestoso à porta a receber quem entra, e a espantá-los com o teu fulgor, mas não te esqueças do trabalho que deste. Lembras-te do Troll, a esgravatar o chão até o sangue sair das tuas raízes, para dormir debaixo da tua escassa ramagem? Até fungos tiveste. Lembras-te?
Eu sei das tuas nobres origens orientais, da muita educação dos teus pais, e que até tens um primo com fotografia na bandeira do Canadá , mas mesmo assim aguenta-te que eu sei bem o que passei por ti.
Mas não precisas de agradecer. Cumpre o que tens a fazer, que bem pouco é, já que nem para ninho de pássaros serves naquele local tão exposto, nem de ti espero fruto aproveitável.
Deixa-te estar aí nessas vestes cardinalícias, à espera de quem chega, que eu finjo que vou na conversa do jardineiro, que te julga pela aparência e te põe nos píncaros, porque só está contigo uma vez por mês.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Santa Asma




















- “Oh Dra. Maria do Carmo, não sei mais que lhe faça. Vai mesmo tomar medicação diária para controlar a sua asma”, disse-lhe ao fim de um estudo mais que completo para aqueles novos sintomas, que agora a afligiam.
- Mas Dr! Eu mesmo assim, tenho períodos de tosse em que não consigo trabalhar”, respondia-me, pouco conformada, -“E nem é a falta de ar, é este incómodo aqui!”, e apontava para o esterno.
Já esgotado de soluções, revi a situação enquanto explanava: - “Essa tosse não tem nada a ver com a sua alergia aos pólenes, porque agora não há pólenes, e não tem nada a ver com outra doença, que está mais que excluída. A Sra. não tem mesmo nada de diferente lá em casa que cheire?”
Rebobinou a vida, respondeu que não, e lá se foi com a receita na mão e com consulta marcada para três meses depois.

Encontro-a, por acaso, na rua, com o ar mais saudável do mundo -“Então! Está melhor ou encontrou alguém, mais expedito, que resolveu o problema?”
-“Oh Dr.! A seguir á consulta, um colega meu do Conservatório de Lisboa, teve um acesso de tosse no meu gabinete e, de imediato, virou-se para um arranjo de flores sintéticas que eu tinha na secretária, e disse: - É isto!, e foi remédio santo. Nunca mais tive tosse! E olhe que tinha sido uma prenda do Pai Natal!”

segunda-feira, 18 de maio de 2009

domingo, 17 de maio de 2009

"O Rastro do Jaguar",












de Murilo de Carvalho.

Romance que venceu o Prémio Leya em 2008, ficciona um índio Guarani europeizado (levado na infância para França) que, nos finais do século XIX, regressa ao Brasil para reconhecer sua terra e o seu povo.
O narrador é um jornalista seu amigo, nascido em Portugal e também criado em França. Acompanha-o, com a justificação de, como correspondente de guerra, fazer a cobertura da Guerra do Paraguai, que opôs o Paraguai ao Brasil, Uruguai e Argentina entre 1864 a 1870.

Nesta Guerra: o Brasil perdeu um terço dos 150 mil homens que enviou. A Argentina perdeu 18 mil dos quase 30 mil envolvidos e o Uruguai dos 5600 soldados que participaram cerca de 3100 morreram.
O Paraguai, perdeu cerca de 300 mil pessoas, entre civis e militares, mortos no decorrer dos combates e das epidemias que se alastraram durante a guerra e da fome. Calcula-se que a sua população à época não chegaria ao meio milhão de habitantes.
A derrota marcou uma reviravolta decisiva na história do Paraguai, que se tornou um dos países mais atrasados da América do Sul.

O que me ficou do livro, foi o modo como os interesses dos colonizadores envolveram as nações indígenas, principalmente a dos Guarani.
Do texto, sublinhei:
… Assim, o aprendizado de Pierre consistia, agora, na compreensão da linguagem dos profetas – ele, o profeta-guerreiro, um condutor. As lições de Ñezú tornaram-se, então, proféticas: ensinamentos que ia buscar às prédicas de outros tantos profetas que viveram noutros tempos e cuja sabedoria se tinha consolidado ao longo dos anos, transmitida de profeta a profeta, nas noites de iniciação. Eram todos homens da palavra; não acreditavam no escrito, não consideravam o escrito como reflexo da palavra – havia que interpretá-lo. E se cada um interpretasse o texto a seu modo, o tempo iria transformá-lo, trocar-lhe o sentido, mudar as imagens, até que um dia não estaria mais significando a palavra original. Portanto, cada profeta herdaria a essência dos pensamentos – a Boa Palavra – e a transmitiria com suas falas ao futuro. É claro que cada profeta buscaria, nos acontecimentos da sua vida, os factos que teria de interpretar à luz da sabedoria antiga; havia as regras, havia o caminho do pensamento. O profeta saberia compreender as transformações do mundo e assim poderia orientar o seu povo, os guerreiros. A sabedoria dos profetas, estava também a ser observada pelos velhos, guardiães – eles também – da Boa Palavra. E eles, os velhos, saberiam sempre se o profeta estava seguindo o trilho da verdade, o trilho dos antigos: não há futuro que não seja o reflexo do passado.

A árvore inclina-se sobre o lago e o seu reflexo não é a árvore: é como as palavras que reproduzem o pensamento.

sábado, 16 de maio de 2009

Médico Novo/Médico Velho























Eu não ia lá muito com a sua figura, mas não lhe posso negar o encanto. Era pequeno, gordo, de olhos esbugalhados e sorriso constante. Entrava e saía com uma chalaça, o que lhe facilitava a vida e a de quem, mais íntimo, o procurava. Os doentes eram para depois, porque era assim que havia instituído e fora aceite. Mas estes também não esperavam muito.
- “Então que tem a criança?”, perguntava, enquanto auscultava, palpava, passava a receita e chamava o próximo.

-“Não se preocupe com o Dr. Zézé, que ele vê todos os miúdos que estão lá fora antes do almoço!”, e já eram onze horas, e eu com medo de os ter de ver, mais aos adultos que chegavam continuamente ao SU.

Ofendido com aquele despacho, questiono-o naquilo que me parecia ser "terapêutica ao sintoma".
E ele sem se desfazer, a perguntar-me: -“Sabe qual é a diferença entre um médico novo e um médico velho?” e, quando eu tentava desenvolver a "teoria da acomodação", ele contrapôs: - “É que um médico novo, cora quando o doente lhe paga, e o médico velho, cora quando o doente não lhe paga!”

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Pobre de Dinheiro



A D. Maria mora num pardieiro, com um jardim cimentado.
Vive da reforma e tem a ajuda do Centro de Dia da Junta de Freguesia. Apoia-se numa bengala e veste várias camisolas, que tapam à vez os buracos da que lhe precede. Não está suja, talvez porque agora pouco mais faz que ir da cama para aquele cadeirão electrificado a um canto da cozinha.
Uma vez por semana levam-na ao Hospital, para os tratamentos, mas “ainda está muito boa da cabeça” e “manda como quer”. Dá-se mal com os velhos do Centro e com os sobrinhos afastados que lhe restam da pouca família. A sua companhia é um pequeno cão nervoso, sempre à espera de atenção.
Diz não ser rica, embora a casa seja sua, bem como vários terrenos de cultivo na veiga, agora abandonados, e mais não sei quantas bouças de pinheiros e mato nos arredores da aldeia.
"Trabalhou muito para os ter", "de sol a sol", até àquele malfadado dia, em que caiu da meda de palha. E muito boa foi ela em se calar, porque senão a patroa teria de pagar todos aqueles meses no Hospital e mais uma choruda indemnização. Mas ela era boa pessoa, e aceitou a proposta de ser herdeira.
-“Olhe, eu tinha também o usufruto daquela casa grande ao pé da sua! Mas a família da minha ex-patroa  insistiu muito, e foi com aquele dinheiro que eu comprei esta aqui. É fria, mas tenho terreno até bem para lá dos pinheiros que se vêm daquela janela”.
-“Dona Maria! Eu queria que a Sra. me vendesse a bouça que fica perto da minha casa”, insisto, depois de lhe ter ouvido a história, "mas não a quero pagar como área de construção, que ela está em zona verde".
-“Isso é agora! Você vai ver que, daqui a uns anos, vai lá poder construir!” , e endireita-se na cadeira com ar de profissional do negócio.
-“Oh dona Maria! Daqui a esses anos, nem você nem eu cá estamos, e as poucas árvores que lá estão, não valem nada!"
-“Por esse preço não vendo!”
-“E eu, pelo preço que a Sra quer, também não compro!”.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Catecismo
























Salvé Rainha

Salve Rainha, mãe de misericórdia, vida doçura, esperança nossa, salvé
A vós bradamos, os degredados filhos de Eva,
A vós suspiramos, gemendo e chorando, neste vale de lágrimas.
Eia pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei.
E depois deste desterro, nos mostrais Jesus,
O bendito fruto do vosso ventre
Ó clemente, ó piedosa, ó sempre doce virgem Maria,
Rogai por nós, santa mãe de Deus
Para que sejamos sempre dignos das promessas de Cristo, Amén


E eu sem perceber quem eram “os degredados filhos de Eva”, nem o porquê do “gemendo e chorando neste vale de lágrimas”. Não que eu tivesse tudo quanto queria, que nessa idade também há contrariedades, mas aos sete anos, sentia o carinho de muita gente.

Foi assim que me ensinaram o Catecismo. Em Banda Desenhada, cheio de chamas e crucificações.
- “Quantos são os pecados mortais?” E eu aflito a lembrá-los, como à tabuada, sem lhes saber o correcto significado. – “E os Veniais?” E mais um esforço e cantava-os: a omissão, a mentira, a vaidade, a arrogância, a calúnia, o roubo, o adultério, o orgulho e o ódio, para depois clarificar que estes podem ser limpos pela confissão ou pelas penas do purgatório, e que os outros nos atiram para as tormentas do Inferno.
E o padre António, para além do cortinado, a encher-me de terror:
- "Meu menino, confessa os teus pecados!" E eu a ter de dizer qualquer coisa, pois era para isso que supostamente ali estava.
“-Eu, senhor padre, disse muitos palavrões!”, e ele cheio de solenidade: - “E respeitaste pai e mãe?”, para de seguida, me dar o castigo de uns Pai-Nossos e umas Avés-Marias, e eu me afastar de mãos no peito e os lábios em bico, a copiar o ar que vira nos demais.
-“Amanhã há comunhão! Não te esqueças!”
E começava o martírio de me manter puro até ao dia seguinte, sem palavrões ou gestos bruscos. O que eu mais queria, era dormir até à hora da missa, e sair dali a correr directo para a hóstia, para não ter de lidar com as tentações.
Por fim a comunhão e a dúvida: - “Se tomares a hóstia com pecados, ela cola-se ao céu-da-boca e transforma-se em fogo”. E eu a arriscar. Um, dois e três, … abro a boca, fecho os olhos e aguardo uns segundos e … nada.
Uffff! Se calhar, pouco pesam os palavrões, as desobediências e as mentiras, que entretanto disse, ou terão sido as jaculatórias, a dar as indulgências necessárias para pagar esta conta?

quarta-feira, 13 de maio de 2009

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Ode a uma Enfermeira


Há segundas oportunidades para as primeiras impressões, porque é a andar que se faz o caminho.
Do primeiro encontro ficou um travo, e foi o tempo, as provas e as respostas, que disseram que via para além do óbvio, que dava valor ao simples, que não pasmava com o brilho das luzes, que reconhecia um gesto no seu início e que se sintonizava para o que se queria.
Completou objectivos e colmatou falhas, sem atropelos nem bicos de pés, com discrição, eficiência e alguma vaidade.

Assim como chegou, se vai agora, deixando no ar o sabor a pouco, de alguém que intuiu os pequenos sinais das grandes necessidades e que também soube que basta pouco para nos consolar, porque pouco basta para nos afligir.

Bem haja!

domingo, 10 de maio de 2009

FCP



FCP - Campeão. Do pantel de 24 jogadores só 7 são portugueses, como o treinador e os 2 adjuntos.
É talvez a maior referência do Norte de Portugal.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Avelãs da Ribeira


1968 - Para além das aulas e das horas de estudar, havia outras obrigações. A primeira era o Café, para falar do dia, planear eventos e discutir conceitos, a segunda era ir aos espaços onde o feminino se concentrava para tirar medidas e fixar olhares e, de vez em quando, um jogo de futebol, uma ida ao rio andar de Kayak, um teatro ou um cinema.

Nesse dia, no Café, o João chegou com a proposta de irmos passar a Páscoa à sua aldeia. Era um programa. Sair de casa, estar dia e noite com a malta, com hotelaria garantida e conhecer novos sítios. Já não era a primeira vez que as férias da Páscoa eram assim passadas, na casa que um qualquer tio rico tinha fora da cidade, numa espécie de campismo dentro de portas. Era uma oportunidade de aventura, de jogar King pela noite dentro a centavo o ponto, e de fazer história.

“E gajas? Há?” perguntámos. Que não! Que a terra era engraçada, mas não se previam raparigas da nossa idade. Garantido estava boa comida e cama para dormir.
A coisa alinhavou-se ali num instante. Consegui o carro do meu pai, e dias depois rumámos às Avelãs, numa viagem de curvas, a esgotar a paciência.

Chegamos ao fim de um dia sem sol, com o frio a atirar-nos directos para a lareira da cozinha, ladeada por dois escanos, a fazer de mesa. De resto o frio foi uma constante, a obrigar a botijas e barrete para não acordar com o cabelo gelado, e a colocar a roupa no meio dos cobertores para a conseguir vestir no dia seguinte.

Depois foram as visitas aos familiares e amigos do João, passando pelas casas devolutas das famílias que se tinham mudado para Lisboa ou para o Porto, e que “este ano se calhar não vêem”.
E no meio de um passeio alguém comenta: -“Tu disseste que aqui não havia miúdas! E estas são bem giras?” Como é?!
E o João a pôr ordem no sistema: -“A mais alta está noiva de um rapaz de Lisboa e a outra deve ser amiga, porque eu não a conheço. Nunca a vi por cá”.

As meninas, também achavam que a vida era melhor vivida se partilhassem as horas com os rapazes e, em dois dias, já havia paixão. Uma paixão de todos os minutos a fazer esquecer o noivado e os jogos de cartas.
Aqueles dias de amor impossível passaram-se num fogo, com os altos dos encontros e as dores do afastamento a sucederam-se vertiginosamente e, num instante, havia que regressar ao Porto, numa nova viagem desta vez com a mãe do João, que era uma senhora obesa, com dificuldade na mobilização e com muito medo de todos os perigos.

O carro vai cheio de malas, couves, garrafões, mais nós os quatro, e ela lá ao fundo, à janela, depois do último beijo a dizer adeus, com os olhos vermelhos das lágrimas, e o carro a andar devagarinho na subida íngreme.
Adeus! Adeus!...., e o Artur a forçar: - “Então, isto não anda? Antes de chegarmos à Guarda tens de meter gasolina!”
“Calma! O carro vai carregado e é a subir!”, respondi, enquanto o pensamento teimava em não deixar as Avelãs.

Os Kilómetros até à Estação de Serviço mais próxima, foram lentos e efectuados em 1ª e em 2ª.

Quando o carro se aproxima da bomba de gasolina, o gasolineiro desata aos saltos e aos gritos a dar-me indicação para eu me afastar dali, e eu, sem achar qualquer nexo àquele bailado, a sentir um forte cheiro a enxofre a entrar pela janela. O homenzinho não parava de gritar: “Tire o carro daqui, que me incendeia isto tudo!”.

Só então dei conta que tinha o travão de mão em cima e que a mãe do João entrava em pânico por não conseguir tirar o cinto de segurança. Por fim, o carro parou a fumegar do rodado traseiro, deixando-me sem saber em que pensar, se nas Avelãs, se no carro sem travões, se na mãe do João a dizer que não queria continuar a viagem comigo, se na queda da minha cotação de Às do volante.

domingo, 3 de maio de 2009

Sara Tavares

Sara Tavares (n - Lisboa -1978) de ascendência cabo-verdiana.
Com a Ala dos Namorados.

sábado, 2 de maio de 2009

Yes, Sir!























Sempre que vi um filme de guerra deparei com alguém que dá ordens, e alguém que as recebe a dizer “Yes, Sir!”, de um modo claro e explícito, e que de imediato se retira determinado a cumprir a tarefa que lhe foi atribuída.
É clássico. É assim talvez porque tenha sido sempre assim na guerra, onde a vida e a morte se jogam numa decisão e, como tal, não deve haver lugar a dúvidas de que se ouviu, se percebeu e que se irá diligentemente cumprir.
Na cultura anglo-saxónica, este paradigma transparece em muitas outras situações do relacionamento interpessoal, quer verbal quer escrito.
O contrário disto é a “ruminação”. Ouve-se o que um superior hierárquico diz, e vira-se costas, sem dar a entender que irá cumprir, enquanto se mastiga “este gajo, para aqui a mandar, e eu para aqui a aturá-lo!”
São assim os pequenos malandros, certos das suas pequenas verdades, que a ignorância alimenta.
Numa sociedade globalizada e competitiva, a “confiança” é um valor e este estar não é integrável.