quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Mrs. Doris Lessing






















Mrs. Doris Lessing (1919 - ...) - Romancista. Prémio Nobel de 2007. Filha de pais ingleses, nasceu na Pérsia (Irão). A mãe era enfermeira.
Na sua entrevista à revista "Visão" 825, destaco as afirmações:

"As pessoas não estão minimamente conscientes do peso da História. Se não sabes o que o passado foi, vais repetir os mesmos erros. É uma fatalidade!"

"E o que interessa perceber é que não se pode fazer nada com crentes. Sei-o, porque fui educada por gente assim. Os argumentos não mudam nada, aprendi-o da maneira mais dura. As mentes das pessoas mudam por si próprias, não por as tentarmos convencer. Algo acontece. Apenas isso."

domingo, 28 de dezembro de 2008

Humor

A palavra Humor vem do grego onde significava líquido.
O humor é um capricho, um luxo, uma pluma que se põe no chapéu e, se estiver fundamentado numa consideração amável da natureza humana, pode propor uma forma construtiva de aproximação entre as pessoas.

O humor contém uma inesperada e súbita mudança de perspectiva.
Ser universal e intemporal é um Mito, pois a capacidade para achar graça depende da localização geográfica, da cultura, da maturidade, do nível de educação, da inteligência e do contexto.

É o desenho que mais facilita a universalidade e, neste estilo, cumprimento os cartoonistas franceses

Jean-Marc Reiser (1941 – 1983) por:














Jean-Jacques Sempé (1932 - …) por:













e Claude Serré
(1938 - …) por :

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Cryptomeria japónica, o cedro do Japão























Confesso a culpa mas, quando tudo começou, os meus problemas eram outros e tinha a pressa de ver um início a qualquer preço.
Se soubesse que vinhas, tinha-te feito a cama mais larga e não um dossel de rainha de margens limitadas, no meio daquele saibro que mandei pôr no fim do terreno para resolver de uma assentada o entulho e o declive para um caminho por ali.
Só depois te decidi namorar. Não tinhas mais de dois palmos quando te encontrei no Horto. Diziam que te descarnavas por baixo, mas eu estava seduzido pelo teu bronzeado de Inverno e pelas três copas com que te vestias.
Na cova que te fiz pus tudo o que (pensava) irias necessitar para viver sem restrições. Depois vi-te viçosa a animar-me por te ver dona daquela esquina.

Agora desististe, vestiste ramos secos e obrigas-me a cuidados para te tirar essa expressão de gueixa macambúzia.
Sempre te pensei a furar por ali abaixo à procura de soluções, mas entristeceste o chão à tua volta com o castanho das tuas folhas, para gáudio dos vis eucaliptos que te circundam, por fora da nossa casa.

Talvez, um dia, te diga Saionara -“já que tem de ser assim”, porque sei que entendes melhor a tua língua-, e ficar com a dor da tua ausência, ou então ganhar de novo alento, decidir que é ali o teu lugar, e voltar ao princípio de um amor novo com todas as dores e desassossegos.
Ser velho é "não ter paciência para a trabalheira da sedução" e eu, sou ainda rapaz novo.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

A Arte de Morrer


Arte é o correcto conhecimento do que se deve fazer (S. Tomás de Aquino)

Na Idade Média a morte era ao mesmo tempo familiar e próxima. Esperava-se por ela sem dramatismos, pois esta pertencia a uma ordem maior da natureza, a que todos estavam submetidos e contra a qual não havia que sublevar-se.
O problema cingia-se ao que fazer quando a nossa alma, na hora da morte, enfraquecida pelo medo do desconhecido que se afigura, se vê susceptível aos ataques do diabo!”
Deste modo, a morte mais temida era a repentina, por não permitir o arrependimento.
Na hora da morte os “anjos e demónios vinham cercá-lo como se estivesse num tribunal, para lhe fazerem as últimas tentações e demonstrações de graça, para que o seu livre arbítrio decidisse pela fé da graça divina ou pelos medos aterrorizadores do inferno”.
Convinha estar bem preparado para este momento.
Havia que fazer uma série de advertências ao moribundo para que ele pudesse bem morrer: manter a fé em Deus e a obediência á Igreja Católica; arrepender-se e pedir perdão pelas ofensas dirigidas a Deus; penitenciar-se e arrepender-se dos pecados cometidos e guardar firme propósito de não voltar a cometê-los; perdoar a todos os que o ofenderam e requerer a Cristo que perdoasse os seus ofensores; restituir a quem de devido as coisas mal adquiridas; reconhecer e crer em Cristo como único salvador e redentor dos homens. Após ter cumprido essas etapas do processo de purificação da alma, o moribundo devia, ainda, receber os sacramentos da Igreja apropriados a este momento de passagem e confessar-se de livre vontade.
Era conveniente que outras pessoas acompanhassem o moribundo neste momento para o caso de ele se esquecer de algum item.
As dores e o sofrimento eram entendidos como provas (como se no Purgatório estivesse) a ultrapassar com resignação e como um meio para encurtar o caminho para a salvação. Os gestos de desespero eram blasfémias contra Deus.


O Renascimento traz uma postura científica em relação à natureza e aos aspectos práticos da vida.
Em 1687 Isaac Newton na sua obra principal “Os princípios matemáticos da ciência da natureza”, põe fim à crença que supunha a existência de vários mundos (o Céu, a Terra, o Inferno), e substitui-a pela ideia de um espaço único em que todos os corpos interactuam, mas ainda mais decisiva é a concepção de um tempo abstracto e homogéneo, em que todas as coisas podem ser sincronizadas (na Idade Média, o tempo dividia-se entre um além em repouso eterno e um aquém fugaz sempre sujeito a ingerências a partir do além, como era o caso dos milagres).
O tempo de Newton, ao invés, é tão total e absoluto como o espaço. O além já não existe. Em vez disso, o tempo subdivide-se em passado e futuro. O possível deixa de ser algo que irrompe no aquém a partir da presença paralela do além, mas algo previsível no futuro. Não há já espaço para espíritos e demónios e Deus tem de se contentar com o papel de criador.
Faz-se luz no mundo e a História surge como uma ideia condutora, que permite projectar todas as esperanças que até então se tinham encontrado associadas à religião.
No início do Século XVIII, surgem as ideologias em contraponto à religião, com os pontos mais marcantes na independência dos EUA (1783) e a Revolução Francesa (1789). Proclama-se o “individuo com direitos naturais” como liberdade, igualdade, … e a vida terrena ganha valorização progressiva, em detrimento do conceito de “uma passagem da alma pela terra”.

Estes factos mudam o modo de estar perante a morte.
A morte era uma cerimónia pública e organizada – em muitas circunstâncias, pelo próprio moribundo, que presidia e conhecia o seu protocolo.
O seu quarto transformava-se num local público, onde se entrava e saía livremente e onde estavam sempre presentes parentes, amigos e vizinhos. Levavam-se as crianças.
Os ritos de morte eram aceites com simplicidade e cumpridos de modo cerimonial, mas sem carácter dramático ou gestos de emoção excessivos.
As soluções técnicas oferecidas pela Medicina eram de difícil acesso, escassas e facilmente disponibilizadas junto ao leito do doente.

No século XX a morte virou tabu. A sociedade cada vez mais tecnológica e concentrada no trabalho, esvazia e dessacraliza a natureza humana onde o homem procura minimizar cada vez mais as suas fraquezas e dessa forma o acto de morrer passa a ser um acto vergonhoso.
No cenário da sociedade globalizada o ideal é que o indivíduo morra sem saber que o seu fim se aproxima, poupando-o à perturbação e à emoção forte causadas pela fealdade da agonia, pois acredita-se que a vida é feliz ou pelo menos deve tomar esta aparência. A família deixa de ser a confidente do moribundo e passa esta função para a equipe de saúde, onde todos fingem optimismo (inclusive o doente), para manter a moral.
Por fim tratam-no como a uma criança a quem se repreende por ser despojado da sua responsabilidade, da sua capacidade de reflectir, de observar e de decidir.

Os progressos da medicina não param de prolongar a agonia, deixando todos incertos quanto à hora em que a morte irá ocorrer.
O hospital é o novo espaço onde se morre, e o médico passa a intermediar os instantes finais do moribundo, numa sociedade em que a família nuclear não tem disponibilidade para a morte por nunca a ter presenciado, por temer o sofrimento do familiar e por medo de que o ambiente familiar fique impregnado de más lembranças.

Nos últimos anos, entre a casa e o hospital surge um outro local onde se morre - os Lares de Idosos.

Os Cuidados Paliativos desenvolvem-se a partir de 1960, para minorar o sofrimento físico aos que a ciência desiste de prolongar a vida.
Mas será que resolvem também as dores do espírito de quem parte?

domingo, 21 de dezembro de 2008

O Sr. Napumoceno























- “Bons dias! Então como vai essa perna?”, perguntei, enquanto entrava pela enfermaria.
- “Melhor, doutor! Está quase boa, e já deve dar para andar!”, respondeu prazenteiro, com sotaque alentejano, o que mais uma vez me motivou a inquirir do seu passado.
- “O que é que você anda a fazer aqui por estes lados?”
. “Eu sou de cá! Sou de Perre! Estou a viver há mais de 40 anos no Alentejo! Fui para lá para a tropa e depois, arranjei mulher, e por lá fiquei! Agora, estou viúvo e vim ver as terras que foram dos meus pais, para dar um caminho àquilo. O doutor não quer comprar?”
- “Não! Obrigado! Eu já tenho terra que me chegue!”, respondi, temendo as capacidades de negociante daquele olhar ladino.
- “Mostre lá a perna!”
O Sr. Napumoceno tinha a pele crestada por um sol que só existe no mar e no Alentejo, que lhe marcava em longos sulcos o riso quase constante. Era magro e bom conversador, e as suas histórias enfiavam-se umas nas outras como um rosário, enquanto eu, com os dedos, lhe percorria o trajecto da veia trombosada.
- “Olhe lá homem! Quando isto melhorar, você vai ficar aqui ou vai para o Alentejo? É que você vai precisar de alguém para o apoioar!”, pergunto a medi-lo!
- “Não tenho problema, doutor! Eu cá me arranjo! Eu sou o homem dos sete instrumentos!”
E de imediato conta a história da sua vida, mil vezes contada.
- “Sabe, eu sou um homem muito rico! Eu tenho mais de 100 fatos, tenho mais de 200 pares de sapatos, e de todas as medidas!”, e elevava-se nos cotovelos para garantir que eu estava a ouvir direito, e confiante continuava.
- “Quando fui para o Alentejo, comprei um terreno pequeno e comecei a juntar aquilo que ninguém queria. Como me viam sempre roto e sujo, chamavam-me e diziam-me: - Oh Sr. Napumoceno, o meu marido morreu, tenho lá a roupa dele sem uso, passe por lá que eu dou-lhe um fato!, e eu ficava-lhe com a roupa do defunto. Outro tinha por lá uns arames e uns ferros ou uma mobília, que lhe estavam a empatar e eu levava aquilo de graça para o meu terreno. Como estas muitas outras que depois eu dividia e vendia a outros e, aos poucos, fui juntando muito dinheiro!
- Um dia, ainda os meus pais eram vivos, quis saber o que é que valia mais, se era o dinheiro se era a aparência. Vesti-me com a roupa mais rasgada que tinha, calcei umas botas com as solas descoladas e atadas com cordas, fui a Santa Apolónia e comprei um bilhete no Foguete para o Porto em 1ª classe.”
- “Nem há 10 minutos estava lá sentado, com todos aqueles chiques a olhar para mim, quando apareceu o revisor: -“ O senhor!, mostre-me o bilhete!” E eu, ali, deito a mão ao bolso do casaco e mostro-lho, Faz Favor!”. Sentou-se e imitou o antigo gesto, com quem lança o ás de trunfo para cima de uma manilha para de seguida reclinar-se e continuar: - “Fiz a viagem toda em 1ª, com toda a gente a olhar para mim! Depois, quando cheguei ao Porto, fui a todos os Bancos onde tinha dinheiro e entreguei um cheque de 300 contos para levantar. Só o Banco Espírito Santo é que me deu logo o dinheiro, os outros puseram-se com merdices, que iam perguntar ao Gerente e isto e aquilo. Vai daí, eu tirei o dinheiro que tinha nos outros e pus tudo no Espírito Santo!

- “Oh Sr. Napumoceno, você é um perigo! Mas agora como a perna está a melhorar, vai ter de arranjar quem o ajude pelo menos por mais 5 dias depois da alta.”
- “Esteja descansado doutor, que não vai haver problema.”

E eu mais não perguntei, por a história me ter convencido e pela multidão de visitas que vira à volta da sua cama no dia anterior.

sábado, 20 de dezembro de 2008

As Manif da populaça que diz que sabe o que não quer!




Os gregos inventaram a Filosofia e libertaram o pensamento das amarras da religião.
Os Romanos copiaram-nos e deram a República e a globalização à Europa.

Todo este saber foi esquecido na Idade Média (476 - 1453), para dar lugar ao obscurantismo onde pontuavam anjos, demónios, espíritos, fantasmas, mortos, santos, mártires e Deus e uma caterva de gente especializada na comunicação com eles, num jardim zoológico imenso onde a figura principal era o diabo.
Por sorte os árabes haviam copiado os textos dos gregos e foi possível importar o conhecimento perdido para dar início ao Renascimento.

Tão difícil que é manter uma sociedade a funcionar racionalmente!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Judas Superstar


Jesus Christ Superstar - Heaven On Their Minds

Judas

My mind is clearer now
At last, all too well, I can see, where we all soon will be!
If you strip away
The myth from the man, you will see, where we all, soon will be!
Jesus!
You’ve started to believe, the things they say of you
You really do believe, this talk of God is true?!
And all the good you’ve done, will soon be swept away,
You’ve begun to matter more, than the things you say!
Listen Jesus, I don’t like what I see!
All I ask is that you listen to me!
And remember, I’ve been your right hand man all along!
You have set them all on fire,
They think they’ve found the new Messiah!
And they’ll hurt you when they find they’re wrong!
I remember when this whole thing began,
No talk of God then, we called you a man
And believe me, my admiration for you hasn’t died!
But every word you say today, gets twisted ‘round some other way
And they’ll hurt you if they think you’ve lied!
Nazareth’s most famous son,
Should have stayed a great unknown,
Like his father carving wood
He’d have made good tables, chairs and oaken chests
Would have suited Jesus best
He’d have caused nobody harm! No one alarm!
Listen Jesus, do you care for your race?
Don’t you see we must keep in our place?
We are occupied!
Have you forgotten how put down we are?
I am frightened by the crowd
For we are getting much too loud,
And they’ll crush us if we go too far, If we go too far!
Listen Jesus to the warning I give
Please remember that I want us to live
But it’s sad to see our chances weakening with ev’ry hour
All your followers are blind, too much heaven on their minds
It was beautiful, but now it’s sour
Yes it’s all gone sour.
Ah --- ah ah ah --- ah God Jesus, it’s all gone sour
Listen Jesus to the warning I give
Please remember that I want us to live
So come on, come on, listen to me. Ah --- ah
Come on, listen, listen to me. Come on and listen to me. Ah --- ah

É a história de um homem amargurado por ter sido abandonado por um líder que se deslumbra pela adulação da populaça e perde o controle do projecto que acarinhava.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Cinema Paraíso

O filme da minha vida!

E esta história então ..., como marca!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Implementar um Projecto













Para implementar um projecto há 3 itens fundamentais a gerir:

1: Tempo: planear para evitar perdas de tempo e corridas apressadas.
2: Dinheiro: identificar gastos e o modo de os rentabilizar.
3: Capacidade: identificar as vontades e aptidões necessárias para o cumprir.

Queixamo-nos de "falta de tempo", de "falta de dinheiro" e raramente de "falta de vontade para ultrapassar a adversidade" ou de "falta de aptidão para resolver os novos problemas".

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

As três Peneiras


















Um homem foi ao encontro de Sócrates, levando ao filósofo uma informação que julgava de seu interesse:
- Quero contar-te uma coisa!
- Espera, disse o sábio, antes de me contares, quero saber se fizeste passar essa informação pelas três peneiras.
- Três peneiras? Que queres dizer?
- Se não as conheces, presta atenção. A primeira é a peneira da VERDADE: tens certeza de que isso que me queres dizer é verdade?
- Bem, foi o que ouvi outros contarem. Não sei exactamente se é verdade!
- A segunda peneira é a da BONDADE: o que me vais contar é uma coisa boa que ajuda a construir um caminho?
Envergonhado, o homem respondeu: - Devo confessar que não!
- A terceira peneira é a da UTILIDADE: Convém contar? Resolve alguma coisa? Ajuda a comunidade? Pode melhorar o planeta?

- Então, disse-lhe o sábio, se o que me queres contar não é verdadeiro, nem bom, nem útil, o melhor é que o guardes apenas para ti e não contribuas para envenenar o ambiente e levar discórdia. Devemos ser sempre a estação terminal de qualquer comentário infeliz.

PESSOAS INTELIGENTES FALAM SOBRE IDEIAS.
PESSOAS COMUNS FALAM SOBRE COISAS.
PESSOAS MEDÍOCRES FALAM SOBRE PESSOAS.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Atributos de Mérito de um Médico


Prof. Doutor Dinis da Gama - Director do Serviço de Cirurgia Vascular do Hospital de Santa Maria e Professor Catedrático da Faculdade de Medicina de Lisboa

Atributos que definem a qualidade de um médico em meio hospitalar:
-Assiduidade, pontualidade, disponibilidade;
-Espírito de iniciativa, sentido de responsabilidade e capacidade decisão;
-Conhecimentos técnico-científicos actualizados (hábitos de estudo);
-Relacionamento e respeito para com os doentes, enfermeiros, pessoal administrativo e auxiliar;
-Espírito de equipa, respeito institucional e hierárquico;
-Cumprimento das obrigações assistenciais e normas de procedimento (qualidade das histórias, dos diários e das notas de alta);
-Capacidades de comunicação e relacionamento interdisciplinar;

Outros:
-Capacidade de investigação clínica
-Comunicações científicas e trabalhos publicados na Imprensa Médica;
-Participação e envolvimento no ensino médico pós-graduado.

Ao contrário do que sucede com a produção quantitativa, que pode ser apreciada pelos administradores hospitalares, só um médico, colocado em categoria hierarquicamente superior, está em condições de valorizar e classificar aqueles atributos qualitativos e esse é, será e não pode deixar de ser o director de serviço.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Linda Ronstadt





Nasceu em 1946 in Tucson, Arizona, USA.

Este seu disco de finais de 1987, é um dos meu favoritos e a janela por onde os meus olhos vêem o México. Ganhou um Grammy para o melhor álbum de música Mexicana/Americana.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Leitura de Banhos









Leitura de banhos!? ... de banhos??, pré-nupciais.

A origem da palavra para este “banho”, tão estranho, está no latim vulgar sob a forma de bannum, que por sua vez a tinha ido buscar ao verbo BAN comum a muitas línguas teutónicas, que originalmente significava proclamar ou anunciar e que nada tem a ver com os banhos com água.

Estes Banhos são uma proclamação pública numa igreja paroquial de que irá acontecer um casamento entre duas determinadas pessoas. O propósito era permitir denunciar qualquer impedimento legal e assim impedir casamentos inválidos pela lei canónica (casamentos prévios, votos de celibato, falta de consentimento, consanguinidade próxima, ...).
Os banhos deveriam ser lidos em voz alta nas Igrejas paroquiais dos nubentes, nos 3 domingos anteriores ao dia do casamento, e também na igreja onde iria decorrer a cerimónia, caso esta fosse diferente. O incumprimento desta formalidade tornaria o casamento nulo.

A lei canónica, saída do Concílio de Trento (1545–1563), influenciou a maioria das legislações civis que vieram depois.
O matrimónio civil torna-se obrigatório pela primeira vez com o Código Civil Napoleónico de 1804, e prescinde do carácter religioso.

Quem actualmente pretenda contrair casamento deve declará-lo, pessoalmente ou por intermédio de procurador, numa Conservatória do Registo Civil e requerer a instauração do respectivo processo de publicações.
À pretensão dos noivos é dada publicidade por meio de afixação de Editais nas Conservatórias das áreas de residência dos noivos (nos últimos doze meses, e se algum dos noivos tiver residido no estrangeiro, também no Consulado da área de residência), durante oito dias consecutivos, para convidar as pessoas a virem declarar se conhecem algum impedimento que obste à realização daquele casamento.
Até à celebração do casamento qualquer pessoa pode vir declarar à Conservatória a existência de impedimentos, devendo o Conservador sempre que tome conhecimento suspender o processo até que o impedimento cesse ou seja dispensado.
Findo o prazo das publicações e das diligências efectuadas pelo Conservador, é lavrado um despacho a autorizar o casamento ou a mandar arquivar o processo, devendo, caso o despacho seja desfavorável, ser notificado aos nubentes, pessoalmente ou por carta registada, para que estes possam recorrer para o tribunal, se assim o entenderem.
Se o despacho for favorável, o casamento deve ser celebrado no prazo de 90 dias, contados a partir da data do referido despacho.

Acabaram-se os banhos!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Votos Nupciais







Casei em 1974, 118 dias depois da Revolução de Abril.
Embuído do espírito revolucionário, restringi a cerimónia aos mínimos e, que me lembre, a única palavra oficial que pronunciei foi SIM.
Mais tarde, quando senti a falta das palavras nos funerais, questionei as palavras uniformes do ritual do casamento.

Os “votos nupciais” são a diferença e o que entendo como o Upgrade do casamento tradicional e não o crescendo da festa em que se tornou.
Explicitar o “sonho”, projectando os valores é a graça, o compromisso e o acto de coragem que dá o toque pessoal à cerimónia.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O lado bom do que não está certo!






É assim o jogo. Primeiro apuramo-nos para a vida e acertando-nos com os outros.
Depois medimos forças e avançamos convencidos de razões e de capacidades.
Quando falhamos, racionalizamos culpados e elegemos inimigos para nos aliviar o ego.

Com sorte aprendemos a viver com a imperfeição e o lado bom do que não está certo e não engrossarmos o discurso de rua descontente e maledicente.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Em Memória dos Mortos


A falta que as palavras certas fazem, principalmente nos eventos solenes, quando são substituídas pelas palavras ocas da circunstância.

Os enterros são-me duplamente tristes. Primeiro por ver partir alguém que conheci e que de algum modo admirei, depois pelo ritual que não privilegia o morto, recusando-lhe um Elogio Fúnebre, que diga todo o bem que foi capaz.

Por fim, a laje com um nome, duas datas e uns adereços religiosos. Com sorte umas flores. Raramente um Epitáfio.


















E depois de tudo acabado e com o tempo todo, porque não uma Biografia a guardar com as principais fotografias. ??

E porque não um fotógrafo e um “escritor” para dar qualidade à memória.

domingo, 30 de novembro de 2008

Caridade
















A bone to the dog is not charity. Charity is the bone shared with the dog, when you are just as hungry as the dog. Jack London - USA aventureiro, escritor e marinheiro (1876 - 1916)

Caridade não é dar o osso ao cão. Caridade é partilhar o osso com o cão, quando tu tens tanta fome como ele.

sábado, 29 de novembro de 2008

Nat King Cole

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  • AQUELLOS OJOS VERDES
    Nilo Menéndez

    Aquellos ojos verdes
    de mirada serena
    dejaron en mi alma
    eterna sed de amar,
    anhelos de caricias,
    de besos y ternuras,
    de todas las dulzuras
    que sabían brindar.
    Aquellos ojos verdes,
    serenos como un lago,
    en cuyas quietas aguas
    un día me miré,
    no saben las tristezas
    que en mi alma an dejado,
    aquellos ojos verdes
    que yo nunca besaré.
  • Nat King Cole (1919 – 1965). O meu crooner preferido. Fumava 3 maços de cigarros por dia e morreu de cancro do pulmão. Acreditava que o tabaco o ajudava a manter aquela tonalidade de voz (barítono baixo) inconfundível e capaz de partir o mais empedernido dos corações.

A beleza não o ajudava mas, então eram os tempos da Radio.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Conferência «Uma Sociedade Madura num Mundo Global»











PROGRAMA:

Dia 24 de Novembro de 2008:
10h00: Sessão de Abertura- Emílio Rui Vilar, Presidente do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian

10h15: Envelhecimento da população - impacto económico e financeiro- David Wise, Department of Political Economy, John F. Kennedy School of Government, USA
Presidente: Luís Campos e Cunha, Faculdade de Economia, Universidade Nova de Lisboa
Comentador: Jorge Simões, Secção Autónoma de Ciências da Saúde, Universidade de Aveiro

11h45: Envelhecimento e Trabalho- Axel Börsch-Supan, Mannheim Research Institute for the Economics of Ageing, Universität Mannheim, Germany
Presidente: Manuel Villaverde Cabral, Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa
Comentador: Luís Pais Antunes, Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais

14h30: O Envelhecimento e a Cidade- Alex Kalache, The New York Academy of Medicine, USA
Presidente: Fernando Ferreira Santo, Bastonário da Ordem dos Engenheiros
Comentador: Manuel Salgado, Departamento de Urbanismo e Planeamento Estratégico, Câmara Municipal de Lisboa

16h15: Família e Relações Intergeracionais- Andreas Hoff, Oxford Institute of Ageing, University of Oxford, UK
Presidente: Martin Essayan, Administrador da Fundação Calouste Gulbenkian
Comentador: Sarah Harper, Oxford Institute of Ageing, University of Oxford , UK

Dia 25 de Novembro de 2008
10h00: Educação e Aprendizagem ao longo da Vida- George Leeson, Oxford Institute of Ageing, University of Oxford, UK
Presidente: David Justino, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa
Comentador Carlos Reis, Universidade Aberta

11h45: Dignidade na Velhice- Margaret Pabst Battin, Department of Philosophy, University of Utah, USA
Presidente: Isabel Mota, Administradora da Fundação Calouste Gulbenkian
Comentador : João Lobo Antunes, Comissário do Fórum Gulbenkian de Saúde


Algumas das minhas Notas:
A pirâmide demográfica está a modificar-se
De 1970 a 2000 houve um aumento de 30% na sobrevida e da vida sem incapacidade, enquanto a participação no trabalho da população entre os 60 e os 64 anos diminuíu ~30%.
O nº de anos na Reforma nos USA em 1965 era de 13 e em 2003 de 18.

Projecta-se um envelhecimento mundial da população de tal modo que em 2030 mais de 50% da população no Ocidente tenha mais de 50 anos.

As gerações mais novas irão ser penalizadas com as reformas dos mais velhos se nada for feito. Sugeriu-se uma entrada mais precoce no mercado de trabalho e uma saída mais tardia.

A Organização Mundial de Saúde divulga um Folheto que dá orientações para Cuidados Primários de Saúde Amigos do Idoso e normas para que as cidades se adaptem a esta crescente população- Checklist of Essential Features of Age-friendly Cities.

Estiveram sempre presentes as seguintes palavras: Problema, Desafio e Oportunidades

sábado, 22 de novembro de 2008

Sopros

Os sopros da minha memória nas orquestrações das canções.



sexta-feira, 21 de novembro de 2008

General (1906-1965)




















10 de Maio de 1958 - o Café Chave de Ouro está repleto. Surge a primeira pergunta, do correspondente da France Press.
"Qual a sua atitude para com o Sr. Presidente do Conselho (Oliveira Salazar) se for eleito?"
E a resposta, sem uma hesitação: "Obviamente, demito-o!".
é que ... para se ser Tolerante, é preciso fixar os limites do intolerável!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O Teixo
























O teixo é das árvores que mais me surpreendeu, quando aos 40 anos as decidi conhecer.
Tem um crescimento lento e grande longevidade. A sua madeira é resistente, flexível, bastante dura, avermelhada ou castanha, e de boa qualidade. É utilizada no fabrico de peças de mobiliário, em torneados, esculturas e embutidos, e as suas raízes servem para fazer os arcos de violino; é também apreciada por imitar o ébano quando tingida de preto.

Como suporta bem a poda pode ser usado em sebes e ornamentação. É resistente à poluição urbana.

Com excepção dos frutos, todas as partes verdes do teixo possuem um alcalóide tóxico, que o torna perigoso, tanto para os animais como para os homens.

Já os Celtas e os Germânicos antigos conheciam o veneno do teixo, que tinha um papel importante na mitologia dessas civilizações. Para a caça, envenenavam as flechas com suco de teixo, e as suas folhas eram usadas para homicídio e suicídio.


















Em Inglaterra a sua presença é comum nos adros das Igrejas, onde algumas destas árvores têm mais de 3 metros de diâmetro e mais de 3.000 anos de idade, sendo por isso mais antigas que as igrejas que lhes estão ao pé. É provável que os teixos tenham uma associação com lugares sagrados pagãos, que a Igreja Cristã adoptou, construindo aí as suas igrejas.
Pensa-se que foram plantadas como símbolo da longa vida das árvores ou árvores da morte. Outra explicação é a de que foram aí plantadas para desencorajar os agricultores e os criadores de gado a deixarem os seus animais devassarem as campas dos mortos, pelo veneno da sua folhagem.

O teixo tem uma forte conotação ao País de Gales em Inglaterra, devido aos seus arqueiros dos séculos VIV e XV, que usavam o teixo para a construção dos seus arcos.
Era usada a parte externa do tronco que engloba o cerne e o carnaz, para aproveitar as propriedades elásticas do carnaz e a resistência à compressão do cerne, e dar a força ao arco sem o deformar. O arco tinha a altura de uma pessoa e uma secção em forma de D, com o carnaz na sua face externa. Era suposto que um arqueiro lançasse pelo menos 10 flechas por minuto a uma distância de 150 a 200 metros, embora os mais experientes lançassem 20. Numa batalha um arqueiro era fornecido com 60 a 70 flechas o que dava para 6 minutos de actividade extenuante. A chuva de flechas que atiravam sobre o exército inimigo, funcionava como uma metralhadora. O arco só foi substituído pelas armas de fogo no século XVI, pois estas não só tinham maior poder de penetração como exigiam menor preparação para as manejar.

O Citostático Paclitaxel (Taxol®) descoberto em 1971, é extraído das folhas do Teixo – Taxus Baccata, embora inicialmente o fosse da casca do Teixo do pacífico (Taxus brevifolia)
É usado no tratamento do cancro do ovário, mama.

Na minha cidade encontrei estes dois. - Umas crianças.



Lá ao fundo, no meu jardim, este esforça-se por um lugar ao sol e pelo seu direito aos 3.000 anos.

domingo, 16 de novembro de 2008

Incurável























-"Oh Dona Maria! Você continua com as Tensões muito altas! Tem tomado a medicação?"
-"Não Senhor Dr.! é que o meu corpo não se dá com medicamentos!"

Foi assim nas quatro consultas, em que cheirei a naftalina e ouvi as frases dissonantes vestidas de solenidade, daquela mulher pequena, obesa e meio careca, até lhe diagnosticar Perturbação de Personalidade, e a enviar para uma Consulta de Psiquiatria.

Era a primeira filha de um oficial da marinha mercante (cronicamente ausente) e de uma dona de casa com terrenos agrícolas arrendados. Teve uma infância com tudo o que uma menina bem nascida numa cidade periférica na 4ª década do século XX, podia aspirar.
A mãe deslumbrara-se com o seu crescimento e ela, com todo aquele espaço, adoçara a irmã na sua vontade e isolara-se dos que entendia inferiores.

Quando o pai regressou para morrer de tuberculose, viveu a ineficiência dos tratamentos como culpa da assistência e acentuou a superioridade moral com que já olhava os defeitos dos outros.

Nos meses seguintes, entristeceu-se na Igreja e caíu oferecida na casa do padre da freguesia que, surpreso e pouco expedito, lhe fez avisar a mãe.

A vida está cheia destes equívocos. A realidade atraiçoa-nos e dá-nos versões diferentes de acordo com a posição do observador e, quando a menina Maria viu a irmã à porta, só uma ideia lhe aflorou para lhe marcar o resto da vida.
-“Seguiste-me? Tu seguiste-me! Não te perdoo, nem que viva mil anos.!", disse no desespero da fuga, enquanto o padre petrificado, respirava.
Aquela frase e a morte da mãe, dois anos depois, isoloraram-na definitivamente, deixando as duas irmãs a partilhar a casa de costas voltadas.

E era assim que tudo ainda estava trinta anos depois: a irmã numa metade da casa com o marido e ela na outra a desconfiar de todos e a falar com frases feitas.

-“Oh! Dr. Freud! Então isto não tem tratamento! Ela também não cumpre as tuas prescrições?”, ainda insisti.
Responde-me de lá o Psiquiatra: “Ouve lá! Tu curas o cancro?”

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Vozes Femininas

Receita 1: Elkie Brooks (1945 - …) “Pearls a Singer” (1977).




Tomemos uma laringe e 2 ovários em plena fase folicular. Deixemo-los marinar em scotch whisky com uma pitada de fumo durante longas noites de rock e de jogos do Manchester United. Serve-se quente.

Receita 2: Rickie Lee Jones (1954 - …) - Easy Money



Tome-se uma laringe feminina e um nariz com rinite. Regue-se abundantemente com uma mistura de metade cerveja e metade vinho da Califórnia e deixe-a ao relento várias noites no Inverno de Chicago. Depois, ponha ao fumeiro de um Bar até a tosse surgir e, sirva-se quente.

Receita 3: Janis Joplin (1943 - 1970) - Me and Bobby Mc Gee



Misture-se no mesmo shaker, uma laringe, 3 dl de Whisky de qualquer marca, heroína, cocaína e uma pitada de barbitúricos. Junte-se em partes iguais testosterona, estriol e progesterona. Agite-se até que da mistura mal se reconheçam os ingredientes e sirva-se frio numa bota texana.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Prosas























Notícia
é o formato de divulgação, por meios jornalísticos, de um evento relevante que merece publicação num meio de comunicação social. Têm valor jornalístico apenas quando acabaram de acontecer, ou quando não foram noticiadas previamente.

Artigo é um texto eminentemente opinativo, mais que informativo, publicado numa secção destacada do conteúdo noticioso, para enfatizar que se trata de material não-jornalístico. Contêm comentários, análises, críticas, contrapontos, e às vezes ironia e humor.

Crónica é um texto efémero escrito para ser publicado num jornal. Tem semelhanças com a Notícia, no entanto, depois de focar o acontecimento, o cronista dá-lhe um toque próprio, incluindo no texto elementos como ficção, fantasia e criticismo. Pode-se situá-la entre o Jornalismo e a Literatura.

Conto é uma forma narrativa, em prosa, de curta extensão que se caracteriza pela concisão, precisão, densidade, e unidade de efeito ou impressão total: o Conto deve causar no leitor excitação e emotividade.

Novela é uma narração em prosa com uma maior economia de recursos narrativos que o Romance e um maior desenvolvimento de enredo e personagens que o Conto. Em regra toda a acção acompanha a trajectória de um único personagem.

Romance: obra literária de ficção em prosa, que cria e insere em espaços, ambientes e intrigas, personagens dotadas de diferente densidade psicológica

Com a excepção das Notícias, todas as prosas devem ser assinadas.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Galiza

O objectivo principal e fundamental do Grupo de Bailes e Música Tradicionais Xacarandaina é a investigação do folclore de Galiza, procurando não o desvirtuar em nenhum dos seus detalhes. Formou-se em Outubro de 1978 na cidade da Coruña.

Deslumbrou-me em 199... num Festival de Folclore. Entendo este Baile e esta Festa.!

domingo, 9 de novembro de 2008

Versos de Pé Quebrado




















“Não deixemos que a verdade estrague uma boa história”.
Esta contaram-me há mais de 20 anos, e à força de a repetir, foi-se afeiçoando às minhas necessidades.

O cenário é Odivelas/Alentejo em meados do Século XIX, no tempo em que as distâncias se mediam pelo passo dos muares.

Em eleições, o candidato junta o povo no largo da aldeia. São poucos e agrupam-se em círculos críticos para ouvir palavras em que descrêem, enquanto murmuram a dureza da vida e o desterro da aldeia.

Entendem-no a tracejado, e só a pergunta final atirada para o seu meio, os faz mudar de pé e levantar a cabeça. “O que é que vocês querem para a aldeia, que eu, se for eleito…?”

Depois, um intervalo, um engolir de saliva, e uma voz de mulher cansada de carregar água à bilha, a assomar a medo numa ponta: “Queremos uma fontiii!”

“Uma ponte?”, diz o candidato, a dar resposta à ideia que já levava. “É isso mesmo. Se eu for eleito, a Câmara faz aqui uma ponte!”, e no meio dos aplausos dos correligionários, assume-se a obra.

O Gaitinha ainda questionou para o lado: “Uma pontiii? mas p’ra qué ca gentii quer uma pontiii, sa gentiii, nem rio teim?”, mas o Chicharo, que já via as suas mulas a carregar pedra para a obra, sobrepôs-lhe: “Faça-se a pontiii, c'o rio logo aparéciii!”

A obra fez-se, e no dia da inauguração, após os foguetes e para memória futura, ouviram-se os versos:

Graças a Deus já tem
Odivelas sua pontiii
E uma estalagem defrontiii
P'ra quem de carrêra
Lá for pernoitari
Sem p’rigo de se afogari
Na “ribêra”

Marcada de quina a quina
Toda fêta de pedra fina
E “marmii

Sê mestre que a fez
Capitão d’engenharia
Do seu ofício porcebia
A valerii

E se houver algum penetrante
Que também quêra falari
É tempo de se achegari
E diga.
(inauguração da ponte, 1865)
A versão “mais oficial” pode ser lida aqui.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

África























Paulina Chiziane
(1955- …), escritora moçambicana, in "O Alegre Canto da Perdiz".

...
Para os jovens, o futuro é melhor que o presente. Para os velhos, o passado é sempre melhor que o presente.

As mães gostam de dar aos filhos nomes de família. Nomes de passageiros, de vagabundos. Tudo começou no princípio. Vieram os árabes. Os negros converteram-se. E começaram a chamar-se Sofia, Zainabo, Zulfa, Amade, Mussá. E tornaram-se escravos. Vieram os marinheiros da cruz e da espada. Outros negros converteram-se. Começaram a chamar-se José, Francisco, António, Moisés. Todas as mulheres se chamaram Marias. E continuaram escravos. Os negros que foram vendidos ficaram a chamar-se Charles, Mary, Christian, Joseph, Charlotte, Johnson. Baptizaram-se. E continuaram escravos. Um dia virão outros profetas com as bandeiras vermelhas e doutrinas messiânicas. Deificarão o comunismo, Marx, marxismo, Lenine, leninismo. Diabolizarão o capitalismo e o ocidente. Os negros começarão a chamar-se Iva, Ivanova, Ivanda, Tania, Kasparov, Tereskova, Nadia, Nadioska. E continuarão escravos. Depois virão pessoas de todo o mundo com dinheiro no bolso para doar aos pobres em nome do desenvolvimento. E os negros chamar-se-ão Soila, Erica, Tânia, Tatina, Sheila. Receberão dinheiro deles e continuarão escravos.
Os aventureiros entrarão e sairão como quem entra na chuva e não se molha. Línguas nossas? Aprenderão apenas os sons. Nomes? Invocarão alguns. Crenças? Profanarão todas as nossas. Nós aprendemos tudo: árabe, português, francês, inglês, norueguês, russo, alemão e tantas outras desconhecidas. E continuaremos escravos. Faremos guerras uns contra os outros. Matar-nos-emos. Elegeremos presidentes. Golpearemos presidentes. Mataremos presidentes. Ergueremos bandeiras. Mudaremos bandeiras, hinos e símbolos. E continuaremos escravos.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O meu "EU" feminino

Chico Buarque d' Hollanda (Rio de Janeiro, 1944 - ...): musico do importante.
Moldou-me o som, o feminino e talvez ... o estar...

Os meus respeitos!

Com açucar, com afecto. (Nara Leão)

Teresinha Oh Pedaço de Mim! (Zizi Possi) Folhetim (Gal Costa)

domingo, 2 de novembro de 2008

O Internamento e os Idosos


Oh Mãããããããããeeeeeeeeeeeiiiii! Oh minha mãããããeeeeeeeeiiiii!

É assim dos 4 aos 70 anos, nas aflições, já que ultimamente tenho ouvido cada vez menos o “Aqui, del Rei!” dos antigos.

Ter a saúde mental suficiente para entender a dinâmica de uma Enfermaria Hospitalar é um acaso, quando a doença nos atormenta e as décadas se somam.

Uma cama estranha, os banhos, pensos, injecções, sondas e as medições várias vezes ao dia são uma violência, que só a esperança da recuperação justifica.
A agressão que o Hospital condiciona é muito superior ao incómodo dos gritos, insultos, “patadas” e mordidelas sobre o Pessoal de Saúde, principalmente quando há desatenção nas palavras, actos e omissões, e se ultrapassa a tolerância.

Mas isto nada tem a ver com Má Educação.

sábado, 1 de novembro de 2008

Queixinhas





Na matemática da vida, um problema tem várias soluções. Em muitos deles a nossa atitude é determinante no resultado final.

Para os que aguardam que alguém lhos resolva favoravelmente, deixo esta musiquinha de 1958.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Agressões

















Agressão Física: constrangimento exercido sobre uma pessoa para a obrigar a fazer ou a deixar de fazer um acto qualquer;
Assédio moral: exposição de trabalhadores a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções.
Assédio sexual: coerção de carácter sexual praticada por uma pessoa em posição hierárquica superior em relação a um subordinado, normalmente em local de trabalho ou ambiente académico. Ao assédio sexual está subjacente ameaça, insinuação de ameaça ou hostilidade contra o subordinado.

Konrad Z. Lorenz (1903 - 1989) foi um zoólogo, psicólogo animal e ornitólogo austríaco, premiado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1973 devido aos seus estudos sobre o comportamento animal, a Etologia.
Escreveu em 1963 o livro On Aggression, traduzido para português com o título “Agressão: uma História Natural do Mal”, onde explica o comportamento agressivo dos animais e por analogia o dos homens.

Quem lida com pessoas e as atende em situações críticas tem de estar preparado para a eventualidade de um comportamento agressivo.


Empolar os pequenos acidentes ou confundi-los com agressões - é ... doença.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

É só facilidades























- Oh Doutor! Podia receitar um xarope para a tosse da minha sogra, que anda encatarrada há mais de uma semana!
- Oh Sr. Arquitecto! Podia podia-me fazer uns riscos para um anexo!
- Oh Sr. Engenheiro! …

e lembro a conversa entre o escritor António Lobo Antunes (ALA) e o “leitor” Gonçalo M. Tavares (GMT) na Visão Nº816

GMT: Uma pessoa é convidada para falar meia hora e, em Portugal, isto é visto como se…(Como se não valesse nada.)
Há uma desvalorização da palavra. E sobretudo da palavra oral.
ALA: Na Alemanha, tudo isso é pago. Aqui, à excepção dos amigos, não falo de borla para ninguém. Nem pensar. E a quantidade de vezes que me pedem para «escrever qualquer coisa»? Escreva aí qualquer coisa, umas palavrinhas para um livro meu, umas palavrinhas para aqui e para acolá.
GMT: É engraçado isso de escrever num instante. Vamos imaginar que se escreve um texto em 20 minutos. A questão é que não são apenas aqueles 20 minutos, a questão é: quem é que paga os 40 anos que a pessoa esteve a ler?
ALA: Exactamente o que aconteceu com o Picasso quando lhe perguntaram quanto tempo é que ele demorava a pintar um quadro. E ele respondeu: o tempo que demorei a pintá-lo mais todos os anos da minha vida.
GMT: Há um chupismo, um vampirismo horrível. Para os outros, parece sempre que é fácil.
ALA: As crónicas que escrevo para a VISÃO não dão trabalho nenhum, mas perco sempre um dia. E, depois, como é voltar ao ritmo do livro? E não se trata apenas de pagar aqueles textos, que são piscinas para crianças, têm sempre pé e água a dar pela cintura.



Que fácil é achar que é fácil o trabalho dos outros!

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Os Anónimos


Do Dicionário - Pasquim: "sátira afixada em lugar público ou posta em circulação clandestinamente; jornal ou folheto que difama".

Pasquino é a mais famosa das estatuas parlantes de Roma, transformada em figura característica da cidade entre os séculos XVI e XIX.

A estátua é, na realidade, um fragmento de uma obra grega, provavelmente do século III a.C. Representa um guerreiro heleno. Esteve soterrada até ser encontrada em 1501 numas escavações, e ser colocada no lugar que hoje ocupa, na Piazza di Pasquino, não longe da Piazza Navona.

Foi o Cardeal Oliviero Carafa, que inadvertidamente lhe deu a sua primeira voz ao vesti-la como uma divindade clássica e ao pendurar-lhe uma pequena descrição numa cerimónia em honra de S. Marco no dia 25 de Abril de 1501.

Desde então a estátua serviu de suporte a dísticos e notícias onde clandestinamente se denunciava a insatisfação com aquilo que se considerava prepotência do Governo ou da Igreja (principalmente dos Papas que chegaram a ameaçar com pena de morte os autores desses textos).

O nome Pasquino foi-lhe atribuído pelo povo de Roma, provavelmente em memória de um alfaiate desbocado, que teria a sua oficina junto da estátua.

Agora os Pasquins reproduzem-se na Blogosfera.
Qualquer um, a coberto do anonimato, pode difamar, inventar factos, empolar a sua pequena verdade, armar-se em defensor dos oprimidos, outorgar-se em representante de um qualquer grupo, proclamar honestidade e o que mais se lembre, que ninguém com juízo o irá contestar.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A Esperança














Depois de vencer a guerra com o seu pai Cronos, Zeus decidiu povoar a terra e deu aos titãs Prometeu e seu irmão Epimeteu a tarefa de criar os seres vivos.


Epimeteu, que significa "ideia que surge depois do acto" encarregou-se da obra e Prometeu, que significa "premeditação", de supervisiona-la depois de pronta.

Epimeteu atribuiu a cada animal diferentes qualidades (coragem, força, rapidez, sagacidade, asas, garras, carapaça protectoras, etc...) e quando chegou a vez de criar o homem, que deveria ser superior a todos os outros animais, gastara todos os seus recursos. Pediu então ajuda a Prometeu que colocou o homem na posição bípede, lhe deu uma Moral e o domínio sobre o fogo, que foi roubar aos deuses.

Zeus jurou vingar-se. Primeiro sobre a humanidade, e depois sobre Prometeu, e criou algo de muito perigoso, que deleitava os olhos pela suavidade e beleza, pois todos os deuses lhe concederam dons: Pandora (dádiva de todos) foi a primeira mulher.

Hefestos moldou a sua forma a partir de argila, Afrodite deu-lhe beleza, Apolo o talento musical, Deméter ensinou-lhe a colheita, Atena deu-lhe habilidade manual, Poseidon deu-lhe um colar de pérolas e a certeza de não se afogar, e Zeus deu-lhe uma caixa, a Caixa de Pandora, que continha todos os males que poderiam atormentar o homem.

Prometeu sabendo da ira de Zeus, recusou Pandora, mas Epimeteu aceitou-a.

Quando esta abriu a caixa e viu todos os males saírem, fechou-a rapidamente mas só conseguiu reter lá dentro aquele que iria acabar com a Esperança, único bem que continua a ser o conforto da humanidade nos momentos de infortúnio.


Mais tarde Zeus ordenou que Prometeu fosse acorrentado a um rochedo do Cáucaso, onde todos os dias um abutre se ia alimentar do seu fígado.

Só então surgiram os Vendedores de Esperança que subrepticiamente infiltraram a Política, a Religião e a Saúde.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Singeverga



Abençoai-nooooos!
Os olhos de todos esperam em vós, Senhooooor!
E vós nos dais os alimentooooooos,
Em tempo oportuuuuunuuuuuuu!

Pai Nosso que estais no Céu …
Santificado seja ….
E seja ….
Ass
Co…



Aáaaaaaaaméeeeeeeeeeeeeennnnnnnnnnnnnn!

e este Ámen polifónico, arrepiava os meus 23 anos!

Era assim o início do almoço e do jantar no refeitório do Mosteiro de Singeverga, quando uma ferradura de 50 frades Beneditinos cantava, circundando a mesa dos hóspedes. Depois um silêncio até se ouvir a voz sumida de um noviço a ler a Bíblia.
Éramos 4: um padre libanês, um beato que não falava com ninguém, o JMMAF e eu, que me espantava com a bondade daquela regra que os obrigava a cuidar de nós como se de Cristo se tratasse.

Foi a aflição de um exame e os frangos que o avô de um amigo lhes comprava para o Supermercado, que puseram o Mosteiro no meu caminho.

No primeiro dia aprendi o sino. No segundo a estar só com os livros e as canetas. No terceiro o licor e os cânticos gregorianos que me chegavam pelo telhado da Igreja para amenizar as pancreatites, as litíases, os tumores e todos os sofrimentos possíveis das miudezas que o Prof. Joaquim Bastos me iria perguntar. O silêncio da noite deu-me a dimensão de pequeno bicho.

Entendi a clausura e o som da música, mas não entendi o Deus e os seus pecados, nem as palavras que lhe dirigiam.
Já entendia a vida como uma luta para persistir para além de si e não como um deslumbre pelo Criador.

Ficou-me uma saudade daqueles espaços e uma ideia vaga de um local para o fim dos dias!

Nós vos agradecemos Senhooooooooor!
Todos os vossos benefícios, e os alimentoooooooooos!
Que por Vossa bondade nos concedêeeeeeestes!
Dêmos Graças a Deeeeeeeeeeeeeuuuuuuuus!

Cantava-se no fim da refeição…
… mas o polifónico do “Deeeeeuuuusss”, dissonava mais que o meu sentir permitia!

domingo, 19 de outubro de 2008

Compaixão



Compaixão é um desejo de aliviar ou minorar o sofrimento de outra pessoa, bem como demonstrar especial gentileza com aqueles que sofrem.
É difícil assumir algumas profissões se não se tem Compaixão.
Na área da Saúde é fundamental, para lidar com quem perdeu (ou nunca teve) capacidades, e lhes dar a dignidade de ser humano.
É a Enfermagem Hospitalar que recruta o maior número. Sobressaem por “não se dar por eles”, pois quem mais os valoriza são os beneficiários da sua oportunidade e diligência.

Os médicos aplicam soluções técnicas e aguardam os resultados e, embora o humanismo deva ser um pilar na sua formação, é-lhes possível, em algumas áreas, solucionar problemas mal conhecendo os doentes, coisa impossível na actividade do enfermeiro de cabeceira.

Compaixão como caminho para o reconhecimento público, parece-me má opção.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Noticiário











Hoje pelas 18 horas, teve lugar no átrio norte da Casa do Cabo em Carreço, uma cerimónia para atribuição de mais um Diploma de Final de Curso.
Estiveram presentes representantes da Administração, colegas de profissão, funcionários da empresa e vários populares, que num ambiente festivo se congratularam com este sucesso.

A Dona Lala de Menezes, natural de Vitorino das Donas, adquiriu por mérito próprio o reconhecimento desta comunidade, ao ficar Aprovada com Distinção no Exame Prático de desalmar um Mus Musculus, deixando poucos resíduos no ambiente de trabalho.

Assistiram a esta Prova, o Administrador, um popular e uma funcionária.
No final, a recém-diplomada foi muito cumprimentada, abandonando de imediato a alegre confraternização que se prolongou pela noite dentro.
A empresa conta agora com duas funcionárias neste tipo de actividade.

No discurso final, o administrador chamou a atenção para a necessidade de formação dos actuais funcionários em desalmação de Talpa europaea, Nematocera e Stomoxys calcitrans, lembrando que a actual política de contenção orçamental impede novas contratações.

Nota: Mus Musculus (rato doméstico), Talpa europaea (Toupeira), Nematocera (mosquito) e Stomoxys calcitrans (mosca de gado).

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Saber ler
























Perceber o que se lê, não é fácil. Implica ser capaz de sintonizar o autor.
Somos feitos de experiências diversas e atribuímos significados às palavras que nem sempre são universais.
Depois há a pressa de ler em segundos um texto que demorou dias a ser publicável.
Quanto tempo terá demorado António Gedeão a dar forma e som a estes “Dez reis de esperança”?

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

e ... lê-se em 30 segundos.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O Doutor No








Vestia a bata, punha o estetoscópio ao pescoço, mas a mente fugia-lhe para as tácticas, as contratações, os golos e os árbitros.
A Volta, o Hóquei e o Futebol distraíam-no do Hospital, sem que por eles mais tivesse feito, que umas assinaturas a licenciar a prática, e umas colunas quinzenais no Jornal local para criticar, com linguagem arrevesada, o desempenho das equipes da terra.

Era alto e calvo. Caminhava com passos largos, simulando uma diligência que nunca teve, mas que lhe permitia iludir os incautos.
Justificava o ordenado com cumprimentos, conversas de circunstância e idas voláteis às enfermarias, para escrever nos processos “mesmo estado” e os poucos medicamentos que ainda conhecia o nome.

Vivia escondido na responsabilidade dos outros e na ineficiência das direcções, e só ganhava visibilidade quando a sua omissão motivava acções de recurso: hoje um pedido de observação por outro médico, amanhã um familiar a “exigir Alta” para reentrar noutra cama.

Um dia uma enfermeira alertou-o:
- “Oh Dr. No, o doente da cama 3 tinha uma lombriga na cama. Deve tê-la vomitado!”
- “Está bem!”, respondeu e, de imediato, escreveu na folha de terapêutica:
- “Dar remédio das bichas!”
A enfermeira surpresa com o texto, escreve a vermelho sobre ele: “Qual?”
No dia seguinte, o Dr. No, lê e por baixo completa: “Qualquer um!”

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Nuno Lobo Antunes



Eu gosto de ler Contos: textos curtos, espoados do supérfluo e com movimento ascendente desde a primeira frase.
Iniciei-me com Torga e deliciei-me com Mia Couto e António Lobo Antunes (Crónicas).
Neste livro - "Sinto Muito", Nuno Lobo Antunes conta-nos as fragilidades da vida humana e da arte médica na óptica de um Neuro-Pediatra.

sábado, 4 de outubro de 2008

Namoro



Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando
de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas

Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seus seios, laranjas - laranjas do Loje
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigenia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei á Avo Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, á porta da fabrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbudo, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"-Não viu...(ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

Para me distrair
levaram-me ao baile do Sô Januario
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso
as moças mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim !"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.

Letra de Viriato Clemente da Cruz (1928-1973), nasceu em Porto Amboim (Angola). Música de Carlos Fausto Bordalo Gomes Dias, (1948 - ...), nasceu em Vila Franca das Naves (Portugal).

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Arvorados



É necessária humildade para ouvir uma ajuda à decisão. Mas, há que ter sempre atenção à credibilidade de quem fala, pois em qualquer lugar surgem os “arvorados”: construtores civis arvorados em engenheiros, farmacêuticos em médicos, médicos e engenheiros em arquitectos etc ... que, por terem decorado cinco ou seis fluxogramas decisórios, se sentem seguros de um conhecimento que não detêm.

A credibilidade conquista-se ao longo de uma vida de empenho e perde-se num instante.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Receita de Mulher



AS MUITO FEIAS que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
(ou então,
Que a mulher se socialize elegantemente em azul como na República Popular Chinesa)
Não há meio termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Se tenha a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflicta e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um rosto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhem com uma certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca húmida) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que os seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal.
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37º centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do 1º grau. Os olhos que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com o seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder a sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efémero e eu sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável
Vinicius de Moraes - 1969

Foi ele quem me criou esta ilusão de mulher que usei durante metade da minha vida! Obrigado!

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Agostinho Moreira














Agostinho Moreira, escultor em Madeira e Mármore, nasceu na Cidade de Lagoa Formosa (Estado de Minas Gerais - Brasil) em 1960.

Sabia que dentro das pedras, estavam rostos de mulher e alguns pássaros e por isso veio para a terra do mármore, quando aos olhos lhe subia o sangue do coração.

Depois, farto de tanta fome, voltou ao berço e perdeu-se no matagal, deixando por aqui um pouco da sua memória.

Há 2 anos, a mão de um amigo levou-me ao seu atelier, de onde trouxe estas 3 meninas e deixei lá este pássaro abandonado.