sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Agressões

















Agressão Física: constrangimento exercido sobre uma pessoa para a obrigar a fazer ou a deixar de fazer um acto qualquer;
Assédio moral: exposição de trabalhadores a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções.
Assédio sexual: coerção de carácter sexual praticada por uma pessoa em posição hierárquica superior em relação a um subordinado, normalmente em local de trabalho ou ambiente académico. Ao assédio sexual está subjacente ameaça, insinuação de ameaça ou hostilidade contra o subordinado.

Konrad Z. Lorenz (1903 - 1989) foi um zoólogo, psicólogo animal e ornitólogo austríaco, premiado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1973 devido aos seus estudos sobre o comportamento animal, a Etologia.
Escreveu em 1963 o livro On Aggression, traduzido para português com o título “Agressão: uma História Natural do Mal”, onde explica o comportamento agressivo dos animais e por analogia o dos homens.

Quem lida com pessoas e as atende em situações críticas tem de estar preparado para a eventualidade de um comportamento agressivo.


Empolar os pequenos acidentes ou confundi-los com agressões - é ... doença.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

É só facilidades























- Oh Doutor! Podia receitar um xarope para a tosse da minha sogra, que anda encatarrada há mais de uma semana!
- Oh Sr. Arquitecto! Podia podia-me fazer uns riscos para um anexo!
- Oh Sr. Engenheiro! …

e lembro a conversa entre o escritor António Lobo Antunes (ALA) e o “leitor” Gonçalo M. Tavares (GMT) na Visão Nº816

GMT: Uma pessoa é convidada para falar meia hora e, em Portugal, isto é visto como se…(Como se não valesse nada.)
Há uma desvalorização da palavra. E sobretudo da palavra oral.
ALA: Na Alemanha, tudo isso é pago. Aqui, à excepção dos amigos, não falo de borla para ninguém. Nem pensar. E a quantidade de vezes que me pedem para «escrever qualquer coisa»? Escreva aí qualquer coisa, umas palavrinhas para um livro meu, umas palavrinhas para aqui e para acolá.
GMT: É engraçado isso de escrever num instante. Vamos imaginar que se escreve um texto em 20 minutos. A questão é que não são apenas aqueles 20 minutos, a questão é: quem é que paga os 40 anos que a pessoa esteve a ler?
ALA: Exactamente o que aconteceu com o Picasso quando lhe perguntaram quanto tempo é que ele demorava a pintar um quadro. E ele respondeu: o tempo que demorei a pintá-lo mais todos os anos da minha vida.
GMT: Há um chupismo, um vampirismo horrível. Para os outros, parece sempre que é fácil.
ALA: As crónicas que escrevo para a VISÃO não dão trabalho nenhum, mas perco sempre um dia. E, depois, como é voltar ao ritmo do livro? E não se trata apenas de pagar aqueles textos, que são piscinas para crianças, têm sempre pé e água a dar pela cintura.



Que fácil é achar que é fácil o trabalho dos outros!

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Os Anónimos


Do Dicionário - Pasquim: "sátira afixada em lugar público ou posta em circulação clandestinamente; jornal ou folheto que difama".

Pasquino é a mais famosa das estatuas parlantes de Roma, transformada em figura característica da cidade entre os séculos XVI e XIX.

A estátua é, na realidade, um fragmento de uma obra grega, provavelmente do século III a.C. Representa um guerreiro heleno. Esteve soterrada até ser encontrada em 1501 numas escavações, e ser colocada no lugar que hoje ocupa, na Piazza di Pasquino, não longe da Piazza Navona.

Foi o Cardeal Oliviero Carafa, que inadvertidamente lhe deu a sua primeira voz ao vesti-la como uma divindade clássica e ao pendurar-lhe uma pequena descrição numa cerimónia em honra de S. Marco no dia 25 de Abril de 1501.

Desde então a estátua serviu de suporte a dísticos e notícias onde clandestinamente se denunciava a insatisfação com aquilo que se considerava prepotência do Governo ou da Igreja (principalmente dos Papas que chegaram a ameaçar com pena de morte os autores desses textos).

O nome Pasquino foi-lhe atribuído pelo povo de Roma, provavelmente em memória de um alfaiate desbocado, que teria a sua oficina junto da estátua.

Agora os Pasquins reproduzem-se na Blogosfera.
Qualquer um, a coberto do anonimato, pode difamar, inventar factos, empolar a sua pequena verdade, armar-se em defensor dos oprimidos, outorgar-se em representante de um qualquer grupo, proclamar honestidade e o que mais se lembre, que ninguém com juízo o irá contestar.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A Esperança














Depois de vencer a guerra com o seu pai Cronos, Zeus decidiu povoar a terra e deu aos titãs Prometeu e seu irmão Epimeteu a tarefa de criar os seres vivos.


Epimeteu, que significa "ideia que surge depois do acto" encarregou-se da obra e Prometeu, que significa "premeditação", de supervisiona-la depois de pronta.

Epimeteu atribuiu a cada animal diferentes qualidades (coragem, força, rapidez, sagacidade, asas, garras, carapaça protectoras, etc...) e quando chegou a vez de criar o homem, que deveria ser superior a todos os outros animais, gastara todos os seus recursos. Pediu então ajuda a Prometeu que colocou o homem na posição bípede, lhe deu uma Moral e o domínio sobre o fogo, que foi roubar aos deuses.

Zeus jurou vingar-se. Primeiro sobre a humanidade, e depois sobre Prometeu, e criou algo de muito perigoso, que deleitava os olhos pela suavidade e beleza, pois todos os deuses lhe concederam dons: Pandora (dádiva de todos) foi a primeira mulher.

Hefestos moldou a sua forma a partir de argila, Afrodite deu-lhe beleza, Apolo o talento musical, Deméter ensinou-lhe a colheita, Atena deu-lhe habilidade manual, Poseidon deu-lhe um colar de pérolas e a certeza de não se afogar, e Zeus deu-lhe uma caixa, a Caixa de Pandora, que continha todos os males que poderiam atormentar o homem.

Prometeu sabendo da ira de Zeus, recusou Pandora, mas Epimeteu aceitou-a.

Quando esta abriu a caixa e viu todos os males saírem, fechou-a rapidamente mas só conseguiu reter lá dentro aquele que iria acabar com a Esperança, único bem que continua a ser o conforto da humanidade nos momentos de infortúnio.


Mais tarde Zeus ordenou que Prometeu fosse acorrentado a um rochedo do Cáucaso, onde todos os dias um abutre se ia alimentar do seu fígado.

Só então surgiram os Vendedores de Esperança que subrepticiamente infiltraram a Política, a Religião e a Saúde.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Singeverga



Abençoai-nooooos!
Os olhos de todos esperam em vós, Senhooooor!
E vós nos dais os alimentooooooos,
Em tempo oportuuuuunuuuuuuu!

Pai Nosso que estais no Céu …
Santificado seja ….
E seja ….
Ass
Co…



Aáaaaaaaaméeeeeeeeeeeeeennnnnnnnnnnnnn!

e este Ámen polifónico, arrepiava os meus 23 anos!

Era assim o início do almoço e do jantar no refeitório do Mosteiro de Singeverga, quando uma ferradura de 50 frades Beneditinos cantava, circundando a mesa dos hóspedes. Depois um silêncio até se ouvir a voz sumida de um noviço a ler a Bíblia.
Éramos 4: um padre libanês, um beato que não falava com ninguém, o JMMAF e eu, que me espantava com a bondade daquela regra que os obrigava a cuidar de nós como se de Cristo se tratasse.

Foi a aflição de um exame e os frangos que o avô de um amigo lhes comprava para o Supermercado, que puseram o Mosteiro no meu caminho.

No primeiro dia aprendi o sino. No segundo a estar só com os livros e as canetas. No terceiro o licor e os cânticos gregorianos que me chegavam pelo telhado da Igreja para amenizar as pancreatites, as litíases, os tumores e todos os sofrimentos possíveis das miudezas que o Prof. Joaquim Bastos me iria perguntar. O silêncio da noite deu-me a dimensão de pequeno bicho.

Entendi a clausura e o som da música, mas não entendi o Deus e os seus pecados, nem as palavras que lhe dirigiam.
Já entendia a vida como uma luta para persistir para além de si e não como um deslumbre pelo Criador.

Ficou-me uma saudade daqueles espaços e uma ideia vaga de um local para o fim dos dias!

Nós vos agradecemos Senhooooooooor!
Todos os vossos benefícios, e os alimentoooooooooos!
Que por Vossa bondade nos concedêeeeeeestes!
Dêmos Graças a Deeeeeeeeeeeeeuuuuuuuus!

Cantava-se no fim da refeição…
… mas o polifónico do “Deeeeeuuuusss”, dissonava mais que o meu sentir permitia!

domingo, 19 de outubro de 2008

Compaixão



Compaixão é um desejo de aliviar ou minorar o sofrimento de outra pessoa, bem como demonstrar especial gentileza com aqueles que sofrem.
É difícil assumir algumas profissões se não se tem Compaixão.
Na área da Saúde é fundamental, para lidar com quem perdeu (ou nunca teve) capacidades, e lhes dar a dignidade de ser humano.
É a Enfermagem Hospitalar que recruta o maior número. Sobressaem por “não se dar por eles”, pois quem mais os valoriza são os beneficiários da sua oportunidade e diligência.

Os médicos aplicam soluções técnicas e aguardam os resultados e, embora o humanismo deva ser um pilar na sua formação, é-lhes possível, em algumas áreas, solucionar problemas mal conhecendo os doentes, coisa impossível na actividade do enfermeiro de cabeceira.

Compaixão como caminho para o reconhecimento público, parece-me má opção.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Noticiário











Hoje pelas 18 horas, teve lugar no átrio norte da Casa do Cabo em Carreço, uma cerimónia para atribuição de mais um Diploma de Final de Curso.
Estiveram presentes representantes da Administração, colegas de profissão, funcionários da empresa e vários populares, que num ambiente festivo se congratularam com este sucesso.

A Dona Lala de Menezes, natural de Vitorino das Donas, adquiriu por mérito próprio o reconhecimento desta comunidade, ao ficar Aprovada com Distinção no Exame Prático de desalmar um Mus Musculus, deixando poucos resíduos no ambiente de trabalho.

Assistiram a esta Prova, o Administrador, um popular e uma funcionária.
No final, a recém-diplomada foi muito cumprimentada, abandonando de imediato a alegre confraternização que se prolongou pela noite dentro.
A empresa conta agora com duas funcionárias neste tipo de actividade.

No discurso final, o administrador chamou a atenção para a necessidade de formação dos actuais funcionários em desalmação de Talpa europaea, Nematocera e Stomoxys calcitrans, lembrando que a actual política de contenção orçamental impede novas contratações.

Nota: Mus Musculus (rato doméstico), Talpa europaea (Toupeira), Nematocera (mosquito) e Stomoxys calcitrans (mosca de gado).

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Saber ler
























Perceber o que se lê, não é fácil. Implica ser capaz de sintonizar o autor.
Somos feitos de experiências diversas e atribuímos significados às palavras que nem sempre são universais.
Depois há a pressa de ler em segundos um texto que demorou dias a ser publicável.
Quanto tempo terá demorado António Gedeão a dar forma e som a estes “Dez reis de esperança”?

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

e ... lê-se em 30 segundos.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O Doutor No








Vestia a bata, punha o estetoscópio ao pescoço, mas a mente fugia-lhe para as tácticas, as contratações, os golos e os árbitros.
A Volta, o Hóquei e o Futebol distraíam-no do Hospital, sem que por eles mais tivesse feito, que umas assinaturas a licenciar a prática, e umas colunas quinzenais no Jornal local para criticar, com linguagem arrevesada, o desempenho das equipes da terra.

Era alto e calvo. Caminhava com passos largos, simulando uma diligência que nunca teve, mas que lhe permitia iludir os incautos.
Justificava o ordenado com cumprimentos, conversas de circunstância e idas voláteis às enfermarias, para escrever nos processos “mesmo estado” e os poucos medicamentos que ainda conhecia o nome.

Vivia escondido na responsabilidade dos outros e na ineficiência das direcções, e só ganhava visibilidade quando a sua omissão motivava acções de recurso: hoje um pedido de observação por outro médico, amanhã um familiar a “exigir Alta” para reentrar noutra cama.

Um dia uma enfermeira alertou-o:
- “Oh Dr. No, o doente da cama 3 tinha uma lombriga na cama. Deve tê-la vomitado!”
- “Está bem!”, respondeu e, de imediato, escreveu na folha de terapêutica:
- “Dar remédio das bichas!”
A enfermeira surpresa com o texto, escreve a vermelho sobre ele: “Qual?”
No dia seguinte, o Dr. No, lê e por baixo completa: “Qualquer um!”

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Nuno Lobo Antunes



Eu gosto de ler Contos: textos curtos, espoados do supérfluo e com movimento ascendente desde a primeira frase.
Iniciei-me com Torga e deliciei-me com Mia Couto e António Lobo Antunes (Crónicas).
Neste livro - "Sinto Muito", Nuno Lobo Antunes conta-nos as fragilidades da vida humana e da arte médica na óptica de um Neuro-Pediatra.

sábado, 4 de outubro de 2008

Namoro



Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando
de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas

Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seus seios, laranjas - laranjas do Loje
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigenia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei á Avo Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, á porta da fabrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbudo, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"-Não viu...(ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

Para me distrair
levaram-me ao baile do Sô Januario
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso
as moças mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim !"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.

Letra de Viriato Clemente da Cruz (1928-1973), nasceu em Porto Amboim (Angola). Música de Carlos Fausto Bordalo Gomes Dias, (1948 - ...), nasceu em Vila Franca das Naves (Portugal).

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Arvorados



É necessária humildade para ouvir uma ajuda à decisão. Mas, há que ter sempre atenção à credibilidade de quem fala, pois em qualquer lugar surgem os “arvorados”: construtores civis arvorados em engenheiros, farmacêuticos em médicos, médicos e engenheiros em arquitectos etc ... que, por terem decorado cinco ou seis fluxogramas decisórios, se sentem seguros de um conhecimento que não detêm.

A credibilidade conquista-se ao longo de uma vida de empenho e perde-se num instante.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Receita de Mulher



AS MUITO FEIAS que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
(ou então,
Que a mulher se socialize elegantemente em azul como na República Popular Chinesa)
Não há meio termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Se tenha a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflicta e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um rosto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhem com uma certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca húmida) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que os seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal.
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37º centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do 1º grau. Os olhos que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com o seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder a sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efémero e eu sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável
Vinicius de Moraes - 1969

Foi ele quem me criou esta ilusão de mulher que usei durante metade da minha vida! Obrigado!

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Agostinho Moreira














Agostinho Moreira, escultor em Madeira e Mármore, nasceu na Cidade de Lagoa Formosa (Estado de Minas Gerais - Brasil) em 1960.

Sabia que dentro das pedras, estavam rostos de mulher e alguns pássaros e por isso veio para a terra do mármore, quando aos olhos lhe subia o sangue do coração.

Depois, farto de tanta fome, voltou ao berço e perdeu-se no matagal, deixando por aqui um pouco da sua memória.

Há 2 anos, a mão de um amigo levou-me ao seu atelier, de onde trouxe estas 3 meninas e deixei lá este pássaro abandonado.